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sexta-feira, 15 de junho de 2012

APRECIAÇÃO LITERÁRIA SOBRE "MEMÓRIAS DE BOTEQUIM"

por Paulo Gurgel Carlos da Silva
Airton Monte é um nome em ascensão na literatura cearense. Membro do Grupo Siriará de Literatura, vem tendo uma militância admirável no conto e na poesia. Assim é que já participou de várias antologias, nestes dois gêneros literários ("Ver-de-Versos", uma delas), publicou "O Grande Pânico" (livro de contos com circulação nacional), e, mais recentemente, integra o conselho editorial do Arsenal de Literatura, que acondiciona literatura e artes visuais.
Com mais uma publicação, reaparece Airton: "Memórias de Botequim", um livro de poemas editado pela Imprensa Oficial do Ceará, sob os auspícios da Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará. Uma obra que encerra (ou melhor: descerra) cinquenta poemas de talhes diversos.
"Memórias de Botequim", o título descontraído da obra funciona como uma espécie de cortina de fumaça. Encobre seriedades: DO AUTOR, na eterna busca de reconhecer a si próprio ("vago ser"), no anseio de traduzir para o plano verbal os reclamos de seus "fragmentos corporais" (olhos, mãos, coração etc.); entretanto, longe de ficar numa contemplação estática, ele abre os olhos, prepara os punhos, acelera o coração e energiza-se para bradar, gritar e, enfim, lutar. DO-SEU-UNIVERSO-ALÉM-DA-PELE, quando diz: "Eu, poeta, muito tenho a ver com tudo que me cerca" e, confessando que "ama os malditos", personifica o bêbado, o mendigo, o louco, o suicida, o sonâmbulo, o epiléptico. Interessa-lhe ir além do prazer estético da poesia: chegar à denúncia social. Seu discurso poético é nítido, sem palavras maquiadas e, por vezes, a exorcizar o poeta romântico que um dia foi. Sem aura romântica, sua preocupação maior é agora forjar uma poesia comprometida com a época atual, dita cruel.
O autor tem turbulências, questionamentos. Sobre a poesia ("trabalhinho sujo"): o que fez ela até hoje pela "multidão de deserdados"? Tem medo, angústias, tédios, o renitente conflituar com a vida, esse "ato cruel e necessário". Mas, se a vida é-lhe cruel porque o conduz ao cansaço, à estagnação, à subterraneidade, por outro lado, compromete-se com ela. Com ser Orfeu, reencarnado.
Acima de tudo, Airton tem afetos: Fernando Pessoa, Hemingway, Vinicius, Marilyn, Noel Rosa, James Dean, Garrincha (que o ensinou a sonhar) e, principalmente, sua esposa e filhos. Estes últimos inspiram-no a poemas enternecidos.
Finalmente, deixo que seus versos falem (por mim) na pequena, mas expressiva, seleta que se segue:
"Que poesia é essa que se esvai no copo / presa à mão crispada deste homem meio bêbado?"
"A hora arrasta-se devagar como um enterro / presa à imobilidade de um relógio quebrado."
"Vou catando saudades como quem cata piolhos /na cabeleira do tempo."
"Se existe o medo é porque existem / pessoas dispostas a sentir medo."
"Ninguém deve se atrever a seguir a rota do poema / porque ele está vazando medo e ódio e tédio / neste banquete imaginário em que estou só / discursando para as toalhas e os pratos."
"Me derramo no seu ventre num parto avesso."
"Descobri, por exemplo / que ter 23 anos é como ir morrendo aos poucos / que a manhã afia suas navalhas / no apito renitente das fábricas."
"Um homem esvazia-se como um balão furado / pelos buracos abertos na cabeça."
"Todos os antepassados / estão gritando das fotografias."
"Sei que estou sozinho / feito um pingo de tinta solto num arco-íris."
"Eternamente preso à dúvida atroz / entre o ir e o não-ir / entre explodir o mundo detestado / ou beber como um danado / a mágoa de um tempo inutilmente rápido."
"Súbito um grito: uma nuvem gritou."
"Poder te possuir despudoradamente / como um arado possui a mulher terra."

Publicado em "A Ferragista" de junho de 1981

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A CRÍTICA INÉDITA SOBRE A OBRA LITERÁRIA DE PAULO GURGEL

PAULO GURGEL: HUMORISTA E POETA
O médico, poeta e humorista Paulo Gurgel é também ficcionista nas horas vagas. E horas vagas para ele é o tempo disponível entre a profissão, a poesia e o violão. Que me desculpem a rima. Mas o ritmo poético e o acorde acordam nesse homem o humor, que o pratica com grande sobriedade e agudo senso crítico. Sensível à beleza artística, é um expert da criatividade.
Vez por outra, nos mostra nos suplementos literários a dimensão de seu talento inventivo numa simples crônica ou estória engraçada. Diríamos, mas propriamente, de fino humor, onde a ironia desponta aguda, ferina, insinuante, inusitada. É este o poeta que temos agora em mãos, participante de duas antologias, a primeira datada de 1981, VERDEVERSOS, e a segunda com o título ENCONTRAM-SE, do ano em curso.
A publicação dos livros mencionados é da responsabilidade do Centro Médico Cearense, e na primeira antologia nada menos de dez figurantes são encontrados. Na segunda, a lista estica para quatorze. E isto prova que, se a coisa pega, vamos longe. Médicos escrevendo poesia? - ora direis os tolos! E nós respondemos que é o que de melhor pode acontecer nos dias de hoje. Há os males do corpo e os da alma. Os nossos médicos-poetas cuidam dos dois. E em nosso meio já temos cultores das musas de alto nível, de nome nacional, como Airton Monte e Caetano Ximenes Aragão, para citar apenas dois do VERDEVERSOS, sem contar com Pedro Henrique Saraiva Leão, que saiu do movimento concreto do Ceará, lançado em 1957, e que não está incluído entre aqueles poetas.
Mas, o que vem a ser a poesia de Paulo Gurgel? O humor estaria ausente? Não. E até isto se nota em sua minibiografia. Vejamos: "Detesto ser levado a sério; o contrário, também." Em outra passagem o temos assim: "Amante dos livros, dois deles marcariam-lhe profundamente a juventude: 'Os Lusíadas', de Homero, e 'Ilíada", de Camões." (O grifo é nosso, mas a afirmação é dele.) "Abriram-lhe tanto a visão que fez um exame de vista sem que o oculista lhe dilatasse a pupila."
Isso são trechos esparsos de sua minibiografia (que não é tão mínima assim). O humor também invade a prosa desse cartunista da palavra e da imagem poética, que nos deu apenas o espaço do quarto minguante para redigir estas palavras: "Quero só quatro linhas para botar num livro". E aí estão mais que "quatro palavras" que, contudo, não dão ainda para fazer um juízo crítico de seus trabalhos inseridos nas publicações já referidas. Mas não podemos fechar esta nota sem antes dar ao público uma demonstração de sua criatividade poética:
"Que anjos são esses
Que se nutrem da celestial ambrósia
Mas que não diligenciam
Quando mastigo cogumelos venenosos?"
Humor cáustico, mas humor, também aqui se vê. E só ele, entre nós, o faz com tanta autenticidade assim. Vamos à frente, poeta; não há retorno para nada. O que está morto está perdido. Às bruxas o passado e o louro dos herois.

José Alcides Pinto fez essa apreciação em 1983, a respeito do trabalho literário de Paulo Gurgel, entregando a este uma cópia para a publicação, o que só acontece agora.

PECULIAR APRECIAÇÃO DO LIVRO "SOBRE TODAS AS COISAS" EDITADO PELA SOBRAMES - CEARÁ
Chegou-me às mãos, por gentileza de Geraldo Bezerra (45), o livro SOBRE TODAS AS COISAS - EDIÇÃO CONJUNTA - SOBRAMES/CE (1). Então, eu li Celina Pinheiro(5), Francisco Medeiros(37), Helvécio Feitosa(67), Luiz Alberto(99), Marigélbio Lucena(119), Hamilton Monteiro(55), Emanuel Carvalho(27), João Wilson(91), Luiz Moura(107), Dalgimar Meneses(17), Ícaro Meton(83) e Paulo Gurgel(129).
Foi então que, dando asas à imaginação, eu, fugindo do QUOTIDIANO(101), agarrei um COMPANHEIRO(102) e dizendo É PRECISO VIVER(52), fomos ver o NOTURNO DA CIDADE GRANDE(60). Antes de relatar esta CRÔNICA DA NOITE(93), digo: - nós, TORCEDORES DE FUTEBOL(125), separados do CARTOLA DO FUTEBOL(127), fomos ver MEU TIME DE FUTEBOL(126) que estava EM CARTAZ(135) elevado. MEU CORAÇÃO I(85), sem REFLEXÃO(103), sentiu o jogo CUMBUCO(55).
Deixei-o lá, saí, só, procurando BILACA(40), com a INQUIETUDE(63) e o INDISCIPLINADO(113) e ADMIRÁVEL MUNDO LOUCO...(91) cheio de MUTAÇÕES(48). Então, HOMO FALLUS ERECTUS(42), apertei o SEGUNDO(131) MEU CORAÇÃO II(86) cheio de DESEJO(85) e FEITIÇARIA(64). Era uma TARDE ABSURDA(62), véspera de CARNAVAL(105) e o CARNAVALESCO(14) em TEMPO REDESCOBERTO(65) aguardava o DESENLACE(12), sim, UM ESTRANHO ENTERRO(71), CICATRIZ(117) de O INFORTÚNIO DE JUCA(75), vítima de O MAL-DO-ZECA(79). Era como um NATAL VENDIDO(95) e eu, sentindo INSÔNIA(59) e cheiro de DERROTA(28), lembrando os REFLEXOS DO NEGRO(30), onde SER OU NÃO SER... HONESTO(5) era MAGRA FANTASIA(32), propus á ROSA(49), sim, a VOCÊ(58): - SEJAMOS NÓS(44).
Realizamos então A PRIMEIRA FUGA(17): era O DIA DE SÂO SARUÊ(83) e deixamos "O SERTÃO EM POLVOROSA(67). PERDÃO... ERA UMA VEZ UM PAJEÚ(84). Mas MARIA CLARA(103), a BRANCA DAS NEVES(137), aproveitando AS COROAS DE APOLO(133), disse-me: escreve a ELEGIA EM VIDA A JOSÉ DE AGUIAR RAMOS,VAMOS CONSTRUIR O HOSPITAL DO CÂNCER(119), pois CADA MOMENTO, A VIDA(46) é AMOR NA CONCEPÇÃO DO POETA(37).
Eu, com FEBRE(33), compus este CANTO ENIGMÁTICO(105), autêntica SÚPLICA DE NATAL(61), endereçando A VOCÊ, MEU FILHO, MINHAS ESPERANÇAS(97) pois, APESAR DE TUDO(34), NINGUÉM SE LEMBROU DE TI...(53), mas AINDA PRESTA O TEU AMOR(45).
Rumei então para NOVA IORQUE(31) onde daria a AULA DE 14 DE MAIO DE 1975(21) sobre O QUE PODE HAVER DE COMUM ENTRE: INVERSÃO UTERINA TOTAL, O REDEMOINHO MARÍTIMO DE MAELSTROM E A MANOBRA DE GUAXINIM(122) e soltei THE ATOMIS BOMB(43) e TAU SALOMONIS(25) com as MEMóRIAS DE UM ATESTADO MÉDICO(107).
Com A MARCHA DO TEMPO(50), olhando OS OLHOS DA MULHER AMADA(99), UMA SEMANA MAIS TARDE(43), entre REFLEXÕES(35), à hora d'O JANTAR(9), uma CONCEPÇÃO(38): - SER POETA(29), é UMA ESTÓRIA DE EMERGÊNCIA(89) NO UMBRAL DO ANÍSIO(27), cresce como BOLA DE NEVE(51) da INFÂNCIA(87), após a BALADA DO POETA SEM NOME(100), dedicada à MÃE(10).
Em ANTÍTESE(104), após o EXAME PRÉ-NUPCIAL(11) e consultar RELÓGIOS(7), resolvi escrever UM POEMA PRA VOCÊ(96). Era a VISITA DA POESIA(56): - O CURIOSO CURIÓ(116) desprendeu uma FORTUITA LÁGRIMA(39), sequei-a com FÓSFOROS(129).

Texto escrito no Rio, em 11 de abril de 1988, por Tito de Abreu Fialho, então presidente da SOBRAMES - Nacional, e enviado ao Ceará para os participantes do citado livro.

LANÇAMENTO DA ANTOLOGIA "EFEITOS COLATERAIS"
Minhas senhoras; meus senhores; meus colegas.
O caro, preclaro, e raro colega Luiz Gonzaga de Moura Júnior, presidente desta entidade médico-literária, solicitou-me apresentar a vocês os demais colegas presentes nesta antologia. Mormente para cumprir um protocolo, eis que são todos conhecidos e apreciados.
Permitam-me - contudo - de início nomear outros, os quais nesta crestomatia não figuram: Francisco de Castro / AfrânioPeixoto / Oswaldo Cruz / Miguel Couto / Clementino Fraga, pai e filho / Fernando Magalhães / Maurício de Medeiros / Aloysio de Castro / Deolindo Couto / Peregrino Junior / Carlos Chagas Filho / Pedro Nava / Ivo Pitanguy / o nosso Airton Monte, todos figuras de truz da Medicina e da Literatura brasileiras.
Como são, igualmente - quiçá com a mesma proficiência - os colegas hoje e agora reunidos nesta coletânea, a demonstrar, mais uma vez, que "letra de médico" não é tão ilegível, como apregoam alguns: (...)
PAULO GURGEL, verdeversejando desde 1981, terça com a mesma destreza a crônica, o humor, e o conto, de maneira fluida, condensando-se ao sabor do ar expirado por seus temas prediletos. Pneumologista de escol, não padece daquela dispneia intelectual, tão encontradiça, a qual nem os médicos conseguem tratar.

Discurso proferido por Pedro Henrique Saraiva Leão (um dos participantes da antologia), em 14 de dezembro de 1990, na noite de lançamento do livro "Efeitos Colaterais".

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A CRÍTICA PUBLICADA SOBRE A OBRA LITERÁRIA DE PAULO GURGEL

UMA ANTOLOGIA DE POETAS MÉDICOS
I
São oitenta e três poemas e dez poetas médicos reunidos numa antologia ("Verdeversos"), numa bem apresentada edição do Centro Médico Cearense, com os respectivos cuidados de edição, paginação e ilustração. (...)
II
Finalmente, Joâo Bosco Sobreira e Paulo Gurgel Carlos da Silva. O primeiro participou da antologia "Queda de Braço" e tem um livro de poemas inédito "A Pedra e a Fala". Do segundo há uma curiosa e irreverente minibiografia que antecede os seus dez poemas. (...)
Humor e irreverência , talvez um toque de non sense, encontramos nos poemas de Paulo Gurgel "Vesperal" e "Profética". Bem anda o poeta, em tempos "reaganianos" - como escreve Millôr - em aludir ao mito do caubói invencível John Wayne. A preocupação social nos poemas "Desfazenda" e "Auto do Compadecido". No final deste poema, o entretexto cresce na medida em que o poeta escreve: "As minhas mãos / Uma sabia da outra". Um momento de evocação da infância recuperada aparece no sugestivo poema "Quintal de Infância".
Carlos D'Alge
In: Jornal "O Povo", fevereiro de 1981.

ESTANTE DE LIVROS
Dez médicos puseram as mangas de fora e reuniram em "Verdeversos" as suas poesias: Airton Monte, Alarico Leite, Caetano Ximenes, Emanuel de Carvalho Melo, João Bosco Sobreira, José Jackson Sampaio, Maria Irene Nobre, Lucíola Rabelo, Paulo Gurgel e Winston de Castro Graça.
Os poemas de Paulo Gurgel, quase todos, trazem a marca do grande poeta. (...)
Paulo Gurgel é, para mim, uma revelação poética admirável. O poema "Quintal de Infância" é um quadro estético, e espelho de uma sensibilidade artística incontestável: (...)
A Paulo Gurgel, que se ocupa aqui de cousas triviais, pode-se aplicar as palavras de Otto Maria Carpeaux: "A arte é um dom do Céu, mas tem que servir à Terra".
"Oriental" é um poema que mostra a radiografia do homem: (...)
Estou certo de que Paulo Gurgel ainda nos vai fazer surpresas maravilhosas no campo da poesia.
Abdias Lima
In: "Tribuna do Ceará", 18 de março de 1981.

LIVROS
"Encontram-se" neste livro quatorze luminares da medicina brasileira: Beto Bezerra, Dalgimar Meneses, Emanuel Carvalho, Francisco Nóbrega, Francisco Sampaio, Heitor Catunda, Jackson Sampaio, Lucíola Rabello, Paulo Gurgel, Ricardo Augusto R. Pinto, Rose Mary M. da Silveira, Sérgio Macedo, Wilson Medeiros e Winston Graça.
Encontram-se para, em verso e em prosa de claridade lunar ou solar, nos dar conselhos sobre a saúde, falar sobre o mistério da vida, sobre os problemas da carne, as saudades dos cais, para protestar contra um mondo robotizado ou rir (Paulo Gurgel) de tudo, inclusive de si próprio.
PAULIFICANTE
PAULO, não é que nasci? Tinha um grande projeto,
-----fluvial, de atravessar caudaloso o
PAUL da humana existência, mas
-----represo-me, estagno-me - sorte
PAU - termino por saber que me espreita uma
PÁ de terra e que, dia qualquer,
-----eu morro
P... da vida.
Paulo Gurgel é um humorista à Leon Eliachar. É pena que não esteja enriquecendo as revistas do Sul.
Abdias Lima
In: "Tribuna do Ceará", 15 de junho de 1983.

CRIAÇÕES
"Criações", a nova antologia que o Centro Médico Cearense acaba de publicar, é um livro que mesmo não se destinando à realização de uma ambicionada carreira literária, enfeixa em suas páginas a virtude de provocar outras reflexões. No geral, trata-se de um projeto que, se por um lado peca pela falta de unidade estética e mundividencial, por outro assombra pela qualidade de alguns textos que apresenta, assaltando, muitas vezes de surpresa, a sensibilidade literária do próprio leitor. (...)
Sobre a irreverência do discurso de Paulo Gurgel, eu teria muita coisa a dizer, mas, contraditoriamente, eu diria que nada tenho a acrescentar. Gostaria que os seus textos fossem assimilados tal como ele os concebeu, assim de forma tão irrecusavelmente metafórica que parecem espreitar a sua própria decodificação.
No mais, gostaria de aqui registrar a importância dessa iniciativa do Centro Médico Cearense, no sentido de divulgar, através de sucessivas edições, a produção literária de seus associados, erguendo um empreendimento inquestionavelmente pioneiro no âmbito das associações profissionais existentes no Ceará.
A Editora do Centro Médico Cearense, portanto, está de parabéns, como de parabéns estão os seus articuladores, especialmente os médicos Emanuel Carvalho e Paulo Gurgel, responsáveis pelo seu programa editorial. E se mesmo, como insinuei, ainda não atingiu um estágio capaz de polarizar a ambivalência por mim reclamada, no início desta apresentação, isto se deve ao fato de o Centro Médico Cearense, antes de ser uma sociedade de escritores, se constituir numa escola que apreende a vida exatamente ao contrário daquilo que aprendemos na escola, dando-nos, assim, a lição de que literatura é vida e de que viver nem sempre representa uma opção pelos descaminhos da realidade.
Dimas Macedo
In: "Diário do Nordeste", 28 de fevereiro de 1986, e nas páginas 40-42 do livro "Ossos do Ofício", publicado pela Editora Oficina, em Fortaleza, 1992.

DIAGNÓSTICO POÉTICO E FICCIONAL
Paulo Gurgel e Emanuel de Carvalho reuniram-se com médicos seus amigos e, através da Editora Centro Médico Cearense, publicaram "Criações" - um belo e sugestivo título para a antologia que ora apresentam ao público cearense. Cearense, dizemos nós, porque dificilmente esta equipe de poetas ultrapassará as fronteiras do Estado, não pela qualidade dos poemas, que são bons, mas por falta de distribuição, que é esse, ainda, o maior problema para quem escreve e reside na província. (...)
Voltemos, agora, ao livro - "Criações". Há um fato de muita singularidade neste livro: são as "biografias" dos autores apresentadas (e animadas) pelo poeta Paulo Gurgel - um homem muito inteligente e portador de um espírito de observação fora do comum, dotado de um senso de humor raro entre escritores, mesmo ao nível nacional. O livro não faria sentido algum se o leitor não começasse pelas orelhas - orelhas de bom sinal, por sinal, diga-se de passagem.
Os antologiados - nove ao todo - estão reunidos aqui, neste volume de prosa e poesia, cada qual dando a dimensão de seu talento, de sua criatividade, de sua veia poética ou ficcional. É um grupo da pesada e que pesa muito nas letras de nosso Estado. Pela ordem de entrada no florilégio: Dalgimar Meneses, Emanuel Carvalho, Geraldo Bezerra, Hamilton Monteiro, Hugo Barros, Luís Teixeira, Paulo Gurgel, Pedro Henrique S. Leão e Sérgio Macedo.
José Alcides Pinto
In: "Tribuna do Ceará", 24 de maio de 1986.

SOBRE TODAS AS COISAS E ALGO MAIS
I
Esses médicos do Ceará são fogo. Além de bons, em muitos casos ótimos, excelentes profissionais, muitos deles se destacam também em outras atividades, notadamente no campo da Cultura, da Literatura em particular. Existe aqui inclusive uma seção da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, que há vários anos vem atuando com muita garra na edição de livros, oito ao todo até o momento, prosa e poesia, contando com este interessantíssimo "Sobre Todas as Coisas", saído recentemente. A exemplo de cinco já publicados, este agora reúne um bom número de médicos escritores, explorando (no bom sentido) mais de um gênero literário, com destaques para o conto e a poesia. (...)
VIII
Dizer que Paulo Gurgel é um dos sujeitos mais inteligentes aqui da terrinha, criativo (e engenhoso) como poucos é repetir o óbvio. Quem lê o que sai dele em nossa imprensa sabe disso, daí o número de leitores (futuros eleitores?) que ele tem, atentos sem tirar nem pôr à sua prosa, sempre gostosa e bem humorada, sem esquecer, é claro, o seu estilo escorreito e muito bem servido, em termos de língua... brasileira. Sim, ele escreve como o povo fala, sem arrebites digamos gramaticoides, o que seria realmente uma besteira. A parte dele encerra este "Sobre Todas as Coisas" e encerra otimamente, com a gente podendo falar, por isso mesmo, num final feliz. São crônicas e estórias, numa delas ( "Em Cartaz") fazendo brincadeiras com filmes (?) - tudo muito engraçado, à maneira do autor. Médico, está certo, dos bons de nossa cidade, com uma excelente folha de serviços, mas para mim, que ainda não o procurei para uma consultinha, um escritor de mão cheia, legibilíssimo, mesmo quando se está assistindo a uma novela tipo "Sassaricando".
Antônio Girão Barroso
In: "Revista", coluna do "Tribuna do Ceará", 30 de janeiro de 1987.

O CANTAR E O CONTAR SOBRE TODAS AS COISAS
Neste entardecer de fim de milênio, onde as ameaças à raça humana são inúmeras e insondáveis, a palavra parece ser revisitada e recuperada por alguns grupos atentos à integridade do homem. Neste sentido, o verbo se faz remédio e a Literatura se faz milagre. (...)
"Sobre Todas as Coisas" traz variadas texturas e variadas sensorialidades onde o leitor, feito beija-flor, parte por diferentes texturas e variadas paisagens. Alguns dos construtores desta antologia, já conheço de outras tramas literárias e pude viajar através das reafirmações do estilo de pensar e vestir a palavra de cada um; é o caso de Paulo Gurgel, Hamilton Monteiro e Celina Pinheiro.
Paulo Gurgel recria a palavra dentro de uma imagística cinematográfica e hemorrágica, onde a realidade é sempre mais inédita que a fantasia e o espanto afoga sempre o leitor aturdido e perplexo. Deste modo, Paulo Gurgel é escritor engenhoso e iluminado por soluções, individualíssimas e insuspeitas.
Diogo Fontenelle
In: "Tribuna do Ceará", 21 de novembro de 1987.

MÉDICOS ESCRITORES
I
Com um título geral e significativo (para o texto leia-se significante) chega-nos às mãos a antologia "Sobre Todas as Coisas", da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Ceará, num total de treze participantes - poetas e ficcionistas - já com o nome firme nas letras, todos demonstrando sensibilidade e dom para a literatura e as artes. (...)
II
As últimas páginas de "Sobre Todas as Coisas" são preenchidas por Paulo Gurgel, um homem de letras dos mais completos de sua geração. É um artista nato. Talento vasando por todos os poros. Mergulhado no absurdo existencial, na vanguarda criativa, tira de tudo isso os efeitos mais surpreendentes. É um idealista. Seu estilo é inconfundível. Sabe lidar com o reino das palavras e seus encantos. Dono de um potencial de fabulação imenso, com alguns contos já premiados, é um dos pontos altos desta antologia. Suas estórias (crônicas, poemas, fábulas?) oscilam entre o picaresco e a prosa de costumes (confidencial). Trabalha com os signos e os signos eróticos. É o desenhista e o escultor da palavra. O cotidiano é a menina de seus olhos. A condição humana está por inteiro em seus escritos.
José Alcides Pinto
In: "Tribuna do Ceará", 16 de abril de 1988.