sexta-feira, 29 de julho de 2011

A COMPETIÇÃO PELA APARÊNCIA

As mulheres com polegadas a menos numa parte do corpo - sobre a qual recai a preferência nacional - têm agora o problema resolvido. Com a invenção do bumbum postiço, uma peça de vestuário que confere à usuária a ilusão de possuir um traseiro carnudo. Ora, mas isto apenas vem a se juntar ao já vasto arsenal das mistificações femininas, dentre as quais já se encontram: os cílios postiços, as lentes de contato coloridas, a cinta etc. Além de algo que está sendo prometido para breve, o sutiã "vamp", o qual, ao nível ilusório, deverá resolver o problema dos seios mirrados.
E ficaremos os homens de fora dessa competição pela aparência? Pois, salvo o caso do calvo que se defende com uma peruquinha, com o cuidado de que ela não seja óbvia, pouco lançamos mão de tais artifícios? Inclusive os rotulamos de "coisas de mulher", quando sobejam as provas de que a vaidade não é um apanágio feminino. Então, por que o escrúpulo de não participar desse jogo?
Guerra é guerra.
Podemos reeditar a moda dos poulaines, sapatos compridos que foram muito populares na Idade Média. Havendo-os até com o formato de pênis. Na Batalha de Nicópolis, em 1396, cruzados franceses foram obrigados a cortar as pontas de seus poulaines... para que pudessem fugir. Mas não é certo de que foi isso o que levou um papa a proibi-los.
Como também podemos trazer de volta o codpiece, que foi moda no século 18. Consistindo este em uma parte saliente da calça onde o homem podia aninhar o órgão sexual. Com bastante enchimento, claro, para dar a impressão de que teria um órgão em permanente ereção. Além disso, com cores berrantes, fitas vistosas, ouro e pedraria. Tudo o que pudesse chamar a atenção para o ponto em questão.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

EM CIMA DO MURO

Tem um conhecido político cearense que, em se tratando de viver em cima do muro, ganha longe do calango. Por isso, não me perguntem as artimanhas que eu usei para que a enigmática figura me concedesse esta entrevista, obtida no melhor estilo pinga-fogo.
Leiam-na. Foi um autêntico muro... er, furo de reportagem.
- Um lugar que conhece?
- Wall Street?
- Lugares que gostaria de conhecer?
- China (Muralha da China) e Israel (Muro das Lamentações).
- Como viu a queda do Muro de Berlim?
- Pela televisão.
- Não vale. Tem que dizer como se sentiu ao ver?
- Consternado. E botei o meu muro de arrimo no seguro.
- Gosta de Fortaleza?
- Assim, assim. Ô terra de muro baixo!
- Música favorita?
- Daqui não saio...
- O que levaria para uma ilha deserta?
- Tijolo, cimento e areia grossa.
- O que não dá certo?
- Duro com duro. Não faz bom muro.
- Animal de estimação?
- Pela sadia convivência, o gato.
- Coisas que detesta?
- Cerca elétrica e pega-ladrão.
- Uma qualidade que possui?
- O equilíbrio.
- Agora, sobre essas frases aí ...
- Eu não picharia o meu próprio muro.
- E quando vai sair dele?
- Não resolvi. O chão me dá vertigem.
- Obrigado pela entrevista.
- De nada.Vai sair no "Fantástico"?
- Não. É para a TV Muro.

Sobre a TV Muro
É uma pequena organização produtora de televisão localizada na cidade de Sabará, em Minas Gerais, a 17 quilômetros da capital Belo Horizonte, considerada a menor rede de televisão do mundo.
De cunho comunitário e sem nenhum registro na Anatel, opera como uma emissora de TV de baixissima potência, cobrindo apenas a rua Costa Rodrigues, do perímetro da igreja a no máximo uma quadra.
Criada por Francisco Dário dos Santos, o Chiquinho, está no ar desde 1997 com um programação totalmente própria. WIKIPÉDIA

sexta-feira, 15 de julho de 2011

DR. ASDRÚBAL E A DICOTOMIA NA MEDICINA

O refinado Dr. Asdrúbal, em se tratando de erguer o moral de um paciente, tem uma técnica infalível. Costuma aplicá-la em quem, receoso de estar apresentando uma grave patologia, ameaça entrar em estado de pânico.
Ele, simplesmente, convida o paciente a acompanhá-lo em um raciocínio de clareza solar.
- Ainda não formei o diagnóstico, quanto a isto vou recorrer a exames complementares. Mas já se vê que estamos diante de duas possibilidades: higidez ou doença. Se for a primeira, ótimo, você não tem nada, mas se for a segunda possibilidade, nem assim haverá motivo para se desesperar. Porque poderá ter uma doença simples, auto-limitada, para a qual nem sequer prescreverei medicamentos. Como também poderá ter a alternativa, qual seja, estar você portando uma doença realmente séria. Calma aí. A medicina hodierna já consegue curar muita doença com esse rótulo, o que poderá acontecer perfeitamente no seu caso. Ou não, caso esteja a apresentar uma doença considerada atualmente incurável. E daí?!  Se, aliviado dos sintomas por conta de um tratamento paliativo, você ainda poderá ter, daqui para frente, uma qualidade de vida razoável. Se bem que eu não possa descartar a outra opção que aqui se coloca: estarmos lidando com uma moléstia que, além de grave e incurável, é inteiramente refratária a qualquer medida de alívio. Bem, você tem religião? Ah, é cristão!... Porque agora vai ser das duas, uma: você, logo que morrer, irá para o Céu ou... para o Inferno. Ir para o Céu será ótimo, já que é a suprema aspiração de quem se diz cristão.
Segundo sei, Dr. Asdrúbal sempre para neste ponto. Por considerar uma redundância mandar para o Inferno quem já apresenta uma doença grave, incurável e de grande padecimento.
O Barão de Itararé não racionalizaria melhor.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

DR. ASDRÚBAL E O CLIENTE COM "AQUILO ROXO"

Já está fora de moda falar atualmente em "aquilo roxo". A expressão entre aspas remonta aos tempos da República das Alagoas, quando o presidente Collor, em momento de destempero verbal, usou-a para designar os seus "países baixos".
No entanto, em sua pujante vida profissional, Dr. Asdrúbal chegou a assistir um paciente que tinha "aquilo roxo". Literalmente falando.
Era um cidadão, aí pelos cinquenta anos, que compareceu em seu consultório acompanhado da esposa. Ele veio muito preocupado... por estar apresentando a genitália com a cor modificada. Roxa, sem que o cidadão estivesse a apresentar sintomas e outros sinais que fizessem suspeitar de alguma doença conhecida.
O Dr. Asdrúbal examinou-o, num primeiro momento considerando se achar diante de um grande desafio diagnóstico. Pois essas situações de desconforto, mais do que as grandes doenças, costumam ter uma elucidação diagnóstica mais difícil.
Após examinar o paciente, verificou, porém, que... um pouco da coloração arroxeada tinha passado às suas mãos! Dr. Asdrúbal valorizou esse detalhe. E, virando-se para a esposa do paciente, fez uma série de perguntas que mostraram toda a sua percuciência.
- A senhora vem usando algum método contraceptivo?
- Sim, doutor. O diafragma.
- Somente isso?
- Acrescento uma geleia espermicida.
- Sabor uva, não é?

sexta-feira, 1 de julho de 2011

FALAR FINO É UMA DESGRAÇA

Em princípio, falar fino é um desgraça. Quando o dono da voz é homem e, por motivo profissional, muito depende dela em seu relacionamento público. O caso de Valdemar, que é um político.
De sua adolescência, guardava uma triste recordação: o bullying que sofrera. Ninguém da turma se dirigia a ele que, por pura gozação, não fizesse a voz em falsete.
Para agravar a situação, Valdemar fora batizado com o nome do protagonista do "Boi da cara preta". Uma marchinha composta por Paquito e cantada por Jackson do Pandeiro, que teve enorme sucesso em 1959 e nos anos seguintes.
Mas o que dizia a tal marchinha de carnaval? Isto:
"Coitado do Valdemar,
Tá dando o que falar,
Comeu carne de boi, falou fino
E deu pra se rebolar.
Mas que azar!"
Mas que azar mesmo! O político Valdemar, qual o xará da marchinha, era uma finura de voz. Podia fácil, fácil entrar para um coro de castrasti - sem necessidade de sofrer mutilação. Quanto a rebolar, é que não!
Ah, bem que ele tentara - inutilmente - a solução de sua deficiência vocal! Numa peregrinação que durou anos por consultórios de badalados otorrinos e fonoaudiólogos de sua cidade. Já tomara inclusive umas aulas de empostação com a Glorinha Beutenmüller, sem que, como se prognosticava, conseguisse pegar o famoso timbre "global".
E Valdemar continuou a falar fino por esse mundo afora. Num palanque, então, sua voz era um estorvo. Logo aparecia um engraçadinho para gritar:
- Fala grosso senão eu te janto!
Intervenções jocosas desse tipo vinham acontecendo cada vez mais em suas aparições públicas. Provocando zombaria na plateia e, por via de consequência, comprometendo o seu projeto político.
Foi um cabo eleitoral que resolveu o problema: "Dr. Valdemar, de tarde coloque um copo d'água ao sol pegando o mormaço. Aí, beba que isso dá uma laringite danada, garanto que engrossa a voz. Para o caso de passar da conta, o senhor chupa umas sementes de romã."
Graças a esse macete, é que a voz de Valdemar tem ficado mais encorpada. Há momentos até em que ele se sente o próprio Estentor.
Mas... como tudo tem limites: Valdemar já sabe que nunca vai ter aquela voz de Noriel Vilela, o baixo dos Cantores de Ébano.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

BOATOS

Os boatos são vistos como crimes cometidos por terceiros. São crimes perfeitos, não deixam o menor vestígio e não precisam de qualquer tipo de arma - a defesa fica sem pernas para andar. Jean-Noël Kapferer

Em Paris (59, rue des Petits Champs) existe uma instituição única no mundo: a Fundação para o Estudo e a Informação sobre os Boatos. Criada pelo psicólogo Jean-Noël Kapferer, essa fundação se dedica a estudar o mecanismo de formação dos boatos bem como o incrível poder de comunicação que eles apresentam.
Nos telefones da Fundação, as secretárias eletrônicas registram os boatos que são transmitidos pelo público. A partir dessa coleta de dados, cada boato é dissecado. Para receber o foro de boato é preciso que haja de 100 a 150 chamadas sobre o assunto.
Os franceses se ligam principalmente nos boatos da área da saúde pública, enquanto os norte-americanos têm uma especial predileção por boatos que falem de sexo.
Bush, quando foi visitado por Collor, pediu a este que levasse uma carta para o Japão (aproveitando a continuação da viagem do presidente brasileiro). Bastou isso para circular o boato que a Casa Branca não tinha mais dinheiro para comprar selos.
No Brasil boato é diversificado. Ora é um pacote econômico que vai sair, ora é um ministro que vai para a frigideira... O país ficou tão sensível a congelamentos que, ao menor zumzum de que haverá um, já começa uma remarcação de preços preventiva. Ah, seu Funaro...
E esses boatos, quer na área financeira quer na área política, elegem as quintas-feiras para semear algum tipo de pânico. O mais recente deles dava conta de um feriado bancário para carimbar as cédulas, de modo a tirar de circulação aquelas que estivessem guardadas em casa. Como se isso fizesse o menor sentido e, do ponto de vista operacional, fosse possível realizar!
Dizem que um incorrigível boateiro foi preso. Para assustá-lo, colocaram-no diante de um pelotão de fuzilamento. Mas era só uma simulação e o homem a seguir foi solto. De volta à prática, a sua primeira ação foi anunciar:
- Não espalhem, mas o exército está sem munição.
Há boatos quando há segredos. Há boatos porque as pessoas precisam fantasiar a realidade. E há pessoas que são propensas a certos boatos porque estes vão ao encontro de seus interesses. Os boatos são encontrados sempre que as circunstâncias são ambíguas, as questões são importantes e a capacidade crítica é baixa.
E como disse a cantora francesa Amanda Lear (supostamente nascida em Saigon ou Hong Kong ou Hanói ou Cingapura e até mesmo na Transilvânia): "Eu odeio espalhar boatos, mas o que mais se pode fazer com eles?" 
Então, como neutralizar um boato quando se sabe que o ato de desmenti-lo pode reforçá-lo?
Não passem adiante, mas há uma falação de que a fundação de Kapferer está para fechar as portas...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MEDO, MEDO, MEDO...

... de algumas coisas que podem acontecer à minha mulher. Ela enviuvar, por exemplo.
O que eu apresento é um instinto de sobrevivência hipertrofiado, não passa disso.
Como fazem os jornais e as revistas, poderei prosseguir numa versão digital?
Recomendo distribuir a bordo dos aviões:
terços para os que creem em Deus
e
para-quedas para os que são ateus.

FRASES PARA ENFRENTAR O MEDO
Pernas para que vos quero.
Deus é grande mas o mato é maior.
O medo é tão saudável para o espírito como o banho para o corpo. Máximo Gorki
Não há cemitério de covardes.
O medo é um tipo de frio difícil de desgrudar-se dos ossos. Dom Camilo
Para os mortos... sepultura. Para os vivos... escapula!
Quien tiene culo tiene miedo.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

OS INÚTEIS

Fortaleza, 5 de setembro de 1991

Caro Neno,
Aí vai uma sugestão: você, através de sua coluna, promover o concurso que vai escolher a categoria mais socialmente inútil. Aproveito, desde já, para inscrever o pastorador de carro, o pichador, a carpideira, o tarólogo, o espelho-sem-luz, o pescador de águas turvas, a alcoviteira, o peru do jogo de cartas, o aspone e o vice-presidente da República.
Sem essa de achar que quem costuma escrever carta para jornal deve também participar.
Um abraço Fortaleza-Aurora.

Paulo Gurgel
Água Fria

(...)

Está aí um concurso que eu gostaria de ver. O concurso para a escolha da categoria mais socialmente inútil neste país.
A arraia miúda teria lá os seus concorrentes. Este que chupa parafuso até que vire prego, aquele que enxuga gelo com toalha quente, aquele outro que escova urubu até que fique branco. Etc. Toda uma galeria de tipos exóticos que ainda não aprenderam que, para vencer na vida, o sujeito tem que suar a camisa.
Deus disse comerás o pão com o suor de teu rosto. Suavizou a pena, não foi? Na prática, é com o suor do corpo inteiro - para a alegria dos que apostam nisso, os fabricantes de desodorantes.
Nem todo trabalho é socialmente útil. Traz a mitologia grega o exemplo de Sísifo, com seu interminável trabalho de fazer subir uma pedra ladeira acima. Mas Sísifo era um condenado pelos deuses. Por livre opção, ele não enfiaria um prego numa barra de sabão.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

CARTA A CARLOS AUGUSTO VIANA

Fortaleza, 5 de julho de 1991

Carlos Augusto Viana,

Inicialmente, felicito-o por sua nova ocupação jornalística no "DN", redator interino da coluna "É...". A garantia para o leitorado de que dias risíveis virão. Sempre que chegarmos à última página do "Caderno 3" e... olhem lá, olhem lá. Você, intimorato a brandir, na língua que Gabeira chorou e crepusculou no exílio, a coceguenta pena da galhofa. E essa pena, ao que se diz por aí arrancada de uma avestruz (que tem aversão à realidade), como faz um bem danado. Transcende a Sunab, o ombudsman, o Muro das Lamentações, o divã do psicanalista e até o confessionário do Senhor Bispo.
Em frente, pois. Que atrás vem poeira e zoeira vem.
Viana, como amigo é pr'essas coisas e loisas, tomei a liberdade de lhe enviar uma matéria de ajuda. São 10 pensamentos inéditos intitulados: 10 pensamentos inéditos. Que sonham em cair de preto na alvura de seu jornal. E há outros que depois seguirão...
Um abraço com validade infinita, ou quase. Do:::

Paulo Gurgel

1. Constatação
O sol nasce para todos. Nasce quadrado para alguns.
2. Meio-ambiente
O fato de ser meio, eis o erro. Quando deveria se assumir por inteiro.
3. Responda, contribuinte
Depois de aplicado num elefante branco, qual é a cor do seu dinheiro?
4. Sobre o álcool
Não só encurta a vida como faz com que ela passe mais depressa.
5. Palavras que significam confusão
Bafafá, bololô, rififi, sururu e... lulalá.
6. No cassino
Todos fumam, bebem, cheiram e... a roleta é que é viciada!
7. Não tem desculpa
O Brasil ter sido o último país a acabar com a escravidão. Falta de Patrocínio?... Ah, corta essa!
8. Regra de ouro
Não ligar para o próximo. Começa que o telefone dele só anda ocupado.
9. Leitura homeopática
Ler selos.
10. Se o povo é uma hipótese
Então, o governo é uma tese terrível!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

CARTA AO JÔ - 4

Meu caro Jô,

O tão falado mutismo do Rubinho não passa de uma balela. E vou dizer desde quando eu cheguei a essa conclusão.
Eu assistia a você a entrevistar uma tal Dra. Santinha (do Pau Oco?), líder feminista e promotora de uma campanha do tipo "Coma Menos Mulher", logo após a entrevista do Chico. O autor de "Estorvo", um gênio como sempre, e a líder feminista, com suas diatribes de mulher mal resolvida, outro estorvo.
Foi quando o seu programa, com altos e baixos naquela noite, oscilando dos píncaros de um Chico à rasteirice de uma Santinha, promoveu em mim um choque de realidade. Aumentando-me a perspicácia e o senso crítico a ponto de eu me tornar um contestador das verdades estabelecidas. Desde então passei a observar melhor o Rubinho, em suas aparições na telinha, e chegar à conclusão citada.
Daí poder lhe garantir que o guitarrista do quinteto Onze e Meia não é um filho da Lacônia. Ele fala - e muito!   É um refinado ventríloquo com a imensa barba só para escamotear os movimentos labiais. E aquela possante gargalhada (que a gente ouve a todo instante) não é do Bira, é dele também. Agora, porque o conhecimento desse fato vem sendo oculto aos telespectadores é que eu não sei dizer. Lembra, a uma certa distância, a questão da NASA com os UFOs.
O pior cego, Jô, é o que não sabe ver... TV inclusive. Aí fica vendo... Rubinho, mentiras e videoteipe.

Paulo Gurgel

sexta-feira, 20 de maio de 2011

EM MIÚDOS

Diz que o presidente Sarney, numa rara ocasião em que ele "não" se achava viajando pelo exterior, esteve em Roma. Com um propósito todo especial: conhecer a Fonte dos Desejos.
Lá chegando, o presidente, como acontece com toda pessoa que visita aquele logradouro famoso, jogou uma moeda na fonte e formulou um pedido. Verdade que ele pensou, num primeiro momento, em quão bom seria se o "Marimbondos de Fogo" caísse nas graças de um editor italiano... Mas, porque existia coisa que o ferroava mais forte, acabou se fixando em outro pedido. Que a fonte, enquanto ainda havia tempo, fizesse com que ele tivesse um final honroso de governo, só isso.
Quando o inesperado aconteceu. Com aquela que, ali representando o nosso meio circulante, por nenhum ato humilhante deveria ser atingida.
Em miúdos: a moeda foi cuspida de volta pela fonte. De saída, um desacato à Casa da Moeda que com tanto zelo a cunhara.
Meio sem jeito, o presidente abaixou-se para recolher a vilipendiada moeda. Desagravá-la do ocorrido passava a ser o seu plano, naquele exato momento. Quanto à estratégia do plano... bem, ele não podia obrigar  a bica a pagar na mesma moeda. Ele só podia botar a pobre da "cunhada" na primeira máquina de vender jujuba que avistasse e... Espere aí, antes de tal expediente, se alguém ali presente tivesse uma ideia melhor, olhe, pode se manifestar...
Logo, um mais esperto falou:
- Presidente, jogue uma moeda forte.
Mas Sarney estava sem... Então, puxa daqui, puxa de acolá, um puxa-saco de sua comitiva arranjou uma lira - uma moeda forte ma non troppo. Que foi incontinenti atirada na fonte pelo Clark Gable do Maranhão, acompanhada de um "repeteco" do pedido.
Pois bem, não houve desta vez rejeição. E, vindo da fonte, se fez ouvir um som grave, muito grave, que eu diria situado na faixa de eructação de um ogro. Ou na faixa da fala do Mário Covas, quando ele começa o dia.. Uma ou outra coisa que evocasse, o fato é que, com a manifestação vocal da bica, Sarney ficou todo eufórico:
- A fonte está a falar, chamem o cicerone.
E veio o cicerone, um homem versado em línguas indo-europeias, o qual, depois de ouvir um pouco os rumorejos da fonte, informou ao aturdido presidente:
- É... toscano do século doze. Dá para traduzir.
- Pois avexe, homem.
- Excelentíssimo senhor: Pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são...
O presidente deu evidência de que se impacientava. Como político, vá lá que ele ignorasse o tal fraseado, porém, na qualidade de homem lido (em dois sentidos) e viajado, livre estava do apedeutismo em questão. Macunaíma, por sinal, era de fonte brasileira e...
(Queimam-se aqui algumas etapas da parola da fonte. A fim de que ela possa chegar ao ponto reclamado pelo presidente, apreensivo como se encontrava para melhorar a biografia.)
- Nesta altura do mandato, excelentíssimo senhor, com a escolha do seu sucessor já acontecendo, via eleições, não existe mais como mudar o quadro. Apenas recomendo se comportar como um magistrado durante o processo eleitoral, que é por aí.
- Ah, isso eu já faço! Só não me conformo com os nomes que estão aí disputando o cargo presidencial, entre os quais não se vê um Ermírio de Morais, um Sílvio Santos, um... Nesse sentido, o secretário Marzagão, aqui comigo, está para atirar uma moeda com outro pedido que eu endosso...
Nisso, a fonte outra vez rumorejou. Mas não houve, apesar da insistência de Sarney, como fazer o homem indo-e-voltando em língua de fonte dar, em seguida, a tradução. Aparentemente, por se tratar de uma ofensa pessoal, a qual, revelada ao presidente do Brasil, iniciaria algum imbroglio.
Porém, estou sabendo - de fonte fidedigna - qual foi (em meio a alguns palavrões toscanos) a resposta da aborrecida fonte. Aquilo que recém lhe pedira o presidente, através do fiel secretário Marzagão, vinha a ser da competência de outro buraco.
Buraco de urna no Brasil, logo, logo.

Publicado em 02/12/89

sexta-feira, 13 de maio de 2011

DR. ASDRÚBAL, O CLIENTE E O AMIGO DO CLIENTE

Um adolescente - que marcara consulta pedindo urgência - estava sendo atendido pelo Dr. Asdrúbal. E o médico já intrigado porque, naqueles minutos iniciais da consulta, o rapaz se mostrava ora reticente, ora evasivo, o que dá no mesmo.
Com que, então, alguém toma o tempo de um profissional para um assunto de nonada? Pois nada até ali deixava a entrever que o rapaz tivesse algum problema importante.
Do cimo de sua experiência, Dr. Asdrúbal não podia ser requisitados para banalidades, achaques mínimos e pseudo-doenças. Tão-somente quando houvesse a evidência de uma enfermidade com substrato orgânico... aí, sim, é que seu atendimento faria sentido. O mundo reconhecia a sua competência. Fora ele o inventor da consulta campal e do sacolão da medicina, instrumentos de democratização da profissão médica. No sacolão, por exemplo, gastando o mesmo dinheiro, o cliente podia tirar uma unha encravada ou tomar um clister.
Aquele rapaz, no máximo, estava na parte desfavorável do seu biorritmo, só isso. Era levar em consideração o que dizia o aforismo primum non nocere e mandá-lo para casa. Ou, quando muito, pedir alguns exames como check-up (e como desencargo de consciência), já antevendo os mais inocentes resultados para eles.
Nisso, o rapaz falou:
- Doutor, eu sei que o senhor não receita a quem não está presente. Mas, eu tenho um amigo que acha que está com uma doença venérea...
Não precisou se alongar. Pois, interrompendo-o, o arguto Dr. Asdrúbal já foi lhe dizendo:
- Então, abra a sua braguilha e mostre o seu amigo para que eu possa medicá-lo.
Tirocínio clínico é isso aí.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O PLURAL DO PLURAL

Chegara ao fim o conclave dos professores de Português. Durante três dias, puristas do idioma pátrio, atilados defensores do vernáculo, pacientes investigadores de etimologias, latinistas de nomeada, adeptos da linguagem castiça e administradores de mesóclises haviam discutido à exaustão todos os problemas da "última flor do Lácio, inculta e bela".
Repudiados tinham sido os barbarismos, os vícios de linguagem, os erros de concordância e a má regência.
A bem dizer, o conclave já se concluíra. Os seus participantes estavam apenas reunidos em um restaurante para a confraternização de encerramento do encontro. Depois, cada um tomaria o rumo de sua cidade de origem e todos só se reencontrariam no congresso do ano seguinte.
Enquanto isso, conversavam descontraidos, entre drinques e tira-gostos, tendo como fundo a música ao vivo que a casa oferecia a seus clientes.
Quando um dos convivas, o Professor Kyw, que era conhecido pela intransigência com que defendia o alfabeto com 23 letras, resolveu fazer um pedido musical:
- Copacabana.
Kyw era um grande fã de Dick Farney (a ponto de não se incomodar com as letras alienígenas existentes no nome artístico do cantor Farnésio Dutra). E a canção Copacabana, que o professor pedira, figurava no repertório de Nilo Ney, o cantor da casa, o qual não se fez de rogado:
- Existens praias tão lindas...
A confraternização acabou ali. Aliás, foi transformada em uma reunião extraordinária, na qual se produziu uma candente nota de protesto, assinada por todos, e que foi deixada na gerência do restaurante, protocolizada (protocolada foi voto vencido) e tudo mais.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

ANIVERSÁRIOS

Eu nunca tive uma boa memória para guardar os dias de aniversários das pessoas. A começar pela data do meu próprio aniversário, a qual somente a custo consegui gravá-la na memória. Recordo que meus pais, no dia certo do ano, promoviam uma festa em que eu recebia presentes e apagava as velas de um bolo confeitado, enquanto todos cantavam o "répi bírdei tuiú"... E assim, mediante o emprego desse recurso pedagógico, eles iam paulatinamente me incutindo a noção do tal dia. Que era meu, porém não exclusivamente.
Na quadra ginasiana, transcorrida no Colégio Cearense, descobri que o dividia com o Padre Champagnat. E, por martelão que eu fosse, a descoberta do fato deve ter sido um beato remédio para a memória. Porque aí parei de amnesiar a data.
Mas, começou a complicar quando a família foi crescendo, um monte de irmãos "pelaí" com datas a serem guardadas na memória... Afora pais, avós, tios e agregados cujas datas natalícias não podim ser por mim esquecidas, sob a pena de receber um bem dosado puxão de orelhas. Em virtude (bote virtude nisso!) de que eles jamais esqueciam a minha data magna. E, por conseguinte, cada um se fazia merecedor em sua "folhinha" dos... cumprimentos de estilo!... Mas deixe que o destaque ficava para a Tia Rita que, contrastando comigo, tinha uma memória prodigiosa para as datas em geral (de quando o abacateiro foi plantado no quintal, de quando a gata amarela teve os gatinhos etc.).
Muita vez, uma irmã havida como dileta se chegava a mim e o seguinte diálogo acontecia. Sabe que dia é hoje? sei lá, eu faço anos, ah é?... Uma rebordosa, ô meu irmão (que não é de sangue)! E eu, para não grilar com essas frequentes falh( )s da memória, fui ficando cínico no pior sentido da palavra. Embora com a cisma de que um caldo de cabeça de peixe, tomado na véspera, pudesse ajudar (mas, diabos, quando era a véspera?). Então, na prática, não ajudava. E, com outros assuntos prioritários para cuidar, lá ia eu esfalfar os meus neurônios! Pois deles, por sinal, muitíssimo já estava precisando para a decoreba escolar.
Um dia casei. E introduzi em minha vida uma mulher que tem quatro datas, a saber: o dia em que nos conhecemos, o dia em que nos casamos no civil, o dia em que nos conhecemos no religioso e, é claro, o aniversário dela! Tirando o casamento religioso, que aconteceu no Dia do Médico (ambos somos isso!), nenhum outro dia coincide com algo marcante do calendário oficial de eventos. E o conjunto dessas datas, com a exceção já apontada, vem a ser uma carga mnemônica excessiva para quem é desligado no assunto em questão.
E repare que eu não toquei no Dia dos Namorados que, lato sensu, não é apenas relativo aos seres que andam pelo mundo em requestos e galanteios. O dia consta que é também para ser comemorado pelos que já fizeram, ao pé do altar, a jura de semper fidelis. Apesar de que, para mim, a lembrança desta data não é jamais um problema. O comércio, através de todos os meios de comunicação existentes, encarrega-se de me avisar. Não esquecendo, porém, o comércio de espicaçar a fera consumista que me habita o imo profundo, ser humano que sou.
É verdade que um ramalhete de flores chegando pela manhã pode salvar o dia. Quando o dia é aniversário da mulher e o ramalhete, bem... é uma medida promocional de uma revendedora de automóveis! Mas, desde que o mimo consiga alertar o desligado que ela tem em casa, a tempo de o seu natalício ser devidamente festejado, tudo bem. O ruim é quando, por falta desse detalhe salvador, o desligado só se dá conta nos, digamos, rescaldos da data. Depois que ela, a cara-metade, lá com sua enorme razão, até já dardejou um "sabe que dia foi ontem?". E ele, a seguir, se lembrando de que a culpa foi da revendedora de automóveis...
Ah, mulher é interessante! Gosta de ter o aniversário lembrado, mas não da idade que está a fazer... E a minha cara-metade, não fugindo dessa regra, é apenas uma mulher do seu tempo.

My wife

  • As mulheres não estão assim tão de baixo com seus maridos, basta ver matéria que Fame edita hoje em Voz Alheia, do médico Paulo Gurgel para sua consorte, que equivale a uma ode, aliás, a senhora Gurgel é aurorense, da família Macêdo, conhecida na região pela valentia.

(comentário de Lúcio Brasileiro em sua coluna REPORTAGEM)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O TAL HORÁRIO DE VERÃO

Chegou outra vez o famigerado horário de verão. A gente que o julgava abandonado e inerte, vai, descobre que ele estava apenas hibernando em Brasília. E que, aos primeiros calores do verão, o tal horário ressurge para atazanar a vida da gente. Lembrando Fênix, mas com uma diferença: é o verão (bem, pode ser também um veranico) que o faz ressuscitar. E, obrado isso, tome ele a encher o saco do brasileiro! Eita malfadado horário!... Ainda bem que, daqui a alguns meses, você bate asas e vai embora.
Vai ser cinzas outra vez, numa gaveta qualquer lá em Brasília... Quando a gente, é uma lástima, já começa a se acostumar com você (Masoch explica).
A rigor, para fazer jus ao nome que tem, o horário de verão só deveria começar no dia 21 de dezembro (quando ocorre o solstício no hemisfério sul). E não no dia 15 deste mês, como estabelece o decreto assinado pelo presidente da República. No entanto, para exercer o seu poder temporal - com a carga de malefícios a que tem direito - o tal horário até chega mais cedo! Talvez... para não perder a má companhia do horário do TSE, o qual já está a nos cacetear pela televisão.
Ora, já temos um sistema de registrar o tempo que é uma mixórdia. Dos babilônios herdamos a hora de 60 minutos; dos egípcios, o dia de 24 horas; dos hebreus, a semana de 7 dias. Quanto aos meses, eles nos foram legados pelos gregos, através dos romanos, com estes últimos ampliando a confusão. Pois Júlio César e seu sucessor, imperador Augusto, em medidas de autolatria, rebatizaram dois meses do ano com os nomes de "julho" e "agosto". Além de cada um deles a fevereiro roubar um dia, a fim de fazer - por uma questão de prestígio - o "seu" mês ter 31 dias.
E o pobre do fevereiro, sem patrono, ficou reduzido a 28 dias (29, nos anos bissextos). Sei não, mas esse negócio de mexer no tempo um dia ainda pode acabar mal. Temos um relógio biológico ultrassensível que o horário de verão, em seu mandonismo deslavado, teima em ignorar. Pouco se dando ao segundo o primeiro ficar que nem um dos "relógios derretidos" do pintor Salvador Dalí. E, como uma decorrência disso, o dono do relógio (biológico) ficar menos coruja e mais cotovia.
Imagino-me, toda manhã, eu querendo sair da cama com o corpo argumentando: "No seu horário ou no meu?". Um puto dilema, não é?! Se respeito o horário oficial, ponho-me fora da cama a tempo de chegar ao trabalho com pontualidade. Não o obedecendo - a outra hipótese - aí ganho uma hora adicional no tálamo, justamente quando o "eretismo" está tinindo... Ah, minhas senhoras, além de atrabiliário não é que o maldito do horário é contra o amor! Não se sabendo o que faz mais estragos nesse campo, se ele ou se a televisão na noite anterior.
O duro é suportar todos os transtornos do tal horário para, no fim das contas, medir o resultado que se obtém. A julgar pelo que aconteceu na vez passada, quando o Nordeste economizou... 0,4 por cento de energia elétrica. Uma economia de palito! O caso até de se praticar a desobediência civil, por meio de umas quantas lâmpadas acesas... Se isso, voltando-se contra o protestador, não lhe aumentasse a conta da luz. Pois é, sorte tem o Norte (onde anda Sting?) que o decreto, em sua versão 89, poupa do vexame. Beneficiado pelo fuso? Ora, alguém está con... fuso.
E o Apocalipse que ninguém sabe quando vai ser? Só tomara que ele, se tiver em breve de começar, não vá se basear no tal horário de verão. Porque aí a gente terá perdido uma hora de vida, bestamente.

DN CARTAS, 19/10/89
O POVO, 21/10/89

sexta-feira, 15 de abril de 2011

ESTAMOS GRÁVIDOS!

"Eu vi a mulher preparando outra pessoa..." 
Caetano Veloso

Um livro que esteve à venda no Brasil, há alguns anos, tinha esse sugestivo título. Imagino que o mesmo devia abordar a necessidade da participação do homem na gravidez, além, é claro, de seu conhecido papel genético. Ao enfocar que o estado gravídico, em seus aspectos orgânicos, psicológicos e culturais, não seria uma questão exclusiva da mulher. Mas que interessaria também ao homem, acarretando-lhe, em vista disso, certos compromissos e responsabilidades, a fim de que esse projeto comum chamado filho pudesse acabar... em choro. Isto é, acabar bem.
Eis, na Natureza, o exemplo de quem pegou o espírito da coisa, porém com um certo exagero. O cavalo-marinho. Pois na espécie quem fica grávido é o macho, numa bolsa abdominal para isso existente. E, quando  chega o instante propício de nascer a filharada, até um arremedo de trabalho de parto o pejado animálculo apresenta! No cavalo-marinho é assim, macho e fêmea têm os papéis trocados, Enquanto isso, em seus arroubos transformistas, a ciência está a prever que, num futuro não muito distante, a gravidez será biologicamente possível ao homem. Bem, gosto não se discute, mas que será uma gravidez de alto risco, lá isso será.
Portanto, fim da minha divagação sobre a troca de papéis! Na época em que o livro foi lançado, é bem possível que eu tenha reagido a ele com um "não li, não gostei". Porque, na qualidade de solteirão empedernido, isso era assunto que só causava ziquizira. Sucedeu o dia, porém, em que me casei. Aí - fruto da nova situação - pouco tempo após, vi-me às voltas com os indícios de uma gravidez (na mulher). São Tomé, que nunca foi banana, soprou-me aos ouvidos: ver para crer.Um conselho, aliás, bastante oportuno, pois jamais se deve esquecer de que a pseudociese (ou a falsa gravidez, como é conhecida em meio não médico) também existe.
Então, para ver e para crer, nós fomos à ultrassonografia. Este método diagnóstico que, mercê da visualização que faz das entranhas, tem tirado muita mulher da companhia da urna eleitoral. A ultrassonografia diz da existência do embrião ou feto, do seu estádio de desenvolvimento, da sua saúde, da data provável do parto e de como o futuro ser vai fazer pipi pela vida afora. É pouco? Ela também fornece a primeira foto da criança (que é ininteligível é outra conversa!) para o álbum da família.
Sobre essa história de predizer o sexo da criança por nascer, lembro-me de que um atilado obstetra usava - antes do advento da ultrassonografia - um método infalível. Ele dizia à futura mamãe que tinha acabado de examinar, que ia nascer um "menino" (enquanto anotava "menina" na ficha de atendimento). Meses depois, se nascia menino a sua fama só aumentava. Mas... se nascia uma menina o seu prestígio não sofria abalo. Bem documentado, ele tinha "como provar" que a mãe, por ocasião do exame, muito ansiosa, é que havia escutado mal.
E pensar que, antigamente, o ventre de uma mulher grávida era todo mistério! Nele não se intervinha com tanta frequência como atualmente, o que pensando bem é.... menos pontos para o passado. No remoto ano de 1948, eis com o que eu contei para nascer: as mãos de Dona Maria Juca, a oração de São Raimundo e... muita sorte! Depois, ao me cair o coto umbilical, também com a presteza que meu pai teve de o enterrar no quintal, bem fundo. Por quê? Ora, pelas terríveis consequências que poderiam me advir, em adulto, caso um bicho cavouqueiro adiante, por mal sepultado, encontrasse o umbigo. Uma delas seria virar ladrão.
(A esse desempenho de meu pai é que hoje atribuo o meu lento progredir na vida.)
Quanto ao antojo da engravidada, bem... não há como ignorá-lo. Por conta dele é que muito homem já foi pego, em quintal alheio, tentando apanhar cajarana, abiu ou coco-babão em pé vigiado a mastim. Embora se trate de crime afiançável, eu felizmente não tive de passar pelo vexame. Em seus caprichos de grávida, minha mulher só desejava as frutas facilmente encontradas no supermercado ou na quitanda da esquina. E, ampliando sua gentileza para com o maridão, se tínhamos um problema em comum a ser empurrado com a barriga, ela rápido intervinha: "Xá comigo!".
Corta agora para a gestação que deu origem a Érico, nosso primeiro filho. Nos meses de espera, minha mulher dizia que queria um filho de tez branca, cabelos louros, olhos verdes... - enfim, um nazista! Como se os seus hábitos de tomar banho de lua, pôr reflexos nos cabelos e usar lentes de contato verdes pudessem, de algum modo, influenciar o jogo genético! Já eu me contentava com menos. Desejava: um guri saudável e esperto a quem pudéssemos oferecer todo o nosso carinho. O que, aliás, está a lhe acontecer, mas com os dias de exclusivismo... contados!
É que algo de novo já pinta na tela da Ultra...
Estado interessante, esse... Em que tudo a gente tem de aprender, inclusive isto: "Diacho, qual é o telefone da casa de praia do Dr. Eduardo, nosso obstetra?".

Datas das publicações na mídia impressa: 
11/11/89 em O POVO - CULTURA e abril de 1990 no JAMB.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

MINHA CASA, MINHA DÍVIDA - 2

Em minha casa (que eu reconstruía, lembram-se?) no Cambeba, tive que solucionar diversos problemas. Um deles era a pouca iluminação natural que havia na sala principal. Dependia quase que exclusivamente da luz solar que entrava no recinto por uma abertura que existia no teto. A finalidade dessa abertura era permitir o acesso à laje da casa, o que se conseguia fazer após subir por uma escada de ferro em espiral.
Cogitei em fazer uma segunda abertura, na parede do fundo da sala, com a finalidade de corrigir a má iluminação. Só que, por haver um banheiro do outro lado da parede, o plano não pôde ser executado. Optei, então, por criar essa nova abertura no próprio teto, onde coloquei uma espécie de pergolado. A seguir, mandei revestir a tal parede (que eu não podia demolir) com seixos rolados de cor marrom. E com grama e mudas que plantei no chão a casa ganhou o seu jardim-de-inverno.
Vieram as chuvas. Só a primeira delas já danificou completamente a pintura das paredes laterais desse jardim interior. Poupou os seixos rolados (milhões de anos no fundo dos rios deram-lhes tarimba para enfrentar as águas). E o jeito foi chamar o pintor para novamente pintar as paredes. Serviço concluído, uma nova chuvarada fez o jardim-de-inverno retornar ao status quo ante, quer dizer, à situação de pintura estragada.
O pintor admitiu que a causa do problema era a massa corrida. Aplicada nas paredes, para deixá-las bem lisas antes de pintá-las, essa massa, como disse o pintor, "não podia ver água". Sabendo disso, autorizei-o a não usá-la mais. Apenas lixasse as paredes e aplicasse, em seguida, duas ou mais camadas de tinta sobre elas.
Não ficou o mais apurado dos serviços, mas o problema foi resolvido. E olhe que São José do Equinócio mandou fortes chuvas em 1988 e 89, a ponto de, num destes anos, a estação chuvosa ir ao encontro das chuvas do caju.
O que continuava sem solução era outro tipo de problema. Representado pela água das chuvas que se infiltrava na laje e ia pingar no interior do casa através dos pontos de luz - um tormento! Nem pensar em impermeabilizar a placa eu podia, pois o mestre de obras estava a construir sobre ela a Sé de Braga. Enquanto ele não a concluía, eu só podia assuntar o céu, rezar para que não chovesse e, com a leitura de um livro de auto-ajuda, tentar aloprar o menos possível.
Foi essa incômoda realidade que me inspirou a escrever, com a pena da galhofa, a "Goteira d'água". Uma paródia da canção "Gota d'água", do Chico Buarque.
Ora, que o Chico não vá achar isso ruim, porque aí eu mudo a música da "Goteira d'água" (a letra já é mesmo minha), e ele não vai ter mais nenhuma razão para se queixar.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

MINHA CASA, MINHA DÍVIDA - 1

O sonho que eu tinha de não morar mais na Aldeota um dia resolvi torná-lo em realidade. Ao comprar uma casa, recém-construída, no Cambeba, antigo Praque Iracema. Seduzido pela ideia de ir morar bem próximo de meu local de trabalho, o Hospital de Messejana.
Agora, apontar outra vantagem que a casa apresentasse, a isto eu não me atrevo.
Para começo de conversa, a aquisição daquele imóvel foi um negócio que eu fechei de forma intempestiva. Sem me submeter a um amadurecimento crítico sobre a relação custo/benefício do bem que estava a adquirir.
Devia inclusive ter desconfiado dos seguintes detalhes: o imóvel tinha sido construído por um corretor, mas estava sendo vendido por um engenheiro!
Apesar da boa aparência e do material razoável utilizado em sua construção, a casa era de uma total incongruência. Um verdadeiro exemplo de como uma delas não deve ser, principalmente quanto ao item divisão: cada dependência fora colocada em um lugar que ofendia o bom senso. Meu Deus, como eu não vira aquilo!
Seria o caso de passá-la em frente ou de reconstruí-la, e eu fiquei com a segunda opção. Não pululavam otários por aí, ainda mais quando um deles acabara de entrar em cena.
No dia seguinte à assinatura escritural, lá estava eu a demolir o imóvel. Querendo transformar aquela coisa em casa.
Ah, como doeu ver a primeira parede vir abaixo, ainda cheirando a tinta fresca!...
Durante meses, eu enfrentei um mestre-de-obras, pedreiros e auxiliares, carpinteiros, pintores... Um pessoal, que eu recrutara na região, a executar um trabalho "perfeito-lento", quiçá em busca de estabilidade no emprego. Também pudera! Com a minha descapitalização por haver comprado o imóvel, mais ligeiro eu não podia tocar as obras.
Em contrapartida, passei a ter contato com um universo novo, povoado de muiracuatira, chibangas, vitrais e lajes volterranas.
Aluguei o meu apartamento no Dionísio Torres. Levei a família para morar em meio às obras, acreditando que assim poderia dar um melhor acompanhamento aos trabalhos em andamento. Sem falar no reforço de caixa que passei a contar com o aluguel do apartamento. Infelizmente, o ritmo das obras não melhorou muito, e eu tive que aceitar aceitar o trabalho "imperfeito-rápido" das empreitadas. Digam o que quiserem, mas foi isso que me permitiu concluir as obras a tempo de mudar para outra casa.

sexta-feira, 25 de março de 2011

DOENÇAS PROFISSIONAIS

Seborreia - Livreiro (de livros usados)
Terçol - Rezadeira
Câncer - Horoscopista
Hérnia de hiato - Gramático
Hérnia de disco - DJ
Calculose - Matemático
Labirintite - Rendeira
Volvo - Caminhoneiro
Escoliose - Diretor escolar
Anexite - Burocrata
Blefarite - Jogador de baralho
Malária - Carregador de malas
Fisgadas (precordiais) - Pescador
Fogo selvagem - Guarda florestal
Tocotraumatismo - Madeireiro
Tísica galopante - Jóquei
Bico de papagaio - Ornitólogo
Mal dos caixões - Agente Funerário
Tinha - Empresário (falido).

Doenças tornadas "profissionais" pelo jogos das palavras.

sexta-feira, 18 de março de 2011

MÉDICO, PROFISSÃO HUMORISTA

A quem me lê hoje. 
A quem me lerá meses após na sala de espera de um dentista.

Era um senhor inflexível em suas posições ideológicas, daqueles que tentam a todo custo fazer proselitismo. E a nossa conversa, naquele domingo (que merecia coisa melhor), tinha sido marcada pela aspereza. Avisado por terceiros de que eu escrevia humor, ao fim do entrevero verbal, o meu adversário sai-se com esta: "Ah, então toda essa nossa conversa vai ser publicada?! Pois eu vou ler no jornal".
Fechei-me para meditar sobre aquela proposta - um autêntico tirar leite das pedras!
O que os colegas humoristas escrevem não nos dá assunto. Mostra-nos a técnica, os recursos utilizados - o que não é pouca coisa - e, por vezes, nos inspiram para analogias. O assunto mesmo nós temos é que tirar do quotidiano, da leitura de um livro bem cacete, dos programas de TV... Daquele "tijolão" que, ao ser aberto, esvoaçam as traças. E que, no meio delas, está a musa que preside o humor.
Um equívoco é pensar que o escritor de humor sabe contar uma boa anedota. Ora, numa roda de amigos, raramente eu me lembro de uma... por mais que esprema a memória. Apesar de já ter arquivado nela as "Anedotas do Pasquim", do primeiro ao oitavo volume, as obras completas do Chico Anysio e os casos gauchescos. E se, acaso, de uma delas eu me lembrar, para que vai servir? Não vou saber desembuchá-la como faz um bom contador de piadas.
Uma piada é um diamante bruto a ser lapidado: isso é tarefa para um escritor. Mas a lapidação que ele faz não extingue  o diamante que continua a existir na joia. À espera de um contador de piadas que lhe retire as novas faces que a lapidaria lhe acrescentou.
Outro engano é imaginar que o humorista é uma pessoa sempre agradável e comunicativa. A ser colocado no mesmo plano do comediante, do clown e do bobo da corte. Ledo ivo engano. Há-os inclusive coléricos e irascíveis. E há os que se fecham num imutável mutismo como o genial Luís Fernando Veríssimo. Que não perde a linha nem quando atende o telefone.
Não conheço LFV. E passo adiante o que Carlos Eduardo Novaes disse sobre o colega, enquanto papeava com admiradores no restaurante "Trattoria", aqui em Fortaleza.
Mamma mia! Ainda bem que a moda do "piadokê" acabou logo.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A ARANHA

  1. É incapaz de fazer bem a uma mosca.
  2. Vive acertando na mosca, inclusive.
  3. Fala uma língua própria. Mas "arranha" nas outras.
  4. Quando descansa faz crochê.
  5. Joga no gol com a expectativa de que algo atinja o "filó".
  6. É a engenheira do bidimensional.
  7. Carnívora, mas não quer conversa com as plantas do tipo.
  8. E evita meter-se em palpos de outras.
  9. Seu lema: fiar confiando...
  10. Acima de tudo, teme o Dia da Faxina Final.
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PGCS

sexta-feira, 4 de março de 2011

FESTA NO INTERIOR

Esses presidenciáveis todos com suas propostas de salvação nacional, sei não. Fico pensando se não seria melhor usá-los como "ingredientes" de uma divertida festa junina.

O Caiado seria o traje matuto, o quentão e, obviamente, o foguetório.
O Maluf, o arrasta-pé. Para mostrar as excelsas qualidades do sapato Vulcabrás.
O Aureliano, os acepipes para todas as gulas.
E o Jânio, o rojão que dá "xabu".
Como alguém tem de ser o traque... O Freire, com o perdão de sua ruidosa claque.
E outro, as bandeirolas... Vá lá que seja o candidato de maior policromia: o Covas.
Um ponto fraco da festa. Com o Sílvio de fora não haverá prendas, adivinhações...
Mas o Afif será o banho purificador da meia-noite.
E o Brizola, pelo passado incendiário, a fogueira. Uma crepitante fogueira, com bastante lenha a queimar pela frente mas sem ser besta de exagerar nas fagulhas.
Não "menas" importante a função que caberá ao Lula: ser o dialeto caipira da festa. E ser também as palavras de ordem e progresso da quadrilha, ditas em francês estropiado.
Já o Dr. Ulysses seria o repertório musical, o aluá, a coreografia, o taumaturgo do dia, o terreiro, o frio de junho etc. e tal. Baseando-se em que ele não recusa uma acumulação de cargos.
Enquanto isso, olha lá, olha lá... para o balão "collorido" que singra o céu. Contra ele... a fatalidade de que tudo que sobe, desce.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O ESTATUTO DA TOLERÂNCIA

Todos viram pela televisão aquela cena dos congressistas se engalfinhando por conta de um desacordo sobre a prorrogação dos mandatos dos prefeitos e vereadores. A oposição criou a maior celeuma, alegando a inconstitucionalidade da lei em questão, mas sem fundamento, pois acima da Constituição da República, muito acima, está a "Lei do Meu Pirão Primeiro". E esta é bastante clara no seu artigo 437:
Quando 2 por cento dos prefeitos e vereadores de uma legislatura apresentarem, ao fim de seus mandatos, uma média de atuação considerada razoável, os seus titulares terão os mandatos prorrogados por mais 2 anos, sem necessidade de consulta popular.
Parágrafo único - Os demais 98 por cento serão equiparados aos 2 por cento do caput do artigo para não haver discriminação.
Portanto, não cabia aos parlamentares oposicionistas o despropósito de sair quebrando os óculos e as auréolas dos briosos pedessistas. Pensam vocês que é sopa de aspargos viver defendendo o governo em tudo, inclusive nas mordomias ministeriais?
Confesso-me preocupado com tais destemperanças. Crianças, reiniciem o diálogo do pescoço com a guilhotina. Em ato de mútua compreensão, sirvam-se da champanhe: o espumante líquido para os homens do sim (do sim senhor, aliás) e o balde de gelo para pôr o na cabeça dos espíritos mais rebeldes, de modo a lhes esfriar as cucas.
A estes últimos, também, um conselho útil para o bem viver: criem um estatuto. Algo assim como...

O ESTATUTO DA TOLERÂNCIA
  1. Conciliação quando os seus comícios forem dissolvidos pelos órgãos de "segurança" com cassetetes, cães policiais e gás lacrimogênio. Se usarem bomba atômica é que não, reajam!
  2. Tranquilidade quando o presidente do Congresso Nacional, usando da tortura mental, mandar colocar a música "Foi Deus que fez Vocês, na voz da Amelinha, em todas as sessões da Casa.
  3. Estoicismo quando descobrirem que o tempo de televisão reservado ao pool das oposições foi encurtado para meia hora anual.
  4. Paciência quando o Governo, via Ministério da Fazenda, fizer revisões periódicas em suas declarações de renda, pois não se tratará de alguma forma de pressão e sim de uma necessidade imperiosa de aumentar a arre(!)cadação federal.
  5. Moderação quando a famigerada Lei Falcão (vige! como ela vige!) garroteá-los cada vez mais. Se, ainda, restar a possibilidade de se falar de política nas reuniões familiares.
Publicado em 19 de setembro de 1980 no Jornal O POVO.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O GUIA DE BOATE

O sujeito leva um amigo de fora para conhecer uma boate da cidade. Uma semana antes, lá estivera e ficara impressionado com o luxo da casa. Tomou um pifão daqueles.
Agora sóbrio, ele mostra ao amigo o luxo da boate em todos os detalhes. Aliás, em todos menos um: onde estava aquele vaso sanitário dourado? Justamente o que mais o impressionara na visita anterior,
E, para não passar por mentiroso, ele pergunta a um garçom pelo destino do vaso.
Sem contar com essa, porém. O garçom se virar para o palco da boate, onde alguns músicos afinavam os instrumentos, e gritar:
- Chega, Valdir. Vem conhecer o cara que fez aquela sujeira toda em teu saxofone!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

OS FUNDADORES DA MEDICINA CHINESA

FU-HSI
Viveu há cinco mil anos atrás, sendo concebido (1) sem pecado após vinte anos de gestação. Sua sabedoria médica despontou, in utero, ao colaborar com as autoridades chinesas no controle da natalidade de sua genitora. (2) Ainda de fraldas, desfraldou sua bandeira: a sua filosofia médica. Na Natureza, astuciou Fu-Hsi, tudo seria composto por duas forças cósmicas: o Yin e o Yang. O Yin é a fêmea, o Yang é o macho. (3) O Yin é a Terra, o Yang é o Céu. (4) Assim, no universo em miniatura que existe em cada ser humano essas forças se entrechocam em cada célula, em cada órgão e no corpo todo. (5) Se Yin e Yang estão em harmonia a saúde prevalece; se Yang chega tarde à casa, cheirando a bebida, e Yin desce o rolo de pastel na cabeça dele, surge a doença. Como se trata de um enfrentamento marido x mulher, o médico talvez não devesse meter a colher-medida. (6)
(1) Concebam só isso.
(2) Duvido que, depois disso, ela tenha tentado gerar mais alguém.
(3) O indeciso onde fica?
(4) Ora, fique o indeciso na linha do horizonte.
(5) Filosofia dele.
(6) Filosofia minha.
SHEN NUNG
O segundo grande nome da medicina chinesa, também nascido há milhares de anos antes de Christian. (7) Foi concebido por uma princesa sob a influência de um dragão celestial que, aproveitando-se da miopia de alcova dela, fez-se passar por um mandarim com uma aposentadoria de vinte salários mínimos. Shen Nung veio ao mundo para tornar-se o Imperador do Fogo. (8) Inventou o arado e descobriu o poder curativo das plantas. (9) Granjeou merecida fama na arte de ingerir venenos. Ele próprio afirmava ter ingerido 70 espécies de veneno num só dia. E, se essa experimentação gastronômica houver sido verdade, (10) não vejo ninguém melhor do que ele para ser o pai da indústria farmacêutica.
(7) Antes de Christian Barnard.
(8) Filho de dragão, dragãozinho é.
(9) Pomada de urtiga para o tratamento da urticária, assim por diante.
(10) Nem todo mundo engole isso.
HUANG-TI
O terceiro e último dos concebidos sem pecado (11) que fundaram a medicina chinesa. Visitou os imortais e recebeu deles as "90 Prescrições de Ouro e Prata" e as "9 Cabaças com os Pós". (12) As divindades Escarlate e Branca o inspiraram a inventar as "9 Agulhas da Acupuntura. (13) Assim munido, montou uma casa funerária que prosperou. E teve que construir um hospital filantrópico, pois precisava fazer certos abatimentos no imposto de renda. Quando ele morreu, aos 111 anos de idade, (14) vítima da automedicação, um dragão amarelo desceu do Céu e para lá o levou nas costas. Um cargo burocrático o esperava, pois as potestades celestes, mesmo gozando uma excelente saúde, preferiram não correr nenhum risco.
(11) A moda pegando.
(12) Uma fixação pelo número nove e múltiplos.
(13) Tirou-as do toucador delas, isto sim.
(14) Sem a fixação anteior.
MA-SHIH-HUANG
Huang-Ti deixou muitos seguidores na Terra, como Ma-Shih-Huang, o pai da medicina veterinária. Certa vez, um dragão com as orelhas inflamadas, afora um forte resfriado, procurou-o em busca de tratamento. Ma-Shih-Huang acupunturou-o na região dos lábios e administrou-lhe uma decocção. Curou assim este e muitos outros dragões, igualmente resfriados, que, ao curso de sua vida caridosa, vieram procurá-lo. Até que um desses lagartões, agradecido pela cura, mas não sabendo dosar o entusiasmo, expeliu uma labareda tamanho solar nas fuças de Ma-Shih-Huang, que também subiu aos céus, vitimado pela iatrogenia. Só que ao contrário.

Publicado em outubro de 1981 no Boletim Informativo Cultural do Clube do Médico . Texto reescrito em dezembro de 2010.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A ROUPA SUJA DE BRASÍLIA

O dono de uma lavanderia em Belo Horizonte encontrou a fórmula para diminuir a capacidade ociosa de sua empresa. Consiste ela de buscar clientela na cidade do Rio de Janeiro. Quanto ao fator distância, representado pelos 327 quilômetros em linha reta entre as duas capitais, para ele, não é problema. A roupa é transportada em aviões de carreira e, três dias após, o cliente carioca pode retirá-la em sua cidade, pagando taxas de serviços iguais às das lavanderias locais. Com os sucessos logístico e financeiro da operação, o empresário planeja estender os negócios à Brasília.
Fico a imaginar como seria um rol de roupas sujas de Brasília:
1 babador pertencente ao deputado Edison Lobão.
1 calça listrada seguindo junto com o proprietário, Sr. Agamenon, aspone da Funai, que precisa ver uma tia em Belo Horizonte.
125 uniformes de campanha. Cuidado com o de nº 7, porque pode danificar a calandra da lavanderia. Caso isto aconteça, anexar um formal pedido de desculpa a seu proprietário, o general Cruz Credo!
48 smokings. O de nº 36, de propriedade do sr. Carlos Átila, tem dispositivo especial para mágicas de pequena voltagem.
2 camisetas com a inscrição "eu quero votar em mim para presidente" do deputado Paulo Maluf.
1.800 lenços, todos da bancada órfã do PTB.
5 bermudas do "major" Curió. Lembrar de passar a bateia na água de enxágue onde vai ter ouro em pó.
1 gravata. Recomendação de não desfazer o nó da gravata, porque ela pertence, ó, ao cacique-deputado Mário Juruna.
22 camisas esportivas do Clube dos Safenados em Cleveland.
1 gibão de couro do ministro André Asa, com os bolsões de miséria trabalhados à mão.
1.551 vestidos para a higienização ultra-rápida. Sábado próximo haverá baile na Ilha Fiscal.
1 vestido longo da Sra. Mustafalla, esposa do Sr. embaixador turco no Brasil. A "turquesa" pede urgência, porém respeitando a sexta-feira muçulmana.
1 meio-fraque do ministro Galveas, seguindo ambos em voo extra.
200 camisetas com a efígie de "Che", circundada pela frase "hay que endurecerse sin perder jamás la ternura", do pessoal do quadro suplementar do SNI. Vestidura ultra-sigilosa.
400 lençóis. O lote de 1 a 50, cujo dono é o Sr. Netto, ministro do Planeja Aumentos, apresenta-se com muita sujidade "por debaixo dos panos". Sabão em dobro.
1 faixa verde-amarela, modelo presidencial.
1 faixa preta do quimono do vice-presidente Aureliano. Em caso de dano ou extravio, o dono exige como reparação a  verde-amarela.
765 ternos convencionais, aqui por engano. São "presentinhos" da mãe do Maluf (adivinhem para quem?).

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

FRASEOLOGIA MILITAR

Ao tempo em que estive na caserna, como oficial  médico do Exército brasileiro (1972-1977), certas frases eram muito citadas por meus companheiros fardados. Sem julgar o mérito dessas frases, relaciono aquelas que ainda conservo na memória:
Antiguidade é posto.
O militar é superior ao tempo.
O militar mora debaixo do quépi.
De insubstituíveis o cemitério está cheio.
Errado por cinco minutos, errado o dia todo. (1)
Quem quer faz, quem não quer manda.
Se só tem tu, vai tu mesmo.
Manda quem pode e obedece quem tem juízo.
Abra-se a sindicância e puna-se o sargento.
Vai para a "cesta" seção. (2)
Levar (ou tomar) carona. (3)
Quem decide pode errar, quem não decide já errou.
Vamos fazer bem feito para fazer só uma vez.
Os melhores são apenas bons para a infantaria.
A dor gera a compreensão.
Bota a tampa no lixo. (4)
(1) Usada para repreender o militar que chega atrasado ao quartel.
(2) O mesmo que ir para o esquecimento (um trocadilho com a Sexta Seção, o setor que é responsável pelas operações de informação e contra-informação numa unidade militar).
(3) Ser preterido numa promoção.
(4) Põe o gorro na cabeça.
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Bater continência danifica o cérebro. Quanto maior a patente, pior fica. ~ Marcelo Rubens Paiva

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

OUTUBRO OU NADA

Numa das ruas centrais da cidade encontro-me com um tio afim. Hora de bastante movimento, e ele me puxa a um canto para conversar.
- Puxa, sobrinho. É tão difícil a gente se ver. Parece até que não somos parentes...
Concordo. E o tio aproveita a ocasião para fazer um de seus desconcertantes "elogios":
- Já tem mais cabelos brancos do que eu...
Uma afirmação corretíssima, considerando que ele é quase careca.
A seguir, sem mais delongas, nos despedimos.
- Feliz Natal, sobrinho.
- Hã?!... Sim, Feliz Natal.
Mal começa outubro.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

EMPREGO BOM

1 Emprego bom
Não é o que dura
Uma ligeira
Vilegiatura
2 Ou o que somente
Por desventura
Tem mui sovina
A cobertura.
3 Não é o que exige
Qualquer cultura
Ou algum diploma
De formatura.
4 Não é que muita
Vivalma fura
Usando apenas
A formosura.
5 Não é também
O que se atura
Pra se livrar
De uma apertura.
6 E o que dizer
Se a criatura
É meio chegada
A uma bravura
7 E assume emprego
(Desdita pura!)
De trabalhar
Em desmesura?
8 Emprego bom
Tal a finura
Que a gente hesita
Na compostura
9 E até fratura
A dentadura
Mas que não larga
Da rapadura
10 Não se vê nem
Na prefeitura:
Emprego bom
É a sinecura.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

VERSÍCULOS SATÍRICOS

Adão e Eva deram origem à espécie humana
A seguir, trocando de posição, Eva e Adão deram origem aos cacófatos.
Caim (a respeito de Abel)
- Matei-o porque não passava de um abelhudo.
Matusaquém
Morreu com poucos séculos de vida. "Estava na flor da idade", assim pranteou o seu irmão Matusalém.
O porre de Noé
Foi com o vinho de uma safra antediluviana, daí os seus efeitos.
Néo
Era primo de Noé. No comando da segunda arca não conseguiu salvar nem os pterossauros.
O que Abraão teve de ouvir da mulher
- Homem, você é incapaz de um sacrifício.
Esse Jonas, sempre por dentro
Com suas histórias de pescador ao contrário.
Ausente Sansão
- Verás que um filisteu não foge à luta.
Baltasar levou o maior azar
Com o pixador que esteve em sua casa.
Disse Lot, "in extremis"
- Sal, mais sal.
E agora, José?
Sonhos, sonhos são.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

CONTINENTE À DERIVA

Relatório da NASA, recém-divulgado, (1) dá suporte à teoria da deriva dos continentes, segundo a qual essas extensões de terra (que flutuam sobre o magma em estado de fusão) estariam lentamente se deslocando. Descobriram os cientistas que o continente americano vem se afastando da Europa e da África e que, como consequência disso, o Oceano Atlântico se alarga 1,8 centímetros, anualmente.
Quem primeiro formulou a teoria, recebida com risível visível descrença pela comunidade científica, foi o sábio alemão Alfred Wegener. E, por muitos anos, a teoria wegeneriana das placas tectônicas (ou das placas teutônicas, em consideração à nacionalidade do sábio) não passou disto: teoria; mas, em face das recentes medições efetuadas pela NASA, pode-se afirmar, já: a ideia de Wegener emplacou.
Nessa altura, Monroe - o que restou dele - deve estar dando inhos pulos em seu mausoléu. Sua doutrina política - a América para os americanos - recebe, enfim, o aval da geodinâmica. Mas... aumenta o fosso entre o Velho e o Novo Continentes, alguém contradirá. Fossilismo. Como se o Oceano Atlântico, incontinênti, não cobrisse o fosso com águas tomadas de empréstimo ao mar do Japão.
Comprovada a teoria, interessa, agora, cogitar que mudanças acontecerão no século-a-século do continente vespuciano.
Nos Estados Unidos, para entabular conversa. Neste país haverá protesto da influente comunidade judaica. Esconjurarão a nova diáspora. Mas será a vez dos fóbicos (aproveitem, aproveitem), já que os aviões comerciais farão a rota Los Angeles - Honolulu apenas taxiando. Quando? Na era pós-Reagan (que tem o valor de um Cibazol para o dito-cujo).
Já no México, na esteira de uma interpretação errônea do boletim da NASA, se bem que por curto tempo, haverá uma grande euforia (descabida, saberão depois). "Enfim safamo-nos do tacão norte-americano!". Mas qual! O continente se move como um todo. E no México continuará tudo como dantes: "tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos". (2)
Quanto ao Canadá é um caso à partilha. Seis milhões de franco-canadenses, ao frigir dos ovos, tentarão fundar o chez-Canadá. Pé não dará. Uma saída à francesa não funciona bem quando é para inglês ver.
Desçamos à porção sul do continente vespuciano.A Colômbia será uma só torcida organizada. Pelo desgarro  da América do Sul de sua xará Central. Com um pouco de sorte - clivando-se o continente no istmo panamenho - poderá reaver alguma parte do Panamá que outrora foi seu. Não vejo bem a Argentina na bola de cristal. Mas poderá, se houver general bêbado na Casa Rosada, ir à tréplica nas Falkinas. Com a coragem adquirida na distância - que aumentará - com relação à Grâ-Bretanha. Porém, não esqueçam os hermanitos que "a história é uma velhota que se repete".
E o que acontecerá ao Brasil? Com este país que, no concerto entre as nações, é o décimo violino?
Primeiro, nossas casas se moverão um inho pouco; os cartório de imóveis, idem; e o BNH, idem com impertinência. Segundo, adotaremos nas relações exteriores o magmatismo (de magma) irresponsável, que é mais condizente com a nossa índole. Terceiro, será ampliado o mar territorial brasileiro, mas isto em decreto ultra-reservado para que a Bolívia e o Paraguai não ponham mau-olhado. E, quarto, sentiremos enjoos irrefreáveis e crescentes. Serão enjoos de terra móvel. Quando do futuro clímax, o Excelentíssimo Sr. Andremaluf, o Vomífico, o Presidente Indireto da República, (3) comparecerá na televisão em cadeia (epa!) para mais um... blá-blá-blá.
E haja Brasil! (4)

(1) Obviamente antes de 17/06/84, a data em que este crônica foi publicada no jornal "O Povo".
(2) Esta frase é genuinamente mexicana.
(3) Errei nesta previsão.
(4) No original era: E haja Plasil! A frase foi alterada por José Raimundo Costa, editor do jornal na época da publicação.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

QUANTO FOI?

Numa certa época, quantas vezes não me sentei em um banco da Praça do Carmo! Mas não se tratava de instantes do desfrute de algum otium cum dignitate desse seu criado Matias, porque eu então me achava na flor da meia-idade. Sabem como é, eu não gostava de ir gratuitamente (o taxista concordaria?) ao centro da cidade e, mesmo hoje, só faço isso quando algo me obriga a tanto. Então, sentar-me num banco da praça era para mim uma espécie de interregno, entendam assim. E era também a oportunidade de dar uma boa engraxada nos sapatos.
Invariavelmente, eu escolhia para sossegar as pernas o banco em que "batalhava" um engraxate perneta. Como forma de incentivar o trabalho de um deficiente físico ou porque este se mantinha reservado e silencioso durante a função, até hoje não sei. O fato é que me desagrada a tagarelice de certos profissionais, sobremodo quando pode me atrapalhar a leitura de um jornal, revista ou enciclopédia. Sacrificar esse hábito para ficar escutando, por exemplo, que "quando Cabral chegou ao Brasil, seu moço, isso aqui já estava cheio de caboclo baiano" não é nada interessante. E isto, por exemplo, foi o que eu já ouvi, com esses ouvidos que a terra há de comer, de um engraxate que fazia ponto na Praça do Ferreira.
Como um dia sintetizou o sábio alquimista, falar é prata e calar é ouro.
Calar, naqueles instantes, era para que pudesse ler em sossego o meu jornal. De modo que, lustrados os sapatos, ilustrado um pouco mais ficasse o dono deles. Embora se questione a vantagem (qual? qual?) de um homem moderno viver bem informado de tragédias, a "peça de resistência" da nossa imprensa. Em matéria de tragédia botamos os gregos no chinelo. Fora os raios desferidos por Zeus, temos todos as tragédias dos gregos e, ainda, a maior de todas as tragédias. É que somos, como alguém já observou, economicamente trágicos.
Toc, toc. Era o instante em que o engraxate perneta, com duas pancadinhas da escova na lateral de sua caixa de trabalho, sinalizava que o serviço fora concluído. Eu parava de ler o jornal, de fazer minhas ruminações (V. parágrafo anterior) e, ato contínuo do Banco do Brasil, metia a mão no bolso com uma pergunta já na ponta da língua.
"Quanto foi?".
E, assim que ele dizia, pagava-lhe o serviço feito - com alguma gorjeta (gratificação que se destina à gorja ou garganta, segundo os etimologistas). Era o sinal de minha aprovação ao serviço feito.
Apesar de não ser exatamente o caso, dali eu saía assoviando o "André de sapato novo", só parando nos breques do chorinho para olhar os pisantes e envaidecer-me de como eles tinham ficado.
Um dia, porém, a minha pergunta recebeu uma resposta inesperada (dita com certa animosidade até).
"Você num já sabe quanto é? Por que pergunta?"
Exatamente quanto custava a engraxada naquele dia eu não tinha a menor noção. E, no país da inflação, haja cachimônia para alguém se dedicar a acompanhar preços e tarifas. Nenhum bem aqui produzido, nenhum serviço aqui executado vinha conseguindo sustentar o preço do dia anterior (só meses após é que o Funaro entraria no saloon para curarizar os etiquetadores das lojas e dos supermercados). Portanto, eu precisaria de um computador da última geração que custaria... aí por volta dos... ora, esqueçam. Tinha encontrado um lustrador de sapatos que não sabia onde estes apertam!
Retirei-me com a afronta atravessada na garganta, sentindo-me um perfeito Aureliano ("era para eu perguntar ou responder?").
Mudei de engraxate. Pouco tempo depois, mudei de sapatos. Para aqueles que dispensavam a atenção dos profissionais do brilho.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O ORADOR BAIANO

O avião tinha acabado de decolar do Aeroporto Pinto Martins. Voo para São Paulo com escalas. Pelo microfone, o comandante Aparício fez a saudação de praxe. O célebre "senhores passageiros, aqui lhes fala o... blá, blá, blá..."
Nisso, um tipo recém-embarcado, baixo e de poucas carnes, sem qualquer consideração ao aviso que mandava prender o cinto e ficar sentado durante a decolagem, pôs-se de pé. Pigarreou. E deu início a um formidável discurso de retribuição aos votos de boa viagem. "Em nome de todos os passageiros deste avião", sem explicar, porém, como e quando lhe fora dado o tal mandato.
Refeitos da surpresa, logo soubemos quem era ele: um orador baiano! Meus Deus, orador baiano é fogo! Onde quer que reúna gente, aparece um deles para discursar. Naquele estilo arrebatado, empolado e gongórico que faz do suplício chinês algo preferível.
É... ninguém sabe onde o orador baiano vai buscar tanta inspiração. Já estiveram num enterro em que, estando prestes a baixar o corpo à sepultura, aí começa a chover? No qual esse fenômeno do tempo, que nada tem a ver com o falecido (pessoa boa, honrada e tal), é logo incorporado ao panegírico ("até a natureza chora") que alguém está a fazer? Pois bem, esse alguém, sem padecimento de dúvida, trata-se de um orador baiano.
E ali, naquele "pássaro de aço" (expressão dele), tínhamos o não tão raro espécime. A triturar a finita paciência coletiva com a seu infinita peroração.
Nas horas seguintes, o Carcará de Haia prosseguiu com sua falação. Pois orador baiano, segundo reza a lenda, só pode ser neutralizado à base de sabacu, um recurso que nós, civilizados passageiros, não iríamos tentar, ah, não iríamos! Ficasse o problema a aguardar outro tipo de solução, uma solução biológica, talvez.
Mas, enquanto o ictus apoplético não lhe acontecia, outra coisa se manifestou: o microfone de bordo anunciando que o avião ia pousar. Foi quando o homenzinho, que já estava no vigésimo "como eu ia dizendo", parou o seu discurso. Como que estivesse atendendo a um apelo misterioso, se bem que não era exatamente isso. Ele ia simplesmente descer... porque havia chegado a seu destino. Afinal, era a escala de Salvador.
E com que alívio o vimos desaparecer de nossas vidas! Um alívio que, porém, infelizmente, logo esvaneceu. Assim que ouvimos um dos passageiros, atento ao que estava por acontecer lá fora, com a voz de desânimo anunciar:
- Ei, turma! Está assim de orador baiano para entrar no avião!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

VIAGENS

"Viajas até mesmo ao redor de tua inacreditável imobilidade." - Emílio Moura

Uma coisa o presidente Sarney conseguiu. Em se tratando de viagens presidenciais ao exterior, estabelecer um número sem precedente na história da República. E, ao mesmo tempo, ainda sem haver concluído o mandato presidencial, já deixar uma marca desafiadora para o porvir. Se bem que o futuro, esse eterno pregador de peças, para a desdita dos brasileiros, possa estar nos reservando o seguinte. Outro presidente que nem Sarney, igualmente viajeiro. E, a mais, desfrutando de uma continuidade no poder à la Stroessner (por isso, batam na madeira três vezes).
E o nosso presidente só não vai mais longe porque lhe podaram o mandato. Assim é que, encontrando-se no último ano de governo, ele tem de contentar-se com mais três viagens. E se definir se ainda faz mais duas... Mas é claro que as fará. Ou o pessoal efetivo da comitiva ("tudo pelo elevador social") pedirá a interdição do presidente, alegando alguma insanidade mental. Sarney enjeitando ir ao "exté", onde pode asssumir o papel de que tanto gosta (estadista latino-americano), pode ser tudo... menos Sarney. Dado que não se entende um homem afastado de sua joie de vivre.
No entanto, é possível que cada viagem funcione como uma espécie de fuga. Acossado pelos inúmeros problemas do país, o presidente aqui e acolá opte por dar uma fugida. Não no sentido meramente alegórico, mas fuga mesmo de corpo presente (ou será de corpo ausente?). O assunto está ficando abstruso, não é? Mas vou retomá-lo, dizendo que Sarney um dia escafede-se de vez (pela fronteira, usando a senha "estagflação"). De sorte a evitar o tratamento de choque que Platão preconizava para os poetas da República. Da República de Platão, bem entendido.
Governar este país não é um passeio, como em princípio se pensou. Se vai, Sarney também volta, para que o cargo não seja decretado vago. Pois, por espinhoso que pareça, já tem um monte de aventureiros, querendo lançar a mão... É só ver a corrida maluca dos presidenciáveis ao poder. Alguns deles, inclusive, já foram à Europa para receber o cobiçado polimento. De social-democrata que, dizem, é bom para a candidatura (na do Marronzinho eu pago para ver...). Mas, como até o momento em que escrevo estas linhas, não se gastou nisso dinheiro do contribuinte, então tudo bem.
Não há, porém, como justificar tanta gente a acompanhar o presidente Sarney em cada viagem. Há apenas como explicar. Partindo-se da noção de que é uma fraqueza humana se gostar de boca-livre, e de que coisa outra não é uma viagem dessas. Entretanto, gente em excesso nessas comitivas só contribui para criar a imagem de um país perdulário (de endividado não é segredo). Além, é claro, de trazer na bagagem alguns novos problemas para o presidente. Remember o episódio dos micros da viagem aos Estados Unidos.
De fora da esbórnia, o povão já descobriu que existe uma "melô do Sarney". Ei-la: "Se diverte e já não pensa em mim". Também pudera, não tem direito a participar da lambança oficial. Só político, ministro, empresário, a parentela... mas o povo mesmo, nunca! Afinal, o que entende o povo dos altos negócios que são acertados lá fora? Ora, que fique ele cá submetido à experiência do último pacote econômico (o primeiro heterodoxo a gente não esquece...).
Pois é, vamos e venhamos que o presidente esteja a se desincumbir lá fora de um ror de assuntos importantes. Só que, oh! ror... ainda não se sabe, desse tour de force, qual é o retorno em prol do país. A dívida externa, por exemplo, não diminuiu um tiquinho sequer. Ao contrário, só cresce... e parece mais inexpugnável do que a Fortaleza da Solidão. E isto para não falar de todos aqueles comezinhos problemas (enfadonho enumerá-los) que estão "pelaí" comendo solto. Sob uma inflação anual de mil por cento... à sombra.
O duro é olhar no mapa-múndi e constatar o muito que o presidente ainda tem por fazer. Barbados, Liechtenstein, Nepal, Ilhas Seychelles... ainda não foram visitados. E não é para menos. Diante do pouco tempo que lhe resta na Presidência, é tarefa hercúlea para um homem só (força de expressão, já que não se leva em conta todo o pessoal). Talvez fosse o caso de botar na jogada, nisso que é uma atividade indo e voltando, o seu atual substituto. (1) Há comemorativos recentes que atestam ser ele do ramo. (2) E depois, quem sabe, também botar na jogada o vice do vice, o...

(1) O vice-presidente Paes de Andrade.
(2) A viagem do vice a Mombaça - CE.
Sábado, 05/08/89

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

QUARTO DE EMPREGADA

Uma das obsessões da construção civil tem sido o barateamento das unidades habitacionais que constrói. Evidentemente, isso tem limites. Um apartamento cuja sala é ém "I" - e não em "L", como inicialmente se previa - acaba afastando os prováveis compradores. Um acabamento anunciado como de primeira e que não o é, também. Experiências revolucionárias com a utilização de novos materiais como, por exemplo, fazer as paredes de papier mâché (papel amassado), então nem fala. Antes de tudo, o adquirente de um imóvel é um sujeito bem conservador.
E a política de minimização de custos das construtoras acaba sobrando para uma dependência: o quarto da empregada. Que têm sempre dimensões liliputianas por maiores que sejam as do apartamento. Descrevendo um deles, Rubem Braga disse: "Um quartinho tão minúsculo onde uma pessoa não pode respirar com muita força que esgota completamente o ar." Embora tal nível de consciência não o impedisse de transformar o quarto de empregada no despejo do apartamento. Na oportunidade em que Braga recebeu uns fardos pouco desejáveis, que "não podiam ficar na saleta do cronista".
Ao comprador de um apartamento Millôr Fernandes dá a seguinte orientação no item armários embutidos: "Conte o número e o tamanho dos armários embutidos. Mas conte com cuidado porque, muitas vezes, você pensa que está diante de um armário embutido e está diante do quarto de empregada." Ora, imaginam os senhores construtores que a empregada doméstica, feito aspargo em lata, dorme em pé? E que, nas paredes do quarto, assim que ela estiver instalada, não vai a mesma afixar pôsteres de Michael Jackson, Xuxa Meneghel e Paulo Ricardo? O tipo do detalhe que deixa o compartimento ainda mais exíguo.
E o quarto em questão continua num processo de encolhimento que faz lembrar a anã branca (a qual, por sua vez, faz lembrar Adelaide, a anã paraguaia).
Quarto de empregada é assunto que eu falo com conhecimento de causa. Em 1972, eu morei num quarto-e-sala do edifício Corumbá, em Copacabana. Republicanamente, com colegas médicos recém-formados, e todos "duros". O quarto-e-sala ficava ali no Posto 2, próximo ao afamado Beco da Fome (do qual eu não pretendo fazer aqui nenhum comercial). Um dia, porém, quando a vida em república já cansava, recebi o convite para ir morar num local mais família. O convite veio de minha irmã Marta e de seu marido João Cunha(do), que estavam fixando residência na Glória.
Então, ai de ti Copacabana! Peguei meus teréns e fui morar na rua Benjamin Constant, onde a vez primeira cheguei com o coração ofegante (devido à ladeira, meu irmão).
No pequeno apartamento da Glória, coube-me o quarto da empregada. Tão pequeno, ele, que uma vez aberta a cama de campanha não sobrava espaço para alojar outro pertence. Quando, por exemplo, queria pensar, eu precisava pegar o elevador de serviço (tinha a permissão), atravessar o saguão do prédio, e descer a rua no rumo das obras do metrô do Rio. A razão inclusive por que me tornei um peripatético.
Uma gozada coincidência. Um dia, por razões de serviço, eu fui transferido da rua Benjamim Constant para a cidade de... Benjamim Constant, no Amazonas (ora, vá gostar de positivismo assim). Pois bem, com essa repetição dos nomes, o Exército quase não me deu a ajuda de custo para a transferência.
Nem por isso, naquele quarto, eu passava maus quartos de hora. Minto, eles aconteciam. Apenas quando a cama de campanha estava armada e não era a hora de dormir. Mas eu era feliz e... sabia. Só não sabia era... como tinha conseguido sair do quarto o valente pedreiro que o construiu? o eletricista? o pintor, hein, hein, hein?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O VIOLONISTA MAIOR CLÁUDIO COSTA

A manhã nascia azul quando Cláudio Costa pegou o violão. A vez primeira. Vivia-se o samba-canção, a guarânia, o bolero, a bossa-nova e o rock dos anos 60. Parodiando a célebre frase de Miguel Pereira: o Brasil era um vasto território musical.
Consciente de seu órfico papel, Cláudio entrou em cena. E logo o tínhamos a debulhar sons, divinos sons da magia de seu violão. Sons de carrilhões. E, numa serenata no Parque Araxá, deu-se que Cláudio foi inaugurado.
Canções, quantas canções, a dor resignadamente, eu já desculpei tanta coisa, as saudades nos copos de um bar, porque se revela a maldade da raça, sem retrato e sem bilhete e no sorriso dela meu assunto... Ah, são fragmentos das canções que sempre estiveram no mapa do Brasil.
Trilhos urbanos. E Cláudio foi em busca das harmonias do Brasil Novo. De um Brasil caboclo: Gonzaga, Humberto, Jackson; de um Brasil bossanovístico: João, Jobim, Menescal, Bôscoli, Lyra; de um Brasil afro: Baden, Vinicius, Ben; de um Brasil festivalesco: Chico, Edu, Vandré, Milton; e de um Brasil tropicalista: Gil, Caetano, Duprat.
Reparem todos em suas mãos pequeninas, porém ágeis. Mãos fiandeiras que tecem e retecem as mais lindas melodias, as mais sublimes harmonias. E os contrapontos que desafiam os silêncios da música. Cláudio parece estar nos limites humanos da perfeição. Além, só os titãs podem ir. Mas o que sabem eles da suprema arte do improviso?
Nesta mui leal e heróica cidade de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, Cláudio Costa é o seu violonista maior. Dou fé.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O AUTOR - 2

Na relação dos livros citados na postagem O AUTOR (a primeira do Preblog), em que existem trabalhos de minha autoria, devem ser acrescentados os seguintes títulos:
Achado Casual (2008)
Ressonâncias Literárias (2009)
Receitas Literárias (2010)
São respectivamentes as 23ª, 24ª e 25ª coletâneas anuais da Sobrames, Regional do Ceará.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

MONSTROS

- NÃO DEIXE QUE ELE ME MORDA!
- MAS ELE SÓ TEM DOIS DENTINHOS...
Monstro é o que não falta no Ceará. Em priscas eras o nosso estado já teve o Cão da Itaoca, a Perna Cabeluda, o Monstro da Lagoa Verde... E isto para não falar no Corta-Nádegas que, durante algum tempo, andou a fazer malinações condizentes com o nome lá para as bandas do Conjunto José Valter. Com a ressalva de ser este último um desajustado de carne e osso e não um monstro, no sentido original da palavra.
O Ceará teve momentos de glória na época do Monstro da Lagoa Verde, que chegou a ser comparado com o Monstro do Loch Ness. Enfim, tínhamos um bicharoco da melhor cepa para escocês ver. Mas não tínhamos as brumas da Escócia que conferem a qualquer aparição um ar misterioso. Sem brumas, a lenda desse monstro logo se dissipou.
Mais recentemente, visto por pescadores e lavadeiras, tem dado o ar de sua assombração na Lagoa do Opaia, em Fortaleza, mais outro monstro. Ou coisa parecida, já que pode se tratar de um reles jacaré que tenta sobreviver nas águas da poluída lagoa. Até chegar o dia em que ele vire bolsa de madame ou sapato de bacana. E aqueles que o viram, se for confirmado ser um jacaré, não passariam de uns pescadores de águas turvas.
Antes que uma equipe científica meta o sonar na Lagoa do Opaia, em busca de esclarecer o mistério, atrevo-me a dar um palpite. Não seria o danado do bicho o tal dragão da inflação? Como um pop star, cansado de tantas badalações e que procura uma vila em busca de anonimato, o dragão da inflação veio ter nessa lagoa.
1992 promete ser um ano cheio e mesmo um monstro atilado, como ele é, tem de recarregar suas baterias.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

UMA ASSEMBLEIA DE TELEVISORES

Uma assembleia geral extraordinária que aconteceu no interior de uma locadora de televisores. Todos os aparelhos em dia com suas taxas podiam se manifestar.
- Companheiros, o problema é sério. Onde quer que estejamos só nos deparamos com sexo e violência. É como se as pessoas não fizessem outras coisas. Precisamos dar um basta nessa situação.
- Isso! Querem nos impingir que a vida imita a arte, quando é o contrário.
- Sim, geralmente só sugerimos a ocorrência do ato sexual. Por exemplo: o casal entra no quarto aos beijos e cai na cama; o quarto fica na penumbra e os dois trocam carícias sob os lençóis...
- É. Nossos eventuais excessos são por conta da competição, da pressão do mercado... E os deles? São gratuitos e desnecessários.
- Imaginem vocês o que eu sofri num motel onde me colocaram nos últimos meses. Fui obrigado a ver cenas reais de sexo explícito, a assistir a todo tipo de tara. E depois ainda falam que o erotismo campeia na televisão.
- Quem são os responsáveis por isso tudo? Eles não têm um código de conduta?
- Eu também tive que presenciar todo tipo de violência. Tão logo me ligavam... lá vinha briga de marido com mulher. Mil palavrões, objetos sendo arremessados... Cenas fortíssimas em que não se respeitava nem o horário infantil da televisão.
- Ah, a falta que um seletor de... casal nos faz!
- Violência... alguém aí falou. Que acham do meu tubo de imagem quebrado? Pois foi um torcedor brasileiro no fim do jogo contra a Argentina. Sou mesmo um "azaroni".
- As pessoas não tem modos. Onde estive locado existia um gordão que me assistia de cuecas, tomando Skol e comendo baconzitos. Saio de foco só ao me lembrar daquele mastigar imoral, daqueles arrotos e flatos...
- Eu vi também muito garoto abusado, criada respondona, cunhadinho folgado...
- Quanta hipocrisia! Por muito menos nos desligariam pelo controle remoto.
- E aqui ninguém sabe onde eles têm o botão de desligar.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

RECEITAS LITERÁRIAS

Antologia de prosa e poesia publicada em 2010 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg, Antero Coelho Neto, Antonio Sílvio de Araújo, Antonio Vicente de Alencar (convidado), Celina Côrte Pinheiro, Dalgimar Beserra de Menezes, Elcias Camurça Júnior, Emanuel de Carvalho Melo, Fernando Antonio Siqueira Pinheiro, Francisco Airton Ferro Marinho, Francisco Antônio Tomaz Ribeiro Ramos, Francisco das Chagas Dias Monteiro (Chico Passeata), Francisco Flávio Leitão de Carvalho, Francisco José Pessoa de Andrade Reis, Francisco Nóbrega Teixeira, Francisco Sérgio Menescal de Macedo, Geraldo Bezerra da Silva, Giselda Medeiros (convidada), Jesus Irajacy Fernandes da Costa, João de Deus Pereira da Silva, Joaquim José de Lima Silva, José Luciano Sidney Marques, José Maria Bonfim, José Maria Chaves, José Murilo Martins, José Telles, José Teúnes Ferreira de Andrade Filho, Josué Viana de Castro Filho, Luiz de Araújo Barbosa, Luiz Emanuel Assiz, Luiz Luciano Menezes de Arruda, Luiz Teixeira Neto, Manoel Dias da Fonsêca Neto, Marcelo Gurgel Carlos da Silva, Maria Ilnah Soares e Silva, Martinho Rodrigues Fernando, Nilson de Moura Fé, Oziel de Sousa Lima, Paulo de Tarso Campos Ferreira, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Pedro Henrique Saraiva Leão, Sebastião Diógenes Pinheiro, Vanius Meton Gadelha Vieira, Vladimir Távora Fontoura Cruz, Walter Gomes de Miranda Filho
Apresentação: Marcelo Gurgel
Prefácio: José Batista de Lima, da Academia Cearense de Letras
Homenagens Póstumas: a Oziel de Sousa Lima, por José Maria Chaves, e a Nilson Moura Fé, por Alex Mont'Alverne
Projeto e Editoração: Francisco Batista
Coordenação, Organização e Revisão: Marcelo Gurgel
Capa: Martinho R. Fernando e Marcelo Gurgel
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda
Tiragem: 1.000 exemplares
Livro com 240 páginas.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

FÓSFOROS - 2

Um amigo comentava o grau de interferência dos familiares da esposa em todas as decisões que ela devia tomar. Até para comprar, por exemplo, uma caixa de fósforos na mercearia da esquina.
Um problema logo se impunha: qual deveria ser a marca da caixa de fósforos?
O telefone tocava. E já era uma das irmãs da esposa, inteirada da existência do problema, a lhe oferecer alguma solução. "Escuta, a marca A é de melhor qualidade e no supermercado X está em promoção. Desligo. Tchau."  Mas o caso não estava resolvido, pois o telefone logo tocava novamente. Com outra irmã na linha, estabelecendo uma espécie de dilema. "Não, a marca A vem com menos fósforos na caixa. Compre B."
Pouco tempo após, novos telefonemas tinham elevado o escore para dois a dois. E a esposa, sem sair do pé do telefone, que toca alucinado. São novas ligações que aumentam o escore para três a três, quatro a quatro... Quer dizer, continua tudo ao nível de indecisão (mesmo já tendo sido ouvida a irmã mais velha que mora em Brasília).
E a esposa, desolada, botando o telefone no gancho:
- Não consigo falar com mamãe. Deve ter saído para visitar alguém.
Sim, ainda faltava ouvir a opinião da matriarca da família, o voto de Minerva que dissiparia as dúvidas de tão indeciso espírito.
Por fim consultada, eis como Minerva votou:
- Por que você não compra logo um acendedor elétrico?
A solução perfeita. Ou quase, se considerarmos que houve a seguir novas rodadas de ligações telefônicas. Com sugestões de marcas, modelos, preços, tempos de garantia etc.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PEQUENO GUIA PARA ENTENDER O ESCRITOR

Ele tem parido com dor (pela mulher que seguiu à risca o preceito bíblico) dois filhos, Érico e Natália. E tem dado ao lume, sem a participação dela, uma pequena galeria de personagens. O Jorge George, que tem uma relação absolutamente "desligada" com o mundo e que, por isso, torna-se agente e paciente das maiores desventuras; o Dr. Carta Pácio, que vive a escrever (e, o que é pior, a enviar) missivas com suas mirabolantes propostas, alicerçadas em argumentações pseudocientíficas; o Antonomásio, de curtas aparições, quando o texto está a exigir a presença de alguém de posições firmes, sem papas na língua, e que não leva desaforos para a casa, o qual, por ter sido batizado com água quente, tem esses predicados de sobra; o Professor Kyw, um mestre do vernáculo que defende às últimas consequências o alfabeto pátrio extirpado das letras alienígenas; e o Dr. Asdrúbal, um médico colecionador de casos insólitos na profissão e solidário com as desgraças alheias, mesmo que isto signifique revelar que já passou por elas com galhardia.
Depois de haver participado de duas dezenas de antologias literárias, ainda não ter um livro solo não chega a ser um mistério. É para dar mesmo trabalho a seus futuros (e não autorizados) biógrafos. Mas, caso venha a mudar de ideia, publicará esse livro solo, ao pressentir que a hora de seu canto do cisne esteja chegando. Ora, se os elefantes sabem a hora de se dirigirem aos cemitérios, por que ele não saberá o instante azarado azado de procurar o editor?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O SEXO DOS LEÕES

A nossa Praça General Tibúrcio, depois de passada a limpo por uma reforma, revelou-nos uma coisa surpreendente. A respeito da anatomia de um casal de leões de ferro fundido, os quais, de tão admirados pela população fortalezense, fazem com que o logradouro seja conhecido como a Praça dos Leões.
É que os leões apresentam os sexos trocados. O macho, identificado por sua imponente juba, exibe uma genitália feminina, enquanto a fêmea não pode ser considerada uma leoa, já que tem uma estrovenga.
Aventa-se a hipótese de que o escultor dos leões, com receio de não receber o pagamento de seu trabalho, de um modo pré-vingativo tenha aprontado a coisa. Mas eu, particularmente, penso em outra possibilidade, a de que o anônimo artesão apenas copiou os modelos que lhe foram fornecidos. Um casal de leões que, para a minha hipótese ficar verossímil, possa ter vindo de Marrocos. Depois de submetidos a cirurgias de mudança de sexo em alguma afamada clínica desse país africano.
Difícil é acreditar que, durante muitos anos, o bizarro achado tenha ficado oculto ao olho do fortalezense. O conterrâneo, quem sabe, não pense só naquilo... Agora, eu tenho cá minhas dúvidas se o fato passaria despercebido se, no lugar dos leões, houvesse jumentos. Ainda mais se as esculturas asininas ganhassem vida e começassem a fazer amor em plena praça.
Decidido a pôr uma pá de cal sobre o assunto, ainda tenho a seguinte opinião. Está tudo OK com os sexos dos leões, apenas a juba é que foi posta no exemplar errado. E, se isso tivesse sido desde o princípio admitido, quantas linhas não teriam sido economizadas nos jornais da cidade. Pois a gente começa a discutir o sexo dos leões e, quando menos espera, já está a discutir o sexo dos anjos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

CORRE(I)ÇÕES

Sr. Editor:

Há algum tempo encaminhei-lhe uma carta em que fazia oportunas considerações a respeito do Congresso Nacional. Como a mesma não foi até agora publicada, presumo que tenha sido por conta do excesso de termos bajulatórios que andei nela empregando.
Ainda assim rogo a publicação dessa carta, na qual acabo de identificar a necessidade de fazer três reparos:
  • onde escrevi o adjetivo “capaz” acrescentar que é “de tudo”;
  • onde usei a expressão “fruto do trabalho”, substituí-la por “furto no trabalho”;
  • e, por fim, trocar a expressão “bem comum” por “bem com um”.
Afinal, temos o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar.

Cordialmente,
Paulo

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ANOS 80. A NOVA REFINARIA

Trava-se entre estados nordestinos uma luta política para ver qual deles vai sediar a nova refinaria. Há argumentos técnicos a favor de um, de vários e de todos. Ora é Pernambuco, porque possui o melhor porto, o Rio Grande do Norte, por ser o principal produtor de petróleo da região, e ora é o Ceará, que está em melhor posição geográfica, coisa e tal.
Os ânimos estão acirrados, nenhum estado quer perder. E, por não ser possível contentar a todos, o Governo Federal vem adiando o anúncio do nome do estado que irá sediar a tão disputada refinaria. Por se tratar de uma decisão politicamente desgastante, mesmo que seja respaldada em laudos técnicos.
Enquanto isso, aqui e ali esboçam-se acordos que visam a aumentar os cacifes dos estados envolvidos na disputa. Como, por exemplo, colocar a refinaria em Aracati para beneficiar o Ceará eo Rio Grande do Norte. Ou, então, construir a refinaria no Cariri para dividir as vantagens entre Ceará e Pernambuco (afinal, o Arrais é também cearense).
Só que propostas assim poderão atender aos interesses de dois ou, quando muito, três estados. Passando ao largo dos interesses dos demais. Por ser impossível encontrar uma região em que todos eles façam fronteiras entre si.
O que todos os estados nordestinos apresentam em comum é o fato de serem banhados pelo Oceano Atlântico. Daí me ocorrer a ideia de que possa ser construído um grande navio-refinaria. Com a palavra, os japoneses (para quem navios e fábricas podem ser a mesma coisa). Navegando de um estado para outro (com a exclusão da Bahia que já tem uma refinaria terrestre), a refinaria flutuante, iria deixando nas escalas a sua produção conforme as necessidades locais.
Em momentos de folga nos compromissos assumidos, o navio-refinaria poderia se deslocar, quem sabe, até o Pará. Que não é Nordeste, mas que tem no governo um correligionário do presidente, eis outro argumento técnico.