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sexta-feira, 20 de julho de 2012

A LUTA DO SÉCULO

Os jornais noticiaram o sequestro fracassado de um avião de uma empresa irlandesa por L. J. Downey, um ex-monge, que pretendia transviar o a aparelho para Teerã. Acometido da "síndrome da Galveas", que o conduzia ao despropósito de querer acontecer em Teerã, o ex-monge exigia ainda, para libertar os reféns, a publicação de uma mensagem religiosa nos jornais de Dublin, Irlanda. Prometendo, coisa de dar com a língua na prótese dentária, revelar na oportunidade "o maior segredo de todos os tempos".
O maior segredo, correspondendo ao terceiro dos que foram revelados aos pequeninos de Fátima, o qual versaria sobre o Fim do Mundo.
Como, porém, estabelecer a conexão do tal segredo com a viagem do monge sequestrador à cidade iraniana?
Complexo, meu caro Watson.
Antes de tudo, façamos uma análise dos antecedentes de L. J. Downey:
1) Monge trapista em um convento romano, cumprindo voto de silêncio, enquanto apurava os ouvidos para compensar a desativação das cordas vocais. Com o passar dos tempos, é provável que a sua audição tenha-se desenvolvido a ponto de perceber até os passinhos de uma formiga em sua roseira de estimação. Durante a vida monástica, consta ainda que ele gozou o direito de emitir duas palavras, para cada dez anos de silêncio, do seguinte modo: "cama dura", "comida fria" e "eu desisto". Deixando feliz, com estas duas últimas palavras, o superior da congregação assim que viu partir um espírito tão quereloso. Um péssimo exemplo!
Prosseguindo: 2) Guia turístico no santuário de Fátima, um local perfeito para fazer espionagens místicas. 3) Temporada em Dublin, pois, afinal, é na terra dos outros que um profeta solta as transas.
Juntemos agora o que foi exposto acima à pretensa viagem dele a Teerã. Pois bem, perto desta cidade, em Qom, é que deita e rola o aiatolá Khomeini, o qual, por muito tempo, vem representando o Anticristo para o mundo ocidental.
Convencido de que Khomeini era mesmo o Anticristo, L. J. Downey - é o que supomos - tencionava ir ao encontro dele. A fim de que o aiatolá agenciasse o que poderia ser "A Luta do Século". A Luta do Século para Todos os Séculos, Amém, entre o Falcão da Califórnia e o Urso da Sibéria, dois contendores que há tempos vêm aquecendo os músculos.
Mas, o ex-monge trumbicou-se na missão. E ninguém logrou assistir, por enquanto, a uma justa que - sejamos justos - só poderia terminar em nocaute. Nocaute generalizado: dos lutadores, dos segundos, do juiz e de todos nós, espectadores interessados ou não.

Mino,
Para evitar o nocaute use a saída de emergência. A arca de Noé não será "reeditada".

Publicado em "A Ferragista", de maio de 1981, e nas "Cartas do Povo", de 26 de maio de 1981

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ERA

... uma mulher tão ciumenta que obrigou o marido a dispensar a secretária eletrônica.
... um gajo (não confundir com gago) tão repetitivo que só presenteava a namorada com rosas rosas.
... um futurólogo tão desatualizado que só predizia fatos passados.
... um tipo tão expansivo que se regia pela Lei dos Gases.
... uma moça tão econômica que não usava perfume quando a "tchurma" estava gripada.
... um cidadão tão desastrado que vivia tropeçando no anjo da guarda.
... um polemista tão radical que tudo quanto escrevia começava a partir da tréplica.
... um cara tão saudosista que seu relógio só marcava outr'ora.
... um empresário com tantos títulos que mais um protestado nem fazia diferença.
... uma dona tão infiel, supercheio de amantes o seu guarda-roupas.
... um homenzinho tão feio que não dava trabalho ao maquiador para representar o Corcunda de Notre Dame.
... um milionário tão mesquinho que ao morrer deixou toda a sua fortuna para as obras misantrópicas.
... um sujeito tão bronco do qual se dizia: analfabeto de pai, mãe e ama-seca.

Publicado no Informativo A Ferragista n.º 86, de outubro de 1986

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O LAR SINGULAR DE JORGE GEORGE

No ano fiscal de 1972, Jorge George morou no Rio. Mais precisamente: Jorge George morou no elevador social de um edifício na Prado Júnior, nas proximidades do Beco da Fome. Um elevador espaçoso (aliás, sobejamente espaçoso se atentarmos para o fato de que não botavam forro de proteção em dia de mudança), com a capacidade máxima para oito pessoas e que contava com uma razoável assistência técnica. Jorge George sonhava ser cidadão de Copacabana e sucedia que, àquela freguesia, só havia aquele elevador cabível no orçamento. Era pegar ou... usar as escadas de um prédio. Ah, os bons tempos bicudos...
A princípio, Jorge George enfrentou a incompreensão dos moradores do edifício. Um deles, por sinal o mais iracundo, era Severino, do 403. Ele, mulher e filhos totalizavam oito "paraíbas", a capacidade máxima do elevador como já vimos; mas, com Jorge George dentro... Por isso, antes que alguém fosse ao fundo do poço, Jotagê, o nosso cuidoso Jorge George, se prontificou a sair do ascensor, sim, toda vez que a ponderável família Severino do utiliário precisasse. E se alguém mais falava contra sua permanência no elevador, sem tardamento Jotagê o punha cativo. Não com palavras, mas com atos. Como, por exemplo, o de pagar rigorosamente em dia a taxa de condomínio.
Vá lá que ele fosse considerado um habitante atípico de Copacabana. Mas... se existia "entonces" tanta gente vivendo na corda bamba por que, à vista disso, um que outro não podia morar num elevador? E, não preciso ir muito longe, em seu habitáculo Jorge George foi o precursor do palatável apartamento-cápsula, hoje moda no Japão. Também não me perguntem a razão da moda do apartamento-cápsula pegar justo no Japão, um país sem problema de espaço (tenho um mapa do Japão nos tempos do almirante Yamamoto que prova isto).
No diuturno sobe-e-desce do elevador, Jorge George presenciava todos os colóquios. Os que falavam na alta dos gêneros de primeira necessidade (DESCE), os que comentavam sobre a penúltima queda do cruzeiro (SOBE) - os papos de antanho, enfim, batidos sempre na tecla do otimismo. E ia conhecendo, pouco a pouco, a alma de cada inquilino do edifício, inserindo-se nesse hetero-conhecimento a do Sr. Poucafé, residente no 601. O reservado Sr. Poucafé, julgado pelas vezes em que pegou o elevador sobraçando melões, era, podia-se apostar neste juízo, um melômano incurável. Mas, diabos, quantas estórias ficavam com o desfecho ignorado - para Jotagê - pois, no melhor delas, o raio do elevador tinha chegado ao rés-do-chão.
Não esqueçamos, porém, as desvantagens do "lar-singu-lar" de Jorge George Bizarria. Uma delas, o diminuto espaço-tempo para suas privacidades. O que fez com que, certa ocasião, fosse flagrado com uma loura da boca pintada em coração que trabalhava com prendas da rua. Deu a maior "confa", o semostrador terminou nos braços da polícia, pois leguleio nesse mundo-de-meu-deus é que nunca faltou. Como circunstância atenuante Jotagê alegou não ter passado de 1/4 de ereção. Contudo, não se livrou de uma comprida temporada na prisão, cumprida (felizmente) num posto policial móvel.

Conto publicado em O POVO, de 27/05/84, 
e em A FERRAGISTA, de agosto de 1986.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

AS LÉRIAS ESTÃO DE VOLTA

O SOL É A TESE, A LUA, A ANTÍTESE
E o eclipse é a síntese.
DILUIR, DILUIR
Quando não se consegue apagar.
"DISGUSTING"
Conforme a quantidade de discursos um banquete pode ser maçante ou... massacrante.
QUEM AMA A TODOS
Gasta uma fortuna em motel.
DA ARTE DE CORRER COM A SELA
Cogito, ergo "sumo".
DESPERDÍCIO
É o próprio exemplo do esperdício.
QUANDO O CÂNCER FOR CEM POR CENTO CURÁVEL
Que bela metáfora teremos perdido!
ANTE UMA MULHER DE (MUITAS) CURVAS
Não há homem reto.
O INDIVÍDUO NÃO SE SUBMETA AO COLETIVO
Especialmente se tiver dinheiro para o táxi.
QUE FAZEM AS NAÇÕES BELICOSAS DURANTE A GUERRA FRIA?
Esquentam os músculos, ora ora.
DEUS?
O céu é seu recado azul.
DEUS!
A autoridade máxima em "faça-você-mesmo".
O DIA DE NÃO SE LER JORNAL
Terça-feira. Sai com material de segunda.
ECOS DE 30
Carmen Miranda com seu turbante de natureza morta.
DESENROLA-SE
Uma eterna luta: entre o Bem e a Indiferença.
PIANISTA DE "SALOON"
Executa rápido. Senão é executado, idem.
"LA NAVE VÀ..."
(Mas antes) deitar carga ao mar é preciso.
NO TERRENO DA HIPÓTESE
Eu só acampo. Nele tudo é provisório.
POETANDO A "TREIS" POR SEIS
Ah, esse tempo nublado provocando indecisão nos girassóis!...
O ESCOCÊS, QUEM DIRIA...
Cria-se agarrado à saia do pai.
SOLTARIA MEUS DEMÔNIOS, SIM
Se tivesse a certeza de que eles bem se haveriam por aí.
E A GUERRA ACABOU
Podemos em paz matar os feridos.