segunda-feira, 27 de julho de 2009

O BINGO DAS PEDRAS FRIAS

Os três comparsas estavam reunidos na casa de pasto do Bucho de Lama. Os três eram Armandinho, Honorato e Claudionor, figuras por demais conhecidas no bairro pelas peças que viviam aprontando. E Bucho de Lama , que com eles parolava, acabara de lhes dar o sinal verde. Na noite de sexta, o grupo pudesse contar com as dependências do restaurante para o evento. Eles não se afastassem, porém, daquilo que tinha sido esquematizado num guardanapo de papel, ali no balcão.
Com um balcão, onze ou doze mesas de fórmica com as respectivas cadeiras, o restaurante nos últimos tempos vinha se despovoando. E, nos fins de semana, oh, dor maior! Ao se constatar que a frequência ao mesmo não passava de uns gatos pingados bebericando no balcão, algum grupo em torno de um violão na mesa embaixo da castanholeira... ("Peraí", restaurante ao ar livre na periferia desta cidade sem um pé de castanhola não existe.) E todos bebendo, bebendo, mas indiferentes aos odores da mão-de-vaca que fervilhava num panelão da cozinha.
O plano consistia do seguinte: os três organizariam o bingo de um peru assado, ficando eles com a renda dos cartões vendidos. E Bucho de Lama, com a renda - que se antevia considerável - das bebidas, dos tira-gostos... Mas, porque o chamassem à cozinha, o proprietário não ouviu o resto da conversa. O capítulo em que os cupinchas planejaram: 1) furtar o peru (comprá-lo, estreitaria bastante a margem de lucro); 2) fraudar o bingo (para que a papação da ave fosse feita por eles, naturalmente). E, daí, a dúvida histórica: acaso tivesse tomado conhecimento de tais nefandas intenções, o velho Bucho teria ainda cedido a casa para a promoção? Seja como for, estás dispensado da peruação, leitor.
O lance de furtar o peru. Encarregar-se-ia do furto o Honorato, mas devidamente alertado para não reincidir em erro anterior. Um erro relacionado com a expropriação de uma galinha do quintal de D. Maju, quando ele então deu bobeira. Por ter deixado, depois que comeu a ave, as penas cadavéricas em seu lixo pessoal, e este, ao ser revolvido pelas mãos indignadas de D. Maju, revelar a seguir o que acontecera. E aí, embora pudesse ainda negar o crime, Honorato, diante de uma conta apresentada pela vetusta senhora, novamente bobear. Ao sair-se com esta: "O quê?! Quinhentos cruzados por aquela galinha velha e dura?!" Quer dizer, sujou.
O lance de fraudar o bingo. Nenhum deles poderia aparecer como promotor do evento, muito menos dizer o bingo. Ia aparecer marmelada explícita. Aí, Armandinho ficou de abordar Amiltão, o dono de um fusca adaptado para divulgações sonoras; Claudionor, de convidar Moleza para mestre de cerimônias do sorteio. O Moleza podia. Integrava a turma, mas não bebia do licor de pera e, por isso, não tinha uma imagem desgastada perante o grande público. Agora, como seria a burla. Um pouco antes de ser chamado o bingo, um grupo muito especial de pedras se submeteria a um processo de resfriamento num depósito de isopor com gelo. Exatamente as pedras que, quando fossem retiradas do saco pelos dedos termossensíveis do Moleza, fariam bater um cartão também muito especial - em poder da trinca.
E chega a sexta-feira. Com o velho Bucho a correr de uma mesa para outra, bamboleando o grande e mole abdome (que justificava o apelido). A limpar, a todo instante, as entradas da fronte (ainda não era calvo) de um farto suor, resultante este do grande trabalho que o movimento da casa estava a exigir dele. Enquanto, no palco improvisado, através de um sistema de som (do tempo em que a casa oferecia seresta), Moleza ia dando o recado. De raro em raro, sacando uma pedra que não tinha nada a ver, mas só... para não dar na vista. A seu lado, à contemplação de todos, e envolto em papel celofane vermelho, achava-se o assado e por suposto bem temperado peru.
De olho no prêmio, a trinca marcava o cartão. Sob a copa da castanholeira, numa mesa já abarrotada de cascos da cerveja consumida. E, ainda, a fazer gracinhas do tipo:
- Balança o saco, pô.
- Ei, esse não...
E riam-se dos chistes proferidos. Até que souberam de um fato pouco animador: o Amiltão recém se mandara depois de embolsar o apurado com a venda dos cartões. O estipêndio da Amiltão Divulgadora, deixara recibo. E, agora, Armandinho, Honorato e Claudionor? Na pindaíba em que se achavam, era tentar junto ao velho Bucho a "pendura" de mais uma cervejada - mas, isso, só depois. Porque o cartão, que estava prestes a ser batido, iria certamente lhes dar ensejo a uma grande "deglu-glutição".
Era apenas o Moleza pegar a última pedra fria, e pronto! Mas, diabos, lá estava ele a sacar toda uma sequência de números que não constavam do cartão. E, ainda, a desperdiçar o tempo com derivações: "22, dois patinhos na lagoa... 1, ronco do porco... 33, idade de Cristo... 90, nas ventas... 44, quaquaquá..." Tudo bem que se quebre a monotonia do sorteio, mas desafiar a Termodinâmica, com suas leis implacáveis, é que não! E, como exemplar lição, ofereça-se à vista de todos o caso vertente, em cujo final se deu a" melódia". Assim que o Moleza gritou: "18, dos outros..."
Bateu o cartão J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O CETRO

Há muito tempo, quando a China não era um só país, uma de suas províncias era governada por um rei muito estimado por seu povo. Chamava-se Liang, rei da província de Liang-Ming. De seu trono de fino lavor, ele atendia incansavelmente aos súditos que o procuravam. A uns, dando sábios conselhos, a outros, aplicando a justiça salomônica (mutatis mutandis), e a todos, enfim, parcelando o imposto a pagar. Nesses múltiplos misteres, era o rei auxiliado por seu grão-ministro Hie-Na.
Abra-se um parêntese para descrever o grão-ministro. Hie-Na não chegara ao alto mandarinato assim por acaso. Em criança, fora companheiro de folguedos de Liang. Depois, graças aos anos em que viveu na Índia, havia reunido uma enorme bagagem de truques engenhosos (considerados por Liang como genéricos dos milagres). E foi por conta desse acervo que Hie-Na chegou a grão-ministro. Cansado já estava o Filho do Céu de ser acusado de milagres em vão prometidos. De modo que, ao fazer de Hie-Na um dignitário, este é que se encarregaria da mistificação. E feche-se a descrição do grão-ministro com outro parêntese.
Em seus aparecimentos públicos o rei não se apartava do cetro, o símbolo de seu poder. Era um cetro que remontava ao fundador de sua dinastia e quem o empunhasse detinha o poder temporal. Somente quando a morte lhe fechasse os olhos é que de suas mãos deveria o bastão real sair. Para as mãos do príncipe herdeiro, evidentemente. E assim a sua dinastia continuaria a varar os séculos. Sucede, porém, que certa noite o rei Liang teve um sonho mau. Assim considerado porque viu ele, naquele sonho, o cetro na mão do rei de uma província vizinha.
Aquele soba! No resto da noite, o rei não conseguiu mais dormir. E, mal o dia amanheceu, ele fez vir à sua presença o seu fiel grão-ministro, de cuja boca tantos conselhos sábios já tinham brotado. Pois bem, germinou mais este (da boca) do grão. O rei, sugeriu ele, deveria partir o cetro em dois para governar apenas com a metade. Quanto à outra metade, guardaria ele, grão-ministro, em local que usurpador nenhum pudesse alcançar. Uma espécie de proteção contra aquele tipo de gente que bota as unhas de fora quando um rei se acha velho e desdentado.
E o rei passou a reinar com meio cetro à vista de todos, mas sabendo todos da existência da outra metade em local patrulhado por dragão. Até que ele teve outro sonho mau. Como na vez anterior, pela manhã ele chamou o grão-ministro aos aposentos reais. E este tornou a sugerir que partisse o meio cetro em dois novos pedaços. O rei Liang reinaria, daí para frente, com um quarto do bastão e ele, grão-ministro, se encarregaria da guarda dos três quartos restantes. Um tamanho mais que suficiente, Vossa Majestade, para o povo saber quem está a governá-lo.
E o tempo foi passando... com o rei outras vezes visitado por seu pesadelo. Até restar em sua mão, muitas partições após, somente uma pequena lasca do cetro. Enquanto isso, colecionava o grão-ministro os pedaços do cetro realmente dito, num local que nem o dragão mais sabia. E já se riam muitos súditos. De início, às escondidas, mas depois, em plena cara real. Que Liang interpretava como sendo risos dirigidos ao bobo da corte. Por suas mal sucedidas tentativas de tirar música soprando num pedaço da flauta de bambu.
Ah!, a história essa roda mendaz... Um dia, ao voltar de uma caçada, o rei teve uma baita surpresa. Ele encontrou o grão-ministro refestelando-se em seu trono de fino lavor e... empunhando o seu cetro. É que Hie-Na, aproveitando-se da ausência do rei, passara da idéia longamente astuciada à ação. E colara à resina os vários fragmentos do cetro em seu poder, de modo a refazê-lo completamente. Ou quase... mas com uma diferença que ninguém notava. Então, disseram todos: Viva Hie-Na, o fundador da nova dinastia!
Ao rei destituído (para quem a roda mendaz girou para trás) restou o caminho do exílio e olhe lá.
Moral da história
Se queres conhecer o vilão, põe-lhe uma vara na mão. Ou um cetro.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A ENTREVISTA DO BOI

A propósito de uma festa popular que, uma vez ao ano, acontece em 22 localidades do litoral catarinense, motivei-me a entrevistar o seu principal personagem, o boi. A Semana Santa já havia transcorrido e, nessa altura do calendário religioso, não mais ia ser fácil achar o propalado personagem. Pelo fato de ele já se encontrar reduzido a um montão de ossos. Então, apelei para uns amigos do Pantanal, um bairro de Florianópolis onde há um "repeteco" da farra do boi. Mais: fazem isto todo fim de semana. E eles, prestimosos, puseram o boi na linha (telefônica, graças a Deus).
Dou nome ao boi: Tatá. Dele ainda arranquei (epa!) outros dados individuais: idade (5 anos, mas não publique isto); raça (guzerá, melhor que anote bovina); religião (budismo mitigado); e passatempo (todos, menos este). Em seguida, a entrevista.

- Já estando escolhido para ser a figura central de uma festa popular, como você se sente?
- Encurralado. Antes me botassem numa tourada ou numa das vaquejadas que vocês fazem aí no Nordeste. Assim, eu não teria uma morte tão humilhante.
- Sente-se, então, como um peru no Natal?
- Sim, guardadas as proporções.
- E... não existe uma maneira de escapar da tortura e da morte que os farristas lhe reservam?
- Só existe uma, bem amaneirada. Transformar-me em boi voador.
- É, mas asinha o prenderiam. Com base numa lei que “manda prender esse boi, seja esse boi o que for”.
- Chicanice.
- Bem, na qualidade de animal totêmico, segundo a antropologia...
- Ora, vão eles amolar... o bode que tem muito mais retorno.
- Porém, há uma corrente de intelectuais que defende a farra. Partindo do princípio de que ela é uma tradição.
- Tudo bem, se eu estivesse no bumba-meu-boi. Mas avise antes... esses zoófobos senhores de que me aguarda o martírio.
- E as autoridades locais nunca tomam uma providência?
- Ah, só têm empurrado o problema com a barriga... verde, aliás. Na ingênua esperança de que os farristas, com o passar dos tempos, abrandem a violência.
- Há rumores de que governador Pedro Ivo acha-se disposto a pegar o boi pelos chifres...
- Epa! Até ele?!
- Quero dizer, o seu governador está a fim de enfrentar o problema para resolvê-lo de uma vez por todas. Nem que tenha de usar a polícia. Que você acha, então?
- Aplaudo-o. Agora, que ele vá conseguir pôr um paradeiro na farra, no aspecto bárbaro da farra, eu não acredito. Brigam policiais e farristas, o evento fica mais animado, mas no fim saio eu esquartejado.
- E... quanto à recente intervenção do Gabeira, do Partido Verde...
- De verde entendo eu que sou ruminante.
- Concordo. Mas o Gabeira disse que a farra é para acontecer mesmo e sem a interferência da polícia.
- Ele, um escritor de tutano, falou isso realmente?
- Não falou só por farra, pois ele se encontrava num palanque.
- “Peraí”. O Gabeira não é aquele que já comeu “carne do boi”?
- Hum... hum...
- Tá explicado agora. Porque o macho vem crepusculando tanto.
- OK, mas agora é tarde para boi... cotá-lo. Ele foi aplaudidíssimo pelos farristas que até lhe prometeram uma farra do boi sem violência.
- Para já?
- Não exatamente. Assim que todos estiverem conscientes de que a violência contra o animal...
- Ora, até lá morre o Gabeira ou o boi. Como não me chamo Ápis nem moro no Egito...
- Já sei. Você acha que morre primeiro.
- Adivinhão. Agora conta outra para eu dormir

quinta-feira, 9 de julho de 2009

NO VELÓRIO, SÓ FINÓRIO

"Onde estiver seu tesouro,
lá deverá estar seu coração."
E. H. Carr

Eta velório para mortal nenhum botar defeito! Falo do velório pedra noventa que fizeram para o comendador Bonifrates, logo que ele bateu as velhas botas. O comendador morrera sem deixar mulher e filhos, mas parentes até do enésimo grau, criaturas dos desvãos do mundo, acorreram em grande número para chorar o seu passamento. Aqui, uma mulher gritava de cortar coração, ali, um homem todo compungido soluçava de dor e, acolá, outra mulher ensopava de lágrimas o ombro alheio. Conjuntivites à parte, as lágrimas rolavam aos borbotões no imperdível velório.
O falecido era o assunto de todas as rodas. E, para assanhar a cupidez geral, os papos iam bater na fortuna que ele presumivelmente deixara. Houve alguém que até estimou o montante de cobres economizados por Bonifrates, à custa de correr atrás dos bondes mas sem pegá-los. Fiu, dentro do espírito de tostão poupado, tostão ganho, só isso já dava uma dinheirama (imaginem o que ganhara de outros modos). Mas aí, surgiu um outro para assegurar que o salto quantitativo na fortuna do comendador se dera justamente quando ele abandonara aquela prática. Para então (epa!) se dedicar a correr na cola dos táxis da cidade, um hábito bem mais rentável.
Pois é, Bonifrates era um gigante da avareza, desses que a gente reconhece pelo dedo. Dedo com unha-de-fome. E, se já para o fim de uma vida de esganação, dele filaram um que outro óbolo para as obras de Santa Engrácia, ora, isso não empanava quase a fama de pão-duro. Ah, o coração mole e dilatado, por vezes abrindo a guarda... Porém, o coração logo, logo se trancando a poder do endógeno digitálico da sovinice, que isso o tranca tinha lá de sobra. E daí, então, por muito tempo, daquela cornucópia não saía uma mísera moeda que não fosse sob a rubrica da agiotagem.
Mas... de que morrera o velho somítico? Segundo a medicina gratuita, de uma pneumonia que ele pegara nas costas. E o que é a morte, meus temerosos leitores, foi o harpagão ceifado por uma doença que a medicina hodierna trata a cascudo. A isso e mais as milhões de unidades da "bolorina" de Alexander Fleming, claro. Entretanto, para este narrador, mais que a pneumonia o que matou Bonifrates foi a sua política de contenção de despesas. Tão rígida que o fez se fiar apenas(mente) no poder curativo das sobras de um frasco de Peitoral de Angico Pelotense. Aliás, sobras que já provinham do tratamento de moléstia assemelhada num tio-avô, falecido com o frasco ainda pela metade. Xaropezinho reincidente, hê, hê...
O caixão - preto com ornatos dourados - de primeiríssima! Com o mesmo balizado por quatro espigados castiçais empunhando as tais velas de alumiar defunto. Ao pé do ataúde, coroas funerárias completavam a "decô". Quanto aos olores, eram tão ativos olores que disfarçavam os miasmas em formação. Dava gosto velar aquele corpo comendatário. Pois, a todo instante, por lá circulavam bandejas com café e vinho licoroso, tabuleiros com doces e salgadinhos... Além de haver uma sortida mesa de frios e, para os bem-espaçados do estômago, a pièce-de-résistance. Que nada faltou ao bom carpidor.
Ah, decerto não era Bonifrates quem financiava o caro funeral. Primeiro, que ele não aprovaria o desperdício, mesmo em se tratando de círio bom, defunto bom. E, segundo, que ele, por estar morto, ficara sem condições de assinar um simples cheque ao portador. De forma que podemos retirar Bonifrates do rol dos suspeitos para substituí-lo por alguns anjos que andavam pelo mundo... Que eram eles os patrocinadores das derradeiras homenagens ao comendador, de olho, porém, naquela jacente herança.
Nesse afã, os anjos não repararam num tipo franzino, de "oclinhos", que circulava por lá com certa desenvoltura. De sua mão direita, pendia uma maleta de cor preta - com que vontade agarrada! Enquanto sua outra mão corria, "pianísticamente", por sobre os tabuleiros das babas-de-moça. Era o advogado do comendador Bonifrates. Um rosto que se abria num sorriso "malúfico" de dissimulação. Porque, leitores, creiam. Naquele velório só ele sabia das extravagantes vontades do comendador, ditadas quando este se achava já nas vascas da morte. Numa carta testamentária bem guardada nos escaninhos de sua maleta.
O segredo, eu conto o segredo como foi: Bonifrates não legou um mísero cobre para ninguém. Deixem que o avarento, para a surpresa dos que conheciam o seu interesse apenas por coisas materiais, estivera nos últimos tempos a estudar o assunto da metempsicose. Indo beber da doutrina da transmigração da alma até no Livro Tibetano dos Mortos. Então, quando pressentiu que a indesejada das gentes se punha a caminho, tomou a providência. Fez-se herdeiro de si mesmo. E deu as condições para ser reconhecido na próxima reencarnação: guri com forte reflexo de preensão palmar, num berço de pau-branco carunchado etc.
É isso. Quem espera por sapatos de defunto a vida toda anda descalço. E nessa história, que acaba aqui, calçado som quem ficou foi o advogado de Bonifrates. Para ele, como paga dos serviços testamenteiros, o comendador lhe deixou umas ações bem ordinárias. da Panair do Brasil.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

OUTRA DO DR. CARTA PÁCIO

Recebo mais uma correspondência do Dr. Carta Pácio, ele desta vez preocupado com o atual sistema de licenciamento de veículos no Brasil. Dou trânsito livre à sua ideia.

"Prezado senhor:
Nestes tempos têm-se detectado um fato relacionado com o grande número de carros em circulação no país, para o qual chamo a sua atenção. A inconveniência de licenciá-los pelo atual sistema alfanumérico, que tem duas letras mais quatro números. Amiúde, veículos distintos recebem placas iguais, o que pode ocasionar transtornos a seus proprietários. Por isso, marcha-à-ré e meia se cogita em mudar o sistema ora usado para outro que corrija a falha.
Trago aqui a minha sugestão. O Departamento de Trânsito continuaria fornecendo os quatro números, os quais seriam pospostos a duas palavras adrede escolhidas. Duas palavras ao sabor da imaginação do proprietário do veículo. De modo a aumentar o número de combinações possíveis e a diminuir a probabilidade de repetição de placas por esse Brasil velho com porteira. E não fica apenas nesta vantagem o sistema que proponho. Apresenta outras, facilmente pressentidas.
Para se comunicar en passant, o motorista da cidade não mais teria de lançar mão dos adesivos de para-brisa. Nem o caminhoneiro, da filosofia de para-choque que fez a glória do Carneiro Portela. Por que já basta de "fofinho", "ando todo arranhado mas não largo a minha gata", "brahmalogia", "o Pluto é filho da pluta"... Fora com tudo isso! Em troca, veríamos chapas assim: GERAÇÃO DOURADA 5913, TÁXI LUNAR 7853, MILHAR FELIZ 1212, PRIMAVERA EMPALHADA 6723...
As placas seriam de maior tamanho, meu prezado senhor. Para prever um PERNAMBUCANO SOLITÁRIO 3171, por exemplo. Mas não chegariam ao tamanho dos outdoors, embora como estes poderiam veicular anúncios ao ar livre. Entretanto, o forte da nova chapa seria divulgar uma posição política (FORA SARNEY 2364), uma confissão (CRISTO SALVA 7291), um atributo da personalidade (FINO TRATO 8734), uma intenção (TENEBROSA TRANSAÇÃO 9541) e um estado d'alma (ALTO ASTRAL 2189) do dono do carro. E agruras para o primeiro manter o segundo circulando (SEGUNDA FAMÍLIA 3728).
E quanto "você sabe com quem está falando?" seria evitado no trânsito nervoso da cidade! Porque as placas dos carros abalroados já falariam, muitas vezes, pelos proprietários. E João não desacataria o dono do Comodoro, placa PAVIO CURTO 9960, Antônio não aplicaria rasteira no dono do Santana, chapa MESTRE BIMBA 8651, assim por diante. E seria fácil anotar a placa LEITURA DINÂMICA 4444, duma Marajó cujo dono fugiu do local do atropelamento sem prestar socorro.
Quanto aos carros oficiais, seriam estes identificados pela inclusão de sinais de pontuação em suas chapas. Como nos exemplos: NUMA BOA... 7529, E DAÍ? 3348 e DANEM-SE! 4879. Sinais que inclusive serviriam para realçar a pronta resposta da autoridade constituída diante de certas perguntas. Saiba como é, meu prezado senhor. Há sempre algum cidadão mais impertinente querendo saber onde foi parar o seu (dele) imposto.
E finalizo esta, com a citação da placa que desde já reservo para o meu carro: NADA CONSTA 0390. Que me livrará para sempre de toda multa. Uma forma de compensar o alcoolismo de um veículo que há tempos me vem combalindo as finanças.
Creia-me seu, sinceramente."
Dr. Carta Pácio

Se a sugestão em tela vai emplacar, ninguém sabe. Mas, ultimamente, noto que o Dr. Carta Pácio tem pendido para a filosofia de que "o bom bocado é também para quem o faz". E, como sempre faço nas cartas que ele me envia, ponho no rodapé desta última o meu acrescento: Sic transit gloria mundi. Querendo significar que a glória do mundo está no trânsito. Axé, Dr. Carta Pácio.
PGCS