domingo, 31 de agosto de 2008

OTÁVIO BONFIM - SOB O OLHAR DE UMA FAMÍLIA

Para a entrada em cena da família Gurgel Carlos, podemos considerar o ano de 1946. Quando o jovem Luiz, da família Carlos da Silva, que havia recém-fundado o seu Instituto Padre Anchieta, no bairro Otávio Bonfim, e a sua aluna Elda, uma prendada moça da família Gurgel Coelho, que já morava nesse bairro de Fortaleza, foram ambos atingidos pelas setas de Cupido. Daí advindo que, no ano seguinte, o casal contraísse núpcias e fosse fixar residência na rua Justiniano de Serpa, onde já funcionava o citado instituto educacional.
Dos treze filhos gerados pelo casal, os nove primeiros receberam as boas-vindas neste modesto imóvel de dupla finalidade; os quatro últimos, numa casa (enfim) própria, para onde a família se mudou em 1958, situada na rua Domingos Olímpio, nas proximidades da estação ferroviária do bairro. Só muito adiante, em 1996, com vários de seus integrantes já casados e/ou residindo em outros bairros e em outras cidades, foi que o núcleo da família se transferiu de Otávio Bonfim.
Feitas as contas, conclui-se que o bairro Otávio Bonfim e a família Gurgel Carlos mantiveram um consórcio que durou meio século. Com Dores e Amores de permeio. E de que restaram muitas e muitas reminiscências, aqui reavivadas e transformadas em livro por Marcelo, da família Gurgel Carlos. No qual nossos ascendentes, os vizinhos e amigos, os tipos pitorescos da época e nós mesmos somos os seus personagens reais; no contexto de um bairro chamado (não oficialmente) de Otávio Bonfim com seus logradouros, suas moradias, sua igreja (com os franciscanos frades de origem alemã) e sua estação ferroviária.
Baseado em fatos vivenciados e levantados (porém, cuidadosamente conferidos) por Marcelo, que escreve em estilo claro e apurado, o livro é um repositório de informações sobre o bairro e sobre a nossa família. A se juntar – com destaque – a outros títulos, como “Anos Dourados em Otávio Bonfim...”, de Vicente Moraes, “Frei Lauro Schwarte...”, de Marcelo Gurgel, “Dos canaviais aos tribunais...”, organizado por Marcelo e Márcia Gurgel (sobre a vida de nosso pai), entre as obras que privilegiam, do ponto de vista historiográfico, o bairro Otávio Bonfim e a família Gurgel Carlos.

Escrito por mim para orelha do livro "Otávio Bonfim, das Dores e dos Amores - Sob o olhar de uma família", de Marcelo Gurgel. Texto também publicado no blog "Linha do Tempo".

sábado, 30 de agosto de 2008

NOSSOS MOMENTOS

O médico psiquiatra Wellington Alves de Souza, natural do Crato - CE, publicou em 1988 o livro de poesia "Nossos Momentos". Com esta obra, Wellington completou uma trilogia que havia iniciado em 1981, com "Momento de Tempo", e continuado em 1984, com "Outros Momentos".
Nas três obras, a presença da palavra momento(s)! Por ser a poesia, como lembrou o contista Moreira Campos na apresentação do livro, "um instante, um momento, uma centelha, uma visita". E que, por isso, como também complementou, ela (a poesia) "será sempre realizada num íntimo compromisso ou preocupação com o eterno".
Em "Nossos Momentos", a convite de Wellington escrevi uma das abas do livro. É o texto que acabo de inserir no Preblog. E a médica e poeta Aline de Moraes fez o texto da outra aba. Nas útimas páginas do livro, Adísia Sá e Eudoro Santana deram seus depoimentos sobre o autor. E o artista plástico Mino assinou a bela capa de "Nossos Momentos".
Aqui aproveito para dizer que Wellington é irmão do empresário Edmilson Alves de Souza, de quem eu já era amigo. Publicando, durante anos, o informativo mensal "A Ferragista" (uma espécie de house organ de seu grupo empresarial), que reservava espaço para assuntos diversos, Edmilson se destacou como um grande incentivador das artes no Ceará.
Foi nas páginas do informativo de Edmilson que eu dei os meus primeiros passos de escrevinhador.

Na galáxia dos livros brilha mais uma estrela. "Nossos Momentos", que Wellington Alves vem de publicar, por ser inteiramente impossível para o autor não partilhar conosco a sua rica cosmovisão. Na qual consciência não é ornamento, é ação. Ação que intenta reorganizar o homem, a sociedade para o seu grande destino. Por conseguinte, é o homem a sua confissão (malgrado o que disse Terêncio a respeito do ser humano). Arco de pura sensibilidade, o autor transpõe para o falar poético o cotidiano, a turbulência de existir, o tédio, a morte, a vivência psicanalítica, o sentimento da amizade, a esperança... e o amor à sua companheira, Fátima, "o ombro mais buscado". Do que resultam poemas de extraordinária oralidade, como se feitos para um jogral. Ou para que o solo de um violão lhes dê o contraponto. Além de tudo, Wellington é solidário com a vida em sua totalidade;na dor (o vitimário das arenas burguesas), mas também na alegria, na beleza e na liberdade. Este último sentimento, por sinal, tem feito dele um globe-totter e um poeta engajado na grande causa socialista. De ambos os ofícios, ao que parece, o autor de "Nossos Momentos" obtém a renovável força ("Aquela Criança em Acapulco...") para o cantar libertário. Axé para você, poeta.

sábado, 23 de agosto de 2008

A COR DO FRUTO

Em 1986, um jovem chamado Fernando Novais, então com 22 anos, nascido na cidade de Jardim e que cursava Odontologia na UFC, estreou literariamente no Ceará com um livro de poesia, "A Cor do Fruto".
Eu o havia conhecido nos circuitos boêmios de Fortaleza, algum tempo antes. Em 1985, talvez. Lembro-me de que gostava de MPB e de que vinha também fazendo poemas para um livro.
Senti-me lisonjeado no dia em que ele, ao me passar os originais de "A Cor do Fruto", pediu-me fizesse eu uma apreciação a respeito. A qual foi parar numa das orelhas do livro, ao ser este impresso. E que, agora, a coloco nesta postagem do Preblog
Nesse livro de poesia, considero que andei em excelentes companhias. Com Carlos D'Alge, que o prefaciou, e com Joaryvar Macedo que escreveu a outra orelha.
(Por falar em Fernando Novais, onde andará o amigo poeta?).

Não pretendo, neste espaço disponível, realizar uma análise estilística acabada da poética de Fernando Novais (FN), em "A Cor do Fruto", obra literária que ora se materializa. Meu propósito, bem mais modesto, é chamar a atenção do leitor para certos aspectos da técnica literária que o autor emprega neste livro, assim como para o seu temário.
1 - o som: de seus versos de metro espontâneo. Além de rimas FN usa, à saciedade, outras combinações sonoras como o eco e a aliteração. Linguagem sendo igual à massa sonora. Deste modo, frases e palavras são sacrificadas no altar da metáfora. O nocional pelo imagístico. É o perde-ganha da poesia.
2 - a denúncia: sobre o mundo desigual, o pensamento automatizado, a guerra, os seres sem pretexto, a inanição do sentimento, a hipocrisia etc. Usando apenas de expressões contidas (e evitando o chamado "texto sujo"), FN "dá uma geral" sobre a vida, seu balanço canhestro. E suas conclusões são irônicas e, por vezes, imprevisíveis.
3 - o ludismo: de quando o poeta cultua o instante, o descompromisso, o aqui-agora. & brinca com a ambigüidade das palavras & revisita os adágios já gastos & revolve o cancioneiro patropi. De quando o poeta, anarquicamente quase, cola os fragmentos de sua mundivivência. Coisa com qualquer loisa. & a geléia é geral.
4 - o corpo: "mais uma necessária montaria / do que ideal companhia", tal como é rotulado pelo poeta. Que, como qualquer homem, sofre as agruras da condição humana (ser matéria descartável é uma delas). Contudo: haverá um "eu" eterno, aderido ao "eu" percível? Não sei a resposta definitiva. Só sei que FN, vez por outra, bota as asas de "anjo contrário" e... ganha altura.
Não existe arte senão para outro e por outrem. Saboreemos, pois, as essencialidades de "A Cor do Fruto", de Fernando Novais.

domingo, 10 de agosto de 2008

EM BUSCA DE POESIA

PROEMIAL
Há janelas abertas no telhado por onde entram luzes. Do sol, da lua e das estrelas. Quando::: Actéon ousa ver Diana, a Caçadora. Ela, porém, encontrando-se desvestida, não gosta e faz mágica má. Act contínuo, Éon vira cervo e é perseguido por feroz matilha. Morre. Cervo ou servo, Lady Di não o quis. E, para gregos, romanos e bárbaros, expli::: citou::: que o banho de uma deusa é (para ser) indevassável.
(O vate o que mora numa água-furtada - há janelas abertas etc - sabe esta e outras estórias. Que sabem a plenilúnios.)
+
O livre o desabrido. O que vigia dourados trigais. O que ninguém consegue pegar a unha NEM à espora - galo.
Quando o olho clarear será aurora.
E::: das cinzas faz-se a (outra) ave, desiludida tão. Recompondo-se como há séculos há seculórios aprendera de sacerdotes, em Mênfis.
É-lhe imanente a memoração. Porque os grilhões do DNA.
Ave, ave. Só a engenharia genética, um dia, vos dará as exatas asas para o vôo libertário.
+
Como é bom tocar um clavicórdio! Aquele um.
Bailam Maries, Amandas e Yolandas. Bailam dançarynas de/os traços mais fugidios. Por seus rostos não se lhe adivinham as máscaras.
A dança é breve, é. Enquanto seu yang/sangue ferve por vós.
Cortai para::: uma cinelândia-fantasma de gentes que não dançam mais, que não dançam, que não, que::: a memória é urna cinerária.
Bye, bye larinas.
+
Andar ilho andar ilha.
O rio circular o que margina a ilha é Uroboros, a serpente que morde a própria cauda. Da esmeralda é sua cor.
Quando ele o rio encrespa a superfície / & ela a serpente, a pele / ::: aí tendes vagas ((intransponíveis)) vagas. E a solidão do mundo no próprio mundo.
O ser insular o gnomo da hexacorália.
Morreis muitos em Uroboros, suas estremeções periódicas.
+
Quanta coisa se irisa diante de mim!
Ou::: mais alucynações. Sois cavilosa, ó ânfora etrusca.
+
O deserto por palmilhar. Mas o que é o deserto senão a orla de um oásis?
Irei convosco, pois. Seremos dromômanos, manos sob o olhar complacente dos djins de fogo. Suportaremos manos, nós, o peso das mochilas, fardos da temporalidade. E deixaremos profundas, fundas pegadas na vastidão arenosa, que o vento, acumpliciando conosco, por certo não as apagará.
Assim, saberão os pósteros que estivemos aqui, ali / & ontem, hoje / em busca do poema, seus mananciais.
Porque amanhã em Aldebarã, a estrela.

Escrito para prefácio do livro "Em busca de poesia", de Dalgimar Beserra de Menezes, que foi publicado em 1985.

25/10/2017 - Atualizando ...
"O melhor prólogo é o que contém menos coisas, o que as diz de um jeito obscuro e truncado." -  Machado de Assis, no "Memórias Póstumas  de Brás Cubas".

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

MÉDICOS ESCRITORES E ESCRITORES MÉDICOS

Livro que reúne mais de cem autores, entre médicos escritores (que fazem literatura) e escritores médicos (autores de livros de medicina), que foram graduados pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.
Foi uma edição comemorativa dos cinqüenta anos da FMUFC, que contém, em sua primeira parte, dados biográficos dos autores e, na segunda parte, uma antologia de textos.
Livro organizado pelo médico Geraldo Bezerra da Silva, por indicação do médico e professor José Murilo Martins.
Integra a Coleção Alagadiço Novo cujo Conselho Editorial, em 1998, era composto por Francisco Carvalho, José Murilo Martins e Geraldo Jesuíno da Costa
Apresentação: João Maia Nogueira
Capa: Assis Martins
Editoração eletrônica: Carlos Alberto Dantas
Imprensa Universitária, 1998
180 páginas

Participo deste livro com meus dados biográficos nas páginas 55 e 57 e com o poema "Descubram seus rostos" e o conto "Ponto e vírgula" nas páginas 157 e 158, respectivamente.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

1º CONCURSO NACIONAL DE PROSA E POESIA

Livro publicado pela Associação Médica Brasileira (AMB), em 1991.
Reuniu os textos em 10 primeiros lugares nas categorias prosa e poesia de um concurso nacional, promovido pela AMB, por ocasião de seu quadragésimo aniversário.
Prefaciado por Antonio Celso Nunes Nassif, Presidente da AMB. Apresentado por Julio Sanderson de Queiroz, Diretor Cultural da AMB.
Coordenadores do livro: Mario Jorge Rosa de Noronha e Julio Sanderson de Queiroz.

O CAMINHO DO MEIO
(7º lugar)

Um dia Godarta se encontrava à sombra de sua figueira-da-índia favorita. Exercitando-se na separação do Eu, enquanto a mente vagueava pelos confins do mundo. Assim, via-se uma carpa prateada a mergulhar num rio bem profundo, procurando alcançar o ponto onde repousavam todas as causas. E reconhecia-se no corpo de um crocodilo cujos toscos dentes tinham inquietações menos metafísicas. Godarta era a carpa que não morria, o crocodilo que não jejuava e era: Buda, o Iluminado.
Nisso, eis que dele se aproximou Bronkho, o discípulo não exatamente favorito. Bronkho era um obtuso do espírito. Por mais que se esforçasse ele não assimilava as Quatro Verdades, que são o cerne da doutrina budista. A bem da verdade (desta vez, verdade não budista), entregue-se Bronkho pelo seguinte. Perigava ele ser jubilado, a começar na disciplina de Godarta. Pois que nada, até então, se decantara do espírito do discípulo que melhor não se conseguisse do espírito de um javali.
Foi todo metediço, ele. E, querendo ganhar ponto, na tigela de esmoleiro do Mestre depositou figos. Um punhado de figos cristalizados... quando Godarta só os comia ao natural. A seguir, sentou-se. De modo que sua postura imitasse a do Mestre, nas comichões inclusive.
"Oh, por que não tirei patente desta posição?" - pensou Godarta. E mergulhou em si novamente. Nesses mergulhos era quando ele consultava a glândula pineal, a bola de cristal dos Iluminados. Mas Godarta mergulhou a ver se Bronkho desistia do assédio e ia chapinhar num lago próximo com as velhas cegonhas. "Homessa! Nem com elas o noviço aprendera a fazer as abluções." Só que Bronkho - com a idéia fixa de ser também um Iluminado - não arredou pé. E continuou a cacetear o monge.
- Mestre, como devo proceder para alcançar a Iluminação?
Godarta, por uns momentos, acarinhou a idéia de mandar o discípulo para o Ciclo dos Renascimentos. Numa transmigração à ré, quem sabe, ele chegasse a pirilampo, bichinho que tem lá suas iluminações. Mudou de idéia, porém. Assim que lembrou ser Bronkho, sem carteira de trabalho assinada, um ativo faz-tudo doméstico. Mais: lembrou que o noviço lhe proporcionava, o tempo todo, um senhor treinamento na virtude da Paciência. Então, em vista destes lembrados, o Venerável preferiu mil vezes resmungar o "Om", a palavra das palavras.
No oco da figueira sagrada Godarta tinha um adjutório. Para quando alguém fazia uma pergunta como a que Bronkho fez. Uma harpa em miniatura, a qual era vigiada pelos esquilos que habitavam a árvore. "Ah, o Nirvana não é tudo!" E Godarta costumava tocar a harpa para o seu corpo ficar Sansara, para ficar tudo jóia rara, qualquer coisa que se falara. Etecétera. Mas... o Venerável usava também a harpa para ilustrar os seus ensinamentos. E - era aquela uma ocasião - a entregou ao morrinha do Bronkho, acompanhada de uma pergunta de reflexão.
- Quando as cordas estão muito retesadas, obtém-se um som agradável?
- Não, Mestre.
- E se estão por demais frouxas?
- Também não, Mestre.
Óbvia a intenção de Godarta. Através desse diálogo, mostrar ao noviço o caminho para a iluminação. O Caminho do Meio.
Assim, prosseguiu:
- Afina, pois, as cordas do instrumento. Nem tão tensas nem tão frouxas... e toca.
- Mas, Mestre, eu não sei tocar harpa.
- Então, esquece.
Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. E se Bronkho era Buda em botão... não levava jeito de desabrochar. Foi o que Godarta concluiu um pouco antes de se fazer peregrino para mostrar a todas as gentes o Caminho do Meio.
Quanto a Bronkho, o Opaco... ah, esse ficou no Meio do Caminho.

domingo, 20 de julho de 2008

POETAS DO BRASIL

Coletânea de poesias publicada em 1985 pela Mirante Arte Editoral. Obra com muitos participantes e editada pelo sistema de cooperativa.
Neste livro encontra-se o meu "Micropoemas do Infortúnio". Revisado e por partes, o "Micropoemas..." tem sido também publicado no Blog do PG.

ESCRITORES BRASILEIROS

Coletânea de poesias publicada em 1985 pela Crisalis Editora. Obra com muitos participantes e editada pelo sistema de cooperativa.
Nas páginas 91-92 deste livro encontra-se o meu "Micropoemas do Infortúnio". Revisado e por partes, o "Micropoemas..." tem sido também publicado no Blog do PG.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A NOVA LITERATURA BRASILEIRA 1984

Obra viabilizada pelo sistema de cooperativa da Shogun Arte no ano de 1984. Constou de 2 volumes reunindo contos, crônicas e poemas de muitos autores do Brasil.
Participei do segundo volume da coletânea com a crônica INVENTANDO COISAS...

O invento, qualquer invento, é um produto do ócio: sustento isto. Mas, se querem que eu assine embaixo, dêem-me ao menos uma caneta de tinta mágica. Daquelas cuja tinta, ao ser colocada num papiro, volatiliza-se minutos após.
Estou me protegendo, lógico. Quem, como eu, possui um mínimo de responsabilidade sobre os ombros (a lição que aprendi com o mitológico Atlas), não deve jamais sustentar alguma coisa e, ao mesmo tempo, assinar. Porque aí o céu desaba.
R. Taton, com seu "Reason and Chance in Scientific Discovery", vem agora em meu socorro. "A invenção não aparece durante os períodos de trabalho assíduo, mas durante os intervalos de descanso e relaxamento." A tal "Síndrome do Eureka".
Trocando em miúdos: a invenção não aconteceria enquanto o cérebro estivesse trabalhando feito um mata-mouros e, sim, quando ele fizesse uma pausa para o cafezinho. A favor desta teoria o modo como foi inventado o forno a microondas.
Mas... deixemos mister Taton em seu mister e continuemos no ócio, aliás, falando sobre o ócio. Quem nunca inventou algo é porque está no bê-a-bá do ócio. Por favor, não chamei ninguém de beócio, apenas disse que, em não sendo um inventor, estaria longe do zênite da ociosidade.
Cientista, pesquisador, tecnologista, que nome se dê ao inventor, ele é sempre alguém que vai fundo na ociosidade. Para o exercício da vagabundagem criadora, antes de tudo, ele se liberta do jugo do tempo. Ou vocês acham que o relógio do ponto teria sido inventado, se o seu criador fosse alguém preocupado com as horas?
Mas o diabo é que o relógio do ponto foi inventado e, a partir daí, como ficou difícil a gente sair à francesa do trabalho! E, para verem vocês o que é a natureza desumana, o produto do ócio de um relojoeiro-inventor em mãos patronais virou um grande negócio, vale dizer, uma negação do ócio.
Se há inventos para nos atazanar, outros existem para a nossa maior comodidade; separar o joio do trigo importaria uma longa discussão, caso por caso. De qualquer modo, no panorama atual, uma hipotética exclusão deles tornaria a sociedade moderna simplesmente impensável. Desinventar a roda, por exemplo, acabaria com a Era do Gurgel em que vivemos.
Felizmente, aqui repito, felizmente, desinventor de roda nunca tem vida suficiente para levar adiante o famigerado "Projeto Pé-Dois"; morre antes, atropelado. Ei, não estou falando mal dos praticantes de jogging. Eles conhecem a hora e o lugar.
A tal roda como surgiu? Conta-se que das mãos (e dos cérebros) de Og e Ug, dois cientistas das cavernas que, partindo de uma roda-protótipo de quatro lados, percorreram caminhos opostos. Og, optando pela diminuição dos lados e, com isso, obtendo uma roda de três lados, cuja grande vantagem era dar um solavanco a menos por giro, mas aí estacionou. Já Ug, pensando de modo contrário, foi progressivamente aumentando os lados da roda protótipo, até chegar a uma roda de centenas de lados com os contornos arredondados. Na prova decisiva de descer a ribanceira, ganhou a roda de Ug - com a diferença de uma ribanceira sobre a roda de Og. Ug só não pôde comemorar devidamente o feito porque, ao dar o pulo da vitória, foi infeliz e bateu com a cabeça justo no porrete de Og.
Há outros momentos burlescos na história das grandes invenções. Michael Faraday, o genial físico, certa feita mostrava à rainha Vitória I um artefato magnético que ele recém criara, quando Sua Majestade, a Rainha da Grã-Bretanha e da Irlanda, a Imperatriz das Índias não sabendo ficar calada, perguntou: "Para que serve a gerigonça?" Ora, Faraday tinha a consciência da importância de seu rebento no mundo do porvir e devolveu a inquirição: "Senhora, para que servem os bebês?" A rainha saiu tão agastada do episódio, conta-se, que só conseguiu gerir a loura Albion durante 64 anos. Ficou conhecida como Vitória I, a Breve.
Quando Faraday morreu um rapazote norte-americano, de vinte anos, maravilhava o mundo com sua inventividade. Thomas Alva Edison, o inventor da lâmpada incandescente, do fonógrafo para cães e do vibrador (este último tinha um porém, só funcionava na mão de Parkinson). Ao todo, Edison inventou 1.001 engenhocas, o que quase levou à estafa o staff do departamento de Patentes.
Agora, uma colocação derradeira. É possível o invento se voltar contra o inventor? É. Tenho conhecimento disto em pelo menos dois casos: o da guilhotina que decepou a cabeça de Joseph Guillotin, seu imortal inventor, e o do bumerangue.

terça-feira, 24 de junho de 2008

HETERÓCLITO, SUAS CASAS DE PASTO

Heteróclito, a namorada a reboque, fez um ar de desânimo. Todas as mesas do restaurante Half Star estavam ocupadas. A não ser que o maître... Lembrou-se de que o maître do Half Star tinha para com ele uma dívida eterna. Certa vez, Heteróclito lhe tirara um espinho da mão e o maître reconhecido lhe dissera: "Por você sou capaz de matar ou morrer, de preferência a primeira hipótese."
Não é só o chef que faz das tripas coração, em se tratando de amigos o maître também faz:
- Senhor Heteróclito, há uma mesa por enquanto desocupada.
- Qual?
- Aquela da tábua verde.
- A mesa da tábua verde? Mas... por que tem ela uma redinha estendida no meio?
- Dois chineses, logo mais, vão jogar uma final de tênis de mesa. Se o senhor não se incomoda...
- Não me incomodo. A mesa é bastante espaçosa.
Fizeram os pedidos. Petúnia, a namorada, um prato de quatro dígitos, e Clitinho, outro de três (para evitar que, no final, surgisse uma conta de cinco dígitos). Para beber, ambos concordaram com uma mineral. Uma mineral com gás "porque tem gosto de pé dormente".
Estavam sendo servidos quando, senão quando, os dois chineses chegaram. Estabeleceu-se um clima de tensão. Com os dois "chinas" considerando Heteróclito e a namorada intrujões. Pingue-pongueia, não pingue-pongueia, quando Clitinho teve a idéia de bancar o brasileiro cordial. Levantou-se e, em posição de sentido, cantou o Hino Nacional de Hong Kong. Na voz dele, ficou tão irreconhecível o hino que a confusão nem aumentou. Pelo contrário, acalmou os chineses que eles, pacificados, resolveram desembainhar as raquetes.
Deu-se a partida, com a bolinha quicando por entre pratos, taças e saleiro. Pensando bem, Clitinho e a namorada jantavam, mas com sobressaltos.
Pelas tantas, Petúnia não se conteve:
- Diacho! Por que não fomos ao restaurante vegetariano Ruminant Is Beautiful?...
Ele sorriu amarelo (sorriso desta cor fica melhor na cara dos orientais, sei disso).
Sem dar mostras de fádiga do plástico, a bolinha prosseguia em sua estratégia de mesa arrasada. Nos 3 a 2, fez salpicar o salpicão de galinha, nos 4 a 3, quebrou o pires das azeitonas, nos 5 a 4, tirou a milanesa de um trecho do filé, nos 6 a 5, fez subir uma cortina de farofa até que, nos 7 a 6, a bolinha foi sustada... para ser devidamente trichada por Clitinho.
Ah, a lição de uma tia de Heteróclito, nos tempos de antanho, quando a bola de couro dos moleques caía em seu canteiro de gerânios...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

HETERÓCLITO, SEUS INIMIGOS

Como pode uma pessoa tão boa (no julgamento materno) como Heteróclito ter inimigos? Mas ele os tem: inimigos figadais e baçais, conforme o órgão visado. Se bem que, com o passar do tempo, a diferença se acabe, pois os baçais evoluem para figadais. Sempre. E os figadais de uma figa, todos eles, estão no encalço do nosso herói. Temo, porém, que não haja resposta para a pergunta inicial. Ou que haja: Judas, que era Judas, tinha inimigos, por que Heteróclito não haveria de tê-los?
Só que Heteróclito não precisa ter inimigos com os amigos que tem. Como, por exemplo, o Toinho Valha Couto que, pelo hábito de bater velozmente as abas do nariz, é também chamado de Narinas Frenéticas. Se a doutrina da transmigração da alma estiver correta, esse Toinho em outra encarnação foi coelho. Ou Coelho. No entanto, para não derivar muito, deixo a descrição completa do calhorda para outra oportunidade. Fiquem só com este conceito: Toinho Valha Couto é dos que apertam os outros fora do abraço.
Ah... Ah... Matar Heteróclito numa quarta-feira normal de trabalho é simplesmente uma piada. Ele não tem existência real na azáfama da semana, no ruge-ruge leonino do dia-a-dia. Alguém, por acaso, já matou um espectro de homem? Um zumbi? Assim é Heteróclito. Um Jó-vivente que trabalha mais do que o permitido pela "Lei de Saúde dos Aprendizes", do parlamento britânico de 1802. Querido pistoleiro: conseguirás no máximo fazer alguns buracos em Clitinho. Não haverá a homologação divina para o teu nefando ato.
Clitinho hás que matá-lo no ludismo de um fim de semana, que é quando ele segrega pelos poros vida. Para facilitar, nossa vítima durante o "uiquende" tem um roteiro necessário. Começa sexta-feira à noite, no Estoril; mas, oh!... não o mates agora. Não são três horas da manhã, e Heteróclito et caterva ainda não derrubaram o governo da República. Se o fizeres darás "preju" ao povo, de onde emana todo o poder inclusive o de fogo.
Sábado à tarde, poderás encontrá-lo no Capacete Branco, uma barraca de beira-praia. Lá, banhistas e proprietário respiram um clima de mútua confiança. Heteróclito gosta. Invariavelmente, ele toma quatro cervejas e tenta pagar duas. Vem o proprietário da barraca, passa o ciscador na areia, e ele é obrigado a pagar seis. São as regras do jogo. Estás disposto a pagar a exorbitante conta dele? Não? Esperemos então a noite chegar.
Heteróclito está na casa de serestas do Santiago. A casa encontra-se lotada, pensa nisto um par e meio de horas antes de perpetrares o "cliticídio". São pessoas sensíveis que não tolerarão, jamais, que um estampido fira a suave música. Se, ao menos, o regional estivesse tocando aquela peça de Tchaikovski que tem ribombar de canhões, aí sim aproveitarias a circunstância. Mas não. Estás cheio de dedos, pistoleiro, percebo. E não aparece um cristão de senso prático que te traga uma harpa.
Na manhã de domingo Clitinho entra numa edipiana. Acarinhado pelas três tias solteiras de Jacarecanga que tentam, a poder de caldos de carne e limonada, tirá-lo de uma tremenda ressaca. Uma ressaca maior do que a do mar de Jacarecanga. Tem dor de cabeça terebrante, matéria ígnea no estômago... Meu Deus, Heteróclito promete não beber de hoje para trás. Nessas horas, ele tem vontade de ir passear no barco de Caronte. Por precaução, as cuidadosas tias escondem de Clitinho todas as armas potenciais da casa inclusive o cortador de unhas. Trucidá-lo agora é um ato de solidariedade, não condiz com a tua mal-querença. À tarde, então.
Pena que, à tarde de domingo, ele não possa ser interrompido. É quando ele dá prosseguimento ao "Queda e Coice do III Reich", um livro que espera editar pela Nação Ybiapaba. Os pensamentos voam, as palavras andam, a língua de Heteróclito vez por outra se engancha no rolo da máquina de escrever e, por isso, o livro vai lento. Tens que temporizar, pistoleiro. Esse livro, que no momento se resume a uma ficha catalográfica, é um terço do ideal dele.
Mas eu sei onde as andorinhas têm insônia. Toda noite de domingo Heteróclito vai para a cama com a Bruna Lombardi. Já perdi a conta das vezes em que ele, na noite domingo, leu na cama o livro de poemas da Bruna. Pois a hora é essa, matador. Sem dizeres fogo vai, atira nele o bom tiro. Bom tiro, matador - antes que eu esqueça -, é aquele que sai pela culatra.

MULTICONTOS

Em seu Projeto Cultural de 1983, o BNB-Clube de Fortaleza promoveu o I Concurso de Contos com o objetivo de revelar novos autores cearenses. Concorreram 80 autores, dos quais 39 tiveram seus trabalhos selecionados pela comissão julgadora.
Fizeram parte desta comissão os escritores José Alcides Pinto (recentemente falecido), Airton Monte e Batista de Lima. E, na coordenação do certame, esteve o Sr. José Aldro Luiz de Oliveira, à época o diretor cultural do BNB-Clube.
Os trabalhos escolhidos, em número de 44, foram reunidos em um livro intitulado MultiContos. Com dois contos premiados (Heteróclito, seus inimigos e Heteróclito, suas casas de pasto), tive a satisfação de vê-los publicados na referida coletânea.

MultiContos pode ser lido na internet no site issuu,com.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

DOIS CONTOS

De minha autoria figuram na ANTOLOGIA ATÉ AGORA os contos COM A CARA E A COVARDIA, nas páginas 146 e 147, e PONTO E VÍRGULA, nas páginas 148 e 149, que já haviam sido publicados em ESMERALDAS e LETRA DE MÉDICO, respectivamente.

PAULO GURGEL

sábado, 14 de junho de 2008

A PROPÓSITO DESTA ANTOLOGIA

A partir de 1983, a SOBRAMES – CEARÁ tem mantido a louvável tradição de publicar livros quase que anualmente (foram dez publicações em treze anos).
Em 1995, publicamos o décimo livro e chegamos à conclusão de que a hora era de comemoração.
Acreditamos que uma excelente maneira de comemorar nossa dezena de livros seria editando o décimo primeiro que resumisse o que de melhor apresentassem os anteriores.Assim nasceu Antologia Até Agora 1983 – 1996, cujo lançamento programamos para a ocasião do XVI CONGRESSO NACIONAL DA SOBRAMES porque mostraríamos aos colegas de todo o Brasil o nível de produções literárias e a atuação da SOBRAMES – CEARÁ.

MÉDICOS: POESIA E PROSA

Carlos D’Alge

Em 1995, a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Ceará publicou o seu décimo livro reunindo a produção literária dos seus associados.
Para assinalar essa ocorrência, a Sociedade edita a Antologia Até Agora 1983 – 1996, que será apresentada por ocasião do XVI Congresso Nacional da SOBRAMES.
A Antologia inclui 25 poetas e 22 prosadores, números expressivos que comprovam o traço humanístico desses médicos que, entre os hospitais, as clínicas e o Curso de Medicina, ainda encontram vagas para a literatura.
Vejamos os poetas. São 67 composições, numa média de três por autor. Todos eles figuraram nas antologias da SOBRAMES – CE. Entre eles, há um desaparecido, Caetano Ximenes Aragão, cujo Romanceiro de Bárbara foi muito festejado pela crítica. Caetano era um humanista. Clínico Geral, possuía uma bem selecionada biblioteca. Coerente com as idéias da juventude, nos seus livros registrou preocupação com a justiça social. O médico Geraldo Bezerra oferece um dos poemas desta Antologia a Caetano:

“O poeta montou no seu sonho
E alegre, risonho
Voou para o além.”


Luís Teixeira Neto é o autor do poema mais longo, com o título “Poema sem nome, escrito em 1968”. Emanuel Carvalho de Melo dedica um dos seus poemas a John Lennon, cuja poesia e música embalaram o sonho de muitas gerações. Heládio Feitosa e José Rômulo Barbosa são autores de bem elaborados sonetos. Pedro Henrique Saraiva Leão, poeta, acadêmico, professor e presidente da SOBRAMES –CE, no estilo que já é conhecido, ironiza poeticamente ocorrências que assustam o mais comum dos mortais, como o câncer e o infarto:

“Não tenho medo do câncer
temo que canses de mim.
É preciso que eu esteja farto
quando o infarto chegar
que o carteiro tenha passado
que a festa tenha acabado.”


Finalmente, já que não há tempo nem espaço para citar todos os 25 poetas, destaque-se o poema “In memoriam Sr. Andrade de Tal, um cadáver de estudo”, de Ricardo Augusto Rocha Pinto, e ainda os poemas de Antero Coelho Neto e Hamilton Monteiro.
Os prosadores, em número de 22, são autores de 34 textos divididos entre a crônica e o conto. Não é fácil precisar os limites do conto. A crítica tem procurado estabelecer alguns parâmetros que são discutíveis. Moreira Campos dizia que conto era tudo aquilo que o autor assim denominava. Há os modelos tradicionais: Machado de Assis, Eça de Queirós, Humberto de Campos, que também escreveram crônicas para os jornais. O conto moderno, que nasce com Tchecov e Maupassant, hoje é mais curto e tende a fixar uma situação.
Nos cronistas e/ou contistas da Antologia Até Agora há uma exceção, homenagem ao saudoso médico, fundador da Faculdade de Medicina, e humanista, Newton Gonçalves. A sua aula de abertura dos cursos da Faculdade de Veterinária do Ceará, proferida em 1º de março de 1972, com o título de “Louvação dos Bichos”, é um bem documentado trabalho sobre os animais do nosso cotidiano.
Dos 22 prosadores realço duas interessantes narrativas: “A Heroína de Mossoró”, de Francisco Nóbrega, episódio do tempo de Virgulino Lampião, e a de Marcelo Gurgel que, entre o sentimento de perda e saudade, evoca o médico Paulo Marcelo Martins Rodrigues.
E, para concluir, destaco as crônicas de Roque Muratori (meu colega no Colégio Cearense), Flávio Leitão e Cleto Brasileiro Pontes, e ainda os contos de Paulo Gurgel.

ANTOLOGIA ATÉ AGORA 1983 - 1996

Antologia de prosa e poesia publicada em 1996 pela SOBRAMES, Regional do Ceará.
Edição Comemorativa ao XVI Congresso da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.
Reúne 101 composições produzidas por 47 médicos e já publicadas em dez livros anteriores (TEMOS UM POUCO, CRIAÇÕES, SOBRE TODAS AS COISAS, LETRA DE MÉDICO, EFEITOS COLATERAIS, MEDITAÇÕES, OUTRAS CRIAÇÕES, ESMERALDAS, PRESCRIÇÕES E AMOSTRA GRÁTIS) da Sobrames - Ceará.
Apresentação de Carlos D'Alge.
Livro com 162 páginas.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

ARMA QUENTE - 2

"Não, John, a felicidade não é uma arma quente."

O facínora encostou o (ainda) frio cano do revólver em meu peito e disse:
- Sabia que vai morrer?!
Chamo-me Bernardo. O que, quando bem entendo, me dá o direito de cometer alguma bernardice.
- Vou, é? Quando?
- Agora mesmo. Não está vendo o "berro" aqui?! O Honorato me mandou...
- "Peraí"... O Honorato é meu amigo!
- Não morra iludido, cara. Ele me pagou - e bem - para que eu despachasse você.
- Quanto?
- Não está querendo dobrar a grana, está? A fim de trocar de lugar com ele...
- Não, o Honorato não vale o dobro de mim.
E não vale mesmo. Nos últimos tempos, minhas dívidas não estavam sendo pagas, outras tantas vinham sendo contraídas, e... sabem por quê? O Honorato.... ele, como avalista, não honrava essas dívidas.
Agora, eis que me mandava um celerado de funestas intenções. Com os olhos injetados de quem à noite não dormira, só para me tocaiar. E que estava ali a me ameaçar. Ou será que, para ficar ainda mais ameaçador, ele pingara nos olhos colírio de groselha? Bem, perguntar é que eu não ia, pois estava em plena defensiva. E cabia-me, até onde o auto-controle funcionasse, ser polido em toda a conversação.
- Ora, o Honorato não precisava...
- De quê, cara?
- Ser tão preocupado comigo. Empreste-me o revólver que eu sei morrer por minhas próprias forças...
- Espertinho.
- Ou por falta delas... de morte natural.
- Demora muito. E o que eu acertei com o Honorato foi morte matada.
Pensei numa opção para a sobrevivência que não ficasse apenas na argumentação. Alguém já me dissera que os meliantes costumam usar balas imprestáveis. Dificuldades em obtê-las de fontes idôneas e que, por conta disso, suas armas de fogo muitas vezes "quebram o catolé". Há inclusive toda uma estatística em favor de quem está prestes a ser vítima, desde que não esta não esqueça as palavras mágicas:
- Pernas para que vos quero!
Exatamente o que cumpri à risca. Enquanto o celerado, naquele afã de mostrar serviço, pôs-se a descarregar o revólver.Com quatro tiros bem na mosca, isto é, em mim.
Alvejou-me no ventrículo esquerdo, na crossa da aorta, no tronco da coronária e, por último, no cabo do meu marca-passo cardíaco, desconectando-o.
Como vêem, nenhum dos tiros atingiu-me algo que fosse vital. De sorte que, se ele me matou, não fez o serviço bem feito.

P.S.: Caso o facínora venha a ser preso e, por um desses equívocos da Justiça, aconteça de ser condenado eu já deixo instrução a respeito. Com o meu advogado - que também se chama Bernardo - para imediatamente apelar.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

ARMA QUENTE - 1

Por não mais suportar tanta aflição, Evilásio decidiu tentar a solução do desespero. Pegar o "três-oitão" em cima do guarda-roupa, encostar o cano da arma na têmpora, apertar o gatilho e... explodir os miolos. Para pôr termo a uma existência que, numa avaliação que ele mesmo fizera, adquirira ultimamente um péssimo valor. De mel coado, no máximo. Como sói acontecer a todo ser humano em que a paz de espírito deixa de ser possível. Por razões as mais diversas, já que este mundo como Deus o fez é de tão grande complexidade.
No seu caso, por causa dos assuntos com que a mulher - uma seca-pimenteira de marca maior! - vinha-lhe chateando. De modo contínuo - como cantiga de grilo! Em que a temática eram as pequenas catástrofes, por ela pinçadas com a precisão de relojoeiro no dia-a-dia do bairro. Posto não ser mulher de deixar passar em branco infortúnio de ninguém mas, sim, de relatá-lo (com grande prazer, claro) onde ouvidos existissem. Para o desasossego de Evilásio que, tendo estes mais alcançáveis, não tinha quase como fugir do tagarelar da leva-e-traz.
Ah, sobre ele andavam a desabar todas as conversas desagradáveis que perambulavam pelo bairro... Trazidas pela falação de Abigail, esse o nome da megera, de uma forma tão assídua para o recesso do lar, que ele ficava a ponto de estourar. No passado, fora mais suportável essa desdita, é verdade. Evilásio então trabalhava num emprego público onde ficava a salvo, em grande parte do dia, do baixo astral da esposa. E esta, para descarregar o humor mórbido, tinha de recorrer a outras companhias. Umas comadres que, após atenciosas escutas, como retribuição enriqueciam-lhe também a pauta.
Mal ele chegava a casa, Abigail já abria o inesgotável bedelho:
- O Manoel não passa deste mês, está desenganado pelo médico.
- Hum...
- Das Dores anda botando chifres no marido.
- Hum... hum...
- O cachorro do Ari mordeu o carteiro.
A saída era Evilásio desistir do programa da televisão (o jornal houvera lido no emprego) e ir até a mercearia da esquina. Dar umas "bicadinhas", enquanto o tempo passava, até se sentir entorpecido o bastante para retornar. Numa hora da noite em que na mulher, por se encontrar dormindo, já houvesse encostado a matraca. E o ambiente refeito em silêncio - como é da prerrogativa de um cidadão que quer apenas isto: dormir! No dia seguinte, era ele engolir o café apressadamente e, o mais rápido possível, arrancar-se para o trabalho (que ouvido de gente não é pinico).
Um dia, porém, o nosso barnabé aposentou-se. Ficando, desde então, em regime de tempo integral à disposição dos aporrinhamentos conversatórios da mulher. E, pouco tempo depois, descobriu que fugir para o boteco não seria mais possível. Uma gota de extrema severidade, que o privava de consumir álcool e tira-gostos, havia estrompado a antes tão querida válvula de escape. E, mais, muito mais, com a rápida progressão da doença, Evilásio se viu praticamente um inválido - todavia, com a audição perfeita. Para regozijo de Abigail cuja conversa aí desceu ao nível de poleiro de pato.
Dias e noites de tortura se seguiram para Evilásio. Um sofredor ante o matraquear da esposa que, aproveitando-se da situação, não dava a mínima trégua. Nisso, foi quando ele, como se falou no começo da história, decidiu tentar a solução do desespero. Perante a tagarelice da mulher cuja língua, em se tratando de fofocar, não parava de crescer horrores. Com a ressalva de que caso sobrevivesse (contingência de quem pratica a roleta-russa, por sinal), ela não entendesse a experiência como encerrada. E acionou o gatilho.
Bem, não partiu da arma nenhum projétil a varar o crânio do desinfeliz. No entanto, quando ele mostrou que, no tambor do revólver, existia de fato um cartucho (apenas por acaso não deflagrado), a mulher ficou estupefacta. E, desde aquele dia, para não ter de carregar um suicídio na consciência, mudou definitivamente o teor da prosa. Da água para o vinho (onde está a verdade, como se diz). Pois Evilásio, resoluto como se mostrara, já acenava com a possibilidade de repetir a façanha. Usando, na vez seguinte, dois cartuchos no tambor do revólver, depois três...
Só que não foi preciso prosseguir com a chantagem da roleta-russa. Porque Abigail, daí para frente, empenhou-se para que naquele lar só rolasse papo-leveza. E, Evilásio, em virtude disso, depois jogou fora os seus cartuchos que davam tiros de pólvora seca.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O FAROL

Poderia ser chamado de farol do cafundó-de-judas, do caixa-pregos, do cornimboque do Diabo ou de farol com qualquer outra expressão do gênero. Que desse a idéia de estar situado num local ermo, afastado. Ou, ainda, simplesmente ser chamado de O Farol (menos de O Farol do Fim do Mundo, porque aí já seria plagiar Julio Verne). E, digamos que o farol em questão (Santa Sutileza, que quase me fez dizer "em foco"!) fora erigido numa ilha pequena e montanhosa - uma ilhota! A fim de que, na escuridão da noite, protegesse as embarcações da destruição contra os arrecifes. E, desse modo, evitar que vidas humanas servissem de repasto aos tubarões.
Quantos rochedos e arrecifes havia por ali onde um navio, em noite de breu, poderia bater! Sobrosso acontecia algum, porém aquele farol era a única garantia para uma nau atravessar aquelas águas sem... sobroço. Daí a importância do trabalho do guardião do Farol. Subir, todas as noites, a comprida escada helicoidal que ia dar na sala onde ficavam as grandes lanternas. A seguir, ajudado por Georges, imediato de guardião, encher de óleo o reservatório das grandes lanternas, as quais eram postas a iluminar o oceano (mas não todo o oceano, como pensava Georges).
Uma noite, porém, o faroleiro notou que muitas das residências da ilhota estavam às escuras. Pois que existiam outros moradores naquela ilhota (afinal, vocês não estão lendo o romance de Julio Verne). E ele procurou saber o motivo de tanta escuridão doméstica. "A falta de óleo para as lâmpadas", responderam-lhe. "E o navio de suprimento não vem antes de um mês. O que é a ironia, senhor. Mandamos luz para o oceano, mas não a temos em nossas casas". Embora não gostasse muito desse "mandamos" (pois era ele quem mandava), o guardião ficou de estudar a solução.
Logo, ei-lo em casa entregue a reflexões. Com os dedos maquinalmente entretidos com o pêlo bem cuidado de Philippe-Auguste, o fiel cão. Que é relaxante fazer pitó em pêlo de cão, lá isso é. Ademais, ajuda a aclarar as idéias... Ei! Quem sabe se ele emprestasse uma partezinha do óleo sob a sua guarda aos moradores, a fim de que suas lâmpadas voltassem a brilhar? Isto imaginado, o faroleiro com um safanão afastou Philippe-Auguste para que este fosse banzar em outro lugar e levantou-se. Foi cubar a reserva de combustível a ver se dava para realizar alguma beau geste. Não dava, é verdade, mas o guardião ainda assim preferiu correr o risco de emprestar o óleo. A ter de contrariar uma voz interior, arrastada nos erres, desde o início a favor do empréstimo.
Então, chamou Georges para que distribuísse entre os moradores, a cada um conforme as necessidades, o escasso combustível. Com isso, transgredindo as normas que diziam ser aquele combustível para uso exclusivo do Farol. E, aventuro-me a dizer, o que também moveu o guradião a tanto. Ter os ilhéus nas palmas das mãos, presos pela gratidão. Este sentimento que, em tempos de política (o guardião tinha um projeto), traz certos dividendo ao politicalho. Desse modo, daí a nada, em todas as casas da ilhota, estavam as lâmpadas a queimar o óleo amigo.
Não houve quem não vivasse o faroleiro. E, como dantes, os ilhéus voltaram a se alegrar nos fandangos bailados.
Até que, numa noite, o guardião foi visitado por um sonho. Ele sonhou que era o faroleiro de uma outra ilha - sem farol! Na qual a sinalização era feita pelos disparos periódicos de um canhão. Que eram dados de hora em hora, com pólvora seca - mas que produziam barulho e clarão suficientes para alertar os navegantes próximos. E, nesse mister, ele se revezava com alguém bastante parecido com Georges, só que mais retaco. A quem inclusive caberia o canhonear seguinte (visto que o guardião dormia e mesmo sonhava). No entanto, na hora devida o ajudante não deu a canhonada. O que fez com que, naquele momento de estampido nenhum, o guardião acordasse sobressaltado.
Algo de ruim se pressagiava. E, tomado de um mau pressentimento, o faroleiro subiu apressadamente até a sala das grandes lanternas. Estavam apagadas, e lembrou-se de que Georges antes comentara a respeito do fim iminente do combustível. E, não estando o Farol a facheá-lo, o oceano em volta era um pretume só. Ouvia-se o vento, o quebrar das ondas, gritos... Apurou os ouvidos. Sim, ouviam-se gritos. Mon Dieu, estava a acontecer ali um grande naufrágio e ele nada podia fazer. Recém se espedaçara um navio nos rochedos, gritos de desespero varavam a medonha escuridão, e ele... ele... nada podia fazer.
E não ficou somente naquele naufrágio. Ainda aconteceriam outras tragédias marítimas, todas elas por falta de um facho de luz que orientasse, durante a noite, as embarcações... (Não, não substituía o Farol a luz bruxuleante de umas tantas lâmpadas domésticas, pois estas mal alumiavam os compartimentos em que eram postas.) Até raiar uma manhã em que, ao se contabilizar o sexto naufrágio, constatou-se também que o pior tinha acontecido. Havia, na última noite, colidido contra os rochedos o navio de suprimento, o qual era responsável pelo abastecimento da ilhota. De praticamente tudo: do óleo combustível para o farol aos gêneros alimentícios que todos consumiam.
Tempos depois, intrigado com o sumiço de tantos navios, o continente resolveu apurar os fatos. Mandando um navio na rota dos desaparecimentos, com atenção especial ao que pudesse ser encontrado nas coordenadas geográficas do Farol. Lá chegando, as autoridades, que já haviam concluído sobre o que acontecera (pela visão dos destroços flutuantes cujo número ia aumentando enquanto se aproximavam da ilha), verificaram ainda o seguinte. Hélas!, nenhum ser humano estava vivo, a todos matara a inanição. Ah, terra sáfara, aquela...
Pois unicamente, e transformado no mais esquálido dos cães, sobrevivera Philippe-Auguste. E com alento apenas para abanar a cauda (em saudação às autoridades), cerrar os olhos e, em seguida, adentrar um trevoso país. Onde, ao que tudo indica, não verá farol nenhum como aquele.

PRESCRIÇÕES

Antologia de prosa e poesia publicada em 1994 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Patrocínio: UNIMED de Fortaleza.
Autores: Walter Miranda, Wellington Alves, Tarcísio Diniz, Roque Muratori, Pedro Henrique Saraiva Leão, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Manassés Claudino Fonteles, Luciano Lira de Macedo, Luiz Gonzaga de Moura Júnior, Luiz Teixeira Neto, José Maria Bonfim de Morais, José Maria Chaves, José Rômulo Barbosa, Helio Rola, Hamilton Monteiro dos Santos, Geraldo Bezerra da Silva, Francisco Nóbrega Teixeira, Francisco Sampaio de Oliveira, Francisco das Chagas Medeiros, Flávio Leitão, Emanuel de Carvalho Melo, Elcias Camurça Júnior, Dalgimar Beserra de Menezes, Cleto Brasileiro Pontes, Chico Monteiro, Celina Corte Pinheiro, Caetano Ximenes Aragão, Antero Coelho Neto.
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda.
Tiragem: 2.000 exemplares.
Livro com 210 páginas.

terça-feira, 20 de maio de 2008

DR. ASDRÚBAL E A MORTE

Se todo médico fosse como Dr. Asdrúbal a Morte teria bem menos o que fazer. Talvez até perdesse a razão de existir, envenenando-se a seguir com a própria saliva. Porque o bom doutor, com a dedicação de um legítimo filho de Hipócrates, de um modo tão eficaz assiste os seus pacientes que eles logo estão sarados. Para o desespero da Morte que, em cada enfrentamento perdido, vê desmilingüir o seu poder mortífero. Não sendo impensado dizer que, a persistir esse quadro adverso, dia haverá em que ela vai estar relegada aos casos declarados de iatrogenia.
Já virou cena comum Dr. Asdrúbal e a Morte se encontrarem, à beira de um leito, para travarem a titânica luta. Cujo término se dá, na maioria das vezes, com o facultativo "arrancando a vitória das garras da derrota". E, por conseguinte, com a Morte batendo em retirada sem conseguir realizar o seu terrível capricho. Nada mais nada menos, o de fazer as pessoas, no fim da vida, comerem capim pela raiz. Com suas liquidações a varejo, naturalmente - enquanto não chega o prometido Apocalipse.
Por sua atuação humanitária, o reto doutor é visto pela Morte como inimigo. Assim é que, numa vez, achando-se ela descontrolada, bateu com as luvas (não esterilizadas) no rosto do médico. Desafiando-o para um duelo, já que este agressivo gesto outra coisa significar não costuma. Bem, como Asdrúbal covarde não é, o desafio foi aceito. E dia, hora e local foram combinados, assim como quais as armas que seriam por ambos utilizadas. Com a Morte escolhendo a foice e o Dr. Asdrúbal, o bisturi. Embora pudesse de última hora mudar para a serra cirúrgica.
Naquele dia, a caminho de casa, Asdrúbal andou... a matutar: como iria vencer a difícil peleja? Pois matar o que já estava morto é algo tão difícil quanto puxar o saco de um eunuco. Além disso, a ceifadeira de vidas era uma notória trapaceira, acostumada a enganar a humanidade sofredora. Quem, por exemplo, não ouviu falar da melhora que o paciente experimenta um pouco antes de morrer? Ah, só isto já dá uma idéia de quão ardilosa ela é... Capaz de múltiplos engodos, entre os quais simplesmente o de não comparecer ao duelo marcado. Por vigarice, em seu lugar, mandando um cover; ou um coveiro, tanto faz.
Mas, tão certa da vitória a Morte estava que, conforme havia combinado, veio. Dr. Asdrúbal reparou bem que era ela: a figura esquelética (envolta num manto roxo que esvoaçava ao vento), a voz cavernosa, o odor característico de... Morte. Conhecia, sim, a figura de muitas outras lutas, digamos, terceirizadas em que a pele dele não estava em jogo. E, como se não bastasse o terror que infundia, ela se fazia acompanhar de padrinhos. Ou melhor, de madrinhas... pois eram as Três Parcas. Enquanto o desafiado estava... sozinho e, nesse exato momento, já se arrrependendo de uma certa besteira cometida.
A besteira aqui sendo dissecada: o local do duelo ser o cemitério da cidade, haver ele concordado com isso. Dando assim a vantagem de campo (santo) para a Morte.
Todavia, um pouco antes de terçar as armas, o magnânimo (os adjetivos estão aumentando!) Dr. Asdrúbal teve uma idéia magistral: envolver a Morte com uma proposta irrecusável do tipo "posso resolver este seu problema de magreza constitucional". Apostando, vê-se muito bem, na esqualidez da Morte como sendo a causa única do seu comportamento antissocial. Apesar de uma proposta dessas, ao encontrar receptividade do lado adversário, por si já caracterizar o espetáculo como uma marmelada. Mas, ora, que é que tem isso? Dr. Asdrúbal sempre foi um firme adepto das teorias de Lombroso, e quem defende estas teorias quer sempre, custe o que custar, realizar a contraprova. A qual, no caso vertente, consistiria em submeter a magra personagem a uma terapia de ganho ponderal e, em seguida, avaliar-lhe as modificações da índole para melhor. No pressuposto de que a Morte concordasse com a experiência, claro.
Então, com a palavra a mortífera senhora.
Para a surpresa geral (mas não deste narrador), a Morte topou.
Hoje, restabelecendo-se dessa "Batalha de Itararé" (da vitória do tirocínio sobre o morticínio), ela pode ser encontrada em algum lugar deste planeta. Inteiramente voltada aos prazeres da vida, como se busacasse recuperar o tempo perdido. E, se o dia é de sol, talvez esteja em algum recanto parasidíaco, em alguma praia é provável, a atrair olhares cúpidos para o seu corpo de rijas carnes - o resultado de um tratamento bem conduzido. Num estilo de vida que nada tem a ver com o passado, e daí, nesta inusitada circunstância, surgir uma grande dúvida.
Alguém questionar como é possível se as pessoas, no mundo todo, ainda continuam a morrer?
Continuam a morrer, sim. Só que agora é por uma questão de inércia, garante Asdrúbal.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A BOMBA

Isto aqui é Drummond: "A bomba / não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável." É, prelibar pode. Mas que nunca dêem à bomba as coordenadas da explosão, acrescento eu. Que ela continue sendo a mesma besta de sempre, sem saber quando, onde e porquê. Mas, para tanto, é preciso não bestar o bicho-homem. Nunca apertar o botão do disparo. Só músculos, a bomba é capaz de não deixar uma xicrinha sobre pires nesta loja de louças chamada Terra.
Melhor ainda é que ela vá à Lua, assovie... mas não volte. O leitor não queira assistir na Terra a um espetáculo (bomba!), que lhe pode custar muito. As meninges assadas. E não bastassem a dor, a morte, os danos materiais, a metuenda, a ferotriste é capaz de muito estrago mais. A subversão da onomatopéia, por exemplo. Os sobreviventes da catástrofe atômica ver-se-ão afligidos, no após-bomba, pela total desorganização da onomatopéia. E isto não promete ser pouca coisa, senão ouçamos:
Por afetado no maquinismo do tempo, o relógio nos acordará a desoras com um persuasivo cocoricó. E se ainda houver galos e quintais, os primeiros subirão aos alambrados dos segundos, e tilintarão anunciando o Sol. Mas que Sol, meu Deus? Se a Terra toda estará num tenebroso inverno nuclear, com as chuvas caindo por todas as partes. Sim, as chuvas caindo fazendo frufru, para a alegria das rãs que estarão zunindo nos charcos. Pobres batráquios, não vãos ignorar as terríveis serpes ribombantes, seus inimigos naturais.
O que a bomba avariou mais? A fonte de emissão do som, o meio elástico de propagação ou o humano ouvido? Esta pergunta mugirá no ar, leitor. E, por não achar a resposta exata, um professor de Acústica afofado do juízo (pela bomba) se suicidará. Pensará na faca, seu medonho chuá, mas depois usará o revólver. Que, obviamente, fará tititi. A Semiologia Médica mudará um bocado. Porque os corações trinarão, os brônquios farão ruge-ruge, os intestinos... rataplã.
É... a bomba não tem aplomb. Basta dizer que a maléfica privilegiará os fanhos, fazendo-os subir do atual estamento que é péssimo. O rádio, a televisão, o leilão oficial pagarão qualquer preço para ter um fanho. Toda voz roufenha será premiada. Dinheiro, prestígio, limusine e o fon-fon das multidões. E o Fernando Bicudo (o que restar dele) promoverá no Teatro Municipal uma ópera só com fanhos. A Ópera Trava-Línguas.
Ah, teremos que reprogramar os ouvidos! Para o cataprus de alguém que nos chama, o clique de algo que cai na água, o zás-trás da sirene da fábrica, o psiu de um objeto que despenca, o tibungo da máquina fotográfica, o cricri do sino da matriz... E Santé! Para o murmúrio das taças que se entrechocam à nossa saúde. Já no elevador, o desbragado soltador de pum perderá para sempre o anonimato de que antes gozava. Porque, na nova ordem onomatopaica, vai cainhar feito o cão cujo rabo é pisado.
Na confusão geral do após-bomba, o bate-estaca ganhará um suave ronronar. O condicionador de ar fará baticum. E assim por diante. No final, feitas as contas (sonométricas), a poluição sonora não haverá baixado um mísero decibel. Numa prova de que o bicho-homem, antes e depois da bomba, foi e também será o mesmo martelão (quer dizer, o sujeito que só aprende à força de muito repetir). Ou, talvez, nem isso.
E quem (sobre)viver, ouvirá. À noite, o grilo preencher a tão falada insônia coletiva com o seu intérmino gluglu. Dormiremos com um ziguezague desses?

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A ROUPA NOVA DO REI

UM CONTO REVISITADO

ERA UMA VEZ um rei muito vaidoso de nome Nando. Certa manhã, nessas manhãs cheias de luz, ele recebeu a visita de dois alfaiates que, após as devidas apresentações, lhe prometeram fazer um novo traje real. "Como nunca se tinha visto antes", enfatizaram. Precisariam apenas de um local no palácio, tempo suficiente e, claro, algum financiamento. E, para que a empreitada não sofresse dificuldades que a pusessem no rol das obras de Santa Engrácia, por conta disso, é que o rei baixou uma resolução. Em se tratando da feitura do traje real, que Mizélia, a ministra da Fazenda, não observasse limite nos gastos.
Instalados no palácio real, os dois alfaiates - em verdade, dois espertalhões - passaram ao exercício de uma grande trapaça. Simulando que estavam a trabalhar, com agulhas e linhas imaginárias, longas horas eles ficavam a coser um tecido idem. E, quem entrasse no recinto, não podia ignorar que havia ali uma obra-prima em andamento. Porque, assim, estaria a passar um recibo de estúpido. Os dois espertalhões, antes de qualquer coisa, haviam divulgado o seguinte: o traje real, em sua beleza jamais vista, não se revelaria aos olhos daquele que fosse curto da inteligência.
Muitos meses após, e com muito dinheiro já embolsado, os dois velhacos deram por terminada a obra. A tempo de o rei Nando poder usá-la na Descida da Rampa, a festa máxima do reinado. Quando o povo, em sua melhor roupa, apinhava-se nas ruas para saudá-lo (e ver também as autoridades que não estavam sendo "fritadas"). A Claudio, secretário do rei, é que coube receber e dar a derradeira palavra sobre o traje real. Com Claudio da Capetinga, como era do feitio, aproveitando a oportunidade para fazer em cima dos dois falsos alfaiates uma caprichada rasgação de seda. Embora nem deste nem de qualquer outro material fosse feito o traje.
Levado o traje à sala de paramentação, a surpresa de Nando. "Roera o rato a roupa do rei?" - eis a frase com que ele intimamente se perguntou. Sim, porque não estava vendo nada daquilo que lhe era mostrado como traje. Ultimamente, é verdade, vinha a sua inteligência despencando... junto com a popularidade. Mas, daí a admitir que ele, um poço de sabedoria, houvesse de todo secado... Ah, não, ainda existia espaço para muita corda. Como a que lhe deu o secretário, com a clara intenção de lhe tirar dos titubeios. Ao citar, com a ênfase que a ocasião requeria, que "o essencial é invisível para os olhos".
Com alguma dificuldade, para não confundir a ceroula com o manto, rei Nando vestiu-se.
Fazia um frio medonho naquele dia. De modo especial para Nando, que só não tiritava ainda mais por se encontrar cercado de áulicos, seguranças e convidados. Dentre estes, uma dupla sertaneja que, por qualquer dá cá aquele chapéu de palha, punha-se a cantar o "Entre capas e pejos", a trilha musical do reinado. Ora, com tanto aparato assim, a Nando restava não ser um "pouca roupa" no plano psicológico. Desconforto térmico à parte, ele tinha de dar início à Descida da Rampa. Para ir ao encontro de sua gente que, já sufocada pelo cotidiano, apertava-se também nas ruas para vê-lo.
O cortejo pôs-se em andamento. A expectativa geral era de que, ao fim do desfile, Nando subisse no palanque da praça para a fala real. Um discurso "pró-lixo" que, invariavelmente, começava com um "maranis e marajás" e o resto era besteirol puro.
Nisso, o que aconteceu foi ouvir-se um "oh" coletivo - o povo tomado de espanto! Seria verdade, verdade o que todos estavam a ver? O rei pelado, pelado como se estivesse a gravar uma externa de filme pornô...
Havia crianças presentes, muitas. Mas os adultos, a se indignarem com a situação, preferiram manter um silêncio respeitoso. Com o espírito de que "quem já viu não estranha, quem nunca viu não sabe o que é". E porque, na presença de um rei, é preciso de prudência, prudência e prudência (para não cometer algum crime de lesa-majestade). Pois bem, mas eu estava a falar de que se fazia um silêncio respeitoso no meio do poviléu. So que esse silêncio, instantes após, aconteceu de ser inapelavelmente quebrado por um "pentelhinho". (Ô nome apropriado para a criança desta história!)
Um "pentelhinho" que, não querendo ser conivente com a farsa em seu quesito evolução, todo gasguita berrou:
- Mãe, o rei tem aquilo roxo!

No que escutou, rei Nando inicialmente se espantou com a exatidão do comentário. Adiante, já refeito do impacto sentido, e por achar que até granjearia respeito com a divulgação, ele se apropriou da expressão escutada. E, em sua peroração à massa, declarou ter realmente "aquilo roxo". Pouco atinando que tudo não passava de um simples arroxeamento pelo frio nos "anexos da estrovenga", eis toda a verdade.

sábado, 10 de maio de 2008

COM A CARA E A COVARDIA

Lourenço era o tipo do sujeito frouxo. Desses de levar desaforo para a casa porque, na "hora R" (de reagir), já se via... Lourenço se punha atremer que nem palma de coqueiro-babão. E... pernas para que vos quero, não está mais aí quem falou, Deus é grande mas o mato é maior, enquanto eu correr meu pai tem filho, para os mortos sepultura e para os vivos... escapula! Boi é pouco, Lourenço dava logo a boiada inteira para não entrar em briga, discussão ou entrevero (com o magarefe do bairro, então avaliem).
Poltronaria à parte, havia um projeto por que Lourenço se babava de um modo torrencial. Ir, pelo menos uma vez, ao Forró do Arnaldo que existia e dava função nas proximidades de sua residência. Principalmente quando, ao portão de casa, ele via o desfilar do mulherio a caminho do forró. Cada mulher de deixar Lourenço entre embevecido e assanhado. Numa de imaginar-se em plena sessão bate-coxa com uma delas, depois com outra e outra, botando para fora (epa!) a própria timidez.
Mas... cadê coragem para adentrar aqueles domínios de cabra-macho? Sim, porque outra coisa não era o Forró do Arnaldo. A dar crédito a umas tantas histórias que circulavam pelo bairro, e que causavam frio na espinha de quem as ouvia, era bem perigoso o arrasta-pé. Havia acontecidos em profusão que patenteavam a macheza de seus freqüentadores - uns homens capazes de, a uma minúscula provocação, logo estripar quem na frente estivesse! De fato, assim não dava para Lourenço, o Frouxo. Que sentia contorção intestinal só ao pensar em tal ambiente metido.
Ah, não estando sob forte coação, naquele local ele jamais poria os pés!... Coragem não é dor-de-dente que dá em todo mundo!
Um dia, porém, Lourenço se viu obrigado a fazer das tripas (epa!) coração. Por haver aceitado um convite da parte de Ermelinda - mulher de fechar o shopping center - para ir ter com ela, sabem onde? No Forró do Arnaldo, acreditem, e não podendo faltar! Pois Ermelinda era a personagem mais habitual em seus devaneios de rapaz solito. Mas que agora, graças a Deus, começaria a perder a diafanidade, para se tornar um ente de carne e osso (mais o primeiro item) a entrar em sua vida. Desde que ele, claro, não perdesse bestamente a oportunidade ali surgida.
Convém dizer que Lourenço, instantes atrás, ao passar Ermelinda perto dele, deixara escapar uma espécie de assovio. Coisa de quem sofre de dispnéia suspirosa. Nada a ver, portanto, com algum assanhamento que estivesse a apresentar, embora a rapariga (no sentido bom, lusitano da palavra) lá isto bem merecesse. Só que, havendo interpretado o assovio por galanteio, a boazuda da Ermelinda se achegara para um papo inicial, vindo daí o convite. E para vir depois o xodó, o amor, a paixão, bastaria Lourenço não fraquejar.
Forró do Arnaldo, às nove horas da noite, como ficou combinado. Com o coração dele, a partir daquele "até logo", indo do peito para a boca, e voltando, o sangue cedendo lugar à adrenalina... Mas, como ainda havia hora e meia pela frente, que fazer? Que fazer? Bem, tomar algumas cervejas no boteco em frente ao forró. Assim, matava-se o tempo, amenizava-se a ansiedade e, nesse entrementes, ainda podia se submeter a uma anteprova de cabra-machismo (pois era no boteco onde muitos costumavam "fazer a base" para entrar no forró). De que, se ele saísse com louvor, ficaria cheio de moral para enfrentar o arrasta-pé.
Feito! Ei-lo, então, a pagar a conta no boteco. A seguir, meio sobre o intrépido, ei-lo a atravessar a rua para entrar no Forró do Arnaldo. Onde Ermelinda toda amorosa, gentil e sensual, estaria a esperar por ele, certamente. Enquanto Lourenço, prelibador é o cão, já a sentir que a pressão ia dar, que a voz não ia embargar, que as pernas não iam tremer... Só pensamento positivo, afinal, que nada de ruim, desagradável ou funesto lhe poderia acontecer. Estavam contidos todos os medos, pânicos e fobias. Tudo por amor à Ermelinda.
Agora, ei-lo a receber na palma da mão a inesquecível carimbada. Como quitação aos cem cruzeiros desembolsados para entrar no Forró do Arnaldo. E, no momento imediato, ei-lo já a exibir o insólito ingresso (que vem a ser a própria mão carimbada) ao crioulão porteiro... Quando este, de um modo absolutamente inoportuno para quem a todo transe busca o autocontrole, crava-lhe a terrível pergunta: "Tem faca?" E, indiferente a um apavorado "n-n-não" que é o que sai da boca de Lourenço, nisto não fica o crioulão. A fim de que Lourenço use à cintura, enquanto durar a festa, vai, oferece-lhe um exemplar (dentre os muitos que estava a distribuir) do chamado objeto cortante que tem cabo e lâmina. Com esta recomendação final: "Devolve na saída."
Mas que saída? Se não aconteceu ali, como não acontecerá jamais, a entrada de Lourenço no Forró do Arnaldo. Por mais que lá vicejem as ermelindas.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

MARCHA À RÉ

1
Com o primeiro automóvel fabricado no Brasil surgiu também a imagem ideal para descrever o desempenho da nossa economia.
Vamos lá.
É que coube a JK, no fim dos anos 50, como pai da nascente indústria automobilística, o mérito de engrenar a primeira. E a Jânio (sob os seus protestos de que o veículo não era movido a álcool), a segunda marcha. Quando o veículo, então, tomado de enguiços ocultos, deu pinotes, estancou.
Jango pegou o volante, tendo problemas com a caixa de câmbio. E bastou dar uma guinada à esquerda para fazer o veículo tombar.
A seguir, fardados motoristas se revezaram na direção do veículo. Engrenando a terceira, a quarta... O carro era o "milagre brasileiro". E nós obrigados éramos a usar o cinto de segurança nacional. Sei não, mas como a conjuntura internacional na época se mostrava favorável, sou hoje levado a pensar que o carro estava "na banguela". Ou, então, simplesmente a reboque da economia norte-americana.
Com Figueiredo a farsa acabou. Gostar ou não gostar do cheiro dos cavalos foi a questão do seu tempo.
Nos anos 80, o automóvel só andou com o freio de mão puxado.
E veio a era Collor, com o carro enfrentando uma crise de identidade: provar que não era carroça. Aí, tome marcha à ré nele!
Teríamos recuado muito, não fora o roubo brabo de combustível.
Mas, o fato é que chegamos. De volta ao passado. O homem (ao volante) é Itamar, a mulher pode não existir e o carro é... o fusca.
Cada economia tem o Deus ex machina que merece.
2
O Brasil não tem um animal-símbolo. Como os Estados Unidos que são lembrados pela águia que, a nosso ver, não passa de um símbolo rapinado da antiga Roma. Como também a Rússia, a Grã-Bretanha e a Austrália, importantes nações que, de modo informal, são representadas pelo urso, leão e canguru, respectivamente.
Mesmo a Sereníssima República de San Marino já tem o seu símbolo oriundo do reino animal: a ameba. E a África do Sul acaba de se fixar na zebra, um animal branco de listras pretas (ou vice-versa, conforme o CNA), símbolo mais que perfeito para o país do apartheid!
O Brasil não se chama Peru para estar, por motivos óbvios, dispensado da escolha do seu animal-símbolo. Nem se chama Serra Leoa. Nem República dos Camarões. Por isso, não pode desprezar essa estratégia de marketing, usada há muito tempo por empresas, partidos políticos e times de futebol.
Urge, assim, escolhermos o animal que nos sirva de referencial no chamado concerto das nações. Com todo o merecimento, já que somos o berço do jogo do bicho e que é aqui onde o horóscopo manda ver.
Então, declaremos aberta a temporada de caça ao animal que vai simbolizar o país. Com a esperança de que ele, devidamente subjugado, aceite o espinhoso cargo. Pois, conforme o caso, podemos ameaçá-lo com a jaula, o empalhamento e os nossos estômagos.
Sugestões já estão sendo recebidas. Dentre as quais, a de um nome que, numa seleção ampla e irrestrita, deve se mostrar imbatível.
O caranguejo. Que, igual ao Brasil, tem o aferrado costume de andar para trás.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

ESMERALDAS

Antologia de prosa e poesia publicada em 1993 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Patrocínio: UNIMED de Fortaleza.
Autores: Antero Coelho Neto, Caetano Ximenes Aragão, Celina Corte Pinheiro, Cleto Brasileiro Pontes, Chico Monteiro, Claudio Gladiston Lima da Silva, Dalgimar Beserra de Menezes, Elcias Camurça Filho, Emanuel Carvalho Melo, Francisco Nóbrega Teixeira, Flávio Leitão, Geraldo Bezerra da Silva, Hamilton Monteiro dos Santos, Helvécio Neves Feitosa, José Maria Bonfim, José Rômulo Barbosa, Luiz Gonzaga de Moura Júnior, Luiz Teixeira Neto, Manassés Claudino Fonteles, Marcelo Gurgel Carlos da Silva, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Pedro Henrique Saraiva Leão, Roque Muratori, Sinara Targes Perfeito, Tarcísio Diniz e Walter Miranda.
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda.
Tiragem: 2.000 exemplares.
Livro com 178 páginas.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

DR. CARTA PÁCIO E O LOTEAMENTO HUMANO

Encontrava-me no diário jardinar, entre muitas flexões e reflexões, quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão. Ante a surpresa tão rude, não sei como pude chegar ao portão. Mas, cheguei e ... Ah, como eu já conheço aquela letrinha gótica! Pois lendo o envelope bonito, em seu sobrescrito eu reconheci: Dr. Carta Pácio, o missivista-filósofo da mirabolância!
Eis na íntegra a sua última carta:

"Prezado senhor,

O assunto ao qual chamo a sua atenção é da mais alta importância, uma vez que se relaciona com algo que nos é muito precioso: o corpo. Alicerçado em que consultei, à exaustão, os compêndios de anatomia de minha privada biblioteca (privada enquanto adjetivo, bem entendido). E que, após a tal consulta, acabo de chegar a uma irrefutável constatação. O homem tem - pasme o senhor! - o domínio útil do seu corpo, mas em verdade não é dele proprietário. Quer dizer, ele ganhou o corpo do qual deve tirar proveito (antes de o dar aos vermes); no entanto, ele chegou tarde.
Isto porque os homens da ciência - anatomistas, na maioria - estabeleceram o loteamento da carcaça humana. Nada deixando a que não se reportassem através de um de - partícula que confere relação de posse. A começar por Adão, não propriamente um anatomista (apenas um nomeador dos seres vivos em geral). Quando deu o nome a este belo pomo que o senhor carrega no pescoço, integrando os seus caracteres sexuais masculinos. O que é, aliás, aceitável, Adão, o super Adão, foi o pai primordial. Em nenhuma hipótese, porém, eu coonesto o que aconteceu depois.
Por exemplo, um guerreiro grego, naquilo que ele tinha de mais frágil, emprestar o nome ao mais robusto tendão do corpo humano. O guerreiro Aquiles, e chega a ser irônico o fato. Como também não coonesto o loteamento do homem pelos anatomistas de todos os tempos e lugares, só porque o dissecaram com o fim de estudo. E aproveito aqui para nobilitar os precursores da ciência que trata da forma e da estrutura do ser humano. Demócrito, Anaxágoras, Alcméon, Empédocles... mas esses homens eram uns filósofos!
No corpo humano não há ligamento, esfíncter, aponeurose, válvula, prega e forame que não pertença a algum anatomista do passado. São exemplos do que eu digo o gânglio de Gasser (neurogânglio sensitivo do trigêmio), as pregas de Kerckring (da mucosa do intestino delgado) e de Houston (da mucosa do reto), o coxim de Bichat (a massa adiposa da bochecha), a cisterna de Pecquet (dilatação da extremidade inferior do ducto linfático), a válvula de Braune (na junção do esôfago com o estômago), a aponeurose de Dupuytren (fáscia que reveste os músculos da palma da mão), o forame de Vesalius (orifício do osso esfenóide), o ducto de Stenon (da glândula salivar parótida)...
A relação é por dizer interminável. Máxime porque, numa certa fase da retalhação anatômica, passaram a nomear os ângulos. O que Broca, Camper, Alsberg, Daubenton, Mulder, Ranke e tantos outros fizeram ao crânio. Os espaços. O que Traube, com igual espírito, fez ao lugar ocupado pelo estômago... Sei não, mas fica a parecer com outros loteamentos por aí, que não primam exatamente pela honestidade. O espaço de Donders, que fica entre o dorso da língua e o céu da boca, quem é que cai nessa? Só o incauto - e com alguma salivação, acrescento.
E não parou aí a volúpia loteadora. Com o advento da microscopia óptica, os histologistas e os citologistas entraram na jogada. E tome aparecer uma alça de Henle no rim, uma célula de Clara no pulmão, outra de Küpffer no fígado. Até mesmo ilhotas, como as de Langerhans no pâncreas. (Ah, o ideal de possuir uma ilha que a poucos é dado concretizar!) Também os embriologistas. E tampouco sei onde tudo isso vai parar. Agora, principalmente, que a microscopia eletrônica mostra tudo em nível subcelular. Está aí o aparelho de Golgi que não me deixa mentir.
Ainda bem que não é pela enfiteuse. Neste regime, além de pagar foro anual a essa turma toda, seríamos obrigados a conservar órgãos, aparelhos e sistemas... sem qualquer deterioração. E isso, meu prezado senhor, simplesmente não o fazemos.
Aguardando uma resposta abonadora, renovo-me seu, sinceramente

Dr. Carta Pácio."

Que desatualizados cartapácios não deve ter lido o Dr! Para ignorar que a nomenclatura anatômica de há muito aboliu os epônimos. Pois estes, além de nada significarem morfológica e funcionalmente, por vezes não passavam de uma injusta homenagem histórica.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

BRIGAS NA COZINHA

1
Na mesa posta, o frango desossado
(lembra o tempo? Ah, o tempo
em que eu era mais amado!)
o arroz à grega
para troiano nenhum botar defeito
que eu comia até dizer "chega!"
com aqueles anéis de cebola a dorê
tão supimpas (que a Deus eu pedia tivessem
o tamanho do bambolê);
e também a salada russa - uma tese
de gastronomia, porquanto não carregavas tu
a mão na maionese.
Depois de tudo, o arremate
sem o qual não fazíamos amor:
a mousse de chocolate.
2
Éramos pessoas de raro brilho
e nos amávamos
lambuzados em mel de milho
no piso frio da cozinha
enfrentando Deus, o mundo, o enxamear das moscas
de uma estrebaria vizinha.
Mas havia tamanho zelo
entrega, confiança mútua, que um do outro não escondia
o picador de gelo
tampouco a chave do freezer
como se à natureza humana de todo impossível fosse
cair em deslize.
Raras, as nossas animosidades
eram sempre trituradas num super-liquidificador
de seis velocidades.
3
Um dia, porém, deu-se o tal disparate
(quando eu, com a paciência de um preto velho
tirava a pele dos tomates).
Ai que me disseste: "melão com presunto
é o que existe de mais opíparo."
O que me fez rir te ti, do teu bestunto
outrora conhecedor sem igual da arte
gastronômica, coisa e tal...
E fiz um aparte
no qual, do cimo de um traquejo
mil vezes vencedor na prova de encher a terrina
com pequeninos cubos de queijo,
eu defendi ser o quibe
mesmo feito de véspera, a mais fina iguaria existente
(na verdade, a minha diatribe).
4
Nisso, ao nível de um espremedor
de frutas, eis que um ato (doloso!) de tua parte
por pouco não me fez perder o indicador
e o rosto meu, que só a brisa
antes tocava
viu-se de encontro a um disco de pizza,
como se eu fosse um bandalho,
vil, reles e desprezível ser, e não um homem
passado na casca do alho.
Então, peguei de um repolho (era roxo!)
para o revide
(que um homem é um homem, não é um frouxo!)
e, em seguida, derramei sobre ti, ó bastarda
nas tuas inesquecíveis saboneteiras
até a última gota da mostarda.
5
Sim, vá lá que o rolo de pastel
para meu azar tão destramente por ti empunhado
fizesse em mim escarcéu
e que tanto levasse daquele tacape
a ponto de acabar desmaiado
numa poça de sangue e ketchup...
Em pleno emborco,
com tu, ó exterminadora, ainda cogitando em usar
a faca de furar porco
e a agulha de costurar
bife a rolê...
(Pelo que sou hoje levado a repudiar
o cretino, o farsante, o seja-lá-quem-for
que, um dia, falou para não se bater em mulher
nem com uma couve-flor.)
6
Por conseguinte, minha cara, deixemos para os pomos
a discórdia e nos reconciliemos já:
civilizados somos!
Que, em sinal de harmonia, eu te ofereço amor,
um moderno filtro de parede
e um exaustor,
o qual tornará mais suportável o borralho
(sem que suprima, é verdade
o eterno problema do cheiro do alho).
Pois antes, muito antes do que pensas
neste cálido recinto de forno e fogão
(onde as carências tuas são imensas)
de mim - quem sabe? - tu precisarás
para que eu faça a troca do teu vazio
botijão de gás.

domingo, 27 de abril de 2008

O VAMPIRO NORDESTINO

Bem diferente do congênere da Transilvânia, na década de 30 vivido no cinema por Bela Lugosi, o vampiro nordestino não é de estirpe nobre. Quando muito, teve um tio-avô pelo lado paterno que, havendo travado escaramuças com a Coluna Prestes, em pagamento recebeu na época a honraria de coronel. E também não é um ser de hábitos noturnos que, com fidelidade, possa ser enquadrado na estética dark. Pois ele age tão-somente à luz do dia, mesmo porque não conta com uma criadagem expedita que cuide de seus outros interesses.
Gibão de couro, blusa e calça de mescla, chinela de rabicho - eis em que se resume a indumentária do bicho. E na hora do transformismo não vira morcego, não. Ele se transforma numa libélula, em tudo indistinguível da popular lava-bunda que adeja sobre as poças d'água na caatinga. Mas é preciso ficar explicitado que não é uma libélula deslumbrada. Nessas horas em que há muito drácula "crepusculando" por aí, esquecido de que no passado todo vampiro era macho-chô. Haja vista, a exemplo desta contrafação, o bissexualismo do drácula de "A Hora do Espanto".
No cinema nacional, parece que só o José Dumont tem o seu physique du role. Mas, ainda assim, precisando de alguns retoques para a caracterização. O vampiro do Semi-Árido, por exemplo, tem os caninos assustadores (que nem os do colega da Transilvânia) mas não tem os dentes centrais. Daí o apelido que, na primeira vez que escancarou a boca, o vulgo de imediato lhe pespegou: 1001. Contudo, ser um deficiente odontológico não faz dele uma reles sanguessuga. Ao contrário, escora como poucos da categoria um mocotó alheio.
Agora, como fica o sugado depois de uma sessão vampiresca é coisa que o banco de sangue nem de longe consegue. Embora, ultimamente, esteja cada vez mais difícil a nosso vampiro encontrar uma vítima adequada. Minguado como se encontra o hematócrito do matuto (inclusive o do matuto que habita uma dessas "ilhas de prosperidade"). E, quanto ao vampiro já ter sido visto a fuçar bacias de chouriço, eu digo que procede a história. A tanto obriga a sobre-humana necessidade que ele tem de sobreviver.
Então, já se prevê uma adaptação para o vampiro do Semi-Árido: ele passará a chupar linfa. Sem abandonar o mocotó, claro.
Idiossincrasias à parte, o vampiro nordestino é antes de tudo um forte. Surpreende por ser dificílimo de combater. Alho é fichinha, cruz nem pensar (pois no plano religioso é sincretista, funde Deus e o Diabo na Terra do Sol). Não se deixa atrair por absorventes íntimos usados. E, com uma acha ponteaguda cravada no coração, ainda assim ele sobrevive. Como também sobrevive aos "aposentos" recebidos com atraso com o carnê do Funrural.
A grande atribulação do vampiro nordestino vem da parte de seus concorrentes alados. Quando a noite cai no sertão e ele, em sua rede preta, cai... no sono. Aí, é ele incontinenti cercado por esquadrões de muriçocas, percevejos e barbeiros. Havendo ainda a participação de um livre-sugador, o morcego hematófago, o qual pode ter tudo menos senso corporativista.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

JORGE, UM CEARENSE

No local combinado e na hora marcada – com apenas um dia de atraso – consegui iniciar a entrevista de Jorge, esse conterrâneo que vive sob os spotlights da fama. Ele chegou meio mal-humorado, por haver um pouco antes chutado uns paralelepípedos fora de ordem na Rua Tabajaras, e suas primeiras palavras foram de desabafo: “Veja você o que é o comportamento do povo cearense. A caminho desta entrevista, tive de agüentar um ônibus cheio, com as pessoas se apertando como aspargos numa lata... Uma senhora gestante, aí pelo sétimo ou oitavo mês, com um filho remelento ao colo, nem ao menos teve a cortesia de me ceder o assento que ocupava... Quanta indelicadeza, meu Deus!”
Bem, como em matéria de ônibus cheio eu não sou nenhum “pino que satisfaz”, de imediato concordei. Mas, já percebendo que Jorge, com aquele linguajar de “aspargos em lata”, havia-se aculturado. Nos velhos tempos, ele teria dito “caranguejos no surrão” que, a par da superior força comparativa, é uma expressão da maior cearensidade. Se bem que, na presença dele, eu prudentemente evitasse comentar isso. Para não o melindrar, Jorge é difícil “pacas”. E uma pergunta desajeitada, um posicionamento contrário, um ruído diferente do gravador (ou que sei mais eu?) podia levá-lo a bruscamente encerrar a entrevista. Com isso prejudicando, por desídia do repórter, um leitorado que é sempre tão ávido de informações sobre Jorge bem como o que ele pensa.
Acontece que Jorge, como homem de ação, apresenta uma agenda mais cheia do que o calendário turístico da Bahia. E já se constituía num grande tento jornalístico eu estar com ele, ali, numa das mesas do Estoril, imobilizado para um depoimento. Era, daí para frente, não assustar a criança que... “É um erro o individual se submeter ao coletivo, principalmente se tiver dinheiro para o táxi.” Pronto! Ainda com laivos daquilo que recém o aborrecera, mas já era Jorge criando uma de suas frases lapidares. E, ao mesmo tempo, com a graça e a simpatia de volta ao rosto, era ele já sinalizando o começo de um depoimento. Quando, então, podia-se agora apostar, ele deitaria uma enorme falação, dessas de deixar para trás qualquer taxista de corrida longa.
Antes, ainda um compromisso ele me cobrou. Não publicar, em hipótese alguma, a entrevista numa terça-feira “para não se misturar com o material de segunda de que os jornais, nesse dia da semana, são feitos”. Eu não só aquiesci como também, com um generoso acréscimo de minha parte, comprometi-me de que... nem o seu necrológio. E me postei a ouvi-lo – ora discorrendo no bom português, ora na “língua do pê”, ora no “gestual arranhado” – em suas fluentes considerações sobre os mais diversos assuntos. Já, de cara, convencido de que eu estava lidando com o mais acabado referencial da intelectualidade brasileira. Do Oiapoque à Marilena Chaui.
Ele, com a palavra: “O Brasil, ora veja. De país abaixo do equador está passando a ser abaixo do Equador, tão ruim que se acha. Observe a nossa economia: ninguém acredita em nossa moeda, ela serve para jogar cara ou coroa, calçar a perna de uma mesa... e para mais o quê? Se não temos, como os portugueses, um escudo que nos defenda da inflação. Ou se não colocamos, nas cédulas, retratos do Golias, Costinha, João Kleber e outros comediantes, que é para dar mais seriedade... Por isso, cabeleireiros e decoradores têm adotado o milenar sistema de trocas, o qual, aliás, trata-se de um evidente recuo. Enquanto a política aqui não passa de uma arte para administrar a mentira, advogo que devemos aperfeiçoá-la nem que isso nos custe uma fortuna em jetons. E a História? Não explica o que aconteceu entre João XXIII e Joãozinho XXX, o que, pensando bem, é melhor que fique em silêncio. Mas, retomando o assunto da economia: quem sabe a fórmula para oxigená-la é o economista luso-americano Mr. White Martins, ninguém mais. Ou se faz o que ele diz ou, em breve, estaremos todos comendo farofa de alfinete. Mas o que ele diz? O que ele diz, sei lá, muda o que diz a toda hora... Ah, não comer do mel que é servido na ponta de uma faca, parece um provérbio tibetano, não é? Mas é dele, Mr. White. Como também é dele se dizer para não comer do mel enquanto as abelhas voam atrás... Bem, quanto a mim, tenho uns narcodólares ganhos honestamente que me permitem uma existência digna, comparável a do cachorro-ser-humano do Magri. E quer saber de uma coisa? Essa lei em tramitação para revogar a Lei de Gerson não passa. E se passar não vai pegar.”
Quando fala Jorge George Bizarria (o seu nome completo) é aquela catadupa de idéias, imagens e frases. E, quando há umas cervejas na jogada, surge-lhe logo a irrefreável vontade de ir ao banheiro. Mas, leitor amigo, não se diz que, quando um brasileiro decide tirar a água do joelho, o outro idem? No que ele se dirigiu ao banheiro do Estoril, eu também me piquei (epa!) no mesmo rumo. Um detalhe interessante: lá, usando as forças motrizes de nossas micções, disputamos a ver quem empurrava mais aquelas bolinhas de naftalina colocadas na calha do mictório. Ah, felizmente não foi uma aposta a dinheiro pois – menos prostático que eu – ganhou ele.
Em seguida, retornamos à mesa onde nos esperava um barulhento grupo. Com um abaixo-assinado para acabar com a poluição sonora na Praia de Iracema, a hoje designada “praia dos amores que o bar carregou”. Ora, durma-se com um silêncio desses... De qualquer modo, em meio ao alarido que o grupo fazia, eu aproveitei para mostrar a Jorge o meu recente exame audiométrico. Como a prova de que não sou um repórter mono-auricular, ouço sempre os dois lados da questão. Mesmo que o lado “B”, como nos discos do Gonzaguinha, não costume prestar.
E a entrevista, daí para frente, continuou no melhor estilo pinga-fogo porque assim preferiu Jorge.
Uma cor? “O amarelo que um dia persuadirá todos os gostos. A propósito, já que você falou em cor, eu defendo a idéia de que antes do quadro deve-se pintar o cavalete.” Uma pedra? “De preferência fora do sapato.” Um trabalho? “Terminar a minha tese: Porque à visão do prato de fritas o saleiro não funciona. É batata, não funciona mesmo.” Uma frase? “Não vamos nos dispersar, que é de Tancredo Neves quando ainda não havia conhecido as bactérias do Hospital de Base.” Um time de futebol? “O Politheama, do Chico Buarque, que é dono do campo, da bola, das camisas e do apito.” Uma declaração de amor? “Mulher que eu amo não sujo com dinheiro.” Um livro? “Zélia, a Grande Mentecapta.” Um prato? “Baconzitos, que eu gosto de comer na cama com Petúnia, a minha deusa neo-punk.” Um passatempo? “Matar moscas com o jornal dobrado.” Uma virtude? “A da originalidade em tudo o que faço, minha própria sombra me considera um ser inimitável.” Um espírito exemplar? “O poeta singular que foi Vinício de Moral.” Uma preocupação ecológica? “Transfiro-a para os filhos do vento fresco com a mata virgem.” Um defeito? “Ora, basta de confidências, pois nem o meu travesseiro até hoje me arrancou tantas...”
Dito isto, levantou-se. E, com o ar de quem estava dando o papo por encerrado, ante a minha pergunta de quais seriam as suas últimas palavras, foi peremptório: “Não farei como o Aurélio que disse zurzir, zwingliano e morreu. Nessa situação, exclamarei: Ah! A interjeição que é a um só tempo dor e alegria, como a significar o espanto, a ironia por ter que recomeçar tudo em algum outro canto do Universo.” E retirou-se, deixando-me com a sensação final de que acabara de atravessar um oceano de sabedoria. Com apenas dois centímetros de profundidade, sim senhor, mas, de qualquer forma, um oceano de sabedoria.

Em tempo – Por uma questão de fidelidade aos fatos, devo registrar que as suas últimas palavras a este repórter foram verdadeiramente estas: “Neste restaurante, tem uma conta que eu não estou a fim de pagar. Mas espero que você reaja de modo oposto, abrangente e, se possível, sem chiar.”

domingo, 13 de abril de 2008

MEMÓRIAS DE CUBAS...

Tinha eu quatorze ou quinze anos de idade quando atendi pela primeira vez ao chamamento do álcool. Enturmado com alguns amigos do meu bairro, numa daquelas tardes que as responsabilidades não trazem mais. Um despretensioso ponto de venda de utensílios domésticos - cujo dono se acumpliciou conosco na armação - serviu de palco ao acontecimento em questão. Pelo fato de que lá não se vendeu, naquela tarde memorável, panela, jarro, moringa ou cinzeiro (feito tudo de barro). Ocupando-se apenas o estabelecimento - com o dono em seu novo papel de barman - a receber um grupo de cinco rapazes que andavam a fim de uma "malinação".
No interior do modestíssimo estabelecimento, com a porta fechada a tramela para que outros não adentrassem, lá estávamos nós. Sentados em bancos improvisados (caixotes), a provar do mel proibido. Em particular, eu temia a quem aparecesse de intrujão para depois sair me dedurando (ao pai, ao mestre-escola, ao juiz de menores etc). E, partilhando o temor com a rapaziada, eu também receava uma outra coisa. Por conta de algumas doses acima da conta, perder as tais estribeiras.
Ninguém da turma apresentava uma idéia exata de quando o álcool "pegava". E ficávamos olhando, uns para os outros, em busca dos sinais denunciadores. Rir à toa, dizer um disparate, engrolar a fala, por aí...
O fato é que bebericávamos com todo o cuidado. Cheios de línguas. Antevendo inclusive que, ao fim daquela reunião secreta, cada um tinha de chegar a sua casa com o poder pátrio sobre as próprias pernas. Por isso, nada de "chorar" muito à hora de pôr o rum no copo. E, como precaução extra, diluir bastante a dose colocada em Coca Cola, gelo e suco de limão.
Pois é, dá para notar em que eu fui me escorar para o primeiro porre de minha vida. No espírito da cuba-libre.
E, como tudo mais no Brasil, aquela bacante reunião terminou em samba.
Depois, em oportunidades outras de minha existência, fui sendo paulatinamente apresentado no vasto círculo das bebidas. Cerveja, Gin, Vodca, Cachaça, Vermute, Uísque (o cachorro engarrafado, segundo Vinicius, por ser o maior amigo do homem), Martini... A propósito, por uns tempos andei seco por um Martini idem. E houve ainda o caso do Vinho que me perguntou se eu estava a sofrer de amnésia alcoólica. Mas que, em seguida, não se negou a me socorrer a memória.
- Na sacristia, lembra?
- Ah...
Agora dois dedos de prosa sobre a cachaça. Pelos terríficos efeitos em minha economia (palavra aqui usada com o significado de organismo animal ou vegetal em plenitude de suas funções), ontem como atualmente, não me entra. A não ser muito bem disfarçada de caipirinha, coquetel, leite-de-onça... Ao contrário da cerveja, cujos domínios espumantes muito já tenho frequentado e que, por isso, sobre ela o meu comentário é este: aprovo-a com louvor. Ainda que procure beber dela cada vez menos, pedindo ao garçom que não deixe juntar muitos cascos em minha mesa. Afinal, o público merece respeito.
E como já sofri com as carraspanas! Da cefaléia, o carro-chefe deste tipo de suplício, ao afamado gosto de cabo de guarda-chuva na boca, passando pela sensação de ter matéria ígnea no estômago, que chega mesmo - suprema humilhação! - a me transformar em vulcão de banheiro. Hoje, porém, isso não acontece mais comigo. Depois que, numa atitude de volta à origem, aderi de copo e alma ao rum-doce-rum, o qual vem me proporcionando um day after absolutamente normal. E, sem explicação científica para o fato, dado que o fenômeno não se repete em outras pessoas que experimentam a rústica beberagem.
Bem, dizer que aderi de copo e alma não passa de um trocadilho. E também de um exagero. Apesar de que busco, nessa muralha chamada vida (Huxley falou), aqui e acolá abrir umas portas da percepção. Com todo o cuidado, porém, para não virar o alcoólatra da Regra de Jânio da Murphologia.
Mas... o que diz esta importante regra?

Isto: "Alcoólatra é o sujeito que bebe mais do que o seu médico."

sexta-feira, 11 de abril de 2008

1992

Valerá a pena estar acordado em 1992?
Diante do que o o presidente Collor recentemente anunciou, dando este ano como sendo de arrocho e dificuldades e prometendo algum alívio somente em 1993, presume-se que não.
Por isso, não fique na recessão esperando a depressão chegar. Fuja de ambas as situações da melhor maneira que existe: dormindo.
Encontra-se em nossa cidade o Dr. Rip Van Winkle para ministrar um curso de sono prolongado. O notável mestre, que acumula em seu saco de dormir a experiência de haver dormido 20 anos ininterruptos, foi discípulo de um outro não menos notável, o grego Epimênides. O qual, por sua vez, logrou dormir 57 anos a fio, com a alma desagregada do corpo a estudar Filosofia e Medicina.
Se você está interessado, compareça logo ao Palácio de Morfeu. Trazendo apenas colchonete, travesseiro, pijama ou penhoar (conforme o sexo), tampões de ouvidos, lençol e cobertor.
Enquanto estiver sob seus soníferos cuidados, equipes de monitores treinados encarregar-se-ão de:
- trocar periodicamente os lençóis molhados;
- sacudir o dormidor acometido de pesadelo (mas com o cuidado de não o acordar para a realidade que pode ser bem pior);
- massagear-lhe as panturrilhas e, caso tenham sido previamente solicitadas, outras partes (não-erógenas) do corpo;
- completar o nível de água do copo com a dentadura;
- perseguir de forma implacável grilos, percevejos e pernilongos que ousem entrar no recinto;
- e reconduzir o sonambúlico de volta ao leito.
Dr. Rip Van Winkle não usa porrete, pêndulo, barbitúricos ou mosca tsé-tsé. Apenas o poder natural da persuasão - que teve a aprovação unânime da Food and Drug Administration - acrescido de ligeiras pinceladas acerca de como vai ser o presente ano. Sinta aí: inflação, choques econômicos, mais inflação (com soluços), AIDS, corrupção, cólera, CPI, 59º imposto... Por isso, é largar ou pegar... no sono, e quem tem juízo escolhe a segunda alternativa, claro! Mesmo porque o Mestre do Sono não é de conversar para boi não dormir.
Atenção! Por não se tratar de eletrossono, o método do Dr. Rip Van Winkle não remove os macaquinhos do sótão. Nem faz você ir dormir Ibrahim e acordar Merquior. Apenas ajuda a atravessar o inditoso ano de um modo absolutamente indolor, como se você estivesse dos pés a cabeça untado de xilocaína.
Concluindo o ano de sono, receberá o dormidor um certificado. Para a justificação de todos os compromissos não atendidos, inclusive os relacionados com a Receita Federal. E receberá também uma sinopse do noticiário econômico e político do País. A fim de bem se sair numa questão que, no pós-despertar, inevitavelmente vai formular a si próprio.
Valerá a pena estar acordado em 1993?
Pelo sim e pelo não, no ano seguinte Dr. Rip Van Winkle vai estar novamente a postos.

* * * * *

No início do ano, a TV Globo botou uma parte do seu elenco de profissionais a serviço de uma proposta. Esta: convencer o brasileiro a fazer (depois de inventar e tentar) um 92 diferente. E, para dar o recado global, é que aconteceu na telinha o maior troca-troca artístico. Em que diretor fez esquete, apresentadora sapateou, ator dedilhou violão, atriz cantarolou e até o Primo Rico virou o Primo Pobre (e vice-versa). Ficando assim demonstrado - via exemplos famosos - que qualquer um tem condição de trocar o ramerrão cotidiano por experiências que desenvolvam os pendores latentes.
Requisitos para tanto: uma dose de boa vontade e um afrouxamento na autocrítica (este último fora do script, claro).
Felizmente, não estamos em 69. Porque aí, ocorrendo a proposta da Globo, verificar-se-ia um forte efeito perturbador no plano dos bons costumes. Com inevitáveis consultas - por parte dos erotômanos tupiniquins - ao "Kama-sutra", ao "Positions" ou mesmo à tão aguardada coleção de revistinhas do Zéfiro. Para se inteirarem sobre o que de novo estaria havendo sob o... teto espelhado dos motéis. Mas isto depois de terem eles dado trato às bolas, inventando e tentando, inventando e tentando... Afinal a Globo dixit.
Apertando o botão de forward até chegar a 1992. No reveillón, muito mais que a entrada neste ano, eu comemorei (e "bebemorei") a saída do ano anterior. Ah, intempestivo flui! Porque, para o meu próprio bem, eu devia ter ficado no limbo até as coisas melhorarem. Pois, de saída, aliás, de entrada o que já encontro no ano? As promessas do governo, políticos legislando em causa própria, o problema do menor abandonado, o do maior desempregado, o cartel do cimento, consórcios de carros dando trambiques, as estatísticas de mortos e feridos no trânsito louco, analfabetismo, tráficos de influências, corrupção e impunidade, as doenças se propagando a jato (o ministro, de bicicleta), a novela dos aposentados... Enfim, tudo como dantes no Quartel de Abrantes (inclusive a velha tara de ameaçar com botar a tropa na rua).
No país da "imexibilidade" que a mesmice é também perene, lá isto é. E, pelo andar da carruagem, digo, carroça não dá para acreditar em mudanças à vista. Salvo aquelas que aconteçam para continuar tudo igual, cravo e ferradura levando idênticas marretadas. Então, no meio dessa pasmaceira, vai que eu fique a pensar sobre o que é fazer um 1992 diferente. Um 1992 tão inusitado que o Gerald Thomas ainda não tenha inventado, nem o Cacá Rosseti tentado... Hum, está difícil... A menos que eu, para sair do dilema apresentado, seja tão inovador quanto consigo ser anacrônico.

Feliz MCMXCII, leitor!