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sábado, 23 de fevereiro de 2013

CHICO E O ELEPÊ "VIDA"

MÚSICA
Para os cultores da boa música popular brasileira um acontecimento sempre esperado é o lançamento do disco anual de Chico Buarque. Trazendo o título de "Vida", nome também de uma das faixas, o seu último elepê, produzido pela Polygram (os vindouros deverão ser editados pela Ariola, com a qual Chico acaba de assinar contrato), já se encontra nas lojas e departamentos de discos.
Doze canções compõem o disco: "Vida" (inédita), "Mar e Lua" (gravada também por Simone), "Deixe a Menina (inédita), "Já `Passou" (inédita), "Bastidores" (gravada também por Cauby e Cristina, separadamente), "Qualquer Canção" (inédita), "Fantasia" (já gravada pelo conjunto MPB-4), "Eu te Amo" (inédita), "De Todas as Maneiras" (já gravada por Maria Bethânia), "Morena da Angola" (recentemente gravada por Clara Nunes), "Bye Bye, Brasil" (gravação anterior do próprio Chico em compacto) e "Não Sonho Mais" (sucesso recente na voz de Elba Ramalho).
Nestes registros fonográficos Chico esbanja cérebro e coração. É o letrista (desenvolto) de todas as faixas e também o musicista (inspirado) de quase todas; quase, porque ocorrem parcerias em "Eu te Amo" (com Tom Jobim) e "Bye bye, Brasil" (com Roberto Menescal).
Meus comentários sobre cada uma delas:
"Vida" - Da peça "Geni". Mostra o autor a se posicionar no plano existencial. No início, uma dúvida ("quem sabe eu fui feliz") que, entretanto, evolui até transmudar-se em certeza ("eu sei que fui feliz"). Um instante de comoção poética: "luz, quero luz / sei que além das cortinas / são palcos azuis".
"Mar e Lua" - Também da peça "Geni". Fala de um amor proibido entre duas mulheres em uma cidade distante do mar, que "levantavam as saias e se enluaravam de felicidade". Marcadas pela incompreensão humana, buscaram uma fuga suicida "correnteza abaixo" e, à maneira de um enredo mitológico", "foram virando peixes / virando conchas / virando seixos / virando areia / prateada areia / com lua cheia / e à beira mar". O renascimento simbólico delas, em uma cidade grande, quiçá menos repressora.
"Deixe a Menina" - Um samba melodicamente bem conduzido que lembra o Chico dos velhos tempos. Um conselho que fica: "por trás de um homem triste / há sempre uma mulher feliz / e atrás dessa mulher / mil homens sempre tão gentis". É bom dar-lhe ouvidos.
"Já Passou" - Uma canção no melhor estilo joão-gilbertiano. O autor veste a pele de alguém sentimentalmente ferido e, ao mesmo tempo, obsessionado em demonstrar que "já curou". Convence.
"Bastidores" - Música que vem impulsionando o reaparecimento artístico do cantor Cauby Peixoto. O cotidiano de desilusões, medos e hesitações de uma cantora de cabaré que, a despeito de tudo, ainda brilha em cena: "cantei, cantei / jamais cantei tão lindo assim / e os homens lá pedindo bis / bêbados e febris / a se rasgar por mim".
"Qualquer Canção" - Momento de lirismo do Chico. Uma melodia simples a conduzir uma letra, cuja preocupação maior é tocar o coração até de quem não ama.
"Fantasia" - Samba com a abertura à maneira de uma fantasia (em linguagem musical). Pode proceder daí o título da canção. Ou, então, do convite, imaginoso, para que a gente distraia "o erro do suplício ao som de uma canção". A palavra de ordem é mesmo cantar "noite e dia".
"Eu te Amo" - Chico vê(-se) um amante que perde a noção das horas, que não sabe como partir. "Nas travessuras das noites eternas" o amor é um desvario que parece chegar ao mundo não-anímico. Confiram neste terceto: "como se na desordem do armário embutido / meu paletó enlaça o teu vestido / e o meu sapato ainda pisa no teu". Jobim comparece ao piano (a música é dele), majestoso. Há também a participação vocal da cantora Telma.
"De Todas as Maneiras" - Uma espécie de balancete sentimental fechado com perdas. Depois "de todas as maneiras que há de amar", o amante que (in)tenta desvencilhar-se ("larga a minha mão / solta as unhas do meu coração") daquela que, até então, fora a pessoa amada. Simplesmente, por não se conter a um apelo de fora "quando chega o verão".
"Morena de Angola" - Composta por Chico em terras angolanas. Uma letra de ambientação "afro", com o emprego calculado das palavras (chocalho, canela, cochicho, cacho, remelexo etc.), uma estocada ideológica, quando o autor diz: "morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA", e um ritmo assaz envolvente.
"Bye Bye, Brasil" - Do filme de mesmo nome, trazendo de volta um Menescal velho (o que quer dizer novo) de bossa. É, ao lado de "Eu te Amo", a música de maior riqueza harmônica do LP. Vem, entretanto, com um arranjo mais "fechado" do que o da gravação original, em compacto simples. Aqui, bauxita e fliperama, Parintintins e e calça Lee, caminhão e patins, toró e Rua do Sol - Maceió formam os contrastes de um Brasil antropofágico. Desse entrechocar de culturas ainda é possível se esperar que, "com a bênção do Nosso Senhor / o sol nunca mais vai se pôr". Apesar de tudo.
"Não Sonho Mais" - Do filme "República dos Assassinos". Fala de "um sonho medonho / desses que, às vezes, a gente sonha /e baba na fronha / e se urina toda e quer sufocar". Ora, um sonho medonho não pode ser descrito em termos brandos e Chico vai a fundo no antilirismo. É um baião estilizado.
Ainda umas considerações finais. Sobre o Chico-intérprete: ele está mais agradável, mais solto em sua voz pequena. Sobre o amigo Francis: ele também deve ser lembrado pelos arranjos e regência deste bem elaborado disco.
Por tudo que vi e ouvi, recomendo.
1º. de fevereiro de 1981

sábado, 3 de novembro de 2012

COMO VENCER NA MPB

(SEM FAZER FALSETE)
A finalidade deste artigo é fornecer subsídios ao leitor que pretende se tornar um compositor de Música Popular Brasileira.
Inicialmente, refuto aquela ideia estereotipada de que basta o aprendiz de compositor dedilhar o seu violão, numa mesa de bar, para que uma inédita canção apareça tão rapidamente quanto um prato de batatas fritas. A inspiração, caro leitor, seja poética ou musical, poucas vezes tem essa espontaneidade e, na maioria das situações, é um pão - pão do espírito - feito com muito suor do rosto do artista.
Entretanto, dizer que a MPB - assim carinhosamente chamada - seja alguma coisa esotérica, eu não intenciono. A prova é que trago a lume o segredo de algumas técnicas que, caso sejam adotadas pelo leitor, poderão levá-lo a acrescentar novíssimas páginas musicais no Livro de Ouro da Música Popular Brasileira. São métodos de composição, verdadeiros macetes de eficácia comprovada desde a Era Donga.
MÉTODO PESO-PESADO - Deu certo com o Kid Pepe, um boxeador aplicado, que se imortalizou com "O Orvalho Vem Caindo". Noel Rosa, cujo queixos não era de suportar socos, logo no primeiro round lhe deu a parceria desta música. Se o leitor é forte como um rinoceronte ou domina as artes marciais é este o método mais indicado.
MÉTODO CAÇA AO PASSARINHO - Consiste em adotar uma canção feita por quem não apresenta o preparo suficiente para a paternidade. Caso advenham pruridos de natureza ética pela rapinagem lembre-se de que "samba é como passarinho, é de quem pegar primeiro".
MÉTODO CONSTRUIR JUNTOS - Somente é exequível entre dois indivíduos que sejam amigos do peito, irmãos e camaradas. É como o casamento em regime de comunhão de bens: o que um fizer é do outro e vice-versa.
MÉTODO RATO-DE-GAVETA - Um exemplo típico aconteceu a Pixinguinha, que possuía uma música - sem letra - pegando ranço nas gavetas. Quando apareceu o Braguinha todo "Carinhoso"... Desaconselho o método para quem for asmático.
MÉTODO CORRIDA DO OURO - Consiste em explorar o rico filão do folclore nacional. Mas, como ele não é tão inesgotável assim, vai chegar o dia em que só o Câmara Cascudo conseguirá compor alguma coisa no gênero.
MÉTODO MÁQUINA DO TEMPO - O leitor pega nuns versos de um poeta que já bateu as botinas e leva o declamatório da boca ao gogó. Para prevenir contratempos, verificar se o falecido poeta, além das redondilhas, deixou herdeiros atentos.
MÉTODO BIÔNICO - É tipo assim: o leitor escolhe algo da Dolores Duran, música e letra dessa autora. Aí, aplica uma nova música na letra existente. Depois, cria uma nova letra para esquecer o passado. E serve, de preferência, com um arranjo bem modernoso.
MÉTODO BOI-DA-PIRANHA - Já ouviu dizer do boiadeiro que, para atravessar com o rebanho um rio infestado de piranhas, sacrifica um dos seus bois? O Chico Buarque que o diga. Nas vezes em que ele, para atravessar com alguma letra as turvas águas da Censura, precisou sacrificar todo um rebanho de letras alternativas nos dentes cortantes dos censores. É um método que só funciona em pessoa Geni(al).
MÉTODO CHARANGA - Se o leitor até aqui não conseguiu se arranjar com um dos métodos já descritos, a opção que resta é compor hinos para times de futebol, pois isto até o Pedro Bó faz. Como no futebol, os hinos de clubes têm também suas regras e palavras tais como: glória, campeão, vitória, tradição, luta, coração etc. são de emprego compulsório.
Domingo, 1º. de junho de 1980
N.B.
Este texto foi lido em uma reunião do Grupo Siriará de Literatura, estando presente o escritor Moreira Campos.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

TRÊS NUGAS LINGUÍSTICAS

HÉLIO MELO

Há migalhices vernaculares que, às vezes, nos preocupam. Coisas de nonada que parecem sem importância. Mas, para quem deseja escrever com correção, nada é despiciente em matéria de português. Nas peças de ourivesaria, as filigranas têm papel de relevância. Assim, as minúcias linguísticas ocupam também posição de relevo no estudo da Língua. Não as podemos desprezar.
O médico Paulo Gurgel Carlos da Silva, ao presentar-me com o livro - "A Nova Literatura Brasileira", 1984, publicado pela Gráfica Portinho Cavalcanti Ltda. (Rio de Janeiro), que traz, nas páginas 100-101, seu trabalho "Inventando Coisas", enviou-me três questões de português sobre as quais pede meu modesto pronunciamento. Ei-las: "1) Que que estás fazendo?" - Na frase acima, temos: "que" interrogativo - "é" (verbo ser, oculto) - "que" relativo, originando a duplicação de "que" tão a gosto da linguagem popular. Que (que) o senhor acha? 2) "O que é um materialista?" Júlio Ribeiro, em sua célebre polêmica com o padre Sena Freitas, construtor da fase supra, acusou este de errar vergonhosamente em sintaxe. Para Júlio Ribeiro (também para Carlos Laet, contemporâneo dele) seria "corruptela vitanda" usar o "o" expletivo, antes de "que" interrogativo. O impecável autor de "A Carne" tinha (ainda a tem?) razão. 3) "... e amarga que nem jiló." A expressão "que nem", significando "como" 'igual a" (V. letra de H. Teixeira, em baião de L. Gonzaga), está bem com o povo mas não com os gramáticos. Por que tal ocorre? Pela atenção dispensada, grato Paulo Gurgel. Vejamos os três casos.
Quanto à frase - "Que que estás fazendo?" é o primeiro 'que" um pronome interrogativo, e o segundo, uma partícula de realce, a exemplo de tantas outras como: Que que há de novo? Que que significa isso? Oxalá que isso aconteça! Chegou a correspondência. Que não venham más notícias (= oxalá). Diga-me quem é que vai transmitir a notícia. Eu é que hei de ir? Ela é que vai sofrer. "Que é que me pode acontecer?" (Machado de Assis, "O Lapso", in "Histórias Sem Data", pág. 27). "Oh! que saudades que eu tenho da aurora da minha vida" (Casimiro de Abreu). As partículas expletivas são palavras sem dúvida desnecessárias ao sentido da frase, todavia lhe dão vigor e sobretudo graça, como vimos no último exemplo de autoria de Casimiro de Abreu. Pode-se também considerar o segundo "que" um pronome relativo, como o fez o meu consulente. A frase seria assim compreendida: "Que coisa é a qual estás fazendo?"
Na frase - "O que é um materialista?", creio que é dispensável o emprego do artigo "o". No "Dicionário de Questões Vernáculas" (Editora Caminho Suave Limitada, pág. 213), faz o o professor Napoleão Mendes de Almeida o seguinte registro: "O que - Embora comum no linguajar do povo e, mais ainda, encontrada em escritores, a forma "o que" como pronome interrogativo a iniciar oração interrogativa não é sintaticamente legítima porque o "o" nenhuma função fica exercendo na oração".
Também o espanhol luta com o popular interrogativo "el que". Somente quando posposto ao verbo é que o interrogativo admite o "o", necessário exclusivamente para efeito eufônico: "Fez ele o quê?" - "Mandou o quê?"
Iniciando oração interrogativa, o "que" mais castiçamente deverá ser desacompanhado do "o", porque neste caso é sintática e eufonicamente inútil: "Que quer você?" - "Que há?" - "Quê?".
Na verdade, deve-se omitir o artigo definido, antes do pronome conjuntivo "que", quando empregado interrogativamente. Nem por isso deixaram de empregá-lo autores clássicos e modernos: "O que faremos?" (Garrett, "D. Branca") - "O que são as revoluções políticas de nosso tempo?" (Herculano, "Opúsculos") - "O que é lá isso?" (Castilho, "Avarento") - "O que tem ele?" (Camilo, "Romance de um rapaz pobre") - "... e o que eram as estrelas? acaso sabiam eles o que eram as estrelas?" (Machado de Assis, "Ex Cathedra", in "Histórias Sem Data", pág. 267).
É comum o emprego de "o que" equivalente a "isto": "O resultado não foi bom, o que me surpreendeu."
Finalmente, a última indagação: "... e amarga que nem jiló". A locução conjuntiva "que nem" teve uso no português antigo, no sentido de "como". Hoje, os gramáticos a consideram forma arcaica. As gramáticas trazem o conhecido exemplo de Rebelo da Silva, com a significação de "como": "O erudito ficou vermelho que nem uma romã". Tenho-a ouvido frequentemente nos sertões cearenses, na linguagem inculta dos nossos matutos.

Publicado no Jornal "O Povo" em ??/08/1985

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O LAR SINGULAR DE JORGE GEORGE

No ano fiscal de 1972, Jorge George morou no Rio. Mais precisamente: Jorge George morou no elevador social de um edifício na Prado Júnior, nas proximidades do Beco da Fome. Um elevador espaçoso (aliás, sobejamente espaçoso se atentarmos para o fato de que não botavam forro de proteção em dia de mudança), com a capacidade máxima para oito pessoas e que contava com uma razoável assistência técnica. Jorge George sonhava ser cidadão de Copacabana e sucedia que, àquela freguesia, só havia aquele elevador cabível no orçamento. Era pegar ou... usar as escadas de um prédio. Ah, os bons tempos bicudos...
A princípio, Jorge George enfrentou a incompreensão dos moradores do edifício. Um deles, por sinal o mais iracundo, era Severino, do 403. Ele, mulher e filhos totalizavam oito "paraíbas", a capacidade máxima do elevador como já vimos; mas, com Jorge George dentro... Por isso, antes que alguém fosse ao fundo do poço, Jotagê, o nosso cuidoso Jorge George, se prontificou a sair do ascensor, sim, toda vez que a ponderável família Severino do utiliário precisasse. E se alguém mais falava contra sua permanência no elevador, sem tardamento Jotagê o punha cativo. Não com palavras, mas com atos. Como, por exemplo, o de pagar rigorosamente em dia a taxa de condomínio.
Vá lá que ele fosse considerado um habitante atípico de Copacabana. Mas... se existia "entonces" tanta gente vivendo na corda bamba por que, à vista disso, um que outro não podia morar num elevador? E, não preciso ir muito longe, em seu habitáculo Jorge George foi o precursor do palatável apartamento-cápsula, hoje moda no Japão. Também não me perguntem a razão da moda do apartamento-cápsula pegar justo no Japão, um país sem problema de espaço (tenho um mapa do Japão nos tempos do almirante Yamamoto que prova isto).
No diuturno sobe-e-desce do elevador, Jorge George presenciava todos os colóquios. Os que falavam na alta dos gêneros de primeira necessidade (DESCE), os que comentavam sobre a penúltima queda do cruzeiro (SOBE) - os papos de antanho, enfim, batidos sempre na tecla do otimismo. E ia conhecendo, pouco a pouco, a alma de cada inquilino do edifício, inserindo-se nesse hetero-conhecimento a do Sr. Poucafé, residente no 601. O reservado Sr. Poucafé, julgado pelas vezes em que pegou o elevador sobraçando melões, era, podia-se apostar neste juízo, um melômano incurável. Mas, diabos, quantas estórias ficavam com o desfecho ignorado - para Jotagê - pois, no melhor delas, o raio do elevador tinha chegado ao rés-do-chão.
Não esqueçamos, porém, as desvantagens do "lar-singu-lar" de Jorge George Bizarria. Uma delas, o diminuto espaço-tempo para suas privacidades. O que fez com que, certa ocasião, fosse flagrado com uma loura da boca pintada em coração que trabalhava com prendas da rua. Deu a maior "confa", o semostrador terminou nos braços da polícia, pois leguleio nesse mundo-de-meu-deus é que nunca faltou. Como circunstância atenuante Jotagê alegou não ter passado de 1/4 de ereção. Contudo, não se livrou de uma comprida temporada na prisão, cumprida (felizmente) num posto policial móvel.

Conto publicado em O POVO, de 27/05/84, 
e em A FERRAGISTA, de agosto de 1986.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O TAL HORÁRIO DE VERÃO

Chegou outra vez o famigerado horário de verão. A gente que o julgava abandonado e inerte, vai, descobre que ele estava apenas hibernando em Brasília. E que, aos primeiros calores do verão, o tal horário ressurge para atazanar a vida da gente. Lembrando Fênix, mas com uma diferença: é o verão (bem, pode ser também um veranico) que o faz ressuscitar. E, obrado isso, tome ele a encher o saco do brasileiro! Eita malfadado horário!... Ainda bem que, daqui a alguns meses, você bate asas e vai embora.
Vai ser cinzas outra vez, numa gaveta qualquer lá em Brasília... Quando a gente, é uma lástima, já começa a se acostumar com você (Masoch explica).
A rigor, para fazer jus ao nome que tem, o horário de verão só deveria começar no dia 21 de dezembro (quando ocorre o solstício no hemisfério sul). E não no dia 15 deste mês, como estabelece o decreto assinado pelo presidente da República. No entanto, para exercer o seu poder temporal - com a carga de malefícios a que tem direito - o tal horário até chega mais cedo! Talvez... para não perder a má companhia do horário do TSE, o qual já está a nos cacetear pela televisão.
Ora, já temos um sistema de registrar o tempo que é uma mixórdia. Dos babilônios herdamos a hora de 60 minutos; dos egípcios, o dia de 24 horas; dos hebreus, a semana de 7 dias. Quanto aos meses, eles nos foram legados pelos gregos, através dos romanos, com estes últimos ampliando a confusão. Pois Júlio César e seu sucessor, imperador Augusto, em medidas de autolatria, rebatizaram dois meses do ano com os nomes de "julho" e "agosto". Além de cada um deles a fevereiro roubar um dia, a fim de fazer - por uma questão de prestígio - o "seu" mês ter 31 dias.
E o pobre do fevereiro, sem patrono, ficou reduzido a 28 dias (29, nos anos bissextos). Sei não, mas esse negócio de mexer no tempo um dia ainda pode acabar mal. Temos um relógio biológico ultrassensível que o horário de verão, em seu mandonismo deslavado, teima em ignorar. Pouco se dando ao segundo o primeiro ficar que nem um dos "relógios derretidos" do pintor Salvador Dalí. E, como uma decorrência disso, o dono do relógio (biológico) ficar menos coruja e mais cotovia.
Imagino-me, toda manhã, eu querendo sair da cama com o corpo argumentando: "No seu horário ou no meu?". Um puto dilema, não é?! Se respeito o horário oficial, ponho-me fora da cama a tempo de chegar ao trabalho com pontualidade. Não o obedecendo - a outra hipótese - aí ganho uma hora adicional no tálamo, justamente quando o "eretismo" está tinindo... Ah, minhas senhoras, além de atrabiliário não é que o maldito do horário é contra o amor! Não se sabendo o que faz mais estragos nesse campo, se ele ou se a televisão na noite anterior.
O duro é suportar todos os transtornos do tal horário para, no fim das contas, medir o resultado que se obtém. A julgar pelo que aconteceu na vez passada, quando o Nordeste economizou... 0,4 por cento de energia elétrica. Uma economia de palito! O caso até de se praticar a desobediência civil, por meio de umas quantas lâmpadas acesas... Se isso, voltando-se contra o protestador, não lhe aumentasse a conta da luz. Pois é, sorte tem o Norte (onde anda Sting?) que o decreto, em sua versão 89, poupa do vexame. Beneficiado pelo fuso? Ora, alguém está con... fuso.
E o Apocalipse que ninguém sabe quando vai ser? Só tomara que ele, se tiver em breve de começar, não vá se basear no tal horário de verão. Porque aí a gente terá perdido uma hora de vida, bestamente.

DN CARTAS, 19/10/89
O POVO, 21/10/89

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

CONTINENTE À DERIVA

Relatório da NASA, recém-divulgado, (1) dá suporte à teoria da deriva dos continentes, segundo a qual essas extensões de terra (que flutuam sobre o magma em estado de fusão) estariam lentamente se deslocando. Descobriram os cientistas que o continente americano vem se afastando da Europa e da África e que, como consequência disso, o Oceano Atlântico se alarga 1,8 centímetros, anualmente.
Quem primeiro formulou a teoria, recebida com risível visível descrença pela comunidade científica, foi o sábio alemão Alfred Wegener. E, por muitos anos, a teoria wegeneriana das placas tectônicas (ou das placas teutônicas, em consideração à nacionalidade do sábio) não passou disto: teoria; mas, em face das recentes medições efetuadas pela NASA, pode-se afirmar, já: a ideia de Wegener emplacou.
Nessa altura, Monroe - o que restou dele - deve estar dando inhos pulos em seu mausoléu. Sua doutrina política - a América para os americanos - recebe, enfim, o aval da geodinâmica. Mas... aumenta o fosso entre o Velho e o Novo Continentes, alguém contradirá. Fossilismo. Como se o Oceano Atlântico, incontinênti, não cobrisse o fosso com águas tomadas de empréstimo ao mar do Japão.
Comprovada a teoria, interessa, agora, cogitar que mudanças acontecerão no século-a-século do continente vespuciano.
Nos Estados Unidos, para entabular conversa. Neste país haverá protesto da influente comunidade judaica. Esconjurarão a nova diáspora. Mas será a vez dos fóbicos (aproveitem, aproveitem), já que os aviões comerciais farão a rota Los Angeles - Honolulu apenas taxiando. Quando? Na era pós-Reagan (que tem o valor de um Cibazol para o dito-cujo).
Já no México, na esteira de uma interpretação errônea do boletim da NASA, se bem que por curto tempo, haverá uma grande euforia (descabida, saberão depois). "Enfim safamo-nos do tacão norte-americano!". Mas qual! O continente se move como um todo. E no México continuará tudo como dantes: "tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos". (2)
Quanto ao Canadá é um caso à partilha. Seis milhões de franco-canadenses, ao frigir dos ovos, tentarão fundar o chez-Canadá. Pé não dará. Uma saída à francesa não funciona bem quando é para inglês ver.
Desçamos à porção sul do continente vespuciano.A Colômbia será uma só torcida organizada. Pelo desgarro  da América do Sul de sua xará Central. Com um pouco de sorte - clivando-se o continente no istmo panamenho - poderá reaver alguma parte do Panamá que outrora foi seu. Não vejo bem a Argentina na bola de cristal. Mas poderá, se houver general bêbado na Casa Rosada, ir à tréplica nas Falkinas. Com a coragem adquirida na distância - que aumentará - com relação à Grâ-Bretanha. Porém, não esqueçam os hermanitos que "a história é uma velhota que se repete".
E o que acontecerá ao Brasil? Com este país que, no concerto entre as nações, é o décimo violino?
Primeiro, nossas casas se moverão um inho pouco; os cartório de imóveis, idem; e o BNH, idem com impertinência. Segundo, adotaremos nas relações exteriores o magmatismo (de magma) irresponsável, que é mais condizente com a nossa índole. Terceiro, será ampliado o mar territorial brasileiro, mas isto em decreto ultra-reservado para que a Bolívia e o Paraguai não ponham mau-olhado. E, quarto, sentiremos enjoos irrefreáveis e crescentes. Serão enjoos de terra móvel. Quando do futuro clímax, o Excelentíssimo Sr. Andremaluf, o Vomífico, o Presidente Indireto da República, (3) comparecerá na televisão em cadeia (epa!) para mais um... blá-blá-blá.
E haja Brasil! (4)

(1) Obviamente antes de 17/06/84, a data em que este crônica foi publicada no jornal "O Povo".
(2) Esta frase é genuinamente mexicana.
(3) Errei nesta previsão.
(4) No original era: E haja Plasil! A frase foi alterada por José Raimundo Costa, editor do jornal na época da publicação.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

ARMA QUENTE - 2

"Não, John, a felicidade não é uma arma quente."

O facínora encostou o (ainda) frio cano do revólver em meu peito e disse:
- Sabia que vai morrer?!
Chamo-me Bernardo. O que, quando bem entendo, me dá o direito de cometer alguma bernardice.
- Vou, é? Quando?
- Agora mesmo. Não está vendo o "berro" aqui?! O Honorato me mandou...
- "Peraí"... O Honorato é meu amigo!
- Não morra iludido, cara. Ele me pagou - e bem - para que eu despachasse você.
- Quanto?
- Não está querendo dobrar a grana, está? A fim de trocar de lugar com ele...
- Não, o Honorato não vale o dobro de mim.
E não vale mesmo. Nos últimos tempos, minhas dívidas não estavam sendo pagas, outras tantas vinham sendo contraídas, e... sabem por quê? O Honorato.... ele, como avalista, não honrava essas dívidas.
Agora, eis que me mandava um celerado de funestas intenções. Com os olhos injetados de quem à noite não dormira, só para me tocaiar. E que estava ali a me ameaçar. Ou será que, para ficar ainda mais ameaçador, ele pingara nos olhos colírio de groselha? Bem, perguntar é que eu não ia, pois estava em plena defensiva. E cabia-me, até onde o auto-controle funcionasse, ser polido em toda a conversação.
- Ora, o Honorato não precisava...
- De quê, cara?
- Ser tão preocupado comigo. Empreste-me o revólver que eu sei morrer por minhas próprias forças...
- Espertinho.
- Ou por falta delas... de morte natural.
- Demora muito. E o que eu acertei com o Honorato foi morte matada.
Pensei numa opção para a sobrevivência que não ficasse apenas na argumentação. Alguém já me dissera que os meliantes costumam usar balas imprestáveis. Dificuldades em obtê-las de fontes idôneas e que, por conta disso, suas armas de fogo muitas vezes "quebram o catolé". Há inclusive toda uma estatística em favor de quem está prestes a ser vítima, desde que não esta não esqueça as palavras mágicas:
- Pernas para que vos quero!
Exatamente o que cumpri à risca. Enquanto o celerado, naquele afã de mostrar serviço, pôs-se a descarregar o revólver.Com quatro tiros bem na mosca, isto é, em mim.
Alvejou-me no ventrículo esquerdo, na crossa da aorta, no tronco da coronária e, por último, no cabo do meu marca-passo cardíaco, desconectando-o.
Como vêem, nenhum dos tiros atingiu-me algo que fosse vital. De sorte que, se ele me matou, não fez o serviço bem feito.

P.S.: Caso o facínora venha a ser preso e, por um desses equívocos da Justiça, aconteça de ser condenado eu já deixo instrução a respeito. Com o meu advogado - que também se chama Bernardo - para imediatamente apelar.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

MOSCA NA SOPA

Comecemos por aquilo que contém a mosca, isto é, a sopa. A qual já se encontra bem na sua frente, servida em prato fundo. Apenas aguardando que você - com a fome dos diabos em que se acha - meta logo a colher. Hum... tem cheiro agradável, parece apetitosa e há tentadores pãezinhos na mesa para o acompanhamento. Comme il faut, diria o cronista mundano. E assim poderemos saltar a etapa em que você teria gritado:
- Garçom, o meu prato está molhado.
E ele:
- É a sopa.
Sim , você já se encontra depois do equívoco em questão. Quando já está prestes a sorver a primeira colherada de uma refeição que consagrou o Zarur. Mas aí... de um modo absolutamente frustante, você constata: uma mosca na sopa! Uma hórrida mosca que só Deus sabe dos monturos e de outros locais abjetos por onde andara (o inseto, bem entendido). Até que, num adejo não bem calculado, acabou sendo - como disse o Raulzito - a mosca que pousou na sua sopa. Nojo, asco, repulsa... Pensar que você jamais entra num frege-moscas, que só vai a restaurante limpo, bem administrado e com chêf (a quem manda recomendações ao se retirar satisfeito).
Então, diante do desagradável incidente, agora é chamar o...
- Garçom.
Mesmo sabendo que ele, para enfrentar uma situação dessas, dispõe de mais justificativas do que imagina a nossa vâ gastronomia.
Primeiro, ele pode querer negar o fato (apesar de que o fato está claro, óbvio, patente).
- Não é mosca, é o desenho do prato.
- Mas... como? Está se mexendo!...
- É desenho animado.
Segundo, ao invés de negar o fato, ele pode querer minimizá-lo dizendo que é apenas um mosquito... Rá, rá, rá, rá, aquela falsa premissa de que é somente um elefante que engasga o cliente. Terceiro, ele pode - mesmo que fique de ponta-cabeça a ordem natural das coisas - querer alegar que a mosca é que deu sopa. Quarto, pode o manhoso do garçom querer sopitar (epa!) você, com palavras do tipo "calma, mosca não come muito!" E por aí...
Agora, se ele é um cara verdadeiramente esperto, passado na casca do alho como se diz, é que o incidente vira... uma sopa no mel. Pois o garçom, a propósito de que o acontecido também promove a casa, eis que o dito-cujo certamente dirá:
- Ora, mosca também gosta do que é bem feito.
Vamos e venhamos: você não é mosca morta, mas o homem também não é sopa!
Dá para ver que ele faz um tipo imbatível na argumentação. Capaz de, entre outras proezas, pegar mosca a vinagre.
Por isso, o importante é você não perder o fair-play:
- Garçom, a mosca acaba de morrer afogada na sopa. Traga outra.
Que pode ser outra sopa, outra mosca... Ou, inevitavelmente, uma com a outra.

Publicada no jornal O POVO, em 07/09/90, e no livro EFEITOS COLATERAIS

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O BRASILEIRO CORDIAL

Dizer que o brasileiro é cordial é incorrer num mito. Para início de conversa, ele não tem consideração com o próprio corpo. E só porque um dia lhe cortaram o cordão umbilical, ele então acha que pode fazer tudo. Pôr o dedo na ferida, torcer o nariz, bater perna na rua, sacudir as cadeiras, emprenhar pelo ouvidos, dar a mão à palmatória, queimar os miolos, as pestanas etc. Inclusive fazer corpo mole.
Atire a primeira pedra quem ainda não levou uma facada do brasileiro! Ou, por causa dele, não haja se metido numa fogueira, segurado um rabo de foguete.... Sobre ter o calo pisado, idem. É, os outros que o digam. Pois o brasileiro, além de assassinar o Português, de gastar o Latim, vive arranhando o Inglês, o Francês...
(O demônio não é tão feio, mas quem o pintou, hein?)
O desprezo que ele tem pela ecologia! Do contrário, ele não amolaria o boi, não afogaria o ganso, não cutucaria a onça com a vara curta, não deixaria a vaca ir para o brejo... Ah, o "não matarás" não é para o brasileiro, que vive matando cachorro a grito. E a cobra (que ele mata para mostrar o pau) e os coelhos (que ele mata com uma só cajadada) sabem disso perfeitamente. Como os sapos que ele também engole. É pouco? Pois o brasileiro dito cordial ainda gosta de dar no couro e ficar por cima da carne seca.
Que vexador o brasileiro! Tenha vida ou não, um ser não existe para virar gato e sapato. E tirar o cavalo da chuva até que melhora a imagem do brasileiro. Porém, ao dar com os burros n'água, ele volta a danificá-la.
Vamos ver, agora, se a flora lhe consegue escapar. Bem, descascando o abacaxi, confundindo alhos com bugalhos, torcendo o pepino (de pequenino, meu Deus!), o brasileiro prova que não.
Para ser exato, nem as coisas inanimadas escapam à sanha do brasileiro cordial. Senão, vejamos:
Quem bate na madeira, malha em ferro frio, entorna o caldo e não deixa pedra sobre pedra? Quem rói a corda, morde a isca, põe água na fervura e arrebenta a boca do balão? Quem joga dinheiro pela janela, combate moinhos de ventos e queima os últimos cartuchos? O brasileiro, evidentemente. Que, achando pouco, ainda dá uma no cravo e outra na ferradura, atira no que vê e acerta no que não vê.
E existe mais o que dizer sobre o brasileiro. Que mata o tempo, a fome, a sede, sufoca a emoção, abate os juros, suja a barra, fura o combinado, engole as indiretas, esconde o jogo e torce o sentido das palavras: é muito cordialismo... faltando.
Ah, sim. Como se não bastasse tudo o que faz, o brasileiro de modo sistemático enforca a sexta-feira.

Crônica publicada em VIDA E ARTE, de O POVO, e no livro EFEITOS COLATERAIS

domingo, 30 de dezembro de 2007

DIÁLOGO DE MALUQUETES, Nº. 1

ELA - Lembra como nos conhecemos?
ELE - Lembro. Foi numa churrascaria...
ELA - Numa churrascaria de subúrbio que tinha roda de samba.
ELE - Você, hein?... Toda esfuziante, balançando as cadeiras...
ELA - Com isso chamei sua atenção, não foi?
ELE - Prestei mais atenção ao seguimento. Quando você... passou a balançar a mesa.
ELA - Depois, parece que houve um bilhetinho seu.
ELE - Um bilhete que não chegou até você. Culpa do garçom.
ELA - O Hermes como mensageiro é das arábias.
ELE - De pra lá de Marrakesh. O homem transforma bilhete em ordem de serviço. No caso, um prato de batatas fritas para a mesa 26.
ELA - Criou algum caso, por isso?
ELE - No caso: não!
ELA - Ainda bem. Pois o Hermes como garçom até que passa...
ELE - Ao largo.
ELA - Naquela noite, o pobre do Hermes atendia sozinho...
ELE - E com o pé preso num engradado de cerveja, eu vi bem. Mas, diabos, por que ele não se soltava? Só assim ele podia ir num pé e voltar no outro.
ELA - Você sempre busca um pé. Agora, voltando a mim...
ELE - À vaca fria.
ELA - Se... e quando estão me paquerando, eu aplico os cinco sentidos, o sexto...
ELE - O bissexto.
ELA - Também. Mas com o bissexto sentido você se impacientou. Aí, decidiu jogar baixo.
ELE - Eu joguei baixo?
ELA - Aquelas boleadeiras... em minhas pernas.
ELE - Uma rês desgarrada.
ELA - Eu nunca fui uma rês desgarrada, "seu" gaúcho-de-imitação. Vinha voltando - felizmente, voltando - do toalete.
ELE - Desvencilhou-se das boleadeiras com a minha ajuda, reconheça.
ELA - "Seu" "brutamente"!
ELE - "Os fins justificam os meios" - truquei.
ELA - "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" - retruquei.
ELE - Ei! Tínhamos, então, algo em comum.
ELA - Sim. Éramos leitores de "O Pequeno Príncipe", de Maquiavel e...
ELE - Saint-Ex.
ELA - Perguntei seu signo.
ELE - Capricórnio.
ELA - Perguntei sabendo. Capricorniano quando não é na marra, é na marrada.
ELE - Depois, batemos aquele papo noite adentro. Com o passar das horas, minha imagem foi melhorando...
ELA - É. Melhorou.
ELE - Expliquei-lhe que, vez por outra, tenho defeito no botão de vertical.
ELA - O defeito, a meu ver, é no botão de saturação.
ELE - E... naquela noite, que mais seu "defeitômetro" encontrou "ni mim"?
ELA - Alcoolismo em alto grau.
ELE - Como assim? Bebo assim?
ELA - Não largava a garrafa um instante.
ELE - Nem podia. Era a garrafa da drenagem pleural.
ELA - Desfeitos os equívocos...
ELE - Aparadas as arestas...
ELA - Acertamos que nos encontraríamos, novamente. No tempo do caju.
ELE - No tempo do caju em ponto, mas você faltou.
ELA - Qual é, cara?! Você também não compareceu.
ELE - Calculei que quando eu fosse aos cajus, você já teria vindo das castanhas.
ELA - Eu, idem. Não é gozado?
ELE - Mas... veja. De novo, eles estão de vez...
ELA - Sim. E que bom que você fosse...
ELE - Eu...
ELA - De vez, cara!