domingo, 31 de agosto de 2008

OTÁVIO BONFIM - SOB O OLHAR DE UMA FAMÍLIA

Para a entrada em cena da família Gurgel Carlos, podemos considerar o ano de 1946. Quando o jovem Luiz, da família Carlos da Silva, que havia recém-fundado o seu Instituto Padre Anchieta, no bairro Otávio Bonfim, e a sua aluna Elda, uma prendada moça da família Gurgel Coelho, que já morava nesse bairro de Fortaleza, foram ambos atingidos pelas setas de Cupido. Daí advindo que, no ano seguinte, o casal contraísse núpcias e fosse fixar residência na rua Justiniano de Serpa, onde já funcionava o citado instituto educacional.
Dos treze filhos gerados pelo casal, os nove primeiros receberam as boas-vindas neste modesto imóvel de dupla finalidade; os quatro últimos, numa casa (enfim) própria, para onde a família se mudou em 1958, situada na rua Domingos Olímpio, nas proximidades da estação ferroviária do bairro. Só muito adiante, em 1996, com vários de seus integrantes já casados e/ou residindo em outros bairros e em outras cidades, foi que o núcleo da família se transferiu de Otávio Bonfim.
Feitas as contas, conclui-se que o bairro Otávio Bonfim e a família Gurgel Carlos mantiveram um consórcio que durou meio século. Com Dores e Amores de permeio. E de que restaram muitas e muitas reminiscências, aqui reavivadas e transformadas em livro por Marcelo, da família Gurgel Carlos. No qual nossos ascendentes, os vizinhos e amigos, os tipos pitorescos da época e nós mesmos somos os seus personagens reais; no contexto de um bairro chamado (não oficialmente) de Otávio Bonfim com seus logradouros, suas moradias, sua igreja (com os franciscanos frades de origem alemã) e sua estação ferroviária.
Baseado em fatos vivenciados e levantados (porém, cuidadosamente conferidos) por Marcelo, que escreve em estilo claro e apurado, o livro é um repositório de informações sobre o bairro e sobre a nossa família. A se juntar – com destaque – a outros títulos, como “Anos Dourados em Otávio Bonfim...”, de Vicente Moraes, “Frei Lauro Schwarte...”, de Marcelo Gurgel, “Dos canaviais aos tribunais...”, organizado por Marcelo e Márcia Gurgel (sobre a vida de nosso pai), entre as obras que privilegiam, do ponto de vista historiográfico, o bairro Otávio Bonfim e a família Gurgel Carlos.

Escrito por mim para orelha do livro "Otávio Bonfim, das Dores e dos Amores - Sob o olhar de uma família", de Marcelo Gurgel. Texto também publicado no blog "Linha do Tempo".

sábado, 30 de agosto de 2008

NOSSOS MOMENTOS

O médico psiquiatra Wellington Alves de Souza, natural do Crato - CE, publicou em 1988 o livro de poesia "Nossos Momentos". Com esta obra, Wellington completou uma trilogia que havia iniciado em 1981, com "Momento de Tempo", e continuado em 1984, com "Outros Momentos".
Nas três obras, a presença da palavra momento(s)! Por ser a poesia, como lembrou o contista Moreira Campos na apresentação do livro, "um instante, um momento, uma centelha, uma visita". E que, por isso, como também complementou, ela (a poesia) "será sempre realizada num íntimo compromisso ou preocupação com o eterno".
Em "Nossos Momentos", a convite de Wellington escrevi uma das abas do livro. É o texto que acabo de inserir no Preblog. E a médica e poeta Aline de Moraes fez o texto da outra aba. Nas útimas páginas do livro, Adísia Sá e Eudoro Santana deram seus depoimentos sobre o autor. E o artista plástico Mino assinou a bela capa de "Nossos Momentos".
Aqui aproveito para dizer que Wellington é irmão do empresário Edmilson Alves de Souza, de quem eu já era amigo. Publicando, durante anos, o informativo mensal "A Ferragista" (uma espécie de house organ de seu grupo empresarial), que reservava espaço para assuntos diversos, Edmilson se destacou como um grande incentivador das artes no Ceará.
Foi nas páginas do informativo de Edmilson que eu dei os meus primeiros passos de escrevinhador.

Na galáxia dos livros brilha mais uma estrela. "Nossos Momentos", que Wellington Alves vem de publicar, por ser inteiramente impossível para o autor não partilhar conosco a sua rica cosmovisão. Na qual consciência não é ornamento, é ação. Ação que intenta reorganizar o homem, a sociedade para o seu grande destino. Por conseguinte, é o homem a sua confissão (malgrado o que disse Terêncio a respeito do ser humano). Arco de pura sensibilidade, o autor transpõe para o falar poético o cotidiano, a turbulência de existir, o tédio, a morte, a vivência psicanalítica, o sentimento da amizade, a esperança... e o amor à sua companheira, Fátima, "o ombro mais buscado". Do que resultam poemas de extraordinária oralidade, como se feitos para um jogral. Ou para que o solo de um violão lhes dê o contraponto. Além de tudo, Wellington é solidário com a vida em sua totalidade;na dor (o vitimário das arenas burguesas), mas também na alegria, na beleza e na liberdade. Este último sentimento, por sinal, tem feito dele um globe-totter e um poeta engajado na grande causa socialista. De ambos os ofícios, ao que parece, o autor de "Nossos Momentos" obtém a renovável força ("Aquela Criança em Acapulco...") para o cantar libertário. Axé para você, poeta.

sábado, 23 de agosto de 2008

A COR DO FRUTO

Em 1986, um jovem chamado Fernando Novais, então com 22 anos, nascido na cidade de Jardim e que cursava Odontologia na UFC, estreou literariamente no Ceará com um livro de poesia, "A Cor do Fruto".
Eu o havia conhecido nos circuitos boêmios de Fortaleza, algum tempo antes. Em 1985, talvez. Lembro-me de que gostava de MPB e de que vinha também fazendo poemas para um livro.
Senti-me lisonjeado no dia em que ele, ao me passar os originais de "A Cor do Fruto", pediu-me fizesse eu uma apreciação a respeito. A qual foi parar numa das orelhas do livro, ao ser este impresso. E que, agora, a coloco nesta postagem do Preblog
Nesse livro de poesia, considero que andei em excelentes companhias. Com Carlos D'Alge, que o prefaciou, e com Joaryvar Macedo que escreveu a outra orelha.
(Por falar em Fernando Novais, onde andará o amigo poeta?).

Não pretendo, neste espaço disponível, realizar uma análise estilística acabada da poética de Fernando Novais (FN), em "A Cor do Fruto", obra literária que ora se materializa. Meu propósito, bem mais modesto, é chamar a atenção do leitor para certos aspectos da técnica literária que o autor emprega neste livro, assim como para o seu temário.
1 - o som: de seus versos de metro espontâneo. Além de rimas FN usa, à saciedade, outras combinações sonoras como o eco e a aliteração. Linguagem sendo igual à massa sonora. Deste modo, frases e palavras são sacrificadas no altar da metáfora. O nocional pelo imagístico. É o perde-ganha da poesia.
2 - a denúncia: sobre o mundo desigual, o pensamento automatizado, a guerra, os seres sem pretexto, a inanição do sentimento, a hipocrisia etc. Usando apenas de expressões contidas (e evitando o chamado "texto sujo"), FN "dá uma geral" sobre a vida, seu balanço canhestro. E suas conclusões são irônicas e, por vezes, imprevisíveis.
3 - o ludismo: de quando o poeta cultua o instante, o descompromisso, o aqui-agora. & brinca com a ambigüidade das palavras & revisita os adágios já gastos & revolve o cancioneiro patropi. De quando o poeta, anarquicamente quase, cola os fragmentos de sua mundivivência. Coisa com qualquer loisa. & a geléia é geral.
4 - o corpo: "mais uma necessária montaria / do que ideal companhia", tal como é rotulado pelo poeta. Que, como qualquer homem, sofre as agruras da condição humana (ser matéria descartável é uma delas). Contudo: haverá um "eu" eterno, aderido ao "eu" percível? Não sei a resposta definitiva. Só sei que FN, vez por outra, bota as asas de "anjo contrário" e... ganha altura.
Não existe arte senão para outro e por outrem. Saboreemos, pois, as essencialidades de "A Cor do Fruto", de Fernando Novais.

domingo, 10 de agosto de 2008

EM BUSCA DE POESIA

PROEMIAL

Há janelas abertas no telhado por onde entram luzes. Do sol, da lua e das estrelas. Quando::: Actéon ousa ver Diana, a Caçadora. Ela, porém, encontrando-se desvestida, não gosta e faz mágica má. Act contínuo, Éon vira cervo e é perseguido por feroz matilha. Morre. Cervo ou servo, Lady Di não o quis. E, para gregos, romanos e bárbaros, expli::: citou::: que o banho de uma deusa é (para ser) indevassável.
(O vate o que mora numa água-furtada - há janelas abertas etc - sabe esta e outras estórias. Que sabem a plenilúnios.)

+

O livre o desabrido. O que vigia dourados trigais. O que ninguém consegue pegar a unha NEM à espora - galo.
Quando o olho clarear será aurora.
E::: das cinzas faz-se a (outra) ave, desiludida tão. Recompondo-se como há séculos há seculórios aprendera de sacerdotes, em Mênfis.
É-lhe imanente a memoração. Porque os grilhões do DNA.
Ave, ave. Só a engenharia genética, um dia, vos dará as exatas asas para o vôo libertário.

+

Como é bom tocar um clavicórdio! Aquele um.
Bailam Maries, Amandas e Yolandas. Bailam dançarynas de/os traços mais fugidios. Por seus rostos não se lhe adivinham as máscaras.
A dança é breve, é. Enquanto seu yang/sangue ferve por vós.
Cortai para::: uma cinelândia-fantasma de gentes que não dançam mais, que não dançam, que não, que::: a memória é urna cinerária.
Bye, bye larinas.

+

Andar ilho andar ilha.
O rio circular o que margina a ilha é Uroboros, a serpente que morde a própria cauda. Da esmeralda é sua cor.
Quando ele o rio encrespa a superfície / & ela a serpente, a pele / ::: aí tendes vagas ((intransponíveis)) vagas. E a solidão do mundo no próprio mundo.
O ser insular o gnomo da hexacorália.
Morreis muitos em Uroboros, suas estremeções periódicas.

+

Quanta coisa se irisa diante de mim!
Ou::: mais alucynações. Sois cavilosa, ó ânfora etrusca.

+

O deserto por palmilhar. Mas o que é o deserto senão a orla de um oásis?
Irei convosco, pois. Seremos dromômanos, manos sob o olhar complacente dos djins de fogo. Suportaremos manos, nós, o peso das mochilas, fardos da temporalidade. E deixaremos profundas, fundas pegadas na vastidão arenosa, que o vento, acumpliciando conosco, por certo não as apagará.
Assim, saberão os pósteros que estivemos aqui, ali / & ontem, hoje / em busca do poema, seus mananciais.
Porque amanhã em Aldebarã, a estrela.

Escrito para prefácio do livro "Em busca de poesia", de Dalgimar Beserra de Menezes, que foi publicado em 1985.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

MÉDICOS ESCRITORES E ESCRITORES MÉDICOS

Livro que reúne mais de cem autores, entre médicos escritores (que fazem literatura) e escritores médicos (autores de livros de medicina), que foram graduados pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.
Foi uma edição comemorativa dos cinqüenta anos da FMUFC, que contém, em sua primeira parte, dados biográficos dos autores e, na segunda parte, uma antologia de textos.
Livro organizado pelo médico Geraldo Bezerra da Silva, por indicação do médico e professor José Murilo Martins.
Integra a Coleção Alagadiço Novo cujo Conselho Editorial, em 1998, era composto por Francisco Carvalho, José Murilo Martins e Geraldo Jesuíno da Costa
Apresentação: João Maia Nogueira
Capa: Assis Martins
Editoração eletrônica: Carlos Alberto Dantas
Imprensa Universitária, 1998
180 páginas

Participo deste livro com meus dados biográficos nas páginas 55 e 57 e com o poema "Descubram seus rostos" e o conto "Ponto e vírgula" nas páginas 157 e 158, respectivamente.