sexta-feira, 29 de maio de 2009

GATO, TIJOLO & FAMÍLIA

Certa vez, atinou Monteiro Lobato com a grande quantidade de conceitos e definições que existiam para o humor. Uns pretensiosos, outros científicos, ao fim das contas, muitos. O que lembrava a superabundância de remédios para a tosse, com a mesma limitação de que nenhum realmente servia. Para Lobato, a tosse e o humor apresentavam circunstâncias causadoras vagamente compreendidas. Daí o duplo fracasso: dos xaropes "peitoraes" (para quem se fiava nos reclamos) e dos conceitos, definições e que tais sobre o humor.
No que se refere à tosse, registra-se, porém, a nítida melhora do quadro. A partir do muito que se tem investigado sobre as causações dela. E, assim, a medicina já mostra, nos últimos tempos, apreciáveis avanços no sentido de debelar o incômodo sintoma. Máxime, quando consegue curar a doença que ocasiona a tosse. Quem já teve, por exemplo, uma bronquite na qual o rir é substituído pelo tossir, é que sabe valorizar essa conquista da medicina. E pensar, ilustre passageiro, que tudo começou com o Rhum Creosotado...
Mas, voltemos ao escritor paulista. Inconformado com a existência de uma definição - realmente satisfatória - para a questão do humor, que fez ele? Formulou uma, inteiramente pessoal, valendo-se do chamado método peripatético. Trocando em miúdos, aliás, porque estava sem eles, Lobato dispensou o ônibus habitual. E pôs-se a andar, andar, andar... enquanto matutava. Assim foi que, ao cabo de 6.201 passos, chegou a esta genial (porque simples) noção. "Humor é a maneira imprevisível, certa e filosófica de ver as coisas." Repare que cada adjetivo qualificador custou 2.067 passos, o rendimento do método.
Ele, melhor que Taine, Bergson e Freud, autores de ensaios clássicos sobre o assunto, foi quem solveu o problema conceitual do humor. E fê-lo numa linguagem clara, objetiva e derradeira, dando quinau nos espíritos sedentários (adeptos já naquela época do vale-transporte). Acredito mesmo que a concepção lobateana para o humor possa ser ilustrada por uma velhíssima anedota. Aquela sobre a diferença entre o gato, o tijolo e a família, cuja resposta consiste em atirar os dois primeiros numa parede. Pois "o que miar será o gato".
Embora pareça "jequíssima" a piada, ela contém os três princípios fundamentais de Lobato. Senão, vejamos:
É imprevisível. No pressuposto de que o leitor não soubesse a resposta, como procederia então? Inicialmente, no terreno do previsível, tentando identificar nos seres em questão a diferença. Aliás, as diferenças já que são muitas - o que também só faz complicar. O gato pertence ao reino animal, o tijolo, ao reino mineral. O gato recebe o nome científico de Felis cattus domesticus, já o tijolo tem o nome oriundo do espanhol tejuelo. Ou, ainda: este é fabricado pelo homem, enquanto aquele é o resultado do esforço gemebundo da espécie na noite dos tempos (apud Darwin). Etc. Ao fim da discussão, só o humor oferecerá a resposta imprevisível, isto é, a que não guardará qualquer associação lógica com a pergunta.
É certa. Fosse a resposta "o que voar será o gato", não haveria anedota alguma. Uma piada incide no exagero, na hipérbole, mas nunca na mentira. Ela não é assunto para um gato-de-botas. Em sendo uma maneira certa de ver, a piada pode ser comprovada na prática inclusive. No caso vertente: jogando o gato e o tijolo na parede, mas o que, convenhamos, não fica bem. Que eu saiba, não estou a falar para um fedelho em traje marinheiro, mal-comportado e com a ideia fixa de impingir maus-tratos a um bichano. Quer dizer, fazer dele gato, sapato e tamborim. O Lobato tá certo.
É filosófica. Pelo conselho pragmático que dá, ao mesmo tempo em que ajuda o aconselhado a compreender a realidade que o cerca. É o tipo do conhecimento que um dia poupará o leitor do vexame de comprar gato por tijolo. Gato (à exceção do importado que fala meow) é dado grátis na unidade, tijolo é vendido no milheiro. E que também poupará o leitor da atribuição de comer gato por lebre. Gato... Epa! Receio haver descambado para uma filosofice que não leva a nada. Puro engatinhar mental. Além do mais, cansei.
Quanto à família, vai muito bem, graças a Deus.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

E VIU QUE ISTO ERA BOM

  1. No princípio o Prefeito criou o Plano de Metas da Prefeitura. E disse: exista o Erário. E o Erário existiu. E da dotação orçamentária separou uma polpuda parte para que desfrutasse de salário, representação e mordomias. E viu que isto era bom.
  2. Disse também o Prefeito: O principal problema da cidade é o abastecimento de água. E abriu uma concorrência para a construção de uma adutora, uma estação de tratamento e uma rede de distribuição para o precioso líquido; além de chafarizes para os bairros mais distantes. A concorrência foi ganha por uma firma de engenharia de um cunhado seu. E viu que isto era bom.
  3. Disse também o Prefeito: Abram novas avenidas asfaltadas e arborizadas. E, numa atitude de homem devotado à causa pública, consentiu que as avenidas atravessassem uns terrenos seus até então pouco valorizados. E viu que isto era bom.
  4. Disse também o Prefeito: Sejam atendidos os pedidos de iluminação pública. E surgiram quarteirões bem iluminados de acordo com os reclamos dos vereadores de seu partido: verdadeiras ilhas de feérica iluminação no oceano de breu da oposição. E viu que isto era bom.
  5. Disse também o Prefeito: Seja feito o zoológico da cidade. E deu incumbência a seu filho mais velho para que organizasse o referido parque. Houve a injeção de fartos recursos financeiros e a cidade passou a ter o seu zoológico. O único do mundo com os animais exclusivamente em pôsteres. E viu que isto era bom.
  6. Disse também o Prefeito: Façamos as assessorias. E foram feitas, cresceram e multiplicaram-se em cargos de confiança de modo a garantir a seu esquema político uma poderosa máquina eleitoreira. E viu que todas as coisas que tinha feito eram boas.
  7. Assim, acabada a sua gestão, o Prefeito descansou. Certificando-se antes da magnitude da aposentadoria que a Câmara Municipal lhe votou e de que todos os seus parentes e apadrinhados estivessem aquinhoados com bons empregos.
Inspirado no Gênesis (1,1-2,3). Publicado no "Arsenal de Literatura" com o título de O PREFEITO CONTRA A CIDADE.


sábado, 23 de maio de 2009

ARSENAL DE LITERATURA

Faço uma breve pausa no Preblog das publicações de minhas colaborações literárias no DN - CULTURA para dar uma informação.
Encontrei casualmente na internet um documento intitulado Catálogo da Imprensa Alternativa (em arquivo PDF, com 183 páginas), originário da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, com verbetes sobre um grande número de periódicos alternativos no Brasil.
Dentre as publicações que o catálogo relaciona, encontra-se em sua página 14 o nome do "Arsenal de Literatura", uma revista que foi editada aqui no Ceará. Participei, em novembro de 1980, de seu projeto inicial (com o texto O PREFEITO CONTRA A CIDADE). Após o que eu não sei se a revista chegou a ter outros números.

sábado, 16 de maio de 2009

NUVENS

Em pequenino eu achava que os santos moravam nas nuvens. Cada santo em sua nuvem, conforme a importância. Se o santo era proeminente, a nuvem idem, de modo a traduzir o seu prestígio. Até chegar ao humílimo santo na humilíssima nuvem. Em outras palavras, esse mundo velho sem porteira, mundo cheio de desigualdades sociais, tinha o seu "repeteco" lá nos páramos, achava eu. Nos dias de hoje, chamo isso de visão antropomórfica dos seres celestiais. Ah!, mas eu punha os santos nas nuvens, conquanto não fossem elas negras!... As nuvens negras, esclareço aqui, eram só para os santos mutuários do Banco da Nublada Habitação. De santinho-do-pau-oco para baixo.
Um que destoava era São Jorge. No mister de aporrinhar o dragão, o santo inglês morava no local de trabalho. Na Lua, dindinha Lua. Desanuviado por convicção, o santo pelejador ainda mora lá. Fosse nefelibata, a sua inseparável lança teria virado um para-raios. Mas, raios! Por que santo (afora São Jorge), depois de uma existência terrena agoniada, escolhe ir morar numa nuvem a um pulo daqui? E por que, cargas d'água (ô expressãozinha apropriada!), após sofrer o diabo nas mãos dos dioclecianos da vida, santo resolve ir morar numa nuvem a um tiro de canhão daqui? Quando há os anéis de Saturno...
Eram perguntas da mente infantil jamais respondidas. E viver nas nuviosas fofuras... para santo tinha lá suas vantagens. Primeiro, não havia a monotonia da paisagem; segundo... Espere aí, a monotonia da paisagem talvez seja melhor do que esse eterna-metragem sensaborão. Da Terra para santo ver. Aliás, desde as famosas estripulias do Barão Vermelho que morar nas nuvens só apresenta desvantagens. O avião supersônico, o canhão a laser, o satélite "xeretão" e agora essa mania salobra da nucleação artificial. Eta costumezinho bobo! Como era antes: dia da faxina, a santarada em mutirão, São Pedro ao comando... "Hora de esgotar, pessoal!" E a chuva benfazeja caía sobre as plantações.
Quantas vezes eu me recostei na relva para apreciar o pleomórfico espetáculo! Sopradas pelo artífice vento, as nuvens a formarem enxundiosas figuras de animais! A anta, o rinoceronte, o urso, a ovelha... Ganhava de longe a ovelha. Aliás, o lanífero animal mais parecia - ainda parece - uma nuvenzinha que baixou à Terra. E eu via no céu outros animais também feitos do algodonoso material, mas isso em pequenino. Hoje, quando penso que Magalhães Pinto vislumbrou nelas a política, estraga tudo. "A política é como a nuvem; olha-se outra vez e já mudou." Pois bem, foi depois dessa comparação que Magalhães Pinto adotou o guarda-chuva, talvez receiando alguma nuvem derramadeira. O guarda-chuva. Para proteger a careca e a casa bancária. Sub umbra alarum tuarum protege me.
Nas histórias em quadrinhos um tipo de nuvem é bastante comum. Observada do chão, ela se confunde com as demais nuvens distribuídas à sua volta. Porém, ela oculta o covil de um astucioso vilão - é uma nuvem artificial. De onde ele, através de uma avançada parafernália, espreita a Terra para cometer suas vilanias. Só que o vilão, no final, entra em trombas (d'água), sempre. Aliás, quase sempre. Não esqueçamos o guerreiro poderoso que, depois de saciado na bendita Geni, partiu incólume em seu zepelim prateado. Numa nuvem fria...
Agora, o leitor atente para estes versos:
"Abraço a Juno ou, louco, abraço aquela
Nuvem de ouro ilusória e vagabunda?!...
Minha ventura, ó céus, é tão profunda,
Tão larga e tanto que eu duvido dela!"
Pertencem ao soneto "Íxion", de Raimundo Corrêa. Reza a lenda que Íxion, rei dos lápitas, fora admitido no convívio de Júpiter e de sua esposa, a deusa Juno. Ultrapassando os limites da conveniência, Íxion fica perdidamente apaixonado pela deusa. Avisado da corte desrespeitosa do rei dos lápitas, e também para pô-lo à prova, Júpiter produz uma nuvem dourada, com a forma de Juno, e a coloca junto dele. O louco apaixonado corre a abraçá-la, mas o ciumento Júpiter, com o seu poder divino, o precipita no inferno aos cuidados das Fúrias. Na mansão dos mortos, o pobre Íxion é amarrado com serpentes a uma roda de fogo, a qual nuca cessa de girar, girar, girar...
Moral da história
Quando a nuvem é dourada o melhor é deixá-la passar. Em branca nuvem mesmo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

COMO EU VEJO

A sociedade
Dá ênfase aos valores perversos. Por exemplo, valoriza o diploma da pessoa quando o mais importante deveria ser a moldura do mesmo.
O amor platônico
Frio e distante. Como se fosse plutônico.
O feminismo
Um senhor movimento.
As pessoas em geral
Elas deveriam se despojar de tantos e inúteis envoltórios. Olhai os sabonetes do motel.
A maioria silenciosa
Só abre a boca para dizer amém - e amém por gestos, para tudo ficar "nos conformes".
A política 
É a convivência dos contrários ou o contrário das convivências, sei lá.
A monarquia
Olhe, meu súdito. Se for para acabar com as reinações da república...
O diálogo americano-soviético
No x Nyet. No x Nyet. No x Nyet.
A violência urbana
Na escalada em que vai, o estupro caminha para ser um ato de cordialidade.
A Terra
Apesar de chover dentro e da umidade que apresenta em certos locais (na Atlântida, por exemplo) ainda é um bom lugar para se morar. Não sei de ninguém na Terra que, em gozo das faculdades mentais, tenha dado o seu quarto-e-sala de entrada na compra de um apartamento novo em Vênus.
O "milagre brasileiro"
Vínhamos a classe média fazendo um animado piquenique. Que foi a pique por falta de níquel.
Os escândalos
São a mola propulsora do sucesso. Outro escândalo!
A fé
Removendo montanhas... em parceria com os terremotos.
O diabo
Nem só de amassar pão ele vive.
O Brasil
É o país das obras faraônicas. Mais uma vez o Egito se curva...
O alinhamento automático
É boçal todo aquele que se alinha automaticamente seja lá com o que for. Alinhamento é para pneus.
Os bons tempos d'antanho
Como era com fundos o meu cheque!
A realidade
Banal. Aí me embanano todo.
A paisagem atual
Montanhas de promissórias, rios de iliquidez e vales... de vales, ora bolas!
A vida, a morte
Para viver estou aqui, para morrer estou nenhures.
O bem
A ser exercitado. Deus tem o número do meu telefone.

domingo, 3 de maio de 2009

SALVE A INFLAÇÃO BRASILEIRA!

"Em casa que tem inflação 
todos brigam e ninguém tem razão." 
Provérbio modificado

A verdade é que tratamos mal a inflação. No pressuposto de que ela é a causa de todos os nossos males, inclusive os que vivem malocados, e lhe descemos a ripa sem contemplação. A inflação enquanto bode expiatório. Enquanto isso, na escolha do atual sumo bode da expiação, os brasileiros estamos de novo sendo incompetentes. Em não reparando na grossa blindagem dele. E quanto mais lanhamos o bode, mais ele come das nossa hortaliças. A ponto de nos esquecermos até da velha saúva de guerra. A saúva, quem diria...
Volta e meia, os economistas trancafiam a inflação num secreto porão do Planalto. E tome pancada, choque, pau-de-arara, leito de Procusto (ou será de pró-custo?) ao som de umas horríveis lambadas do Pará. Finda a sessão, em que estado pensam vocês se achar a inflação? Estropiada, com um dígito a menos? Caindo pelas tablitas? Nada disso. Ela se encontra tinindo nos cascos, se como a houvessem tratado a pó do guaraná (legítimo). Numa palavra, rejuvenescida. Em condições de enfrentar o senhor ministro da Fazenda e do Brinquedo.
O senhor ministro da Fazenda e do Brinquedo, que já tem caçado muito urso no invernadouro, tem lá sua estratégia. Põe a inflação a hibernar. Mas, é bom que se recapitule aqui a fisiologia de um ser que hiberna. Primeiro, ele come feito um danado para estocar gordura. Segundo, hiberna. Terceiro, ele desperta com uma fome descomunal. Fome ortodoxa, saiam da frente (se isto for possível). E, o que é pior, pega o país bem no rigor da entressafra.
O exemplo da Bolívia. Santa Rita da Cochabamba, como eles estão! Mastigando coca a mil, estão desentocando uma inflação de 24 mil... por cento! Não é à-toa que o país irmão é hoje considerado um celeiro de técnicos na luta antiinflação. Ora, um que outro bem que poderia prestar socorro ao Brasil. Mas, por motivo de segurança nacional (da Bolívia), nenhum deles pode ser liberado. Um só boliviano que largue o cabo-de-guerra, a inflação recupera terreno e ganha o jogo.
Em geral o assalariado e a inflação são inimigos naturais. Por isso, é comum o primeiro reclamar:
- Diacho, você me deixou nu com a mão no bolso.
E o segundo ripostar:
- Que bom! Você ainda tem um bolso...
Vai daí, arma-se uma tremenda confusão que termina com o assalariado... nu com a mão no bolso. Ad infinitum.
E também existe uma teoria de que a inflação brasileira está só fazendo musculação, criando marra. Para ir lá fora dar um pau na dívida externa. Se isto se confirmar, meu Deus, a inflação entrará para o panteão dos heróis nacionais. Terá efígie numa cédula de muitos zeros à direita, mas que pouca alegria dará ao portador. E aprendam isto: que uma inflação não abandona nunca seus mais caros princípios.
Por essa e outras é que a inflação deve ser bem tratada pelos brasileiros. Acarinhada inclusive. Só assim ela não vai chamar a hiperinflação, a mãezinha dela.

Originalmente publicado em 1986 no "DN - Cultura" e no "Jornal da AMB".

domingo, 19 de abril de 2009

O PACTO

Pacta sunt servanda. Os pactos devem ser cumpridos.
Num albergue postado no caminho de Málaga achavam-se dois cavaleiros andantes. Era sexta-feira, dia em que os paladinos não andavam à cata de aventuras, porque nesse dia da semana descansavam os mouros. Sem mouros com que pelejar, não havia muito o que fazer. Só pernas pro ar, que de ferro já bastava a armadura de cada um.
Damiano e Cosmião chamavam-se. Formavam uma dupla inseparável, na base do "só-vou-à-liça-se-você-for" (mesmo porque o rocim era único). Batendo-se contra o inimigo comum, Damiano se expunha para proteger Cosmião; este, por sua vez, não ficava atrás e fazia o mesmo com relação a Damiano. A única - e não honrosa - exceção foi quando tiveram pela frente Conan, o Bárbaro. E isto porque nossos herois ficaram escondidinhos como lagartos. Em duas palavras, deu Itararé.
O bate-papo estava assaz medieval, quando Cosmião introduziu uma ideia caprichosa. Mudando do vinho para a água, como observou um aldeão que depois virou mosto. Cosmião, a voz estentórea para que o amigo bem o ouvisse, falou:
- Nossa amizade, ó Damiano, não padece dúvida. Contudo, deveríamos vitalizá-la através de algo assim como... um pacto de sangue.
- De onde tiraste tal ideia, amigo Cosmião?
- Bem... alhures, os cavaleiros leais assim procedem.
- Ora, o rosário de nossas pelejas contra meio mundo já é a prova cabal da lealdade de um para com o outro. Então, para que o pacto de sangue?
Pequeno desencontros entre os dois amigos por vezes ocorriam. Mas que eram resolvidos com uma curta oração do "Breviário do Cavaleiro Andante", que um puxava e que o outro respondia:
- Cada um quer dar a vida pelo outro.
- Só não o conseguindo pela incompetência dos adversários.
- Amém. 
Até que houve a aquiescência de Damiano. Afinal, o rito de sangue proposto por Damião não era algo completamente esquipático. Para quem já se encontrava na "ônzima" caneca de vinho, minha senhora, pelo menos não era.
E Cosmião fez o celebrante:
- Vê, Damiano, coloquei minha mão sobre a távola. Agora, com a palma de tua mão cobre o dorso da minha para que, em seguida, eu as transfixe com o punhal. O sangue ao correr selará a nossa eterna amizade. Ou vais correr tu?
Damiano não correu. Porém, não suportou bem ver o "sangue do seu sangue" a correr da mão cravada pela lâmina. E fez uma séria acusação contra o amigo: que Cosmião agira em benefício próprio, botando a mão a jusante para pegar menos punhal. Mas isto não tem a menor influência, torquiu Cosmião, tem, retorquiu Damiano. Nesse tem-não-tem, Cosmião acionou o punhal novamente. Só que, desta vez, no coração do pobre Damiano.
Morto Damiano, Cosmião deu às de vila-diogo. E passou a vaguear pelas faldas de Sierra Nevada. A mão ferida, pensada com unguentos de rosmaninho, sarou logo. Mas... o que são os desígnios das Fúrias (as deusas romanas da Vingança), minha atenta senhora. Algum tempo depois, o errante cavaleiro Cosmião adoentou e morreu. De icterícia catarral, um mal a ver com o sangue do pacto.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

UM ESQUELETO PARA MICHAEL JACKSON

O cantor Michael Jackson, já conhecido por suas extravagâncias, arranjou mais uma. Ele quer montar uma câmara de horrores em sua casa de Los Angeles. Quer uma câmara toda repleta de crânios e esqueletos disformes assim como uma biblioteca de compêndios médicos sobre doenças estranhas. Para completar a tétrica coleção, está lhe faltando, porém, o mais ambicionado troféu. O esqueleto de John Merrick, o homem-elefante.
Os restos mortais de John Merrick não se encontram num campo-santo qualquer. Tampouco num cemitério de elefantes. Repousam num hospital de Londres, onde se prestam ao ensinamento médico. Quer dizer, não repousam. O esqueleto é famoso por suas grandes deformidades. Uma coluna vertebral retorcida que sustenta (haja Atlas!) um crânio descomunal. Muitas outras alterações também enfeavam o pobre John Merrick. No entanto, por terem sido das partes moles, voltaram ao pó.
Um milhão de dólares não fez com que o esqueleto humano mudasse de proprietário! Perdão, de intermediário. E olhem que o hospital londrino tem sérios problemas de caixa. Está no osso. Mesmo assim não vende os restos de Merrick. Principalmente para Michael Jackson que os deseja ter para o seu deleite. Como a um brinquedinho articulado. Não são ossos de borboleta (ninharia) a soma oferecida pelo cantor, mas o hospital não vende o esqueleto. Razões morais são alegadas.
O esquésito (a palavra existe) Michael Jackson está para ler de "Merrickesh"! Será que ele deseja fazer o Príncipe Hamlet, o craniólogo, em sua tragédia de dúvida e desespero? Androginia dá dúvida, mas desespero só às vezes. Ou será que ele pretende copiar da pretendida ossatura apenas um novo passo de discothèque? Pois, literalmente, JM é espelho de MJ. Nesta hipótese, fãs do mundo inteiro, sacudi-vos! Nada tendes a perder, senão o vosso suor! Michael contasse com o esqueleto, então o balanço seria tremendo.
Imagino que um anjo torto, desses que vivem à sombra, haja lhe aparecido e dito: "Vai, Máiquel, ser musicólogo na vida..." E Michael Jackson foi sê-lo, só que no Museu da Teratologia. O museu, ô Michael, se ainda não tem o horrífico estandarte, eu aproveito para sugerir um deles. Um que tenha uma caveira a encimar duas tíbias cruzadas. Não, MJ, os velhos bucaneiros não cobram direitos autorais.
E quem não se recorda de Michael Jackson em seu videoclipe mais famoso? No qual ele aparece dançando ao lado de hediondas criaturas da noite, recém-saídas de suas tumbas etc. É Michael Jackson em seu elemento. E quem não sabe de seu hábito, meio believe it or not, de dormir numa esquife hiperbárica? Como se isso lhe prolongasse a vida. Pois bem, qualquer semelhança com o hábito de um certo conde da Transilvânia não é mera coincidência...
Dear Michael Jackson: Venham de lá esses seus ossos que eu quero apertá-los. Mas... se, numa dessas contorções que você tanto gosta de fazer, o seu esqueleto, vai, assume uma posição bem bizarra de não mais voltar ao normal, hein? E, tempos depois, aparece outro excêntrico querendo comprá-lo, hein, hein?
Já sei, meu tangará, são os ossos do ofício.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

IMPAGÁVEIS DO PG - II

NO MAR DAS CONTRADIÇÕES
É onde o afogado ganha vida nova.
NÃO PODEM SER POSTOS DE CABEÇA PARA BAIXO
Alguns idealismos. Porque caem as moedas dos bolsos.
AGUENTE OS TRANCOS
Que os barrancos desmoronam.
PASSATEMPO SINCRETISTA
Matar as moscas com um jornal enrolado.
JONAS ENGOLIDO PELA BALEIA
E nós, os crédulos, pela balela.
PENSAMENTO ANTA
Ninguém governa a governanta.
SOBRE O DIREITO DE IR E VIR
Olhai os bumerangues da Austrália.
LEI DA PISTOLAGEM
Todo homem tem seu preço... de liquidação.
A HISTÓRIA DO PATINHO FEIO
Não passou de um erro taxonômico.
ESPERANDO GODIVA
Coventry era uma fresta!
A RATOEIRA É TAMBÉM CAPAZ
De fazer o gato passar maus momentos.
CONTRA-INDICO
Aspirina na febre de consumo.
CLUBE DE XENÓFOBOS
Com ramificações no exterior. Funda-se.
UM MAS...
Esses elogios com "mas".
E CANTAM AS SIRENAS
Fora da tábua não há salvação.

terça-feira, 7 de abril de 2009

IMPAGÁVEIS DO PG - I

TODAS AS PROFISSÕES SÃO IMPORTANTES
Portanto, o faroleiro não faça farol.
CÚMULO DA TRAGÉDIA
Ir de Challenger para Chernobyl.
"CHEGAR AO MÁXIMO DE BELEZA COM O MÍNIMO DE MATERIAL"
Otto Lara Rezende? Ou a esteticista que criou escola?
ADULTÉRIO DE SULTÃO
É com o harém alheio.
CONSELHO QUE DARIA A UM JOVEM POETA
Sê fecundado pela poesia mas, oh, não desoves aqui.
ROCKRÍTICA
Vai para o conjunto de rock que se preocupa em criar o guarda-roupa antes do som.
NÃO DISCUTA COM QUALQUER UM
Mas apenas com o magarefe, que não radicaliza.
PASSIONAL
Nunca dê esse passo.
"DEEM-ME UMA ALAVANCA E EU ERGUEREI O MUNDO"
Grande coisa, Arquimedes. Atlas faz isso o tempo todo e.... sem alavança, tá sabendo?!
GARÇOM
Uma pérola em minha ostra!
SUCESSO NÃO É CAVALETE
Mas precisa dos pés no chão. Bem firmes.
ESSE AEDES
Só falta agora transmitir a AIDS.
BIRITA
Para quem de frio titita.
A POLÍTICA MORA NO MUNDO
Mas dá o enedereço errado para a Moral.
GUERRA, NUNCA MAIS
Não quero ver Guernica bombardeada num museu.
AS UVAS ESTÃO VERDES
Os desejos podres.
E PORQUE EU NÃO ERRO UMA
Sou presentólogo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O CADERNO DN - CULTURA

No período de 1987 a 89, fui colaborador do DN - CULTURA, o caderno de cultura do Diário do Nordeste. Foram dois anos em que, aos domingos (em semanas alternadas), eu tive a satisfação de ver meus contos, crônicas, poemas e "picles" serem publicados nesse meio de comunicação.
Graças à atenção que o jornalista Carlos Augusto Viana dispensava a meus escritos.
Após revisados, eles serão aqui postados. Aos poucos, né?!

terça-feira, 17 de março de 2009

SOBRE A AUTODESTRUIÇÃO

"Chamar um artista de mórbido porque trata do tema da morbidez é um disparate tão grande quanto chamar Shakespeare de louco porque escreveu Rei Lear." Oscar Wilde
AVISO: NÃO LEIA SE VOCÊ FOR UMA PESSOA SENSÍVEL
[...]
15/08/2017 - Atualizando ...
Para encerrar o disse me disse que acontece nos comentários, resolvi mostrar uma das minhas intervenções nas horas vagas:
13/11/2018 - Atualizando ...
Nove anos depois de publicado no Preblog, esta postagem líder de visualizações continua provocando protestos (por vezes insultuosos). Como finalmente me convenci de que não era lá grande coisa, retornei-o para rascunho. Nesta situação, não estará mais disponível para o público.
A propósito: hoje é o Dia da Gentileza.

quarta-feira, 11 de março de 2009

NOITES DE CÃO

Triiim... Triiim... Triiim...
Mary Rose despertou, enfiou os pés nos chinelos e dirigiu-se ao telefone.
- Alô?!
- Uuuu. Uuuu. Uuuu. Uuuu.
Do outro lado do fio, a voz que uivava - a quinta noite consecutiva que isso acontecia - e, como nas vezes anteriores, às três horas da madrugada.
Mary Rose, no resto da noite, não mais conseguiu dormir. Por mais que contasse cobras e lagartos... cobras e lagartos.... cobras e lagartos... não conseguiu dormir. Amanhã, cretino, iria ter outra vez com o policial Smith Joe. Quem sabe, Smith Joe, a essa altura, já tivesse no bolso do colete, junto com o pirulito, o nome do engraçadinho dos uivados telefônicos. Amanhã, maldito. A vingança, aprendera algures, é um prato que se come frio.
Hoje, maldito. Mary Rose pôs-se fora da cama. Manhã, com azia e olheiras. Não quis, não estava a fim de alimento algum: "breakfastio" (ou, talvez, por desejar apenas aquele prato frio). Procurou Smith Joe no Departamento de Trotes da Polícia. Smith Joe, do DEPTROT, era um corpulento policial que, nas horas vagas, gostava de tocar piano à maneira de acordeão. Também gostava de ser eficiente. Durante a noite, em operação conjunta com um "trotecista" da Companhia de Correios e Telefones, mantivera sob escuta o telefone de Mary Rose. Então, quando ela o procurou, Smith Joe já sabia qual fulano fizera a chamada das três horas da matina.
- O telefone está no nome de Kenneth Paul. Conhece-o?
- Kenneth Paul? Co'os diabos, é meu vizinho.
- Existe alguma rixa entre ambos?
- Não.
Smith Joe solicitou o comparecimento de Kenneth Paul no DEPTROT. Comparecimento amigável, querido Paul. Venha, querido Paul. Ou, do contrário, irei eu, aí, lhe aplicar uns telefones. Telefones na gíria policial, querido Paul. Quem pergunta se penico de barro faz zoada, acaba mais cedo ou mais tarde... pedindo penico. (Esta última frase era a cara de Smith Joe. Ele a citava por todo, qualquer ou nenhum pretexto.)
Meia hora após, Kenneth Paul estava no DEPTROT. Enfrentando o olhar feio de Mary Rose, sob o olhar de leguleio de Smith Joe.
- Paul, meu vizinho, por que esses trotes bestas?
- Mary Rose, a senhorita tem um cão...
- Que tem Vociferous com isso? Não faz mal a uma aranha.
- Vociferous uiva à noite. Um pouco antes das três horas da madrugada.
- Não percebo. Nessa hora estou numa fase REM (rapid eye movements) do meu sono.
- Também estou numa fase REM. Mas Vociferous me acorda.
- Por isso, me dá aqueles telefonemas eivados de uivados?...
- Sim, até que você se desfaça do cão.
- Eu me desfazer de Vociferous? Never.
- Então, vamos ser solidários na insônia.
- Fico sem telefone, mas Vociferous continua comigo. Com casa, comida e coleira lavada.
- Comida, você falou? Carne com vidro moído, por exemplo?...
- Atreva-se, Paul.
Foi quando o pirulito de Smith Joe acabou. E, para descer à bombonière, ele precisava antes de tudo pôr um termo àquela discussão. Pensando nisso, Smith Joe sentenciou:
- Bote uma focinheira no cão, senhorita.
Valeu. Com Vociferous agora de focinheira, durante a noite, os dois vizinhos voltaram às boas.
Vejamos, então, o que acontece  a Mary Rose quando ela, às três horas da calada, atende o seu telefone:
- Alô?!
- Mupf. Mupf. Mupf. Mupf.

terça-feira, 3 de março de 2009

ESCREVENDO COM NÚMEROS

Raimundo Magalhães Júnior nos relata uma recreação que esteve em voga no Brasil, aí pela segunda metade do século dezenove: escrever com números. Nesse passatempo, os números eram inseridos em palavras para que fossem lidos como sílabas destas. Quando, por exemplo, alguém compunha "bisc-8", era "biscoito" que se devia ler, por interessar apenas o sentido fonético do número.
Eis algumas sentenças, pinçadas no autor supracitado, para dar uma idéia mais completa do assunto: "O 10-engano é o castigo do 7-tico" (o desengano é o castigo do cético). "O 10-tino do 9-lo é ser 19-lado" (o destino do novelo é ser desenovelado). "O mí-0 está sempre 10-contente" (o mísero está sempre descontente). E ainda: "A baleia, que bem conhe-6, produz o esperma-7" (a baleia, que bem conheceis, produz o espermacete).
Já foi uma mania nacional. Isso que, em dias mais recentes, encontra-se vestigialmente em pára-choques de caminhões. Carneiro Portela, em seu "Máximas, Adágios e Legendas de Caminhões", registra alguns exemplos: "70 me passar, passe 100 atrapalhar", "60 no bar, 70 sair 100 pagar, aí eu mando a polícia 20 buscar". Também atento à fraseologia burlesca veiculada pelos caminhões estradeiros, o autor destas linhas anotou do pára-choques de um deles, esta legenda inusitadamente escrita com números fracionários: "Rezei 1/3 a fim de encontrar 1/2 de te levar a 1/4".
Pertence a Filinto de Almeida, que se assinava F. d'A, a composição de maior fôlego desse passatempo. Ele, no último quartel do século dezenove, publicou no "Jornal do Povo" do Rio de Janeiro, os seguintes versos, todos eles terminados por números:
"Veio um dia ao Brasil um holan-10
E comeu de uma vez tanto bisc-8
Que de cheio e repleto nem 60
E fez por causa disso o diabo a 4.
Dá-lhe logo o doutor tão forte 12
Que ao ventre causou-lhe mil 10-as-3.
Então suplica o enfermo a um fran-6
Que era dos seus lamentos triste ou-20
Que por graça à saude lhe re-9,
Pois que ele a tinha forte como um br-11.
E o súcio, escutando a voz do mí-0,
Compassivo a curá-lo então 70
E curou-o metendo-lhe o ca-7!"
Esse F. d'A era um n-1-mero, vocês não acham?

(escrito em 1983 e revisado em 2009 
para publicação no Preblog e no EntreMentes)

segunda-feira, 2 de março de 2009

OUTRA DO BARNABÉ SEM PÉ

Meu Deus, como é frágil a saúde dos governantes de uma nação! Volta e meia ficam dodóis de enfartes, bolsas de gorduras nas pálpebras, ciáticas, abscessos retroperitoniais e fístulas do duodeno. Tanto que, há muito, já exclui essas doenças dos "livrai-os, Senhor" de minhas orações matinais. Em compensação, estou rezando em dobro para que eles jamais venham a sofrer da mais ominosa das doenças.
A mais ominosa das doenças é, a meu ver, a que ocorre no ouvir: cera nos ouvidos. O governante que adoece com essa moléstia fica inteiramente surdo ao clamor dos governados e, mais gritante ainda, ao clamor dos funcionários de sua administração. É capaz de, entre outras mazelas, reajustar os salários do funcionalismo em 40 mais 30 por cento (depois de um ano em que a inflação foi 99,7 por cento) e, no final das contas, achar(-se) o máximo. Felizmente, isto (a tal doença no governante, suas consequências nos governados) "jamais aconteceu no Brasil", numa prova de que "Deus é...".
Tenho um companheiro de infortúnio, digo, de repartição, que se chama Antonomásio. Desconfio que ele tenha sido batizado com água quente, pois esquenta a cabeça facilmente. Ao saber que, num distante país, o funcionalismo público tinha sofrido um reajuste salarial de 40 mais 30 por cento, que era igual a 82 por cento, quando a inflação havia sido 97,7 por cento no ano anterior, ficou uma fera sem bela. Tomou para si as dores alienígenas e foi deblaterar em praça pública:
- Este reajuste salarial é uma empulhação.
Mas logo apareceu um sujeito, também funcionário público, que, empinando sobre os coturnos pediu licença, isto é, não a pediu para discordar de Antonomásio. Seguiu-se uma discussão dos 82 por cento de Antonomásio contra os 110 por cento do de coturnos, que somente terminou quando este último gritou:
- Boto a tropa na rua.
Antonomásio falante estava, calado ficou. Depois veio me procurar para que eu refizesse, ou não, os cálculos seus de matemática salarial. Ora, Antonomásio, eu não me interesso por matemática salarial do além-mar, sim, mas você é um descendente direto de Não Euclides, o famoso criador da não menos famosa geometria não euclidiana, só que a genética não funcionou em mim, Antonomásio.
Não, mas eu não ia deixar Antonomásio no mato sem cachorro. Lembrei-me de que Sônia, minha namorada, interessava-se por esse tipo de assunto e até colecionava os artigos de jornal do Joelmir Beting. Entretanto, Sônia e eu, há cerca de uma semana, estávamos brigados por um motivo de somenos. Paulo, este grampo que eu encontrei em seu sofá-cama, não é um grampo, é, não é, é, então é seu, eu só uso grampo da marca Teimosão.
Por que só há juízes em Berlim? Deveria existir em Fortaleza um juiz, pelo menos um, para arbitrar essas pendências de namoro. Eu ganharia aquela questão inclusive, porque não era um grampo e sim um burocrático clipe-acima-de-qualquer-suspeita. Como sinal de reconciliação, embora também querendo ajudar Antonomásio, liguei para Sônia, quebrando o gelo baiano que se interpunha entre nós.
- Sônia, você ainda tem aquele artigo do Beting?
- Qual?
- O do "Barnabé sem Pé", que trata do "aumento" do funcionalismo público federal.
- Tenho sim, recortei do jornal.
- Vê aí o que ele diz.
- Que o reajuste foi de 40 por cento em janeiro e será de 30 por cento em junho...
- Prossiga...
- Considerando, porém, a corrosão pela inflação que ocorrerá entre os dois meses, o "aumento" é realmente de 61,5 por cento. 
- O "aumento" é de 61,5 por cento?
- É.
Nisso, Antonomásio, que estava a meu lado, retirou-se bruscamente. Tinha a cara de quem ia fazer uma besteira, do tipo enfrentar tropa na rua, e eu não consegui segurá-lo pelo cotovelo. E olhem que nada foi comentado, em sua presença, sobre a hipercorrosiva inflação de quase 10 por cento apenas no mês de janeiro, nesse remoto país que... tanto mexe com Antonomásio.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O ASTERÓIDE DA MÃO ESTENDIDA

Em recente estada no Rio de Janeiro, o astrônomo belga Henri Debehogne informou que batizara com o nome de Figueiredo, em homenagem ao presidente brasileiro, um asteróide que descobrira em suas pesquisas no Observatório Europeu do Sul. O novo asteróide ("novo" sob a óptica do astrônomo) foi encontrado orbitando entre Marte e Júpiter) com o alvará em perfeita ordem.
"Foi o fruto temporão de um longo trabalho", declarou Debehogne, um brechador de primeira grandeza. Sem que isto signifique dizer que o belga seria capaz de desprezar uma anã branca. Ao contrário, Debehogne é sensível com os obscuros e, o tempo todo, fez questão de dividir a glória de sua descoberta "com aquela gente boa do Observatório Europeu do Sul", o qual, surrealisticamente, fica no Chile.
Na coletiva à imprensa, na  qual compareceu apenas um repórter e ainda assim vestido de juiz de futebol (com um gravador escondido), Debehogne, entre uma e outra gota de "Visazul" que pingava em seus preciosos olhos, prestou novos esclarecimentos sobre o asteróide. Ah, sim, o intrépido repórter free lancer que realizou a entrevista foi Ouriço Júnior, filho do famoso Juvenal Ouriço Repórter, este último um personagem teúdo e manteúdo por Carlos Eduardo Novaes.
A ENTREVISTA
OJ - Prof. Debehogne, o público brasileiro está ávido por notícias sobre a sua descoberta, o asteróide Figueiredo. Como tudo começou?
HD - No princípio, Deus criou o Céu e a Terra...
OJ - Não, Prof. Debehogne, não precisa retroceder ao Gênesis. O espaço colocado à sua disposição é o de uma página de jornal. Não tem a magnitude do espaço cósmico, pois.
HD - Está bem. Retrocedo, então, ao dia em que, pelo telescópio, me deparei com um estranho bólido. Estranho, repito, porque o bólido não parecia ser um corpo celeste. Mas... se ele não era um corpo celeste, seria o quê?
OJ - Não faça suspense, Professeur.
HD - Entrei em contato com os astrônomos deste seu país, detalhei o que vira, e eles, com maior experiência no ramo, concluíram que se tratava de uma simples bola do emergente vôlei brasileiro.
OJ - O saque "Jornada nas Estrelas". Ponto para os brasileiros.
HD - Preferi considerar o dito pelo não dito - a imagem do bólido não era compatível com o meu saber esportivo - e prosseguir com minhas pesquisas. Quando tenho um propósito eu sou mais obstinado do que um cão no cio. Então: eu não mais arredaria o olho do telescópio, pelo menos enquanto não chegassse a um entendimento plausível.
OJ - E quando fazia mau tempo lá fora?
HD - Quando ocorria má transparência atmosférica, eu usava minha fiel luneta. Esta aqui.
O astrônomo aproveita para mostrar ao repórter a luneta com a qual, em tempos distantes, esquadrinhava os pensionatos femininos de Bruxelas. Em seguida, retorna ao tema central da entrevista.
HD - Um dia, como prêmio à minha pertinácia, a sorte e o asteróide acenaram para mim.
OJ - O asteróide também acenou?
HD - Literalmente falando. O asteróide que descobri é dotado de um apêndice... à maneira de uma mão estendida. Por isso, ele tinha - e ainda tem - como.
OJ - Essa aí me deixou siderado.
HD - Descoberto o asteróide, faltava um nome de cristão para ele. Dei tratos à bola - bola de vôlei, não - e encontrei, tendo em vista a sua mão estendida, o nome apropriado: Figueiredo.
OJ - Vestiu como uma luva. Será que o planetinha gostou do nome?
HD - Se gostou? De lá me fez com os dedos um "O", que é a abreviatura de "OK".
OJ - Sobre a mão estendida: é a direita ou a esquerda?
HD - É a direita, embora seja canhoto.
OJ - Mas, Prof. Debehogne, para que uma rocha especial vai querer a tal mão estendida?
HD - Para espantar mosquito marciano, sei lá.
OJ - Há relato anterior de outro asteróide nessa condição?
HD - Não. Consultei o "Almagesto" de Hiparco em sua melhor edição, a que foi atualizada por Ptolomeu, e não encontrei uma só linha (epa!) a respeito do fenômeno.
OJ - E não há possibilidade de ter sido uma alucinação? O Professeur é natural de um País, com o perdão da palavra, Baixo e naquele ar rarefeito dos Andes...
Nisso, o pesquisador belga, de inopino, abandona o confortável pufe, onde estava sentado dando a entrevista. Mas, parece que muda de idéia e volta a sentar-se (pufe!). Só que, agora, tem cara de poucos amigos.
HD - Escute, meu jovem: o asteróide realmente existe, já o registrei no Minor Planets Center dos Estados Unidos - os de lá me fizeram apenas uma ressalva: que eu maneirasse no consumo do ácido - e você, agora, só tem direito a mais uma de suas impertinentes perguntas.
OJ - Por que, estando o senhor no Chile, não chamou o asteróide de Pinochet?
HD - Não misturo Ciência com Política.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A VEZ DA VOZ

"E disse: minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de ninguém." (Chico Buarque)

Mãe Natureza equipou grande parte de sua criação animal com um órgão fonador, o qual, como o nome indica, se destina à emissão de sons. A esses sons, intencionalmente emitidos pelo animais, dá-se o nome genérico de voz. Possuem-na, por exemplo, o Falsete, o Polichinelo, o Veludo, o Trovão, o Ventríloquo e a Taquara Rachada.
No princípio, a voz de um animal era compreendida apenas por outro de sua espécie. Mas, aí surgiu o homem que, muito à vontade, tratou de inventar a pesquisa. A pesquisa, pela palavra em si, foi um achado. Servia para o homem disfarçar o incomensurável bedelhismo e, ainda, de quebra, para ele conseguir algum ($$$) com alguma fundação. Crítica à parte, foi através da pesquisa que o homem chegou a resultados animadores na decodificação da voz dos macacos, dos golfinhos e das cantoras de fado.
É na hora de ouvir a voz da própria consciência que o homem sente grande dificuldade. E botem dificuldade nisso, agora que ele deu para andar com os ouvidos calafetados pelos fones de um "Aiko-man". O ser humano, ao nascer, tem o direito inalienável a duas caixas de som e a um microfone apenas. Os leitores podem indagar: e nós com isso? É que 1º) devemos ouvir, 2º) devemos falar. Fiquem na oitiva, portanto.
Lembram-se de quando Ulisses Guimarães definiu Abi-Ackel como "sendo uma voz à procura de uma idéia"? Pois bem, enquanto o ministro a procura, eis meu recado para Ulisses. Ulisses: vá tirando o seu cavalinho-de-tróia da chuva. Você não devia ter sido assim cruel com o Abizão. Ora, logo com ele que é tão cordial com todos, gregos e troianos, e, ainda outro dia, recebeu no gabinete ministerial uma humilde porca. Sem audiência marcada, acrescente-se.
Já que "politiquizei" o texto, pretendo dar um giro na recente história política deste país (Brasil, da fase castelista para cá). Corriam os sofridos de 1965, o duro regime da época decidiu fazer certas "nenas" democráticas e, com este fito, criou de cima para baixo dois partidos - a ARENA e o MDB - que, com o tempo, viriam a ser chamados de "Partido sem Voz" e "Partido sem Vez", respectivamente, pela inteligência crítica da nação. Cada qual no seu ofício: o "Partido sem Voz" legislando, até ficar afônico, sobre o teor de cloreto de sódio a ser permitido nas pipocas do reino, e o "Partido sem Vez", mantido fora desse processo, a bem do próprio nome.
Criando uma imagem, eu diria que os dois partidos estavam numa espécie de gangorra. Só que a ARENA cavalgava a trave, sem querer descer, e o MDB, sem poder subir. A explicação disso não se achava no peso político de cada um e sim na gangorra anquilosada, como convinha aos "omes". Por mais que o MDB tentasse o impulso, a gangorra se mantinha "paradona". Houve um momento em que ela emitiu uns rangidos, fez menção de se movimentar, mas aí vieram os "omes", os verdadeiros brincantes, e pararam a gangorra. Reforma, foi o motivo alegado.
Agora é a vez de dar um puxão nas orelhas, com mais força na esquerda. A Oposição, por motivos intestinos, pegou piração de baleia. Mania de suicídio. É jangada que se desmonta em paus para se fazer ao mar. PMDB, PT, PDT, PTB, PEtc. Tenho certeza de que Tia Zulmira Ponte Preta, a essas malfadadas horas, deve estar se revirando sob a lápide, e dizendo com voz sepulcral: "Cada pulga quer um cão só para si". Enquanto isso, o Espírito da Situação paira sobre as águas - impávido que só vendo!
Paro o berro. Não quero forçar, por mais tempo, as cordas vocais. Afinal, de voz ainda preciso para umas derradeiríssimas palavras. Vão para três tipos delas: 1) Voz de sereia (Por que me fizeste perder o norte magnético e o tempo? Devia ter previsto que a dona não iria nunca abrir as pernas.) 2) Vox populi (Quanto tempo andas também ruim das pernas? Nunca estiveste? Remember 33 d.C. e aquela multidão gritando "Barrabás, Barrabás, Barrabás"...) 3) Voz de prisão (T'esconjuro!)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A TURMA DO POIRE

Chegavam os tempos da Nova República. O deputado Ulisses Guimarães era o nome mais influente da oposição. Em Brasília, era freqüente ele estar reunido com correligionários para conversar assuntos políticos ou amenidades. Em torno de uma mesa em que não podia faltar a sua bebida predileta, o liquor de poire (pêra, na tradução do francês, e que se pronuncia “puar”).
Até o reino mineral já sabia que o Dr. Ulisses se preparava para ser o novo centro do poder. Alguns políticos da situação, idem. E, por conta disso, eles também compareciam para beber do liquor de pêra do Dr. Ulisses Guimarães.
Inspirado em tal fato, eu cometi na época uma paródia com a marchinha carnavalesca “Turma do Funil” (a letra desta música foi colocada na caixa de comentários). Uma paródia que, diga-se de passagem, não recebeu nenhuma divulgação. Exceto a que faço agora.

Chegou a turma do poire
Todo mundo bebe
Mas ninguém é "vacilão"
Há, há, há, há
Ninguém aqui é "vacilão"
Tem eleição por perto
Vou já pra oposição.

Eu bebo por compromisso
Doutor Ulisses
Eu não sou um cara omisso
Enquanto houver poder
Tou aí, não sou muar
Bebendo com a turma do poire.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

VIOLÊNCIA URBANA

Uma abordagem epidérmica do problema
Em nosso país, quem nunca foi vítima de um ato de violência urbana que atire a primeira pedra! Atire, com violência inclusive. O sujeito, hoje em dia, não consegue andar pelas ruas de uma cidade...  sem ser molestado. Por qualquer (ou nenhum) motivo pode se ver no centro de uma agressão física - uma dolorosa experiência que vai do chega-pra-lá ao nocaute-pra-sempre.
Significando este último: ser mandado para a cidade-dos-pés-juntos. Uma cidade tão superlotada que, se todos, ao mesmo tempo, espreguiçassem as pernas, a situação ficaria de morte. E de morte para todos, sem distinção de raça, sexo, credo ou seguro-funerário.
Tome cinco, Paulinho Rangel! Você estava mesmo com o santo nos couros ao escrever que, na "República do 1º de Abril", se vive sob o império de quatro leis:
1ª - Lei do Mais Forte
2ª - Lei da Selva
3ª - Lei do Cão
4ª - Lei do Murici ( que cada um cuide de si).
Se a "República" de Platão foi utópica; a de Rangel, não. Existe verdadeiramente e, por ter como cenário uma nação perita em futebol, vive chutando por aí. Porém, não vou me deter nas raízes do problema da violência urbana, outros que ralem a mandioca. O assunto é por demais complexo, mistura-se com política, e de política somente me interessa a do corpo: como mantê-lo vivo?
Sim, como mantê-lo vivo? Uma ajuda, respondo, é o conhecimento do que acontece no corpo, no plano da fisiologia, ao ser mobilizado para uma ação de agressão e defesa. O conhecimento puro é importante e, mais ainda, é a sua aplicabilidade no dia-a-dia-de-cão.
Em preparação para uma luta, o ser humano experimenta várias alterações fisiológicas, mediadas pelo sistema nervoso autônomo. Este sistema, por sua vez, é composto de dois subsistemas que se contrabalançam: o simpático e o parassimpático.
É o simpático que faz os preparativos internos para a luta. Acionado, contrai os vasos da pele e das vísceras para que mais sangue aflua ao cérebro (favorecendo o raciocínio rápido) e aos músculos (ensejando o aumento da força), aumenta o açúcar sanguíneo (garantindo o dispêndio extra de energia), acelera a respiração e os batimentos cardíacos, apressa a coagulabilidade sanguínea (reduzindo as perdas prováveis de sangue) etc. Dentre as transformações fisiológicas descritas, apenas uma pode ser percebida de relance (em tempo hábil, portanto). Trata-se da contração dos vasos cutâneos, cuja tradução clínica desse fenômeno é o empalidecimento brusco da pele. Num entrevero de rua, procure observar se isto acontece, ou não, no rosto de seu oponente.
Recém-empalidecido significa influência do simpático, fisiologia a serviço do embate-bate, agressão possível ou iminente: você se prepara. Ao contrário, recém-ruborizado significa influência do parassimpático, despreparo para a luta, agressão não cogitada: você relaxa.
Agora, se você está a caminhar pela Rua do Rosário e, sem querer, pisa na unha encravada de um estranho que reage assim: nem empalidece nem enrubesce, mas fica verde, furioso e de camisa rasgada, aí maninho, neste caso, a esperança de que você salve a própria pele está nas coisas práticas da vida. Fugir, gritar mamãe, contar com as pernas, pedir o urinol, safar-se, escafeder-se, apegar com o santo, dar às de vila-diogo e, se possivel, tudo ao mesmo tempo.
(1982)

TECNOMITOLOGIA

:-)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

CARTA DE UM NÁUFRAGO

Gosto de ficar horas e horas numa praia deserta. Sou meio Padre Anchieta e, à maneira dele, passo o meu tempo a escrever versos na areia. Uns haicais, quase sempre dedicados à Maria Madalena (essa a minha peculiaridade).
Deu que, na última das minhas andanças praianas, encontrei uma carta. Carta de náufrago, reconheci logo por causa do envelope, tipo casco-escuro, que eu tive de abrir com um saca-rolhas. 
De dentro, espumando - só podia ser de raiva! - saiu esta mensagem:
"Estou (ou sou) náufrago há quase 20 anos numa ilha do Atlântico, talvez perto das costas brasileiras, uma vez que, no meu rádio de pilhas (7 fôlegos elas têm), escuto com alguma facilidade programas radiofônicos desse país. Isto, embora suavize minha solidão, estabelece uma confusão (to)tal na minha mente que, por vezes, chego a tirar o chapéu e a ficar pulando em cima do dito-cujo.
Lembro que, no início de minha estada na ilha, emocionado ouvia as transmissões esportivas que faziam a glória do país do futebol, como era assim designado. Havia times de popularidade, árbitros e bandeirinhas de segura competência e torcidas participantes.
Veio 1964, o ano do rebuliço, quando tudo foi mandado para as cucuias. Primeiro, decretando sob intervenção a Liga de Futebol e, segundo, extinguindo os clubes a ela filiados. Depois, a esse imenso país de arquibaldos e geraldinos, impuseram dois timecos: o C. R. Situação e a Oposição F. C., os quais travariam, a partir de então, a maior pelada de que se tem notícia.
No começo, só dava o C. R. Situação. E não podia ser de outra maneira, pois a Oposição F. C., que já entrara em campo desfalcada, sofria sistemáticas expulsões de seus jogadores. A arbitragem era tão parcial que, ainda no primeiro tempo, acabei com a minha boina italiana.
Já no segundo tempo melhorou alguma coisa. Incentivado por uma crescente torcida, a Oposição F. C. avolumou seu jogo e ameaçou virar o placar. Só não o conseguiu porque o Presidente da Liga autorizou a entrada em campo de alguns jogadoresw (biônicos) para reforçar, em quantidade, o C. R. Situação. Meu panamá de puro feltro não houve como evitar o estrago.
Findou o tempo complementar, o escore equilibrado. Por sugestão do C. R. Situação, acatada com certa relutância pela Oposição F. C., decidiu-se que ia ocorrer prorrogação. Por conta do suadouro, no intervalo concedido, os jogadores de ambos os times mudaram as camisas. Se, no vestiário do C. R. Situação existia um jogo completo de camisas limpas, o mesmo não acontecia no da Oposição F. C., que teve de improvisar com camisas desiguais.
Foi só o Presidente da Liga ver a Oposição F. C. em campo, desuniformizado, recrudesceu. Ou seja: ditou uma nova regra, oxítona, chamada vinculação. A jogada só podia ser armada, desdobrada e completada entre os que estão com as mesmas cores (por exemplo, de alviverde para alviverde), sob pena de anulação do gol que porventura resultar. Casuismo, quando me acalmei minha cartola inglesa estava em pandarecos.
E, por nada mais possuir que proteja minha cabeça do sol desvairado dos trópicos, de forma irreversível, me fiz ao mar em busca do continente. Do continente europeu, que distância não é problema para quem, como eu, sabe nadar de cachorrinho."

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O BEIJO

O beijo: taí um tema que anda nas bocas. Descrito como o ato de pousar os lábios em alguém, vá lá, o beijo é um ato de superfície não necessariamente superficial. Ah, a profundidade que ele tem quando o coração está na jogada! (E reparem que eu não estou falando apenas do beijo de uma mulher que pinta os lábios em coração.)
Além do beijo pessoa-pessoa há o pessoa-coisa, não esqueçamos. Quando se beija, por exemplo, um amuleto, uma carta de baralho ou um bilhete de loteria - de olho na sorte grande. O beijo que o pugilista dá na lona, de olho roxo, bem... deve ser uma exceção à regra.
Como surgiu o beijo? Dan Carlinsky, um estudioso do assunto, viu o começo de tudo nas aves que, bico a bico, alimentam seus filhotes. Depois, com um simples aperto na tecla de fast forward, Dan avançou milhões de anos e chegou aos homens das cavernas. Não é que os cavernícolas lambiam, uns aos outros, nas faces, como forma de compensar a carência orgânica de sal?
A civilização nos legou benefícios. Um deles, o de que, com a invenção do saleiro, ficamos todos mais elegantes à mesa da refeição; outro, o de que atrelamos novas razões e emoções ao ato de beijar. Há uma classificação para o beijo: 1) caloroso, 2) afetuoso, 3) religioso e 4) voluptuoso.
O primeiro tipo, o beijo caloroso, é o das pessoas que, em sinal de amizade, beijam-se nas faces. Esbanjado pelos eslavos, vem se universalizando. Os últimos, talvez, serão os esquimós que ainda desconhecem o beijo: eles se contentam em esfregar o órgão do atchim. (Gente fria é outra coisa!). O segundo, o beijo afetuoso, quem tem supermãe tem todos.
Já o beijo religioso é o que se dá, como sinal de respeito, em uma autoridade eclesiástica. O anti-exemplo dele foi o beijo, de triste memória, dado por Judas na face de Jesus. Naquele tempo, Jesus mostrava aos homens o caminho do Céu, o caminho alternativo com relação a todos outros que só levavam a Roma. Deu que os "omes" não gostaram da pregação e resolveram tirá-lo de circulação. Estavam só precisando de um "beijo-duro", quando apareceu Judas, que andava com problema de caixa. Judas entregou o Nazareno e, desde então, tem sido (merecidamente) malhado.
O último tipo, o beijo voluptuoso, o que dizer dele? É o que nos transporta ao céu (da boca, bem entendido), é o que não conhece a barreira da língua (pelo contrário), é o que instaura na gente o princípio do prazer (cujo fim é também o prazer). Bem-aventurados os que têm bons lábios. Bem-aventureiros os que têm boas lábias.
Sinônimo de beijo é ósculo, os dicionários registram. Desculpe-me, minha senhóra, mas ósculo parece beijo de sujeito pedante, daquele que a chama de minha senhôra. Já beijoca, palavra também dicionarizada, soa melhor pois é, exatamente, o beijo com estrépito. O smack dos norte-americanos, o "?" dos brasileiros, que aqui ninguém sabe a ortografia de algo que só existe na tradição oral. Mmmrrrzzz? Pppfffttt? Nnnssslll?
Aconteceu de um cientista calcular a quantidade de germes a serem transmitidos num único beijo. E, com esta descoberta em mente, ele, ao chegar a residência, então evitar o beijo de sua (dele) esposa;
- Não, querida, beijo na boca, não.
- Já sei. Você não quer se arriscar aos 100 milhões de Streptococcus pyogenes do meu beijo.
- Seja compreensiva. Você não está usando pastilhas antissépticas.
- Cafajeste, não exige isto quando vai nos beijos de suas secretárias. No de F., que tem 150 milhões de Staphylococcus aureus, no de B., que tem 230 milhões de Haemophilus influenzae e no de S., que, com 375 milhões de Pseudomonas aeruginosa, mais parece uma guerra bacteriológica.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

UM JARDIM ZOO-ILÓGICO

O desinteresse pela vida animal é geral. Cidades de razoável porte, como Fortaleza, não se dão mais ao barato de ter um zoológico. Foi-se o tempo da procura pelo “segundo maior espetáculo da Terra”, no dizer de Arrelia, um palhaço que ficou no desemprego depois que o circo pegou fogo.
Fui criança, como a maioria das pessoas (a maioria, porque já houve uma exceção: Dom Pedro II), e recordo-me do fascínio que o zoológico despertava em minha alma infantil. Fortaleza, dos anos 50, estava à altura do Rio de Janeiro (ao nível do mar) ao apresentar, no Parque da Criança, uma permanente exposição da vida animal selvagem.
Verdade, não era um zoo completo. Tinha lá suas deficiências: a preguiça, por exemplo, que morrera de um mal lentíssimo, em seu lugar haviam botado por muito tempo um zelador em regime de horas extras.
Hoje, nem isso. Fortaleza, carente de um zoológico, transmite a impressão de que nos quinto e sexto dias da Criação houve ponto facultativo... para Deus. Urge, portanto, que algum órgão municipal encampe:
1°) a mini-ideia de um jardim zoo-lógico.
2º) a maxi-ideia de um jardim zoo-ilógico.
Levando esta última a efeito com os seguintes seres:
O Dragão – Na qualidade de sparring já fez a glória de muito cavaleiro andante que queria impressionar sua donzela. Hoje, porém, em via de extinção (dragão, cavaleiro e donzela). Basicamente, é um animal dócil mas, quando se trata de defender a prole, fica tão fera quanto aquele deputado goiano. Tem como prato preferido o churrasco misto, que ele prepara na própria fuça.
O Basilisco – Lagarto nascido de um ovo posto por um galo e chocado por um sapo, o que explica o seu complexo de Édipo tumultuado. Com o auxílio de sua língua bífida, viscosa, ele passa a maior parte do tempo comendo moscas imaginárias. Sabendo-se que ele tem uma dieta sine matéria, o que ninguém explica é como o basilisco consegue eliminar tantos dejetos. Hércules, que já limpou as estrebarias de Áugias, certamente recusaria fazer faxina na jaula dele.
O Licorne – Animal que lembra um pequeno cavalo, embora dele se diferencie por um cavanhaque à la bode, uma cauda no melhor estilo rococó e um longo chifre no meio da testa. Adora ser montado por um pestinha, digo, um garoto em roupa de marinheiro. Demonstrando isso através de corcovos de alegria, dados antes e depois de fraturar o cóccix de seu pequeno cavaleiro. É proibido de participar de competições hípicas por causa de seu enorme chifre: vence todas, mesmo quando termina com um corpo atrás. Por detestar o milho, a sua alimentação é toda à base de pipoca, canjica, munguzá e papa de maizena.
A Esfinge – Alimária que tem cabeça de mulher e corpo de leão. Anda sempre com uma perguntinha enigmática na ponta da língua. Do tipo: o que é, o que é? De manhã está no PTB, de tarde no PMDB e de noite no PDS? Bem rápido, antes que ela abocanhe sua pessoa, responda à queima-guardanapo: Jânio Quadros.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O MAIOR ARTILHEIRO

O nosso país é habitado por 125 milhões de técnicos de futebol (1), sendo eu um deles. O que me credencia a emitir palpites e opiniões sobre o esporte bretão que um dia radicou no Brasil. 
Se me perguntam, por exemplo, quem é o maior artilheiro do futebol nacional de todos os tempos, eu não hesito em apontá-lo.
O maior artilheiro de meu país tem uma longa carreira futebolística. Só que, avesso ao estrelismo, ele é menos citado do que na realidade merece. O caso de dizer: vive no chão.
É disciplinado, jamais recebeu cartão amarelo, vermelho ou de outra cor. Não comanda à base do palavrão, não cospe no rosto do adversário e não faz gesto obsceno para a torcida rival.
Não mandinga, não faz cera, não simula contusão. E nem chuta - com raiva - a bola para as laterais. Em súmula, nada faz que comprometa o espetáculo do futebol.
Em campo, posta-se muito bem, a ponto de confundir a defesa antagônica. A forma física é única do primeiro ao nonagésimo minuto; ou, por mais tempo, se houver prorrogação.
Objetivo em tudo, não dá drible desnecessário. Intervém sempre à base do "bate-pronto", que é quando a bola fica dificílima para o goleiro.
E não é mercenário: fora o rendimento em campo não se interessa por mais nenhum. Se todo jogador fosse como ele o futebol brasileiro não estaria tão "estagflacionado".
Respeita ao máximo os princípios do torcedor "doente". O artilheiro jamais foi (nem será) um garoto-propaganda (2) em comercial de televisão para vender saúde (vitaminas) ou doença (cigarros) - cara e coroa do consumismo deslavado.
Explorando o fator surpresa, ele é simplesmente inexcedível na finalização de uma jogada. Sem exagero, ele já balançou as redes de praticamente todos os estádios de futebol do Brasil.
Pois bem! A esta altura do campeonato, presumo que uma coisa já tenha ficado fácil: levantar a identidade dele. É... o montinho-artilheiro (3).

(1) em 1982
(2) Pelé e Gerson
(3) in cauda venenum

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

GURGELZIM DA VIOLA

Nos vividos de 1967, Gurgelzim tomou a resolução de aprender violão. Comprou dedeira, pestana (uma espécie de prótese para violão), apito de lá, método do Canhoto (na versão destra, a única que existe, aliás) e, last but not the least, pegou emprestado o instrumento.
Mão direita na boca, mão esquerda no braço (boca e braço do violão, bem entendido, que aqui ninguém está falando de ioga), no começo era aquela luta para sacar do instrumento algum som musical, mesmo por aproximação. Em momentos, a vontade de largar tudo e voltar a soprar pente com papel.
“Felizmentecapto”, Gurgelzim foi conseguindo, com pouca catatonia, dominar as chamadas posições do violão: primeira, segunda, terceira e marcha à ré. Deste estágio para o seguinte, o de tocar “Parabéns pra você”, foi mais rápido do que um apagar de velas de um bolo confeitado.
O repertório, até então menos diversificado do que o de um grilo com insônia, avolumou-se com o tirar as músicas de ouvido. E somente quando faltava cotonete na praça é que acontecia de ele cometer alguma heresia harmônica. Do tipo: “Último desejo”, de Noel Rosa, no tom de... ré maior.
Quanto ao espelho, entrou na fase seguinte – a dos acordes dissonantes – que, para quem não sabe, produzem um tremendo visual. Um acorde maior de sexta com nona, por exemplo, é tão estético para os olhos (daí o espelho) que torna dispensável ferir as cordas. O som é um mero subproduto.
Conforme o ponto de áudio, o som pode também ser um superproduto. Senão, por que Gurgelzim muito ensaiaria o pinho dentro de um guarda-roupa? Por causa da acústica, claro. O fato, entretanto, era motivo de insatisfação para seu pai, que não gostava de andar com o colete reverberando “Abismo de rosas”. O cujo fez inclusive greve de não comer peixe frito com alcaparras até que Gurgelzim demovesse da idéia malsã.
Durou pouco a represália paterna, pois o “dilermandinho” da casa provou, por A menos B, que se estava economizando naftalina.
Percalço nenhum, até hoje, fez Gurgelzim tirar a viola do fundo do sovaco e botar no fundo do saco. Como? Desafinar na vida? Ora, isto acontece com ele e com todos. “Rosa”, do Pixinguinha, em ambiente de feijoada com caipirinha, taí a prova incontestável de que a desafinação é geral.

GURGELZIM E O COMETA HALLEY

Movido a álcool de aniversário, Gurgelzim (que o céu o tenha, mas só depois do ano de 2048) fez uma ligeira modificação em seu programa da noite de sábado: não assistiria mais ao filme de arte na Casa Amarela e, sim, iria a uma churrascaria na Rua Padre Anchieta. Uma moça, indo de carona, espetara-lhe a quente sugestão e ele topou, pensando no que aconteceria depois de destrinchar o churrasco.
A viagem “ideira” foi de uma velocidade “lesmática”. Por dois fatores: 1º) Lendo o odômetro do carro ele viu que era tempo de fazer o rodízio dos pneus (e fez). 2º) A ciclovia da BR-116 não é apropriada para quem está com pressa.
Não era o lugar dos assados mais sórdido do que aqueles freqüentados por Gurgelzim et caterva – uma turma que, às três horas da manhã, muitas vezes já tem derrubado o Governo da República. Agora, quando se trata de derrubar um churrasco com fritas é diferente, e um pouco de nervosismo sempre bate em Gurgelzim, um condenado à dieta hipossódica. E, se o médico da Previdência, que fechou questão sobre a dieta, na 15ª consulta do dia 23/04/80, entra ali e o flagra em ato de desobediência?
Na radiola de ficha, Lindomar Castilho impunemente cantava suas canções feministas. Com os ossículos desarticulados nos ouvidos médios, Gurgelzim não conseguia ouvir “chongas” do que ela propunha (“vamos a um motel?”), até que, “sexapelativa”, a mesma fez um gesto de boa vontade. Ele respondeu que sim.
A seguir, mais rápido do que um peixe pisca o olho, o casal já estava num alta-rotatividade. Desinibida, ela num átimo (“ótimo!”) ficou em trajes mínimos. Apenas com uma calcinha onde se lia: 203. (Que safadeza é esse número?)
Coube a iniciativa subseqüente a Gurgelzim, que passou a falar da obra teofilosófica de Tomás de Aquino. Malgrado o tremor automático da cama (Pavlov explica), por algum tempo, foi possível o diálogo leste-oeste, na base do tomismo de cá com o “tô-na-mesma” de lá.
Pelas tantas, talvez pelo emprego inadequado de um silogismo, ela ficou cismadíssima. E passou a fazer picadinho do travesseiro de espuma enquanto gritava uns palavrões. Daqueles de torcida organizada para cima de juiz de futebol ladrão.
Como desaforo não se leva para casa, Gurgelzim cuidou de desfazer todo o equívoco. E nisso até exorbitou pois, no final, em tom confesso, ela garantiu que, sem contar as estrelas (mais numerosas do que os descendentes de Abraão), só o cometa Halley ela vira aparecer três vezes.
Um gênio do sexo, definiria Glauber Rocha, se ainda vivesse neste vale de "lagrymas e katarros".

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

GURGELZIM E A ARTE DO DESENCONTRO

Cês se recordam de Gurgelzim, o desventurado, que, tempos atrás, se entreteve com uma beldade na Praia dos Diários?
Jogando uma onda fria na memória de todos, lembro que houve um flerte – unilateral, é verdade – mas não de todo encerrado, pois ficou para o nosso herói trapalhão um número de telefone do mais alto significado: o do telefone dela.
A ligação mil vezes tentada, mil vezes não conseguida. Nosso herói bufo, horas a fio, enrodilhado em outro fio, o do telefone, numa patética busca da voz amada.
Pessoas cariteiras (caridosas+palpiteiras) chamaram-lhe a atenção. Talvez houvesse algum engano na ordem dos números. Então, Gurgelzim, novamente horas a fio (de alta tensão), combinando e recombinando os números ao telefone. Também nada.
Pensou contratar um detetive particular: fez; planejou consultar uma cartomante: também fez. Mas, esses profissionais pareciam trabalhar em sentidos opostos, pois enquanto o detetive seguia uma pista que ia dar na filha de um açougueiro na Serrinha, a cartomante decifrava nas cartas a viúva de um pescador no Mucuripe. No final, não era carne nem era peixe.
Nessa altura, Gurgelzim era a própria imagem da desolação. De vestes em “desaseda”, barba de doze-horas-sem-fazer, já andava para lá de “píssico”. E passou a ter insônia. Uma insônia rebelde a todo medicamento, colírio de Dienpax inclusive.
Gurgelzim tinha querenças: um espelhinho com o escudo do Flamengo de muita utilidade para o pentear-se e uma esparramada samambaia de plástico que oxigenava seu quarto-e-sala de solteiro. Pois bem, as coisas andavam tão às canhas que o primeiro, como que prenunciando sete anos de azar, havia se quebrado e a segunda fazia um tempão que não levava água.
Pessoas palpidosas (palpiteiras+caridosas), temendo que sua vida estivesse por um triz (ou por um trim), aconselharam-no a ler Khalil Gibran, Lobsang Rampa e outros bálsamos para o espírito. Valeram, pois o nosso herói truão saiu depressinha de uma depressão, daquelas que levam o ser humano ao coquetel Jim Jones (fanta+cianureto).
Além de sair do pântano do baixo astral puxando-se pelos próprios cabelos, Gurgelzim, de forças retemperadas, mudou de mentalidade no plano sentimental. Entendeu que, se não deveria renunciar a tudo feito um “janinho” qualquer, também não deveria se obstinar por causa de uma quimera. Cabeça desaquecida, fosse o que os orixás quisessem.
Não é que deu quase certo. Fez o acaso com que eles, numa rua estórica, se cruzassem. Ela, num vistoso vestido amarelo, a passar esplendorosa quase roçando nele, na direita dele. Numa ocasião em que Gurgelzim" olhava com fixidez para a esquerda, por causa de um maldito torcicolo.

domingo, 11 de janeiro de 2009

VOO BALDEADO

Paris, um ano qualquer. Via-me dentro de um avião que me levaria de volta ao Rio.
Naquela manhã úmida, enquanto aguardava a decolagem, distraía-me olhando as pessoas que, numa das laterais da pista, punham vapores pela boca: falavam. Antevendo o tipo de viagem que eu faria um frisson percorreu-me a espinha. Eu, passageiro único de um longo vôo internacional Paris-Rio.
Desejei ter alguma companhia durante a viagem: nem que fosse um palestino com granadas no cinto ou, então, Allien, o oitavo passageiro. Melhor do que curtir uma solidão que já se prenunciava troposférica.
Subiu um tipo no avião. Franzino, usava um chapelão que me pareceu démodé. Mastigou um bonjour qualquer quando passou por mim e dirigiu-se à cabina de comando: era o piloto. Pôs-se a mexer chaves, botões e manivelas de modo a estremecer toda a aeronave. E a cuja foi ganhando velocidade, ganhando velocidade até que... se desgrudou do chão. No ato, fui transferido para duas poltronas atrás por meio de um salto simples mortal.
A equipagem do avião era constituída apenas pelo piloto e, por conseguinte, não havia aeromoças com acepipes para a gente duplamente beliscar. Ele, sozinho, não podia também se dar ao luxo de ir até o michel, se necessidade tivesse. Anotei outras dificuldades a bordo: ruído da pesada ao invés de uma música leve; inexistência de jornais para a leitura do horóscopo; sacos que vomitavam no próprio freguês etc.
Fui suportando. De antemão eu sabia (desde que comprara a passagem a um agente de viagens por um preço bem camarada) que o voo seria na classe econômica. E tomara algumas precauções, como a de levar uma lata de galinha com farofa.
O avião devia estar voando bastante baixo pois, num curto intervalo de tempo, foram de encontro a meus óculos um mané-magro e um besouro-do-cão.
Houve um instante em que cambaleei até a cabina de comando para oferecer ao piloto uma asa da galinha. Recusou. Quieto, caladão, ele mais parecia um mineiro. Pude então ver quão sub-utilizado era o painel do avião: o único instrumento que o pilotinho consultava, o tempo todo, era um curioso aparelho de dois (ou três?) ponteiros, o qual estava no pulso dele, lembro-me agora.
Surpresa das surpresas! O (meu) avião, com um accomplissement de fazer inveja aos concordes da vida, já estava pousando em sua primeira escala. Presumi ser Lisboa. Mas, não, era solo francês ainda. Saint-Cloud, um dos arredores de Paris, como mais tarde vim a saber.
A máquina-voadora parou, mas a estória é que não. Baixou um santo serelepe no “aeromaquinista” a ponto de ele, transfigurado, saltar do avião para os braços de um povinho que se formava no descampado, perdão, no aeroporto econômico. Levado com “hurras”, qual um técnico de time campeão, nunca mais tive notícias dele.
Começar de novo a viagem. Com a diferença que agora eu não tinha mais l’argent. Na França, pior de tudo, não existe como no Brasil uma “Lei dos Estrangeiros”. Dessas que, após uma declaração política, brindam o cidadão estrangeiro com uma passagem aérea de volta a seu país.
Então, procurei a Embaixada do Brasil. (Com os pobres de Paris aprendi essa lição.)
O embaixador, um cara legal, que considerava o Brasil a sua segunda pátria, valeu-me na dificuldade. E despachou-me para o Rio, a tempo de pegar a feijoada do sábado, num voo de outra empresa. Bem diferente da primeira que operava somente com um 14-bis.
(escrito em 1981, revisado em 2009)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

SOL, PRAIA... AÇÃO

Ir à praia é uma das formas de combater a solidão. Há uma impressão – errônea! – de que é o contrário, quando se observa o comportamento dos primeiros banhistas da manhã. Cada um, tacitamente, demarca uma espécie de lote de terreno particular. Entretanto, com o passar das horas, ninguém se constrange de ver o lotezinho repartido com mais e mais banhistas que vão afluindo. Até que, por volta do meio-dia, cada qual cuida de um minifúndio que só dá para plantar o próprio traseiro. Essa falta de espaço, longe de incomodar, é motivo de regozijo geral pois, onde há pessoas apinhadas, há condições favoráveis para o atamento de novas amizades. E todos blefam a solidão: tal é a confraria balneária.
Gurgelzim, assim que entendeu esse fenômeno psicossocial, vestiu um calção de banho e foi à prática. Chegou cedo – ainda com pouca gente por lá – à Praia dos Diários. Atraído por um biquíni amarelo com cadarços nas laterais, procurou se posicionar bem naquela manhã praiana. Querendo ser discreto, mas não ignorado, foi quedar perto da moça do biquíni, numa pontinha da esteira dela. Uma aproximação entre desconhecidos costuma requerer certo timing, menos para Gurgelzim que sabe ser, como ninguém, agradável. Capaz de soltar as amarras de qualquer pessoa, empregando tão somente o papo espirituoso e, além disso, originalíssimo.
1ª ação
“Já nos conhecemos de algum lugar?”
“Não”, respondeu a de biquíni.
“Acho que sim... de uma fila do INAMPS.”
“Nunca estive doente.”
“Nem eu”, troçou (com cedilha) o de calção, enquanto apertava a barriga para dissipar uma cólica de momento.
Como a beldade fizesse a menção de ir a um mergulho, Gurgelzim ofereceu-se para ir junto. Mas, ante um pedido dela, aquiesceu ficar no local tomando de conta de uma escova de cabelos. Demorou só uma hora.  
2ª ação
Gurgelzim falou sobre violência urbana, bebê de proveta, caça à baleia, plenilúnio, Triângulo das Bermudas, Cachoeira de Paulo Afonso e outras cascatas. Foi notado o interesse dela quando a “conversa” descambou para pneumotórax espontâneo, pois, na ocasião, ela disse “Hum...” e foi para um novo mergulho. Gurgelzim continuou sentado, apreciando uma pesca de arrastão. À distância... porque tinha de cuidar da escova de cabelos. (Ah! A Natureza sempre tão pródiga, enchendo a rede dos pescadores de latas de cerveja, copos de plástico e frascos de bronzeador...) Demorou só duas horas. 
3ª ação
Gurgelzim falou sobre cultivo de samambaias, metrô do Rio, Guerra dos Mascates, ritos de cremação, Ionesco, Besta do Apocalipse e outras coisas bestas. Ela participou vivamente do “interlóquio”, à maneira própria, coçando o nariz descascado pelo sol da praia. Justamente quando Gurgelzim contava uma anedota bem picante (fonte: revista Família Cristã), ela o interrompeu com a notícia de que ia mudar de ponto na praia. “Por causa dos raios solares, como eles estão incidindo aqui”, explicou. Pegou seus pertences, a escova de cabelos inclusive, e despediu-se com um beijo a apenas 15 cm (quinze centímetros) do rosto de Gurgelzim. Afastou-se, lindona, em seu biquíni amarelo que combinava com os sapatos altos da mesma cor.
Ação Final
Uma garota de conversa tão aberta, amistosa, não é de se esquecer facilmente. E Gurgelzim, um sentimental, ficou (re)mexido. Princípio de paixão? Talvez. O fato é que, desde então, Gurgelzim tem sentido uma dor no peito que nem com emplastro Sabiá passa. Se, ao menos, para um pouco de fetichismo, houvesse retido alguma lembrancinha dela... A escova de cabelos? Que nada! Ele ficou apenas com um número de telefone, que “num” ajuda, pois anda eternamente fora do gancho. Feito alguém.

A RUA GURGELZIM

Tipo interessante o Paula Ney. Fez muita boemia, alguma poesia e... virou nome de rua na Aldeota. Na Aldeota Leste. Há quem credite o fato à coquetterie da expressão “loura desposada do sol” que cunhou para Fortaleza, numa ocasião em que estava acometido do Sonetococcus brasiliensis.
Não vou, entretanto, generalizar. Muita gente também pegou o tal germe e não emplacou. Talvez por falta de febre e de delírio. Ou de sorte, como Gurgelzim, um azarão (por enquanto).
Antes que eu esqueça: Gurgelzim, apesar do que o nome possa sugerir, não é meu parente: fomos apresentados num espelho casual. Mas, conheço-o bem. Sei dos seus sonhos (desvirtuados), dos seus projetos (irrealizados) e, por conseguinte, do que mais precisa: de solidariedade humana. Uma qualidade, por sinal, que eu tenho bastante quando (me) reflito.
Assim, se Gurgelzim tem o desejo de virar nome de avenida, rua, travessa ou beco (nesta ordem de prioridade), diligencio para que ele seja atendido. Nem que eu tenha de fazer uma campanha do tipo RECONHECIMENTO URBANO PARA GURGELZIM!
Aliás, um reconhecimento desses já andou perto. No tempo em que Gurgelzim freqüentava o Rhuinas, um bar na Praia do Futuro, que lisonjeava seus clientes – os mais madrugadores – pondo os nomes deles em placas, que eram colocadas em suas paredes como se ruas fossem. Infelizmente não deu, pois o Rhuinas, antes do que se previa, teve o destino do próprio nome. Uma Pompéia irresgatável... para sempre.
Dia virá em que a coisa muda: confio nele. Desprende-se-lhe um pino qualquer e ele “estoura” em Fortaleza. Pode ser muito bem através de um soneto, feito em dia de sol crescente, com alumbramento comparável ao de Paula Ney.
A sorte está lançada. Ou melhor, laçada; com ela nas mãos a campanha ganhará a rua (em/de dois sentidos). Gurgelzim não pode continuar na lista telefônica como um mero assinante.
E tem mais: os vereadores de nossa cidade não faltarão com o indispensável apoio, acredito. Eles são tão eficientes nessas amenidades...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

POEMA ANTIESPORTIVO

E foi tudo pra nada:
O passe recebido
O drible aplaudido
A zaga deslocada.

E foi tudo pra nada:
O pique empreendido
O guardião batido
A meta escancarada.

E foi tudo pra nada:
O chute esfusiante
A rede de barbante
Com a bola encaçapada.

E foi tudo pra nada:
O urro, o murro ao vento
A façanha do tento
A torcida ouriçada.

E foi tudo pra nada:
O heróico gol de placa
Se o teu time, ó panaca
É o pior da temporada.

domingo, 21 de dezembro de 2008

VAN GOGH

Van Gogh, pintor holandês
Desconcertado, uma vez
Teve uma bem estrambótica
Idéia -  a ver com a óptica
Confusa com que se via
U'a carcaça sem valia.
Então, insano pensar!
Decidiu ele amputar
Uma das orelhas suas.
(E pinçou uma das duas
Para passar o cutelo.)
Depois, achando-se belo
Pintou um autorretrato
Na verdade, um caricato
A que faltava algo vivo:
O pavilhão auditivo
Que ficou com a sina torta
De ser... natureza-morta.


24/08/2023 (quinze anos depois)
Acabo de comprar uma mesa de centro Van Gogh. Está em bom estado, embora falte um pouco de verniz. (David Penfold)
Resposta - O senhor teve sorte. Eu já comprei no sebo um livro sobre a vida e a obra desse pintor e quando fui ler o exemplar que adquiri faltava uma das orelhas. (PGCS)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O "SONHO" DA MEZALÂNDIA

A Geometria nos fala de um cone de revolução, um sólido que é produzido pela rotação de um triângulo retângulo em redor de um dos lados do ângulo reto. E a Ciência Política nos ensina que a América Latina, em sua parte meridional, também tem o seu cone de revolução (ou de revoluções, já que são tantas, meu Deus).
Pois bem, está aí a Mezalândia que não me deixa mentir. Que está de gobierno novo, e cujo presidente acaba de anunciar que "o país vai entrar firme no mercado externo".
- Pode-se saber... com qual produto?
- Com o de sempre, o "sonho".
- Fazendo propaganda para incrementar a venda, imagino.
- Não, é o contrário. Aqui o segredo é a alma do negócio.
- E quem vai garantir uma operação comercial nessa condição?
- O General-Presidente, claro. Quem pode o mais, pode o menos.
- Está se referindo à revolução que ele fez?
- Que ele fez, com o respaldo popular. Pois antes ele ouviu seus parceiros de bridge, seu ajudante-de-ordens e sua esposa. Depois, pensou longamente por uns dois minutos e, abençoado pela nossa padroeira Santa Rita de la Cochabamba, só então decidiu.
- A seguir, em seu discurso de posse, ele calou fundo na alma do povo ao denunciar "os grandes males nacionais".
- Foi engano. Ele leu, por distração, a carta-renúncia do presidente deposto.
- Bem, voltando ao assunto do início, o "sonho". Ouvi dizer que toda a sua produção já está apalavrada com os compradores do exterior.
- É verdade. Não há "sonho" por aqui que já não esteja transformado em pasta, sua forma de exportação.
- A propósito, você fez me lembrar de que não temos a figura do ministro sem pasta.
- Lógico. Todos eles, o General-Presidente e seus ministros, estão perfeitamente sintonizados com o modelo da nossa 205ª revolução.
- Agora, uma pergunta final. Como vai ficar o consumo interno desse produto?
- Não se aflija. Teremos pesadelo de sobra nos próximos anos.

ZÉ BRASIL (ESQUETE)

O pano é aberto.
Mostra um cenário "hollywoodiano" - apenas no calendário da parede (merchandising da Souza Cruz). É o interior de um humilde barracão, pois.
Há a movimentação de dois personagens. Um, que atende pelo nome de Zé Brasil (em verdade, este pouco se movimenta; limita-se a dar gemidos pungentes numa cama), e outro, que representa a sua esposa, D. Esperança.
Alguém sopra dos bastidores:

Começa, ô panaca!
ZÉ BRASIL
Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, oi.
(Esta última interjeição não foi um gemido e sim uma saudação que ele endereçou a um terceiro personagem que penetrou no recinto.)
O novo figurante faz o médico. É um tipo gorducho, de óculos, que lembra o Dr. Sardinha da televisão, que lembra o... Bom, deixa pra lá.
(Na sua direção, aflita, corre D. Esperança.)
D. ESPERANÇA
Dr. Golfinho, meu esposo agoniza.
DR. GOLFINHO (pegando o pulso do paciente)
Calmaí... Quando começou a doença dele?
D. ESPERANÇA
Tem andado doente há alguns anos. Nos últimos tempos, esteve sob os cuidados de Dr. Henrique Simão que o proibiu de beber. Mas, ontem, após receber o seu mês de INPS, gastou o dinheiro todo na cachaça.
DR. GOLFINHO
Hum... deixe-me ver... Deve ter bebido meio litro de aguardente.
D. ESPERANÇA
Por aí, doutor. Então, quando acordou da bebedeira, elezinho falou de uma dor no umbigo e se pôs a gemer.
Dr. Golfinho passa a examinar o abdome do enfermo. Nesse ínterim, o contra-regra entra no palco para retirar um samovar - utensílio russo que não se coaduna com a ambientação da peça. E, concluída a apalpação diagnóstica, abre a sua maleta para pegar um frasco de remédio. O que faz com um sorriso de satisfação: sorriso gordo, com os dois queixos de gordo.
DR. GOLFINHO (mostrando "eucaristicamente" o frasquinho)
Pronto, minha senhora.
D. ESPERANÇA (esperançosa)
O remédio age logo?
DR. GOLFINHO
Antes de lhe dar a resposta, me dê uma informação. Vocês têm filhos?
D. ESPERANÇA
Netos também, doutor.
DR. GOLFINHO
Ótimo! E agora lhe respondo... que o medicamento tem ação imediata. Mas, antes de ministrá-lo, a senhora tem que agitar o frasco por uns quarenta anos. Comece agora. Vai servir para o Zé Brasil Neto.
Vendo o público enfurecido, Dr. Golfinho retira-se apressadamente. Nada tem de heróico o mezinheiro.
Cai, por enquanto, o pano.

(escrito em 1980, revisado em 2008)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

ARRAIAS, PAQUETÕES E BOLACHINHAS

O mês em curso me faz lembrar os julhos da minha infância. Quando o céu de Fortaleza ficava povoado de vistosas arraias fazendo as suas belas evoluções aéreas. Um fenômeno explicado pelas férias escolares que incidiam, ontem como hoje, num mês de muitos ventos.
As arraias (ou "raias" como pronunciavam os moleques), as quais, em outras partes do Brasil, seriam chamadas de pipas, pandorgas ou papagaios.
Para a confecção de uma delas, não se necessitava de muita coisa. Palitos secos de coqueiro, linha, papel-seda e um pouco de grude. Com os palitos secos, em número de três, amarrados nos cruzamentos por pedaços de linha (e com um destes pedaços utilizado para delimitar o perímetro) fazia-se o esqueleto da arraia. A seguir, nesta armação se colavam os retalhos do papel-seda por meio de um grude preparado na cozinha de casa.
Os complementos do brinquedo eram o cabresto e o rabo da arraia. Para o cabresto, que servia para prender a arraia, bastava um pequeno pedaço de linha. E, para o rabo da arraia, além de uma maior porção de linha, à qual se atavam pequenas tiras de pano (molambo era o ideal), a intervalos regulares, ficando uma tira maior, a ponteira, para ser colocada no final da linha. O rabo (ou rabiola) era então preso na extremidade da arraia para lhe conferir estabilidade. Sem ele, ao ser posta no ar, a arraia ficaria a girar loucamente e sem ganhar altura.
Havia uma versão gigante da arraia, o paquetão, cujo esqueleto era feito de taboca. O qual era colocado no ar apenas por quem tinha a robustez suficiente para controlá-lo. E existiam também as bolachinhas, umas imitações baratas das arraias, que serviam de divertimento para as crianças menores. Feitas de algum papel grosso, cortado na forma redonda, e a seguir perfurado por palitos de coqueiro que funcionavam como armação, eram feias e não ganhavam grande altura.
Empinava-se a arraia com a ajuda de um companheiro que a elevava bem acima da cabeça. Até que, a um sopro mais forte do vento, a arraia era largada enquanto o outro a puxava. O outro era o dono da arraia que, muitas vezes, tinha de correr contra o vento para que ela subisse. Não havendo o auxílio de um companheiro para empiná-la, a alternativa era o "soltador" de arraia se posicionar num local elevado como um muro ou o terraço de casa.
E a arraia subia em movimentos coleantes sob o incentivo de repetidos puxões aplicados em sua linha. Com esta, a cada instante, sendo liberada de um carretel que rolava entre os dedos do "soltador". Até que a arraia se encontrasse na altura desejada (ou a linha chegasse ao fim). Neste ponto, começava o bonito espetáculo da arraia a movimentar-se no espaço em resposta aos "lanceios" feitos no chão.
Uns contentavam-se com esse aspecto "pacífico" da brincadeira. Outros, porém, preferiam praticar o "corte" de arraias. Uma peleja entre arraias em que, ao cruzamento das linhas, uma delas (às vezes, ambas) sofria o "corte". E, ficando sem o controle da linha que a prendia, passava a ser arrastada pelo vento até terminar enganchada num fio elétrico, árvore ou telhado. Sendo, nessa "agonia", acompanhada pelos moleques em louca correria como se fora um troféu.
A muitos frustrava a arraia "cortada" ser também "aparada". Quando essa arraia "derrotada" não caía em domínio público, por haver sido em pleno ar capturada e recolhida pela arraia "vencedora", graças à habilidade do dono desta.
Não seria possível o "corte" de arraias sem a participação do cerol. Preparado com vidro moído e cola derretida, assim que secava na linha em que era aplicado, o cerol a transformava num instrumento verdadeiramente cortante. Capaz de causar acidentes nos brincantes e em terceiros, aliás, como acontece até hoje. E, o que é pior, com alguns destes acidentes a se mostrarem terrivelmente letais.

Publicada em 21 de julho de 2008 no EntreMentes.