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terça-feira, 24 de junho de 2008

HETERÓCLITO, SUAS CASAS DE PASTO

Heteróclito, a namorada a reboque, fez um ar de desânimo. Todas as mesas do restaurante Half Star estavam ocupadas. A não ser que o maître... Lembrou-se de que o maître do Half Star tinha para com ele uma dívida eterna. Certa vez, Heteróclito lhe tirara um espinho da mão e o maître reconhecido lhe dissera: "Por você sou capaz de matar ou morrer, de preferência a primeira hipótese."
Não é só o chef que faz das tripas coração, em se tratando de amigos o maître também faz:
- Senhor Heteróclito, há uma mesa por enquanto desocupada.
- Qual?
- Aquela da tábua verde.
- A mesa da tábua verde? Mas... por que tem ela uma redinha estendida no meio?
- Dois chineses, logo mais, vão jogar uma final de tênis de mesa. Se o senhor não se incomoda...
- Não me incomodo. A mesa é bastante espaçosa.
Fizeram os pedidos. Petúnia, a namorada, um prato de quatro dígitos, e Clitinho, outro de três (para evitar que, no final, surgisse uma conta de cinco dígitos). Para beber, ambos concordaram com uma mineral. Uma mineral com gás "porque tem gosto de pé dormente".
Estavam sendo servidos quando, senão quando, os dois chineses chegaram. Estabeleceu-se um clima de tensão. Com os dois "chinas" considerando Heteróclito e a namorada intrujões. Pingue-pongueia, não pingue-pongueia, quando Clitinho teve a idéia de bancar o brasileiro cordial. Levantou-se e, em posição de sentido, cantou o Hino Nacional de Hong Kong. Na voz dele, ficou tão irreconhecível o hino que a confusão nem aumentou. Pelo contrário, acalmou os chineses que eles, pacificados, resolveram desembainhar as raquetes.
Deu-se a partida, com a bolinha quicando por entre pratos, taças e saleiro. Pensando bem, Clitinho e a namorada jantavam, mas com sobressaltos.
Pelas tantas, Petúnia não se conteve:
- Diacho! Por que não fomos ao restaurante vegetariano Ruminant Is Beautiful?...
Ele sorriu amarelo (sorriso desta cor fica melhor na cara dos orientais, sei disso).
Sem dar mostras de fádiga do plástico, a bolinha prosseguia em sua estratégia de mesa arrasada. Nos 3 a 2, fez salpicar o salpicão de galinha, nos 4 a 3, quebrou o pires das azeitonas, nos 5 a 4, tirou a milanesa de um trecho do filé, nos 6 a 5, fez subir uma cortina de farofa até que, nos 7 a 6, a bolinha foi sustada... para ser devidamente trichada por Clitinho.
Ah, a lição de uma tia de Heteróclito, nos tempos de antanho, quando a bola de couro dos moleques caía em seu canteiro de gerânios...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

HETERÓCLITO, SEUS INIMIGOS

Como pode uma pessoa tão boa (no julgamento materno) como Heteróclito ter inimigos? Mas ele os tem: inimigos figadais e baçais, conforme o órgão visado. Se bem que, com o passar do tempo, a diferença se acabe, pois os baçais evoluem para figadais. Sempre. E os figadais de uma figa, todos eles, estão no encalço do nosso herói. Temo, porém, que não haja resposta para a pergunta inicial. Ou que haja: Judas, que era Judas, tinha inimigos, por que Heteróclito não haveria de tê-los?
Só que Heteróclito não precisa ter inimigos com os amigos que tem. Como, por exemplo, o Toinho Valha Couto que, pelo hábito de bater velozmente as abas do nariz, é também chamado de Narinas Frenéticas. Se a doutrina da transmigração da alma estiver correta, esse Toinho em outra encarnação foi coelho. Ou Coelho. No entanto, para não derivar muito, deixo a descrição completa do calhorda para outra oportunidade. Fiquem só com este conceito: Toinho Valha Couto é dos que apertam os outros fora do abraço.
Ah... Ah... Matar Heteróclito numa quarta-feira normal de trabalho é simplesmente uma piada. Ele não tem existência real na azáfama da semana, no ruge-ruge leonino do dia-a-dia. Alguém, por acaso, já matou um espectro de homem? Um zumbi? Assim é Heteróclito. Um Jó-vivente que trabalha mais do que o permitido pela "Lei de Saúde dos Aprendizes", do parlamento britânico de 1802. Querido pistoleiro: conseguirás no máximo fazer alguns buracos em Clitinho. Não haverá a homologação divina para o teu nefando ato.
Clitinho hás que matá-lo no ludismo de um fim de semana, que é quando ele segrega pelos poros vida. Para facilitar, nossa vítima durante o "uiquende" tem um roteiro necessário. Começa sexta-feira à noite, no Estoril; mas, oh!... não o mates agora. Não são três horas da manhã, e Heteróclito et caterva ainda não derrubaram o governo da República. Se o fizeres darás "preju" ao povo, de onde emana todo o poder inclusive o de fogo.
Sábado à tarde, poderás encontrá-lo no Capacete Branco, uma barraca de beira-praia. Lá, banhistas e proprietário respiram um clima de mútua confiança. Heteróclito gosta. Invariavelmente, ele toma quatro cervejas e tenta pagar duas. Vem o proprietário da barraca, passa o ciscador na areia, e ele é obrigado a pagar seis. São as regras do jogo. Estás disposto a pagar a exorbitante conta dele? Não? Esperemos então a noite chegar.
Heteróclito está na casa de serestas do Santiago. A casa encontra-se lotada, pensa nisto um par e meio de horas antes de perpetrares o "cliticídio". São pessoas sensíveis que não tolerarão, jamais, que um estampido fira a suave música. Se, ao menos, o regional estivesse tocando aquela peça de Tchaikovski que tem ribombar de canhões, aí sim aproveitarias a circunstância. Mas não. Estás cheio de dedos, pistoleiro, percebo. E não aparece um cristão de senso prático que te traga uma harpa.
Na manhã de domingo Clitinho entra numa edipiana. Acarinhado pelas três tias solteiras de Jacarecanga que tentam, a poder de caldos de carne e limonada, tirá-lo de uma tremenda ressaca. Uma ressaca maior do que a do mar de Jacarecanga. Tem dor de cabeça terebrante, matéria ígnea no estômago... Meu Deus, Heteróclito promete não beber de hoje para trás. Nessas horas, ele tem vontade de ir passear no barco de Caronte. Por precaução, as cuidadosas tias escondem de Clitinho todas as armas potenciais da casa inclusive o cortador de unhas. Trucidá-lo agora é um ato de solidariedade, não condiz com a tua mal-querença. À tarde, então.
Pena que, à tarde de domingo, ele não possa ser interrompido. É quando ele dá prosseguimento ao "Queda e Coice do III Reich", um livro que espera editar pela Nação Ybiapaba. Os pensamentos voam, as palavras andam, a língua de Heteróclito vez por outra se engancha no rolo da máquina de escrever e, por isso, o livro vai lento. Tens que temporizar, pistoleiro. Esse livro, que no momento se resume a uma ficha catalográfica, é um terço do ideal dele.
Mas eu sei onde as andorinhas têm insônia. Toda noite de domingo Heteróclito vai para a cama com a Bruna Lombardi. Já perdi a conta das vezes em que ele, na noite domingo, leu na cama o livro de poemas da Bruna. Pois a hora é essa, matador. Sem dizeres fogo vai, atira nele o bom tiro. Bom tiro, matador - antes que eu esqueça -, é aquele que sai pela culatra.

MULTICONTOS

Em seu Projeto Cultural de 1983, o BNB-Clube de Fortaleza promoveu o I Concurso de Contos com o objetivo de revelar novos autores cearenses. Concorreram 80 autores, dos quais 39 tiveram seus trabalhos selecionados pela comissão julgadora.
Fizeram parte desta comissão os escritores José Alcides Pinto (recentemente falecido), Airton Monte e Batista de Lima. E, na coordenação do certame, esteve o Sr. José Aldro Luiz de Oliveira, à época o diretor cultural do BNB-Clube.
Os trabalhos escolhidos, em número de 44, foram reunidos em um livro intitulado MultiContos. Com dois contos premiados (Heteróclito, seus inimigos e Heteróclito, suas casas de pasto), tive a satisfação de vê-los publicados na referida coletânea.

MultiContos pode ser lido na internet no site issuu,com.