quarta-feira, 9 de abril de 2014

MICROLITERATURA

A chamada microliteratura vem ganhando espaço (apesar de usá-lo tão pouco) nesses tempos tecnológicos. Associada, muitas vezes, às idéias do minimalismo.
Nela estão o microconto, o micropoema, o haikai e outras produções literárias assemelhadas.
No caso do microconto, costuma-se limitá-lo a um teto de 150 caracteres. A concisão, no entanto, não é a única característica do microconto. Este, mais do que mostrar, deve sugerir. Cabendo ao leitor a tarefa de preencher - com a imaginação - as "elipses narrativas" do microconto.
Estabelecer um limite de 150 caracteres permite, por exemplo, o microconto ser enviado como "torpedo" por um telefone celular, o que em si já evidencia a sua ligação com as novas tecnologias de informação e comunicação.
Um variante do microconto é o nanoconto, do qual se exige um máximo de 50 letras. Como este, a seguir, escrito pelo guatelmateco Augusto Monterroso, que tem apenas 37 letras:


Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.

Publico-o acompanhado de minha microcrítica: gostei.

Desenho de Murilo Silva
Original: EM, 29/09/2008

quarta-feira, 2 de abril de 2014

EVITANDO O VIRUNDUM

O compositor Belchior, em sua última apresentação no programa do Jô Soares, andou muito cauteloso. Ao pronunciar as palavras "um analista amigo meu", quando "dava uma palinha" de sua música "Divina Comédia Humana", foi aquele esmero de empostação. A ponto de receber do apresentador do "Onze e Meia" os mais rasgados elogios (entre risos).
Ao apurar a sua pronúncia em “um analista amigo meu”, Belchior tentava evitar a ocorrência de um virundum. Um certo mal entendido (você sabe de qual estou falando) que esta expressão costuma suscitar. À maneira do que também acontece com a expressão "mas você que ama o passado (MAL-PASSADO)", em "Como nossos pais", que é outra música dele.
O virundum é um neologismo para palavras, expressões ou frases que, escutadas numa música, induzem os ouvintes a entender coisas diferentes (muitas vezes, jocosas). Aliás, o termo nem é tão "neo" assim, pois dizem que foi criado pelo jornalista Paulo Francis, na época do Pasquim. Inspirado que foi no primeiro verso (O VIRUNDUM Ipiranga) do Hino Nacional, cuja letra é hors-concours nisso (do que terra MARGARIDA, verás que um FILISTEU não foge à luta etc).
O Hino da Independência, com o seu JAPONÊS TEM QUATRO FILHOS, é outro que apresenta o seu virundum.
Mas o melhor deles, a meu ver, está numa canção popular que faz referência a B.B. King, o lendário cantor e instrumentista de blues. Na passagem em que a citação de uma vitrola “tocando B. B. King sem parar” é confundida (por quem nunca ouviu falar no rei do blues) com... TROCANDO DE BIQUINI SEM PARAR.
Original: EM, 27/09/2008

A Espanha não quer o virundum
A notória dificuldade que o brasileiro tem de memorizar a letra do Hino Nacional poderia ter uma solução definitiva. Se tirássemos algum proveito daquilo que foi a experiência espanhola.
Com origem na "Marcha Granadera", de 1770 e cujo autor é desconhecido, El Himno Nacional de España jamais deixou o espanhol em situação vexatória.Não tem letra.
Nos 240 anos de existência desse hino, súditos que foram tomados de ardor cívico até tentaram pôr letras nele. Em vão escreveram. Nenhuma delas teve aceitação popular, nenhuma foi oficializada pelo governo espanhol.
porquenohoy.blogspot.com
E a Espanha não é atualmente o único país com... hino-sem-letra. Tem a companhia de San Marino e da Bosnia-Herzegovina nessa questão.
Original: EM: 21/02/2011

quarta-feira, 26 de março de 2014

O PASQUIM E A MPB

O bravo hebdomadário e a música popular brasileira por diversas vezes cruzaram-se nos caminhos.
Em 1970, Paulo Diniz compôs a música "Quero voltar pra Bahia" em homenagem a Caetano Veloso que, naquela época, se achava exilado em Londres. A música de Paulo Diniz, que tinha um refrão em inglês (I don't want to stay here / I want to go back to Bahia), numa de suas estrofes, fazia essa referência ao Pasquim:

"Via Intelsat eu mando
Notícias minhas para o Pasquim
Beijos pra minha amada
Que tem saudades e pensa em mim."

Ainda em 1970, o Pasquim brindava os seus leitores com o encarte de um mini-compacto em uma edição especial. Trazia esse mini-compacto duas músicas: no lado A, "Cosa Nostra", de Jorge Ben, e no lado B, "Coqueiro Verde", um samba de Roberto e Erasmo Carlos, numa gravação do Trio Mocotó. Nessa gravação, havia um momento em que a música era interrompida (à citação de "como diz Leila Diniz") para se ouvir um trecho de uma polêmica entrevista da musa do Pasquim. E a referência ao "velho pasca", em "Coqueiro Verde", encontrava-se na estrofe a seguir:

"Mas eu vou me embora
Vou ler meu Pasquim
Se ela chega e não me vê
Sai correndo atrás de mim."

Não tenho certeza se o Pasquim repetiu a fórmula do encarte de mini-compactos em outras edições. Mas, em 1982, ele lançou o disco "MPB Independente", que reunia alguns dos grandes nomes da música brasileira, como Tom Jobim ("Águas de Março"), Caetano Veloso ("A Volta da Asa Branca"), João Bosco ("Agnus Sei"), Fagner ("Mucuripe") e outros.
Mas foi em 1990 que aconteceu a grande homenagem à editora do "rato que ruge". Quando a Escola de Samba Acadêmicos da Santa Cruz desfilou no carnaval carioca com o enredo "Os Heróis da Resistência". Entoando o refrão do "Gip, gip, nheco, nheco", o nome da coluna do Ivan Lessa no Pasquim:

Gip, gip, nheco, nheco
Por favor, não apague a luz!
Goze desta liberdade
Nos braços da Santa Cruz.”

Sobre isso eu já falei na postagem de 4 de outubro de 2007 (no blog EntreMentes).
Original: EM, 13/09/2008

quarta-feira, 19 de março de 2014

ENTOMOFAGIA

Esta palavra significa: alimentar-se de insetos.
Há evidências de que o homem primitivo, antes de dominar as técnicas agrícolas, recorria a esse expediente para complementar a sua alimentação. Como ainda hoje faz o seu "primo" chimpanzé.
Na atualidade, mais de 1.200 espécies de insetos fazem parte do cardápio da humanidade. Principalmente dos povos e tribos que habitam algumas regiões da Ásia, Africa e América Latina.
O Brasil não está fora do hábito da entomofagia. Na Serra da Ibiapaba, no Ceará, por exemplo, há pessoas que destacam as "bundas" das formigas tanajuras (fêmeas aladas das saúvas, que aparecem em grande quantidade no início da estação chuvosa e que são capturadas) para fritá-las, misturá-las com farinha de mandioca e... comê-las.

Também acontece a ingestão de insetos de forma não intencional. Porque eles podem estar presentes, sem serem vistos a olho nu, em muitos dos alimentos que ingerimos. Acrescentando desse modo, com seus pequeninos corpos, proteínas e calorias às que já existem nos alimentos onde estão.
Infelizmente, alguns insetos ao serem ingeridos podem veicular doenças. Como o Mal de Chagas que pode ser transmitida pela ingestão do açaí, caso este alimento tenha sido triturado junto com o "barbeiro" infectado por T. cruzi.
Com a preocupação de evitar a transmissão de doenças, o Food and Drug Administration (EUA) elaborou uma lista de níveis máximos de insetos permitidos nos alimentos. Assim é que ficamos sabendo que, em cem gramas de chocolate, por exemplo, até 60 insetos (ou fragmentos deles) podem estar presentes e ser ingeridos sem que isso represente problema para a saúde humana.
No Vida e Arte onde obtive a imagem acima, do blogueiro Luciano Rocha, há uma seqüência de fotografias das tanajuras (hormigas culonas, na Colômbia) além de uma receita à base delas.
EM, 07/08/2008

quarta-feira, 12 de março de 2014

ADEREÇOS PESSOAIS

Não uso tiara, colar, pulseira, brincos e piercings.
Escapulário, nem pensar. Pendrive? Já pendurei um deles (de 1 giga) no pescoço, mas só foi um dia.
Diante desta minha barriga de prosperidade, a bolsa pochette também fica fora. Mas não descarto alguma adesão futura aos suspensórios.
Aliança? Permaneceu no dedo o tempo em que durou a festa de casamento. Fiz questão de perdê-la sem dó, mesmo sabendo o risco de ficar depois desinteressante aos olhos das mulheres.
E... tirei o meu anel de doutor para não dar o que falar.
Contudo, uso um par de óculos, por razões próximas e longínquas, e um relógio que atrasa (adianta?).
E só por estes últimos acessórios é que eu não tiro zero no quesito adereços (PGCS).


Original: EM, 14/07/2008

quarta-feira, 5 de março de 2014

RUMINANDO...

Entraram para a história da propaganda estes versos que Bastos Tigre fez para o Rhum Creosotado:
"Veja ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado
E, no entanto, acredite
Quase morreu de bronquite
Salvou-o o Rhum Creosotado.”
Eram lidos em “reclames” colocados nos bondes do Rio antigo. Vamos e venhamos que os versos publicitários de Bastos Tigre tenham ajudado a dar longa vida ao Rhum Creosotado, pois até hoje o tal xarope existe. Confira.
Ainda que o poeta, com planos literários mais altos, não gostasse de assumir a paternidade dos versos. Deixando sem graça o responsável por este Blog, que neles foi se inspirar para fazer a seguinte paródia:
Veja ilustre internauta
Que nem assunto me falta
Quando dão por confirmado
Que esse triste bagulho
Quase morreu num mergulho
Salvou-o um Pum arretado.

Original: EM, 04/02/2008

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

CORDEIROS

Vendo a reportagem na televisão eu tomei conhecimento de que o carnaval baiano passa por uma dificuldade: recrutar cordeiros. Os cordeiros são aquelas pessoas contratadas pela organização dos blocos para garantir a segurança dos foliões pagantes. Fazendo o trabalho por meio de cordas que criam um espaço exclusivo para os foliões dos blocos, isolando estes dos chamados “pipocas”. Como lidam com cordas são conhecidos por cordeiros. Agora, porque não estão se apresentando para o trabalho desta temporada a explicação parece óbvia. O anúncio de diárias de apenas 20 reais para os cordeiros que estiverem dispostos a encarar o empurra-empurra da avenida.
Mas será que existe mesmo a ocupação de cordeiro?
Uma consulta on line na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) do Ministério do Trabalho e Emprego me mostra que a ocupação existe oficialmente.



Só que os cordeiros da CBO são de outro "rebanho". Pois pertencem ao grupo dos mantenedores de edificações, têm o código 9914-10 e são descritos como conservadores de fachadas. O que significa dizer que dependem de cordas para o trabalho, também.
Aliás, dependem das cordas para a vida.
Original: EM, 19/01/2008

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

MINHA LUTA COM POPÓ

Não sei onde andava com o meu juízo quando resolvi desafiar o grande pugilista baiano para uma luta. Detentor de um cartel inigualável, Popó era (ainda é) um nome respeitadíssimo no mundo do boxe. Uma fortaleza humana com punhos que a tornavam inexpugnável. E, para dificultar as coisas, com um abdome protegido com cinturões de ouro.
Quanto a mim, algumas baratas nocauteadas em meu apartamento (com o chinelo) eram em que se resumia o meu currículo de lutador. E, aí já fora do currículo oficial, algumas “pernas pra que vos quero” de penosa recordação. Porém, por haver feito o tal desafio, resolvi não retroceder mais. As boas idéias não morrem nunca, a menos que estejam em cérebros de gladiadores.
Antes do encontro, numa tentativa de intimidá-lo (os lutadores sempre fazem isso!), deixei escapar algumas informações a meu respeito: idade (59) e os dados antropométricos (160 cm de altura, 70 kg de peso, 150 cm de envergadura). No entanto, astuciosamente, fiz sigilo de algumas morbidades pessoais, como a artrose nos dedos. Um aperto de mãos, antes da luta, poderia já acabar com ela. A luta, claro, já que essa artrose nunca teve jeito.
Acho que não funcionou esse ensaio de intimidação. Pois soube que Popó riu muito, muitíssimo ao receber dos segundos essas informações. E, a seguir, deu férias ao sparring e foi espairecer na Ilha de Comandatuba. Não sem antes comentar para o seu saco de pancadas como já vislumbrava a luta. “Não vai dar tempo para esse cara dizer soteropolitano”.
Devolvi-lhe a gentileza através de uma correspondência. Nela deixando claro que uma lutazinha qualquer não me afetaria nas propriedades silábicas. Eu diria, no calor da futura refrega, palavras até bem maiores. Após essa jactância toda, por via das dúvidas, interrompi o preparo físico para passar mais horas com o Aurélio e o Houaiss.
No íntimo, sabia que teríamos um enfrentamento rápido. Algo do tipo round único com perspectiva de acabar em morte súbita. Popó viria com os seus jabs, uppercuts e hooks. Era assim que ele demolia os adversários. Isso quando não incluía em seu repertório de pugilato alguns humilhantes cascudos. E todo um YouTube com vídeos do Popó passou a freqüentar a minha mente.
Por isso, eu decidi montar uma estratégia bem diferente. Não deixaria o Popó ter o controle da situação. Não deixaria o Popó chegar perto de mim. Pensando bem, não deixaria nenhum soteropolitano (pelo trauma psíquico que esta palavra já me causava) aproximar-se de minha frágil aura. E, o tempo todo, eu buscaria uma luta de resultados.
Pois foi exatamente o que eu fiz, quando levei essa luta para o Googlefight.


Original: EM, 30/11/2007

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

INVENTOS BRASILEIROS

O que deveria ser o maior de todos os nossos inventos, o avião, encontra-se sub judice. Devido a uma torpe ação movida pelos norte-americanos que, com a sua máquina publicitária invencível, “vendem” ao mundo a pipa dos Wright Bros. Anunciando-a como “o primeiro avião do mundo”.
Ah, é? Mas, no relógio de pulso, eles não tascam. Foi este relógio uma ideia que Santos Dumont, em boa hora, deu a Louis Cartier. E que coube ao relojoeiro francês a tarefa de transformá-la num objeto (dos mais úteis).
Sobre essa tradição brasileira de voar: não começou com o Pai da Aviação. Remonta a Bartolomeu de Gusmão, um padre jesuíta nascido em Santos, que projetou a Passarola. Um aeróstato aquecido a ar quente, com o qual o "padre voador" antecedeu os Montgolfier com seus balões.
Já a invenção do radio é creditada ao padre Landell de Moura, com as suas experiências de transmissão da voz humana a distância, feitas no final do século 19. Embora obtivesse as patentes, no Brasil e nos Estados Unidos, o padre não conseguiu o reconhecimento que merecia. Nem o financiamento necessário para produzir em escala industrial os seus equipamentos. Aliás, acusado de pacto com o diabo, o padre teve o dissabor de vê-los destruídos.
E esta nossa lista, recheada de padres-cientistas, ainda prossegue. Com o padre Azevedo, que inventou a máquina de escrever. É verdade que, com o surgimento das impressoras a jato de tinta, a máquina de escrever foi mais adiante desinventada. Como também desinventado foi o aparelho de abreugrafia, do médico Manuel de Abreu, após décadas de grande popularidade do invento.
Na área da moda, contribuímos com várias peças. O fio dental, por exemplo. Só que algumas delas aumentamos, mas não inventamos. Como os tais sapatos-plataforma, que a pequena Carmen Miranda criou para se tornar, sobre eles, ainda mais notável.
E, no futebol, registremos a jogada de Charles, a folha seca do Didi, os múltiplos disfarces para o jogador fugir da concentração, as placas luminosas (que anunciam as substituições dos atletas nas partidas) e o Hino Nacional cantado a cappella, digo, a stadium. Pois bem, até quando metemos as mãos pelos pés somos criativos, como fomos ao criar o futevôlei.
Além de tudo, quantos gadgets foram inventados aqui no Brasil! Aí estão o bina, o walkman e a urna eletrônica que não nos deixam mentir. O escorredor de arroz, o orelhão do telefone e o lacre de segurança de plástico. Também aí estão a caipirinha que, segundo o historiador português Alexandre Borges, foi a única contribuição positiva de Dona Carlota Joaquina ao Brasil e o trio elétrico, atrás do qual "só não vai quem já morreu".
E, last but not least, o cheque pré-datado.
Original: EM, 16/11/2007

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

COMEDORES DE CARANGUEJOS

Hoje é quinta-feira. À noite, chova ou faça lua, milhares de fortalezenses invadirão as barracas da Praia do Futuro com um propósito firme: comer caranguejos. Juntar-se-ão aos invasores locais um grande número de turistas, ansiosos por participarem deste arraigado costume da terra.
Nesses restaurantes, os caranguejos cozidos em leite de coco vêm servidos em bacias, acompanhados por uma porção de farofa. E, para romper a blindagem natural dos crustáceos (já que a fervura no panelão não consegue isso), nossos crabs’ eaters (comedores de caranguejos) recebem uns pauzinhos roliços. Com os quais se põem a quebrar as patas dos crustáceos em busca de suas tenras carnes.
Não há como os caranguejos possam lutar contra essa maré humana. Que tem dia certo da semana para acontecer, em Fortaleza. É a quinta-feira, como já disse. Pois, neste dia, a sanha para comê-los é tanta que muitos dos crabs’ eaters não conseguem esperar até a noite chegar. Em seus locais de trabalho, com o que têm à mão, e já começam furiosamente a martelar no juízo dos caranguejos.


- Que entrem os caranguejos!
Original: EM, 25/10/2007

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O FLANELINHA

Dessa galeria de personagens típicos do Ceará em que já figuram o jangadeiro, o boiadeiro e a mulher rendeira, passou a fazer parte o flanelinha. Sem o charme de um traje característico que o identificasse, recorreu o novo personagem típico da região a uma flanela para ser identificado. Obtendo tal sucesso com o recurso que, em virtude disso, ganhou o já citado apelido genérico.
Sabe-se que há dois tipos básicos de flanelinha: o de semáforo, que tem a proposta de limpar o seu carro em questão de segundos, e o de estacionamento, cuja religião o proíbe da nefanda prática. A este segundo tipo, cabe apenas “pastorar” o veículo até que o dono retorne. Não sendo incluído em seu serviço que vá oferecer resistência a ladrões.
Para o flanelinha não existe essa coisa de local ermo. Em qualquer via pública onde pelo menos um carro puder ser estacionado, haverá sempre um flanelinha a postos. E haverá vários deles, quando o carro for sair. Contrariando o lema de que o flanelinha “trabalha” com um olho no carro e outro na concorrência.
Por fim, entre o dono do carro e o flanelinha, existe uma espécie de acordo tácito. O dono, ao voltar, recebe o carro sem arranhões, sem pneus murchos, e o flanelinha então é pago. Acertar depois e sair de mansinho são consideradas más práticas. Que podem arranhar ou fazer murchar esse acordo, mais adiante.

Ilustração: Laerte
Original: EM, 13/10/2007

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

LADOS

Algumas reflexões sobre o importante assunto:
Tudo tem lados. E o avesso está aí para não deixar haver exceção.
Os pólos também são lados, só que radicais.
No tempo do LP havia o lado B, que ninguém ouvia. Foi o CD – que não tem A nem B – que acabou com esse déficit de audição.
A fatia de pão tem dois lados. Com relação à manteiga: um é com, outro é sem. Mas, quando a fatia cai no chão, é sempre com o lado com. Pesquisadores estudam.
Eles também estudam porque a barata ao morrer é monótona. Na escolha do lado que vai mostrar no velório.
O rio – com seus dois lados. E Guimarães Rosa ainda falava de uma terceira margem.
A lua –com seu lado escuro. Às claras, depois que a ciência espacial fez a devassa.
E, para finalizar estas reflexões, aqui cabe um pensamento de um guru local, Augusto Pontes:
"Estou do seu lado, mas não me olhe de banda."

Original: EM, 09/10/2007

Por que você sempre encontra as baratas mortas com a barriga para cima?
Em ambientes domésticos, na maior parte das vezes, a morte das baratas se dá por envenenamento.
Mais comumente por inseticidas à base de substâncias inibidoras da colinesterase. Em circunstâncias normais, esta enzima é responsável por quebrar um neurotransmissor natural chamado acetilcolina. Sem nada para eliminá-lo do corpo, a acetilcolina se acumula no sistema nervoso com efeitos neurotóxicos. No caso das baratas, causa espasmos musculares violentos no abdômen e nas pernas, que normalmente as deixam de barriga para cima. Uma vez nesta posição, o solo liso e a falta de coordenação motora causada pelo veneno fazem com que o animal se mantenha nessa postura até a sua morte.
Imagem: nytimes.com
Original: EM, 17/12/2019

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

SEM JUSTA CAUSA

Leiam:
Decreto nº 28.314, de 28 de setembro de 2007
"Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências.
O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:
Art. 1° - Fica demitido o gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.
Art. 2° - Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.
Art. 3° - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário."
Brasília, 28 de setembro de 2007.
119º. da República e 48º. de Brasília
JOSÉ ROBERTO ARRUDA

Sr. Governador:
O gerúndio, esta simpática forma nominal do verbo, não é algo que se demita ad nutum. Pois integra, desde tempos imemoriais, o patrimônio oral do povo brasileiro e como tal deve ser respeitado (não digo cultuado). O que o senhor fez, com a publicação desta lei, foi exercitar o seu pensamento mágico. E mostrar que, com essa confusão de significado com significante, não é lá tão esperto assim. Haja vista que demite o gerúndio... para não dispensar os seus auxiliares considerados ineficientes. Talvez fosse o caso de o senhor procurar algum burgo em Portugal (onde as pessoas usam o infinitivo no lugar do gerúndio) para o início de uma nova governadoria. Sem preocupações desta espécie.
Quanto à sua famigerada lei, VAMOS ESTAR PROVIDENCIANDO o envio para ser também publicada no Febeapá, em uma edição revisada e atualizada do livro.
Fortaleza, 2 de outubro de 2007
2º. do Blog do PG
PAULO GURGEL
Original: EM, 02/10/2007

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

BICHOS SE APRESENTANDO

Cão: para latir ao passar a caravana.
Gato: para caçar no lugar do cão.
Rato: para folgar durante a folga do gato.
Macaco: para continuar no respectivo galho.
Coelho: para dividir com outro uma cajadada.
Burro: para pensar até morrer.
Boi: para andar adiante do carro.
Andorinha: para fazer verão em grupo.
Galo: para fazer o sol nascer.
Onça: para ser amiga de todo mundo.
Homem: para ser o lobo de outro (homem).
Original: EM, 25/09/2007

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

E POR FALAR EM SILÊNCIO

Não sei se os antigos romanos contavam com alguma divindade para acudir a loquacidade. Tinham-na para o silêncio, uma deusa chamada Tácita (conforme lembrou Airton Soares em seu blog, recentemente). O que me leva a crer que os povos antigos da península itálica não viam as mulheres como seres tagarelas. Ressalvada a hipótese de que, com uma representante feminina do silêncio no panteão de suas divindades, não passasse tudo de uma ironia dos romanos.
O fato é que Tácita não pertence a nossos altares. Partiu há séculos, sem dar um pio, para ir fazer parte da memória mitológica da humanidade. Restando, porém, de sua influência em nosso idioma, o legado de umas poucas palavras. Como os adjetivos "tácito" e "taciturno".


Acima, uma imagem da deusa Tácita esculpida em mármore de Carrara.
Abaixo, alguns pensamentos selecionados em homenagem a ela.

“O silêncio é o único amigo que jamais trai.” (Confúcio)
“É melhor seres rei de teu silêncio que escravo de tuas palavras.” (Shakespeare)
“Manejar o silêncio é mais difícil que manejar a palavra.” (Clemenceau)
“Se o que vais dizer não é mais belo que o silêncio: não o digas.” (provérbio árabe)
“Em virtude da palavra, o homem é superior ao animal; pelo silêncio, ele se supera a si mesmo.” (Masson)
"É melhor ficar calado e parecer estúpido do que falar e acabar com todas as dúvidas." (Mark Twain)
Original: EM, 22/08/2007

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

SÍSIFO REVISITADO

Na mitologia grega, Sísifo era filho do rei Éolo. Por astúcias cometidas, foi condenado por Zeus a levar uma rocha até o alto de uma montanha. Eternamente, pois toda a vez que o topo da montanha era quase alcançado, a rocha rolava de volta ao ponto de partida. O que obrigava o condenado a ficar repetindo a sua escalada com a rocha, ad aeternum.
Nos dias de hoje, estaria cumprindo alguma pena alternativa. Como:

malhar em ferro frio
dar nó em pingo d’água
escovar urubu até ficar branco
chupar parafuso até virar prego
enxugar gelo com toalha quente
procurar agulha em palheiro
carregar mala sem alça
embrulhar velocípede
dar murro em ponta de faca
descascar abacaxi com o nariz
cercar capote em campo aberto
botar suspensório em cobra
pingar colírio em olho de chinês
subir em pau de sebo
massagear porco-espinho
trocar pneu com o carro andando
devolver pasta de dente para o tubo
abanar carvão molhado em churrasco
montar touro mecânico até cansar (o touro)
etc

Pensando bem, não seria o caso de Sísifo abreviar o nome para Sifu?
Original: EM, 10/08/2007

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

NULLA DIES SINE LINEA

"Nenhum dia sem uma linha (ou traço)."
O lema atribuído por Plínio, o Velho, ao jovem pintor Apeles. Porque Apeles não aceitava a idéia de passar um único dia sem trabalhar.
Bem, com estas eu já fico para lá de quite com o meu blog, hoje.
Apesar de que ainda tem mais.

Apeles era o pintor oficial de Alexandre o Grande. Neste quadro de Tiepolo, de 1740, ele aparece retratando Campaspe, a concubina favorita de Alexandre.
Notem o ar entediado de Alexandre com relação à concubina. Em contraste com o profundo interesse do jovem pintor por Campaspe (muito além do que o trabalho deveria exigir).
Pois é, Alexandre não foi grande só no nome. E logo passou a pequena para os cuidados afetivos de Apeles.
Original: EM, 25/07/2007
Nulla dies... (em outras línguas)
Not a day without a line.
Ningún día sin una línea.
Pas un jour sans une ligne.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

TANTO NÃO

Imagine:
A história de um glutão que, por haver cedido à tentação de comer o que não devia, infringiu as regras de um spa e passou a temer o pior.

Tanto Não

.....................Paulo Gurgel

Foi bonita a festa, spa
Fiquei contente
Inda guardo pro meu dente
Uma fatia do pudim.

Já “micharam” minha bóia, spa
Não foi bacana
Pois sobrava uma banana
Com canela para mim.

Sei que há dieta a me cercear
Tanto não, tanto não
Sei que aqui não é possível, spa
Comer pão, macarrão...

Comi canapés, spa
Saí do sério
Resta o cemitério
Se eu encaro esse alfinim.

Para ver a letra (Tanto Mar, de Chico Buarque) que motivou a paródia, clique aqui. E para ouvir a música, também.
Original: EM, 24/07/2007

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

LUTAR CONTRA A AIDS

Há cerca de vinte anos cometi esta trova:

Lutar contra a AIDS
É a luta mais vã
Mal hoje curamos
A febre terçã.



Uma paródia de versos célebres de Drummond. Compus esta trova, possivelmente, num momento de desencanto com a profissão que um dia abracei. Nenhum médico está livre desse sentimento, quando dá conta de suas limitações. E, no caso da AIDS (SIDA, para a turma do Obvious), por exemplo, sobravam os motivos. Naquela época, fazer esse diagnóstico era como emitir uma sentença de morte.
Felizmente, os homens da ciência não foram nessa. E debruçaram-se sobre seus ensaios clínicos, indiferentes ao pessimismo dos poetas (cujos humores, por sinal, oscilam muito). Resultando disso que muitas drogas foram descobertas. Medicamentos que, quando associados, maximizam-se os resultados terapêuticos.
É verdade que ainda não se tem uma solução definitiva para a AIDS, mas a seus portadores já se oferece uma boa sobrevida – com qualidade!
Original: EM, 04/07/2007

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

EMBARCOU, TEM QUE REMAR

Sobre o quadro Poeta, de Leon Girardet:


É uma cena romântica: um rio (ou será um lago?), um barco, um poeta e três raparigas em flor. O poeta faz um recital dos últimos poemas que escreveu. Cada uma das moças deve se imaginar a própria musa inspiradora de um, vários, muitos desses poemas... Até de todos, se uma delas for bisavó da Luana Piovani.
A propósito, não é uma cena contemporânea. O figurino das pessoas mostra que não pertencem ao nosso tempo. O bardo mantém uma distância respeitosa das três raparigas, que se acotovelam num dos cantos da embarcação. A qual, por sua vez, está quase encalhada no capim aquático.
Mas... há remos no barco à espera de braços dispostos. Não se faça de rogado, meu poeta. Está a terminar a leitura do livro em suas mãos, agora é empunhar os remos. E levar o barco, as moças, a si próprio para novas paisagens. Onde o enlevo, o encanto, o arrebatamento, tudo é feito sem palavras.
Sim, faça isto. Para não ser depois recomendado à Sociedade dos Poetas Mortos nas Calças.
Original: EM, 22/06/2007

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

NÚMERO COM APELIDOS

São em grande parte uma contribuição do loto ou jogo do víspora. Um jogo em que cada participante dispõe de um ou mais cartões, com fileiras de números que vão sendo marcados, à medida que as pedras numeradas correspondentes vão sendo tiradas de um saco. O jogador que, em primeiro lugar, conseguir marcar todos os números do seu cartão “bate” (ganha) o jogo.
Para o divertimento acontecer uma pessoa fica responsável por “cantar” as pedras. Isto é, por realizar o sorteio. A qual vai anunciando aos participantes os números das pedras tiradas, numa linguagem por vezes curiosa. Com alguns números – seja para quebrar a monotonia do sorteio, seja para dar mais clareza aos números “cantados” – sendo chamados por apelidos. Expressões que o “cantador” sabe serem do conhecimento dos jogadores, tais como:
1 – ronco do porco
7 – conta do mentiroso
8 – violão sem braço
18 – dos outros
22 – dois patinhos na lagoa
33 – idade de Cristo
44 – quá, quá, quá
45 – meio do caminho
81 – o gordo e o magro
90 – não venta
Até o número 25, o que comanda o sorteio pode apelar também para o jogo do bicho. Pelo menos, para seus números mais conhecidos: o 5 (cachorro), o 24 (veado) e o 25 (vaca).
Como o víspora tem 90 números, daí em diante valerá a criatividade do “cantador”.
Original: EM, 17/06/2007

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

PEDRA, PAPEL E TESOURA

Um dia, eu dei de presente a meu filho Érico, então um menino de sete anos, um videogame da marca Master System II. Um brinquedo que trazia, em sua memória, o jogo eletrônico Alex Kidd in Miraculous World, para iniciantes. Participando do jogo, através do joy stick, Érico e eu (que fui seu mestre nos primeiros dias) fazíamos Alex quebrar rochas, dirigir veículos, saltar abismos, percorrer cavernas, mergulhar em águas profundas... E, ainda, ajudávamos o herói-menino a enfrentar e a aniquilar terríveis inimigos, muitas vezes com os poderes especiais que lhe conseguíamos.
Todavia, no Miraculous World, existiam mudanças de fase em que, para Alex prosseguir, tinha que vencer um inimigo. Num torneio de pedra, papel e tesoura: um jogo dentro do jogo! Isto foi para mim uma novidade, pois eu só conhecia o par ou ímpar, o cara ou coroa e o jogo dos palitinhos. Mas logo aprendi como era o pedra, papel e tesoura. Alex e o inimigo duelavam mostrando, um a outro, uma das mãos. A mão fechada era pedra, a mão aberta, papel, e a mão com dois dedos esticados, tesoura.
Sempre uma opção vencia a segunda e perdia para a terceira. Eis como entender essa regra, a partir de suas justificativas:
.....pedra x tesoura: vence a pedra (porque quebra a tesoura)
.....tesoura x papel: vence a tesoura (porque corta o papel)
.....papel x pedra: vence o papel (porque embrulha a pedra)



Depois de algumas partidas ficamos craques. Pois cada inimigo jogava o pedra, papel e tesoura de uma forma pré-estabelecida. Mas, para falar a verdade, enquanto funcionou o nosso Master System II, jamais os três (Alex, Érico e eu) derrotamos o último chefão do Miraculous World. Aliás, naquelas morosas partidas (que não davam direito a salvar os resultados), raríssimas vezes conseguimos entrar em seus aposentos no castelo do Mal.
Original: EM, 18/05/2007

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

SOBRE MALAPROPISMOS

Nonato Albuquerque publicou na Antena Paranoica uma postagem sobre este assunto (aqui), recentemente. O malapropismo consiste em empregar uma palavra em lugar de outra que tem o som parecido. E origina-se da expressão francesa mal à propos (mal a propósito). Embora, muitas vezes, aconteça por confusão, lapso ou ato falho de quem a profere.
Como causa efeitos cômicos no discurso é um recurso muito utilizado nas comédias. Em 1774, Richard Sheridan, em The Rivals, criou uma personagem, a Sra. Malaprop, de cuja boca brotavam os deslizes verbais da peça. Modernamente, encontraríamos, na televisão brasileira, na personagem Ofélia (aquela que só abre a boca quando tem certeza) uma perfeita discípula da Sra. Malaprop. E, na televisão mexicana (com a repercussão do seu programa no Brasil), em Roberto Bolaños, com as falas do seu personagem Chaves.
Vicente Matheus, diretor do Corinthians por oito mandatos, ficou famoso também por seus malapropismos. Do tipo: “Peço aos corinthianos que compareçam às urnas para naufragar a nossa chapa.”
E tampouco estão livres dessas brincadeiras fonéticas os nomes das pessoas. Como exemplos, Carolina de Sá Leitão, cujo malapropismo é... Caçarolinha de Assar Leitão, e Quintino Reis da Costa, chamado de... Quinhentos Réis da Bosta pelo presidente de uma seção eleitoral ao tempo da República Velha (RS).
Original: EM, 07/05/2007

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

PEGANDO PESADO

Já publiquei no BPG um post intitulado “Quem é o animal?”, em que mostrava a foto de um burro atrelado a uma carroça. Com tanta carga se encontrava a carroça que o pobre animal ficava suspenso no ar. Era, portanto, um caso de maus tratos aplicados em um ser irracional, à consideração da Sociedade Protetora dos Animais, como na época eu registrei.
Partindo do princípio de que o leitor não quer exercitar o lado sádico e sim apenas rever a foto, para o tal recordativo eu oriento o leitor a clicar no arquivo de dezembro deste blog e, em seguida, a rolar a página até o dia 15 do mês. LINK
Viu? Agora, a novidade. Parece que a minha crítica tocou o coração do proprietário do animal. A ponto de ele sustentar numa correspondência a mim endereçada que, mercê de algumas medidas simples que adotou, “as coisas já estão melhorando para o burro”. Diz-me o proprietário que “começou por retirar a carroça, pois esta, ao deslocar para si o centro de gravidade do conjunto, é que fazia com que o burro aeroplanasse”. E , para explicar o seu reajuste de conduta, ainda prossegue o proprietário: “Agora, eu ponho a carga diretamente sobre o animal e, deste modo, consigo fazer com que o burro retorne ao solo. E que até dê conta de carretos mais pesados.”


Depois de ver – com olhar analítico – uma foto desses novos tempos de conforto para o burro, que foi enviada juntamente à correspondência, o editor do BPG chegou a seu parecer:
O centro de gravidade realmente retornou ao animal. Mas o editor tem dúvida se o semovente consegue de fato se mover. A menos que o burro saiba, qual o mitológico Anteu, como obter umas forças extras a partir da Terra. Onde, ao que tudo indica, ele voltou a pôr os cascos.
Original: EM, 03/03/2007

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

UM HOMEM EM SUA CARROÇA



Esta cena me embevece pelo bucolismo.
Eu até perdoo o carroceiro se ele, em algum momento, houver chicoteado a mula. Eu falei mula? Então, já coloquei a carroça adiante dos bois.
Eu falei bois? Falei no sentido figurado (claro, não é uma figura?). Porque, olhando bem, existe dúvida quanto ao atrelamento de uma mula, bois ou de qualquer outro animal. E, por isso, não dá nem sequer para saber qual é a força de tração usada na carroça.
Além disto, trata-se de um veículo não emplacado. Não empacado, porém.
Detalhes tão pequenos de uma cena. Compensados plenamente pelo equilíbrio entre os elementos que formam a cena. Um homem, sua carroça...
E deixemos fora disto a sua bagagem.
Original: EM, 23/02/2007

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

HOMEM AO BURACO

Você está num buraco. Trate de reconhecer o ambiente e não se queixe de imediato. Não berre pedindo uma escada, pois não está no sonho de Jacó. Nem peça uma corda. Houve um ditador iraquiano que a pediu. E que aprendeu, tardiamente, que bom era quando estava no buraco. Sem a corda.
Não pule para não irritar com a trepidação os seres subterrâneos. Há uma política de boa vizinhança em curso. O mundo não pode viver sem o húmus que as minhocas produzem.
A visão que tem do céu não é lá essas coisas. É meio restrita, não é?! Além disso, o tempo está nublado, porém é melhor do que ficar a ver buracos negros.
Não bata nas paredes, podem se desmoronar. Não estão escoradas.
E no fundo? Ah, se fosse um buraco para político você encontraria algum gadget. Uma mola, por exemplo, porque buraco onde político fica sempre tem uma mola. Para trazê-lo de volta à superfície.
Lá fora, parece que chegou alguém. Diacho, é um coveiro. Oxalá não seja do tipo que enterra primeiro e só pergunta depois.


Original: EM, 10/02/2007
Post-mortem
"Quando um assassino faz você cavar sua própria sepultura, jogue a areia longe para que ele tenha dificuldades em acabar o serviço." Jonco Stl

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A QUEM PERTENCE O FUTURO

O futuro é algo totalmente irrevelável no presente. Não me venham com jogos de búzios, cartas do tarô, bola de cristal, horóscopos e outras crendices do gênero. Só vamos saber o que o futuro nos reserva quando estivermos lá. Ah, ledo engano, não vamos. Estaremos diante de uma versão updated do presente. A nos dizer que o futuro outra vez mudou de endereço.
O futuro é nômade.
O futuro se desloca o tempo todo como a linha do horizonte.
O futuro, feito a cenoura pendurada na frente da besta, faz com a alimária caminhe sem parar. Sem alcançá-la.
O futuro é como uma caixa preta. Abre-se, encontra-se outra caixa preta. Ad infinitum.
Por isso, faz parte do meu ceticismo desconfiar da futurologia. Não vejo como se possa saber de fatos que ainda vão acontecer. Embora, para não radicalizar sobre o assunto, eu admita existir uma chance – única – para isto ser possível. Um dia, quem sabe, através da revolução tecnológica, a qual sempre nos surpreende.
A propósito, quem está na frente é o Google.


Original: EM, 28/01/2007

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O CORNETEIRO DE PIRAJÁ

Por conta de um recente fato político vem proliferando, na mídia nacional, referências ao corneteiro de Pirajá. Para que fiquemos a par deste assunto, é importante saber o que fez de tão relevante o citado corneteiro.
Consta das estórias da História do Brasil. As veteranas tropas portuguesas na Bahia, que consideravam a independência do Brasil um ato de traição a Portugal, combatiam os bisonhos defensores da nossa nacionalidade. A batalha era em Pirajá, no Recôncavo Baiano. Os portugueses estavam prestes a vencer a refrega. Nisso, ouviram soar no lado brasileiro o “toque de avançar e degolar”, e a seguir perceberam que as nossas tropas estavam a adquirir um ímpeto redobrado de lutar. O sol, que se punha atrás das linhas brasileiras, cegava naquele momento as tropas lusitanas. Não podiam ver, mas suspeitaram de que haviam chegado importantes reforços para os defensores – a cavalaria brasileira! E recuaram das posições já conquistadas, sendo a partir daí levados de vencida pelos brasileiros. Soube-se depois que o indômito corneteiro, de nome Lopes, do seu comandante havia recebido uma outra ordem. A ordem para executar o “toque de retirar”. Mas, por que não a cumpriu? Para responder esta pergunta há duas hipóteses: A primeira que, por puro nervosismo, o corneteiro houvesse se confundido e tocado a música errada. O que, quando se considera a simplicidade melódica de tais musiquinhas, eu particularmente não acredito. A segunda que ele, com melhor visão do cenário futuro no campo de batalha, tenha decidido executar o toque que animou as tropas brasileiras para a vitória final. Por iniciativa própria, portanto. Pela qual melhorou muito a sua biografia, lá isso melhorou. Mas... havendo sido um ato de insubordinação, da qual sobrevieram riscos para os companheiros, não era o caso de o corneteiro Lopes ter sido mandado a uma corte marcial?
Ora, não é de hoje a assertiva de que... tudo está bem quando termina bem.


Original: EM, 09/01/2007

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

DO DIPLOMA AO CANUDO

Diploma é uma palavra que contém “diplo”, uma raiz grega que expressa a idéia de duplicidade. Como acontece a outras palavras, de uso corrente em nosso idioma, que foram criadas a partir desta raiz. Inclusive várias que pertencem ao jargão médico: diplofonia (voz em duas tonalidades), diplopia (visão com duas imagens), diplococos (cocos aos pares) etc.
Como diploma é documento que dificilmente se emite em dobro, acredito que a inspiração para o termo tenha outra origem. O tamanho do papel, como a pedir para ser amassado ou rasgado. De modo que o portador do diploma, a fim de evitar tais ocorrências, logo optava por dobrá-lo ao meio.
Ao meio significa: dobrar apenas uma vez. Dobrar mais vezes é praticar a arte do origami.
Um dia, porém, houve um diplomado que teve idéia melhor. Enrolar o diploma, transformando-o em canudo – um canudo de papel!
Quem? Onde? Quando? Ah, pouco se sabe a respeito do fato transformador.
Com certeza foi antes da música do Martinho da Vila.


Original: EM, 06/01/2007

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

DIREITO DE IMAGEM

Acabo de saber. O dentista que me fez um implante dentário colocou nos prospectos da clínica a sua foto. A foto do meu dente implantado, bem entendido, acompanhado por sua vizinhança dentária.
O caso foi bem sucedido (o que confirmo), sendo o nº. 1 do folheto. A quem me trouxe um prospecto ele falou com essas palavras. Mas, se não houvesse falado, ao deitar a vista nas imagens, eu logo identificaria esses meus parentes.
Parentes são meus dentes, explico com a ajuda do provérbio.
Nesse meu divagar, eis que surge um diabinho. Aos berros:
- Processe-o! Processe-o!
- Baseado em quê?
- Direito de imagem.
Aí, falta entrar em cena um anjinho. Mas ele não aparece, talvez com medo de perder a questão. Aliás, um medo infundado.
Então, para mostrar quem manda no pedaço, dou um peteleco no diabinho. Que ele foi parar naquele lugar onde já perdera as botinhas.
E as coisas voltam aos seus lugares.


Original: EM, 23/12/2006

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

NOVA FASE

O Preblog entra agora em nova fase.
Até aqui estivemos inicialmente postando os trabalhos publicados em meio impresso. Em geral, capítulos de livros e artigos que escrevi para  revistas e jornais. A estes, somaram-se os trabalhos que permaneciam inéditos - cerca de 150 deles - e potencialmente perdidos. Isto se eu não retornasse a eles para concluí-los, revisá-los e, por fim, publicá-los.
Com o esgotamento do filão, agora passo a usar o Preblog para republicar trabalhos que postei em outros blogs (EntreMentes, Linha do Tempo e Acta). Mas apenas os trabalhos autorais que eu julgue, em primeira instância, apresentarem alguma qualidade literária.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

EFEBO


A Chico Pio (*)

a mão esquerda
que retém
uma revista de mulher nua
(e)
a mão direita
que entretém
uma fera que por fim acua

(*) aquele que um dia quis musicar este troço.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

DR. LUSTOSA VEM AÍ

Dr. Lustosa não vem, retorna. A avaliar pelo que temos visto na televisão nos últimos dias. A todo instante, os apelos publicitários dessa miraculosa cêra (com circunflexo) que promete acabar com a dor de dente. Sim, acaba. Apenas não evita que o usuário fique banguela. Porque, aliviado da terebrante dor, ele passa a adiar, por tempo indeterminado, o encontro com a broca odontológica.
Ir ao dentista não chega a ser um passatempo agradável. Falam que o medo que temos de ir ao dentista é algo atávico. Tem a ver com o sofrimento de nossos antepassados, cujos dentes eram dolorosamente extraídos em praça pública. Aí, se aparece algum remédio que nos livre da maldita cadeira do dragão, digo, do dentista, por que iríamos recusá-lo?
Eis o sucesso da cêra. Ameniza uma dor que nos atormenta. Dor tão incômoda que nos deixa bloqueados para as tarefas, digamos, mais comezinhas.
Mas... voltando ao papo furado: Dr. Lustosa, que tem pontos em comum com a cêra homônima. Tais como:
- É chegado a uma panelinha.
- Nunca vai à raiz do problema.
- Dá as caras em tempo de eleição.
Aí, antes que você diga a palavra des-bu-ro-cra-ti-za-ção, você já está com a boca de sovaco. Um sovaco imenso (sei do cacófato) à espera de uma dentadura postiça. Ainda bem que é problema que se resolve mais facilmente em tempo de eleição.

Para finalizar, só parafraseando a cantora Marina: Quem vai juntar os cacos do velho dente?

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

AS LÂMPADAS

(haicais)
boçal o soquete
que espalha ser a lâmpada
somente tiete

o sonho do archote
é (numa noite de inverno)
virar holofote

por demais ilustre
foi que a lâmpada pavoa
soltou-se do lustre

ó farol de milha
belo é teu facho hiperbólico
porém não humilha


Chave geral para o leitor desligar tudo no final.
Enfim, uma ideia luminosa!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

APARANDO UNHAS

Da mente doentia de algum tecnocrata surgiu a ideia de obrigar o cidadão com duas fontes pagadoras a fazer cinco declarações de renda por ano fiscal. Como se já não bastasse a declaração de renda anual, suficientemente prolixa para tomar um fim de semana inteiro (ou mais) do declarante.
Choveram protestos, Brasil afora. Foi quando entrou em cena o presidente Sarney.
Na sequência, Ique, do Jornal do Brasil, faz uma charge (imagem) em que aparece o presidente Sarney agachado, aparando as garras desse "trileão". Um cérbero com três cabeças de Mailson, o ministro da Fazenda.
Colhe Sarney os dividendos políticos de sua intervenção, como fez o compadre Zé da anedota.
Compadre Zé botou em casa um bode a fazer estripulias. Durante a semana, o mal-cheiroso animal quebrou objetos, sujou a casa toda, além de empestá-la com os odores que os bodes têm. Quando ninguém aguentava mais o animal, compadre Zé tirou-o de casa sob os calorosos aplausos da família.


Se as leis fossem cumpridas ao pé da letra no Brasil, manicure de vaca poderia ser uma profissão bastante promissora. Um decreto da década de 1950, em vigor até hoje, determina que, para embarcar num vagão ferroviário, as fêmeas da raça bovina devem ter as unhas aparadas. Pois bem, só no setor ferroviário existem 432 regulamentos, e sabe-se que 90 por cento deles são totalmente inúteis. Como o que determina que uma estação ferroviária só pode ser inaugurada com a presença de um ministro do Estado, o qual deverá dar exatos dois apitos de trem.
A profissão de vocês poderia ser promissora, senhoras manicures. Mas... vem aí um pacote de desregulamentação, baixado pelo Palácio do Planalto, que, no prazo de doze meses, revoga 50.853 atos regulamentadores dos mais de 100 mil que foram acumulados em um século de República. No meio deles, o que manda aparar as unhas das vacas que vão pegar trem.

(rascunhado em 1990 / revisado em 2013)


quarta-feira, 24 de julho de 2013

A FÁBULA DO URUBU-REI

Num lugar distante, existia um Urubu-Rei que, orgulhoso de sua vistosa plumagem, desprezava a companhia dos catartídeos de penas pretas.
"Urubuzinhos sem classe", era como se referia aos nascidos em ninhos sem realeza.
Procurava mostrar-se o mais esnobe possível. Se todos torciam pelo Flamengo, ele, que nunca ia a estádio, era Fluminense. E se a massa disputava com sofreguidão uma carniça qualquer, o que fazia ele? Virava o bico e se mandava para algum lugar afastado, onde pudesse fazer o seu repasto de carne fresca.
A bem da verdade, diga-se, havia ocasiões na vida do Urubu-Rei em que a refeição não andava fácil. (1) Via-se, então, obrigado a enganar a fome, na calada da noite, (2) com as vísceras de algum animal apodrecido.
Certa feita, estando ele em pleno voo, (3) astuciou o plano de fundar uma dinastia. Sim, sendo ele um Urubu-Rei, nada mais justo. Entretanto, havia um problema: onde arranjar uma rainha naquelas paragens em que só dava urubu-malandro? Problemão, sô... de fazer perder as penas do pescoço. (4)
Pôs-se o tempo a passar e nada de o Urubu-Rei arranjar casamento. Até Santo Urubônio que, na qualidade de corretor de casamentos, conhecia a fundo a potencialidade matrimonial da região, recusara a difícil intermediação. "Se aparecer alguma baronesa por aqui, caso eu primeiro", disse o santo. (5)
Mas, um dia, a urucubaca deu sinal de que ia terminar.
Estava o urubu-rei cofiando as coberteiras com o bico, quando teve a atenção voltada para uma movimentação incomum. Perto do galho em que pousava, um bando de zangões perseguia uma Abelha-Rainha em seu voo nupcial. Uma alteza dando sopa (6) bem ali, seria verdade? Alçou voo para conferir: era!
Inscrito de última hora, ele ganhou o pega da Abelha-Rainha sob os protestos da comunidade apídea. Menos da ávida abelhona, com a qual o Urubu-Rei se casou. (7)
E tiveram muitos filhos. (8)
Moral - Noblesse oblige.
(1) Não tinha a renda dos laudêmios de Petrópolis.
(2) No rumor do dia seria flagrado.
(3) Condoreiro.
(4) Nunca as tivera.
(5) Reforço de linguagem.
(6) Aliás, dando mel.
(7) Havia o precedente do Elefante com a Tanajura.
(8) Depois que aderiram ao swing. Não há o projeto de "urubelhas" na Natureza.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

COMPORTAMENTOS DE RISCO

Discutir com o magarefe.
Comprar apartamento na planta.
Praticar surfe ferroviário.
Acender fósforo para ver o nível do combustível.
Idem, dentro do paiol.
Dar em cima da mulher do próximo... muito próximo.
Falar de corda em casa de enforcado.
Ser amigo do amigo da onça.
Idem, com relação ao amigo urso.
Falar mal do Padre Cícero em Juazeiro do Norte.
Espinafrar o marinheiro Popeye.
Desligar o televisor do bar durante o jogo do Brasil.
Pôr a cabeça na boca do leão.
Confiar confiando...
Tirar a fantasia e não vestir a camisinha.
Apanhar sabonete no chão de um banheiro público (só para homens).
Não receber com cortesia o Sr. Mário Valadão. (1) (2)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

LISO, LESO E LOUCO

"Exatamente. Eu já havia corrido uns dez minutos para me livrar de uns porto-riquenhos que estavam em meu encalço. Nos braços, rosto e pescoço, os inúmeros arranhões causados pelos galhos das árvores que, em minha desabalada carreira, eu tinha deixado para trás. Lembro-me, especialmente, de um corte profundo, abaixo do queixo, pelo que ele muito ardia. Era digno de uma sutura de dez pontos, talvez cinco.
"Felizmente, eu já estava a me refazer do cansaço sob a copa de uma frondosa árvore. Não via mais os porto-riquenhos, mas não estava certo de que eles não estavam nas proximidades. Enquanto isso, era recuperar minhas forças, apreciar a beleza vegetal, sentir o cheiro da relva molhada, ouvir o canto dos pássaros... Ei, quando eu pensasse em voltar, encontraria o caminho de volta?
"Forçoso era admitir, eu me encontrava: numa de horror, diante de uma sinuca de bico, sem lenço nem documento, liso, leso e louco e sem dinheiro pro troco, na corda bamba, de mal a pior, dando nó em pingo d'água, vendo urso, matando cachorro a grito, aliás, no mato sem o tal cachorro, chamando Jesus de Genésio, urubu de meu louro, fugido e mal pago e não me peçam para corrigir a última expressão.
Poderá também gostar de:
OS GERÚNDIOS ESTÃO FLORINDO

quinta-feira, 4 de julho de 2013

FRASEADO

Eis algumas frases dignas de registro. Foram colhidas por mim em circunstâncias as mais diversas. Umas, confidenciadas; outras, entreouvidas. Umas, brotaram das bocas de amigos. Outras, não se lhes identificam os autores. E há aquelas que não se nominam os autores e que são produto da sabença popular.
1. Quando Cabral chegou ao Brasil, aqui já estava cheio de"caboco" baiano.
2. É honesto... só até a meia-noite!
3. Cara, você me apertou sem abraçar!
4. Vá com Deus, Nossa Senhora e o Diabo atrás tocando viola.
5. Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece.
6. Jesus Cristo tem cada morador feio.
7. Funcionário público é como porco chupando caju azedo. Grita, mas não larga.
8. É ver começar a guerra e correr para se alistar.
9. No Brasil não há hippies, só arrepiados.
10. É melhor perder no boi do que perder o boi.
11. Quem tem sorte puxe por ela, quem não a tem, puxe a cachorrinha.
12. Jogaram a criança fora e criaram a placenta.
13. Quem comprá-lo pelo que ele vale e vendê-lo pelo que ele pensa que vale, vai lucrar um bom dinheiro.
14. Se pisar num chiclete não sai mais do canto.
A seguir, relato os contextos em que foram ouvidas e, quando possível, as pessoas que as disseram. Também acrescento pequenos comentários, na esperança de lhes diminuir a "outridade".
1. Verdade. Todo dia era dia de índio. Escutei-a na Praça do Ferreira por ocasião de uma engraxada.
2. Dita por um tal Augusto, com a intenção de enlamear um colega. Pude verificar depois que o língua ferina não tinha razão.
3. Reação de um tal Burlamaqui diante de uma pergunta incômoda. Ao final, abracei-o.
4. Despedindo-me de AA, depois de uma noite de aconchego. Amanhecia. Todo mundo sabe que o Diabo quando está bem humorado (tocando viola), nesses momentos não é tão feio quanto o pintam.
5. Do repertório de Zezinho, um hobbesiano prático. Espírito rixento, ele dispunha de abundante munição verbal para a provocação. Essa era uma.
6. Também do Zezinho. Pensamento seu tinha que ter, a um só tempo, religiosidade e beligerância.
7. Perto da castanha é menos azedo.
8. Do poeta Carlos Augusto. Que trava uma guerra particular com a guerra.
9. Nem yuppies, acrescento.
10. Momento de inspiração do "Seu" Antônio, dedicado funcionário do SAME do Hospital de Messejana.
11. Vovó Almerinda (?)
12. Domínio público.
13. Do jornalista Vera Cruz, de quem fui hóspede em São Luís, ao se referir a um conhecido globe-trotter.
14. Do colega Eduardo, dando ênfase às condições físicas de um valetudinário.
Ver também: FRASEOLOGIA MILITAR

quarta-feira, 26 de junho de 2013

DIETAS

“Eis a vossa comida que vem chegando!” Hans Staden 
(obrigado a se anunciar assim pelos tupinambás que o aprisionaram)
Regra geral os seres irracionais seguem dietas monótonas. O bicho-da-goiaba, por exemplo. Ele, o tempo todo, regala-se unicamente do fruto da goiabeira, o qual, a propósito, lhe dá o nome. Ele é ele e suas circunstâncias. Em sua subsistência, o bicho vai conseguindo, ainda, que a casa fique cada vez mais espaçosa. E a coisa é assim desde o bicho-da-goiaba primordial até seus descendentes atuais. Nenhum deles, que eu saiba, já foi visto tomado de cacho pela bananeira.
Pela razão e pela ração, o homem é o grande contraste. Porque  temos arte (culinária) e engenho (de cana) criamos, para nós, inúmeros regimes alimentares, muitos deles contrariando os decretos-leis da Natureza. E, malgrado os destemperos, vamos abrindo cada vez mais o leque das opções alimentares. Num futuro próximo, cardápio de restaurante deverá ser algo parecido com catálogo de autopeças. Cada prato (a feijoada, quem diria) terá um número de cinco dígitos, mais dígito verificador.
Contudo, em defesa do onivorismo a que chegou, o homem tem lá seus argumentos. Que vão do epicurismo à terapêutica e do modismo à elegância, abrigando-se nesta última categoria os argumentos mais ponderáveis. Existe, no tocante ao assunto dieta, um caldeirão de (como diríamos?) motivações. E nele, com o perdão dos nutrólogos, eu meto a colher sem medo de engrolar.
Dieta zero – A dieta terceiro-mundista. Seus seguidores um dia irão à forra com os pantagruélicos ou não me chamo História Universal. Os pantagruélicos, por sua vez, já devem estar botando as barbas no molho, obviamente tártaro.
Dieta zero à esquerda – É a dieta zero com ortodoxia. Aqui caldos de caridade não entram. Seus adeptos, na corrida para esganar os pantagruélicos, talvez cheguem antes.
Dieta vegetariana – Nem é carne nem é peixe, mas é onde o sectarismo está presente. Uma incongruência, não?
Dieta rígida – Levada ao extremo pode ocasionar rigidez no seguidor. A tal rigidez cadavérica.
Dieta da lua – Vem sendo indicada para quem nasceu com a boca virada para a lua. Um maná de dieta.
Dieta do astronauta – A comida vem em bisnagas. É uma dieta redutora de peso, mas não garante o resultado quando da volta à gravidade.
Dieta pantagruélica – Inspirada em Pantagruel, o personagem do primeiro romance de Pantagurel que buscava os prazeres da vida. Os pantagruélicos, comparados com os comensais da Dieta, são fichinha.
Dieta (com “D” maiúsculo, significando assembleia política, parlamento etc.) - Ah, nesta o comer é grande cousa!

quarta-feira, 19 de junho de 2013

VOCÊ SABIA

... que existe no Brasil um clube de xenófobos com ramificação no exterior?
... que o filme "Lotação Esgotada" foi o maior fracasso de bilheteria de todos os tempos?
... que a Iluminação pode ser mais facilmente alcançada com uma dieta que inclua pirilampos?
... que os milagres escassearam porque fomos ficando mais exigentes?
... que o Universo tende a um estado de morte térmica, a começar pela fria salamandra?
... que o Corcunda de Notre Dame dava aulas em um curso de correção postural?
... que não vimos a última passagem do cometa de Halley porque ainda estávamos ofuscados com a do Kohoutec?
... que São Nunca, ao contrário do que o nome possa sugerir, teve uma canonização ultra-rápida?
... que um miniaturista japonês, usando um pincel ultrafino, pintou a Via Látea num átomo de hidrogênio?
... que o martelo agalopado já tem machucado o dedo de muito repentista metido a besta?
... que o salário mínimo é também chamado de "só?", qualquer que seja o seu valor nominal?
... que ninguém foi em vida tão singular quanto o poeta Vinício de Moral?
... que aquele que se deixa subornar é sempre digno de nota?
... que o espermograma é cheio de detalhes mas não diz do prazer havido?
... que esta não é a primeira vez (nem será a última) que alguém tira proveito da série "Você sabia'?

quarta-feira, 12 de junho de 2013

PAISAGEM MARINHA À MÁQUINA DE ESCREVER

♪UM PEQUENINO GRÃO DE AREIA
OLHANDO O CÉU VIU UMA ESTRELA♪
PAULO GURGEL

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A SÍNDROME DE ESTOCOLMO

Segundo a lenda, os fundadores de Roma, provenientes de Troia, após convidar os sabinos a um banquete, sequestraram as mais belas mulheres sabinas para povoar a nova cidade. Para recuperar as mulheres, o rei sabino declarou guerra a Roma; porém, as mulheres preferiram ficar com os seus esposos e filhos. Diante disso, os sabinos desistiram de pelejar com os romanos.
A lenda ilustra como o crime de sequestro é coisa antiga. É do tempo em que a cobra fumava de verdade.
Em tempos recentes, Paul Getty, um rapaz de vida desregrada, foi vítima desse crime. Não dando ouvidos ao avô, um dia viu-se obrigado a mandar uma orelha inteira ao unha-de-fome. Através do "Sequex".
Como é o tal "modus sequestrandi"?
Primeiro, formam uma quadrilha (com uma clara divisão das tarefas). Escolhem a futura vítima. Estudam seus hábitos. Ela faz uso contínuo de algum medicamento de alto custo? O diabo e o sucesso de uma operação estão nos pequenos detalhes.
Montam o plano. Onde será a abordagem da vítima? Alugam - por temporada - o imóvel que servirá de cárcere privado.
Depois, vão às compras: capuz, cordas, mordaça, colchonete e uma fita-cassete com ruídos ambientais para confundir a polícia.
Dois meliantes, aos quais chamarei de X e Y para que a quadrilha não se sinta ameaçada, fizeram um sequestro. Com a vítima em boas mãos, ligaram para os familiares dela e informaram as condições de resgate.
O valor era exagerado, 20 milhões, e o o interlocutor se mostrou espantado:
- Vinte milhões?! Eu não tenho esse dinheiro todo, a menos que eu também sequestre alguém!
- Ah, somos colegas! Nesse caso, damos-lhe um desconto.
- De quanto?
- Dez milhões.
- Aceitam fichas telefônicas?
Um comentário sobre a polícia: é uma estraga-prazeres. Tem que ficar de fora em todas as etapas do sequestro. Cartesiano, meu caro Watson. Se a polícia conhece X e conhece Y encontra no gráfico a localização do cativeiro.
O sequestro pode ser relâmpago ou às escuras. Na segunda categoria está o de sogra (cujo sequestro até chega a comemorar aniversário).
A vítima para cá, o dinheiro para lá. O negócio só é bom quando é bom para um lado e melhor para o outro. Como aconteceu com a Bela e a Fera.
Por fim, e como é de praxe, a história termina com o sequestrado dando uma entrevista coletiva para falar bem dos sequestradores. Chamam isso de síndrome de Estocolmo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

NÃO CONFUNDA

Capitão de fragata com... cafetão de gravata.
Ave Maria cheia de graça com... alvenaria cheia de massa.
Carolina de Sá Leitão com... caçarolinha de assar leitão.
Quintino Reis da Costa com... quinhentos réis da bosta, como fez o presidente de uma seção eleitoral ao  tempo da República Velha (RS).
A grande obra de mestre Picasso com... a grande pica do mestre de obras.
Espírito de corpo com... espírito de porco.
Patrimônio com... matrimônio (o primeiro pode aumentar ou diminuir com o segundo).
Perestroika com... espera estoica.
Cheio de vida com... cheio da vida (uma letra é tudo) .
Bem comum com... bem com... um (um espaço é tudo).
Capaz com... capaz de tudo.
Baixa combustão com...  (mulher) baixa com... bustão.
Estar com Maria José no colo com... estar no colo de José Maria.
Rambo com... Rimbaud.
Selassié com... Sei lá se é (nome de um bloco de carnaval).
Quatro Ases e Um Coringa com... quatro com asma e um com íngua; Jane e Erondi com... Jânio e Erundina; Lennon e McCartney com... Lênin e McCarthy.
Tocando B. B. King sem parar (conforme uma canção) com... trocando de biquini sem parar
Paulo Gurgel com... Paulo Coelho.

sábado, 18 de maio de 2013

SOBRE ENQUETES

Sr. Redator:
Sou um admirador desse jornal cuja leitura eu faço, rotineiramente, do seguinte modo: a primeira página, nas bancas de revista; as demais, depois de desembrulhar a carne trazida do açougue ou, no local de trabalho, por cortesia do faxineiro que faz a limpeza das vidraças. Só uma coisa eu não leio: o horóscopo - o que, talvez, seja uma tola superstição minha.
Pois bom, leitor assíduo (já disse!), se eu volto hoje a frequentar essa mesa de redação, é porque acordei com algumas reflexões no bolso do pijama. Primeira: uma "bola branca" à Seção de Cartas que vem jogando um bolão, deixando a gente cabecear livremente. Segunda: uma bomba de encher (fuque-fuque) "bola branca" que, dessimbolizada, nada mais é do que uma sugestão.
Explico: vão ao encontro do povão. procurem saber o que pensa o homem comum a respeito de situações do quotidiano. Sigam, portanto, o exemplo das sisudas revistas especializadas em rádio e televisão. Façam enquetes.
Algumas eu já bolei, com a certeza de que serão aí aproveitadas, para maior glória (contar com a Márcia Gurgel não é tudo!) desse órgão de imprensa.
1 - Qual é o melhor local para morar?
a) Na Cidade dos Funcionários, uma metástase da Aldeota segundo a especulação imobiliária .
b) Na Vila Romero, dividindo a casa com o riacho Pajeú.
c) Nos fundos da Siqueira Gurgel.
2 - Que veículo prefere?
a) O carro chapa branca.
b) Um daqueles que você viu em exposição na Semana de Prevenção aos Acidentes de Trânsito.
c) O pedalinho da Lagoa do Opaia.
3 - Qual é a "Obra do Século"?
a) A rede de esgotos de Fortaleza pela forma irrepreensível como foi tocada.
b) Idem, trocando o continente pelo conteúdo.
c) O Monumento ao Interceptor Oceânico na Beira-Mar.
4 - O que dá mais status?
a) Ser sócio-proprietário do Santa Esmeralda.
b) Passear de carro com o Leudinho.
c) Receber uma comenda de fariseu.
5 - (Só para mulheres.) Com quem você gostaria de ter um filho?
a) Com o Clodovil.
b) Com a porção-homem do Gil.
c) Com o editor-chefe da revista Lampião.
6 - (Só para homens.) Com quem você gostaria de ter um filho?
a) Com a Araci de Almeida.
b) Com a porção-mulher da Bethânia.
c) Com a secretária do editor-chefe da revista lampião.
7 - Qual é o "Acontecimento do Ano" em 1980?
a) O beijo-coristina do J. Moura no Frank Sinatra.
b) O beijo-fadigerol do J. Moura no Papa.
c) O beijo-glucoenergan do J. Moura no Zico.
8 - Qual é a sua diversão preferida?
a) Tomar uma geladinha no Anísio, desinteressado dos pivetes que estão interessados em você. (Por falar nisso, onde anda a sua bolsa capanga?)
b) Assistir ao Canal 2.
c) Praia. Colecionar hematomas do frescobol.
9 - Que objeto você levaria a uma ilha deserta?
a) Um talão do Estacionamento Azul.
b) Um apito de juiz de futebol.
c) O livro em branco do Carneiro Portela.
10 - Qual deve ser a duração ideal de um mandato de vereador?
a) Quatro anos legítimos + Dois anos biônicos.
b) Quatro anos legítimos + Quatro anos biônicos.
c) Quatro anos legítimos + Seis anos biônicos.
Fortaleza, 16 de outubro de 1980

sábado, 4 de maio de 2013

EM CARTAZ - III

O MÁGICO E A SECRETÁRIA
Grã-Bretanha, 2003. Jenny, uma moça de 18 anos, vive feliz em Londres. Divide o seu tempo entre os estudos de taxidermia e o emprego de secretária de um mágico. Nesta segunda atividade, ela é cortada ao meio pelo mágico todas as noites. Às sextas-feiras, em dobro. Numa noite de sábado, Jenny não aparece para a função. E o seu corpo bipartido é encontrado pela polícia, sob um olmo do Hyde Park. O mágico não aparece sequer para a missa negra de corpo presente. É sobre ele que recaem as suspeitas iniciais de haver cometido o crime. Mas, ao ser detido, ele apresenta um álibi irrefutável. Na provável hora do crime, estava a jogar paciência numa casa abandonada. Sem provas contra ele, a polícia aceita a hipótese de que Jenny se partira espontaneamente, em um sulco preexistente, quando dançava salsa numa boate. E prende o indiano que acompanhou a moça na boate, sob acusação de exibição de cadáver. Escrito para a televisão a cabo, o filme é interrompido para a inserção de comerciais de morgues e cemitérios.
O NOME DA PROSA
Produção ítalo-germânica de 1995. Numa época indefinida, em um país indeterminado, uma lei é editada para proteger a sociedade dos crimes de lesa-cultura. Por essa lei, todos são proibidos de ler qualquer coisa. Os livros são queimados em praças públicas, as revistas e os jornais, nos terrenos baldios. Traças e cupins conhecem o seu lugar. Montag, um graduado funcionário do governo, é o agente que comanda a repressão. Numa viagem de trem, ele conhece Clarisse. A sonhadora jovem que logo lhe desperta o gosto pela leitura dos prefácios. E Montag, com a coleção completa de Paulo Coelho na mochila, foge com ela para a Floresta Negra, onde conhecem um grupo de bibliófilos. O grupo se dedica a preservar as obras-primas da literatura universal e, de modo todo especial, o Livro Negro da Neusinha Brizola. O filme é baseado no livro "Gostei Mais do Filme" e foi dirigido pelo mesmo diretor do fracassado "Campeão de Bilheteria".
MORRIS
Norte-americano, 1988. Morris é um policial taciturno que se distrai mantendo um ritmo de trabalho diuturno. Ao seguir os passos de um homem-tronco, que o conduz involuntariamente até uma pista de skate, ele descobre e põe no camburão toda a quadrilha de Duran. Uma quadrilha especializada em roubar pirulitos das crianças com o objetivo superior de subornar o tenente Kojak. Promovido em risco no trabalho, Morris é designado para se infiltrar em outra quadrilha, chefiada por Kerouac. Casualmente, os dois se encontram em um bar fora da jurisdição, mas nenhum tem a coragem de pagar a conta do outro. Numa cena considerada antológica, ele e Kerouac tocam piano a três mãos em um concerto beneficente do Exército da Salvação. Apesar de maneta, Kerouac é rápido, e foge com a renda do espetáculo. Na perseguição do facínora, Morris demole o esqueleto de um dinossauro do Museu de História Natural. A crítica considerou insossa a cena final em que eles duelam numa salina desativada. Morrem apenas os padrinhos.
EM CARTAZ - I
EM CARTAZ - II

sábado, 27 de abril de 2013

ELVIRA PAGÃ

A deusa que veio nos redimir os pecados,
Pecando - salvação única! - com ela,
Ninfa de fontes imemoriais.
Com olhos de rãs, espiamos:
(Suas roliças coxas explodirão as ligas?).
Podemos saltar para o tablado. Momento qualquer.
Um gesto ambíguo, um grito lascivo, um reflexo no ventre,
Tudo pode ser a senha para a invasão dos desejos.
Seu rebolado alucinante: não paralisá-lo,
Apenas retê-lo, senti-lo
Qual onda vibratória enfim captada
Em nossas frequências.

sábado, 20 de abril de 2013

ABI-LOL

Fazer uma boa reportagem nem sempre é fácil. Por isso é que existem tantas “reporcagens” por aí.
Saí a campo a ver se garimpava uma entrevista com o Abi-Lol. Sabem como ele anda? Depois que lhe atiraram uma pedra, ficou meio cabreiro, achando que isso lhe minou a reputação.
Não sei exatamente quem atirou aquela pedra . A primeira, e as outras que se seguiriam...
Mas, se até as pedras se encontram, por que eu não iria encontrá-lo? Localizei, sim, o bruto. Numa ocasião em que três repórteres já o assediavam, sendo eu o quartzo. Aliás, não sou repórter de verdade.
No princípio, Abi-Lol se mostrou muito exaltado, com quatro pedras na mão e falando que estava tirando leite das pedras. Na certa, uma referência às agruras de ser ministro. Não era preciso exibir um certificado de garantia.
Foi desabafando:
"Olha, ser ministro é passar por um teste de dureza. Figueiredo puxa muito pela turma..."
Ao dizer "turma..." tive a impressão de que o ministro interrompeu a palavra. Talvez quisesse dizer turmalina...
O Abi-Lol, apesar da ascendência turca e de ser casado com uma turquesa, é um brasileiro da gema. Tão brasileiro quanto o Sr. H. Stern.
O fato é que, após lapidadas as arestas, rolou um clima cordial entre nós. Que fez a entrevista fluir por entre os cascalhos.
Pelas tantas, o ministro chegou a cantarolar uma música do Luiz Antônio. Um samba-canção que fala em “joia preciosa, cada um deseja e quer”. Não é do tempo de vocês.
Ao final, trocamos tapinhas nas costas e tapões no rosto.
Prometi que iria pôr uma pedra sobre o assunto. Prometi, mas não cumpri. Dei o seixo.
Trinta anos depois, estou aqui revelando o making-of do nosso encontro. E, mesmo que eu publique a entrevista inteira, não vai ser por conta disso que eu vou deixar de dormir feito uma pedra.

sábado, 13 de abril de 2013

O BRASIL ALTER

A lamentar nunca haver existido o Brasil paralelo. Explico. O Brasil paralelo seria o Brasil de cada alternativa que foi descartada, por decisões históricas ou não.
Imagine o patrício que o Brasil está em um caminho que se bifurca. Naquele instante, ele toma o caminho da direita e... lá vamos nós, como tropeiros das ilusões perdidas, até darmos com os burros n'água. Aí, diante de uma realidade apenas quebrada na frieza, cabe-nos perguntar o seguinte:
Que teria acontecido se o Brasil tivesse tomado o caminho da esquerda? Isto lá seria com o Brasil alternativo, o Brasil Alter. O Brasil que, supostamente, estaria na África porque Pedro Álvares não teria embarcado naquela conversa fiada das calmarias.
Tivemos o "Dia do Fico", sem pesarmos as vantagens do "Dia do Vou Embora ". No Brasil Alter, Dom Pedro I teria ido embora para Portugal porque lá era amigo do rei. Aliás, lá seria o próprio rei.
Na II Guerra Mundial, não optamos por lutar ao lado da Alemanha. O Brasil perderia a guerra, é verdade. Mas, hoje, ombrearíamos em progresso com as nações do Eixo.
Na Copa de 50, para dar outro exemplo. O Brasil vivia o clima do "já ganhou", só esperando a hora de levantar o caneco, ouvir o Hino Nacional e pôr as faixas de monocampeão. Perder o título naquela altura do campeonato era algo impensável. Mas aí apareceu Gighia: Uruguai 2, Brasil 1. No Brasil Alter conquistaríamos o título com o placar de 1 a 0. Com o jogo interrompido aos 24 minutos do segundo tempo devido a um foguete soltado pela avó da Rosenery.
(Por uns míseros cruzeiros, a fogueteira de 1950 depois posaria de maiô Catalina para a revista "Cruzeiro".)
Em 1985, o colégio eleitoral não elegeria o Tancredo. E as bactérias do Hospital de Base, que estavam a fim de um sangue presidencial, teriam de se contentar com o Maluf. Meno male.
Nas grandes decisões tomadas, principalmente quando elas nos levaram à beira de um precipício, faltou simplesmente o Brasil Alter. O país onde nos refugiaríamos em busca de uma sorte melhor.

domingo, 7 de abril de 2013

A CLASSIFICAÇÃO TERNÁRIA DO MUNDO

Três dimensões tem a vida, segundo o Conde Korzybski. Em sua obra "The Manhood of Humanity" (A Idade Viril da Humanidade), Korzybshi cita-as: comprimento, largura e profundidade. A primeira dimensão corresponde à vida vegetal. A segunda, à vida animal. E a terceira dimensão é a que pertence à vida humana.
A vida dos vegetais é uma vida em longitude. A vida dos animais é uma vida em latitude. E a vida dos homens é uma vida em profundidade.
Aqui, para destrinchar o palavrório de Korzybski, ocorre-nos aclarar as três ordens do mundo orgânico - planta / animal / homem - por intermédio das propriedades do espaço: comprimento / largura / profundidade (a última no sentido metafórico de tempo).
Assim, a vitalidade vegetal se define em sua fome de sol. A vitalidade animal, em seu apetite por espaço.
E, sobre essas duas existências, a estática (vegetal) e a errática (animal), a existência humana proclama sua originalidade superior. Mas... em que consiste a suprema originalidade do homem? Consiste em que ele, vizinho do vegetal que armazena energia e do animal que disputa espaço, vivencia o tempo.
É preciso, pois, enfatizar essa terceira dimensão que caracteriza a vida humana. Aprofundá-la. Que o homem volte a capitalizar séculos em vez de capitalizar léguas. Que a vida humana seja mais intensa do que extensa. Amém.
É o que se depreende da classificação ternária do mundo que o Conde nos legou.


sábado, 30 de março de 2013

O PARTIDO HUMORISTA - 2

A Sra. Prefeita da Administração Popular preenche todos os requisitos para conduzir os humoristas daqui, quiçá do Brasil, ao Canaã. A terra prometida que faz cócegas em nossos pés, até rirmos a mais não poder.
Depois de transformar a loura desposada do sol, no dizer de Paula Ney, em sarará amigada do sol, a alcaidessa acha que merece mais. A Presidência da República, mas, benza Deus, que tal não aconteça.
Três anos após a refrega eleitoral, ela ainda não desceu do palanque. Sendo a Administração Popular, com honrosas exceções (Mamede, Vital), uma grande piada. As honrosas exceções, aliás, preferiram sair da canoa. A terem de compactuar com os projetos políticos da Sra. Prefeita e de seus apaniguados.
Como é próprio dos messiânicos, ela usa métodos próprios da categoria. Em vez da racionalidade administrativa, recorre a exorcismos. O Executivo Estadual é o seu demônio preferido.
Sobre o recente jejum da alcaidessa, tão bem divulgado pela mídia: marketing político? Ou a Sra. Prefeita, que já tem alguns gurus, apegou-se com mais um? Chamado fome, que não é propriamente um bom conselheiro.
Em se falando de jejum, eu sou mais o aiatolá Khomeini, que não faz uma mera pausa estomacal. Octogenário, minado por doenças cronico-degenerativas, ele jejua de sol a sol no mês do Ramadã. Ali, na ortodoxia, não deglutindo nem a própria saliva durante o jejum. Que dirá a saliva que beijos molhados possam instilar? E repare, prezado senhor, que Khomeini é ímã mas não é de ferro. Não há mãos solícitas que lhe ofereçam uma aguinha de coco, por exemplo.
Sim, houve essa possibilidade...
Quanto a esse fruto, saiba o senhor quão nutritivo ele é. Além da água, sais, vitaminas, glicídios, aminoácidos... Isso sem falar sobre a "lama" do coco, um autêntico bife vegetal. Se eu tivesse de levar alguma coisa para uma ilha deserta, levaria o "Cem Receitas com o Coco" (cuja edição infelizmente está esgotada). Nada mais útil do que esse livro para quem quer sobreviver até que aconteça o resgate. Mas, cá entre nós, eu não aceitaria o salvamento se for para me deixar em Fortaleza. Pelo menos enquanto dure a tal Administração Popular.
Finalizando o tema do Partido Humorista. Para auxiliar em sua divulgação, eu sugiro escolherem um animal que represente o partido. Por que não a hiena? Ela vive rindo e faz sexo duas vezes por ano, o que é uma esperança de que o país seja menos estuprado.