quinta-feira, 29 de julho de 2010

LABORES LABORATORIAIS - 2

A Questão Andrômaco
Quando cursávamos medicina, éramos brindados pelos laboratórios farmacêuticos com amostras grátis de seus produtos. Andavam já de olho, os laboratórios de antanho então, nos receituários dos futuros doutores. Uns, é verdade, nos davam meros prospectos, reservando suas amostras para os médicos, principalmente os que possuíam boas clientelas. Mas, assim procedendo, ficavam jurados de entrar numa lista negra em fase de elaboração, a exercer seus efeitos após a formatura da turma. Outros laboratórios, porém, mais generosos, nos enchiam as maletas de amostras, com isso demonstrando que acreditavam em nosso porvir.
Havia um laboratório, o Andrômaco, que não punha qualquer restrição aos acadêmicos de medicina. Nem ao primeiranista, o qual fazia jus a uma amostra grátis por assédio feito. O segundanista recebia duas amostras, o terceiranista, três, e assim por diante. Até chegar ao acadêmico do sexto ano, o quase doutor, que ganhava exatamente seis amostras. Ainda que essa generosidade do Andrômaco gerasse da parte dos próprios estudantes certas maledicências. Como a de comentar que existia, no referido laboratório, um enorme tacho com xarope. No qual, ao pressentir que os acadêmicos estavam por chegar, o pessoal do laboratório logo adicionava alguma porção de água.
Em nossos primeiros anos na Faculdade de Medicina, considerávamos que uma de nossas missões era providenciar remédios gratuitos para os (nem sempre) necessitados. Até reservávamos um dia da semana para fazer a busca ativa. Sim, porque não nos satisfaziam os encontros casuais com os propagandistas de remédios. Diante das crescentes listas em nossas mãos das solicitações feitas por amigos e parentes para que obtivéssemos antibióticos, vermífugos, expectorantes, vitaminas e colírios. E tínhamos de mostrar prestígio conseguindo essas amostras.
Para tanto, verdadeiras hordas de acadêmicos espalhavam-se periodicamente pelas ruas centrais de Fortaleza. Já que o exercício solitário da busca ativa era, por todos, considerado contraproducente. Além de ser bem menos animado, claro. De modo que cumpríamos um autêntico programa de índio, e não sendo de hoje que suspeitávamos disso. Mas... compensava se, ao fim da jornada, tínhamos os cobiçados remédios com que atendíamos os parentes e amigos. E estes, como prova de gratidão, faziam novos pedidos. Ad nauseam.
Um dia cansamos dessa desgastante labuta. Mas, para não deixarmos desassistidos os que ainda nos procuravam com seus pedidos, mudamos a sistemática. E trocamos as nossas cansativas visitas aos laboratórios por grandiloquentes bilhetes endereçados a seus gerentes. Levados esses bilhetes pelos próprios interessados, e nos quais havia sempre o indefectível fecho: "antecipadamente agradecemos". Um santo remédio! Que, desde então, nos livrou do tão ingente esforço que vínhamos praticando.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

LABORES LABORATORIAIS - 1

A Questão Lafi
Em 1968, fui contemplado com uma "bolsa" de um laboratório farmacêutico. Chamava-se Lafi a empresa que me concedeu essa "bolsa", uma casa farmacêutica que nem existe mais. Na verdade, os compromissos que eu assumia por lá tinham mais as características de um subemprego; porém, por não me tomarem muito tempo, não me traziam problemas para o meu curso de graduação na Faculdade de Medicina. Aliás, possibilitavam-me que eu aprendesse um pouco de Farmacologia, sem ao menos ter passado por essa disciplina. E havia ainda os "caraminguás" que eu ganhava do laboratório, por sinal muito bem-vindos.
A Farmacologia era ensinada no quarto ano da Medicina e, em 1968, eu ainda estava no terceiro ano. No Lafi, deram-me um exemplar do Litter, tido como o melhor livro de Farmacologia, no qual eu devia estudar as aulas que, ao longo do ano, teria de ministrar aos propagandistas do laboratório. Não esquecendo de incluir nelas as informações contidas numas apostilas que me chegavam do departamento médico do laboratório.
Essas aulas aconteciam aos sábados, a partir das 11 horas, na sede da empresa à rua Assunção, no centro de Fortaleza. Assistiam às minhas exposições três propagandistas e o próprio gerente regional do Lafi, Dr.Valdemar, um bacharel em Direito.
Uma segunda atribuição minha na empresa era ajudar na promoção de seus produtos. Cabendo-me fazer isso exclusivamente com os meus mestres na Faculdade de Medicina. Ganhei uma valise preta e, a cada mês, o Lafi deixava em minha residência uns caixotes com amostras de seu produtos farmacêuticos. Aos poucos, eu os distribuía com meus professores e, por ser inevitável, também os distribuía com meus colegas de turma. Findo o período de distribuição, eu tinha de fazer um relatório para só então receber uma nova remessa de medicamentos.
O Lafi comercializava duas dezenas de medicamentos, não me lembro do nome de todos. Havia: o Dienpax e o Nitrenpax, sedativos do grupo dos diazepínicos, sendo o segundo um remédio especificamente para dormir; o Clorana e o Triclorana, nomes comerciais da hidroclorotiazida e da hidroclorotiazida associada ao triantereno, diuréticos até hoje muito prescritos; a Disteoxina, uma medicação "hepatoprotetora" (conforme a crença da época na existência dos remédios para o fígado); o Tetracloroetileno Lafi, um vermífugo a ser tomada na dose única de dez "pérolas" para o tratamento da ancilostomose; a Bituelve (do inglês B-twelve), à base de vitamina B12; e o Betamicetin, o nome de fantasia do cloranfenicol do Lafi.
A última droga da relação citada fez-me, certo dia, passar por um pequeno vexame. Quando tentei sugerir ao professor Dr. Murilo Martins que a incluísse em seu receituário. O médico hematologista, de quem teria aulas no ano seguinte, era radicalmente contrário ao uso do cloranfenicol, por considerar que esse antibiótico, entre os efeitos adversos, podia causar anemia aplástica. E, tentar contornar a situação alegando que no Betamicetin, por estar o antibiótico associado a vitaminas do complexo B, reduziria o risco para a aplasia medular, só fez aumentar a gafe.
Algum tempo depois, já desvinculado do laboratório, eu ouviria do Dr. Glauco Lobo (pai) a seguinte história. O emérito cirurgião fora chamado para atender um paciente em casa, quando suspeitou de que estaria diante de um caso de intoxicação digitálica. Mas era uma situação improvável, já que o paciente não devia estar usando digitálico. Entretanto, ao conferir os remédios que ele vinha tomando, encontrou a Digitoxina (à razão de três comprimidos ao dia) entre os mesmos. Como consequência de um erro que acontecera numa farmácia, onde alguém dispensara a Digitoxina (no lugar da Disteoxina).
Como se vê, a "letra de doutor" causava seus problemas já naqueles tempos.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O FILANTE DE JORNAL

Anos de observação fizeram-me convicto de que existe o tal filante de jornal. Ele não surge assim acabado, da noite para o dia, como o objeto de seu estranho desejo vício. Ao contrário, ele aparece aos poucos, vai crescendo em intromissão até se tornar algo avassalador. Neste ponto, não sai mais de nossas vidas. E vamos ficando privados de informação, enquanto ele, sozinho, pode ser comparado a uma Agência Reuters ou a uma United Press.
No início, ele não passa de alguém simpático e afável, que nos cumprimenta. Mas é aí que mora o perigo. Pois subestimamos o mal que ele pode nos infligir. Depois, já sentimos o seu bafo quente na nuca (fora do contexto sexual, felizmente), ao qual se seguirão atos progressivamente lesivos a nós, suas vítimas. A nós que, em pouco tempo, seremos desapeados dessa Aldeia Global.
A título de alerta, eis como se dá a escalada de um filante de jornal:
  1. Ele pergunta o que há de novo no jornal.
  2. Ele passa a ler o periódico, posicionado atrás de você.
  3. Faz a mesma coisa, só que em voz alta.
  4. Pega o caderno de esportes e vai ler noutra sala.
  5. Já é o jornal inteiro que ele pega para ler em casa.
  6. Devolve no dia seguinte o jornal, depois de recortados os cupões promocionais.
  7. Não devolve mais, pois tem outros usos para a imprensa escrita.
  8. Ele intercepta o entregador de jornais.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O ENCONTRO DOS TITÃS

Há muitos milhões de anos Marte era habitado por um único e gigantesco titã. Vênus, neste aspecto, também não era diferente: lá existia outro titã, só que mais gracioso. E os dois titãs não se conheciam titanicamente, quero dizer, pessoalmente. Mas costumavam trocar mensagens telepáticas sobre os assuntos do quotidiano.
Um dia marcaram um encontro.
Aí, surgiu a inevitável pergunta:
- No seu planeta ou no meu?
Após algumas rodadas de negociação telepática, por razões logísticas deu Terra. Que, se os dois partissem quando os planetas estivessem alinhados, ficava a meio caminho para ambos. Embora muitos informes dessem conta de que o local a ser visitado não passava de um planeta inóspito.
Em sua bagagem, o titã venusiano resolveu trazer fogo para aquecer o planeta. Enquanto o titã de Marte zarpou com colossais estoques de água, por imaginar que o calor terrestre só poderia ser suportado com uma ducha a cada instante.
Ao encontro só o titã de Marte chegou pontualmente. Aborreceu-se com o atraso do outro, e foi visto inclusive a comentar:
- Se ela não chegar agora não precisa chegar.
Esse "ela" era uma forma de tratamento que o titã de Marte nunca antes usara para se referir ao de Vênus. Mas estava de acordo com as suspeitas que ele, nos últimos tempos, vinha levantando a respeito da natureza do outro. Então, movido pela curiosidade, resolveu esperar.
Com o atraso de uma eternidade, o titã venusiano chegou. E logo sucedeu, entre eles, um conhecer de corpos através da mútua apalpação. Até que descobriram, um no outro, que possuiam estruturas anatômicas que se completavam. E que, ao fazê-lo, provocava em ambos um indescritível prazer.
Nunca mais voltaram aos planetas de origem.

Bônus
Men Are From Bars Women Are From Venus
Esse trocadilho só dá certo em inglês.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

SOBRE O TÉDIO

Reside na capacidade de entediar-se a principal diferença do ser humano com relação aos animais. Se os macacos soubessem se entediar eles também seriam humanos.
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O tédio tem rima, porém não tem remédio.
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O que é bom, se repetido, também causa tédio. Como o doce de leite que, às tantas colheradas, o paladar enoja, se entedia.
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Cheio da vida não é igual a cheio de vida.
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O pior do tédio é que ele pode conduzir o entediado ao suicídio. Mas... estar sem selos para colocar na carta de despedida é um motivo justo para não se suicidar.
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Felizmente, o Centro de Valorização da Vida agora atende em domicílio. Antes de tomar a decisão radical, ouça o que eles têm a dizer em seu interfone.
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Propostas para combater o tédio: matar moscas com um jornal dobrado, mudar de calçada para não falar com o amigo paulista, desfiliar-se do clube dos entediados.
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E se não consegue evitar as pessoas e situações que causam tédio assumir um ar blasé e... bocejar. Bocejar inicialmente disfarçado (levando o dorso da mão à boca); com a continuidade do problema, bocejar às escâncaras e, por fim, dormir.
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Agora, se um chato acordá-lo para contar a última? Pois bem, que seja mesmo a última a que ele contou.
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Não há dúvida de que o carbono quaternário com a sua sociabilidade levou as coisas longe demais.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

ERA LONDRES E CHOVIA

A história da invenção das palavras cruzadas contada "comme il faut"
Certa vez o "que possui milhões" Vitor Orile, encontrando-se em "cidade à margem do Tâmisa", recebeu convite para jantar na casa de um "pessoa com afeição recíproca". Orile foi. Porque chovia torrencialmente, "sexta nota musical" pelas tantas, depois de servido o "infusão feita com o fruto do cafeeiro", o "aquele que recebe convivas à sua mesa", lhe perguntou:
- O que se pode fazer em uma noite de "precipitação atmosférica sob a forma de gotas" para matar o "medida de duração dos fenômenos"?
- Um destes "dois elevado ao quadrado" entretenimentos, respondeu Orile. Jogar "ponte, em inglês", contar "narrativa curta e picante", fazer "ações de adivinhar" e tocar "instrumento musical que sucedeu ao cravo".
Mas, enquanto falava, Orile, com o "articulação que reúne o braço e o antebraço" apoiado na mesa, se entretinha rabiscando letras e quadrículas nos pedaços de uma "lâmina delgada feita de celulose". De repente, exclamou:
- Enganei-me. Podemos fazer "o número de sentidos do corpo" coisas. Acabo de inventar um novo "ocupação ligeira e agradável".
Foi como Orile inventou as palavras cruzadas.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

TEM REMÉDIO?

Para que tudo fique bem claro começarei do PRIMODIAN. VALDA e eu, muito além daquele chavão de onde cabe um CAMBEM dois, juntos vivíamos. Éramos um casal PLENUM de amor. Como se a vida, em vez de um VALIUM de lágrimas, fosse apenas um CONMEL. TANTUM que nada abalava a nossa felicidade, nem mesmo uma rara e casual BRIDINA. E eu só podia GABAX quão afeiçoado um ao outro éramos. SIRBEN que, entre nós, a mútua renúncia não fosse a condição SINEQUAN para nada.
Mas, eis que um dia, numa praia de grande movimento, ela se decidiu por INOVAL. E, ante a um monte de olhares lascivos, fez um despudorado TOPLEXIL. Eu REAGIN, evidentemente (o que viria depois, o nu FRONTAL?). E, durante dias,lhe fiz um grande SERMION de advertência, sem que - detalhe CAP-TAL - ela se mostrasse uma MADALEN arrependida. Pois ficou em SILENCIUM, só ouvindo como se não fosse, DIABETAL, com ela a reprimenda.
Ah, eu devia ter entendido aquele seu MUTIL como um deixe ESTAC! Pois logo, logo ela partiu PARALON. SOBEE inclusive que foi para viver uma nova experiência, uma NOVARRUTINA. Não pensando em entrar para o teatro BESEROL, mas porque eu lhe havia cansado a BELEXA. E que o UVILON disso tudo fora a minha incompreensão. Como se um homem INTAL situação não devesse reagir, devesse SERTAL um desfibrado que tudo suporta calado.
Ora, não foi porque eu possuísse um humor LABEL, eu fiquei fulo porque ela DESOBESI-M. Ao armar COFASOL na praia, um lugar onde as pessoas de boa índole vão apenas FLANAX. Mas o importante é que hoje eu tento ser FORTEN, me libertar desse maldito COMPLEXO B. E procuro cair na REALAN, o que não é FA-CYL no transe em que me acho. Porém é preciso, antes que me venham ideias de DUOCIDE, já que desaprovo as soluções violentas. Por natureza, sou MANSIL de espírito e tenho de sobra o NOBRIUM sentimento do perdão.
É ESSEN o meu compromisso: quando um ser FEMINIL aprontar outra, haja o que houver, eu vou me conservar SERENIUM. TOTALENS. Isto é, pelo menos enquanto não VOLTAREN os meus incontroláveis ciúmes...

Crônica publicada em "O POVO - CULTURA", em 20/05/89, e no "JAMB", em data incerta. Alguns dos remédios citados no texto não são mais produzidos pela indústria farmacêutica.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

DOM FULANO X DOM BELTRANO

Há os que defendem a monarquia de um modo equivocado desde o início. Propondo o nome de Dom Beltrano para ocupar o trono do país, caso o plebiscito realmente decida que o Brasil vai virar reino. E que, com isso, lesam os interesses de Dom Fulano, o qual, na linha da sucessão, tem precedência. Ainda que Dom Fulano, força é reconhecer, seja um que se perde pelo nome. O que ele tem não condiz com a pompa e a circunstância do cargo real, é demasiado vulgar.
Se é pelo passado de dedicação à TFP, também vence Dom Beltrano. Cuja militância em prol da Tradição e da Propriedade, fê-lo até esquecer a Família. A ponto de Dom Beltrano, apesar de madurão, ainda não ter um descendente - e isso é mau! Na medida em que a dinastia para ir em frente vai ficar na dependência de primos, cunhados e outras lástimas.
Bem, a culpa disso cabe ao próprio Dom Beltrano que, em algum lugar do passado, fez voto de castidade. Não sabendo ser, naquele momento, sábio como Salomão foi. Embora se diga que Dom Beltrano tende hoje a revisar a antiga decisão. Quer dizer, se é para ganhar a coroa ele topa encarar uma outra - de carne e osso. Mandando buscar essa coroa de sangue azul lá "nas Oropas", para o bem da Casa de Bregança Bragança.
E por falar em coroa, como anda a coroa real? Dizem que, numa oficina de reparos, desfalcada dos brilhantes que foram doados para acabar de vez com a miséria do Nordeste. Agora, que a hora de colocá-la na cabeça já se aproxima, justo é que ela fique outra vez "joinha". Pois Dom Beltrano promete usá-la, em grande estilo, no primeiro baile que houver na Ilha Fiscal. Para provar inclusive que é melhor anfitrião do que o seu antecessor na época do Brasil império.
Como palavra, plebiscito soa desagradavelmente: evoca plebe. Mas, paciência, é através dessa forma popular de consulta que o Brasil pode voltar a ser monarquia. E integrar o fechado clube onde já se encontram Lesoto, Tonga, Nepal, Suazilândia... Com essas nações o Brasil tem muito a aprender. Por exemplo, conseguiria o brasileiro sobreviver caso tivesse uma renda anual per capita de 170 dólares? Não? Pois o nepalês consegue isso e ainda saúda o seu rei.
Mesmo detestando a carcomida república, Dom Beltrano não pretende discriminar quem o serve lealmente. A prova é que ele carrega, no bolso do colete, o nome do ex-ministro Magri para o cargo de bobo da corte. Magri, que acredita piamente que do céu chovem dólares, está compenetradíssimo. Em conversa reservada com o futuro monarca, já lhe prometeu não inventar neologismos. Só arcaísmos, daqueles que nos façam lembrar os bons tempos d'antanho.
(rascunhado em 1993 e reescrito em 2010)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

JÁ FOI ASSIM

Para dissipar umas nuvens monárquicas que estão a se formar no horizonte, bata (com cetro, não) na madeira três vezes.
Se isto não der resultado, e tivermos de suportar pompas, circunstâncias e tais, que o anacrônico sistema de governo deverá trazer para o país, sem que em contrapartida algo de bom advenha, oportuna será a seguinte sugestão:
A Corte, por ocasião de sua reinstalação, começar pelo baile da Ilha Fiscal. Era o que estava fazendo quando, para a felicidade geral da nação, foi-lhe dado em 1989 o vade retro.
* * * * *
O monarca representava o Poder Moderador. E, como tal, indicava os nomes que iam compor o Conselho de Estado e o Senado - este último em caráter vitalício - aos quais competia apenas dizer o que o soberano queria ouvir. Ele também indicava o primeiro-ministro que, por sua vez, montava o Gabinete que ia governar o país.
Havia eleições. Nestas, apenas uma diminuta parte da população votava, a fração constituída pelos grandes proprietários de terras e de escravos, cujos representantes alternavam-se no Poder Legislativo como as duas faces da mesma moeda.
Poder Judiciário tampouco merecia ter este nome, pois os magistrados podiam ser suspensos e demitidos.
E acrescentem-se estas outras mazelas: uma Constituição outorgada; uma população material e intelectualmente desassistida; a tolerância com o câncer social da escravidão; Estado e Igreja imiscuindo-se mutuamente; as reclamações das províncias resolvidas manu militari; uma economia baseada no modelo agrário exportador; a pouca expressividade de sua área científica etc.
Cair na real é constatar que o Brasil já foi assim.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

AO REI, NADA

Vote no rei e não vote nunca mais. É como deveria ser, a bem da verdade, o slogan inteiro dessa fajuta campanha monarquista. Pois não consta que existam, nos países onde a anacrônica forma de governo ainda medra (epa!), súditos votando em reis. Quanto ao símbolo, que os monarquistas andam utilizando na campanha televisiva, mais parece "chupado" do logotipo do McDonald's. E, não bastando o enchimento de paciência, ainda deram de passar o pires, digo, a coroa.... pedindo doações. Ora, vão gastar um pouco daquilo que já arrecadaram com os laudêmios de Petrópolis!
Leitorado, 17/03/1993

Sobre a suposta neutralidade do rei, ocorrem-me algumas dúvidas: O rei não fede nem cheira? Não toma partido de nada exceto da TFP? Está descarregado e com isso não se deixa influenciar por campos magnéticos? Decide ele da forma salomônica, o que inclui naturalmente algumas criancinhas cortadas ao meio? Ou, então, o rei já vem com a roupa suja lavada a sabão neutro? Enquanto não me esclarecem, vou apenas torcendo... não, não é a roupa do rei. É para que não venha a nós o vosso reino.
Leitorado, 19/03/1993

No finado império havia uma lei fixando em 50 o número máximo de chicotadas que o escravo podia levar por dia. Apesar desse tabelamento, por ordem do patrão ou por simples entusiasmo sádico do leitor feitor, era comum o escravo ser chicoteado até à morte. Encurtando assim uma vida útil no eito que poderia durar dez, quinze anos... para prejuízo do desavisado patrão que, desgraçadamente, de arrependimento não morria. E publica-se uma pequena relação dos instrumentos, além do já citado chicote, que eram na época usados para a aplicação de castigos corporais nos escravos: correntes, gonilha, gargadeira, tronco, viramundo, algemas, peia, máscara, anjinho, palmatória, ferro de marcar etc. A informação é dada em atenção a Sandra de Sá, Macalé, Neuma da Mangueira e outras personalidades da raça negra que possam estar atualmente envolvidas na campanha da monarquia. Escravidão e monarquia no Brasil foram as duas faces (azinhavradas) da mesma moeda. Quando uma acabou, a outra idem.
Leitorado, 02/04/1993

sexta-feira, 28 de maio de 2010

ESSES JAPONESES MARAVILHOSOS...

É difícil conversar com um homem
que mantém um relacionamento profundo
com o aparelho de televisão. E. Bombeck

Não é ficção: os japoneses desenvolveram um tipo de TV em cores inteiramente revolucionário em matéria de economia de espaço. Nada convencional, o aparelho é para ser colocada na parede, como um quadro, fazendo parte da decoração da casa.
O que é a relatividade: enquanto os americanos ficaram no "time is money", os japoneses, com tecnologia própria, já estão no "space is money". O mundo do futuro pertencerá mesmo a esses japoneses como suas máquinas eletrônicas - eu, cidadão comum, estou convencido disso. Pode acontecer que algum "discordino da silva" diga que não, assegure que pertencerá aos nipônicos, só que no fim, pelo argumento de minha força, acabará cedendo na ideia.
Metido a sociólogo da televisão, mas sem ter as polegadas de um Artur da Távola, eu dei de fazer um questionamento. Até que ponto o comportamento das pessoas será afetado pelo advento do novo televisor? Será bastante afetado, respondo, pois só o coroa aqui, de cara, já está prevendo três ou quatro distorções no comportamento do homem partícipe dessa aldeia global.
O televisor, por não ter quase espessura, ninguém poderá mais dar nele um soco no tampo para fazer voltar som e/ou imagem. Terá que descarregar a "frustração reparadora" no rádio, no relógio digital ou, quem sabe, no liquidificador.
É possível que um ou outro desavisado, perfeito "videota", desperdice preciosas horas contemplando uma gravura de peixinhos ao tempo em que pensa estar assistindo a um programa da televisão educativa.
Alguém, pela madrugada, poderá desligar o televisor de um apartamento vizinho. Um pontapé na parede e... pronto! Fica dispensado do trabalho de vestir o quimono para ir enfrentar o dono do barulhento televisor.
E, pedra importante a gente canta é no final, o que ainda pode acontecer a fulano, um sujeito casado no civil, no religioso e no monótono. F. chega a sua residência e encontra o famigerado televisor-lagartixa, não na parede, mas sim no teto. E, naquela hora das coisas impróprias, vai, descobre que o que está dando prazer à esposa não é ele, pelo vão do ombro é a sessão-coruja.
Colocado numa situação dessas, só para efeito de hipótese, Antonomásio foi enfático quanto ao que faria: "mudo de canal". Sei não, mas o que Antonomásio disse, cabe ser bem meditado, pois tudo que o desbocado fala tem mais de um sentido.
(publicado no Jornal O Povo, aí pelos anos 80)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O MISTÉRIO DA VIDA

A solidariedade é sublime ação
(SUBLIMAÇÃO).
Por isso, vai ficando cada vem mais etérea,
éter,
et....
até não mais existir entre os homens.
Os mortAIS não (se) importam:
não enxotam o abutre que bica
o fígaDOR de Prometeu acorrentado.
EmboraVIboras achem um absurdo
(no meu tempo, meu filho, como era fácil
picar um belo calcanhar!)
que eu use botas blindadas.
(PAUSAPARARIR).
Só um ser sabe o Mistério da Vida
e ESse FINGE.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O SINGULARÍSSIMO DIA DO NAMORADO

Quando a presente mensagem chegar a este prestigioso jornal é bem possível que não seja publicada. É que já transcorreu o 12 de junho, a data em que se comemora o Dia dos Namorados.
No entanto, a mensagem não é totalmente extemporânea, uma vez que ela pode se adequar ao 12 de junho do ano vindouro. Agora, se contribuísse a mensagem para restaurar, de uma vez por todas, o legítimo significado da data, aí tanto melhor. É terrível como ora interpretam a data!
Vendendo o peixe:
Eu tenho - por fonte absolutamente confiável - que o comércio, ao instituir o dia em questão, apenas pensava em homenagear um peixe malacantídeo da costa brasileira, o Namorado. Outros dias seriam depois criados. O Dia do Badejo, o da Garoupa, o da Cavala (a Cavala, quem diria...) e, assim por diante, até só restar o dia 1º de novembro, o qual, por razão óbvia, seria dedicado a Todos os Peixes.
O Dia dos Namorados funcionaria, pois, como um balão de ensaio. Bem aceito pela sociedade, ensejaria a criação de outros dias. Até todo dia ser dia de peixe.
Mas o plano foi sustado. Ao se observar o seu desvirtuamento - com tendência ao descontrole - a partir do Dia dos Namorado. Enamorados (uma letra, às vezes, é tudo) a trocarem entre si presentes e lembrancinhas... como se deles fosse o dia. A toque de caixa registradora inclusive. Enamorados, por todas as partes, a se tornarem posseiros do dia. Quando o Dia, com "D" maíúsculo, não era mais um dia qualquer, devoluto.
Com isso, o Dia crepusculou, gentil senhorita. Visse-o como ele andava, e anda assim de intrujões, e estes com seus mimos fáceis. Chama-se agora Dia dos Namorados, e o festejo dele é outro. Bem diferente do que o comércio (cujo deus é Mercúrio, o paradigma da honestidade) para ele imaginou.
Aí, diante do acontecido, o comércio, que era quem iscava, jogou fora o samburá. E botou as barbatanas barbas de molho. Desobrigou-se. E, alegando a imprevisibilidade sociológica dos resultados, nunca mais se meteu em assunto de dia... a ver com o peixe.
Particularmente, eu penso de outro modo. Porque acredito no Dia dos Namorado, ainda. No dia restaurado em seu bom, puro e original significado que homenageia um peixe malancatídeo. E, por isso, estou aqui. Para incitá-la, gentil senhorita, a que, no ano que vem, em casa ou no restô, coma o Namorado a 12 de junho.
Assim ou assado, coma o Namorado no seu dia.

Opinião do Leitor, Jornal O Povo, 20/06/1985

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O ROJÃO DE ROSENERY

O fato é de conhecimento de todos, uma vez que foi transmitido ao vivo por várias redes de televisão. Aconteceu no momento em que o Brasil, com o coração na mão, disputava com o Chile uma vaga para a Copa de 90. Anteriormente, na partida que tinha sido realizada em território chileno, dera empate - com os brasileiros se considerando prejudicados pela arbitragem. Mas, naquele instante, com o escore favorável (1 a 0), o Brasil silenciava o adversário falastrão. E, pelo domínio de jogo que estava apresentando, já se prenunciava um placar ainda mais ampliado. Era só esperar.
Quando o que não devia acontecer... acontece. Aos 28 minutos do segundo tempo, o goleiro chileno cai aparentemente atingido por um rojão. Vê-se o goleiro no chão, em meio a uma fumaça verde que, ao se dissipar, mostra o pior. Que há sangue na fronte do guarda-valas. Exatamente o que os chilenos estavam esperando para, diante da dificuldade em vencer os brasileiros, nos arrebatar extra-campo a vitória. Puseram o companheiro ferido na maca, trancaram-se no vestiário e, alegando violência no estádio, não mais retornaram ao gramado. Onde só tinham a perder, ao contrário do tapetão em que poderiam sair vitoriosos.
O estádio estupefacto: quem foi? quem não foi? E descobre-se que a causadora do quiproquó foi uma moça bonita de Niterói, de cujas mãos partira um foguete sinalizador. Pouco habituada a frequentar estádios, desfazendo-se em lágrimas pelo que acabara de acontecer, Rosenery, este o seu nome, alegou ter recebido de um estranho o foguete - com as instruções de como usá-lo. Então, no momento azarado azado, ela puxou a cordinha, disparando-o. Deixando o Brasil assim dividido: metade considerando-a uma estraga-prazeres e metade tendo-a na conta de uma desmancha-prazeres.
Seguiu-se uma semana de grande expectativa para os torcedores de lá e de cá, com a decisão do resultado da partida a cargo da FIFA. Felizmente, Brasil e Chile não fazem fronteiras pois só Deus sabe a que ponto as animosidades chegariam. De qualquer maneira, o desempenho de Rosinery lhes deve ter mostrado do que é capaz a balística nacional. Outras coisas também nos seriam mostradas, mas aí fica por conta dos acertos da moça com as revistas masculinas.
Quanto ao Rojas (nome que atrai rojão!), o goleiro vai ter que se explicar em Zurique. Negócio seguinte: alguém ser atingido por um foguete luminoso que, no máximo, pode chamuscar (o que não lhe aconteceu no plano físico) e então aparece com um corte no supercílio. Daí, ou estamos diante de um grande prestidigitador ou, então, diante de um azarado que se deixa atingir pelo fecho da própria luva. Correndo o resto do espetáculo por conta de muito mercúrio cromo.
Consumatum est! O Brasil vai estar na Copa de 90. Uma decisão do comitê organizador da FIFA, após considerar que houve abandono de campo por parte dos liderados de Aravena, deu a vitória ao Brasil. Por 2 a 0, conforme estabelece para esses casos o artigo 6 do regulamento da entidade. Como 1 a 0 já estava quando a partida foi interrompida, gol de Careca, não custa nada indicar o autor moral do segundo gol. Agora que o susto já passou, que tal dar o crédito desse gol à Rosenery? À Rosenery que, certamente, vai agradecer esse reconhecimento público não soltando outro rojão.
(1989)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

MINIMALISTA

Sr. Editor,
De tempos em tempos ressurge a discussão sobre o famoso dedo mínimo de Lula. Aquele que o líder petista não mais possui, claro, já que o outro, em sua dolce vita na mão normal, não é sequer lembrado. A não ser pelo dono, nos momentos em que ele precisa do mindinho sobrevivente para se aliviar de algum prurido no canal auditivo.
Mais recentemente, a discussão tomou corpo quando o seu principal concorrente na corrida presidencial fez o seguinte: adotou, como símbolo de campanha,uma mão espalmada - com todos os dedos à mostra! Como se fosse uma provocação à Lula que, com desvantagem nesse campo, não reúne condições para responder no mesmo estilo. Sob o risco de estar incidindo em meia-verdade.
Outra preocupação é livrar-se dos comentários maldosos sobre a perda digital. Dos "sem-afetos" que, botando o dedo no suspiro, tentam defini-lo como "um trabalhador burro, por ter se acidentado no trabalho". Ora, então esses atiradores de farpas não ouviram o que alguém disse? Sobre aplicar o mesmo raciocínio no caso de Ayrton Senna, apenas para ver a que esdrúxula conclusão se pode chegar.
Principalmente que Senna, o maior piloto de carros de corridas que o mundo já viu, no circuito de Ímola, perdeu bem mais do que um dedo...
A condição de deficiente físico ao líder "minimalista" só pode carrear muitos votos adicionais. Oriundos dos deficientes físicos existentes no país, mas não da parte dos deficientes mentais. Os votos destes, por uma questão de identificação, já estão tendo outro encaminhamento (pelas barbas de Enéas, não me perguntem para quem!).
Teresópolis à parte, um dedo não é tudo! Com os nove que lhe restam, Lula poderá inclusive inovar quando estiver no poder. Não pagando conta pública que antes não tenha passado na prova-dos-noves. Fazendo, sem se equivocar no número, as novenas para Santa Edwirges etc. Contanto que, estando lá, não nomeie ministros cheios de nove-horas (sob o pretexto de que vão participar da reunião palaciana das nove).
Lula não se propõe tocar harpa (embora o país muito se pareça com uma!). Quer apenas governar o Brasil, um país tão cheio de problemas que qualquer um que se meta a resolvê-los terminará cheio de dedos. E, com menos um, ele já parte com alguma vantagem.

Datas da publicação: 17/06/94 no JORNAL DO LEITOR e 29/06/94 no DN - CARTAS  

sexta-feira, 23 de abril de 2010

À SOMBRA DOS SAPATOS IMORTAIS

A propósito de uma pergunta sobre o que fazer com os sapatos de Imelda Marcos, tenho alguma sugestões.
Bem, antes de tudo, fico na dúvida acerca da quantidade exata dos pares de sapatos que aquela senhora na atualidade possui. Estima-se que sejam mais de cinco mil pares. Agora, dizer exatamente de quantos se compõe o acervo acaba não passando tudo de um chute (ora, bolas). E dos mais desajeitados porque, ao que parece, não há chuteiras no lote da viúva. Só sapatos finos, adquiridos com parte dos cinco bilhões de dólares com que se calçou o marido, o ditador Ferdinand, ao tempo em que esteve no poder.
Como era a fórmula: enquanto Dona Imelda fazia da vida sapato, Dom Ferdinand, mais abrangente em sua atuação, ia fazendo gato e sapato. Com o povo e o erário das Filipinas.
Mas, as sugestões. A primeira é jogar tudo no vulcão Pinatubo para exorcizar o mal que a ditadura Marcos causou ao povo filipino. Entretanto, resisto a essa ideia: que culpa tem o vulcão? Além de que o Pinatubo, cujo temperamento é reconhecidamente explosivo, não ia engolir a coisa quieto. Na primeira oportunidade, o vulcão devolveria a carga de sapatos ao meio-ambiente. Disso resultando que o arquipélago ficaria qual um imenso panetone - com os sapatos de Imelda fazendo as vezes de frutas cristalizadas!
A sugestão de distribuí-los com a população carente é demagógica. Derrapa na "pododiversidade" e lá poucas mulheres calçam o número de Dona Imelda. Uma dublê de pés dela e meia dúzia de "sociolatas", não mais que isso, seriam as pessoas contempladas pela medida.
Por isso, a ideia mais plausível é criar o Museu do Sapato. Mas sem essa de contar com os sapatos da defunta! Não precisa morrer a viúva Marcos para que a República das Filipinas tome tombe todos os seus sapatos. Aliás, todos... menos um par de pantufas que lhe seria deixado para fazer sapateado no xadrez. Encarregar-se-ia o Estado de os desempoeirar, lustrar e desodorizar... E de botar meia-sola quando bastante andado estivesse o exemplar. Após o que, alertando os curiosos para que não fossem além dos sapatos, seriam estes colocados em exposição no museu.
Com esta destinação proposta para os sapatos, creio haver cortado o nó górdio de seus cadarços.

Data da publicação no Jornal do Leitor: 22/05/94

sexta-feira, 16 de abril de 2010

CARTA AO JÔ - 3

Caro Jô:

Eu tenho notado que os textos lidos por você, nos últimos tempos, são apenas os que aí aportam através de fax. E não através de cartas, como costumava ser. É possível que estas até estejam a ser rasgadas ou incineradas para que não cheguem à sua mesa.
Desculpe o trocadilho mas, em seu programa, epístola agora só tem vez com pistolão. É mágoa com algum carteiro? Justamente agora que temos um CEP novo. É pinimba com algum filatelista? Ou é aquela impressão de que o fac-símile, vulgo fax, aprimora a qualidade do que foi escrito?
Ora, Jô, a carta não existe para humilhar ninguém. Apresenta um passado glorioso que remonta aos mensageiros da Grécia antiga. Conheceu dias de esplendor nas mãos de Madame de Sevigné. E muitas delas, como as que foram trocadas entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel, alçaram à condição de livros.
Uma carta, entre outras qualidades, pode vir impregnada do perfume da mulher amada. E o fac-símile nem de perto acena com essa possibilidade.
Ah, quanta verdade tristonha ou mentira risonha uma carta nos traz! A própria Bíblia não seria a mesma sem elas. Já pensou se Paulo tivesse apenas passado um fax aos coríntios? Além disso, foi escrevendo uma carta-testamento que Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na História.
Não é o fato de um texto ser veiculado através de fax que o torna digno de ser lido. Se algo merece ser lido, ilustrado por seus pertinentes comentários, é porque deve ter conteúdo. E o que ora escrevo tem de sobra.
Pois é, Jô, leia - em público - esta carta. Quanto ao conteúdo, fica para a próxima vez.

Cordialmente,
Paulo Gurgel

sexta-feira, 9 de abril de 2010

TA...MANCADAS

Admiro sem reservas o povo lusitano. Os portugueses que, entre outras coisas, inventaram o submarino de cortiça (que não afunda nunca!), a versão mais avançada do computador (cuja memória foi substituída por uma vaga lembrança) e o limpador de para-brisa (projetado para funcionar no interior do carro).
No país irmão, ao que se sabe, o consumidor é sempre respeitado. De suas fábricas já saem todos os fósforos testados. As xícaras, para o conforto de destros e canhotos, invariavelmente têm duas aselhas. E as perucas são bastante óbvias para que todos saibam quem são os calvos.
Lá tudo funciona às claras. Inclusive a polícia secreta (cujos integrantes usam vistosos crachás). E, de modo mais competente que nós, eles se defendem da inflação. Na base do escudo.
Enquanto isso, que fazemos nós? Invadimos o "jardim da Europa à beira do mar plantado" com os nossos filhos de Tiradentes. Com os nossos enlatados da televisão. Sabendo que estes, do primeiro ao último capítulo, perpetram os maiores atentados a nosso idioma comum. E, para tripudiar, ainda mandamos o Claudio Humberto ser adido cultural em Lisboa.
É hora de a gente parar com o feio costume de contar anedota de português. Principalmente se houver um patrício na roda, porque aí a piada terá de ser contada outra vez. Por essa e outras é que, mesmo sem ter procuração para defender português, eu sempre reajo quando uma dessas infames piadas está para ser contada.
E reajo à portuguesa, naturalmente. Assentando o meu pé de ouvido na mão do infeliz piadista.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

CARTA AO JÔ - 2

Prezado Jô:
Permita-me tomar um pouco do seu tempo para discorrer sobre um vizinho. Ele é o paradigma de um chato. Avalie você que não se pode, nem por cordialidade, cumprimentá-lo com um "oi, tudo bem?", pois sabe o que acontece? Ele não entende isso como uma saudação, faz parar o incauto e daí para frente... tome conversa aborrecida! Durante a qual, tintim por tintim, ele se põe a descrever os últimos fatos de que teve conhecimento, sobremodo os desagradáveis. Quando podia ter respondido com um "tudo bem" e seguido caminho.
Ele adora frases-feitas, lugares-comuns, é porco-chauvinista e tem mau hálito. Não consegue conversar sem, a todo instante, cutucar o interlocutor como se estivesse a lhe oferecer um pato. Enquanto repete, incessantemente, o bordão "tá me entendendo?". Pois saiba você que, numa dessas vezes, eu tive de reagir. "Ora, eu entendo Kierkegaard, o governo paralelo do Lula e a Lei do Inquilinato, por que não hei de entendê-lo?" Mas, nem assim, Jô, larga ele o detestável estilo, já que "mancômetro" é algo que não tem. Nem cortador de grama, o qual, se ele me toma emprestado, devolve depois quebrado.
O certo é que não vou aturá-lo mais nas festas que faço em minha chácara. E, para barrá-lo na pretensão de entrar sem convite, na próxima vou pôr leão-de-chácara na entrada. Sabe como é, Jô, o sujeito a fazer da minha festa um grande rega-bofe, a falar bem do governo, a contar piada cabeluda na presença de minha irmã que pensa em ser freira... Aí, quando alguém começa a contar outra, que talvez melhore o nível, ele vai, interrompe com um "ah, essa é velha!". E, assim, prossegue até a festa terminar... com ele promovido de chato a bêbado chato!
Diz-se que o universo se acha em expansão, o que pode ser para mim um princípio de esperança. O de que ele fique um pouco mais afastado do microcosmo que habito. Mas... como isso pode levar milhões de anos, o mais prático mesmo é eu me mudar de bairro, cidade ou país (na ordem inversa de preferência). E, se possível, o quanto antes, Jô! Pois o vizinho, para reciclar a sua já imensa chatice, acaba de aderir à cientologia.

Publicado em 20/11/91 no Diário do Nordeste

sexta-feira, 26 de março de 2010

ENTRE "ITES" E "OSES" - 2

O hipocondríaco
- Doutor, eu não tenho doenças. Tenho epidemias!
O asmático
É quem mais chia na fila do SUS.
Na Natureza
Assustado ou confuso, cada ser reage de um modo peculiar. O médico, por exemplo, escondendo-se atrás de uma terminologia profissional.
O preço dos remédios
Um descalabro! Até os medicamentos que se prescrevem para a vertigem estão subindo de preço... vertiginosamente!
Uma, duas, já
- O senhor é louco.
- Gostaria de ouvir uma segunda opinião.
- O senhor é feio.
Se todas as pessoas dessem as mãos...
Uma coisa é certa: as epidemias se propagariam mais rapidamente.
Sóbrio e não só ébrio
- Ainda não sei o diagnóstico de sua doença... mas deve ser por causa da bebida.
- Neste caso... voltarei quando o senhor estiver sóbrio.
E nunca se exceda nos excessos
A temperança é a última que morre.

sexta-feira, 19 de março de 2010

CARTA AO JÔ

Fortaleza, 3 de novembro de 1992
Prezado Jô Soares:
Na qualidade de espectador diário(1) de seu programa na televisão, sinto-me motivado a apresentar algumas sugestões que, caso venham a ser seguidas, vão certamente tirá-lo da mesmice em que, nos últimos tempos, se encontra (o programa, bem entendido).
Ei-las:
  1. Receber o convidado ao pé da escadaria. Não tenha medo de que ele, prevendo uma entrevista movimentada, dê um passo errado e escorregue em sua direção. Você tem massa suficiente para apará-lo em qualquer queda.
  2. Servir ao entrevistado vinho do Porto. Ou, então, um cafezinho preparado numa requintada cafeteira(2), a qual deve ser posta para funcionar no início da entrevista. E não ficar só você(3) a sorver de uma caneca um líquido cuja natureza, até hoje, o grande público desconhece.
  3. Dispensar o Bira, o Derico, o Rubinho e o Miltinho. Mas conservar, do quinteto "Onze e Meia", o seu pianista para que ele toque nos intervalos das entrevistas. Depois que você, com a voz bem lânguida, o tenha anunciado: O-s-m-a-r.
  4. Soltar-se um pouco mais, ignorar o tênue limite que separa o charme da veadagem.
  5. Dispor de uma câmera exclusiva para as confidências e, ao usá-la, postar-se com obliquidade.
  6. Trocar o Jô Suíno (4) por um outro tipo de mascote. Pode ser uma perereca de plástica.
  7. Ter a mão um livro de auto-ajuda para, no final do programa, proceder a leitura de algum pensamento edificante.
São estas as sugestões, meu caro Jô. Adote-as e o seu programa, daqui para frente, passa a ser... OUTRO(5).

Cordialmente,

Paulo Gurgel

(1) com viés para espectador eventual, nem sei se o Jô leu a carta
(2) com jeito de retorta
(3) que egoísta!
(4) já chafurdou demais!
(5) o OUTRO refere-se ao programa do Clodovil

sexta-feira, 12 de março de 2010

PEDILÚVIOS, JÁ

Parreira ("o gol é apenas um detalhe") e Zagalo ("o empate é um bom negócio") tinham razão o tempo todo. A prova é que, com um 0 x 0, o Brasil decidiu a partida final da Copa de 94. Ainda que precisássemos da prorrogação e da disputa nos pênaltis para não termos que dividir com a Itália o título de tetracampeão do mundo.
Os italianos, por sinal, já nos fizeram passar um grande vexame em 70. Obrigando-nos a que lhes aplicássemos um 4x1 de tristíssima memória, uma vitória da qual, até hoje, nos envergonhamos.
Mas é com a Itália que temos muito a aprender. Não no soccer, mas no plano dos costumes. Haja vista a bem sucedida luta anti-corrupção que o país vem promovendo com a chamada operação mãos limpas. E cujos resultados são os xilindrós italianos cheios à cunha de políticos e empresários corruptos.
Aqui, com a honrosa exceção do PC, não temos levado sorte. As enxovias até botam gente pelo ladrão, mas é tudo pé-de-chinelo. Em pé de igualdade não se vê um sujeito de alto coturno. Criamos inclusive o Catão descartável, o que dura uma temporada e vai para a berlinda.
Por isso, desacredito que uma operação mãos limpas tupiniquim possa dar certo. Apresentar-se-iam Pilatos, mas aqueles que realmente deveriam ser alcançados pela bacia de água, não. Continuariam com as mãos sujas como dantes. Talvez porque aquilo que está a acontecer na Itália precise de uma adaptação à nossa realidade para nos dar uma operação pés limpos, a qual está mais de acordo com a alma nacional.
Não é aqui o país do futebol, da capoeira e do samba dito no pé?
Portanto, não aceitemos as desculpas daqueles que têm os pés no atoleiro moral. Sem capachismos e sem meter as mãos pelos pés, sejamos inflexíveis com eles: pedilúvios, já.

sexta-feira, 5 de março de 2010

MAIS "PARAVÉRBIOS"

Foram por mim compostos posteriormente aos que estão em "A adulteração de provérbios".
Prov. - Quem tem olho grande não entra na China.
Parav. - Quem tem piolho grande não entra na tina.
Prov. - Alegria de pobre dura pouco.
Parav. - Alergia de pobre cura pouco.
Prov. - Na guerra mentira é como terra.
Parav. - Na guerra:  me tira dessa terra!
Prov. - Matar dois coelhos com uma cajadada.
Parav. - Matar dois camelos com uma caixa d’água.
Prov. - Quem cochicha o rabo espicha.
Parav. - Quem comicha o rabo é... bicha.
Prov. - Cão que ladra não morde.
Parav. - Cão que ladra não o acorde.
Prov. - Atrás de quem corre não falta valente.
Parav. - Atrás de quem morre não falta parente.
Prov. - Os fins justificam os meios.
Parav. - Os ruins justo ficam no meio.
30/06/12 - Atualizando ...
Prov. - Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
Parav. - Quem com ferro fere, com ferro será fundido.
20/04/18 - Atualizando ...
Prov. - A mau agricultor, cada enxada dá dor.
Parav. - A mau lutador, cara inchada dá dor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A ADULTERAÇÃO DE PROVÉRBIOS

Ao folhear o livro "O Padre do Jumento", sobre a vida e a produção intelectual do (nosso) Padre Antonio Vieira, a quem devemos o existir literário do "ciclo do jumento", algo de imediato me prendeu a atenção. Em suas páginas 126-127, uma lista de "alguns provérbios que chegaram a nossos dias adulterados, ninguém sabe por quem", conforme textualmente registram Amorim Filho e Expedito Duarte, os autores do mencionado livro.
É que, na qualidade de adulterador de dez dos provérbios publicados, quero lá a minha autoria reconhecida.
Foram inicialmente publicados em maio de de 1984, na coluna "Gente e Fatos", do jornalista Edmundo Vitoriano. Depois que José Raimundo Costa, jornalista e também adepto do passatempo de adulterar provérbios, começou a divertida série. Eu recordo que, na época, até criei o nome "paravérbio" para rotular o que estávamos a fazer. Ao inventar essas frases que não transmitiam uma experiência nem davam um conselho, que são os fins usuais dos provérbios. Aliás, chegavam a fazer o oposto, na qualidade de meros produtos do ludismo verbal.
Posteriormente, a José Costa e a mim, juntou-se Lauro Ruiz de Andrade nesse espirituoso ofício de adulterar provérbios. De sorte que somos os três, não obstante o pater semper incertus dos latinos, os autores da lista publicada no livro de Amorim Filho e Expedito Duarte.
Relaciono os meus "paravérbios" que saíram nessa lista:
Prov. - Vaso ruim não quebra.
Parav. - Vaso ruim, mão quebra.
Prov. - Cada um por si e Deus por todos.
Parav. - Cada um por si e deu para todos.
Prov. - Antes que cases, vê o que fazes.
Parav. - Antes que cases, vê: que pazes!
Prov. - Cesteiro que faz um cesto faz um cento.
Parav. - Cesteiro que faz um sexto faz um... lento.
Prov. - Deus dá o frio conforme o cobertor.
Parav. - Deus dá frio: conforme-se com o cobertor.
Prov. - A situação está mais pra urubu do que pra colibri.
Parav. - A situação está mais pra urubu. Pra que coibir?
Prov. - Não adianta chorar sobre o leite derramado.
Parav. - Não adianta chorar sobre o leite, desmamado.
Prov. - Ao vencedor as batatas.
Parav - Ao vencedor as mamatas.
Prov. - A fé remove montanhas.
Parav. - Maomé remove montanhas.
Prov. - Águas passadas não movem moinhos.
Parav. - Águas passadas não redemoinham.
Não se trata de nenhuma novidade o passatempo de parodiar provérbios. Fazer jogo de palavras com as expressões e os ditos mais conhecidos, dando-lhes sentido novo, chegou a ser moda no século XIX. E, ao que parece, continua sendo, visto que os humoristas não pretendem abandonar o rico filão. Do qual já foram faiscadas, entre tantas, as seguintes pepitas: "o Brasil espera que todos comprem seu dever", "depois da tempestade vem a ambulância", "quem ama o feio é porque o bonito não aparece", "quem dá aos pobres ou empresta... adeus", "a ociosidade é mãe de todos os vices" e "quem vê cara não vê que horas são" (esta última encontrada pelo Barão de Itararé).
Acerca desse fenômeno humorístico, talvez haja explicações. Uma delas, apela simplesmente para o princípio de que "uma grande verdade é aquela cujo contrário é igualmente uma grande verdade". Outra, como diz Lopes Ribeiro, é porque "a nova forma de viver à pressa tenha trazido como consequência natural a morte dos provérbios, essas muletas do bom senso que condensam uma longa experiência, previnem perigos ou dão bons conselhos". E, como não surgem novos provérbios, é que os "paravérbios" vão tomando o lugar dos velhos anexins.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

INIMIGOS NATURAIS

O mundo está cheio dos chamados inimigos naturais. Constituindo o mais clássico dos exemplos o cão e o gato, o qual é aproveitado ad nauseam nas histórias em quadrinhos e nos filmes de desenho animado. No entanto, eles não são inimigos exclusivos, já que o cão teme a carrocinha, a vacina, o foguetório e a tina d'água e hostiliza abertamente o carteiro. E porque o gato também costuma atazanar o rato, o qual, por sua vez, assusta o elefante... Quanto ao elefante, ah, este incomoda muita gente!
Outros inimigos naturais: o balão e o alfinete, a vidraça e o bodoque, o sapato e o chiclete, o carro e a motocicleta, a farofa e o ventilador, a árvore e o machado. Etc. Não passando de uma grande ingênua a árvore que disse para a floresta: "Calma, arvoredo, o machado é um dos nossos". Pois, vá lá que o cabo do instrumento seja de natureza vegetal, como considerou a arvorezinha, mas... o seu cortante ferro, hein? É uma meia verdade, isso sim. Além do que é preciso ser muito sândalo para, depois do que acontece, ainda perfumar o machado, esse vândalo!
Também a patroa e a empregada, o álcool e o fígado, o sal e a pressão, Deus e o diabo (vai se dar muito mal quem acender uma vela para ambos), a bactéria e o antibiótico, o chinelo e a barata (que se for esperta tampouco atravessa galinheiro), a crase e o estudante, a pimenta e as hemorróidas, a sogra e a humanidade, a pedra e o dedão do pé... A propósito, chute só onde Drummond foi buscar inspiração para escrever o seu conhecido poema.
E a lista é interminável! O caloteiro prejudica o garçom. Que dá o troco na mesa seguinte, aliás, esquece-se disso. A roleta de ônibus martiriza o gordo; a fumaça, a colmeia; a mala (sem alça), o carregador; o banco, o devedor... Até chegar ao bicudo que - exemplo extremo - é inimigo nato de outro igual. Quando eles tentam se beijar, naturalmente.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

VOCÊ E EU

  • Você toca tuba na banda e eu espremo limão.
  • Você encontra o paraíso perdido e eu o interdito.
  • Você é superoriginal e eu já vi esse filme antes.
  • Você é motoqueiro e eu respeito jamantas.
  • Você entra com o lombo e eu com o jucá.
  • Você vai ver e eu não estou lá na esquina.
  • Você espera na fila e eu tomo cafezinho na gerência.
  • Você empurra o carro e eu puxo o freio de mão.
  • Você procura a rolha e eu tomo o champã.
  • Você posa bonito e eu uso filme vencido.
  • Você dá saltos ornamentais e eu esvazio a piscina.
  • Você empurra o carro alegórico e eu desfilo.
  • Você vai à Pasárgada e eu deponho o rei.
  • Você vai à guerra e eu faço o fogo amigo.
  • Você carrega o piano e eu levo a vida na flauta.
  • Você paga e eu como o pato (ao tucupi).
  • Você carrega sua cruz e eu, a minha (que é de isopor e tem rodinhas).

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

DR. CARTA PÁCIO E SUAS MEIAS PALAVRAS

No tempo das diligências máquinas de escrever, eu recebia muitas correspondências do Dr. Carta Pácio. Em geral, eram cartas bastante longas e minuciosas. Nesta, porém, Dr. Carta Pácio abandonou o habitual estilo gongórico e foi direto ao cerne de uma questão.

"Prezado senhor:

O que vou lhe comunicar é baseado em pesquisas que tenho feito sobre a vida e a obra de um notário chamado Leclair. Foi ele que, no ano de 1843, descobriu que, se as palavras fossem cortadas ao meio, horizontalmente, e deixadas apenas com a metade superior, essas palavras seriam lidas e reconhecidas.
Com os pontos, as vírgulas e as reticências sendo sacrificados, dificuldades surgiriam para se pausar os textos. Entretanto, as aspas, os apóstrofos e os acentos seriam preservados. Meno male!
Pense o senhor na economia que o mundo faria em tintas de impressão. Atrevo-me a profetizar que, no futuro, os cartuchos de tinta estarão entre as coisas mais caras e inacessíveis. Poderá inclusive a humanidade sucumbir numa guerra dos pigmentos.
Avalie também como ficaria melhor a vida das pessoas que leem nas entrelinhas, já que elas (as entrelinhas) ficariam mais generosas. E os analfabetos, como num passe de mágica, seriam transformados em cidadãos meio-analfabetos, o que reduziria à metade essa chaga nacional.
Siga os ensinamentos de Leclair, meu senhor, e não tema que os outros o rotulem de um homem de meias palavras.

Cordialmente seu,
Dr. Carta Pácio"

Não é que o Dr. tem razão! Assim é que, o mais cedo possível, levarei minha máquina de escrever a um técnico a fim de que ele suprima a metade inferior das letras. Enquanto isso, eu não vou sublinhar mais nada.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

UNIÕES PERFEITAS

Muito já se falou sobre o casamento - esta instituição que a Igreja banalizou transformando em sacramento. Uns, a favor; outros, radicalmente contra. Dizendo estes últimos, entre outras acusações, que se fosse algo bom o casamento não precisaria de testemunhas. Nem a ele se refeririam com expressões como "amarrar-se", "enforcar-se" etc.
Mas as uniões não são duradoras quando não atendem a certos requisitos. Como as idades dos cônjugues, aliás, as diferenças das idades entre eles.
Assim, o casamento ideal seria o que ocorra entre um homem cinquentão e uma mulher aí pelos 18 anos. Para ele, porque as brasas se reavivariam, o fogo (da paixão) o incendiaria, fazendo-o "gemer sem sentir dor". E para ela porque receberia, em troca desse fogaréu todo, a atenção e a experiência do parceiro mais velho.
Uns vinte anos após de estimulante convivência, se não está errada a estatística da expectativa de vida que se divulga para o homem brasileiro, ele partiria desse mundo menor. Deixando mais uma viúva chorosa no pedaço. Só que, passados os prantos imediatos, as formalidades testamentárias, e dado destino à biblioteca do falecido, a viúva estaria disponível para uma nova união.
Ora, com uma gorda conta bancária, bens de raiz, uma mulher de 40 anos tem ainda muito viço pela frente. Sendo previsível que ela busque a seguir um relacionamento afetivo com algum rapaz de alta performance. Outra união perfeita!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

LAPSOS DE MEMÓRIA

É das piores a minha memória fisionômica. E, com muita frequência, me vejo em situação desconfortável quando alguém me aborda para uma interlocução. Conheço ou não conheço aquela pessoa toda prosa, ali postada à minha frente? Sim, devo conhecê-la, mas... de onde? qual o seu nome? Aí, fico ora fechado em copas, ora a comentar generalidades que não deixem a descoberto o meu lapsus memoriae. Na esperança de que, a qualquer momento, apareça uma pista que me leve a tratar o interlocutor pelo nome.
Ao menos isso. Pois nada é mais doce do que ouvir o nosso nome da boca de outrem. Essa frase, provavelmente dita por Mel Brooks, constitui uma grande verdade. Não adianta você ser amável, puxar um papo legal, se não sabe tratar o outro pelo nome. E fica meio esquisito pedir uma nova apresentação.
Dou exemplos das pistas que, por vezes, me socorrem: um remédio que obrou milagre (ah, é paciente), uma crônica que viu no jornal (ah, é leitor), uma plenária no sindicato (ah, é colega), um conselho para me cuidar (ah, é minha mãe). Exagero, leitor. Até o momento em que redijo estas linhas ainda não passei pelo último vexame.
Sou levado a apanhar mais da memória quando encontro alguém fora do contexto habitual. Mas acredito que isso não é só comigo. Reconheceria você se encontrasse: o seu açougueiro num restaurante vegetariano? o seu confessor num cabaré? o seu personal trainer num spa?
Sem ser masoquista, apanho ainda mais quando é do sexo oposto. Tantos são os recursos que a mulher usa para se embelezar. Penteados, maquiagem, lentes de contato coloridas, lipoescultura etc. Ah, só a voz é que continua a mesma (como dizia um anúncio na TV). E penso que sou mesmo um inepto para a arte da galanteria.
Parafraseando Terêncio, eu diria que tudo que é humano me é estranho. O nordestino tem um nome para isso: "ariado" (com origem em "alheiado"), que é como eu fico em muitas dessas situações. Longe de ser uma vantagem, constitui o fato um handicap. Eu nunca poderei ser um relações públicas, por exemplo. Político, nem pensar. A não ser biônico, vice ou suplente de senador.
Já notei que duas coisas conseguem me avivar a memória. Uma é receber uma advertência pela má memória. O que me faz caprichar na memorização fisionômica da pessoa para que o problema não mais se repita. A outra é ver a pessoa, ainda que a conheça apenas de vista, metida em alguma confusão...
Diabéisso? Serei eu um filho natural de Candinha?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

MINHA SUPERFATURADA BICICLETA

O meu sonho infantil de possuir uma bicicleta andava cada vez mais difícil de virar realidade. Não era do feitio do velho - nem, talvez, suas posses pudessem permitir a generosidade - dar valiosos presentes a seus filhos. Além disso, ainda estava longe de aparecer a estratégia publicitária que ensinava a gurizada a colocar, nos vários pontos da casa, os lembretes de "papai, não esqueça a minha Caloi".
Por isso, eu já havia fechado questão com os meus botões. Sobre a perspectiva de que não ia sair coelho daquele mato. E, se eu quisesse andar numa bicicleta, tinha mesmo de fazer o seguinte: alugá-la a hora.
Bicicleta de locação era sempre muito velha, de carregação. Lembro-me de que quando alguém saía à rua, montado numa delas, ouvia logo maldosos comentários. Do tipo "basta chover que os caranguejos aparecem". Mas foi nesses "caranguejos" que eu aprendi a dar minhas pedaladas, a tirar as mãos do guidão e a fazer outras proezas.
Ali pelos anos 60, cansei de pegar carona na bicicleta de Paulo Roberto. O "Brilhantina", como era o meu amigo apelidado (em virtude do excesso de "Glostora" na vasta cabeleira), não me faltava com a carona diária, ao término da aula no Colégio Cearense do Sagrado Coração. Antes do meio-dia, lá vínhamos os dois em desabalada carreira pela Duque de Caxias - numa só bicicleta! Com o perigoso detalhe de que a bicicleta de Paulo Roberto não tinha freio. Por descaso ou por busca de emoção barata, até hoje não sei bem. Sei apenas que, para freá-la, o colega encostava a sola do sapato no pneu dianteiro da bicicleta e o pressionava "de com força".
Um dia, compramos, de parceria, uma velha bicicleta que estava à venda por dois mil cruzeiros. Mil meu com mil dele (sei do cacófato). Gastamos, a seguir, ainda alguma grana para restaurá-la porque a idéia era revendê-la. E foi um grande negócio. Pois a "magrinha" acabou sendo vendida por dois mil e quinhentos de entrada, mais três prestações de igual valor. Embora Paulo Roberto não me tenha repassado a parte que me cabia na última prestação. Só me comunicou que resolvera dispensar o comprador do último pagamento. E uma crise de consciência pelo excesso de lucros foi o motivo que alegou para conceder a anistia.
Em meio aos acertos de contas com a transação, recebi do meu sócio um blusão vermelho com gola e punhos pretos. Muito apropriado para dirigir lambreta. Mas foi vestido com ele que eu enfrentei o calor senegalesco dos estúdios da televisão local em um programa de perguntas patrocinado pelo Alumínio Ironte. Ao qual fui para responder sobre Geografia. E o candidato aqui estava bem preparado para citar os afluentes da margem direita do Rio Amazonas, as cidades da Finlândia, a altura do Monte K2, porém o que aprontou comigo o Augusto Borges. Mandou-me uma pergunta múltipla, daquelas que envolvem aspectos conceituais. E, não podendo ser socorrido pelo decoreba, eu "dancei" no ato.
Este insucesso, porém, não me impediu de circular, no dia seguinte, pelas ruas centrais de Fortaleza. Com o vistoso blusão a ajudar, junto à memória das pessoas, na operação de rescaldo dos meus quinze minutos de fama na televisão.
No Sítio Catolé, em Senador Pompeu, onde eu costumava passar as férias, existia - enclausurada num quarto sob cadeado - uma bicicleta de fabricação estrangeira. Eu é que não me atrevia a tomá-la emprestada para ir à cidade. Ela pertencia a Tio Raimundinho, um solteirão cheio de manias e ciumento de seus objetos pessoais. E, para o meu tio, aquela bicicleta era "a joia principal da Coroa". Corria inclusive a história de que ele, quando ia à cidade, não a usava em todo o trajeto. Qualquer aclivezinho besta, ele já desmontava da bicicleta e a empurrava até o alto. E não era por falta de condicionamento físico, não. Era para não forçar a catraca.

sábado, 9 de janeiro de 2010

ENTRE "ITES" E "OSES"

Medicina
Eita, profissãozinha difícil! Não dá para aprender de ouvido, afora o caso do otorrino, claro.
Lance surreal
O paciente ter faltado à consulta anterior e se justificar com a apresentação de um atestado médico.
O médico cabotino
- Só não sou a coqueluche de minha profissão porque curo todas.
Antitabágica
Onde há fumaça há logro.
Sopraram
Que o bafômetro é o espirômetro com baixa tecnologia.
Parafraseando Drummond
Lutar contra a AIDS / É a luta mais vã / Mal hoje curamos / a febre terçã.
O médico realista
- Quando o cliente me elogia por haver acertado o diagnóstico, eu fique torcendo para que ele somente reapareça com alguma doença simples.
Oftalmologista
Aquele que escolhe a especialidade por amor... à primeira vista.
Saúde existe?
Só quando a doença não dá o ar de sua desgraça.
"Murphológica"
É melhor remediar do que desenganar.
Supremo desafio
Pingar colírio em olho de japonês.
Quem não inspira cuidados
Aquele que já expirou, é óbvio.
Outra obviedade
Nove entre dez bulas de remédios são otimistas.
E o médico literato
- Pela literatura eu morro, pela medicina eu mato.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

SÓSIAS

Presume-se que todas as pessoas tenham sósias, ainda que estes não sejam facilmente encontrados. Talvez porque sejam de praias diferentes ou, então, porque o acaso simplesmente não tenha feito a sua parte na arrumação. Ou na armação, vá lá. Porque, quando um se depara com outro, feito à imagem e à semelhança, resulta sempre em algum tipo de inquietação. Alguma paranóia. Relacionada a ver o sósia como um usurpador em potencial do tão duramente conquistado lugar ao sol.
Na mitologia helênica, em que vou buscar inspiração para esta crônica, encontro a seguinte denúncia sobre o deus Mercúrio. Que o deus, no cumprimento de algumas missões, tomava as feições do escravo Sósia. Mas só durante o seu trabalho... sujo (daí o disfarce). Já que, logo a seguir, Mercúrio punha as asas nos pés e voltava voando ao aspecto divino.
Quer dizer, Mercúrio comia o milho e Sósia levava a fama. E fama da pior espécie... que sobrava também para todos os sósias de Sósia.
Se a gente não gosta de encontrar outra pessoa trajando roupa igual (a impressão de um par de jarros), por que irá apreciar ver um sósia? A menos que esteja escalado para fazer o papel numa cena perigosa, de algum filme, e providencialmente apareça um dublê de corpo. Sim, que apareça, porém, que depois... desapareça. Se houver garantia de que, no resto do filme, o substituído não vá correr mais risco, afora o de uma má bilheteria.
Ó sósia, quantos equívocos se cometem em sua aparência! Chaplin uma vez tirou o terceiro lugar num concurso de... “o melhor Carlitos”.
Alma gêmea, homônimo, cover vocal, tudo bem. Mas sósia, até porque, em geral, não encontra respaldo genético para o fenômeno, cheira a fraude. Ressalvado o pater semper incertus dos latinos. E nada, nada mesmo, dá direito a um sósia pedir dinheiro emprestado de outro. A menos que ele empregue o dinheiro do empréstimo numa cirurgia plástica para mudar a aparência. Mas, se for para virar sósia do cirurgião, essa idéia é para ser revisada.
Sei não. Nesse mundo com vocação para a clonagem, eu ainda continuo num laboratório deserto pregando a diversidade. Ou, pelo menos, que se acrescentem os sinais particulares de cada um. Aqui, uma pinta na coxa da apresentadora Angélica, ali umas olheiras no sinistro Serra, acolá uma covinha no queixo do Kirk Douglas... Esses pequenos defeitos que, ao longo do tempo, têm facilitado a sublime missão dos institutos de identificação.
Cada ser é uma experiência única que, bem ou mal sucedida, não merece ter “repeteco”. Todos sabemos que o Sr. Seis não convive que preste com o Sr. Meia Dúzia. Mesmo que a diferença entre ambos seja nenhuma. Antes só do que sósia acompanhado, não é o que dizem? E, se houvesse oportunidade, um quebraria o espelho do outro. Fazendo uma espécie de cena de azar futuro – com reciprocidade.
E não me falem de inclusão “sosial”. Se for para eu trocar este papel de príncipe por aquele papel de mendigo – com um sósia! Só o contrário desta proposta me interessa.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A CPI DA PIZZA

São tantas as irregularidades relacionadas com o famoso prato que urge a instalação de uma CPI. Para averiguar até onde, no rol das denúncias surgidas, alguma tem fundamento. A começar de que estaria, depois de tantos anos no Brasil, ainda resistindo ao aportuguesamento do nome. Se bem que a grafia "píteça", como alguém já sugeriu, não seja muito de encorajar a mudança. É sensaborona, com risco de transmitir o indesejável atributo ao prato que pretende designar.
Só flancos, atacam a pizza de todos os lados. Ajudados pelo fato de ela já chegar cortada à mesa de refeição. Agora, por que a dividem em pedaços desiguais, se isso só serve para privilegiar os comensais mais rápidos? Bem, aplicar a lei de Gerson é preciso, pode ser a resposta.
Quem come escargot e caviar é gastrônomo, e quem come pizza? Diz-se que não passa de um reles comedor, equiparado ao farofeiro de praia (cujo nível é o do mar, claro). Pois não há sofisticação alguma em se pedir uma quatro-queijos, besuntá-la de mostarda e ketchup e, na sequência, perpetrar o pior: fazê-la descer, goela abaixo, na companhia de uma coca-cola.
A propósito, como explicar também o não aparecimento, até hoje, de uma pizza na versão "diet"?
É lastimável que o Instituto do Peso e Duas Medidas se mantenha omisso em assunto de sua competência. E não tenha dado a palavra final sobre o tamanho dos discos. Sabendo que estes, deixados ao alvedrio dos donos das pizzarias, tendem ao gradual encolhimento. De sorte (?) a acontecer o seguinte: "gigante" virando "brotinho", "brotinho" virando... canapé - sem que se detecte o menor remorso neles! Enquanto nós, os come-pizzas, espichamos o dinheiro.
A entrega domiciliar é um caso (de polícia) à parte. Não poucas vezes, a pizza vem gelada e a cerveja, quente. Se é isso em obediência à lei da compensação, ora, dispensamos o cumprimento da referida lei. Como também pedimos que, haja o que houver, não vá o entregador além da pizza. Significando isto resistir à provocação de mulher que, na ausência do marido, entende de priorizar o sexo sobre o estômago.
Por essa e anteriores, bem que o mafioso prato está a merecer uma CPI. Mas, se possível, que não acabe em pizza.

Crônica publicada, em 05/04/94, na seção Cartas, do jornal Diário do Nordeste e, em 17/04/94, no Jornal do Leitor, de O Povo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

REI MORTO, REI POSTO - 2

Hoje se escolhemos os governantes pelo voto é aos gregos que devemos tal prática. Se bem que, no caso do Brasil, o ambiente seja convidativo a se aplicar outra opção. Sabem aquele jogo em que as pessoas formam um círculo em torno de uma garrafa? A qual é posta a girar para que, ao final do movimento, aponte alguém na roda? Eureka, eis aí um novo método de como escolher o presidente da República! Com os candidatos ao cargo, divididos em grupos, e se submetendo ao "veredito" da garrafa. Pensando bem, no caso nacional, a garrafa poderia também ser substituída por um abacaxi.
A verdade é que, quando votamos, nós assinamos uma espécie de cheque em branco. O que o portador vai fazer depois com o cheque só Deus sabe. E o governante que, em princípio, deveria governar em função dos interesses da maioria nem sempre o faz. Começam as dificuldades pelas formas divergentes quanto ao momento certo de partir o bolo (PIB). Uns acham que o bolo deve primeiro crescer para depois ser repartido, enquanto outros... que o bolo deve ser repartido já! Para não dar bolo nem bololô. Mas... o que deixa no ar esta pergunta: quem parte e reparte deve ficar com a melhor parte? E, mais, est'outra: quem parte e reparte e não fica com a melhor parte é tolo ou não entende dar arte?
Que votemos, tudo bem. Mas parece que o [X] da questão está em controlar o que acontece depois. Os atenienses sabiam-no como. Ao escreverem em peças de barro cozido, com forma de ostra (daí haver surgido o termo ostracismo), o nome do cidadão a ser desterrado. No entanto, por nos acharmos na era da tecnologia, alguém já sugeriu outro método. Implantar no peito do líder, à maneira de um marca-passo cardíaco, um artefato que pudesse implodi-lo - quando esse fosse o desejo dos liderados. Assim, para tanto, cada cidadão disporia de um botão detonador que, em período de insatisfação com o desempenho do líder, pudesse então ser apertado. Aí, quando a soma desses insatisfações alcançasse os cinquenta por cento mais um, o líder seria mandado para o beleléu.
(Na espera do governante seguinte, veríamos na televisão o Carlinhos do Bom-Bril. A limpar o trono com uma esponja de aço Assolan e a recomendar, através de seus trejeitos, juízo ao povo brasileiro.)
Pois bem, mas até que o IBGE nos informe o verdadeiro número de sádicos que existe no país, convém sobrestarmos o tão engenhoso método.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

REI MORTO, REI POSTO - 1

Que o rei não ignore o terrível fato! O que existe, acima de sua cabeça, uma espada - de Dâmocles! - que, sustentada por um mísero fio, mui perigosamente está a pender. Como se fora uma ameaça mortal àquele que está a ocupar o trono. Pois, a qualquer momento, o frágil fio pode romper-se e... fim do ocupante do trono! É claro que, com algum acautelamento por parte dele, pode ir-se a coroa mas ficar a cabeça, o que é razoável. Quando a cabeça coroada tem alguma sensibilidade para identificar o instante imediatamente antes ao de romper o fio.
Com inspeções periódicas das condições em que se encontra o tecido social, eis a astúcia devidamente explicada.
Dizia Napoleão que com uma espada se pode fazer tudo... menos sentar nela. Se o que se busca é conforto, acrescento. Sobre Dâmocles, porém, o que eu tenho a dizer, neste momento, a meus atilados leitores? O seguinte: ele era um cortesão que vivia a bajular um tirano de Siracusa, chamado Dionísio, o Velho. Até que este, certa vez, aborrecido com tanto puxa-saquismo e babação, fez Dâmocles sentar no trono de Siracusa. Depois de haver colocado, acima do mesmo, uma espada nas condições descritas no parágrafo inicial. A fim de que o bajulador, expondo-se ao risco de morrer, entendesse de uma vez por todas o que eram as incertezas e as inquietações do poder.
De saída, por ser impossível agradar a todos os súditos. A exemplo, lembremo-nos do caso da garotinha que, depois de ter o pai, a mãe e os irmãos comidos pelo tigre, ainda assim se recusava a abandonar a aldeia natal. Porque "na cidade, lá está o rei...". Pois é, ser governante (sustentado a imposto etecétera e tal) está cada vez mais em baixa no conceito que lhe dão os governados. E, por isso, o rei que é esperto evita se desgastar com os comezinhos assuntos que os súditos lhe trazem. Ele simplesmente cede o assento real a um dos ministros (a fim de que este fique se maçando) e vai caçar raposa. Embora diga que vai caçar tigre.
Com um olho na caça(da) e outro no poder, é evidente. Para não chorar os dissabores por que passou Ricardo Coração-de-Leão.
Está nisso a esperteza: o rei deve reinar sem governar. Ser como o pássaro que não tem de bater as asas para provar ao reino animal a sua capacidade de voar.
Nos períodos sombrios, saber o rei que ainda poderá abrir três envelopes. Com três estratégicas instruções:
  1. onde se manda culpar o antecessor pela situação;
  2. onde se manda demitir um, vários ou todos os ministros;
  3. onde se manda renunciar após preparar três novos envelopes para o sucessor.
É tolo o soberano que, ao primeiro sinal de crise política, abre logo os três envelopes. Para que os problemas se confraternizem com as soluções é preciso levar algum tempo nessa empreitada. Nunca ser açodado. Porque, uma vez anunciada a renúncia, o passo seguinte será o ostracismo. Outrossim, tolo é o soberano do tipo protelador porque apresenta um grande apego ao poder. Pois a ele, além do destronamento, o destino pode-lhe estar reservando um fim trágico. Simplesmente por ele, em tempo hábil, não ter escolhido ir roçar nas ostras.

Data de publicação: 29/05/94

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

PALANQUE

Finalmente surgiu uma tese que absolve os políticos de uma das acusações que lhe são feitas. A de que prometem, numa campanha eleitoral, coisas que eles não vão cumprir após eleitos. Pois a tese em questão simplesmente lhes tira a responsabilidade sobre as coisas em vão prometidas e, no lugar deles, põe a culpa em algo "novo". Algo que, até há pouco tempo, ninguém sabia que tivesse essa propriedade de desnaturar os homens públicos. A ponto de torná-los levianos da palavra.
Este causador de tudo é o palanque.
Quando um candidato a um cargo eletivo estiver a prometer mundos e fundos seja tolerante com ele. É o palanque que o leva a tanto compromisso. Rede de água, calçamento, escola, hospital, linha de ônibus, creche... Ah, é o palanque. Tanto que bastar retirar o prometedor de cima do estrado para ver como ele se transforma. Fica incapaz de assumir um compromisso que, a seguir, não venha a honrá-lo, mesmo que isso seja inédito. Em suma, fica um Catão o nosso homem (epa!).
Há essa relação, de causa e efeito, entre o palanque e o que sai da boca do homem para só se concretizar no dia de... São Nunca! Se bem que a tese não explicite como o fenômeno exatamente ocorre. Apenas sugira que possa estar relacionado com a perda de contato, por parte do político, com a a mãe Terra - ainda que temporariamente. E que, por via de consequência, ficaria ele - à maneira do que um dia aconteceu a Anteu - grogue e enfraquecido. Quando nada, em seus princípios morais. E como daí para o falatório inconsequente a distância é quase nenhuma...
A propósito, Anteu era um personagem mitológico considerado invencível por conta da energia (epa!) que ele, através dos pés, absorvia da Terra. Até que, pugnando com ele, Hércules o suspendeu do chão, para "desligá-lo" de sua inesgotável fonte de energia, e assim o matou. Outro modo de ação não tem o palanque. Quando deixa o político, ainda que pelo curto tempo de um comício, distanciado do chão da realidade, a prometer o céu na Terra e o seu amor também. E, nesse tresvario todo, também não se ignore a influência a cargo da claque, da música e do foguetório.
É tão avassaladora essa ação do palanque sobre o ser humano que não se tem notícia de resistência natural ou adquirida. Tem mais: mesmo ao pouco imponente caixote de cerveja o homem é também muito sensível, caso suba num... Que ele então fica: palrador, verborrágico e discursivo. Enfim, um utópico de carteirinha! E sabem por qual razão? O afastamento do chão da realidade, embora menos do que quando é o palanque. Nada a ver, portanto, com a cerveja que o homem tenha consumido antes de subir no caixote.
Um (e)leitor arguto pode lembrar que os políticos se comportam do mesmo modo quando estão na rádio e na televisão. O que, por sinal, poderia comprometer a tese vertente. No entanto, convém explicar que um estúdio de rádio ou de televisão assemelha-se a uma gaiola de Faraday. Por isso, isola tão bem quanto um palanque (excetuando-se o caso do palanque do Partido da Juventude que, aqui em Fortaleza, uma vez chocou muita gente, os mais velhos devem estar lembrados). Daí, ao contrário de sofrer qualquer abalo com esse questionamento, a tese sai ainda mais fortalecida.
Vêm aí eleições. Desde já, fiquem todos sabendo que os políticos não terão culpa pelo Canaã que o Brasil não vai ser. Que tem de ser responsabilizado é o palanque, esse (c)réu inconfesso. E, num grau menor, o caixote de cerveja.

Agosto/1994 - Publicada no "JORNAL DO LEITOR"
30/07/94 - Publicada no "DN - CARTAS"
Dezembro/1989 - Publicada no "JAMB"
15/07/89 - Publicada no "POVO CULTURA".

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ANIVERSÁRIO

Hoje recebo o meu salário, o meu exíguo salário com o qual eu tento não ser defenestrado da classe média. E saio a ver as vitrines em busca de um presente que reafirme o meu amor por ti. É que hoje, minha querida, é o dia de teu aniversário. Mas... está tudo tão caro, tão inacessível a meu bolso, tão... E não dá mesmo para comprar no crediário, os juros estão escorchantes, proibitivos.
Sabes de uma coisa? Presentes são futilidades! Muitas vezes, são eles dados em total desacordo com a personalidade de quem os recebe. Noutras, apenas para preencher uma falsa necessidade que a sociedade de consumo criou. Então, ao invés de te oferecer um mimo cujo desfrute logo acaba, eis-me a te presentear com dinheiro. Sim, com dinheiro que é o modo de não me equivocar jamais.
O fato é que outra vez aniversarias, minha cara. Para a minha indizível felicidade (pois o que é a felicidade senão a soma desses momentos em que te procuro?). Ah, acima do bem e do mal, está o teu regaço amigo, onde encontro proteção contra a dissipação e a esbórnia. Sem que eu, na grande conta em que te tenho, haja um instante sequer chegado a teus limites.
Em ti deposito todas as minhas expectativas. Porque sei que serão depois confirmadas no saldo de nossa amizade. E tudo que te modifica me interessa. És leve, gentil, intimorata. És frasco - ouso fazer a presente comparação - a encerrar o mais ambicionado dos extratos. E, ainda, louvo a tua lealdade e correção, ó aplicada companheira destes tempos difíceis!
Feliz aniversário, minha caderneta de poupança.

Publicado no Diário do Nordeste em 08/03/90

sábado, 28 de novembro de 2009

SANTA LEITURA

Érico e Paulo Gurgel (1)

Eis uma cena do início de minha vida, que se repetia todos os dias e da qual estou hoje a me lembrar: meu pai, sentado no sofá principal da sala, a ler com grande interesse o jornal. Perto dele, este que lhes fala entretido com algum brinquedo, embora de quando em quando desviasse a atenção para o velho (2). E ele, tão absorto em seu ato de ler, que nem atinava com ser o motivo da minha intermitente admiração. Naqueles fugidios instantes em que eu relaxava na atenção ao brinquedo, obviamente.
Sempre que possível eu evitava interrompê-lo em sua santa leitura (3). Ao contrário do que fazia minha mãe, a matraquear um assunto atrás do outro, sem ao menos se tocar para a inconveniência da hora. E bem feito porque ele sempre a desouvia!
Ainda pouco me entendia por gente, mas recordo também que aquilo me perturbava. Meu pai dedicar parte de seu tempo a um punhado de folhas impressas, ainda por cima capazes de manchar o sofá novo, como se queixava minha mãe. E, mais: ao fazer aquilo ele se comportava, para os meus tenros olhos, feito um estranho. Um ser sob alguma ação hipnótica porque, naquelas horas, podia o teto vir abaixo. Que o velho, certamente, não ia levantar a vista do seu jornal. Nem para apreciar o novo teto solar com que a casa acabara de ser contemplada.
Intrigava-me saber que força misteriosa possuía o jornal. A ponto de um ser humano, muita vez de forte personalidade, entregar-se a ele como um escravo. Com o tempo, porém, identifiquei existir no ser humano uma especial fragilidade, que é a carência orgânica de informação. Exatamente o que o jornal tem de sobra. E que, para que aconteça a consentida dominação jornal-leitor, não hesita em nos passar diariamente. O seu produto informação, sob as suas mais diversas apresentações: editorial, reportagens, colunismo social, charges, publicidade etc.
Uma vez sonhei com papai sendo levado, contra a vontade, a uma redação de jornal. E o desfecho dessa experiência onírica, se alguém quer saber, foi a redação ficar só escombros. Porque papai, qual um bíblico Sansão (4), no fim derrubou as colunas (5).
No entanto, nem tudo acontece como a gente sonha. E, sem haver sofrido arranhões nesse meu sonhar, papai continuou... vida boa não quer pressa. A ler o seu jornalzinho no sofá (por vezes, à mesa da sala de jantar), apenas lhe faltando um cachimbo na boca para compor a cena clássica. E, quando me formei em "doutor do ABC", papai me deu a ler um suplemento infantil do jornal. Que eu li com grande satisfação, bem na frente de um muito enciumado aparelho de televisão.
Pronto, naquele momento estava inaugurado o meu novo hábito!
É um hábito que me abre diariamente as fronteiras do conhecimento. Graças a ele, não mais permanecem sem respostas as minhas inúmeras perguntas. Exceto estas: quem somos? de onde viemos? o que aqui fazemos? aonde vamos? Por mais que eu me esbalde nessas difíceis perguntas, Sísifo é testemunha! Talvez porque, nas chamadas questões existenciais, não baste a gente só extrapolar os limites do suplemento infantil, daí o insucesso verificado. No mais, jornal é massa. Enquanto o dinheiro do velho não se manifesta, colecioná-lo com afinco vale uma enciclopédia.
Brincadeira! O fato é que, na aurora da minha vida, ao me tornar um leitor assíduo de jornal, posso ambicionar a ser, quando adulto, um grande escritor. Com um estilo apurado e desenvolto (em que "aurora da minha vida" e expressões que tais não tenham vez). E uma menção honrosa que agora me deem, eu saberei que estou no caminho certo. Ah, imaginem então se eu ganho esse prêmio maior (6) que está em jogo!... Aos oito anos de idade e já haver obtido o que papai não conseguiu nunca! Com todos esses anos de cupões recortados dos jornais e por ele enviados para sorteios que não lhe sorriem jamais!...

(1) filho e pai, respectivamente, reunidos na primeira psicografia intervivos do mundo; (2) tratamento carinhoso, porém em desacordo com a idade paterna; (3) apesar do que possa parecer o título não foi escolhido por Robin, que faz dupla dinâmica com Batman; (4) sem Dalila; (5) as colunas do prédio, bem entendido; (6) viagem a Disney, com direito a levar acompanhante, oferecido pela Associação Nacional de Jornais.

Publicado em 26/06/94 no Jornal do Leitor de O Povo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

TUDO SE TRANSFORMA

Sr Editor:
Numa de suas crônicas, andou Luis Fernando Veríssimo preocupado com o que os adesivos de para-brisas dizem, bem como com as situações esquisitas que eles criam para os donos dos automóveis. Como no caso de um cidadão que foi visto a dirigir um carro, em cujo vidro traseiro se lia: "Fofinho". Entretanto, não condizendo o teor do adesivo com a aparência de quem estava ao volante. Um cidadão grave, obviamente não fofo. E que se sujeitava ao vexame apenas para não desagradar algum filho que gostava da curtição. Para, no remate de sua crônica, concluir que... "as cidades estavam cheias deles. Os falsos fofinhos."
"Veja" acertou ao tomar o mestre Luis Fernando como colaborador da revista. Só que - para o azar de seu alunado de humor - o superlativo Veríssimo tem uma pena, dessas de esgotar o assunto. E apenado seja o que o retome depois que o insuperável mestre gracejou! A não ser... a não ser que um fato interessante surja, adubando o assunto para novas reflexões. A exemplo do que aconteceu em Fortaleza, nos meses de outubro e novembro de 88: um ano que terminou (para o olvido da Diaethria meridionalis, a borboleta-propaganda da Mesbla). Veículos veiculando (epa!) através de adesivos nos para-brisas este comunicado: "Cambeba, não!".
O tipo de mensagem que me deixou encucado e os leitores saberão o porquê.
É que eu jamais vira uma manifestação organizada de repúdio a um bairro! E, agravando, repudiavam o bairro em que, há alguns meses, vinha eu morando. "Cambeba, não!". Como se eles pudessem fazer, por ser uma parte ruim, a excisão do bairro do resto da cidade. E não era bairrismo deslavado, não. Mas bem que o antigo Parque Iracema estava a merecer um melhor tratamento da parte desses senhores. Ainda mais que, longe da Aldeota, o rechaçado Cambeba não passava de um bairro em via de desenvolvimento.
Súbito, residir no lugar em questão tinha virado uma rebordosa. Cá se amargava a má administração municipal, como no restante da cidade, e cá se tornava o alvo da indignação coletiva. Ah, me pareceu uma sorte cruel, das que se inscrevem no figurino queda - coice... Por isso, num primeiro instante, me revoltei. Mas, a ter de ficar na "problemática", eu logo busquei a "solucionática" (de que falou Dadá Maravilha). Quando apreciei a ideia de sugerir, a cada cidadão que por mim passasse (cujo sentimento anti-Cambeba estivesse explicitado no para-brisa do carro), um outra opção de protesto. Mudar para "Camberra, não!", "Camboja, não!" ou mesmo para "Camboriú, não!". Nomes de cidades distantes, países longínquos... que não possuíam colônias expressivas em Fortaleza.
Depois, imaginei trocar o Cambeba da expressão por cambará, cambuci, camboatã ou por qualquer outro nome de árvore, as opções eram tantas... Mas, diabos, o que tinha a ver a maltratada flora nacional com esse corrosivo sentimento anti-Cambeba? E também imaginei que mudassem para cambaxirra (ave), cambaleão (variante de camaleão), cambucu (peixe)... Quer dizer, qualquer uma dessas palavras mais o indefectível "não!". No entanto, por depreciar a nossa fauna, seriam providências desacertadas. Nesses tempos em que avulta o ambientalismo...
A propósito, cambeba (ou cambeva) é palavra oriunda do tupi e designa várias espécies de peixes teleósteos.
Pois bem, descartada a possibilidade de empregar os topônimos, os nomes de árvores e animais (pelos motivos já expostos), com o que mais eu poderia contar? Com o que mais... no sentido de ganhar o manifestante anti-Cambeba para a causa do bairro ou, quando nada, de lograr o empate com um "então, esquece"? Algo arrasador, que convencesse, era do que eu precisava. E foi que me brotou esta expressão alternativa: "Cambalacho, não!". A ser usada pelo homem de virtudes, o que é contra a toda e qualquer tramoia. Pelos cambalacheiros, não! Nisso, vi passar um carro com uma vistosa tira de "Cambada, não!".
E outro carro, outro, outro e... outro. Eram os "cambebistas" dando o troco aos, digamos, "cambadistas", coisas de uma refrega eleitoral.
X X X X X
No fim, venceu o candidato apoiado pelo Cambeba, entendendo-se aqui o governo estadual e não o bairro que o sedia. Mesmo porque o bairro votou muito dividido, mas não fazendo, certamente, no nome apresentado pela senhora prefeita. Como fez toda a mui leal e heroica cidade de Fortaleza, e que assim julgou a sua desastrada administração. Quanto a mim, para não voltar à vaca fria que foi para o brejo, evito me alongar em comentários que tais. Agora que a nossa cidade tem novo alcaide e a hora é de reconstrução, pois. Fala mais alto o nome desta cidade, e que cada fortalezense colabore no que for possível.
Um "cambadista" mais renitente, porém, poderá levantar uma questão. "Mas, o que faço com o meu adesivo de 'Cambeba, não!'?" Ora, será bem simples a solução. Lei de Lavoisier nele! O "cambadista" salve da tira a parte ainda útil e que estivera eclipsada pelo calor das paixões políticas. Reduzindo-a, assim, para... "beba, não!". Recoloque-a, em seguida, no para-brisa do automóvel. E passe a circular com o carro perfeitamente integrado na campanha em prol da sobriedade.

Publicado em 22/02/89, na seção "Cartas", do jornal "Diário do Nordeste".

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

RESSONÂNCIAS LITERÁRIAS

Antologia de prosa e poesia publicada em 2009 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Airton Fontenele Sampaio Xavier, Airton Ferro Marinho, Antero Coelho Neto, Antônio Sílvio de Araújo, Antonio Vicente de Alencar (convidado), Celina Côrte Pinheiro, Christiane Araujo Chaves Leite, Dalgimar Beserra de Menezes, Dimas Macedo (convidado), Emanuel de Carvalho Melo, Fernando Antônio Siqueira Pinheiro, Francisco Antônio Tomaz Ribeiro Ramos, Francisco das Chagas Dias Monteiro (Chico Passeata), Francisco Flávio Leitão de Carvalho, Francisco José Pessoa de Andrade Reis, Geraldo Beserra da Silva, Maria Ilnah Soares e Silva, Jesus Irajacy Fernandes da Costa, João de Deus Pereira da Silva, José Luciano Sidney Marques, José Maria Bonfim, José Maria Chaves, José Teúnes Ferreira de Andrade Filho, Josué Viana de Castro Filho, Luciano Nunes Maia (convidado), Luiz de Araujo Barbosa, Luiz Gonzaga de Moura Júnior, Luiz Luciano Menezes de Arruda, Luiz Teixeira Neto, Marcelo Gurgel Carlos da Silva, Martinho Rodrigues Fernando, Nilson de Moura Fé, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Sebastião Diógenes Pinheiro, Vladimir Távora Fontoura Cruz, Walter Gomes de Miranda Filho, Wellington Alves e William Moffitt Harris
Apresentação: José Maria Chaves
Prefácio: Giselda de Medeiros Albuquerque (da Academia Cearense de Letras)
Dedicatória: "À memória do Prof. Eilson: saudades sobramistas" por Marcelo Gurgel
Projeto Gráfico e Arte Final: Júlio Amadeu
Coordenação: Marcelo Gurgel
Organização e Revisão: Marcelo Gurgel e Walter Miranda
Imagem da Capa: Glauco Sobreira
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda
Tiragem: 1.000 exemplares
Livro com 224 páginas.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

JAMB (1986-1990)

Abaixo relaciono minhas colaborações ao Jornal da Associação Médica Brasileira (JAMB) durante o período de 1986 a 1990:
  1. COMO EU VEJO - Fev/86
  2. AOS QUE RONCAM - Fev/87
  3. (À PROCURA DE) FÓSFOROS - Abr/87
  4. O SEGUNDO - Jun/87
  5. EM CARTAZ (I) - Ago/87
  6. SALVE A INFLAÇÃO BRASILEIRA! - Nov/87
  7. DOMURU E EU - Jan/89
  8. BRASIL, MOSTRA TUA TARA - Mai/89
  9. ESTAMOS GRÁVIDOS! - Abr/90
  10. O CAMINHO DO MEIO - Mai/90
  11. A SENHORITA E. - NI
  12. ESCOLA DE SAMBA? DEIXA EU FALAR... - NI
Todos esses textos já estão publicados no Preblog.

sábado, 31 de outubro de 2009

BRASIL, MOSTRA TUA TARA

A Constituinte não topou este desafio
Garantir a estabilidade no emprego para técnico de futebol.
Salomão Rei
Se ele houvesse possuído apenas um terço das concubinas, ainda assim teria sido um sábio.
Bilaquiana
Abri a janela pálido de espanto... Outra parada militar em minha homenagem!
Subornar uma autoridade pode dar cana
E está custando os olhos da cara o suborno para não acabar preso.
Feito gente
As tarifas públicas crescem à noite.
Puxa, como você adivinhou o meu pensamento?
Ora, foi fácil. Você tem poucos.
Só com dinheiro vivo
O crime pago com cheque não compensa.
Os mortos governam os vivos
Será por que em muitos lugares do Brasil ainda não perderam o direito de votar?
Uma lágrima autêntica como é
tem gosto de soro caseiro.
Música
Essa coisa divina que aumenta a produção das vacas leiteiras.
Caetano (dando Bandeira)
Irene preta / Irene boa / Irene sempre de bom humor / Quero ver Irene dar sua risada.
Para não revidar uma agressão
Conte até dez. Ou até cinco, se você for pavio curto.
Filosofia Zen
Ficando de pé numa perna só, pode alguém suportar a fadiga da outra perna?
Uma comparação
Apodrecendo feito manga que a gente precisava vender.
Outra, estilo Faustão
Sou do tempo em que tio não era o motorista do ônibus escolar.
Engoma, engoma
O que tem o nu a ver com as calças?
Receita antibanquete canibal
Mijar no caldeirão. Dizer que fez isso.
É muita indignação... faltando
Outro aumento no preço dos combustíveis e o cidadão fingir que não é com ele. Só porque está de tanque cheio.
Bateau Mouche IV - a explicação de uma tragédia
Gente demais. Antes de partir não esvaziaram os cinzeiros de bordo.
E o que vai mudar depois
Os nomes dos Bateau Mouche I, II e III.
Má ideia
Homem correr atrás de um rabo de saia... Escócia a dentro.
Dos males do Brasil
O maior - demonstrável por A mais B - é o analfabetismo.
Afora, é claro
Esse contínuo "estado de não come".