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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
OS GERÚNDIOS ESTÃO FLORINDO
"Piedade para nós que exploramos as fronteiras do irreal."
Apollinaire, por aí...
Apollinaire, por aí...
Mais uma noite de insânia! A dormência no cérebro é Tânta-lo que eu começo a suspeitar daquele xampu: abrasivo demais! E não é só a dormência, minhas pálpebras estão pesadas, pesadeladas... Nossa minha! Serei outra vez importunado pelo monstro do lago Ness ou, pior, pelo que habita o pélago Ness. Espero que não.
Vi em sonho, noite próxima passada, três cavaleiros. O primeiro, Calígula, montado em seu Incitatus, o segundo, Ricardo III, num equídeo que trocara pelo reino, e o terceiro, Napoleão, em seu famoso cavalo branco; traziam um quarto cavalo, selado e arreado, que me ofereceram dizendo:
- Vamos. O apocalipse é logo ali.
Não fui. Amedrontológico. Sou contra a mega-morte e, especialmente, contra a mea-morte. Em luta pessoal, enfrento num cabo-de-guerra as três parcas e, com o fio resgatado, vou tecendo a trama e a urdidura de minha vida. Bravura? Bravatura? Tanto faz, um dia tro
peço e ganho a eternidade. Ou a éter-nulidade, tanto faz.
Por vezes me-inter-rogo: Se Deus é brasileiro tudo é permitido? Inclusive o que não está na pauta, o despautério? Por que falta Solidariedade entre os sindicatos? De tijolo e não tijolo faz-se um bom m_r_? Toda a filosofia do mundo está em Filadélfia e Sófia? Se não, ondes afinais? Coisas assim e assim coisas.
Circunvoluções cerebrais, me deixais tonto. Mais desvãos, mais desvarios - são as ironias da mente. Por isso é que loucura não tem mesmo (o que está em negrito). Ou terá... no dia em que eu for pó, aspiração que transcende a ser empoado. É... aqueles que queimam seus navios morrerão de afogadilho enquanto eu, queimando meus pavios, o farei de trocadilho. Não mais.
Se, ao menos, eu estivesse agora na penumbra de um, digamos, penumbar... Ab-sinto muito, não estou. Não urna not urna em que guardar meus sonhos, meus sonhos mais risículos. E a lua, essa big sister que controla loucos e lobisomens, es-vai-se. Fu, lua fugente, fu. A ti as quatro pedras da mão.
Sorte, já é dia. O sol desponta e, meio sobre o solerte, começa a focinhar varais, canteiros e parapeitos. Subo ao mirad'ouro. Eu já vi este arreball antes, mas fico até o fim desse jogo. O sol, qualquer sol, é inexorável. (Que dirá este um, nascido sem manchas?) E ei-lo, inexorável (como já disse), em seu afã de dourar a pílula de um novo dia.
Lá fora, os gerúndios estão florindo.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
CREME BÁRBARO
Sou de um país onde os carros enferrujam, as lâmpadas queimam, os relógios dão defeito e as bonecas perdem a fala. A bem da verdade, diga-se: estes incidentes também acontecem no resto do mundo; mas, com a saliência que se vê entre nós? Aqui, o usufruto de um bem qualquer chega a ser virtual. Compramos algo e rezamos para que dure um terço do que foi garantido. No atendimento das multiformes necessidades de homem, que se quer atual, o brasileiro é um desprotegido. E, como somos uns anestesiados, raro chiamos. No Brasil, nem asmático chia... quando se demora na fila da Previdência.
Neste ponto começa minha triste sina. Há oito meses, quando eu comprei uma lata de barbear Bozzano, uma marca de creme por mim nunca dantes usada. No início, dia após dia, com pequenos toques na válvula da lata eu punha a espuma na face, sem saber o que a sorte me reservara. Foi quando notei o fim de meu perturbador extrato de almíscar selvagem, que eu vinha usando à razão de uma gota/orelha/dia. Ora, se o extrato (em que pese o meu zelo econômico) se acabara, como então entender o creme de barbear que, comprado na mesma ocasião, ainda estava me oferecendo a cada vez mais generosa espuma? Só se eu estava diante de um bem de consumo anômalo, por assim dizer. Fiquei perplexo e tomado de uma ansiedade progressiva.
Eu que fazia apenas a barba, passei também a raspar o bigode (para acabar mais rapidamente com o creme de barbear). Primeira advertência da namorada. Aí, decidi que, no serviço diário de barba e bigode, também retiraria as costeletas. Segunda advertência da namorada. Depois, passaria a usar o creme em outras regiões pilosas do corpo... Não, eu não coloquei em prática a idéia. Junto com a terceira advertência, a namorada certamente faria a temível greve dos joelhos colados.
Em deliberação seguinte, pedi ajuda a Lula, o Metalúrgico. Enviei-lhe uma mui alvissareira epístola, na qual explicava como ele conseguiria, aqui no Ceará, dobrar a votação de seu partido. Com o meu voto em 86, desde que meu líder viesse passar uma temporada em minha residência, servindo-se à vontade do creme de barbear. A resposta veio desanimadora, naquele estilo telegráfico de que Lula tanto gosta: CARO GURGEL PT PT USO BARBA POSTIÇA MAS NÃO ESPALHE PT TENTE MIELE PT.
Enquanto tentasse soluções meramente cosméticas, raciocinei, eu não conseguiria nunca dissipar o infindável creme. Talvez porque houvesse, na calada da noite, alguém injetando creme novo no vasilhame, por isso o conteúdo não tinha mais fim. Três noites seguidas montei guarda no úmido banheiro, e não vi duendes. Também botei outro creme de barbear, seu igual, no armário embutido do banheiro, para ver se ele entendia a indireta. E a criaturinha da Bozzano, necas. Vai ver eu adquirira a cornucópia da fortuna, disfarçada em lata de creme de barbear.
Uma fera fascista ciciou dentro de mim: jogue fora a lata de creme, e fim da ansiedade! Pensamento seguinte, me vi meio desfalecido numa montanha de creme de barbear. Cães São Bernardo em caravana passavam por mim, surdos e indiferentes a meus “relpes”. Um só de mim se aproximou, mas ao abrir a salvadora torneirinha de seu barril o que constatei: mais creme de barbear. Depilo-me, quero dizer, pelo-me... de medo somente em pensar que posso vir a ter esses pavores noturnos. Não, eu não vou resolver minha ansiedade com um ato de ingratidão.
Meu lenitivo, nessas horas difíceis, é saber que tudo é passageiro. Aliás, tudo menos o motorista, o trocador e, obviamente, o meu creme de barbear.

Cartum feito pelo colega Ricardo Augusto, um dos autores do livro.
Neste ponto começa minha triste sina. Há oito meses, quando eu comprei uma lata de barbear Bozzano, uma marca de creme por mim nunca dantes usada. No início, dia após dia, com pequenos toques na válvula da lata eu punha a espuma na face, sem saber o que a sorte me reservara. Foi quando notei o fim de meu perturbador extrato de almíscar selvagem, que eu vinha usando à razão de uma gota/orelha/dia. Ora, se o extrato (em que pese o meu zelo econômico) se acabara, como então entender o creme de barbear que, comprado na mesma ocasião, ainda estava me oferecendo a cada vez mais generosa espuma? Só se eu estava diante de um bem de consumo anômalo, por assim dizer. Fiquei perplexo e tomado de uma ansiedade progressiva.
Eu que fazia apenas a barba, passei também a raspar o bigode (para acabar mais rapidamente com o creme de barbear). Primeira advertência da namorada. Aí, decidi que, no serviço diário de barba e bigode, também retiraria as costeletas. Segunda advertência da namorada. Depois, passaria a usar o creme em outras regiões pilosas do corpo... Não, eu não coloquei em prática a idéia. Junto com a terceira advertência, a namorada certamente faria a temível greve dos joelhos colados.
Em deliberação seguinte, pedi ajuda a Lula, o Metalúrgico. Enviei-lhe uma mui alvissareira epístola, na qual explicava como ele conseguiria, aqui no Ceará, dobrar a votação de seu partido. Com o meu voto em 86, desde que meu líder viesse passar uma temporada em minha residência, servindo-se à vontade do creme de barbear. A resposta veio desanimadora, naquele estilo telegráfico de que Lula tanto gosta: CARO GURGEL PT PT USO BARBA POSTIÇA MAS NÃO ESPALHE PT TENTE MIELE PT.
Enquanto tentasse soluções meramente cosméticas, raciocinei, eu não conseguiria nunca dissipar o infindável creme. Talvez porque houvesse, na calada da noite, alguém injetando creme novo no vasilhame, por isso o conteúdo não tinha mais fim. Três noites seguidas montei guarda no úmido banheiro, e não vi duendes. Também botei outro creme de barbear, seu igual, no armário embutido do banheiro, para ver se ele entendia a indireta. E a criaturinha da Bozzano, necas. Vai ver eu adquirira a cornucópia da fortuna, disfarçada em lata de creme de barbear.
Uma fera fascista ciciou dentro de mim: jogue fora a lata de creme, e fim da ansiedade! Pensamento seguinte, me vi meio desfalecido numa montanha de creme de barbear. Cães São Bernardo em caravana passavam por mim, surdos e indiferentes a meus “relpes”. Um só de mim se aproximou, mas ao abrir a salvadora torneirinha de seu barril o que constatei: mais creme de barbear. Depilo-me, quero dizer, pelo-me... de medo somente em pensar que posso vir a ter esses pavores noturnos. Não, eu não vou resolver minha ansiedade com um ato de ingratidão.
Meu lenitivo, nessas horas difíceis, é saber que tudo é passageiro. Aliás, tudo menos o motorista, o trocador e, obviamente, o meu creme de barbear.
Cartum feito pelo colega Ricardo Augusto, um dos autores do livro.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
TUDO-NADA
UM DIA ATRÁS DO OUTRO EU SIGO PERGUNTANDO
Por que não se comemora o dia do dia-a-dia?
(T) (1) (2) (3) (4) (5)
Ah, esses ascensoristas. Nunca têm troco.
MANIFESTO DIVÍDUO
Siameses de todo o mundo, separai-vos.
PORQUE A CARNE SECA TEM A FORMA QUE TEM
Com o que tem de gente gorda por cima dela.
GOVERNO PROMETE ÁGUA FARTA E BARATA PARA TODOS
Fabricantes de gelo discordam e dizem que vão endurecer.
EMPRESA PROJETADA PARA FUNCIONAR NO VERMELHO
Uma loja especializada em atendimento aos cleptomaníacos.
OPINIÃO SOBRE A POLÍTICA
É a convivência dos contrários, o contrário das convivências. sei lá.
SOBRE AS PESSOAS EM GERAL
Deveriam se despojar de tantos inúteis envoltórios. Olhai os sabonetes dos motéis...
MU-TRETA
No Brasil o leite só baixa quando a vaca se deita.
E OS QUE SE APROXIMEM DA MESA DE FESTIM
Serão recebidos por tiros não necessariamente de festim.
NÃO POSSO, NÃO DEVO, NÃO QUERO
Perder o controle - - - - - - - - - - remoto da situação.
ORIENTE-SE, RAPAZ. OU NÃO
O homem oriental reparte as coisas em yin e yang; o homem ocidental, em in e out.
PARA BAIXO TODO SANTO AJUDA
Para cima é um deus nos acuda.
QUANDO A LUA MÍNGUA
Não se pode exigir o dragão de corpo inteiro.
NUMA GALHOFEIRA
Aceita dançar esta valsa comigo enquanto a orquestra não chega?
PERCORRO O DICIONÁRIO DE CECA A MECA
E descubro a mais feminina das palavras: espera.
O PARVO TEM CURA
Embora isso leve uma vida e meia.
VOCÊ DARIA SUA MÃO A ALGUÉM EM DIFICULDADES?
E se esse alguém estiver numa cadeira elétrica?
NO COMEÇO TUDO SÃO FLORES
No fim a florista manda a conta.
AFINAL
Quem é esse tal gongo que vive salvando tanta gente?
Por que não se comemora o dia do dia-a-dia?
(T) (1) (2) (3) (4) (5)
Ah, esses ascensoristas. Nunca têm troco.
MANIFESTO DIVÍDUO
Siameses de todo o mundo, separai-vos.
PORQUE A CARNE SECA TEM A FORMA QUE TEM
Com o que tem de gente gorda por cima dela.
GOVERNO PROMETE ÁGUA FARTA E BARATA PARA TODOS
Fabricantes de gelo discordam e dizem que vão endurecer.
EMPRESA PROJETADA PARA FUNCIONAR NO VERMELHO
Uma loja especializada em atendimento aos cleptomaníacos.
OPINIÃO SOBRE A POLÍTICA
É a convivência dos contrários, o contrário das convivências. sei lá.
SOBRE AS PESSOAS EM GERAL
Deveriam se despojar de tantos inúteis envoltórios. Olhai os sabonetes dos motéis...
MU-TRETA
No Brasil o leite só baixa quando a vaca se deita.
E OS QUE SE APROXIMEM DA MESA DE FESTIM
Serão recebidos por tiros não necessariamente de festim.
NÃO POSSO, NÃO DEVO, NÃO QUERO
Perder o controle - - - - - - - - - - remoto da situação.
ORIENTE-SE, RAPAZ. OU NÃO
O homem oriental reparte as coisas em yin e yang; o homem ocidental, em in e out.
PARA BAIXO TODO SANTO AJUDA
Para cima é um deus nos acuda.
QUANDO A LUA MÍNGUA
Não se pode exigir o dragão de corpo inteiro.
NUMA GALHOFEIRA
Aceita dançar esta valsa comigo enquanto a orquestra não chega?
PERCORRO O DICIONÁRIO DE CECA A MECA
E descubro a mais feminina das palavras: espera.
O PARVO TEM CURA
Embora isso leve uma vida e meia.
VOCÊ DARIA SUA MÃO A ALGUÉM EM DIFICULDADES?
E se esse alguém estiver numa cadeira elétrica?
NO COMEÇO TUDO SÃO FLORES
No fim a florista manda a conta.
AFINAL
Quem é esse tal gongo que vive salvando tanta gente?
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
UM PARAFUSO DE MENOS
Esta semana surgiu um defeito no meu carro 1495 km: uma das portas emperrando. Ao investigar a causa do emperramento encontrei - meu olho mecânico encontrou - que, quando ia abrir ou fechar a porta, a fechadura patinava, e isto porque um de seus dois parafusos de sustentação havia caído. Era um parafuso omisso o causador do problema inteiro, portanto.
Levei o veículo a uma das concessionárias do fabricante. Lá, após uma distraída consulta num maçudo catálogo de autopeças, o funcionário me despachou com um "tem mas está faltando". (O parafuso que eu procurava - cabe aqui um esclarecimento - era daqueles que têm na cabeça, chata, os sulcos em cruz.)
Continuei minha "via parafuso crucis". Fui a uma segunda concessionária onde, novamente, ouvi o "tem mas está faltando", desta vez acrescido de "o senhor poderá, em caráter de urgência, solicitar do fabricante em São Paulo". Porca miseria, teria exclamado um italiano na minha situação.
Fui a uma terceira. Nesta, também ouvi o sempiterno "tem mas está faltando", só que seguido desta "pérola" da solucionática: "o senhor deixa o carro na oficina que o problema passa a ser dos mecânicos, aí eles têm que dar um jeito". Ora, depois de peregrinar por Ceca, Meca e Olivais de Santarém, queimando hidrocarboneto, ainda ter de deixar o carro no estaleiro, por causa de um único parafuso, me paraceu um desaforo. E desaforo eu não levo para casa, principalmente a pé. Vão todos para Caixa-Pregos ou, melhor, para Caixa-Parafusos.
Já estava meio conformado a circular "pelaí" com um parafuso de menos (no carro, leitor) quando, a caminho de casa, deparei com um ponto de revenda de autopeças, desses que sobrevivem à margem do sistema. Tinha o estabelecimento comercial a aparência de uma birosca. Birosca? Não, retiro esta palavra que alguém pode confundir com bi-rosca, o papo já está por demais metalúrgico.
O fato é que eu dei uma paradinha lá. O moço que me atendeu, embora não dispondo no estabelecimento de um parafuso com a especificação já descrita, interessou-se em resolver o meu problema, eis a diferença. Localizou, em suas gavetas, um parafuso diferente do tipo que eu procurava, mas que cabia perfeitamente no lugar onde, antes, estava o relapso do parafuso original. Problema resolvido.
Ao final, perguntado pelo preço do parafuso (com o serviço incluído) o moço, com cara de muito amigos, respondeu-me: "que é isso, doutor?". Ah, enquanto ele parafusava... eu também fazia o mesmo, só que, em meu caso, o verbo parafusar está sendo empregado como sinônimo de meditar (confiram num dicionário de bom calibre).
Parafusava que, por esta e por outras, até o fim deste século ou deste milênio (o que acontecer primeiro), eu estarei que... pequeno é bonito. Tinha razão o gringo do small is beautiful.
Levei o veículo a uma das concessionárias do fabricante. Lá, após uma distraída consulta num maçudo catálogo de autopeças, o funcionário me despachou com um "tem mas está faltando". (O parafuso que eu procurava - cabe aqui um esclarecimento - era daqueles que têm na cabeça, chata, os sulcos em cruz.)
Continuei minha "via parafuso crucis". Fui a uma segunda concessionária onde, novamente, ouvi o "tem mas está faltando", desta vez acrescido de "o senhor poderá, em caráter de urgência, solicitar do fabricante em São Paulo". Porca miseria, teria exclamado um italiano na minha situação.
Fui a uma terceira. Nesta, também ouvi o sempiterno "tem mas está faltando", só que seguido desta "pérola" da solucionática: "o senhor deixa o carro na oficina que o problema passa a ser dos mecânicos, aí eles têm que dar um jeito". Ora, depois de peregrinar por Ceca, Meca e Olivais de Santarém, queimando hidrocarboneto, ainda ter de deixar o carro no estaleiro, por causa de um único parafuso, me paraceu um desaforo. E desaforo eu não levo para casa, principalmente a pé. Vão todos para Caixa-Pregos ou, melhor, para Caixa-Parafusos.
Já estava meio conformado a circular "pelaí" com um parafuso de menos (no carro, leitor) quando, a caminho de casa, deparei com um ponto de revenda de autopeças, desses que sobrevivem à margem do sistema. Tinha o estabelecimento comercial a aparência de uma birosca. Birosca? Não, retiro esta palavra que alguém pode confundir com bi-rosca, o papo já está por demais metalúrgico.
O fato é que eu dei uma paradinha lá. O moço que me atendeu, embora não dispondo no estabelecimento de um parafuso com a especificação já descrita, interessou-se em resolver o meu problema, eis a diferença. Localizou, em suas gavetas, um parafuso diferente do tipo que eu procurava, mas que cabia perfeitamente no lugar onde, antes, estava o relapso do parafuso original. Problema resolvido.
Ao final, perguntado pelo preço do parafuso (com o serviço incluído) o moço, com cara de muito amigos, respondeu-me: "que é isso, doutor?". Ah, enquanto ele parafusava... eu também fazia o mesmo, só que, em meu caso, o verbo parafusar está sendo empregado como sinônimo de meditar (confiram num dicionário de bom calibre).
Parafusava que, por esta e por outras, até o fim deste século ou deste milênio (o que acontecer primeiro), eu estarei que... pequeno é bonito. Tinha razão o gringo do small is beautiful.
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
AUTO-ENTREVISTA
Quem és?
Um estraga-prazer que se regenerou. Agora sou um desmancha-prazer. O que significa dizer que atiro pedras no telhado do vizinho, se isto me dá na telha. Repudio a desumanidade de certas gentes que são capazes de enterrar uma toupeira vivinha. E não sou covarde (já me viram numa altercação ao telefone?), apenas tenho um instinto de sobrevivência acima da média. Sei pouco. Mas sei que Sócrates nada sabia. Ei, que direção devo tomar? Respondam-me rápido pois preciso ligar a sinaleira. Sic transit gloria mundi. Ou, como diz o outro, a glória do mundo está no trânsito.
Crês no sobrenatural?
Sobrenaturalmente. Nas horas difíceis - não há exceção - a gente tem que contar com uma força do alto. Reciprocamente. Por isso, sou devoto da Santa Ceia. Se quero ter o corpo fechado não invoco São Sebastião das Flechas, assim por diante. Vejo em tudo o dedo do Senhor (o fura-bolos, presumo). Nostradamus tem um alto índice de acertos, concordo, mas não é cosa nostra. Eu, sim, sou contrafeta em minha terra. Contrafetizo tudo. Ah, pobres e ricos, no final Deus passa a morte-niveladora.
Que pensas do amor?
Amor faz palíndromo com Roma. Em Roma, como as romanas (em conformidade com o adágio, modificado). Nossa mútua atração, dona, aumentaria muito se usássemos, dona, potentes ímãs nos bolsos. Enjoos de terra firme, tive-os sim. Mas não de navegar - sob bandeira liberiana - o corpo da mulher amada. Ah, no dia em que me queiras a paixão será do tipo vulcânico-piramidal... Mas, agora que faço. Amo Ana Luísa e Ana Maria, e por elas sou amado. Ana Luísa, à minha esquerda, mais perto do coração, leva palpitante vantagem. Comodista que sou.
Que achas da presente conjuntura?
Nem tudo anda caro, há o conquistador barato. Como medida desinflacionária o governo retirou o IPI da cachaça. Agora é bota uma OCA aí. Já o pão nosso de cada dia está cada dia menos codeúdo. Cruzeiro novo, cruzeiro atual... qual será a próxima embromação tecnocrática? Até lá, e depois, convém preferir o cruzeiro marítimo. Se a empresa em que trabalha faliu, a culpa, por certo, é da sociedade dita anônima. Quem sabe você logo arranja novo emprego, o de botar a cabeça na boca do leão. A hora não é de perder a cabeça, portanto. E quebremos os pratos. Os pratos são uma invenção da fome. Sim, temos fome uns dos outros, mas tirem os dentes da minha perna.
Vislumbras saída para a crise?
Estás me perguntando se vejo? Sim, uma que se acha completamente tomada pela multidão em pânico. A alternativa é sair pela entrada, onde o pisoteio é menor. Afinal não somos uvas. Toda a lenha que não dá bom fogo será reintegrada à árvore, a fim de que esta dê bons frutos. Quero dizer, para ver se... Ó meu, mas com essa catrevagem humana que aí está no poder, terminará meu povo todo ralado. Feito coco de feira. Difícil, muito difícil suportar no corpo tantas sanguessugas colocadas, o que é pior, sob prescrição médica.
Um estraga-prazer que se regenerou. Agora sou um desmancha-prazer. O que significa dizer que atiro pedras no telhado do vizinho, se isto me dá na telha. Repudio a desumanidade de certas gentes que são capazes de enterrar uma toupeira vivinha. E não sou covarde (já me viram numa altercação ao telefone?), apenas tenho um instinto de sobrevivência acima da média. Sei pouco. Mas sei que Sócrates nada sabia. Ei, que direção devo tomar? Respondam-me rápido pois preciso ligar a sinaleira. Sic transit gloria mundi. Ou, como diz o outro, a glória do mundo está no trânsito.
Crês no sobrenatural?
Sobrenaturalmente. Nas horas difíceis - não há exceção - a gente tem que contar com uma força do alto. Reciprocamente. Por isso, sou devoto da Santa Ceia. Se quero ter o corpo fechado não invoco São Sebastião das Flechas, assim por diante. Vejo em tudo o dedo do Senhor (o fura-bolos, presumo). Nostradamus tem um alto índice de acertos, concordo, mas não é cosa nostra. Eu, sim, sou contrafeta em minha terra. Contrafetizo tudo. Ah, pobres e ricos, no final Deus passa a morte-niveladora.
Que pensas do amor?
Amor faz palíndromo com Roma. Em Roma, como as romanas (em conformidade com o adágio, modificado). Nossa mútua atração, dona, aumentaria muito se usássemos, dona, potentes ímãs nos bolsos. Enjoos de terra firme, tive-os sim. Mas não de navegar - sob bandeira liberiana - o corpo da mulher amada. Ah, no dia em que me queiras a paixão será do tipo vulcânico-piramidal... Mas, agora que faço. Amo Ana Luísa e Ana Maria, e por elas sou amado. Ana Luísa, à minha esquerda, mais perto do coração, leva palpitante vantagem. Comodista que sou.
Que achas da presente conjuntura?
Nem tudo anda caro, há o conquistador barato. Como medida desinflacionária o governo retirou o IPI da cachaça. Agora é bota uma OCA aí. Já o pão nosso de cada dia está cada dia menos codeúdo. Cruzeiro novo, cruzeiro atual... qual será a próxima embromação tecnocrática? Até lá, e depois, convém preferir o cruzeiro marítimo. Se a empresa em que trabalha faliu, a culpa, por certo, é da sociedade dita anônima. Quem sabe você logo arranja novo emprego, o de botar a cabeça na boca do leão. A hora não é de perder a cabeça, portanto. E quebremos os pratos. Os pratos são uma invenção da fome. Sim, temos fome uns dos outros, mas tirem os dentes da minha perna.
Vislumbras saída para a crise?
Estás me perguntando se vejo? Sim, uma que se acha completamente tomada pela multidão em pânico. A alternativa é sair pela entrada, onde o pisoteio é menor. Afinal não somos uvas. Toda a lenha que não dá bom fogo será reintegrada à árvore, a fim de que esta dê bons frutos. Quero dizer, para ver se... Ó meu, mas com essa catrevagem humana que aí está no poder, terminará meu povo todo ralado. Feito coco de feira. Difícil, muito difícil suportar no corpo tantas sanguessugas colocadas, o que é pior, sob prescrição médica.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
CITANDO
Jorge de Lima, médico e poeta:
"Lede além
do que existe
na impressão.
E daquilo
que está aquém
da expressão."
In: "Invenção de Orfeu"
EM DEFESA DA POESIA
Texto cujo trecho final figurou na contracapa de TEMOS UM POUCO, servindo de apresentação à obra, que foi escrito pelo médico Caetano Ximenes Aragão.
Já se foi o tempo em que os médicos viviam em colóquio suspeito com as musas.
Dessacralizado, desmistificado profissionalmente, o médico passou a ser um homem dentro de uma realidade que não admite mais empostações românticas. E pode o médico exercer sua profissão sem se sentir prejudicado pelo poeta, repudiando velho preconceito burguês, de cunhar de maneira depreciativa e irresponsável, os homens que perseguem uma verdade nova, de boêmios e loucos.
Em face da incapacidade de pressentir a presença do novo, muita gente não se apercebe de que o mundo está mudando e de que sua escala de valores, às vezes, não tem valor nenhum. São dez poetas e dez médicos, irmanados em TEMOS UM POUCO, que vêm dar seu testemunho, todos duplamente filhos de Apolo.
Basta-nos Apolo, o múltiplo Deus, pai da Poesia e da Medicina, que ensinou aos homens as artes de curar e as de fazer versos, de cujos lábios nunca brotou nenhuma falsa palavra.
De Delfos, o umbigo do mundo, seguindo o "Rastro de Apolo", poema de Gerardo de Melo Mourão, retiramos as sextilhas que se seguem:
"Pois o amor, a flor e a morte
são obras de sua mão
são águasdo mesmo rio
são fontes do coração
por onde o sopro de Apolo
rege a humana ordenação.
Seu espírito divino
mais sábio que Salomão
sabia a ferida e o bálsamo
a doçura da canção
pois era senhor da vida
da morte e ressureição.
Para remédio das almas
fundou a Pytyhia divina
para remédio do corpo
inventou a medicina
foi o pai de Asclépio, médico
mestre em sua disciplina."
Portanto, Poesia e Medicina têm a mesma origem e a mesma paternidade, razão melhor para não nos envergonharmos de sermos poetas e médicos ao mesmo tempo.
Já se foi o tempo em que os médicos viviam em colóquio suspeito com as musas.
Dessacralizado, desmistificado profissionalmente, o médico passou a ser um homem dentro de uma realidade que não admite mais empostações românticas. E pode o médico exercer sua profissão sem se sentir prejudicado pelo poeta, repudiando velho preconceito burguês, de cunhar de maneira depreciativa e irresponsável, os homens que perseguem uma verdade nova, de boêmios e loucos.
Em face da incapacidade de pressentir a presença do novo, muita gente não se apercebe de que o mundo está mudando e de que sua escala de valores, às vezes, não tem valor nenhum. São dez poetas e dez médicos, irmanados em TEMOS UM POUCO, que vêm dar seu testemunho, todos duplamente filhos de Apolo.
Basta-nos Apolo, o múltiplo Deus, pai da Poesia e da Medicina, que ensinou aos homens as artes de curar e as de fazer versos, de cujos lábios nunca brotou nenhuma falsa palavra.
De Delfos, o umbigo do mundo, seguindo o "Rastro de Apolo", poema de Gerardo de Melo Mourão, retiramos as sextilhas que se seguem:
"Pois o amor, a flor e a morte
são obras de sua mão
são águasdo mesmo rio
são fontes do coração
por onde o sopro de Apolo
rege a humana ordenação.
Seu espírito divino
mais sábio que Salomão
sabia a ferida e o bálsamo
a doçura da canção
pois era senhor da vida
da morte e ressureição.
Para remédio das almas
fundou a Pytyhia divina
para remédio do corpo
inventou a medicina
foi o pai de Asclépio, médico
mestre em sua disciplina."
Portanto, Poesia e Medicina têm a mesma origem e a mesma paternidade, razão melhor para não nos envergonharmos de sermos poetas e médicos ao mesmo tempo.
Caetano Ximenes Aragão
TEMOS UM POUCO
Autores: Dalgimar Menezes, Emanuel Carvalho (editor), Francisco Nóbrega, Hamilton Monteiro, Luiz Teixeira, Paulo Gurgel (editor e revisor), Paulo Roberto, Ricardo Augusto, Rose Mary e Wellington Alves.
Apresentação: Caetano Ximenes (com o trecho final de "Em defesa da poesia" na contracapa).
Projeto Gráfico e Ilustrações: Emanuel Carvalho, Paulo Gurgel e Ricardo Augusto.
Capa e Arte Final: Emanuel Carvalho e Harleny.
Gráfica IOCE.
Livro com 116 páginas.
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