sexta-feira, 29 de junho de 2012

DUAS CARTAS DESCARTADAS

UMA ESPÉCIE DE TELE-EXORCISMO
Fortaleza, 8 de janeiro de 1981
Sr. Redator,
Hoje preciso de pouco espaço. O bastante apenas para fazer uma alerta ao povo em geral, a propósito de um deputado que está no pedaço. Ele, o danado, é um especialista em emendas de casuísmo eleitoral.
E o que será que ele assopra por aqui, enquanto respira o bom vento do Aracati?
Por dúvida das vias, o melhor mesmo é que os democratas convictos façam uma corrente mental, nos intervalos comerciais da novela “Coração Alado”, três noites seguidas. Uma espécie de tele-exorcismo.
Quem sabe ele mude de ideia. E passe então a descarregar o seu vezo antidemocrático em coisas que machuquem menos. Como derrubar aviõezinhos de fliperama, por exemplo.

DE COMO SE PROVA QUE MAQUIAVEL NÃO ESGOTOU O TEMA DO MEU PIRÃO PRIMEIRO
Fortaleza, não datada
Sr. Redator,
Coloquemos os cotovelos sobre as mesas; executemos uma sinfonia com copos e talheres; amarremos os guardanapos no pescoço; falemos com a boca cheia; utilizemos os garfos e as facas com as mãos trocadas; joguemos uns nos outros bolinhas de miolo de pão; palitemos os dentes em público; etc. nos próximos dois anos.
O banquete vai continuar: Pintadeaux Flambés au Foie Gras, Saucisses au Vin Rouge, Porc à la Sauce Aigre-Douce, Poisson à l’Estragon, Coquilles Saint-Jacques Frites, Salade de Langouste à La Sauce Verte, Filet Du Boef en Chemise; etc. nos próximos dois anos.
Não deixemos, porém, que as pessoas estranhas à confraria venham beliscar os acepipes, só porque vão pagar a conta; etc. nos próximos dois anos. Elas são tão sem etiquetas, ô Anísio de Sousa.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

DORES DE CABEÇA

Uma mulher de meia-idade foi encaminhada a um psiquiatra por causa de persistentes e incapacitantes dores de cabeça. As dores haviam começado após sofrer um traumatismo craniano do qual se recuperara sem sequelas neurológicas. Exames médicos meticulosos e repetidos não conseguiram mostrar um substrato orgânico que justificasse as dores de cabeça. E isto, juntamente com a impossibilidade de resolver o problema da paciente, vinha provocando uma grande frustração nos especialistas que a atendiam. Até que, considerada como portadora de cefaleia psicogênica, encaminharam-na a um psiquiatra.
Dr. Osmar "por uma psique sem tiques" Peredo, o psiquiatra recomendado. Recém chegado de Buenos Aires, onde se submetera a quatro anos de análise, era um profissional apto à abordagem psiquiátrica da enferma. O período em Buenos Aires, além do conhecimento de técnica psicanalítica, dera-lhe a resignada aceitação do próprio nome. Antes, considerava-se Dr. Osmar um estigmatizado em razão do solecismo que carregava no nome. Mas agora, não. Ele já se conformava em não ser chamado de Omar ou Osmares. E cá o temos a atender a sofredora mulher de meia-idade.
Finda a entrevista, o psiquiatra foi, ahn, pouco animador.
- Devo-lhe uma explicação inicial. A psicanálise, essa ciência do inconsciente, antes de ser tratamento é técnica de interpretação. Procura descobrir o sentido inerente a cada sintoma da esfera psíquica. E a cura, quando acontece, dá-se por acréscimo...
- Mas pretende me curar, não é, doutor?
- Não exatamente. O seu caso é supostamente refratário a tratamentos. Mas lhe ensinarei a conviver com as dores de cabeça.
Insatisfeita com o pouco que a psiquiatria tinha a lhe oferecer, a senhora retirou-se. Todavia, uma semana após, estava de volta ao consultório do terapeuta. Trazia uma informação surpreendente.
- Doutor, talvez nem acredite... Depois de tanto tempo, minhas dores de cabeça estão diminuindo.
- Oh, perdão, rebateu Dr. Osmar. Eu devia tê-la avisado sobre a possibilidade de uma atenuação do sintoma. De caráter temporário, porém.
- Ouça aqui. Estou convencida de que estou melhorando mesmo.
- Claro que não. E, por isso, não convém alimentar falsas expectativas... Antes de tudo, a senhora deve aprender a conviver com a cefaleia. Por isso, retornemos à orientação anterior.
Quando a sessão terapêutica terminou a paciente havia tomado uma resolução. Iria suspender todo e qualquer analgésico (tomava-os com grande frequência) só para provar que o Dr. Osmar estava errado. E, apesar do discurso pessimista do psiquiatra, ficou de retornar.
Na data aprazada, lá estava a senhora a desafiar o analista.
- Estou sem tomar analgésicos e não sei mais o que é cefaleia. Não previu isso, hein, doutor?
- Pois sim. A senhora está se afastando da realidade, tentando se iludir... e isso não ajuda.
E fez questão de agitar no ar a volumosa pasta que continha a história clínica. Sublinhou os pareceres, os exames realizados, as terapêuticas mal sucedidas. Terminando a exposição com esta frase:
- Enquanto a senhora não aceitar que tem uma moléstia incurável, eu não tenho como curá-la.
Foi este o paradoxo que solidificou uma relação médico-paciente que durou décadas. Com a paciente a dizer-se curada e o psiquiatra a mostrar-se inteiramente cético quanto a isso.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

APRECIAÇÃO LITERÁRIA SOBRE "MEMÓRIAS DE BOTEQUIM"

por Paulo Gurgel Carlos da Silva
Airton Monte é um nome em ascensão na literatura cearense. Membro do Grupo Siriará de Literatura, vem tendo uma militância admirável no conto e na poesia. Assim é que já participou de várias antologias, nestes dois gêneros literários ("Ver-de-Versos", uma delas), publicou "O Grande Pânico" (livro de contos com circulação nacional), e, mais recentemente, integra o conselho editorial do Arsenal de Literatura, que acondiciona literatura e artes visuais.
Com mais uma publicação, reaparece Airton: "Memórias de Botequim", um livro de poemas editado pela Imprensa Oficial do Ceará, sob os auspícios da Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará. Uma obra que encerra (ou melhor: descerra) cinquenta poemas de talhes diversos.
"Memórias de Botequim", o título descontraído da obra funciona como uma espécie de cortina de fumaça. Encobre seriedades: DO AUTOR, na eterna busca de reconhecer a si próprio ("vago ser"), no anseio de traduzir para o plano verbal os reclamos de seus "fragmentos corporais" (olhos, mãos, coração etc.); entretanto, longe de ficar numa contemplação estática, ele abre os olhos, prepara os punhos, acelera o coração e energiza-se para bradar, gritar e, enfim, lutar. DO-SEU-UNIVERSO-ALÉM-DA-PELE, quando diz: "Eu, poeta, muito tenho a ver com tudo que me cerca" e, confessando que "ama os malditos", personifica o bêbado, o mendigo, o louco, o suicida, o sonâmbulo, o epiléptico. Interessa-lhe ir além do prazer estético da poesia: chegar à denúncia social. Seu discurso poético é nítido, sem palavras maquiadas e, por vezes, a exorcizar o poeta romântico que um dia foi. Sem aura romântica, sua preocupação maior é agora forjar uma poesia comprometida com a época atual, dita cruel.
O autor tem turbulências, questionamentos. Sobre a poesia ("trabalhinho sujo"): o que fez ela até hoje pela "multidão de deserdados"? Tem medo, angústias, tédios, o renitente conflituar com a vida, esse "ato cruel e necessário". Mas, se a vida é-lhe cruel porque o conduz ao cansaço, à estagnação, à subterraneidade, por outro lado, compromete-se com ela. Com ser Orfeu, reencarnado.
Acima de tudo, Airton tem afetos: Fernando Pessoa, Hemingway, Vinicius, Marilyn, Noel Rosa, James Dean, Garrincha (que o ensinou a sonhar) e, principalmente, sua esposa e filhos. Estes últimos inspiram-no a poemas enternecidos.
Finalmente, deixo que seus versos falem (por mim) na pequena, mas expressiva, seleta que se segue:
"Que poesia é essa que se esvai no copo / presa à mão crispada deste homem meio bêbado?"
"A hora arrasta-se devagar como um enterro / presa à imobilidade de um relógio quebrado."
"Vou catando saudades como quem cata piolhos /na cabeleira do tempo."
"Se existe o medo é porque existem / pessoas dispostas a sentir medo."
"Ninguém deve se atrever a seguir a rota do poema / porque ele está vazando medo e ódio e tédio / neste banquete imaginário em que estou só / discursando para as toalhas e os pratos."
"Me derramo no seu ventre num parto avesso."
"Descobri, por exemplo / que ter 23 anos é como ir morrendo aos poucos / que a manhã afia suas navalhas / no apito renitente das fábricas."
"Um homem esvazia-se como um balão furado / pelos buracos abertos na cabeça."
"Todos os antepassados / estão gritando das fotografias."
"Sei que estou sozinho / feito um pingo de tinta solto num arco-íris."
"Eternamente preso à dúvida atroz / entre o ir e o não-ir / entre explodir o mundo detestado / ou beber como um danado / a mágoa de um tempo inutilmente rápido."
"Súbito um grito: uma nuvem gritou."
"Poder te possuir despudoradamente / como um arado possui a mulher terra."

Publicado em "A Ferragista" de junho de 1981

sexta-feira, 8 de junho de 2012

PRA NÃO CAIR A PETECA

Sr. Redator,
Atualmente, um austero cidadão não pode parar numa banca de revistas sem sofrer constrangimento. Vê-se logo cercado por um assanhado enxame de publicações indecorosas, cujas ferroadas o atingem bem no pundonor.
Dias atrás (só para conferir) resolvi lançar o meu olhar de Santo Ofício em algumas dessas revistas. Quanta concupiscência, meu Deus!
A mais dissoluta delas era, sem dúvida, a "Pato Donald", que mostrava o personagem-título da revista, acompanhado do tio milionário e de seus sobrinhos encrenqueiros, todos eles desnudos ao sul do equador - o bottomless de três gerações, do primeiro ao último quadrinho! E, como se não bastasse, via-se até casos de pura bestialidade. Que nome se pode dar, por exemplo, à paixão da vaca Clarabela pelo cavalo Horácio?
Outra que ia longe na devassidão era a "Geográfica Universal". Trazia reportagens com ilustrações assim: peixinhos ornamentais trocando olhares lânguidos, a ponto de se perceber o que tramavam, os safados... e, ainda, borboletas da ilha de Celebes quentando as asinhas ao sol, as travestidas...
Havia também uma terceira revista, metida a enciclopédia, que, em um só fascículo, eu flagrei as seguintes libidinagens: uma loba romana amamentando em público duas crianças, um obelisco egípcio de conotação fálica e uma "desparreirada" estátua de David em visão frontal.
Prossegui folheando outros títulos: Pernalonga "Gomes", Mônica "Tamancão", Tom "Sado" e Jerry "Maso", e Bolinha "Menina-Não-Entra", tudo, é claro, muito pornô.
Aí, numa medida escapista, fechei os olhos para pôr em off tão nefandas personalidades do mundo-dos-quadrinhos e... pensei naquela que foi a mártir nacional na luta pelos bons costumes: Luz del Fuego. Que ela seja a medianeira de uma esperança minha! A esperança de que o consumo pornográfico tenha já chegado ao ponto de saturação e de que o povo, enfim redimido, volte a vista para publicações mais salutares. Como "Playboy", "Privé", "Lui", "Homem" e "Peteca".
PGCS
Av. Aguanambi, 1953

Publicado em 6 de maio de 1981

sexta-feira, 1 de junho de 2012

TUDO SOBRE O NADA

Oscar Wilde, quando lhe perguntaram o que havia escrito numa manhâ:
- Coloquei uma vírgula.
Ainda ele, quando lhe perguntaram o que havia escrito à tarde:
- Tirei a vírgula.

Ao Rei, nada.
Um exemplo do nada em ação: fazer colher de pau e bordar o cabo.
Alguma coisa tem de existir para que haja o nada.
Zero é melhor que nada.
E o nada é ainda mais nada numa tarde de domingo.

Quotiliquês
Só sei que nada sei (Sócrates).
Definição de nada: é um punhal sem o cabo e sem a lâmina (Barão de Itararé).
Nada a declarar (Armando Falcão).
Se você não tem nada a fazer não venha fazer aqui (Anônimo).


Nada do que foi será de novo o que já foi um dia (Lulu Santos).
Não se afobe não, que nada é pra já (Chico Buarque).
Nada é melhor que a felicidade eterna. Um sanduíche de presunto é melhor que nada. Portanto, um sanduíche de presunto é melhor que a felicidade eterna.(Smullyan)
Continue nadando (Johnnie Swimming).


Charada
Guimarães cita esta adivinhação num de seus contos:
"Melhor que Deus e pior que o Diabo; que o pobre tem e falta para o rico; que morto come e se vivo comer, morre?"
Melhor que Deus, NADA, e pior que o Diabo, NADA; que o pobre tem, NADA, e NADA falta para o rico; que o morto come, NADA, e se o vivo NADA comer, morre