Num lugar distante, existia um Urubu-Rei que, orgulhoso de sua vistosa plumagem, desprezava a companhia dos catartídeos de penas pretas.
"Urubuzinhos sem classe", era como se referia aos nascidos em ninhos sem realeza.
Procurava mostrar-se o mais esnobe possível. Se todos torciam pelo Flamengo, ele, que nunca ia a estádio, era Fluminense. E se a massa disputava com sofreguidão uma carniça qualquer, o que fazia ele? Virava o bico e se mandava para algum lugar afastado, onde pudesse fazer o seu repasto de carne fresca.
A bem da verdade, diga-se, havia ocasiões na vida do Urubu-Rei em que a refeição não andava fácil. (1) Via-se, então, obrigado a enganar a fome, na calada da noite, (2) com as vísceras de algum animal apodrecido.
Certa feita, estando ele em pleno voo, (3) astuciou o plano de fundar uma dinastia. Sim, sendo ele um Urubu-Rei, nada mais justo. Entretanto, havia um problema: onde arranjar uma rainha naquelas paragens em que só dava urubu-malandro? Problemão, sô... de fazer perder as penas do pescoço. (4)
Pôs-se o tempo a passar e nada de o Urubu-Rei arranjar casamento. Até Santo Urubônio que, na qualidade de corretor de casamentos, conhecia a fundo a potencialidade matrimonial da região, recusara a difícil intermediação. "Se aparecer alguma baronesa por aqui, caso eu primeiro", disse o santo. (5)
Mas, um dia, a urucubaca deu sinal de que ia terminar.
Estava o urubu-rei cofiando as coberteiras com o bico, quando teve a atenção voltada para uma movimentação incomum. Perto do galho em que pousava, um bando de zangões perseguia uma Abelha-Rainha em seu voo nupcial. Uma alteza dando sopa (6) bem ali, seria verdade? Alçou voo para conferir: era!
Inscrito de última hora, ele ganhou o pega da Abelha-Rainha sob os protestos da comunidade apídea. Menos da ávida abelhona, com a qual o Urubu-Rei se casou. (7)
E tiveram muitos filhos. (8)
Moral - Noblesse oblige.
(1) Não tinha a renda dos laudêmios de Petrópolis.
(2) No rumor do dia seria flagrado.
(3) Condoreiro.
(4) Nunca as tivera.
(5) Reforço de linguagem.
(6) Aliás, dando mel.
(7) Havia o precedente do Elefante com a Tanajura.
(8) Depois que aderiram ao swing. Não há o projeto de "urubelhas" na Natureza.
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quarta-feira, 24 de julho de 2013
sábado, 2 de fevereiro de 2013
CARTA A UM COMPANHEIRO COQUEIRO
(INTÉRPRETE: P. GURGEL)
Antes de mais nada, agradeço a meu intérprete o fato de conseguir chegar ao lugar em que estou, antes dos bulldozers, serras mecânicas, helicópteros e seus manejadores. Não deve ter sido tarefa fácil. Mas, ao contar-me o que ocorre contigo, caro colega, a notícia já era do meu (nosso) conhecimento: os humanos (ironia!) desconhecem que nós, vegetais, somos abrigo, repouso e ninho de pássaros, e eles, ciosos disso e sinceros em sua gratidão, são nossos amigos e correio. Poderia ter pedido a eles que te transmitissem esta carta; contudo, por querer tornar público meu pensamento e gratificar tão esforçado intérprete, preferi que fosse ele o portador desta missiva.Grato, companheiro, pela solidariedade. Estão nos dizimando aos hectares, sem que os centros de decisão da nação nada ou muito pouco façam em nosso socorro. Aproveitam-se de nossa natural dificuldade, ou melhor, impossibilidade de deslocamento e matam-nos vilmente. Sinto um pouco tua dor solitária, mas nossa dor é maior: vemos nosso vizinho ser golpeado, serrado, derrubado, desfolhado, vemos sua agonia ao ser laçado e conduzido às serrarias, sabedores que seremos os próximos, e que nossos restos serão usados para camas, guarda-roupas, lenha para fogueiras. Nem sequer nossas raízes poderão repousar em paz: os tratores virão inapelavelmente e as arrancarão férrea e insensivelmente.
Dizes que morrer não dói. Concordo(amos). Mas é intensamente doloroso o tempo que decorre entre a sentença e a execução. Não pela expectativa da execução, mas pelo que ocorre neste período. Nossa dor não começa ao vermos os tratores, mas pelos baques surdos de nossos companheiros desabando com uma sonoridade típica de nossa nobre estatura; tua dor se situa nessa ridícula discussão entre "coqueirófilos" e "coqueirófobos". É como o título de uma peça teatral a que meu intérprete assistiu: "Seria cômico se não fosse trágico".
Mas não deves ficar tão preocupado conosco não, companheiro. Só se sente a falta de uma coisa depois que esta coisa está perdida. Deixemos que os humanos se iludam à vontade, mesmo às custas de nossa vida. Porque, depois, eles sentirão nossa falta, quando a vida deles estiver no fim.
Um abraço de um baobá amazônico.
P.S. Agradeço ao baobá a confiança que me dedicou. Espero que os pássaros te digam isso, caso ele não tenha sido já assassinado.
Intérprete: Hugo Barros da Costa (médico)
sábado, 12 de janeiro de 2013
LUCIDEZ, "COQUEIRÓFILOS"!
Hesitei se devia escrever estas linhas, mas como a questiúncula não parece ter fim, decidi-me então.
A coisa, eu conto como a coisa está sendo: há dias, através da imprensa escrita, falada e televisionada, que estão polemizando sobre mim, aquele coqueiro da Varjota que virá abaixo por uma ordem judicial. O motivo de minha condenação, sabido de todos, foi porque, de quando em quando, eu deixo cair cocos e palhas em telhado alheio. Uma contravenção que deu briga de vizinhos e seguiu-se de uma demanda que, ao final, me sentenciou de morte.
Não, não estou aborrecido. Dou minhas palmas à palmatória verdugo dos homens. Se, coqueiro alto, com o tombo de meus cocos, estou a ameaçar o cocuruto das pessoas, assumo pelo fato a responsabilidade, mesmo que essa posição me signifique a morte. Morrer não dói. Mais do que o meu desplante dói o desplante (perdão pelo trocadilho) dos homens.
Árvore, como tal sempre prezei o anonimato - o sereno anonimato de todo ser clorofilado. Foi assim que, ao longo de minha existência, eu dei frutos, sombra e enchi os olhos das pessoas. Tive (e ainda tenho) mais utilidades do que um canivete suíço. Entretanto, não busco o reconhecimento gratulatório. Muito menos virar celebridade e passar meus dias dando autógrafos a sabiás deslumbrados.
Portanto, friso: não quero pechinchar pela minha vida. Aliás, enfastiam-me duas características humanas:
1.ª - O "bedelhismo". O que tem chovido de propostas ("ponham um funil de arame na copa", "armem uma rede proteção para os cocos" etc.) dos que tentam comutar minha pena foi surpreendente. Eu não sabia haver tantos "coqueirófilos" assim. Mas não quero mudar meu way of life.
2.ª - A hipocrisia. De um (hor)ror de gente que busca promoção à minha custa. Babam-me e eu nem coqueiro-babão sou! Virei uma árvore-símbolo, estão me "jurunizando".
Finalizo. A me transformar numa árvore-símbolo (para a catarse dos complexos de culpa humanos) prefiro a morte. Espírito vegetal, irei vaguear junto aos bilhões de outros iguais a mim na Amazônia. Na Amazônia que ninguém liga, pois todos, ou quase todos estão preocupados com suas ecologias de fundo de quintal.
Portanto, senhores, tragam seus machados para que eu os perfume. Sei também ser sândalo.
A coisa, eu conto como a coisa está sendo: há dias, através da imprensa escrita, falada e televisionada, que estão polemizando sobre mim, aquele coqueiro da Varjota que virá abaixo por uma ordem judicial. O motivo de minha condenação, sabido de todos, foi porque, de quando em quando, eu deixo cair cocos e palhas em telhado alheio. Uma contravenção que deu briga de vizinhos e seguiu-se de uma demanda que, ao final, me sentenciou de morte.
Não, não estou aborrecido. Dou minhas palmas à palmatória verdugo dos homens. Se, coqueiro alto, com o tombo de meus cocos, estou a ameaçar o cocuruto das pessoas, assumo pelo fato a responsabilidade, mesmo que essa posição me signifique a morte. Morrer não dói. Mais do que o meu desplante dói o desplante (perdão pelo trocadilho) dos homens.
Árvore, como tal sempre prezei o anonimato - o sereno anonimato de todo ser clorofilado. Foi assim que, ao longo de minha existência, eu dei frutos, sombra e enchi os olhos das pessoas. Tive (e ainda tenho) mais utilidades do que um canivete suíço. Entretanto, não busco o reconhecimento gratulatório. Muito menos virar celebridade e passar meus dias dando autógrafos a sabiás deslumbrados.
Portanto, friso: não quero pechinchar pela minha vida. Aliás, enfastiam-me duas características humanas:
1.ª - O "bedelhismo". O que tem chovido de propostas ("ponham um funil de arame na copa", "armem uma rede proteção para os cocos" etc.) dos que tentam comutar minha pena foi surpreendente. Eu não sabia haver tantos "coqueirófilos" assim. Mas não quero mudar meu way of life.
2.ª - A hipocrisia. De um (hor)ror de gente que busca promoção à minha custa. Babam-me e eu nem coqueiro-babão sou! Virei uma árvore-símbolo, estão me "jurunizando".
Finalizo. A me transformar numa árvore-símbolo (para a catarse dos complexos de culpa humanos) prefiro a morte. Espírito vegetal, irei vaguear junto aos bilhões de outros iguais a mim na Amazônia. Na Amazônia que ninguém liga, pois todos, ou quase todos estão preocupados com suas ecologias de fundo de quintal.
Portanto, senhores, tragam seus machados para que eu os perfume. Sei também ser sândalo.
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sábado, 5 de janeiro de 2013
UM DIA NA VIDA DE J. NATURA, O ECÓLOGO
Domingo. J. Natura, ainda sonolento, dirige-se à janela do "apto" para concluir o seu despertar. Nada como iniciar o dia enchendo o peito da boa brisa que vem do Parque do Cocó.
Escova os dentes com raspas de juazeiro e mete-se numa ducha fria e rápida. O sabonete biodegradável deixa-lhe um frescor bio-agradável na pele.
Passa um antitranspirante nas axilas. De bastão, pois detesta qualquer desodorante em spray. Sabido é que o spray tem fluorocarbonos que podem afetar a camada de ozônio da atmosfera.
Apanha a roupa passada num armário onde passeiam baratinhas jamais dedetizadas. Vai-se vestindo.
Antes de deixar o quarto, tem tempo de olhar, enternecido, para um pôster na parede, que mostra um filhote de foca nos braços protetores da Brigitte Bardot.
Na cozinha, enquanto apronta o desjejum, ouve rádio. Volume baixo, a menos de 50 decibéis para não ocasionar sobrecarga acústica.
O desjejum: pão de trigo integral e chá de artemísia adoçado com açúcar mascavo. Findo o repasto, noz vômica, a homeopatiazinha para a hipocondria de sempre.
Desce ao térreo. Estacionado entre os pilotis do edifício, o seu fusca a álcool. Comprado numa decisão sábia de não poluir as ruas com chumbo tetra-etila, produto tóxico existente na gasolina.
Ruma para a feira de pássaros do Jardim América., onde J. Natura circula, comprando avezinhas canoras: canários belgas, campinas, periquitos australianos, corrupiões e tudo mais que pipila.
Depois, fora da cidade, liberdade para os emplumadinhos. Solta-os um a um, tendo o cuidado de destruir as gaiolas no final.
O campo! Dependesse dele ficaria mais tempo por lá, a oxigenar os pulmões. Entretanto, tem compromisso marcado para logo mais na Praia do Futuro: coletar, ajudado por amigos, o piche que enfeia aquela praia.
Assim, enche sacos e mais sacos da pegajosa substância, com o plano de levá-los no dia seguinte às autoridades portuárias. Uma espécie de protesto.
Trégua nessa guerra ecológica somente acontece de noite, à hora de dormir. Mas, diabos, J. Natura tem mau sonhar: vê-se em alto mar, arpoando baleias. Que pesadelo, sô!
Escova os dentes com raspas de juazeiro e mete-se numa ducha fria e rápida. O sabonete biodegradável deixa-lhe um frescor bio-agradável na pele.
Passa um antitranspirante nas axilas. De bastão, pois detesta qualquer desodorante em spray. Sabido é que o spray tem fluorocarbonos que podem afetar a camada de ozônio da atmosfera.
Apanha a roupa passada num armário onde passeiam baratinhas jamais dedetizadas. Vai-se vestindo.
Antes de deixar o quarto, tem tempo de olhar, enternecido, para um pôster na parede, que mostra um filhote de foca nos braços protetores da Brigitte Bardot.
Na cozinha, enquanto apronta o desjejum, ouve rádio. Volume baixo, a menos de 50 decibéis para não ocasionar sobrecarga acústica.
O desjejum: pão de trigo integral e chá de artemísia adoçado com açúcar mascavo. Findo o repasto, noz vômica, a homeopatiazinha para a hipocondria de sempre.
Desce ao térreo. Estacionado entre os pilotis do edifício, o seu fusca a álcool. Comprado numa decisão sábia de não poluir as ruas com chumbo tetra-etila, produto tóxico existente na gasolina.
Ruma para a feira de pássaros do Jardim América., onde J. Natura circula, comprando avezinhas canoras: canários belgas, campinas, periquitos australianos, corrupiões e tudo mais que pipila.
Depois, fora da cidade, liberdade para os emplumadinhos. Solta-os um a um, tendo o cuidado de destruir as gaiolas no final.
O campo! Dependesse dele ficaria mais tempo por lá, a oxigenar os pulmões. Entretanto, tem compromisso marcado para logo mais na Praia do Futuro: coletar, ajudado por amigos, o piche que enfeia aquela praia.
Assim, enche sacos e mais sacos da pegajosa substância, com o plano de levá-los no dia seguinte às autoridades portuárias. Uma espécie de protesto.
Trégua nessa guerra ecológica somente acontece de noite, à hora de dormir. Mas, diabos, J. Natura tem mau sonhar: vê-se em alto mar, arpoando baleias. Que pesadelo, sô!
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
GURGELZIM E A ARTE DO DESENCONTRO
Cês se recordam de Gurgelzim, o desventurado, que, tempos atrás, se entreteve com uma beldade na Praia dos Diários?
Jogando uma onda fria na memória de todos, lembro que houve um flerte – unilateral, é verdade – mas não de todo encerrado, pois ficou para o nosso herói trapalhão um número de telefone do mais alto significado: o do telefone dela.
A ligação mil vezes tentada, mil vezes não conseguida. Nosso herói bufo, horas a fio, enrodilhado em outro fio, o do telefone, numa patética busca da voz amada.
Pessoas cariteiras (caridosas+palpiteiras) chamaram-lhe a atenção. Talvez houvesse algum engano na ordem dos números. Então, Gurgelzim, novamente horas a fio (de alta tensão), combinando e recombinando os números ao telefone. Também nada.
Pensou contratar um detetive particular: fez; planejou consultar uma cartomante: também fez. Mas, esses profissionais pareciam trabalhar em sentidos opostos, pois enquanto o detetive seguia uma pista que ia dar na filha de um açougueiro na Serrinha, a cartomante decifrava nas cartas a viúva de um pescador no Mucuripe. No final, não era carne nem era peixe.
Nessa altura, Gurgelzim era a própria imagem da desolação. De vestes em “desaseda”, barba de doze-horas-sem-fazer, já andava para lá de “píssico”. E passou a ter insônia. Uma insônia rebelde a todo medicamento, colírio de Dienpax inclusive.
Gurgelzim tinha querenças: um espelhinho com o escudo do Flamengo de muita utilidade para o pentear-se e uma esparramada samambaia de plástico que oxigenava seu quarto-e-sala de solteiro. Pois bem, as coisas andavam tão às canhas que o primeiro, como que prenunciando sete anos de azar, havia se quebrado e a segunda fazia um tempão que não levava água.
Pessoas palpidosas (palpiteiras+caridosas), temendo que sua vida estivesse por um triz (ou por um trim), aconselharam-no a ler Khalil Gibran, Lobsang Rampa e outros bálsamos para o espírito. Valeram, pois o nosso herói truão saiu depressinha de uma depressão, daquelas que levam o ser humano ao coquetel Jim Jones (fanta+cianureto).
Além de sair do pântano do baixo astral puxando-se pelos próprios cabelos, Gurgelzim, de forças retemperadas, mudou de mentalidade no plano sentimental. Entendeu que, se não deveria renunciar a tudo feito um “janinho” qualquer, também não deveria se obstinar por causa de uma quimera. Cabeça desaquecida, fosse o que os orixás quisessem.
Não é que deu quase certo. Fez o acaso com que eles, numa rua estórica, se cruzassem. Ela, num vistoso vestido amarelo, a passar esplendorosa quase roçando nele, na direita dele. Numa ocasião em que Gurgelzim" olhava com fixidez para a esquerda, por causa de um maldito torcicolo.
Jogando uma onda fria na memória de todos, lembro que houve um flerte – unilateral, é verdade – mas não de todo encerrado, pois ficou para o nosso herói trapalhão um número de telefone do mais alto significado: o do telefone dela.
A ligação mil vezes tentada, mil vezes não conseguida. Nosso herói bufo, horas a fio, enrodilhado em outro fio, o do telefone, numa patética busca da voz amada.
Pessoas cariteiras (caridosas+palpiteiras) chamaram-lhe a atenção. Talvez houvesse algum engano na ordem dos números. Então, Gurgelzim, novamente horas a fio (de alta tensão), combinando e recombinando os números ao telefone. Também nada.
Pensou contratar um detetive particular: fez; planejou consultar uma cartomante: também fez. Mas, esses profissionais pareciam trabalhar em sentidos opostos, pois enquanto o detetive seguia uma pista que ia dar na filha de um açougueiro na Serrinha, a cartomante decifrava nas cartas a viúva de um pescador no Mucuripe. No final, não era carne nem era peixe.
Nessa altura, Gurgelzim era a própria imagem da desolação. De vestes em “desaseda”, barba de doze-horas-sem-fazer, já andava para lá de “píssico”. E passou a ter insônia. Uma insônia rebelde a todo medicamento, colírio de Dienpax inclusive.
Gurgelzim tinha querenças: um espelhinho com o escudo do Flamengo de muita utilidade para o pentear-se e uma esparramada samambaia de plástico que oxigenava seu quarto-e-sala de solteiro. Pois bem, as coisas andavam tão às canhas que o primeiro, como que prenunciando sete anos de azar, havia se quebrado e a segunda fazia um tempão que não levava água.
Pessoas palpidosas (palpiteiras+caridosas), temendo que sua vida estivesse por um triz (ou por um trim), aconselharam-no a ler Khalil Gibran, Lobsang Rampa e outros bálsamos para o espírito. Valeram, pois o nosso herói truão saiu depressinha de uma depressão, daquelas que levam o ser humano ao coquetel Jim Jones (fanta+cianureto).
Além de sair do pântano do baixo astral puxando-se pelos próprios cabelos, Gurgelzim, de forças retemperadas, mudou de mentalidade no plano sentimental. Entendeu que, se não deveria renunciar a tudo feito um “janinho” qualquer, também não deveria se obstinar por causa de uma quimera. Cabeça desaquecida, fosse o que os orixás quisessem.
Não é que deu quase certo. Fez o acaso com que eles, numa rua estórica, se cruzassem. Ela, num vistoso vestido amarelo, a passar esplendorosa quase roçando nele, na direita dele. Numa ocasião em que Gurgelzim" olhava com fixidez para a esquerda, por causa de um maldito torcicolo.
domingo, 11 de janeiro de 2009
VOO BALDEADO
Paris, um ano qualquer. Via-me dentro de um avião que me levaria de volta ao Rio.
Naquela manhã úmida, enquanto aguardava a decolagem, distraía-me olhando as pessoas que, numa das laterais da pista, punham vapores pela boca: falavam. Antevendo o tipo de viagem que eu faria um frisson percorreu-me a espinha. Eu, passageiro único de um longo vôo internacional Paris-Rio.
Desejei ter alguma companhia durante a viagem: nem que fosse um palestino com granadas no cinto ou, então, Allien, o oitavo passageiro. Melhor do que curtir uma solidão que já se prenunciava troposférica.
Subiu um tipo no avião. Franzino, usava um chapelão que me pareceu démodé. Mastigou um bonjour qualquer quando passou por mim e dirigiu-se à cabina de comando: era o piloto. Pôs-se a mexer chaves, botões e manivelas de modo a estremecer toda a aeronave. E a cuja foi ganhando velocidade, ganhando velocidade até que... se desgrudou do chão. No ato, fui transferido para duas poltronas atrás por meio de um salto simples mortal.
A equipagem do avião era constituída apenas pelo piloto e, por conseguinte, não havia aeromoças com acepipes para a gente duplamente beliscar. Ele, sozinho, não podia também se dar ao luxo de ir até o michel, se necessidade tivesse. Anotei outras dificuldades a bordo: ruído da pesada ao invés de uma música leve; inexistência de jornais para a leitura do horóscopo; sacos que vomitavam no próprio freguês etc.
Fui suportando. De antemão eu sabia (desde que comprara a passagem a um agente de viagens por um preço bem camarada) que o voo seria na classe econômica. E tomara algumas precauções, como a de levar uma lata de galinha com farofa.
O avião devia estar voando bastante baixo pois, num curto intervalo de tempo, foram de encontro a meus óculos um mané-magro e um besouro-do-cão.
Houve um instante em que cambaleei até a cabina de comando para oferecer ao piloto uma asa da galinha. Recusou. Quieto, caladão, ele mais parecia um mineiro. Pude então ver quão sub-utilizado era o painel do avião: o único instrumento que o pilotinho consultava, o tempo todo, era um curioso aparelho de dois (ou três?) ponteiros, o qual estava no pulso dele, lembro-me agora.
Surpresa das surpresas! O (meu) avião, com um accomplissement de fazer inveja aos concordes da vida, já estava pousando em sua primeira escala. Presumi ser Lisboa. Mas, não, era solo francês ainda. Saint-Cloud, um dos arredores de Paris, como mais tarde vim a saber.
A máquina-voadora parou, mas a estória é que não. Baixou um santo serelepe no “aeromaquinista” a ponto de ele, transfigurado, saltar do avião para os braços de um povinho que se formava no descampado, perdão, no aeroporto econômico. Levado com “hurras”, qual um técnico de time campeão, nunca mais tive notícias dele.
Começar de novo a viagem. Com a diferença que agora eu não tinha mais l’argent. Na França, pior de tudo, não existe como no Brasil uma “Lei dos Estrangeiros”. Dessas que, após uma declaração política, brindam o cidadão estrangeiro com uma passagem aérea de volta a seu país.
Então, procurei a Embaixada do Brasil. (Com os pobres de Paris aprendi essa lição.)
O embaixador, um cara legal, que considerava o Brasil a sua segunda pátria, valeu-me na dificuldade. E despachou-me para o Rio, a tempo de pegar a feijoada do sábado, num voo de outra empresa. Bem diferente da primeira que operava somente com um 14-bis.
Naquela manhã úmida, enquanto aguardava a decolagem, distraía-me olhando as pessoas que, numa das laterais da pista, punham vapores pela boca: falavam. Antevendo o tipo de viagem que eu faria um frisson percorreu-me a espinha. Eu, passageiro único de um longo vôo internacional Paris-Rio.
Desejei ter alguma companhia durante a viagem: nem que fosse um palestino com granadas no cinto ou, então, Allien, o oitavo passageiro. Melhor do que curtir uma solidão que já se prenunciava troposférica.
Subiu um tipo no avião. Franzino, usava um chapelão que me pareceu démodé. Mastigou um bonjour qualquer quando passou por mim e dirigiu-se à cabina de comando: era o piloto. Pôs-se a mexer chaves, botões e manivelas de modo a estremecer toda a aeronave. E a cuja foi ganhando velocidade, ganhando velocidade até que... se desgrudou do chão. No ato, fui transferido para duas poltronas atrás por meio de um salto simples mortal.
A equipagem do avião era constituída apenas pelo piloto e, por conseguinte, não havia aeromoças com acepipes para a gente duplamente beliscar. Ele, sozinho, não podia também se dar ao luxo de ir até o michel, se necessidade tivesse. Anotei outras dificuldades a bordo: ruído da pesada ao invés de uma música leve; inexistência de jornais para a leitura do horóscopo; sacos que vomitavam no próprio freguês etc.
Fui suportando. De antemão eu sabia (desde que comprara a passagem a um agente de viagens por um preço bem camarada) que o voo seria na classe econômica. E tomara algumas precauções, como a de levar uma lata de galinha com farofa.
O avião devia estar voando bastante baixo pois, num curto intervalo de tempo, foram de encontro a meus óculos um mané-magro e um besouro-do-cão.
Houve um instante em que cambaleei até a cabina de comando para oferecer ao piloto uma asa da galinha. Recusou. Quieto, caladão, ele mais parecia um mineiro. Pude então ver quão sub-utilizado era o painel do avião: o único instrumento que o pilotinho consultava, o tempo todo, era um curioso aparelho de dois (ou três?) ponteiros, o qual estava no pulso dele, lembro-me agora.
Surpresa das surpresas! O (meu) avião, com um accomplissement de fazer inveja aos concordes da vida, já estava pousando em sua primeira escala. Presumi ser Lisboa. Mas, não, era solo francês ainda. Saint-Cloud, um dos arredores de Paris, como mais tarde vim a saber.
A máquina-voadora parou, mas a estória é que não. Baixou um santo serelepe no “aeromaquinista” a ponto de ele, transfigurado, saltar do avião para os braços de um povinho que se formava no descampado, perdão, no aeroporto econômico. Levado com “hurras”, qual um técnico de time campeão, nunca mais tive notícias dele.
Começar de novo a viagem. Com a diferença que agora eu não tinha mais l’argent. Na França, pior de tudo, não existe como no Brasil uma “Lei dos Estrangeiros”. Dessas que, após uma declaração política, brindam o cidadão estrangeiro com uma passagem aérea de volta a seu país.
Então, procurei a Embaixada do Brasil. (Com os pobres de Paris aprendi essa lição.)
O embaixador, um cara legal, que considerava o Brasil a sua segunda pátria, valeu-me na dificuldade. E despachou-me para o Rio, a tempo de pegar a feijoada do sábado, num voo de outra empresa. Bem diferente da primeira que operava somente com um 14-bis.
(escrito em 1981, revisado em 2009)
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
SOL, PRAIA... AÇÃO
Ir à praia é uma das formas de combater a solidão. Há uma impressão – errônea! – de que é o contrário, quando se observa o comportamento dos primeiros banhistas da manhã. Cada um, tacitamente, demarca uma espécie de lote de terreno particular. Entretanto, com o passar das horas, ninguém se constrange de ver o lotezinho repartido com mais e mais banhistas que vão afluindo. Até que, por volta do meio-dia, cada qual cuida de um minifúndio que só dá para plantar o próprio traseiro. Essa falta de espaço, longe de incomodar, é motivo de regozijo geral pois, onde há pessoas apinhadas, há condições favoráveis para o atamento de novas amizades. E todos blefam a solidão: tal é a confraria balneária.
Gurgelzim, assim que entendeu esse fenômeno psicossocial, vestiu um calção de banho e foi à prática. Chegou cedo – ainda com pouca gente por lá – à Praia dos Diários. Atraído por um biquíni amarelo com cadarços nas laterais, procurou se posicionar bem naquela manhã praiana. Querendo ser discreto, mas não ignorado, foi quedar perto da moça do biquíni, numa pontinha da esteira dela. Uma aproximação entre desconhecidos costuma requerer certo timing, menos para Gurgelzim que sabe ser, como ninguém, agradável. Capaz de soltar as amarras de qualquer pessoa, empregando tão somente o papo espirituoso e, além disso, originalíssimo.
Gurgelzim, assim que entendeu esse fenômeno psicossocial, vestiu um calção de banho e foi à prática. Chegou cedo – ainda com pouca gente por lá – à Praia dos Diários. Atraído por um biquíni amarelo com cadarços nas laterais, procurou se posicionar bem naquela manhã praiana. Querendo ser discreto, mas não ignorado, foi quedar perto da moça do biquíni, numa pontinha da esteira dela. Uma aproximação entre desconhecidos costuma requerer certo timing, menos para Gurgelzim que sabe ser, como ninguém, agradável. Capaz de soltar as amarras de qualquer pessoa, empregando tão somente o papo espirituoso e, além disso, originalíssimo.
1ª ação

“Já nos conhecemos de algum lugar?”
“Não”, respondeu a de biquíni.
“Acho que sim... de uma fila do INAMPS.”
“Nunca estive doente.”
“Nem eu”, troçou (com cedilha) o de calção, enquanto apertava a barriga para dissipar uma cólica de momento.
Como a beldade fizesse a menção de ir a um mergulho, Gurgelzim ofereceu-se para ir junto. Mas, ante um pedido dela, aquiesceu ficar no local tomando de conta de uma escova de cabelos. Demorou só uma hora.
2ª ação
Gurgelzim falou sobre violência urbana, bebê de proveta, caça à baleia, plenilúnio, Triângulo das Bermudas, Cachoeira de Paulo Afonso e outras cascatas. Foi notado o interesse dela quando a “conversa” descambou para pneumotórax espontâneo, pois, na ocasião, ela disse “Hum...” e foi para um novo mergulho. Gurgelzim continuou sentado, apreciando uma pesca de arrastão. À distância... porque tinha de cuidar da escova de cabelos. (Ah! A Natureza sempre tão pródiga, enchendo a rede dos pescadores de latas de cerveja, copos de plástico e frascos de bronzeador...) Demorou só duas horas.
3ª ação
Gurgelzim falou sobre cultivo de samambaias, metrô do Rio, Guerra dos Mascates, ritos de cremação, Ionesco, Besta do Apocalipse e outras coisas bestas. Ela participou vivamente do “interlóquio”, à maneira própria, coçando o nariz descascado pelo sol da praia. Justamente quando Gurgelzim contava uma anedota bem picante (fonte: revista Família Cristã), ela o interrompeu com a notícia de que ia mudar de ponto na praia. “Por causa dos raios solares, como eles estão incidindo aqui”, explicou. Pegou seus pertences, a escova de cabelos inclusive, e despediu-se com um beijo a apenas 15 cm (quinze centímetros) do rosto de Gurgelzim. Afastou-se, lindona, em seu biquíni amarelo que combinava com os sapatos altos da mesma cor.
Ação Final
Uma garota de conversa tão aberta, amistosa, não é de se esquecer facilmente. E Gurgelzim, um sentimental, ficou (re)mexido. Princípio de paixão? Talvez. O fato é que, desde então, Gurgelzim tem sentido uma dor no peito que nem com emplastro Sabiá passa. Se, ao menos, para um pouco de fetichismo, houvesse retido alguma lembrancinha dela... A escova de cabelos? Que nada! Ele ficou apenas com um número de telefone, que “num” ajuda, pois anda eternamente fora do gancho. Feito alguém.
A RUA GURGELZIM
Tipo interessante o Paula Ney. Fez muita boemia, alguma poesia e... virou nome de rua na Aldeota. Na Aldeota Leste. Há quem credite o fato à coquetterie da expressão “loura desposada do sol” que cunhou para Fortaleza, numa ocasião em que estava acometido do Sonetococcus brasiliensis.
Não vou, entretanto, generalizar. Muita gente também pegou o tal germe e não emplacou. Talvez por falta de febre e de delírio. Ou de sorte, como Gurgelzim, um azarão (por enquanto).
Antes que eu esqueça: Gurgelzim, apesar do que o nome possa sugerir, não é meu parente: fomos apresentados num espelho casual. Mas, conheço-o bem. Sei dos seus sonhos (desvirtuados), dos seus projetos (irrealizados) e, por conseguinte, do que mais precisa: de solidariedade humana. Uma qualidade, por sinal, que eu tenho bastante quando (me) reflito.
Assim, se Gurgelzim tem o desejo de virar nome de avenida, rua, travessa ou beco (nesta ordem de prioridade), diligencio para que ele seja atendido. Nem que eu tenha de fazer uma campanha do tipo RECONHECIMENTO URBANO PARA GURGELZIM!
Aliás, um reconhecimento desses já andou perto. No tempo em que Gurgelzim freqüentava o Rhuinas, um bar na Praia do Futuro, que lisonjeava seus clientes – os mais madrugadores – pondo os nomes deles em placas, que eram colocadas em suas paredes como se ruas fossem. Infelizmente não deu, pois o Rhuinas, antes do que se previa, teve o destino do próprio nome. Uma Pompéia irresgatável... para sempre.
Dia virá em que a coisa muda: confio nele. Desprende-se-lhe um pino qualquer e ele “estoura” em Fortaleza. Pode ser muito bem através de um soneto, feito em dia de sol crescente, com alumbramento comparável ao de Paula Ney.
A sorte está lançada. Ou melhor, laçada; com ela nas mãos a campanha ganhará a rua (em/de dois sentidos). Gurgelzim não pode continuar na lista telefônica como um mero assinante.
E tem mais: os vereadores de nossa cidade não faltarão com o indispensável apoio, acredito. Eles são tão eficientes nessas amenidades...
Não vou, entretanto, generalizar. Muita gente também pegou o tal germe e não emplacou. Talvez por falta de febre e de delírio. Ou de sorte, como Gurgelzim, um azarão (por enquanto).
Antes que eu esqueça: Gurgelzim, apesar do que o nome possa sugerir, não é meu parente: fomos apresentados num espelho casual. Mas, conheço-o bem. Sei dos seus sonhos (desvirtuados), dos seus projetos (irrealizados) e, por conseguinte, do que mais precisa: de solidariedade humana. Uma qualidade, por sinal, que eu tenho bastante quando (me) reflito.
Assim, se Gurgelzim tem o desejo de virar nome de avenida, rua, travessa ou beco (nesta ordem de prioridade), diligencio para que ele seja atendido. Nem que eu tenha de fazer uma campanha do tipo RECONHECIMENTO URBANO PARA GURGELZIM!
Aliás, um reconhecimento desses já andou perto. No tempo em que Gurgelzim freqüentava o Rhuinas, um bar na Praia do Futuro, que lisonjeava seus clientes – os mais madrugadores – pondo os nomes deles em placas, que eram colocadas em suas paredes como se ruas fossem. Infelizmente não deu, pois o Rhuinas, antes do que se previa, teve o destino do próprio nome. Uma Pompéia irresgatável... para sempre.
Dia virá em que a coisa muda: confio nele. Desprende-se-lhe um pino qualquer e ele “estoura” em Fortaleza. Pode ser muito bem através de um soneto, feito em dia de sol crescente, com alumbramento comparável ao de Paula Ney.
A sorte está lançada. Ou melhor, laçada; com ela nas mãos a campanha ganhará a rua (em/de dois sentidos). Gurgelzim não pode continuar na lista telefônica como um mero assinante.
E tem mais: os vereadores de nossa cidade não faltarão com o indispensável apoio, acredito. Eles são tão eficientes nessas amenidades...
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
POEMA ANTIESPORTIVO
E foi tudo pra nada:
O passe recebido
O drible aplaudido
A zaga deslocada.
E foi tudo pra nada:
O pique empreendido
O guardião batido
A meta escancarada.
E foi tudo pra nada:
O chute esfusiante
A rede de barbante
Com a bola encaçapada.
E foi tudo pra nada:
O urro, o murro ao vento
A façanha do tento
A torcida ouriçada.
E foi tudo pra nada:
O heróico gol de placa
Se o teu time, ó panaca
É o pior da temporada.
O passe recebido
O drible aplaudido
A zaga deslocada.
E foi tudo pra nada:
O pique empreendido
O guardião batido
A meta escancarada.
E foi tudo pra nada:
O chute esfusiante
A rede de barbante
Com a bola encaçapada.
E foi tudo pra nada:
O urro, o murro ao vento
A façanha do tento
A torcida ouriçada.
E foi tudo pra nada:
O heróico gol de placa
Se o teu time, ó panaca
É o pior da temporada.
domingo, 21 de dezembro de 2008
VAN GOGH
Van Gogh, pintor holandês
Desconcertado, uma vez
Teve uma bem estrambótica
Idéia - a ver com a óptica
Confusa com que se via
U'a carcaça sem valia.
Então, insano pensar!
Decidiu ele amputar
Uma das orelhas suas.
(E pinçou uma das duas
Para passar o cutelo.)
Depois, achando-se belo
Pintou um autorretrato
Na verdade, um caricato
A que faltava algo vivo:
O pavilhão auditivo
Que ficou com a sina torta
De ser... natureza-morta.
24/08/2023 (quinze anos depois)
Desconcertado, uma vez
Teve uma bem estrambótica
Idéia - a ver com a óptica
Confusa com que se via
U'a carcaça sem valia.
Então, insano pensar!
Decidiu ele amputar
Uma das orelhas suas.
(E pinçou uma das duas
Para passar o cutelo.)
Depois, achando-se belo
Pintou um autorretrato
Na verdade, um caricato
A que faltava algo vivo:
O pavilhão auditivo
Que ficou com a sina torta
De ser... natureza-morta.
24/08/2023 (quinze anos depois)
Acabo de comprar uma mesa de centro Van Gogh. Está em bom estado, embora falte um pouco de verniz. (David Penfold)
Resposta - O senhor teve sorte. Eu já comprei no sebo um livro sobre a vida e a obra desse pintor e quando fui ler o exemplar que adquiri faltava uma das orelhas. (PGCS)
Resposta - O senhor teve sorte. Eu já comprei no sebo um livro sobre a vida e a obra desse pintor e quando fui ler o exemplar que adquiri faltava uma das orelhas. (PGCS)
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