quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

POEMA ANTIESPORTIVO

E foi tudo pra nada:
O passe recebido
O drible aplaudido
A zaga deslocada.

E foi tudo pra nada:
O pique empreendido
O guardião batido
A meta escancarada.

E foi tudo pra nada:
O chute esfusiante
A rede de barbante
Com a bola encaçapada.

E foi tudo pra nada:
O urro, o murro ao vento
A façanha do tento
A torcida ouriçada.

E foi tudo pra nada:
O heróico gol de placa
Se o teu time, ó panaca
É o pior da temporada.

domingo, 21 de dezembro de 2008

VAN GOGH

Van Gogh, pintor holandês
Desconcertado, uma vez
Teve uma bem estrambótica
Idéia -  a ver com a óptica
Confusa na qual se via
Uma carcaça sem valia.
Então, insano pensar!
Decidiu ele amputar
Uma das orelhas suas.
(E pinçou uma das duas
Para passar o cutelo.)
Depois, achando-se belo
Pintou um auto-retrato
Na verdade, um caricato
A que faltava algo vivo:
O pavilhão auditivo
Que ficou com a sina torta
De ser... natureza-morta.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O "SONHO" DA MEZALÂNDIA

A Geometria nos fala de um cone de revolução, um sólido que é produzido pela rotação de um triângulo retângulo em redor de um dos lados do ângulo reto. E a Ciência Política nos ensina que a América Latina, em sua parte meridional, também tem o seu cone de revolução (ou de revoluções, já que são tantas, meu Deus).
Pois bem, está aí a Mezalândia que não me deixa mentir. Que está de gobierno novo, e cujo presidente acaba de anunciar que "o país vai entrar firme no mercado externo".
- Pode-se saber... com qual produto?
- Com o de sempre, o "sonho".
- Fazendo propaganda para incrementar a venda, imagino.
- Não, é o contrário. Aqui o segredo é a alma do negócio.
- E quem vai garantir uma operação comercial nessa condição?
- O General-Presidente, claro. Quem pode o mais, pode o menos.
- Está se referindo à revolução que ele fez?
- Que ele fez, com o respaldo popular. Pois antes ele ouviu seus parceiros de bridge, seu ajudante-de-ordens e sua esposa. Depois, pensou longamente por uns dois minutos e, abençoado pela nossa padroeira Santa Rita de la Cochabamba, só então decidiu.
- A seguir, em seu discurso de posse, ele calou fundo na alma do povo ao denunciar "os grandes males nacionais".
- Foi engano. Ele leu, por distração, a carta-renúncia do presidente deposto.
- Bem, voltando ao assunto do início, o "sonho". Ouvi dizer que toda a sua produção já está apalavrada com os compradores do exterior.
- É verdade. Não há "sonho" por aqui que já não esteja transformado em pasta, sua forma de exportação.
- A propósito, você fez me lembrar de que não temos a figura do ministro sem pasta.
- Lógico. Todos eles, o General-Presidente e seus ministros, estão perfeitamente sintonizados com o modelo da nossa 205ª revolução.
- Agora, uma pergunta final. Como vai ficar o consumo interno desse produto?
- Não se aflija. Teremos pesadelo de sobra nos próximos anos.

ZÉ BRASIL (ESQUETE)

O pano é aberto.
Mostra um cenário "hollywoodiano" - apenas no calendário da parede (merchandising da Souza Cruz). É o interior de um humilde barracão, pois.
Há a movimentação de dois personagens. Um, que atende pelo nome de Zé Brasil (em verdade, este pouco se movimenta; limita-se a dar gemidos pungentes numa cama), e outro, que representa a sua esposa, D. Esperança.
Alguém sopra dos bastidores:

Começa, ô panaca!
ZÉ BRASIL
Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, oi.
(Esta última interjeição não foi um gemido e sim uma saudação que ele endereçou a um terceiro personagem que penetrou no recinto.)
O novo figurante faz o médico. É um tipo gorducho, de óculos, que lembra o Dr. Sardinha da televisão, que lembra o... Bom, deixa pra lá.
(Na sua direção, aflita, corre D. Esperança.)
D. ESPERANÇA
Dr. Golfinho, meu esposo agoniza.
DR. GOLFINHO (pegando o pulso do paciente)
Calmaí... Quando começou a doença dele?
D. ESPERANÇA
Tem andado doente há alguns anos. Nos últimos tempos, esteve sob os cuidados de Dr. Henrique Simão que o proibiu de beber. Mas, ontem, após receber o seu mês de INPS, gastou o dinheiro todo na cachaça.
DR. GOLFINHO
Hum... deixe-me ver... Deve ter bebido meio litro de aguardente.
D. ESPERANÇA
Por aí, doutor. Então, quando acordou da bebedeira, elezinho falou de uma dor no umbigo e se pôs a gemer.
Dr. Golfinho passa a examinar o abdome do enfermo. Nesse ínterim, o contra-regra entra no palco para retirar um samovar - utensílio russo que não se coaduna com a ambientação da peça. E, concluída a apalpação diagnóstica, abre a sua maleta para pegar um frasco de remédio. O que faz com um sorriso de satisfação: sorriso gordo, com os dois queixos de gordo.
DR. GOLFINHO (mostrando "eucaristicamente" o frasquinho)
Pronto, minha senhora.
D. ESPERANÇA (esperançosa)
O remédio age logo?
DR. GOLFINHO
Antes de lhe dar a resposta, me dê uma informação. Vocês têm filhos?
D. ESPERANÇA
Netos também, doutor.
DR. GOLFINHO
Ótimo! E agora lhe respondo... que o medicamento tem ação imediata. Mas, antes de ministrá-lo, a senhora tem que agitar o frasco por uns quarenta anos. Comece agora. Vai servir para o Zé Brasil Neto.
Vendo o público enfurecido, Dr. Golfinho retira-se apressadamente. Nada tem de heróico o mezinheiro.
Cai, por enquanto, o pano.

(escrito em 1980, revisado em 2008)