O folclore cearense e o imaginário popular apresentam muitas lendas, algumas de origem rural, outras nascidas no meio urbano, que não deixam nada a desejar às assombrações internacionais.
A MULA SEM CABEÇA DO CERCADO DO ZÉ PADRE
A Mula sem Cabeça (MSC) é uma lenda de origem ibérica (Portugal e Espanha) que foi trazida para a América Latina durante a colonização e se enraizou com mais força no Brasil, onde se tornou uma das figuras centrais do imaginário folclórico.
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A maldição quase sempre está ligada a um relacionamento sexual ilícito de uma mulher com um padre.
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Sua aparência é de uma mula que cospe fogo (pela boca, narinas ou no lugar da cabeça).
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A transformação em mula acontece nas noites de quinta para sexta-feira.
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Deverá vagar eternamente como umaassombração, punindo e aterrorizando os vivos.
Imagem:
representação artística da MSC (Wiki)
Conta Fátima Garcia:
Eis que de uma hora para outra, sem mais nem porquê,
começou a aparecer no Cercado do Zé Padre, aquela região no bairro Farias Brito
que era Otávio Bonfim, por trás da Avenida Bezerra de Menezes, em frente da
Igreja das Dores. Alguns historiadores relatam que foi naquele local que, em
tempos passados, esteve instalado um campo de concentração para receber os retirantes
da seca de 1930, aproveitando a proximidade do abarracamento com a antiga
Estação do Matadouro.
A Mula sem Cabeça, prossegue Fátima Garcia, aparecia
tarde da noite, percorria todo o cercado tocando o terror nos moradores, que
não ousavam pôr os pés fora das casas depois que a noite caía. Vinha sempre em
desabalada carreira, soltando fogo pelo pescoço, para iluminar seus
desventurados caminhos. Contam ainda que a MSC foi uma vingança premeditada
pelo Zé, um dos pioneiros do cercado, que agora via seu pedaço de chão sendo
cobiçado e invadido por novos moradores. O Zé, que de padre não tinha nada,
tinha uma amante, casada, que ele visitava em altas horas. E as oportunas
aparições da mula mantinham os bisbilhoteiros trancados em casa.
https://gurgel-carlos.blogspot.com/2025/11/a-mula-sem-cabeca-do-cercado-do-ze-padre.html
A MULHER CAVALO DE JAGUARUANA
Uma notícia aqui no Ceará diz que uma "Mulher Cavalo"
vem aterrorizando a população da cidade de Jaguaruana.
A estranha criatura, que é sexualmente híbrida, tem
como principal passatempo correr atrás das pessoas nas ruas. Para não correr
riscos, alguns jovens dessa cidade agora só saem das festas em grupos, enquanto
outros nem para as festas vão mais.
A imagem acima é apenas ilustrativa, por ser
improvável que alguém consiga fotografar de verdade a tal "Mulher
Cavalo".
http://blogdopg.blogspot.com/2010/07/mulher-cavalo.html
http://blogdopg.blogspot.com/2018/05/ressurge-mulher-cavalo.html
O CÃO DE ITAOCA
Você já ouviu falar do Cão de Itaoca?
Pois então. Quando a noite caía na Rua Romeu Martins,
era melhor ficar dentro de casa porque ele aparecia. Era um capeta cheio de
atitudes com olhos de fogo, que se instalou na casa de um coronel, onde,
segundo a Gazeta de Notícias de 20/03/41, quebrou o santuário, movimentava as
portas dos armários e punha os talheres para dançar.
Os jornais relataram que, na residência do tenente João
Lima, foram registradas "cenas
impressionantes, cuja significação exterior recorda a atividade de entes
invisíveis". Na casa, um santuário
foi lançado à distância, espatifando-se; houve uma "queda teatral do fogão
da cozinha"; uma "dança dos talheres", pois os utensílios da
cozinha voaram pelos ares; os pratos tiniam; panelas desciam do fogão e rolavam
pelo chão; um vaso se ergueu e foi-se alojar no quintal; e uma toalha passou a
voar "como um tapete mágico" Toda criança de Fortaleza, criada por avó, já ouviu
uma história assim. Entre um café coado e um sinal da cruz, depois de alguns
dias o Cão de Itaoca encerrou sua atuação. Mas botou Itaoca no mapa.
Diz Totonho Laprovitera que, para despachar o tal
capeta, levaram à casa assombrada um macumbeiro do Maranhão e até um padre para
exorcizá-lo. Mas, de nada adiantou. O arcano continuou até que o tempo por si mesmo o aplacasse.
Não se sabe se essa história do Cão da Itaoca foi, ou
não, invenção de alguém. Mas, o certo é que a lenda persistiu por muito tempo
no imaginário do povo de lá.
http://blogdopg.blogspot.com/2026/04/o-cao-da-itaoca.html
O CORTA-NÁDEGAS DO CONJUNTO JOSÉ WALTER
Esta não é uma obra de ficção. Conheça o maníaco que
aterrorizou Fortaleza nos anos 1980. Quem vê as portas e janelas protegidas por
grades de ferro no Conjunto Prefeito José Walter, periferia de Fortaleza - CE,
não imagina que essas grades são tudo o que restou de uma série de
acontecimentos terríveis entre 1984 e 1987.

Lá agiu o Cortabundas, um indivíduo
misterioso que entrava nas casas durante a madrugada, fazia cortes nas nádegas
de mulheres e desaparecia na escuridão. Foram três anos de pavor no bairro,
pois ninguém conseguia descobrir a verdadeira identidade do criminoso. O
maníaco do José Walter ganhou ares de lenda urbana, ao ponto de muitas pessoas
acreditarem que ele nem mesmo existiu. Mas quem morava na área, e
principalmente quem teve as suas casas invadidas pelo Cortabundas, lembra muito
bem de tudo o que aconteceu. Em “Cortabundas – O Maníaco do José Walter”, o
autor Talles Rodrigues, morador do bairro de José Walter desde que nasceu, traz
uma reportagem em formato de HQ que mostra um panorama da região durante a
década de 80, narrando a trajetória do maníaco e a sua própria para entender
esse estranho caso. Uma história de perversão contada em quadrinhos, um
trabalho de jornalismo investigativo que busca na realidade do subúrbio os
relatos das vítimas e de pessoas que queriam apenas dormir tranquilas de noite.
http://painel.livros.leiamais.uol.com.br/uol-livros/cortabundas-o-maniaco-do-jose-walter_14107
Ele não roubava nem tentava matar. Quando encontrava a
vítima, talhava com uma lâmina um corte profundo nas nádegas. Em depoimento,
negou interesse sexual - seu prazer era apenas talhar um corte profundo nas
nádegas da vítima. Tinha, no entanto, uma preferência: atacar esposas que
dormiam ao lado dos maridos. Durante os anos de atuação, dezenas de ataques
foram atribuídos ao Corta-Bundas, mas o criminoso, que sempre reconheceu a
culpa, assumiu apenas dez. Um dia, ele (Evandro Oliveira da Silva, seu nome)
foi reconhecido por uma vítima, que acionou a polícia. O homem foi preso em
1987 e morreu assassinado no antigo presídio Instituto Professor Olavo
Oliveira.
http://www.opovo.com.br/noticias/brasil/2020/11/13/13-historias-assombradas-brasileiras-para-conhecer-nesta-sexta-feira--13.html
http://x.com/opovo/status/1327265945405059072?lang=en
LABATUT (CE/RN)
“Escuta…ele vem na ventania que já se aproxima rugindo! O vento geme longe… ele vem…Ao sair da lua entrará na cidade como um cão danado, devorando tudo que encontrar: homens, mulheres e meninos! Ai do que cair em suas mãos, porque jamais verá os seus queridos entes: irá dormir eternamente em suas entranhas insaciáveis, cheias de fogo!”, escreveu o poeta potiguar José Martins de Vasconcelos.
A criatura medonha a que se refere, segundo contam, vive no fim do mundo, que ninguém sabe bem onde é, mas costuma aparecer é nos sertões de Ceará e do Rio Grande do Norte. É o Labatut, um monstro gigante de patas redondas, cabelos revoltos, mãos compridas e pelos ásperos por todo o copo. No rosto, destacam-se as presas sobressalentes, que ficam para fora da boca, e o olho único no meio da testa. O bicho, como todos os outros, tem hábitos noturnos.
“Escuta…ele vem na ventania que já se aproxima rugindo! O vento geme longe… ele vem…Ao sair da lua entrará na cidade como um cão danado, devorando tudo que encontrar: homens, mulheres e meninos! Ai do que cair em suas mãos, porque jamais verá os seus queridos entes: irá dormir eternamente em suas entranhas insaciáveis, cheias de fogo!”, escreveu o poeta potiguar José Martins de Vasconcelos.
A criatura medonha a que se refere, segundo contam, vive no fim do mundo, que ninguém sabe bem onde é, mas costuma aparecer é nos sertões de Ceará e do Rio Grande do Norte. É o Labatut, um monstro gigante de patas redondas, cabelos revoltos, mãos compridas e pelos ásperos por todo o copo. No rosto, destacam-se as presas sobressalentes, que ficam para fora da boca, e o olho único no meio da testa. O bicho, como todos os outros, tem hábitos noturnos.
Essa entidade folclórica nasceu das memórias que os nativos tinham do General francês Pedro Labatut, quando ele estava lutando contra os rebeldes pela unificação do país, na Guerra da Independência do Brasil. O general não poupou seus oponentes, sendo extremamente violento e muito cruel. Sua forma monstruosa foi adicionada pela imaginação indígena, que era fértil na composição de monstros animalísticos. Busto
do General Labatut, em Salvador – BA
Percorre as cidades em busca de comida quando a lua está no céu, por isso, como escreveu Martins de Vasconcelos, é preciso cuidar do silêncio: “O sair da lua, ele, que anda ligeiro, entrará pelas ruas num trote estugada, pairando às portas para ouvir quem fala, quem canta, quem assobia e quem ressonar alto e zás! Devorar!”
(Leia mais em: https://www.opovo.com.br/noticias/brasil/2020/11/13/13-historias-assombradas-brasileiras-para-conhecer-nesta-sexta-feira--13.html ©2025 Todos os direitos são reservados ao Portal O POVO, conforme a Lei nº 9.610/98.)
O MONSTRO DA ÁGUA VERDE
É uma lenda surgida na década de 1960 em Palmácia, o
município cearense em que os moradores relataram a aparição de uma criatura
aquática no açude Botija, da Fazenda Água Verde.
Testemunhas oculares descreveram-na como tendo a forma de uma tartaruga com chifres, de um lagarto encantado e, ainda, de um boi com um olho só.
A comoção foi tamanha que mergulhos e pescas no açude foram à época proibidos. Centenas de visitantes acorreram ao local, atraindo
também policiais e caçadores que chegaram a atirar a esmo no suposto monstro.
O caso teve repercussão nacional, mobilizando até uma
força especial do DNOCS, armada e treinada para capturar a criatura.
No entanto, contrastando com os relatos lendários,
apenas um jacaretinga de tamanho comum (com 1,6 metro e 32 quilos) foi
encontrado, E as buscas foram oficialmente encerradas.
A história deste monstro inspirou reportagens
publicadas no jornal "O Povo" e na revista "O Cruzeiro".
Até uma cachaça – na época – foi batizada com o nome de “Bicho da Água Verde” e, tempos depois, um forró foi composto em homenagem a ele por Antônio Lincoln Coelho Reginaldo (álbum
"Palmácia, Minha Paixão"). Onde ouvir:
https://youtu.be/v_z9hqb8ZXw?si=3XxoT4wwA5xRmuHj
Consolidando a fama, empalharam-no para que todos o vissem no museu da cidade.
P.S. Equívocos ainda são cometidos por aqueles que, para efeitos de direito, apontam o distrito de Água Verde, em Guaiúba, como tendo sido o domicílio do monstro. Quando ele viveu e morreu de desamor em
Palmácia.
https://www.blitzliteraria.com.br/2026/01/o-monstro-do-acude-botija-da-fazenda.html
http://preblog-pg.blogspot.com/2026/08/lendas-do-ceara.html
(no Preblog)
A PEDRA DA BATATEIRA
A lenda da Pedra da
Batateira, de origem indígena cariri, diz respeito a uma formação rochosa no
município de Crato, no Ceará. A tradição oral afirma que a pedra represa
um manancial subterrâneo e, caso seja removida, rolará e provocará uma grande inundação,
transformando todo o vale do Cariri em um mar. Essa formação está localizada no
Geossítio Batateiras, que faz parte do Geopark Araripe e fica nos limites do
Parque Estadual Sítio Fundão, a aproximadamente 3 km da sede do Crato (imagem).
Diz uma das versões que a
Chapada do Araripe era entrada para um lago encantado, cujo único acesso estava
protegido pela Pedra da Batateira. Assim que este lugar fosse profanado, a
água, jorrando, iria inundar todo o Vale do Cariri e matar a sua população inteira.
Neste tipo de narrativa há elementos indígenas que constam da existência de
“serpentes” e “mães de água” e de forças encantadas, e também elementos de
narrativas cristãs como a ideia do Dilúvio, do Apocalipse e da proteção do
Padre Cícero. Outra versão lendária é a de que os índios vencidos, em lutas anteriores, haviam “encantado” (tampado) a grande nascente da Chapada do Araripe com a Pedra da Batateira, e que as águas acumuladas, no subsolo, acolhiam uma serpente sagrada, que faria deslocar a pedra, e todo o Vale do Cariri seria inundado, e que os índios Cariris voltariam a ser uma nação livre, senhores do mar, viveriam na paz e tranqüilidade de um Paraíso.
A lenda ultrapassou as fronteiras do Cariri, e o cineasta Hermano Penna sustenta a tese de que Antônio Conselheiro, quando se separou de Joana Imaginária, vagava pelos sertões cearenses, tendo trabalhado nos engenhos de rapadura do Cariri, onde certamente colheu os elementos lendários da Pedra da Batateira. Tempos depois, o Conselheiro, seguido pelo grupo de camponeses espoliados dos latifúndios, pregava em pleno sertão da Bahia “que o sertão ia virar mar”. E a profecia se cumpriu.
Canudos hoje está coberto pelas águas, e a barragem de Sobradinho e Itaparica cobriram meio mundo.
E o mito ainda hoje persiste na memória e imaginação do povo, mesclando-se com outras variantes, de tal forma que muita gente adventícia da Paraíba e Pernambuco, de descendência dos índios Cariris, residente em Juazeiro, recusa-se a morar em Crato, temendo a vingança da Pedra da Batateira.
Pesquisas científicas atestam, que há milhões de anos, todo o Ceará, que é murado pelos contrafortes das serras, já foi mar, e um cataclismo telúrico determinou a depressão geológica de que temos o documento sedimentário dos fósseis encontrados no sopé da Chapada do Araripe, e as marcas da erosão nas rochas graníticas e faldas das montanhas, ao embate das ondas revoltas do mar.
Fonte: Armando Lopes Rafael é historiador. Sócio do Instituto Cultural do Cariri e Membro-Correspondente da Academia de Letras e Artes “Mater Salvatoris” de Salvador (BA).