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sexta-feira, 20 de maio de 2011

EM MIÚDOS

Diz que o presidente Sarney, numa rara ocasião em que ele "não" se achava viajando pelo exterior, esteve em Roma. Com um propósito todo especial: conhecer a Fonte dos Desejos.
Lá chegando, o presidente, como acontece com toda pessoa que visita aquele logradouro famoso, jogou uma moeda na fonte e formulou um pedido. Verdade que ele pensou, num primeiro momento, em quão bom seria se o "Marimbondos de Fogo" caísse nas graças de um editor italiano... Mas, porque existia coisa que o ferroava mais forte, acabou se fixando em outro pedido. Que a fonte, enquanto ainda havia tempo, fizesse com que ele tivesse um final honroso de governo, só isso.
Quando o inesperado aconteceu. Com aquela que, ali representando o nosso meio circulante, por nenhum ato humilhante deveria ser atingida.
Em miúdos: a moeda foi cuspida de volta pela fonte. De saída, um desacato à Casa da Moeda que com tanto zelo a cunhara.
Meio sem jeito, o presidente abaixou-se para recolher a vilipendiada moeda. Desagravá-la do ocorrido passava a ser o seu plano, naquele exato momento. Quanto à estratégia do plano... bem, ele não podia obrigar  a bica a pagar na mesma moeda. Ele só podia botar a pobre da "cunhada" na primeira máquina de vender jujuba que avistasse e... Espere aí, antes de tal expediente, se alguém ali presente tivesse uma ideia melhor, olhe, pode se manifestar...
Logo, um mais esperto falou:
- Presidente, jogue uma moeda forte.
Mas Sarney estava sem... Então, puxa daqui, puxa de acolá, um puxa-saco de sua comitiva arranjou uma lira - uma moeda forte ma non troppo. Que foi incontinenti atirada na fonte pelo Clark Gable do Maranhão, acompanhada de um "repeteco" do pedido.
Pois bem, não houve desta vez rejeição. E, vindo da fonte, se fez ouvir um som grave, muito grave, que eu diria situado na faixa de eructação de um ogro. Ou na faixa da fala do Mário Covas, quando ele começa o dia.. Uma ou outra coisa que evocasse, o fato é que, com a manifestação vocal da bica, Sarney ficou todo eufórico:
- A fonte está a falar, chamem o cicerone.
E veio o cicerone, um homem versado em línguas indo-europeias, o qual, depois de ouvir um pouco os rumorejos da fonte, informou ao aturdido presidente:
- É... toscano do século doze. Dá para traduzir.
- Pois avexe, homem.
- Excelentíssimo senhor: Pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são...
O presidente deu evidência de que se impacientava. Como político, vá lá que ele ignorasse o tal fraseado, porém, na qualidade de homem lido (em dois sentidos) e viajado, livre estava do apedeutismo em questão. Macunaíma, por sinal, era de fonte brasileira e...
(Queimam-se aqui algumas etapas da parola da fonte. A fim de que ela possa chegar ao ponto reclamado pelo presidente, apreensivo como se encontrava para melhorar a biografia.)
- Nesta altura do mandato, excelentíssimo senhor, com a escolha do seu sucessor já acontecendo, via eleições, não existe mais como mudar o quadro. Apenas recomendo se comportar como um magistrado durante o processo eleitoral, que é por aí.
- Ah, isso eu já faço! Só não me conformo com os nomes que estão aí disputando o cargo presidencial, entre os quais não se vê um Ermírio de Morais, um Sílvio Santos, um... Nesse sentido, o secretário Marzagão, aqui comigo, está para atirar uma moeda com outro pedido que eu endosso...
Nisso, a fonte outra vez rumorejou. Mas não houve, apesar da insistência de Sarney, como fazer o homem indo-e-voltando em língua de fonte dar, em seguida, a tradução. Aparentemente, por se tratar de uma ofensa pessoal, a qual, revelada ao presidente do Brasil, iniciaria algum imbroglio.
Porém, estou sabendo - de fonte fidedigna - qual foi (em meio a alguns palavrões toscanos) a resposta da aborrecida fonte. Aquilo que recém lhe pedira o presidente, através do fiel secretário Marzagão, vinha a ser da competência de outro buraco.
Buraco de urna no Brasil, logo, logo.

Publicado em 02/12/89

sexta-feira, 15 de abril de 2011

ESTAMOS GRÁVIDOS!

"Eu vi a mulher preparando outra pessoa..." 
Caetano Veloso

Um livro que esteve à venda no Brasil, há alguns anos, tinha esse sugestivo título. Imagino que o mesmo devia abordar a necessidade da participação do homem na gravidez, além, é claro, de seu conhecido papel genético. Ao enfocar que o estado gravídico, em seus aspectos orgânicos, psicológicos e culturais, não seria uma questão exclusiva da mulher. Mas que interessaria também ao homem, acarretando-lhe, em vista disso, certos compromissos e responsabilidades, a fim de que esse projeto comum chamado filho pudesse acabar... em choro. Isto é, acabar bem.
Eis, na Natureza, o exemplo de quem pegou o espírito da coisa, porém com um certo exagero. O cavalo-marinho. Pois na espécie quem fica grávido é o macho, numa bolsa abdominal para isso existente. E, quando  chega o instante propício de nascer a filharada, até um arremedo de trabalho de parto o pejado animálculo apresenta! No cavalo-marinho é assim, macho e fêmea têm os papéis trocados, Enquanto isso, em seus arroubos transformistas, a ciência está a prever que, num futuro não muito distante, a gravidez será biologicamente possível ao homem. Bem, gosto não se discute, mas que será uma gravidez de alto risco, lá isso será.
Portanto, fim da minha divagação sobre a troca de papéis! Na época em que o livro foi lançado, é bem possível que eu tenha reagido a ele com um "não li, não gostei". Porque, na qualidade de solteirão empedernido, isso era assunto que só causava ziquizira. Sucedeu o dia, porém, em que me casei. Aí - fruto da nova situação - pouco tempo após, vi-me às voltas com os indícios de uma gravidez (na mulher). São Tomé, que nunca foi banana, soprou-me aos ouvidos: ver para crer.Um conselho, aliás, bastante oportuno, pois jamais se deve esquecer de que a pseudociese (ou a falsa gravidez, como é conhecida em meio não médico) também existe.
Então, para ver e para crer, nós fomos à ultrassonografia. Este método diagnóstico que, mercê da visualização que faz das entranhas, tem tirado muita mulher da companhia da urna eleitoral. A ultrassonografia diz da existência do embrião ou feto, do seu estádio de desenvolvimento, da sua saúde, da data provável do parto e de como o futuro ser vai fazer pipi pela vida afora. É pouco? Ela também fornece a primeira foto da criança (que é ininteligível é outra conversa!) para o álbum da família.
Sobre essa história de predizer o sexo da criança por nascer, lembro-me de que um atilado obstetra usava - antes do advento da ultrassonografia - um método infalível. Ele dizia à futura mamãe que tinha acabado de examinar, que ia nascer um "menino" (enquanto anotava "menina" na ficha de atendimento). Meses depois, se nascia menino a sua fama só aumentava. Mas... se nascia uma menina o seu prestígio não sofria abalo. Bem documentado, ele tinha "como provar" que a mãe, por ocasião do exame, muito ansiosa, é que havia escutado mal.
E pensar que, antigamente, o ventre de uma mulher grávida era todo mistério! Nele não se intervinha com tanta frequência como atualmente, o que pensando bem é.... menos pontos para o passado. No remoto ano de 1948, eis com o que eu contei para nascer: as mãos de Dona Maria Juca, a oração de São Raimundo e... muita sorte! Depois, ao me cair o coto umbilical, também com a presteza que meu pai teve de o enterrar no quintal, bem fundo. Por quê? Ora, pelas terríveis consequências que poderiam me advir, em adulto, caso um bicho cavouqueiro adiante, por mal sepultado, encontrasse o umbigo. Uma delas seria virar ladrão.
(A esse desempenho de meu pai é que hoje atribuo o meu lento progredir na vida.)
Quanto ao antojo da engravidada, bem... não há como ignorá-lo. Por conta dele é que muito homem já foi pego, em quintal alheio, tentando apanhar cajarana, abiu ou coco-babão em pé vigiado a mastim. Embora se trate de crime afiançável, eu felizmente não tive de passar pelo vexame. Em seus caprichos de grávida, minha mulher só desejava as frutas facilmente encontradas no supermercado ou na quitanda da esquina. E, ampliando sua gentileza para com o maridão, se tínhamos um problema em comum a ser empurrado com a barriga, ela rápido intervinha: "Xá comigo!".
Corta agora para a gestação que deu origem a Érico, nosso primeiro filho. Nos meses de espera, minha mulher dizia que queria um filho de tez branca, cabelos louros, olhos verdes... - enfim, um nazista! Como se os seus hábitos de tomar banho de lua, pôr reflexos nos cabelos e usar lentes de contato verdes pudessem, de algum modo, influenciar o jogo genético! Já eu me contentava com menos. Desejava: um guri saudável e esperto a quem pudéssemos oferecer todo o nosso carinho. O que, aliás, está a lhe acontecer, mas com os dias de exclusivismo... contados!
É que algo de novo já pinta na tela da Ultra...
Estado interessante, esse... Em que tudo a gente tem de aprender, inclusive isto: "Diacho, qual é o telefone da casa de praia do Dr. Eduardo, nosso obstetra?".

Datas das publicações na mídia impressa: 
11/11/89 em O POVO - CULTURA e abril de 1990 no JAMB.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

VIAGENS

"Viajas até mesmo ao redor de tua inacreditável imobilidade." - Emílio Moura

Uma coisa o presidente Sarney conseguiu. Em se tratando de viagens presidenciais ao exterior, estabelecer um número sem precedente na história da República. E, ao mesmo tempo, ainda sem haver concluído o mandato presidencial, já deixar uma marca desafiadora para o porvir. Se bem que o futuro, esse eterno pregador de peças, para a desdita dos brasileiros, possa estar nos reservando o seguinte. Outro presidente que nem Sarney, igualmente viajeiro. E, a mais, desfrutando de uma continuidade no poder à la Stroessner (por isso, batam na madeira três vezes).
E o nosso presidente só não vai mais longe porque lhe podaram o mandato. Assim é que, encontrando-se no último ano de governo, ele tem de contentar-se com mais três viagens. E se definir se ainda faz mais duas... Mas é claro que as fará. Ou o pessoal efetivo da comitiva ("tudo pelo elevador social") pedirá a interdição do presidente, alegando alguma insanidade mental. Sarney enjeitando ir ao "exté", onde pode asssumir o papel de que tanto gosta (estadista latino-americano), pode ser tudo... menos Sarney. Dado que não se entende um homem afastado de sua joie de vivre.
No entanto, é possível que cada viagem funcione como uma espécie de fuga. Acossado pelos inúmeros problemas do país, o presidente aqui e acolá opte por dar uma fugida. Não no sentido meramente alegórico, mas fuga mesmo de corpo presente (ou será de corpo ausente?). O assunto está ficando abstruso, não é? Mas vou retomá-lo, dizendo que Sarney um dia escafede-se de vez (pela fronteira, usando a senha "estagflação"). De sorte a evitar o tratamento de choque que Platão preconizava para os poetas da República. Da República de Platão, bem entendido.
Governar este país não é um passeio, como em princípio se pensou. Se vai, Sarney também volta, para que o cargo não seja decretado vago. Pois, por espinhoso que pareça, já tem um monte de aventureiros, querendo lançar a mão... É só ver a corrida maluca dos presidenciáveis ao poder. Alguns deles, inclusive, já foram à Europa para receber o cobiçado polimento. De social-democrata que, dizem, é bom para a candidatura (na do Marronzinho eu pago para ver...). Mas, como até o momento em que escrevo estas linhas, não se gastou nisso dinheiro do contribuinte, então tudo bem.
Não há, porém, como justificar tanta gente a acompanhar o presidente Sarney em cada viagem. Há apenas como explicar. Partindo-se da noção de que é uma fraqueza humana se gostar de boca-livre, e de que coisa outra não é uma viagem dessas. Entretanto, gente em excesso nessas comitivas só contribui para criar a imagem de um país perdulário (de endividado não é segredo). Além, é claro, de trazer na bagagem alguns novos problemas para o presidente. Remember o episódio dos micros da viagem aos Estados Unidos.
De fora da esbórnia, o povão já descobriu que existe uma "melô do Sarney". Ei-la: "Se diverte e já não pensa em mim". Também pudera, não tem direito a participar da lambança oficial. Só político, ministro, empresário, a parentela... mas o povo mesmo, nunca! Afinal, o que entende o povo dos altos negócios que são acertados lá fora? Ora, que fique ele cá submetido à experiência do último pacote econômico (o primeiro heterodoxo a gente não esquece...).
Pois é, vamos e venhamos que o presidente esteja a se desincumbir lá fora de um ror de assuntos importantes. Só que, oh! ror... ainda não se sabe, desse tour de force, qual é o retorno em prol do país. A dívida externa, por exemplo, não diminuiu um tiquinho sequer. Ao contrário, só cresce... e parece mais inexpugnável do que a Fortaleza da Solidão. E isto para não falar de todos aqueles comezinhos problemas (enfadonho enumerá-los) que estão "pelaí" comendo solto. Sob uma inflação anual de mil por cento... à sombra.
O duro é olhar no mapa-múndi e constatar o muito que o presidente ainda tem por fazer. Barbados, Liechtenstein, Nepal, Ilhas Seychelles... ainda não foram visitados. E não é para menos. Diante do pouco tempo que lhe resta na Presidência, é tarefa hercúlea para um homem só (força de expressão, já que não se leva em conta todo o pessoal). Talvez fosse o caso de botar na jogada, nisso que é uma atividade indo e voltando, o seu atual substituto. (1) Há comemorativos recentes que atestam ser ele do ramo. (2) E depois, quem sabe, também botar na jogada o vice do vice, o...

(1) O vice-presidente Paes de Andrade.
(2) A viagem do vice a Mombaça - CE.
Sábado, 05/08/89

sexta-feira, 18 de junho de 2010

TEM REMÉDIO?

Para que tudo fique bem claro começarei do PRIMODIAN. VALDA e eu, muito além daquele chavão de onde cabe um CAMBEM dois, juntos vivíamos. Éramos um casal PLENUM de amor. Como se a vida, em vez de um VALIUM de lágrimas, fosse apenas um CONMEL. TANTUM que nada abalava a nossa felicidade, nem mesmo uma rara e casual BRIDINA. E eu só podia GABAX quão afeiçoado um ao outro éramos. SIRBEN que, entre nós, a mútua renúncia não fosse a condição SINEQUAN para nada.
Mas, eis que um dia, numa praia de grande movimento, ela se decidiu por INOVAL. E, ante a um monte de olhares lascivos, fez um despudorado TOPLEXIL. Eu REAGIN, evidentemente (o que viria depois, o nu FRONTAL?). E, durante dias,lhe fiz um grande SERMION de advertência, sem que - detalhe CAP-TAL - ela se mostrasse uma MADALEN arrependida. Pois ficou em SILENCIUM, só ouvindo como se não fosse, DIABETAL, com ela a reprimenda.
Ah, eu devia ter entendido aquele seu MUTIL como um deixe ESTAC! Pois logo, logo ela partiu PARALON. SOBEE inclusive que foi para viver uma nova experiência, uma NOVARRUTINA. Não pensando em entrar para o teatro BESEROL, mas porque eu lhe havia cansado a BELEXA. E que o UVILON disso tudo fora a minha incompreensão. Como se um homem INTAL situação não devesse reagir, devesse SERTAL um desfibrado que tudo suporta calado.
Ora, não foi porque eu possuísse um humor LABEL, eu fiquei fulo porque ela DESOBESI-M. Ao armar COFASOL na praia, um lugar onde as pessoas de boa índole vão apenas FLANAX. Mas o importante é que hoje eu tento ser FORTEN, me libertar desse maldito COMPLEXO B. E procuro cair na REALAN, o que não é FA-CYL no transe em que me acho. Porém é preciso, antes que me venham ideias de DUOCIDE, já que desaprovo as soluções violentas. Por natureza, sou MANSIL de espírito e tenho de sobra o NOBRIUM sentimento do perdão.
É ESSEN o meu compromisso: quando um ser FEMINIL aprontar outra, haja o que houver, eu vou me conservar SERENIUM. TOTALENS. Isto é, pelo menos enquanto não VOLTAREN os meus incontroláveis ciúmes...

Crônica publicada em "O POVO - CULTURA", em 20/05/89, e no "JAMB", em data incerta. Alguns dos remédios citados no texto não são mais produzidos pela indústria farmacêutica.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

PALANQUE

Finalmente surgiu uma tese que absolve os políticos de uma das acusações que lhe são feitas. A de que prometem, numa campanha eleitoral, coisas que eles não vão cumprir após eleitos. Pois a tese em questão simplesmente lhes tira a responsabilidade sobre as coisas em vão prometidas e, no lugar deles, põe a culpa em algo "novo". Algo que, até há pouco tempo, ninguém sabia que tivesse essa propriedade de desnaturar os homens públicos. A ponto de torná-los levianos da palavra.
Este causador de tudo é o palanque.
Quando um candidato a um cargo eletivo estiver a prometer mundos e fundos seja tolerante com ele. É o palanque que o leva a tanto compromisso. Rede de água, calçamento, escola, hospital, linha de ônibus, creche... Ah, é o palanque. Tanto que bastar retirar o prometedor de cima do estrado para ver como ele se transforma. Fica incapaz de assumir um compromisso que, a seguir, não venha a honrá-lo, mesmo que isso seja inédito. Em suma, fica um Catão o nosso homem (epa!).
Há essa relação, de causa e efeito, entre o palanque e o que sai da boca do homem para só se concretizar no dia de... São Nunca! Se bem que a tese não explicite como o fenômeno exatamente ocorre. Apenas sugira que possa estar relacionado com a perda de contato, por parte do político, com a a mãe Terra - ainda que temporariamente. E que, por via de consequência, ficaria ele - à maneira do que um dia aconteceu a Anteu - grogue e enfraquecido. Quando nada, em seus princípios morais. E como daí para o falatório inconsequente a distância é quase nenhuma...
A propósito, Anteu era um personagem mitológico considerado invencível por conta da energia (epa!) que ele, através dos pés, absorvia da Terra. Até que, pugnando com ele, Hércules o suspendeu do chão, para "desligá-lo" de sua inesgotável fonte de energia, e assim o matou. Outro modo de ação não tem o palanque. Quando deixa o político, ainda que pelo curto tempo de um comício, distanciado do chão da realidade, a prometer o céu na Terra e o seu amor também. E, nesse tresvario todo, também não se ignore a influência a cargo da claque, da música e do foguetório.
É tão avassaladora essa ação do palanque sobre o ser humano que não se tem notícia de resistência natural ou adquirida. Tem mais: mesmo ao pouco imponente caixote de cerveja o homem é também muito sensível, caso suba num... Que ele então fica: palrador, verborrágico e discursivo. Enfim, um utópico de carteirinha! E sabem por qual razão? O afastamento do chão da realidade, embora menos do que quando é o palanque. Nada a ver, portanto, com a cerveja que o homem tenha consumido antes de subir no caixote.
Um (e)leitor arguto pode lembrar que os políticos se comportam do mesmo modo quando estão na rádio e na televisão. O que, por sinal, poderia comprometer a tese vertente. No entanto, convém explicar que um estúdio de rádio ou de televisão assemelha-se a uma gaiola de Faraday. Por isso, isola tão bem quanto um palanque (excetuando-se o caso do palanque do Partido da Juventude que, aqui em Fortaleza, uma vez chocou muita gente, os mais velhos devem estar lembrados). Daí, ao contrário de sofrer qualquer abalo com esse questionamento, a tese sai ainda mais fortalecida.
Vêm aí eleições. Desde já, fiquem todos sabendo que os políticos não terão culpa pelo Canaã que o Brasil não vai ser. Que tem de ser responsabilizado é o palanque, esse (c)réu inconfesso. E, num grau menor, o caixote de cerveja.

Agosto/1994 - Publicada no "JORNAL DO LEITOR"
30/07/94 - Publicada no "DN - CARTAS"
Dezembro/1989 - Publicada no "JAMB"
15/07/89 - Publicada no "POVO CULTURA".

domingo, 6 de abril de 2008

PÃO, CIRCO & COMPANHIA

São cinco anos de circo, beirando os seis. Eu entro logo depois que as irmãs Desilu e Dida concluem o número dos pratos. Mas... antes eu espero que toquem o meu prefixo musical... aí, enquanto o apresentador me anuncia, eu me posiciono no interior do canhão. Em seguida, me concentro e enrijeço os músculos do corpo todo, tentando ser um bloco compacto. Disparam e... lá vou eu!... Cumprindo uma trajetória curva que me leva até a rede de proteção. Depois, é fazer umas tantas mesuras em agradecimento ao público que está aplaudindo. O público, por sinal, gosta muito do que faço e eu procuro melhorar a cada função.
Já deu para entender que eu sou o homem-bala de um circo. Inicialmente, trabalhei algum tempo no Grande Circo Mirífico, fazendo parte da trupe de equilibristas. Eu fazia com a turma uma pirâmide humana de difícil estabilidade. A prova é que um dia ela desabou feio, me causando uma fratura. Baixei ao hospital e quando me recuperei o circo tinha-se mandado do lugar. Não me comunicando a partida, eu concluí que não mais me queriam. Talvez por julgarem que eu ia ficar com algum tipo de limitação.
Ora, eu fiquei de fato foi na pindaíba, me equilibrando por outros meios para sobreviver. Até que, um dia, me surgiu na frente o Gran Circo Portunhol, que estava precisando de um homem-bala. Aceitei na bucha o emprego oferecido. Estava a fim de me livrar da pecha de pé-frio (e alguém pode imaginar emprego mais adequado para isso?)... Também estava a fim de subir na vida, o salário era razoável... E eu logo aprendi a conviver com o canhão, metal e carne na maior harmonia, se completando... E, com pouco tempo de treinamento, já fazia parte do espetáculo.
Essa loucura que é o circo. O sujeito está aqui, no mês seguinte numa outra cidade... A menos que seja com alguém do próprio circo, não dá para levar vida sentimental. Eu acabei me envolvendo, me apaixonando mesmo por Lili, a contorcionista. Dotada de um corpo exato, no esplendor dos seus dezoitos anos, ela também correspondeu ao meu amor. Seis meses após, estávamos juntos como marido e mulher. O dono do circo, pela importância que tínhamos no picadeiro, nos arrumou um trailer privativo, o nosso ninho de amor. E, nos braços de Lili, eu era incansável. Nem o leão Nero a mim se igualava (mesmo estando ele no período do cio). Ah, não queira o amigo saber do que uma contorcionista é capaz na alcova!...
Outra coisa, sou ciumento. E, aumentando o natural receio, tempos depois comecei a perceber algo diferente no ar. Algo que não era cheiro de pólvora (pois ao mesmo, aliás, por força do ofício já me habituara). Lili, minha doce Lili, não era mais a que eu conhecera. Pouco interessada em fazer amor comigo, não era mais a outrora fogosa mulher. E, porque não usava da franqueza comigo, tome eu grilado sobre o futuro do nosso relacionamento. Ficava pensando, pensando... se uma sinistra pessoa não estava me fazendo entrar pelo cano.
Um dia, porém, a suspeita de traição ganhou maior consistência. E foi Abhez, o mágico, quem levantou a lebre. "Fica de olho no Oto com a Lili", ele me disse. É... o Oto, que era do trapézio, já tivera inclusive precedente com a mulher de um companheiro. Ensaiara com ela uma fuga, só não indo muito longe os dois, pelas limitações que o trapézio oferece para tentativas de tal natureza. Então, botei olho vivo no Oto. O trapezista preenchia todos os requisitos para um homem que o mulherio chama de pão.
Em princípio nada notei que comprometesse. Mesmo porque eu ficava com Lili o tempo todo, menos nos momentos do meu show. Mas, diabos, o encontro dos dois podia ser nesses exatos momentos. Pois, de estar a postos a descer da rede de segurança, incluindo-se ainda a minha corrida até o trailer, transcorriam quinze minutos. Ou até mais tempo, quando o estrondo do canhão me deixava atordoado. E quinze minutos era tempo suficiente para Oto consumar o ato e ainda se livrar do "flagra". Principalmente se Lili dispensasse as preliminares. Bem, falando mais alto o orgasmo, Lili certamente vinha dispensando as preliminares.
(Entre nós: que espécie de show eu estaria a fazer se, em vez de me concentrar nele, ficasse a vigiar os dois pombinhos? Num domingo - que tem muitas funções - ia acabar sabe como? Quebrando a cara.... no sentido físico desta expressão.)
Depois de um estudo de situação resolvi então o seguinte. Verticalizar ainda mais o canhão - aí, com este previamente "envenenado" para dar um impulso extra - a fim de que, após atravessar uma abertura quadrangular existente na lona, eu fosse cair na proximidade do trailer. Com isso, ganhando decisivos minutos. E os cálculos feitos numa prancheta (um capitão de artilharia embaixo assinaria) não antecipavam outra coisa. Que a operação era executável, faltando apenas resolver o problema da aterrissagem.
Quando um monte de feno foi colocado no local previsto para a queda, então não faltava mais nada. O feno, esclareço aqui, era para a alimentação do leão Nero que tinha virado vegetariano. Desde que uma carne da pá, consumida em demasia, lhe causara uma bruta indigestão. A carne da pá, que não era boa nem má... porém, aí entro numa outra história, esqueça. Como também esqueça eu antes, no capítulo do desempenho sexual, haver me comparado ao sibarítico leão.
No dia propício, lá estava eu na trajetória que ia dar no monte de feno. Sob o olhar estupefacto do dono do circo, do respeitável público, de todos, enfim. E, mal pouso no feno, de lá corro ao trailer certíssimo de flagrar a dupla. Antes de ser projetado no espaço, eu não tinha visto o Oto no interior do circo. Nem a Lili. Então, era só abrir de supetão a porta do trailer e... Com razão, vejo na cama um movimentar de corpos, ouço um indecente resfolegar... Aproximo-me. Mas... quando puxo os lençóis para que se inculpassem aos meus olhos, jacaré estava lá? Não, Oto não estava.
Aquele toco de gente, o anão Epaminondas, era ele quem estava agarrado à Lili, minha doce Lili. Molhando o biscoito, como se diz neste tempo pós-Faustão. E a surpresa foi tamanha que eu, preparado para matar Giovanni Casanova, fiquei completamente aturdido. a ponto de deixar fugir, cabriolando entre as minhas pernas, com a cueca vestida ao contrário, o anão Epaminondas. Entretanto, ao alcance do meu braço vingativo, ainda se encontrava Lili. Lili, a arrependida, que chorava me pedindo para não lhe tirar a vida. Aí, me lembrando de todos os bons momentos que antes tivéramos, embainhei a arma. E abracei, beijei e perdoei Lili.
Levou algum tempo, sim, mas depois perdoei Epaminondas. E, por conta da amizade reatada, ele é muitas vezes um íntimo convidado nosso. Bem... a situação me obriga a transar grupalmente com uma contorcionista e um anão, mas foi a maneira que encontrei de sair menos chamuscado do episódio.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

ALGARAVIA

UM PEQUENO CONTO ÁRABE
Era um desses albergues onde só vai dar o costado uma ou outra alma-perdida. Apesar disto, tomado de repentino e inesperado alento, Al-Cunha bateu na aldrava. E quem veio atendê-lo, após alongado tempo, foi o próprio dono da estalagem. Um albino de nome Al-Meida, o qual, aliás, se mostrou receoso em deixá-lo entrar. No máximo, o recém-chegado ficasse no alpendre e olhe lá. Mas, no que Al-Cunha lhe houvesse perguntado se tinha cara de aldravão, se aparentava ser algum escravo do álcool, se portava algum feio aleijão... "Alastrim" foi a resposta. Estava ocorrendo uma epidemia da doença na aldeia.
Ora, Al-Cunha atravessara terras alagadas, contornara despenhadeiros alcantilados, subira morros alcandorados, percorrera campos alcantifados... para agora estar ali, com o corpo alquebrado, a pedir o inadiável repouso... E o alojamento lhe era negado naquela... naquela aldeola. Sob o pretexto de que vigorava uma lei de quarentena assinada pelo alcaide - uma estúpida lei! Que não relaxava nem para o seu cavalo Al-Faras. Aí, para não aloprar, e mesmo porque as almorreimas já o incomodavam, ele continuou desapeado. E, na expectativa de que Alá interviesse em seu favor, até retirou o alforje da montaria.
Uma chuva começou a cair ensombrecendo o dia. E nada de se notar mudança no alvedrio do opinioso albergueiro - que inclusive gracejou: "A chuva... que há com a chuva? Do telhado ela cai no algeroz e vai se acumular na almácega, o que me garante por algum tempo água em abundância..." Ora, depois de receber tamanha alfinetada, a Al-Cunha só restava usar de uma aleivosia. Dizer a Al-Meida que era um mestre da aleuromancia (nome que os alfarrábios dão à arte de predizer por meio da farinha de trigo). Com esse tipo de charla, quem sabe, ele... Mas não chegou mesmo a ser preciso, entrou em cena Al-Merinda.
Alvíssaras! Pois a mulher de Al-Meida, metendo-se na altercação, conseguiu-lhe a hospedagem (não obstante o risco de o albergue vir a perder o alvará). E o cansado viajor, para compensar o incidente, foi a seguir recebido com um fino repasto. À base de almôndegas, alface (tornado mais palatável pelo azeite guardado numa almotolia) e alcaparras. Alfenim foi a sobremesa e, para rebater tudo, chá de alfavaca. Já Al-Faras foi deixado num terreno alambrado a se regalar com uma generosa alfafa. E um dedicado almocreve, por meio de uma almofaça, cuidou de limpar os pêlos da alimária.
Findo o repasto, Al-Cunha entrou na alcova que lhe indicaram. Mas, antes de se deitar, verificou se havia num alguidar água bastante para qualquer precisão. Feito isso, tirou as alpargatas. E, estirado numa alfombra, pôs-se a dorminhar com a cabeça sobre um almofadão. Até que... altas horas, após haver sido despertado por gemidos lúbricos, inevitáveis pensamentos lhe vieram à mente. Que espécie de algolagnia devia sofrer Al-Merinda para se entregar ao albergueiro e encontrar nisso prazer? Ainda mais que Al-Meida, a pele enfeada pelo que parecia um alvaraz, exalava o mais desagradável almíscar (que lembrava o de um aligátor).
Ah, Al-Merinda! Como ele desejou ter Al-Merinda em sua alcova, possuir aquele corpo alabastrino... E, por muito pouco, aquilo que ele almejava não se tornou realidade. Quando ela, pé ante pé, adentrou o quarto mal alumiado... E ele, mais que o vislumbre da sua aproximação, foi... sentiu-lhe o cheiro bom de alfazema. No entanto, Al-Merinda a ele não se achegou, em vez disso se dirigiu a uma alcofa onde se encontrava as vestes de Al-Cunha. E, pensando que ele dormia, pôs-se a revirar a algibeira do seu caso de algodão, aluindo assim a própria reputação.
Então, aos primeiros albores do dia, Al-Cunha decidiu prosseguir viagem. Só que, aliviado do porta-moedas por Al-Merinda, não haveria como ele pagar o almoço, o aluguer... E o alarde ficou por conta da feroz alcatéia que o dono da estalagem lhe botou no encalço. Com Al-Cunha, é claro, dando tudo de si para, como diz um provérbio de fino álbum, não bater a alcatra naquela terra ingrata.

Publicado em O POVO CULTURA, em 09/09/89, e no livro EFEITOS COLATERAIS