quarta-feira, 30 de julho de 2014

VULCÕES NO BRASIL

Se você depende da crença de que não existem vulcões no Brasil para sustentar algum tipo de ufanismo vai se decepcionar com o que eu vou afirmar. Existem vulcões no Brasil.
Como o Pico do Cabuji, também conhecido como Peito de Moça, que fica no município de Angicos, Rio Grande do Norte. No caminho entre Natal e Mossoró, e há quem diga que ele, com seus 590 metros de altitude, é o verdadeiro Monte Pascoal. Bem, como é um Peito de Moça que já mirrou (desde o Holoceno), é melhor eu seguir viagem.
À ilha de Trindade, que tem numerosos centros vulcânicos. A cerca de 1200 quilômetros da costa do Estado de Espírito Santo, e com íngremes paredões, essa ilha só pode ser visitada de helicóptero. E uma pequena guarnição da Marinha brasileira que vive por lá diz nunca ter visto sinais de atividade vulcânica. Precisaria ter residência fixa na ilha há 40 mil anos para ter pisado na lava ainda quente.
Ah, o Vulcão de Nova Iguaçu! Situado no município de mesmo nome no Rio de Janeiro, este vulcão está completamente extinto. Aliás, pode até não ter existido. As comunidades acadêmicas estão divididas e mantêm há anos acaloradas discussões sobre a realidade do vulcão, indo das placas tectônicas ao fluxo piroclástico. Etc. A mim pouco importa que grupo vá ganhar a contenda, eu não preciso deste vulcão para acendrar (sinônimo de limpar com cinzas) a alma do meu Brasil varonil.
Não muito longe de Nova Iguaçu, mais precisamente na capital do Estado, é onde eu encontro finalmente o meu argumento a fortiori. Ocorre no Rio de Janeiro a maior concentração de vulcões do mundo. A cidade tem centros vulcânicos para islandês nenhum botar defeito. Disfarçados de bueiros da Light, eles explodem a todo instante pela cidade, inquietando a população. E basta uma centelha num desses hot points para garantir a sua ignição.
Ler também: Agora é cinza e Um vulcão sem o guardião.


PS – Surgiu no RJ um movimento para mudar o nome da cidade para "Bueiros nos Ares". FOTOGALERIA

Original: EM, 15/07/2011

quarta-feira, 23 de julho de 2014

LACÔNICAS

1 A história sobre o Dr. Abernethy e uma de suas pacientes é um clássico. Ele era um homem de poucas palavras e a paciente, uma senhora de meia idade, sabia disso.
Entrando em seu consultório, ela descobriu o braço e disse, simplesmente, "queimadura".
"Um emplastro", indicou-lhe o médico.
No dia seguinte, ela retornou, mostrou-lhe o braço e disse "melhor".
"Manter..."
Alguns dias se passaram até Dr. Abernethy vê-la outra vez. Então, ela disse:
"Ótimo. E seus honorários?"
"Nada", respondeu o médico, explodindo numa loquacidade incomum. "Você é a mulher mais sensata que eu já conheci em minha vida!"
(William Walsh Shepard, Handy-Book of Literary Curiosities, 1892)

2 Uma ordem religiosa incluía entre suas exigências o voto de silêncio. Um adepto só podia quebrá-lo uma vez a cada dez anos. Nessa ocasião, ele procurava o superior da congregação, dizia duas palavras e, em seguida, ficava calado por mais dez anos.
Um deles fez as quebras permitidas de silêncio, nas três vezes a que teve direito, com as seguintes palavras: "cama dura", "comida ruim" e "vou embora".
"Vá mesmo, você não se adaptou aqui nestes trinta anos", respondeu-lhe o superior.
Foi uma resposta meio longa para o padrão da ordem, reconheço, mas se tratava de se livrar de um espírito por demais rebelde.

3 Lacônico é o que é dito em poucas palavras, de forma breve, resumida, sintética. Homens de poucas palavras, quase taciturnos e algos rudes eram os antigos habitantes da Lacônia, parte do Peloponeso, de que Esparta era a capital. Diz-se, para exemplificar, que um ateniense enviado como arauto levou-lhes esta advertência: "Se chegarmos a essa cidade, nós a arrasaremos." E a resposta foi meramente esta: "Se..."
(apud Raimundo Magalhães Jr.)

4 Em 1741, Euler chega a Berlim depois de um mês de viagem marítima e terrestre a partir de São Petersburgo para se tornar diretor de matemática na recém-formada Academia de Ciências de Frederico, o Grande. Tendo suportado a intriga política e o regime brutal da Princesa Anna, Euler evitou a cena política ao imergir no trabalho. A mãe de Frederico, Sophia Dorothea, reclamou com Euler porque ele era tão lacônico. A resposta de Euler foi: "Senhora, acabo de chegar de um país onde todas as pessoas que falaram foram enforcadas".
(John Derbyshire, Prime Obsession, p. 59-60)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

GRAVIDEZ DE ALTA DURAÇÃO

A maioria das gestações na espécie humana dura cerca de 9 meses e os médicos decidem induzir o parto se a gestação continua por mais tempo. No entanto, é possível uma mulher permanecer grávida durante um ano inteiro. A mais longa gestação do mundo durou 375 dias e o bebê tinha ao nascer um pouco mais de três quilos.

Gestações de um ano ou mais já deram à luz personagens da mitologia e da literatura. O fato é justificado pela necessidade de a mãe gerar uma obra-prima, muitas vezes destinada a fazer proezas. Com efeito, diz Homero que, tendo Netuno engravidado a Ninfa, esta só deu à luz um ano depois. Como informa Aulo Gélio, tão longo tempo era exigido pela majestade de Netuno, a fim de que o filho fosse formado com perfeição. Pelo mesmo motivo, Júpiter fez durar quarenta e oito horas a noite em que dormiu com Alcmena. Embora aqui se trate de uma fecundação, em menos tempo Júpiter não teria podido forjar Hércules, que limpou o mundo de monstros e tiranos.
Já Gargantua (na gravura acima, de Gustave Doré), personagem principal do romance homônimo de Rabelais, passou onze meses no ventre de sua mãe. E, por causa do inconveniente de ter ela comido tripas quando grávida, é que o bebê Gargantua passou por entre "os cotilédones superiores da matriz, entrou na veia cava e, subindo pelo diafragma até ao alto das espáduas, onde aquela veia se ramifica em duas, encaminhou-se para a esquerda e saiu pelo ouvido".
– Bem, saiu pelo ouvido e quem quiser que conte outra.
Original: EM, 16/06/2011

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A PARÁBOLA DO CHUPIM

O chupim (Molothrus bonariensis) é conhecido pelo hábito de colocar seus ovos nos ninhos de outras aves para que as mesmas possam chocá-los, criá-los e alimentá-los como filhotes. São diversas as espécies de que o chupim se aproveita para essa forma de materno-infantil de parasitismo, mas o tico-tico (Zonotrichia capensis) é a sua vítima favorita.
A vandalização dos ninhos do pequeno tico-tico pelo chupim, caso aquele não atenda aos propósitos deste, é talvez a grande razão para o tico-tico se deixar explorar pelo chupim - sem piar!
CiênciaHoje: os ovos castanhos e maiores são do chupim 
Dentre outras aves de igual sina, o que ainda não se sabia era que o tucano podia ser uma delas. Mas isso aconteceu de fato, uns vinte anos atrás, quando um chupim decidiu botar um ovo no ninho de um tucano-de-bico-duro (Ramphastos nando cardosus). Se bem que um chupim nunca fosse páreo para um tucano, ave maior e que tem um bico que intimida.
Só que esse tucano tinha certas preocupações, como a de um dia poder reinar sobre as demais aves da floresta. Não queria escândalos. Então, entrou em cena a chamada "turma do abafa": dois tucanos - Tucão e Serrão - além de um observador de pássaros, que, a respeito daquela desavença, garantiu o silêncio de si próprio e de seus companheiros de hobby and lobby.
Dentre as providências tomadas, a trinca mandou o inconveniente chupim ir chocar o seu ovo na Espanha.
Que é uma parábola?
É uma narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior.
Quanto custa uma parábola?
Neste caso:
  • A isenção da CPMF para todos os meios de comunicação. 
  • O PROER da Mídia, que custou entre US$ 3 e US$ 6 bilhões aos cofres públicos. 
  • A mudança da Constituição para permitir que a mídia brasileira, então falida, pudesse contar com 30% de capital estrangeiro. 
  • A autorização para que o BNDES fizesse um empréstimo milionário à Globo.
Original: 30/06/2011

quarta-feira, 2 de julho de 2014

GERÔNIMOS

Porque se diz "Gerônimo" quando se pula de paraquedas?
O costume surgiu nos Estados Unidos em 1940.
Um pelotão de paraquedistas do exercito americano teria que fazer uma demonstração de salto, até então inédita, em Fort Benning, Georgia. Seria a demonstração da possibilidade de um ataque maciço de tropas com muitos paraquedistas saltando quase simultaneamente. Para isso, precisariam de muitos paraquedistas, e os saltos teriam de ser feitos rápida e sucessivamente.
No dia anterior à demonstração, alguns soldados estiveram assistindo a um filme de faroeste. Um filme sobre o lendário chefe apache Gerônimo (Geronimo,  de 1939). Estavam todos apreensivos com a missão. Depois de algumas cervejas, o soldado Aubrey Eberhardt, encorajado pela bebida, disse que o salto do dia seguinte seria como outro qualquer.
Os colegas duvidaram da coragem de Eberhardt. E este, injuriado, fez a promessa de que estaria tão tranquilo que ia se lembrar de gritar "Gerônimo!", em alto e bom som, para que todos ouvissem.
De fato, tanto os colegas que estavam dentro do avião, como os que já haviam saltado e estavam por perto, como ainda alguns colegas que estavam em solo ouviram o grito de Eberhardt ao saltar. Ele havia cumprido a promessa e, naquela ocasião, nascia o famoso grito de guerra (e de sorte) dos paraquedistas militares e civis.
Original: EM, 01/06/2013

Porque se escreve "Gerônimo" quando se comunica a morte do inimigo
"Geronimo - EKIA (enemy killed in action)."
Com esta curta mensagem, enviada pelo general Custer para a Casa Branca, um período de dez anos de buscas e repreensões chegou ao desfecho.
O governo dos Estados Unidos conseguiu, finalmente, pegar Geronimo (foto), o lendário chefe apache que tanto aterrorizava o pacífico povo do país.
O índio passara à condição de renegado desde que iniciou uma coleção de escalpos ianques em substituição aos genéricos mexicanos.
Um acordo tácito, que o índio fez com as autoridades do país, autorizava-o a participar de um animado hide-and-seek.
Ao ser divulgada a informação de que ele fora enfim encontrado, os skinheads estadunidenses, em estado de euforia, saíram às ruas para fazer um carnaval fora de época (embora não façam isso em época alguma).
Tudo saiu como estava previsto. Na fronteira com o México, quando era levado para os Estados Unidos, aproveitando-se de um momento de distração de seus captores, o corpo enorme inerme do líder apache decidiu assumir seu próprio destino e se jogar nas águas revoltas do Rio Grande.
Morto, Geronimo não é mais o inimigo público # 1 da nação, agora é o seu mais novo wetback.
Original: EM, 09/05/2011

quarta-feira, 25 de junho de 2014

RECONSTRUINDO IRENE

Nos idos de 2010 escrevi o Irene na Terra. Sem a pretensão de que os pósteros o elegessem como o maior poema da língua portuguesa. Cabia por inteiro numa "tuitada". Além disso, seus três primeiros versos fazem parte de "Irene no céu", de Manoel Bandeira, e o seu quarto (e último) verso conheceu tempos melhores na canção "Irene", de Caetano.
Não era um poema que pudesse fazer frente, por exemplo, ao Maabáratra, de Krishna Dvapayana Vyasa. O poema deste hindu tem 74 mil versos. E se nele formos incluir o "Harivamsa" já sobe para 90 mil versos.
Acontece que, dias atrás, em uma das minhas caminhadas crepusculares por Two Thousand City (Cidade 2000), escutei por acaso uma gravação de Agnaldo Timóteo.
Numa Vitrolex (link não patrocinado), o ex-motorista da Ângela Maria estava a cantar A casa de Irene, versão de um sucesso de Nico Fidenco.
E, nesse instante de grande enlevo, dei-me conta de que tinha um poema inacabado. Então, sem delongas, retornei a ele que assim ficou:
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor
Na casa de Irene a tristeza se vai
- Quero ver Irene dar sua risada.
De forma que o poema prossegue aos poucos: tijolo com tijolo num desenho mágico. E dá para ver que, mesmo sendo comparado aos prolixos poetas indianos, eu continuo competitivo.
Original: EM, 11/03/2011

Desescute
Sabem aquela música chata que a gente não consegue tirar da cabeça? Aquele música que, não importa o que a gente faça, fica tocando sem parar no cérebro?
Pois já existe como removê-la. Descobri isso em minha leitura diária do Gente de Mídia, blog do jornalista Nonato Albuquerque.
A solução é apresentada pelo site Desescute, que propõe substituir a música chata por outra... ainda pior!
O site, para dar sustentação ao método que utiliza, baseia-se em recentes "estudos científicos publicados sobre o fenômeno da impregnação melódico-cerebral".
O controlador do EntreMentes ainda não tem uma opinião formada sobre a eficácia do método.
Ao tentar substituir o "Rebolation", do Parangolé, pelo "Sai da minha aba", do Alexandre Pires, recebeu um pacote promocional com o "Morango do Nordeste", do Frank Aguiar, o "Ilariê", da Xuxa, o "Un, dos, tres, Maria", do Ricky Martin, o "Meu pintinho amarelinho", do Gugu e o jingle "Presidente 89" do Eymael.
Se isso não for uma espécie de operação casada e poligâmica, não sabe mais o que é.
Original: EM, 24/02/2011

quarta-feira, 18 de junho de 2014

INCAPAZ DE UM SACRIFÍCIO

Quando Abraão retornou da terra da Visão, Sara o esperava. Mas a recepção que deu ao esposo não foi nada amistosa.
- Trouxe de volta esse imprestável do Isaac, não foi?
- É que Deus mudou de ideia.
- Você falou com Ele?
- Não, mandou um anjo me dizer isso.
- E por que Deus arrependeu-se?
- Não me foi explicado. Penso que tem a ver com os palestinos... mas não é para logo.
- E aí?
- Sabe a Jezebééé?
- Anda desaparecida.
- Andava. Encontrei-a por lá presa num espinheiro.
- E não trouxe a ovelha?
- Não, imolei-a no lugar do Isaac.
- Homem de Deus, por que fez isso?!
- Não era para agradecer?
- Aquela ovelha, Abraaão, eu vinha criando para uma ocasião especial. Uns anjos que vêm almoçar aqui...
- Não diga?!
- Ô, homem, você é incapaz de um sacrifício!
Silva, PGC - Versículos Satíricos, Editora Mar Morto
Original: EM, 14/01/2011

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O PLÁGIO DE NOSSA BANDEIRA

Antes te houvessem roto no Alvorada
Que servires a um povo replicada.
PGCS
Andam a plagiar a bandeira do Brasil. Apesar de ter uma combinação pouco usual de cores, de formas e de um lema exclusivo, o lindo pendão da esperança, o símbolo augusto da paz não é inimitável como se pode ver. Em parte, por não estar sob a proteção de alguma lei autoral.
Vem da Líbia a primeira ameaça nesse sentido. O país africano, conhecido por seus imensuráveis desertos, já está usando em sua bandeira (não sei há quanto tempo) o verde de nossas matas. A simbolizar o verde de seus oásis, ora vejam!
Mas esse retângulo verde é só um balão de ensaio. Se nós, brasileiros, não protestarmos com absoluta firmeza, os líbios acrescentam o resto: o losango amarelo, o círculo azul, as brancas estrelas.... E, arrematando tudo, uma faixa com a seguinte frase: "L'amour pour principe et l'ordre pour base; le progrès pour but".
Riram porque ela ficou extensa? Mas é a frase de Auguste Comte, no original e completa.
Urge: levantarmos a bandeira que vai defender a... bandeira. Pois rumores já dão conta de que eles estão progredindo muito no Paint.
Original: EM, 27/04/2010

quarta-feira, 4 de junho de 2014

SI VIS PACEM, PARA BELLUM

É um erro crasso traduzir a frase acima por "civis, passem-me a parabélum". A parabélum aí, se alguém ainda não sacou, era o nome de uma pistola automática de procedência alemã. Que foi citada pelo cangaceiro Corisco, numa das cenas de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", um filme de Glauber Rocha.

- Se entrega, Corisco / Se entrega, Corisco.

- Eu não me entrego não. / Eu me entrego só na morte de parabélum na mão.
(Canção de Sérgio Ricardo, da trilha sonora do filme.)
Mas a exata tradução da frase latina é esta: "Se queres o Nobel da Paz, prepara-te para a guerra."
Por isso, foi que Mister Obama, em seu discurso de agradecimento na solenidade em que recebeu a honraria (em Oslo, Noruega), disse mais vezes a palavra war (44) do que a palavra peace (30).

Rouco de ouvir
E, logo em seguida, mandou limpar a cera dos ouvidos. Uma providência indispensável para quem recebeu a missão de, neste e nos próximos anos, ouvir os clamores de sua gente. Sei não, mas eu continuo a achar que o povo da nação mais guerreira do mundo não é tão inocente assim pela má fama que carrega.
Original: EM, 12/12/2009

quarta-feira, 28 de maio de 2014

O DIA DAS AÇÕES DE GRAÇA

Na última quinta-feira do mês de novembro, o Brasil bem que poderia ter o seu Dia das Ações de Graça. Não se trata de uma cópia do Thanksgiving, o Dia da Ação de Graças dos norte-americanos, no qual, eles, sob os mais diversos pretextos (começaram em 1620 agradecendo a Deus por causa de uma boa colheita), aproveitam para ir à tripa forra. Sendo o prato principal em suas residências o peru que, nesse dia do ano, amarga o seu holocausto.
O nosso Dia teria características bem diferentes. Em vez de colonos agradecendo a Deus suas esplêndidas colheitas, seriam as grandes empresas que viriam a nós agradecer os lucros obtidos durante o ano. Assim, gigantes empresariais como a Petrobras, o Banco do Brasil, a Vale, a Votorantim e o Estacionamento Iguatemi distribuiriam conosco (que tanto contribuímos para o sucesso financeiro das empresas) lotes e mais lotes de suas cobiçadas ações. E de graça, naturalmente, por ser esse o espírito do Dia.

Fica aqui dada a sugestão para se criar o Dia das Ações de Graça. Mas é uma pena lástima que o tal Dia só possa ser aplicado a partir do próximo ano.
PGCS
Bônus
Há sempre alguém mais desesperado do que você...


Original: EM, 27/11/2009

quarta-feira, 21 de maio de 2014

UNS NÚMEROS (MAIS OU MENOS) EXATOS

Há quem aprecie os números exatos e, por isso, evite os arredondamentos dos quais decorrem erros para mais ou para menos. Em seu livro "O que os Brasileiros devem saber", tempos atrás publicado, o Sr.Hernani Fornari escreveu:
"Brasileiro! Saiba... que a superfície do Brasil é de 8.511.189 quilômetros quadrados..."
Ao observar esse resultado tão minucioso, para a área do nosso país, comentou o Dr. Alírio de Matos, na época professor catedrático da Escola Nacional de Engenharia:
"É possível, por uma questão de sorte,que o 89 esteja certo. Mas é bem possível, também, que o algarismo das centenas não seja 1. E que adianta, afinal, acertar nas dezenas, acertar nas unidades, e errar redondamente nas centenas e nos milhares?"
Tinha razão o Dr. Alírio. A partir de 1946, a área territorial oficial do Brasil foi sofrendo alterações, por conta dos aperfeiçoamentos cartográficas implementados, até chegar ao atual valor de 8.514.215,3 quilômetros quadrados. Mas é bem possível, também, que o IBGE, por uma questão de sorte etc.
Original: EM, 07/09/2009

Arredondar é preciso

Na Serra da Estrela se encontra o ponto mais elevado de Portugal continental. Mede 1.993 metros e, sobre ele, nossos irmãos lusitanos construíram uma torre com 7 metros de altura. Para completar os 2.000 metros.
Mas continua nos Açores, com 2.351 metros, o ponto mais alto do território português.
Original: EM, 01/07/2010

quarta-feira, 14 de maio de 2014

FILOSOFIA DE PARACHOQUES

  • Se procuras uma mão disposta a te ajudar vais encontrá-la no final do teu braço.
  • Cana na fazenda dá pinga; pinga na cidade dá cana.
  • Beleza não põe mesa, mas garante a sobremesa.
  • Vou colocar uma boca térmica para conservar os beijos quentes.
  • Se o amor é cego, o negócio é apalpar.
  • Sou fã das escurinhas, porque Deus criou-las.
  • Deus fez o mundo em seis dias porque não tinha ninguém perguntando quando ia ficar pronto.
  • Agora estou fazendo a dieta da sopa... deu sopa, eu como!
  • Casamento é uma droga: começa com a filha, termina com a sogra.
  • E... num caminhão de reboque:
"EU VOU TIRAR VOCÊ DESTE LUGAR"

  • Se for para morrer de batida, que seja de limão!
  • Nem no dia que morre o coveiro falta no cemitério.
  • Quem tem rabo de palha não senta perto do fogo.
  • Em rio que tem piranha, macaco toma água de canudinho.
  • De mulher feia e marimbondo, quando não corro, me escondo.
  • Do Oiapoque ao Chuí, só paro para fazer xixi.
  • Criança e tamanco só se faz com pau duro.
  • Detesto pessoas egoístas; preocupam-se mais com elas do que comigo.
  • Devo, não pago; nego enquanto puder.
  • Minha sogra caiu do céu: a vassoura dela quebrou.
  • Chicote, se não for usado, vira pedaço de couro.
  • Carteiro feliz é aquele que gosta de sê-lo!

Original: EM, 05/09/2009 e 24/11/2009

quarta-feira, 7 de maio de 2014

MEU REINO POR UM PEPINO

Em 931, o Rei Theinhko da Birmânia comeu sem pedir licença um pepino da plantação de um aldeão local. Irritado, o agricultor assassinou Theinhko e, em seguida, assumiu o trono como Rei Nyanng-u Sawrahan. Num esforço para evitar a agitação política, a rainha viúva congratulou-se com ele. E Nyanng-u, que ficou conhecido como o Rei Pepino, reinou a Birmânia durante 33 anos. Um de seus atos foi transformar o local em que cultivava seus pepinos no Jardim Real.


No Schott's Almanac (não li ainda e gostei) é possível a gente se informar como, depois de Theinhko, alguns outros reis da Birmânia morreram:
  • Anawrahta: chifrado por um búfalo durante uma campanha militar (1077).
  • Uzana: pisado por um elefante (1254).
  • Narathihapate: forçado a tomar veneno num complô contra ele (1287).
  • Minerekyawswa: esmagado por um elefante (1417).
  • Razadarit: enlaçado na corda que prendia um elefante (1423).
  • Tabinshweti: decapitado por seus ministros sob a acusação de que perdia muito tempo a procurar um fictício elefante branco (1551).
  • Nandabayin: rindo até à morte após ter sido informado, por um comerciante italiano, que Veneza era um estado livre - e sem rei (1599).
A lição da História
Reis da Birmânia e elefantes não combinam. Depois que deixou de ser uma monarquia, os regicídios por elefantes obviamente pararam de acontecer na Birmânia.
Original: EM, 30/07/2009

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O ESPÍRITO DA ESCADA

Em questão de poucos minutos uma expressão me foi apresentada duas vezes. Ela estivera a vida inteira escondida dos meus sentidos e aí, clique, revelou-se a mim em toda a plenitude.
Trata-se de l'esprit de l'escalier, uma expressão francesa. Aplicável àquelas situações em que alguém, agredido verbalmente, não dá uma resposta à altura. E o que deveria ter sido a boa resposta só lhe vem à mente algum tempo depois... quando já está "descendo a escada". Coisa de l'esprit de l'escalier.
Aston R., em artigo no Crooked.com intitulado The 10 Coolest Foreign Words The English Language Needs, inclui a expressão francesa.
Aí, ao clicar o mouse, torno a encontrá-la numa crônica do Veríssimo: Ah, é, é? A frase que muitas vezes é pronunciada enquanto não chega a resposta devastadora. Pois nem todo mundo é profissional da resposta pronta como os repentistas. Que retrucam não só no ato como também rimado.
E, para Veríssimo, essa "insuficiência na retaliação verbal" inclui os humoristas. Já que eles, zelando pela reputação, têm de revisar e burilar as frases que vão usar em suas respostas. E isso no exíguo tempo de uma ou duas semanas.
Original: EM, 08/06/2009

quarta-feira, 23 de abril de 2014

UM SANTEIRO CEARENSE

O Brasil, com a fama de "maior país cristão do mundo", não tem um cartel de santos à altura deste título. Vai ver que a Igreja marcou mesmo o Brasil. E, por por conta disso, em se tratando de dar reconhecimento a um santo brasileiro, ela tem sido tão profundamente exigente.
No caso do Brasil, o funil da canonização usado pelo Vaticano apresenta o mais estreito dos bicos. Deixa passar muito pouco. O São Frei Galvão, a Santa Madre Paulina (que nem brasileira é e já foi comparada ao tenista Fernando Meligeni) e... quem mais?
Acredito haver pesado nisso o termos sido sempre tão mal contemplados na indicação do Advogado do Diabo. Dentre as autoridades eclesiásticas disponíveis, só velho ranzinza, mal-humorado e neurastênico é que a Cúria designa para apreciar processo de santo brasileiro. O resultado é que logo aparecem as fortíssimas objeções aos milagres do nosso candidato a santo.
Isto posto, devo dizer agora por que admiro o artista plástico Tarcísio Afonso Garcia. Dá-se principalmente quando releio uma antiga reportagem de jornal em que ele aparece descrevendo a sua busca pessoal pelos santos brasileiros. Levado por uma voz exterior (vox populi) que o fazia suspeitar da existência deles - Tarcísio foi encontrando-os, um a um.
É, assim, graças a ele, que o Brasil tem agora uma hagiologia de fazer inveja à Itália.
Ele chegou a essas descobertas por ele mesmo, acumulando as funções de folclorista com a de Advocatus Dei. Depois de ter dispensado os "préstimos" do Advocatus Diaboli. Aliás, quem está a serviço do belzebu, bode-preto, capiroto, maligno, tinhoso et caterva não pode ser lá grande coisa. Camufla-se de um título em latim para cometer os piores crimes de lesa-santidade.
Eis os santos brasileiros que Tarcísio encontrou:
Santo do Pau Oco, São Nunca, Santa Paciência, Santa Ignorância, Santo de Casa, Santo Remédio, Santo Dia, Santo de Barro, Todo Santo e Santa Briguilina das Pernas Finas.
Findo esse importante levantamento hagiológico, o grande desenhista de Otávio Bonfim deu o passo seguinte: criar as imagens para os santos encontrados. Sem elas, o seu trabalho ficaria incompleto e os santos nem sequer seriam venerados pelo povo brasileiro.
Serão mostradas amanhã. Reze para que dê certo.
Original: EM, 19/11/2008
DEZ "SANTOS" BRASILEIROS
Promessa com santo é para ser cumprida. Que dirá com vários?
Original: EM, 20/11/2008

quarta-feira, 16 de abril de 2014

FRASES DO BART E UMA MENSAGEM A ELE

Frases do Bart
No início de cada episódio dos Simpsons, o garoto Bart aparece escrevendo alguma frase repetidamente em uma lousa.
Eis várias das que ele já escreveu, com a tradução para o português:
01. "Bart Bucks" are not legal tender. "Dólares Bart" não têm valor legal.
02. I will not defame New Orleans. Não vou difamar Nova Orleans.
03. I am not authorized to fire substitute teachers. Não estou autorizado a demitir professores substitutos.
04. Organ Transplants are best left to professionals Organ. Transplantes de órgãos são assunto para profissionais.
05. I will not trade pants with others. Não trocarei as calças com os outros.
06. I am not a dentist. Eu não sou um dentista.
07. No one is interested in my underpants. Ninguém está interessado em minhas cuecas.
08. I will not call the Principal "Spud-Head'. Não vou chamar o Diretor de "Cabeça-de-Batata".
09. I will not eat things for money. Não vou comer coisas por dinheiro.
10. A burp is not an answer. Um arroto não é uma resposta.
Eu já havia encerrado a seleção quando Bart escreveu a frase a seguir:

Original: EM, 03/10/2008
Mensagem ao Bart
Dear Bart,
Confesso que me senti lisonjeado em saber de seu desejo de aprender português para ler o Blog do PG.
Porque sei que você poderia usar um desses tradutores automáticos à solta na internet. No entanto, não o faz. E assegura que vai beber do meu blog no olho d'água original.
Traduzir é trair, como diz uma máxima, por sinal traduzida.
Assim, seguindo os passos do Brazilianist Mangabeira Unger, você tomou a decisão de aprender português. E não a tomou de uma forma irrefletida. Haja vista que a escreveu, com a sua letra inconfundível, em sua lousa aí em Springfield - e bem repetidamente!
Pois, garoto Bart, se continua firme nesse tão digno propósito, a hora é esta! O português, aqui no Brasil, acaba de aderir a uma reforma ortográfica que o deixa mais simples. Escoimado, graças a ela, em muitos de seus hífens e acentos. E, no caso do trema, simplesmente foi passado o apagador.
Além disso, a inculta e bela não vai mais exigir que algumas letras estrangeiras apresentem seus passaportes. O K, o W e o Y, o que, imagino eu, deve ser do seu inteiro agrado.
Lembro-me agora do falecido professor Kyw, que me ensinou português no ciclo ginasial. Purista ao extremo, ele não aprovaria uma reforma ortográfica com tal abrangência. Que se dane, pois, o ranzinza do Kyw! Remexer-se na tumba é que ele não vai mesmo. A essas horas, e não tendo mais um músculo para alavancar o velho esqueleto...
Por isso, fiquemos tranqüilos, Bart. Aliás, tranquilos
Yours,
Dr. Paulo
Original: EM, 04/10/2008

quarta-feira, 9 de abril de 2014

MICROLITERATURA

A chamada microliteratura vem ganhando espaço (apesar de usá-lo tão pouco) nesses tempos tecnológicos. Associada, muitas vezes, às idéias do minimalismo.
Nela estão o microconto, o micropoema, o haikai e outras produções literárias assemelhadas.
No caso do microconto, costuma-se limitá-lo a um teto de 150 caracteres. A concisão, no entanto, não é a única característica do microconto. Este, mais do que mostrar, deve sugerir. Cabendo ao leitor a tarefa de preencher - com a imaginação - as "elipses narrativas" do microconto.
Estabelecer um limite de 150 caracteres permite, por exemplo, o microconto ser enviado como "torpedo" por um telefone celular, o que em si já evidencia a sua ligação com as novas tecnologias de informação e comunicação.
Um variante do microconto é o nanoconto, do qual se exige um máximo de 50 letras. Como este, a seguir, escrito pelo guatelmateco Augusto Monterroso, que tem apenas 37 letras:


Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.

Publico-o acompanhado de minha microcrítica: gostei.

Desenho de Murilo Silva
Original: EM, 29/09/2008

quarta-feira, 2 de abril de 2014

EVITANDO O VIRUNDUM

O compositor Belchior, em sua última apresentação no programa do Jô Soares, andou muito cauteloso. Ao pronunciar as palavras "um analista amigo meu", quando "dava uma palinha" de sua música "Divina Comédia Humana", foi aquele esmero de empostação. A ponto de receber do apresentador do "Onze e Meia" os mais rasgados elogios (entre risos).
Ao apurar a sua pronúncia em “um analista amigo meu”, Belchior tentava evitar a ocorrência de um virundum. Um certo mal entendido (você sabe de qual estou falando) que esta expressão costuma suscitar. À maneira do que também acontece com a expressão "mas você que ama o passado (MAL-PASSADO)", em "Como nossos pais", que é outra música dele.
O virundum é um neologismo para palavras, expressões ou frases que, escutadas numa música, induzem os ouvintes a entender coisas diferentes (muitas vezes, jocosas). Aliás, o termo nem é tão "neo" assim, pois dizem que foi criado pelo jornalista Paulo Francis, na época do Pasquim. Inspirado que foi no primeiro verso (O VIRUNDUM Ipiranga) do Hino Nacional, cuja letra é hors-concours nisso (do que terra MARGARIDA, verás que um FILISTEU não foge à luta etc).
O Hino da Independência, com o seu JAPONÊS TEM QUATRO FILHOS, é outro que apresenta o seu virundum.
Mas o melhor deles, a meu ver, está numa canção popular que faz referência a B.B. King, o lendário cantor e instrumentista de blues. Na passagem em que a citação de uma vitrola “tocando B. B. King sem parar” é confundida (por quem nunca ouviu falar no rei do blues) com... TROCANDO DE BIQUINI SEM PARAR.
Original: EM, 27/09/2008

A Espanha não quer o virundum
A notória dificuldade que o brasileiro tem de memorizar a letra do Hino Nacional poderia ter uma solução definitiva. Se tirássemos algum proveito daquilo que foi a experiência espanhola.
Com origem na "Marcha Granadera", de 1770 e cujo autor é desconhecido, El Himno Nacional de España jamais deixou o espanhol em situação vexatória.Não tem letra.
Nos 240 anos de existência desse hino, súditos que foram tomados de ardor cívico até tentaram pôr letras nele. Em vão escreveram. Nenhuma delas teve aceitação popular, nenhuma foi oficializada pelo governo espanhol.
porquenohoy.blogspot.com
E a Espanha não é atualmente o único país com... hino-sem-letra. Tem a companhia de San Marino e da Bosnia-Herzegovina nessa questão.
Original: EM: 21/02/2011

quarta-feira, 26 de março de 2014

O PASQUIM E A MPB

O bravo hebdomadário e a música popular brasileira por diversas vezes cruzaram-se nos caminhos.
Em 1970, Paulo Diniz compôs a música "Quero voltar pra Bahia" em homenagem a Caetano Veloso que, naquela época, se achava exilado em Londres. A música de Paulo Diniz, que tinha um refrão em inglês (I don't want to stay here / I want to go back to Bahia), numa de suas estrofes, fazia essa referência ao Pasquim:

"Via Intelsat eu mando
Notícias minhas para o Pasquim
Beijos pra minha amada
Que tem saudades e pensa em mim."

Ainda em 1970, o Pasquim brindava os seus leitores com o encarte de um mini-compacto em uma edição especial. Trazia esse mini-compacto duas músicas: no lado A, "Cosa Nostra", de Jorge Ben, e no lado B, "Coqueiro Verde", um samba de Roberto e Erasmo Carlos, numa gravação do Trio Mocotó. Nessa gravação, havia um momento em que a música era interrompida (à citação de "como diz Leila Diniz") para se ouvir um trecho de uma polêmica entrevista da musa do Pasquim. E a referência ao "velho pasca", em "Coqueiro Verde", encontrava-se na estrofe a seguir:

"Mas eu vou me embora
Vou ler meu Pasquim
Se ela chega e não me vê
Sai correndo atrás de mim."

Não tenho certeza se o Pasquim repetiu a fórmula do encarte de mini-compactos em outras edições. Mas, em 1982, ele lançou o disco "MPB Independente", que reunia alguns dos grandes nomes da música brasileira, como Tom Jobim ("Águas de Março"), Caetano Veloso ("A Volta da Asa Branca"), João Bosco ("Agnus Sei"), Fagner ("Mucuripe") e outros.
Mas foi em 1990 que aconteceu a grande homenagem à editora do "rato que ruge". Quando a Escola de Samba Acadêmicos da Santa Cruz desfilou no carnaval carioca com o enredo "Os Heróis da Resistência". Entoando o refrão do "Gip, gip, nheco, nheco", o nome da coluna do Ivan Lessa no Pasquim:

Gip, gip, nheco, nheco
Por favor, não apague a luz!
Goze desta liberdade
Nos braços da Santa Cruz.”

Sobre isso eu já falei na postagem de 4 de outubro de 2007 (no blog EntreMentes).
Original: EM, 13/09/2008

quarta-feira, 19 de março de 2014

ENTOMOFAGIA

Esta palavra significa: alimentar-se de insetos.
Há evidências de que o homem primitivo, antes de dominar as técnicas agrícolas, recorria a esse expediente para complementar a sua alimentação. Como ainda hoje faz o seu "primo" chimpanzé.
Na atualidade, mais de 1.200 espécies de insetos fazem parte do cardápio da humanidade. Principalmente dos povos e tribos que habitam algumas regiões da Ásia, Africa e América Latina.
O Brasil não está fora do hábito da entomofagia. Na Serra da Ibiapaba, no Ceará, por exemplo, há pessoas que destacam as "bundas" das formigas tanajuras (fêmeas aladas das saúvas, que aparecem em grande quantidade no início da estação chuvosa e que são capturadas) para fritá-las, misturá-las com farinha de mandioca e... comê-las.

Também acontece a ingestão de insetos de forma não intencional. Porque eles podem estar presentes, sem serem vistos a olho nu, em muitos dos alimentos que ingerimos. Acrescentando desse modo, com seus pequeninos corpos, proteínas e calorias às que já existem nos alimentos onde estão.
Infelizmente, alguns insetos ao serem ingeridos podem veicular doenças. Como o Mal de Chagas que pode ser transmitida pela ingestão do açaí, caso este alimento tenha sido triturado junto com o "barbeiro" infectado por T. cruzi.
Com a preocupação de evitar a transmissão de doenças, o Food and Drug Administration (EUA) elaborou uma lista de níveis máximos de insetos permitidos nos alimentos. Assim é que ficamos sabendo que, em cem gramas de chocolate, por exemplo, até 60 insetos (ou fragmentos deles) podem estar presentes e ser ingeridos sem que isso represente problema para a saúde humana.
No Vida e Arte onde obtive a imagem acima, do blogueiro Luciano Rocha, há uma seqüência de fotografias das tanajuras (hormigas culonas, na Colômbia) além de uma receita à base delas.
EM, 07/08/2008

quarta-feira, 12 de março de 2014

ADEREÇOS PESSOAIS

Não uso tiara, colar, pulseira, brincos e piercings.
Escapulário, nem pensar. Pendrive? Já pendurei um deles (de 1 giga) no pescoço, mas só foi um dia.
Diante desta minha barriga de prosperidade, a bolsa pochette também fica fora. Mas não descarto alguma adesão futura aos suspensórios.
Aliança? Permaneceu no dedo o tempo em que durou a festa de casamento. Fiz questão de perdê-la sem dó, mesmo sabendo o risco de ficar depois desinteressante aos olhos das mulheres.
E... tirei o meu anel de doutor para não dar o que falar.
Contudo, uso um par de óculos, por razões próximas e longínquas, e um relógio que atrasa (adianta?).
E só por estes últimos acessórios é que eu não tiro zero no quesito adereços (PGCS).


Original: EM, 14/07/2008

quarta-feira, 5 de março de 2014

RUMINANDO...

Entraram para a história da propaganda estes versos que Bastos Tigre fez para o Rhum Creosotado:
"Veja ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado
E, no entanto, acredite
Quase morreu de bronquite
Salvou-o o Rhum Creosotado.”
Eram lidos em “reclames” colocados nos bondes do Rio antigo. Vamos e venhamos que os versos publicitários de Bastos Tigre tenham ajudado a dar longa vida ao Rhum Creosotado, pois até hoje o tal xarope existe. Confira.
Ainda que o poeta, com planos literários mais altos, não gostasse de assumir a paternidade dos versos. Deixando sem graça o responsável por este Blog, que neles foi se inspirar para fazer a seguinte paródia:
Veja ilustre internauta
Que nem assunto me falta
Quando dão por confirmado
Que esse triste bagulho
Quase morreu num mergulho
Salvou-o um Pum arretado.

Original: EM, 04/02/2008

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

CORDEIROS

Vendo a reportagem na televisão eu tomei conhecimento de que o carnaval baiano passa por uma dificuldade: recrutar cordeiros. Os cordeiros são aquelas pessoas contratadas pela organização dos blocos para garantir a segurança dos foliões pagantes. Fazendo o trabalho por meio de cordas que criam um espaço exclusivo para os foliões dos blocos, isolando estes dos chamados “pipocas”. Como lidam com cordas são conhecidos por cordeiros. Agora, porque não estão se apresentando para o trabalho desta temporada a explicação parece óbvia. O anúncio de diárias de apenas 20 reais para os cordeiros que estiverem dispostos a encarar o empurra-empurra da avenida.
Mas será que existe mesmo a ocupação de cordeiro?
Uma consulta on line na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) do Ministério do Trabalho e Emprego me mostra que a ocupação existe oficialmente.



Só que os cordeiros da CBO são de outro "rebanho". Pois pertencem ao grupo dos mantenedores de edificações, têm o código 9914-10 e são descritos como conservadores de fachadas. O que significa dizer que dependem de cordas para o trabalho, também.
Aliás, dependem das cordas para a vida.
Original: EM, 19/01/2008

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

MINHA LUTA COM POPÓ

Não sei onde andava com o meu juízo quando resolvi desafiar o grande pugilista baiano para uma luta. Detentor de um cartel inigualável, Popó era (ainda é) um nome respeitadíssimo no mundo do boxe. Uma fortaleza humana com punhos que a tornavam inexpugnável. E, para dificultar as coisas, com um abdome protegido com cinturões de ouro.
Quanto a mim, algumas baratas nocauteadas em meu apartamento (com o chinelo) eram em que se resumia o meu currículo de lutador. E, aí já fora do currículo oficial, algumas “pernas pra que vos quero” de penosa recordação. Porém, por haver feito o tal desafio, resolvi não retroceder mais. As boas idéias não morrem nunca, a menos que estejam em cérebros de gladiadores.
Antes do encontro, numa tentativa de intimidá-lo (os lutadores sempre fazem isso!), deixei escapar algumas informações a meu respeito: idade (59) e os dados antropométricos (160 cm de altura, 70 kg de peso, 150 cm de envergadura). No entanto, astuciosamente, fiz sigilo de algumas morbidades pessoais, como a artrose nos dedos. Um aperto de mãos, antes da luta, poderia já acabar com ela. A luta, claro, já que essa artrose nunca teve jeito.
Acho que não funcionou esse ensaio de intimidação. Pois soube que Popó riu muito, muitíssimo ao receber dos segundos essas informações. E, a seguir, deu férias ao sparring e foi espairecer na Ilha de Comandatuba. Não sem antes comentar para o seu saco de pancadas como já vislumbrava a luta. “Não vai dar tempo para esse cara dizer soteropolitano”.
Devolvi-lhe a gentileza através de uma correspondência. Nela deixando claro que uma lutazinha qualquer não me afetaria nas propriedades silábicas. Eu diria, no calor da futura refrega, palavras até bem maiores. Após essa jactância toda, por via das dúvidas, interrompi o preparo físico para passar mais horas com o Aurélio e o Houaiss.
No íntimo, sabia que teríamos um enfrentamento rápido. Algo do tipo round único com perspectiva de acabar em morte súbita. Popó viria com os seus jabs, uppercuts e hooks. Era assim que ele demolia os adversários. Isso quando não incluía em seu repertório de pugilato alguns humilhantes cascudos. E todo um YouTube com vídeos do Popó passou a freqüentar a minha mente.
Por isso, eu decidi montar uma estratégia bem diferente. Não deixaria o Popó ter o controle da situação. Não deixaria o Popó chegar perto de mim. Pensando bem, não deixaria nenhum soteropolitano (pelo trauma psíquico que esta palavra já me causava) aproximar-se de minha frágil aura. E, o tempo todo, eu buscaria uma luta de resultados.
Pois foi exatamente o que eu fiz, quando levei essa luta para o Googlefight.


Original: EM, 30/11/2007

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

INVENTOS BRASILEIROS

O que deveria ser o maior de todos os nossos inventos, o avião, encontra-se sub judice. Devido a uma torpe ação movida pelos norte-americanos que, com a sua máquina publicitária invencível, “vendem” ao mundo a pipa dos Wright Bros. Anunciando-a como “o primeiro avião do mundo”.
Ah, é? Mas, no relógio de pulso, eles não tascam. Foi este relógio uma ideia que Santos Dumont, em boa hora, deu a Louis Cartier. E que coube ao relojoeiro francês a tarefa de transformá-la num objeto (dos mais úteis).
Sobre essa tradição brasileira de voar: não começou com o Pai da Aviação. Remonta a Bartolomeu de Gusmão, um padre jesuíta nascido em Santos, que projetou a Passarola. Um aeróstato aquecido a ar quente, com o qual o "padre voador" antecedeu os Montgolfier com seus balões.
Já a invenção do radio é creditada ao padre Landell de Moura, com as suas experiências de transmissão da voz humana a distância, feitas no final do século 19. Embora obtivesse as patentes, no Brasil e nos Estados Unidos, o padre não conseguiu o reconhecimento que merecia. Nem o financiamento necessário para produzir em escala industrial os seus equipamentos. Aliás, acusado de pacto com o diabo, o padre teve o dissabor de vê-los destruídos.
E esta nossa lista, recheada de padres-cientistas, ainda prossegue. Com o padre Azevedo, que inventou a máquina de escrever. É verdade que, com o surgimento das impressoras a jato de tinta, a máquina de escrever foi mais adiante desinventada. Como também desinventado foi o aparelho de abreugrafia, do médico Manuel de Abreu, após décadas de grande popularidade do invento.
Na área da moda, contribuímos com várias peças. O fio dental, por exemplo. Só que algumas delas aumentamos, mas não inventamos. Como os tais sapatos-plataforma, que a pequena Carmen Miranda criou para se tornar, sobre eles, ainda mais notável.
E, no futebol, registremos a jogada de Charles, a folha seca do Didi, os múltiplos disfarces para o jogador fugir da concentração, as placas luminosas (que anunciam as substituições dos atletas nas partidas) e o Hino Nacional cantado a cappella, digo, a stadium. Pois bem, até quando metemos as mãos pelos pés somos criativos, como fomos ao criar o futevôlei.
Além de tudo, quantos gadgets foram inventados aqui no Brasil! Aí estão o bina, o walkman e a urna eletrônica que não nos deixam mentir. O escorredor de arroz, o orelhão do telefone e o lacre de segurança de plástico. Também aí estão a caipirinha que, segundo o historiador português Alexandre Borges, foi a única contribuição positiva de Dona Carlota Joaquina ao Brasil e o trio elétrico, atrás do qual "só não vai quem já morreu".
E, last but not least, o cheque pré-datado.
Original: EM, 16/11/2007

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

COMEDORES DE CARANGUEJOS

Hoje é quinta-feira. À noite, chova ou faça lua, milhares de fortalezenses invadirão as barracas da Praia do Futuro com um propósito firme: comer caranguejos. Juntar-se-ão aos invasores locais um grande número de turistas, ansiosos por participarem deste arraigado costume da terra.
Nesses restaurantes, os caranguejos cozidos em leite de coco vêm servidos em bacias, acompanhados por uma porção de farofa. E, para romper a blindagem natural dos crustáceos (já que a fervura no panelão não consegue isso), nossos crabs’ eaters (comedores de caranguejos) recebem uns pauzinhos roliços. Com os quais se põem a quebrar as patas dos crustáceos em busca de suas tenras carnes.
Não há como os caranguejos possam lutar contra essa maré humana. Que tem dia certo da semana para acontecer, em Fortaleza. É a quinta-feira, como já disse. Pois, neste dia, a sanha para comê-los é tanta que muitos dos crabs’ eaters não conseguem esperar até a noite chegar. Em seus locais de trabalho, com o que têm à mão, e já começam furiosamente a martelar no juízo dos caranguejos.


- Que entrem os caranguejos!
Original: EM, 25/10/2007

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O FLANELINHA

Dessa galeria de personagens típicos do Ceará em que já figuram o jangadeiro, o boiadeiro e a mulher rendeira, passou a fazer parte o flanelinha. Sem o charme de um traje característico que o identificasse, recorreu o novo personagem típico da região a uma flanela para ser identificado. Obtendo tal sucesso com o recurso que, em virtude disso, ganhou o já citado apelido genérico.
Sabe-se que há dois tipos básicos de flanelinha: o de semáforo, que tem a proposta de limpar o seu carro em questão de segundos, e o de estacionamento, cuja religião o proíbe da nefanda prática. A este segundo tipo, cabe apenas “pastorar” o veículo até que o dono retorne. Não sendo incluído em seu serviço que vá oferecer resistência a ladrões.
Para o flanelinha não existe essa coisa de local ermo. Em qualquer via pública onde pelo menos um carro puder ser estacionado, haverá sempre um flanelinha a postos. E haverá vários deles, quando o carro for sair. Contrariando o lema de que o flanelinha “trabalha” com um olho no carro e outro na concorrência.
Por fim, entre o dono do carro e o flanelinha, existe uma espécie de acordo tácito. O dono, ao voltar, recebe o carro sem arranhões, sem pneus murchos, e o flanelinha então é pago. Acertar depois e sair de mansinho são consideradas más práticas. Que podem arranhar ou fazer murchar esse acordo, mais adiante.

Ilustração: Laerte
Original: EM, 13/10/2007

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

LADOS

Algumas reflexões sobre o importante assunto:
Tudo tem lados. E o avesso está aí para não deixar haver exceção.
Os pólos também são lados, só que radicais.
No tempo do LP havia o lado B, que ninguém ouvia. Foi o CD – que não tem A nem B – que acabou com esse déficit de audição.
A fatia de pão tem dois lados. Com relação à manteiga: um é com, outro é sem. Mas, quando a fatia cai no chão, é sempre com o lado com. Pesquisadores estudam.
Eles também estudam porque a barata ao morrer é monótona. Na escolha do lado que vai mostrar no velório.
O rio – com seus dois lados. E Guimarães Rosa ainda falava de uma terceira margem.
A lua –com seu lado escuro. Às claras, depois que a ciência espacial fez a devassa.
E, para finalizar estas reflexões, aqui cabe um pensamento de um guru local, Augusto Pontes:
"Estou do seu lado, mas não me olhe de banda."

Original: EM, 09/10/2007

Por que você sempre encontra as baratas mortas com a barriga para cima?
Em ambientes domésticos, na maior parte das vezes, a morte das baratas se dá por envenenamento.
Mais comumente por inseticidas à base de substâncias inibidoras da colinesterase. Em circunstâncias normais, esta enzima é responsável por quebrar um neurotransmissor natural chamado acetilcolina. Sem nada para eliminá-lo do corpo, a acetilcolina se acumula no sistema nervoso com efeitos neurotóxicos. No caso das baratas, causa espasmos musculares violentos no abdômen e nas pernas, que normalmente as deixam de barriga para cima. Uma vez nesta posição, o solo liso e a falta de coordenação motora causada pelo veneno fazem com que o animal se mantenha nessa postura até a sua morte.
Imagem: nytimes.com
Original: EM, 17/12/2019

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

SEM JUSTA CAUSA

Leiam:
Decreto nº 28.314, de 28 de setembro de 2007
"Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências.
O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:
Art. 1° - Fica demitido o gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.
Art. 2° - Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.
Art. 3° - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário."
Brasília, 28 de setembro de 2007.
119º. da República e 48º. de Brasília
JOSÉ ROBERTO ARRUDA

Sr. Governador:
O gerúndio, esta simpática forma nominal do verbo, não é algo que se demita ad nutum. Pois integra, desde tempos imemoriais, o patrimônio oral do povo brasileiro e como tal deve ser respeitado (não digo cultuado). O que o senhor fez, com a publicação desta lei, foi exercitar o seu pensamento mágico. E mostrar que, com essa confusão de significado com significante, não é lá tão esperto assim. Haja vista que demite o gerúndio... para não dispensar os seus auxiliares considerados ineficientes. Talvez fosse o caso de o senhor procurar algum burgo em Portugal (onde as pessoas usam o infinitivo no lugar do gerúndio) para o início de uma nova governadoria. Sem preocupações desta espécie.
Quanto à sua famigerada lei, VAMOS ESTAR PROVIDENCIANDO o envio para ser também publicada no Febeapá, em uma edição revisada e atualizada do livro.
Fortaleza, 2 de outubro de 2007
2º. do Blog do PG
PAULO GURGEL
Original: EM, 02/10/2007

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

BICHOS SE APRESENTANDO

Cão: para latir ao passar a caravana.
Gato: para caçar no lugar do cão.
Rato: para folgar durante a folga do gato.
Macaco: para continuar no respectivo galho.
Coelho: para dividir com outro uma cajadada.
Burro: para pensar até morrer.
Boi: para andar adiante do carro.
Andorinha: para fazer verão em grupo.
Galo: para fazer o sol nascer.
Onça: para ser amiga de todo mundo.
Homem: para ser o lobo de outro (homem).
Original: EM, 25/09/2007

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

E POR FALAR EM SILÊNCIO

Não sei se os antigos romanos contavam com alguma divindade para acudir a loquacidade. Tinham-na para o silêncio, uma deusa chamada Tácita (conforme lembrou Airton Soares em seu blog, recentemente). O que me leva a crer que os povos antigos da península itálica não viam as mulheres como seres tagarelas. Ressalvada a hipótese de que, com uma representante feminina do silêncio no panteão de suas divindades, não passasse tudo de uma ironia dos romanos.
O fato é que Tácita não pertence a nossos altares. Partiu há séculos, sem dar um pio, para ir fazer parte da memória mitológica da humanidade. Restando, porém, de sua influência em nosso idioma, o legado de umas poucas palavras. Como os adjetivos "tácito" e "taciturno".


Acima, uma imagem da deusa Tácita esculpida em mármore de Carrara.
Abaixo, alguns pensamentos selecionados em homenagem a ela.

“O silêncio é o único amigo que jamais trai.” (Confúcio)
“É melhor seres rei de teu silêncio que escravo de tuas palavras.” (Shakespeare)
“Manejar o silêncio é mais difícil que manejar a palavra.” (Clemenceau)
“Se o que vais dizer não é mais belo que o silêncio: não o digas.” (provérbio árabe)
“Em virtude da palavra, o homem é superior ao animal; pelo silêncio, ele se supera a si mesmo.” (Masson)
"É melhor ficar calado e parecer estúpido do que falar e acabar com todas as dúvidas." (Mark Twain)
Original: EM, 22/08/2007

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

SÍSIFO REVISITADO

Na mitologia grega, Sísifo era filho do rei Éolo. Por astúcias cometidas, foi condenado por Zeus a levar uma rocha até o alto de uma montanha. Eternamente, pois toda a vez que o topo da montanha era quase alcançado, a rocha rolava de volta ao ponto de partida. O que obrigava o condenado a ficar repetindo a sua escalada com a rocha, ad aeternum.
Nos dias de hoje, estaria cumprindo alguma pena alternativa. Como:

malhar em ferro frio
dar nó em pingo d’água
escovar urubu até ficar branco
chupar parafuso até virar prego
enxugar gelo com toalha quente
procurar agulha em palheiro
carregar mala sem alça
embrulhar velocípede
dar murro em ponta de faca
descascar abacaxi com o nariz
cercar capote em campo aberto
botar suspensório em cobra
pingar colírio em olho de chinês
subir em pau de sebo
massagear porco-espinho
trocar pneu com o carro andando
devolver pasta de dente para o tubo
abanar carvão molhado em churrasco
montar touro mecânico até cansar (o touro)
etc

Pensando bem, não seria o caso de Sísifo abreviar o nome para Sifu?
Original: EM, 10/08/2007

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

NULLA DIES SINE LINEA

"Nenhum dia sem uma linha (ou traço)."
O lema atribuído por Plínio, o Velho, ao jovem pintor Apeles. Porque Apeles não aceitava a idéia de passar um único dia sem trabalhar.
Bem, com estas eu já fico para lá de quite com o meu blog, hoje.
Apesar de que ainda tem mais.

Apeles era o pintor oficial de Alexandre o Grande. Neste quadro de Tiepolo, de 1740, ele aparece retratando Campaspe, a concubina favorita de Alexandre.
Notem o ar entediado de Alexandre com relação à concubina. Em contraste com o profundo interesse do jovem pintor por Campaspe (muito além do que o trabalho deveria exigir).
Pois é, Alexandre não foi grande só no nome. E logo passou a pequena para os cuidados afetivos de Apeles.
Original: EM, 25/07/2007
Nulla dies... (em outras línguas)
Not a day without a line.
Ningún día sin una línea.
Pas un jour sans une ligne.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

TANTO NÃO

Imagine:
A história de um glutão que, por haver cedido à tentação de comer o que não devia, infringiu as regras de um spa e passou a temer o pior.

Tanto Não

.....................Paulo Gurgel

Foi bonita a festa, spa
Fiquei contente
Inda guardo pro meu dente
Uma fatia do pudim.

Já “micharam” minha bóia, spa
Não foi bacana
Pois sobrava uma banana
Com canela para mim.

Sei que há dieta a me cercear
Tanto não, tanto não
Sei que aqui não é possível, spa
Comer pão, macarrão...

Comi canapés, spa
Saí do sério
Resta o cemitério
Se eu encaro esse alfinim.

Para ver a letra (Tanto Mar, de Chico Buarque) que motivou a paródia, clique aqui. E para ouvir a música, também.
Original: EM, 24/07/2007

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

LUTAR CONTRA A AIDS

Há cerca de vinte anos cometi esta trova:

Lutar contra a AIDS
É a luta mais vã
Mal hoje curamos
A febre terçã.



Uma paródia de versos célebres de Drummond. Compus esta trova, possivelmente, num momento de desencanto com a profissão que um dia abracei. Nenhum médico está livre desse sentimento, quando dá conta de suas limitações. E, no caso da AIDS (SIDA, para a turma do Obvious), por exemplo, sobravam os motivos. Naquela época, fazer esse diagnóstico era como emitir uma sentença de morte.
Felizmente, os homens da ciência não foram nessa. E debruçaram-se sobre seus ensaios clínicos, indiferentes ao pessimismo dos poetas (cujos humores, por sinal, oscilam muito). Resultando disso que muitas drogas foram descobertas. Medicamentos que, quando associados, maximizam-se os resultados terapêuticos.
É verdade que ainda não se tem uma solução definitiva para a AIDS, mas a seus portadores já se oferece uma boa sobrevida – com qualidade!
Original: EM, 04/07/2007

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

EMBARCOU, TEM QUE REMAR

Sobre o quadro Poeta, de Leon Girardet:


É uma cena romântica: um rio (ou será um lago?), um barco, um poeta e três raparigas em flor. O poeta faz um recital dos últimos poemas que escreveu. Cada uma das moças deve se imaginar a própria musa inspiradora de um, vários, muitos desses poemas... Até de todos, se uma delas for bisavó da Luana Piovani.
A propósito, não é uma cena contemporânea. O figurino das pessoas mostra que não pertencem ao nosso tempo. O bardo mantém uma distância respeitosa das três raparigas, que se acotovelam num dos cantos da embarcação. A qual, por sua vez, está quase encalhada no capim aquático.
Mas... há remos no barco à espera de braços dispostos. Não se faça de rogado, meu poeta. Está a terminar a leitura do livro em suas mãos, agora é empunhar os remos. E levar o barco, as moças, a si próprio para novas paisagens. Onde o enlevo, o encanto, o arrebatamento, tudo é feito sem palavras.
Sim, faça isto. Para não ser depois recomendado à Sociedade dos Poetas Mortos nas Calças.
Original: EM, 22/06/2007

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

NÚMERO COM APELIDOS

São em grande parte uma contribuição do loto ou jogo do víspora. Um jogo em que cada participante dispõe de um ou mais cartões, com fileiras de números que vão sendo marcados, à medida que as pedras numeradas correspondentes vão sendo tiradas de um saco. O jogador que, em primeiro lugar, conseguir marcar todos os números do seu cartão “bate” (ganha) o jogo.
Para o divertimento acontecer uma pessoa fica responsável por “cantar” as pedras. Isto é, por realizar o sorteio. A qual vai anunciando aos participantes os números das pedras tiradas, numa linguagem por vezes curiosa. Com alguns números – seja para quebrar a monotonia do sorteio, seja para dar mais clareza aos números “cantados” – sendo chamados por apelidos. Expressões que o “cantador” sabe serem do conhecimento dos jogadores, tais como:
1 – ronco do porco
7 – conta do mentiroso
8 – violão sem braço
18 – dos outros
22 – dois patinhos na lagoa
33 – idade de Cristo
44 – quá, quá, quá
45 – meio do caminho
81 – o gordo e o magro
90 – não venta
Até o número 25, o que comanda o sorteio pode apelar também para o jogo do bicho. Pelo menos, para seus números mais conhecidos: o 5 (cachorro), o 24 (veado) e o 25 (vaca).
Como o víspora tem 90 números, daí em diante valerá a criatividade do “cantador”.
Original: EM, 17/06/2007

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

PEDRA, PAPEL E TESOURA

Um dia, eu dei de presente a meu filho Érico, então um menino de sete anos, um videogame da marca Master System II. Um brinquedo que trazia, em sua memória, o jogo eletrônico Alex Kidd in Miraculous World, para iniciantes. Participando do jogo, através do joy stick, Érico e eu (que fui seu mestre nos primeiros dias) fazíamos Alex quebrar rochas, dirigir veículos, saltar abismos, percorrer cavernas, mergulhar em águas profundas... E, ainda, ajudávamos o herói-menino a enfrentar e a aniquilar terríveis inimigos, muitas vezes com os poderes especiais que lhe conseguíamos.
Todavia, no Miraculous World, existiam mudanças de fase em que, para Alex prosseguir, tinha que vencer um inimigo. Num torneio de pedra, papel e tesoura: um jogo dentro do jogo! Isto foi para mim uma novidade, pois eu só conhecia o par ou ímpar, o cara ou coroa e o jogo dos palitinhos. Mas logo aprendi como era o pedra, papel e tesoura. Alex e o inimigo duelavam mostrando, um a outro, uma das mãos. A mão fechada era pedra, a mão aberta, papel, e a mão com dois dedos esticados, tesoura.
Sempre uma opção vencia a segunda e perdia para a terceira. Eis como entender essa regra, a partir de suas justificativas:
.....pedra x tesoura: vence a pedra (porque quebra a tesoura)
.....tesoura x papel: vence a tesoura (porque corta o papel)
.....papel x pedra: vence o papel (porque embrulha a pedra)



Depois de algumas partidas ficamos craques. Pois cada inimigo jogava o pedra, papel e tesoura de uma forma pré-estabelecida. Mas, para falar a verdade, enquanto funcionou o nosso Master System II, jamais os três (Alex, Érico e eu) derrotamos o último chefão do Miraculous World. Aliás, naquelas morosas partidas (que não davam direito a salvar os resultados), raríssimas vezes conseguimos entrar em seus aposentos no castelo do Mal.
Original: EM, 18/05/2007

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

SOBRE MALAPROPISMOS

Nonato Albuquerque publicou na Antena Paranoica uma postagem sobre este assunto (aqui), recentemente. O malapropismo consiste em empregar uma palavra em lugar de outra que tem o som parecido. E origina-se da expressão francesa mal à propos (mal a propósito). Embora, muitas vezes, aconteça por confusão, lapso ou ato falho de quem a profere.
Como causa efeitos cômicos no discurso é um recurso muito utilizado nas comédias. Em 1774, Richard Sheridan, em The Rivals, criou uma personagem, a Sra. Malaprop, de cuja boca brotavam os deslizes verbais da peça. Modernamente, encontraríamos, na televisão brasileira, na personagem Ofélia (aquela que só abre a boca quando tem certeza) uma perfeita discípula da Sra. Malaprop. E, na televisão mexicana (com a repercussão do seu programa no Brasil), em Roberto Bolaños, com as falas do seu personagem Chaves.
Vicente Matheus, diretor do Corinthians por oito mandatos, ficou famoso também por seus malapropismos. Do tipo: “Peço aos corinthianos que compareçam às urnas para naufragar a nossa chapa.”
E tampouco estão livres dessas brincadeiras fonéticas os nomes das pessoas. Como exemplos, Carolina de Sá Leitão, cujo malapropismo é... Caçarolinha de Assar Leitão, e Quintino Reis da Costa, chamado de... Quinhentos Réis da Bosta pelo presidente de uma seção eleitoral ao tempo da República Velha (RS).
Original: EM, 07/05/2007

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

PEGANDO PESADO

Já publiquei no BPG um post intitulado “Quem é o animal?”, em que mostrava a foto de um burro atrelado a uma carroça. Com tanta carga se encontrava a carroça que o pobre animal ficava suspenso no ar. Era, portanto, um caso de maus tratos aplicados em um ser irracional, à consideração da Sociedade Protetora dos Animais, como na época eu registrei.
Partindo do princípio de que o leitor não quer exercitar o lado sádico e sim apenas rever a foto, para o tal recordativo eu oriento o leitor a clicar no arquivo de dezembro deste blog e, em seguida, a rolar a página até o dia 15 do mês. LINK
Viu? Agora, a novidade. Parece que a minha crítica tocou o coração do proprietário do animal. A ponto de ele sustentar numa correspondência a mim endereçada que, mercê de algumas medidas simples que adotou, “as coisas já estão melhorando para o burro”. Diz-me o proprietário que “começou por retirar a carroça, pois esta, ao deslocar para si o centro de gravidade do conjunto, é que fazia com que o burro aeroplanasse”. E , para explicar o seu reajuste de conduta, ainda prossegue o proprietário: “Agora, eu ponho a carga diretamente sobre o animal e, deste modo, consigo fazer com que o burro retorne ao solo. E que até dê conta de carretos mais pesados.”


Depois de ver – com olhar analítico – uma foto desses novos tempos de conforto para o burro, que foi enviada juntamente à correspondência, o editor do BPG chegou a seu parecer:
O centro de gravidade realmente retornou ao animal. Mas o editor tem dúvida se o semovente consegue de fato se mover. A menos que o burro saiba, qual o mitológico Anteu, como obter umas forças extras a partir da Terra. Onde, ao que tudo indica, ele voltou a pôr os cascos.
Original: EM, 03/03/2007

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

UM HOMEM EM SUA CARROÇA



Esta cena me embevece pelo bucolismo.
Eu até perdoo o carroceiro se ele, em algum momento, houver chicoteado a mula. Eu falei mula? Então, já coloquei a carroça adiante dos bois.
Eu falei bois? Falei no sentido figurado (claro, não é uma figura?). Porque, olhando bem, existe dúvida quanto ao atrelamento de uma mula, bois ou de qualquer outro animal. E, por isso, não dá nem sequer para saber qual é a força de tração usada na carroça.
Além disto, trata-se de um veículo não emplacado. Não empacado, porém.
Detalhes tão pequenos de uma cena. Compensados plenamente pelo equilíbrio entre os elementos que formam a cena. Um homem, sua carroça...
E deixemos fora disto a sua bagagem.
Original: EM, 23/02/2007

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

HOMEM AO BURACO

Você está num buraco. Trate de reconhecer o ambiente e não se queixe de imediato. Não berre pedindo uma escada, pois não está no sonho de Jacó. Nem peça uma corda. Houve um ditador iraquiano que a pediu. E que aprendeu, tardiamente, que bom era quando estava no buraco. Sem a corda.
Não pule para não irritar com a trepidação os seres subterrâneos. Há uma política de boa vizinhança em curso. O mundo não pode viver sem o húmus que as minhocas produzem.
A visão que tem do céu não é lá essas coisas. É meio restrita, não é?! Além disso, o tempo está nublado, porém é melhor do que ficar a ver buracos negros.
Não bata nas paredes, podem se desmoronar. Não estão escoradas.
E no fundo? Ah, se fosse um buraco para político você encontraria algum gadget. Uma mola, por exemplo, porque buraco onde político fica sempre tem uma mola. Para trazê-lo de volta à superfície.
Lá fora, parece que chegou alguém. Diacho, é um coveiro. Oxalá não seja do tipo que enterra primeiro e só pergunta depois.


Original: EM, 10/02/2007
Post-mortem
"Quando um assassino faz você cavar sua própria sepultura, jogue a areia longe para que ele tenha dificuldades em acabar o serviço." Jonco Stl

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A QUEM PERTENCE O FUTURO

O futuro é algo totalmente irrevelável no presente. Não me venham com jogos de búzios, cartas do tarô, bola de cristal, horóscopos e outras crendices do gênero. Só vamos saber o que o futuro nos reserva quando estivermos lá. Ah, ledo engano, não vamos. Estaremos diante de uma versão updated do presente. A nos dizer que o futuro outra vez mudou de endereço.
O futuro é nômade.
O futuro se desloca o tempo todo como a linha do horizonte.
O futuro, feito a cenoura pendurada na frente da besta, faz com a alimária caminhe sem parar. Sem alcançá-la.
O futuro é como uma caixa preta. Abre-se, encontra-se outra caixa preta. Ad infinitum.
Por isso, faz parte do meu ceticismo desconfiar da futurologia. Não vejo como se possa saber de fatos que ainda vão acontecer. Embora, para não radicalizar sobre o assunto, eu admita existir uma chance – única – para isto ser possível. Um dia, quem sabe, através da revolução tecnológica, a qual sempre nos surpreende.
A propósito, quem está na frente é o Google.


Original: EM, 28/01/2007

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O CORNETEIRO DE PIRAJÁ

Por conta de um recente fato político vem proliferando, na mídia nacional, referências ao corneteiro de Pirajá. Para que fiquemos a par deste assunto, é importante saber o que fez de tão relevante o citado corneteiro.
Consta das estórias da História do Brasil. As veteranas tropas portuguesas na Bahia, que consideravam a independência do Brasil um ato de traição a Portugal, combatiam os bisonhos defensores da nossa nacionalidade. A batalha era em Pirajá, no Recôncavo Baiano. Os portugueses estavam prestes a vencer a refrega. Nisso, ouviram soar no lado brasileiro o “toque de avançar e degolar”, e a seguir perceberam que as nossas tropas estavam a adquirir um ímpeto redobrado de lutar. O sol, que se punha atrás das linhas brasileiras, cegava naquele momento as tropas lusitanas. Não podiam ver, mas suspeitaram de que haviam chegado importantes reforços para os defensores – a cavalaria brasileira! E recuaram das posições já conquistadas, sendo a partir daí levados de vencida pelos brasileiros. Soube-se depois que o indômito corneteiro, de nome Lopes, do seu comandante havia recebido uma outra ordem. A ordem para executar o “toque de retirar”. Mas, por que não a cumpriu? Para responder esta pergunta há duas hipóteses: A primeira que, por puro nervosismo, o corneteiro houvesse se confundido e tocado a música errada. O que, quando se considera a simplicidade melódica de tais musiquinhas, eu particularmente não acredito. A segunda que ele, com melhor visão do cenário futuro no campo de batalha, tenha decidido executar o toque que animou as tropas brasileiras para a vitória final. Por iniciativa própria, portanto. Pela qual melhorou muito a sua biografia, lá isso melhorou. Mas... havendo sido um ato de insubordinação, da qual sobrevieram riscos para os companheiros, não era o caso de o corneteiro Lopes ter sido mandado a uma corte marcial?
Ora, não é de hoje a assertiva de que... tudo está bem quando termina bem.


Original: EM, 09/01/2007