sábado, 30 de novembro de 2019

BUFÕES

O pequenote Percheo
Em Heidelberg, cidade que integra a rota romântica da Alemanha, um ponto turístico imperdível é o Castelo de Heidelberg. É uma das mais famosas ruínas do país e símbolo da cidade.
Chega-se a este castelo por uma estrada ou, de uma maneira mais interessante, tomando-se o funicular.
Uma das atrações do Castelo de Heidelberg é o Fassbau (Edifício do Barril).
Foi mandado construir entre 1589 e 1592, especificamente para acolher o famoso Grande Barril. Estava diretamente ligado ao Salão do Rei, de forma a permitir, durante as celebrações, o acesso direto ao vinho contido no barril.
Percheo e eu
No Fassbau, o visitante se depara com a estátua de Perkeo (no alto da foto), o bufão da corte, símbolo do consumo de vinho, ali colocado por Carlos Filipe III para guardá-lo. Carlos Filipe trouxera Perkeo de Innsbruck, onde tinha anteriormente o seu trono como regente. imperial do Tirol, para a corte de Heidelberg. O rei tinha aprendido a tirar prazer do pequeno tamanho do bufão e de suas piadas espirituosas.
Conta-se que Carlos Filipe III lhe teria perguntado se conseguia beber o conteúdo de um barril sozinho. A resposta parece ter sido "Perché no?" (o que significa "porque não?", em italiano), o que daria origem à sua alcunha: "Perkeo".
E o rei: "Vem comigo para Heidelberg. Nomeio-te cavaleiro e camareiro do barril do rei. Na adega do meu castelo está o maior barril de todo o mundo. Se o beberes, a cidade e o castelo serão teus".
O vinho devia ser a única bebida que Perkeo conhecia desde a sua infância. Quando, em sua velhice, adoeceu pela primeira vez, o seu médico aconselhou-o a beber vinho com urgência e recomendou-lhe que bebesse água em abundância. Apesar do ceticismo, Perkeo seguiu o conselho do médico e morreu na manhã seguinte.
Perkeo era uma criatura digna de pena e tinha – como Victor Hugo mencionou – que consumir diariamente quinze garrafas de vinho, caso contrário era açoitado.
Original: EM, 15/03/2017
Triboulet
Os deveres de um bobo da corte medieval eram divertir o rei, sua corte e quaisquer visitantes que o rei quisesse divertir. Ele também era utilizado para animar o monarca (quando o monarca estava deprê), para atuar como confidente e, às vezes, como mensageiro. O termo "bobo da corte" só foi cunhado algum tempo mais tarde (antes disso, eles eram chamados de bufões). Mas o bufão tinha que ser esperto o suficiente para saber que era tênue a linha de separação entre provocar risos e ofender os que tinham poder sobre ele. Essa foi uma linha que o famoso bobo da corte Triboulet (na gravura) cruzou algumas vezes quando serviu Luís XII e Francisco I, reis da França.
Diz a lenda que, entre Francisco I e o Triboulet, aconteceu uma ríspida conversa, na qual ele disse ao rei que um dos membros da corte havia ameaçado matá-lo. O rei supostamente respondeu a isso: "Se ele o fizer, eu o enforcarei um quarto de hora depois". Ao que Triboulet supostamente brincou: "Ah, senhor, não é melhor então que fosse um quarto de hora antes?"
Certa vez, Triboulet não conseguiu se conter e deu um tapa no traseiro do monarca. O rei perdeu a paciência e ameaçou punir Triboulet. Um pouco mais tarde, o monarca se acalmou e prometeu perdoar Triboulet se o bobo pudesse pensar em um pedido de desculpas ainda mais ofensivo do que o desrespeito praticado. Alguns segundos depois, Triboulet respondeu: "Sinto muito, majestade, por não ter reconhecido você! Confundi-o com a rainha!"
Em outro exemplo famoso, ele enfureceu o rei por tirar sarro da rainha, após o que sua execução foi ordenada. No entanto, diz a lenda que, devido a seus anos de bom serviço, ele foi autorizado a escolher o modo de sua morte. Depois de refletir sobre isso, Triboulet disse ao rei: “Bom pai, pelo bem de Saint Nitouche e Saint Pansard, patronos da loucura, eu escolho morrer de velhice". Isso divertiu tanto o rei que ele optou por banir Triboulet em vez de executá-lo.
O mais famoso dos bobos das cortes medievais, Triboulet passou para história com o título de "bobo do rei e rei dos bobos".
Original: EM, 30/10/2019

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

PONTOS DE VISTA

PREFÁCIO
Ao compulsar os originais de "Pontos de Vista", que Marcelo me fez chegar às mãos a fim de apensar o prefácio, meu pensamento voou ao distante ano de 1980. Quando um grupo de médicos (em data não exatamente lembrada) reuniu-se no auditório do Centro Médico Cearense (CMC) - a hoje Associação Médica Cearense -, para discutir a ideia da publicação de uma obra literária. O CMC encontrava-se na gestão do Dr. José Aguiar Ramos (1980-1981), que sucedeu ao profícuo período do Dr. Paulo Marcelo Martins Rodrigues (1978-1979), em que foi criado o jornal "CMC Informa" e reformulada a revista "Ceará Médico".
O médico Dr. Emanuel de Carvalho Melo, que vinha exercendo o cargo de diretor cultural da instituição, foi convidado por Aguiar Ramos para implantar a editora do CMC. Com o surgimento desta ferramenta cultural, um grupo de esculápios acorreu à entidade com a intenção de publicar uma coletânea. Dez médicos, com suas produções literárias e a escolha consensual do título "Verdeversos" para uma antologia exclusivamente dedicada à poesia. O professor Adriano Espíndola, que teve o tempo de uma vida para escrever sua "Poesia Presente", honrou-nos com a apreciação dos textos. Então, demos a entrada do calhamaço na Imprensa Oficial do Ceará (IOCE).
Imaginem o que é acompanhar a edição de um livro naqueles tempos em que o setor gráfico não dispunha dos recursos da informática. Numa semana, Emanuel comparecia na IOCE, com os bicos de pena que havia desenhado para as ilustrações. Na outra, era a minha vez. Para conferir se os erros tipográficos anteriormente detectados tinham sido corrigidos. Ou se, à maneira de "memes", haviam se multiplicado. Somos gratos ao funcionário e hoje cineasta Rosemberg Cariry, que condignamente nos recebia nas visitas ao parque gráfico da IOCE.
Lançado o "Verdeversos", em uma noite de autógrafos, muitos autógrafos, na sede do Centro Médico Cearense, seguiriam-se em anos posteriores outros livros: "Isto não se aprende na escola" (1982), com temas médicos, "Encontram-se" (1983), de prosa e poesia, "Psiquiatria Básica" (1984), de Gerardo Frota Pinto, "Temos um pouco" (1984), de prosa e poesia, e "Nomes e expressões vulgares da medicina no Ceará (1985), de Eurípedes Chaves Jr.
O CMC, após o lançamento de "Verdeversos", foi também o palco das articulações para a criação da Sobrames Ceará. Tendo como seu idealizador o Dr. Francisco Dionísio Aguiar, e corporificada ao longo de 1982, ela contou com o apoio de uma comissão de médicos escritores coordenada pelo Dr. Francisco Nóbrega Teixeira, que contribuiu com a elaboração dos estatutos. Autodeclarando-se não escritor, mas empenhando-se a fundo na criação da Sobrames Ceará, Dionísio "sonhou um sonho por nós", no dizer da saudosa Dra. Celina Côrte Pinheiro.
Em 4 de novembro, com a presença do presidente da Sociedade Brasileira dos Médicos Escritores (Sobrames Nacional), Dr. Odívio Borba Duarte, em uma sessão solene realizada no CMC, tomou posse a primeira diretoria da Seção do Ceará da Sobrames. Após a posse, seguiram-se algumas reuniões em que foram estabelecidas metas e tomadas decisões importantes para a consolidação da entidade. Uma delas, a merecer destaque, foi a decisão de que todos os autores de duas coletâneas, "Verdeversos" (publicada em 1981, anteriormente à criação da Sobrames-CE) e "Encontram-se" (1983), seriam considerados seus sócios fundadores.
O colega Emanuel, ao tempo em que foi responsável pela Editora do CMC, foi também o primeiro presidente da Sobrames Ceará (1982-1984). Tendo prosseguido, no período seguinte (1984-1987) em que eu estive como presidente da entidade, como membro de sua segunda diretoria. Por haver Emanuel coordenado, como editor do CMC, as primeiras edições das antologias dos médicos-escritores, sucedeu serem estas chanceladas pelo Centro Médico Cearense e pela Sobrames Ceará (a partir da criação desta última).
Sim, a medicina nos permite a esses voos do espírito em que, dedicados à literatura, criamos histórias, simulamos vidas, transfiguramos a realidade e até inventamos universos autônomos (a partir de verdades que não podem ser medidas pelos mesmos padrões das verdades factuais). Temos um entendimento com a palavra (aliança secreta, diria Cortázar) para não desvanecermos. E, nessa árdua luta para vencer a poeira do tempo, por isso, escrevemos. Existe um caminho de volta que nos leva da fantasia à realidade e esse caminho é a arte, como assinalou Freud.
Assim é que chegamos a 2019, ano em que é dado a lume "Pontos de vista". Um alentado livro de 350 páginas organizado e apresentado pelo Dr. Marcelo Gurgel, com a arte de capa do cirurgião e artista plástico Dr. Isaac Furtado, e contendo poemas, contos, crônicas, causos, ensaios, artigos, reminiscências, discursos e reflexões de seus 64 autores. Destes, 60 são médicos e 4 são sobramistas oriundos de outros ofícios. Suas minibiografias são apresentadas na sequência deste introdutório. Nesta 36.ª antologia da Sobrames Ceará, há autores antigos, novos e um, digamos, "neoantigo". Trata-se de Winston Graça, um dos dez esculápios que estiveram, nos idos de 1981, em colóquio com as musas da poesia nas páginas de "Verdeversos", onde tudo começou.
Que "Pontos de Vista" lhes propicie uma agradável leitura!
É como prefacio.
Webgrafia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Associação_Médica_Cearense
http://preblog-pg.blogspot.com/2007/11/verdeversos.html
http://preblog-pg.blogspot.com/2015/12/antologias-da-sobrames-ceara.html
http://blogdasobramesceara.blogspot.com/2015/04/por-celina-corte-sobrames-regional.html

Dr. Paulo Gurgel Carlos da Silva
Ex-Presidente da Sobrames-CE
Fortaleza, 9 de outubro de 2019

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

AS PRIMEIRAS FOTOGRAFIAS DA LUA, DO SOL E DE UMA ESTRELA (VEGA)

Louis Jacques Daguerre foi o criador do primeiro processo fotográfico de que se tem notícia, o daguerreótipo. Em 2 de janeiro de 1839, ele apontou sua câmera para o céu e fez a primeira foto da Lua.
Mas ele tinha problemas financeiros e não obteve apoio para seu trabalho por não querer revelar a parte fundamental do processo que inventou. Um incêndio em seu laboratório, naquele mesmo ano, acabou por destruir grande parte de seu trabalho, assim como destruiu a primeira foto da Lua.
Um ano depois, em 1840, o estadunidense John Williams Draper fez uma nova foto do satélite natural da Terra, sendo esta a primeira imagem da Lua (fig. 1) ainda preservada.
Em 1845, os franceses Hippolyte Fizeau e Leon Foucault tomaram a primeira fotografia bem sucedida do sol. Usando a tecnologia do daguerreótipo, eles fizeram as primeiras fotografias do Sol. A imagem original, tirada com uma exposição de 1/60 de segundo, tinha cerca de 12 centímetros de diâmetro e capturou várias manchas solares, visíveis nessa reprodução (fig. 2).
Original: Blog EM, 02/01/2018
Na noite de 16 de julho de 1850, Vega se tornou a primeira estrela (além do Sol) a ser fotografada, quando teve sua imagem registrada por William Cranch Bond e John Adams Whipple no Observatório de Harvard (fig. 3).
A foto também foi tirada com daguerreótipo. Para obter esta imagem foi necessário efetuar uma exposição de 100 s. Com a tecnologia existente na época, as estrelas de 1.ª magnitude necessitavam de tempos de exposição superiores a 60 s e as estrelas de 2.ª magnitude por vezes não eram registadas com sucesso.
No relatório de WC Bond sobre este feito, pode ler-se:
"Com a ajuda do senhor Whipple, daguerreotypist, obtivemos várias impressões da estrela Vega (α Lyrae). Temos razões para acreditar que esta seja a primeira experiência bem sucedida deste tipo, tanto em nosso país como no exterior. Pela facilidade com que foi executada, com a ajuda de nosso grande equatorial (telescópio refrator com 38 cm de abertura), fomos encorajados a crer que será uma abertura para novos progressos. Deverá ser bem sucedida, quando aplicada a estrelas do menos brilho do que α Lyrae, a fim de dar-nos fotos corretas de várias estrelas, e suas vantagens serão incalculáveis."
Vega é a estrela mais brilhante da constelação de Lira e a quinta estrela mais brilhante do céu noturno.
Original: Blog EM, 16/07/2019
Leitura recomendada: História da Astrofotografia

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

GIGANTES E ANÕES

Newton escreveu a Hooke: "O que Descartes fez foi um bom passo." (...) "Se eu já vi mais, é porque estava em (pé sobre) ombros de gigantes".
A carta está na Sociedade Histórica da Pensilvânia:
Isso foi interpretado por alguns escritores como uma observação sarcástica direcionada à aparência de Hooke, que era portador de uma cifose grave. Naquele tempo, Hooke e Newton tinham um bom relacionamento e trocavam muitas cartas em tons de consideração mútua. Só mais tarde, quando o primeiro criticou algumas das idéias do segundo com relação à óptica, Newton ficou tão ofendido que se retirou do debate público. E os dois homens permaneceram inimigos até a morte de Hooke.
É quando me dou conta de que a grande ciência necessita de grandes inimigos. E me recordo das palavras de um Prêmio Nobel de Física, Murray Gell-Mann:
"Se vi mais longe do que os outros, é porque estava cercado de anões."
A metáfora de anões em pé sobre os ombros de gigantes (latino: nanos gigantum humeris insidentes) expressa o significado de "descobrir a verdade construindo sobre descobertas anteriores". Uma imagem presente na mitologia grega em que o gigante cego Orion carrega o servo Cedalion nos ombros para que este funcione como seus olhos.
No mais, aqui vão dois reparos:
A primeira frase em negrito, que se atribui frequentemente a Isaac Newton, por tê-la citado em sua carta para Thomas Hooke, é na verdade de Bernardo "Ombros de Gigantes" Camomensis, o Bernardo de Chartres, um filósofo do século 12. Embora a moeda britânica de duas libras, com a inscrição STANDING ON THE SHOULDERS OF GIANTS em sua borda, denote a intenção de homenagear Newton.
Já a terceira frase em negrito, ela não é minha e sim de Dave Pacheco, um blogueiro estadunidense do século 21, que disse:
"Se eu não tenho visto tanto quanto Isaac Newton é porque eu estava sobre os ombros de uma gigante que usava uma blusa decotada."
Original: EM, 20/07/2018

terça-feira, 30 de julho de 2019

ABUTRES

Descubram seus rostos
Que anjos são esses
Que me espantam os mosquitos do verão
Mas que não se importam
Quando me rondam os abutres?
Original: EM, 26/11/2007
Urubu malandro e os abutres em geral
Todos os anos, em 15 de março desde 1957, a cidade de Hinckley, Ohio, aguarda ansiosamente o retorno dos urubus ao "Buzzards' Roost" (Poleiro dos Abutres), na Reserva Hinckley.
A celebração do retorno anual dos abutres começa cedo (6h30) na reserva de Hinckley do Cleveland Metropark . Liderados pelo "Oficial Buzzard Spotter", o Dr. Bob Hinkle, os madrugadores levantam seus binóculos e câmeras para competir pelo primeiro avistamento. É tudo uma boa diversão e um sinal certo de que a primavera está a caminho.
Original: EM, 02/09/2017
O Piquenique dos Abutres
Para seu trabalho de 2009, "In Ictu Oculi" (Em um piscar de olhos), a artista Greta Alfaro pôs uma mesa do lado de fora, na vila espanhola de Fitero, e filmou um convescote entre 40 abutres.
"Não foi fácil fazê-los chegar à mesa" , disse ela ao Instituto Translocal de Arte Contemporânea. "Eu tive que esperar por uma semana, arrumando a mesa todas as manhãs e desarmando-a ao anoitecer. Os abutres têm uma visão extraordinária, e se um deles perceber que há comida, ele fará círculos no ar para que os outros saibam. Eles se aproximavam da cena todos os dias, mas minha presença ou a presença da mesa impediam que eles se aproximassem".
"Acho que foi importante para refletir sobre a impermanência de quase tudo e sobre o fato de que a vida não pode ser controlada", concluiu Greta.
Original: EM, 10/03/2019
Como os abutres encontram a comida
Em 1833, para mostrar que os abutres encontravam suas presas pela visão e não pelo cheiro, o naturalista John Bachman fez "uma pintura grosseira representando uma ovelha esfolada".
Isso provou ser muito divertido: assim que o quadro foi colocada no chão, os abutres o observaram, pousaram perto, passaram por ele e alguns deles começaram a bicar a pintura. Eles pareciam muito desapontados e, depois de terem atendidos à curiosidade, voaram para longe. Esta experiência foi repetida mais de cinquenta vezes, com o mesmo resultado.
Ele confirmou o resultado colocando a pintura a dois pés de uma pilha de miúdos camuflados em seu jardim. "Eles vieram como de costume, andaram em volta, mas em nenhum momento evidenciaram os mais leves indícios de terem detectado os miúdos que estavam tão perto deles."
Então, Bachman concluiu que, embora os abutres tenham um olfato, eles não o usam para encontrar comida.
Original: EM, 24/07/2019

domingo, 30 de junho de 2019

TARTARUGAS COSMOLÓGICAS

... até o fim
A seguinte anedota é contada a respeito de William James.
Depois de uma palestra sobre cosmologia e a estrutura do sistema solar, James foi abordado por uma velhinha.
"Sua teoria de que o Sol é o centro do sistema solar, e a Terra é uma bola que gira em torno dele, Sr. James, é interessante, porém está errada. Eu tenho uma teoria melhor", disse a velhinha.
"E qual é, madame?" perguntou James, educadamente.
"Nós vivemos em uma crosta de terra que está nas costas de uma tartaruga gigante."
"Se a sua teoria está correta, madame", retrucou ele, "onde a tal tartaruga está?"
"O senhor é um homem muito inteligente, Sr. James, e essa é uma pergunta muito boa", respondeu a velhinha, "mas eu tenho a resposta: a tartaruga está nas costas de uma segunda tartaruga, muito maior e que está exatamente sob a primeira".
"Mas... onde a segunda tartaruga está?" persistiu James, pacientemente.
A velhinha cantou, triunfante:
"Não adianta, Sr. James, há tartarugas até o fim."
– JR Ross, Constraints on Variables in Syntax, 1967
... em todo o caminho
Stephen Hawking incorporou o ditado "Turtles all the way down" (Tartarugas em todo o caminho)" em seu livro de 1988, "Uma Breve História do Tempo":
Um cientista conhecido (alguns dizem que foi Bertrand Russell ), uma vez deu uma conferência pública sobre astronomia. Ele descreveu como a Terra orbita em torno do Sol e como o Sol, por sua vez, orbita em torno do centro de uma vasta coleção de estrelas que é a nossa Galáxia. No final da palestra, uma velhinha nos fundos da sala levantou-se e disse: "O que você nos disse é lixo. O mundo é realmente uma placa plana apoiada nas costas de uma tartaruga gigante." O cientista deu um sorriso superior antes de responder: "Onde a tartaruga se apoia". "Você é muito inteligente, jovem, muito inteligente", disse a velha senhora. "Mas há tartarugas em todo o caminho!"
–  WIKI
Quer você a veja como profundamente metafísica, ou apenas zombando da física, você ainda pode sorrir ao ler sobre essa teoria (das tartarugas até o fim / em todo o caminho).
Original: EM, 23/03/19
Com relação à teoria da Terra sustentada por elefantes, com estes, por sua vez, vivendo sobre o casco de uma enorme tartaruga, como descreviam os antigos:
O que estaria a pensar este quelônio?
"Por que, sendo eu uma criatura do espaço, tenho patas para nadar? Por que há elefantes em minhas costas e mais esta rocha monstruosa? Preciso me acasalar, onde é que estão as outras tartarugas do espaço?"
Original: EM, 11/05/18

quinta-feira, 30 de maio de 2019

WANDA E VÂNDALO

Inspirado em "Jackass" (um programa de TV com brincadeiras perigosas e autolesivas), um grupo de amigos terminou uma festa com a ingestão de peixes vivos de um aquário. Depois que os peixes dourados desceram suavemente, um bagre Corydoras aeneus foi ingerido. Desconhecendo a morfologia e o comportamento antipredador dessa espécie, um homem saudável, mas alcoolizado, de 28 anos, teve uma surpresa. O bagre abriu e travou as espinhas de suas nadadeiras peitorais, alojando-se na hipofaringe do homem. Após várias horas, ele se apresentou no pronto-socorro com disfonia e disfagia. O peixe teve que ser removido por endoscopia. A intubação e a internação na unidade de terapia intensiva foram necessárias devido ao edema laríngeo. Duas semanas após a intervenção que salvou sua vida, o paciente já completamente recuperado doou o peixe para o Museu de História Natural de Roterdã. A publicidade gerada pela exibição pública do peixe não engolido enfatizou o aviso oficial do "Jackass": "não tente fazer nenhuma das cenas de ação que você está prestes a ver".
Entre as referências do artigo que publicou o caso do peixe que não desce redondo, destaca-se: Cleese J, Crichton C. Um peixe chamado Wanda. Beverly Hills (CA): Produção da Metro-Goldwyn-Mayer; 1988.

Original: Nova Acta, xx/xx/xxxx
Um peixe chamado Vândalo
O martelo é comandado pelo peixe para quebrar coisas.
Ver os detalhes de como isto funciona no Robotic Gizmos.
Original: EM, 07/11/2017

terça-feira, 30 de abril de 2019

HUMBERTO GOMES MAGALHÃES

Correspondência
Sou irmão do Humberto Gomes Magalhães, desenhista do jornal A Ferragista. O Sr tem algum acervo do Jornal?
Agradeço pela a atenção. Visitei o seu rico blog, muito bem feito e cheio de cultura. O Preblog é ótimo.
Atenciosamente,
Sérgio Luís Oliveira Magalhães
Olá, Prof. Sérgio Luís.
Lembro-me do Humberto, que desenhava para o jornal A Ferragista.
Dê-me notícias a respeito dele.
Edmilson Alves, proprietário desse house organ, certa vez presenteou a cada colaborador quatro volumes encadernados com as edições do jornal.
Acredito que possa localizá-los.
Em tempo:
ILUSTRADORES PARA CHAMAR DE MEUS (slideshow)
Os desenhos dos slides 12 e 13 (O asteroide da mão estendida, Preblog) teriam sido feitos por seu irmão?
Estou curioso para saber o motivo de seu interesse.
Paulo Gurgel
Muito obrigado pela atenção. Meu interesse é colecionar e guardar a obra do meu irmão, pois seus filho e esposa não a tem. Ele já está entre as estrelas desde de 1986. Faleceu de *** em Limoeiro do Norte-Ce. Somos todos do pequeno município de São João do Jaguaribe - Ce, distante da capital 225 km, aqui no Baixo Jaguaribe.
Sérgio Luís
Olá, Prof. Sérgio.
No edifício em que resido cada morador dispõe de um compartimento na garagem para guardar algumas coisas.
Era minha intenção apanhar os quatro volumes encadernados das edições de "A Ferragista" para doá-las a vocês, familiares de Humberto.
Mas.
Uma desagradável surpresa: estavam completamente destruídos por uma infestação de cupins!
Os biblioclastas! Não foi a primeira vez que eles fizeram isto comigo.
http://blogdopg.blogspot.com.br/2007/04/um-show-que-no-acabou.html#links
Um abraço.
Paulo Gurgel
PESQUISA NA INTERNET
A cultura como resistência nas páginas da revista "O Saco", por Rodrigo C. Vargas
O primeiro número da revista saiu em abril de 1976 com 32 páginas e a colaboração de nomes desconhecidos e outros consagrados nas diversas áreas artísticas que compreendiam "O Saco". No caderno Prosa, conto de Airton Monte titulado "Ave Noturna" com ilustração de Humberto, o diagramador do grupo. Conto de Carlos Emilio chamado "O Labirinto" com ilustração de Pedro Eymar. Conto do Jackson Sampaio chamado "Edifício Vesúvio" com mais uma ilustração de Humberto, que também ilustra o último conto, "Juízo Final", de Nilto Maciel.
A pouca experiência contou para o encerramento das atividades. Raposo era o único que sabia lidar com uma empresa, era proprietário de um grupo livreiro encorpado que funcionava em Fortaleza; mas os outros três eram jovens recém formados. Carlos Emilio ainda morava com os pais. Edmundo de Castro, Estrigas e Humberto Gomes Magalhães ajudaram, mas apenas no campo criativo.
O Vertebral
PerCurso "O Saco": criatividade e resistência
Revista literária formada por Carlos Emílio Correia Lima, Nilto Maciel, Jackson Sampaio e Humberto Magalhães, junto a Manoel Coelho Raposo, "O Saco Cultural" foi uma publicação cearense de curta duração porém de consideráveis impactos na Fortaleza e no Brasil dos anos 1970. Seus 15 meses de atividades foram suficientes para lograr uma distribuição nacional chegando tanto a importantes cidades do Brasil (com tiragem de 15.000 exemplares!) quanto à mesa dos censores e da Polícia Federal em pleno Regime Militar. Neste percurso fizemos um passeio sobre esse importante momento da Cultura no Ceará, conhecendo um pouco mais o ambiente da cidade, a produção literária e os seus intelectuais, "O Saco" e seu conteúdo.
O mediador foi o Carlos Emílio Correia Lima, escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner, foi um dos fundadores da revista O Saco.
PerCursos Urbanos

sábado, 30 de março de 2019

CLECS E BAMBANGAS

Leite derramado
Aqui não se trata de uma referência a um romance do Chico Buarque. É o título de uma postagem do blog Frases Ilustradas, em que uma frase de Eno Teodoro Wanke é transcrita sob uma belíssima ilustração de Ceó Pontual (como todas as que ele desenha para o seu blog).
A frase citada é a seguinte:
"Mesmo depois do leite derramado é importante pensar que a vida continua e a vaca não morreu."
Eno Teodoro Wanke (Ponta Grossa, PR, 28 de junho de 1929 – Rio de Janeiro, RJ, 28 de maio de 2001), que foi um engenheiro da Petrobrás e poeta, teve uma forte presença no cenário literário brasileiro a partir de 1960. Escrevia principalmente minicontos, trovas e clecs, muitos clecs (como ele chamava os seus pensamentos humorísticos). A frase que foi citada por Ceó é um destes. Eis outros exemplos de seus clecs:
"Quando um adjetivo mente, ele, por castigo, vira advérbio. Folha que se desprende da árvore não volta nunca mais. Melhor perder o trem do que perder a linha. O sol nasce para todos, mas a maioria prefere dormir um pouco mais."
Ainda guardo todos os livros autografados que dele recebi pelos Correios. São onze livros de clecs e minicontos, dois de trovas ("A Trova Literária", um clássico sobre o assunto, e "Antologia da Trova Escabrosa") e ainda um livreto, intitulado "A Ortografia Que Nos Atormenta", no qual Eno Wanke faz uma defesa da ortografia fonética para a nossa língua.
Blog EM, 21/08/2009
Atualização
Pela curiosidade que apresenta, transcrevo o trecho de um artigo de Filemon F. Martins, Quem foi Eno Theodoro Wanke?, postado em "Usina de Letras":
"Como sonetista de primeira, (Eno Wanke) obteve com o soneto "Apelo", 160 versões para 95 idiomas e dialetos. É o soneto em português mais traduzido para idiomas estrangeiros.
Eu venho da lição dos tempos idos /e vejo a guerra no horizonte armada. /Será que os homens bons não fazem nada? /Será que não me prestarão ouvidos? /Eu vejo a Humanidade manejada /em prol dos interesses corrompidos. /É mister acabar com esta espada /suspensa sobre os lares oprimidos! /É preciso ganhar maturidade /no fomento da paz e da verdade, /na supressão do mal e da loucura... /Que a estrutura econômica da guerra /se faça em pó! E que reinem sobre a terra /os frutos do trabalho e da fartura!"
Bambangas
Naquela época, recebia também pelos Correios, com menor frequência, os livros do baiano de Ipojuca, médico e memorialista José Lemos de Sant'Ana. Ainda disponíveis em livrarias virtuais, alguns deles têm os curiosos títulos de "Bambangas", "Outros bambangas", "Mais bambangas" e "Ainda bambangas".

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O CRIADOR DE CAPOTES

Certa vez, um paciente em sua consulta de retorno me presenteou com dois capotes. No Nordeste brasileiro, pessoas oriundas da zona rural demonstram sua gratidão aos médicos trazendo-lhes algum mimo.
Sabendo que ele ficaria magoado com a minha recusa em recebê-los, aceitei-os.
Capote é bicho que tem uma vastidão de sinônimos: galinha d'angola, cocá, guiné, pintada. E até "tô-fraco", em alusão ao som que eles incessantemente emitem.
Vinham numa caixa com orifícios servindo de respiradouro. Desamarrei-lhes os pés e soltei-os no quintal de casa (para adiante resolver o que faria com eles).
A presença deles foi uma festa para meus filhos que ainda não conheciam tal tipo de galináceo. Certamente ninguém ali pensava em comê-los.
E foi o primeiro dia e fez-se noite. Na madrugada do segundo dia, fui despertado com guinchos estridentes que vinham do jardim, das áreas laterais da casa e do quintal.
Não consegui mais dormir. Tendo ali aprendido a duras penas que, além de vocalizar aquele "tô-fraco" conhecido, o capote, qualquer capote, utiliza-se de uma segunda língua no período do alvorecer.
E foi o segundo dia e fez-se noite. Na madrugada do terceiro dia, mais guinchos aconteceram que me acordaram. Desta vez, começaram mais cedo e eram mais fortes.
Havia, como pude verificar a seguir, uma justificativa para o recrudescimento. A cantoria estava sendo reforçada pela participação de um terceiro capote que chegara voando das redondezas.
Não! Eu não ia fazer o papel de um insone criador de capotes. E decidi que iria doá-los a quem tivesse reais condições de criá-los. Lembrei-me de Ronaldo, um concunhado meu. Em sua chácara no Eusébio, Ronaldo criava muitos tipos de aves (inclusive capotes).
Ele concordou em ser o fiel depositários dos meus capotes, embora me alertasse para uma certa dificuldade. Para trazê-las, eu teria antes de capturá-los. "No sertão, eles pegam esses bichos para a panela é com tiros."
De fato, eles eram muito mais velozes do que eu havia calculado. Em campo aberto, nem com o Usain Bolt me ajudando aquela captura teria sido possível. Então, montei um plano com a casinha de cachorro do quintal no centro da estratégia. E persegui os capotes até que estes buscassem refúgio no pequeno cômodo transformado em armadilha. Tranquei o portão. e aí ficou fácil.
Deixados no Eusébio, não me perguntem agora como os capotes estão. Pelo tempo em que essa história se passou, não devem mais estar vivos. Mas desconfio que eles não devem ter morrido de morte natural.
N.A. -- Acredito que também teria resolvido o problema com a técnica mostrada no vídeo abaixo.

Original: LT, 27/05/2018

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

RESPINGOS NA MEMÓRIA

1
De todos os bens, o guarda-chuva é certamente o mais esquecível.
Mas...
O que indica o frequente esquecimento deste bem pelo proprietário?
Pode ser o desejo que a pessoa tem de que não chova mais. Pode ser a tendência ao risco ("quem sai na chuva é pra se molhar"). Ou pode ser a vontade de voltar ao tempo intra-uterino, quando tudo era molhado. Esta última, que apela para a figura materna, trata-se de uma explicação freudiana.
☂ Nunca deixe seu guarda-chuva para trás!
2
Um homem puxa conversa com outro:
- Creio que já nos conhecemos...
- Não me lembro.
- Pois tenho certeza de que já fomos apresentados. Faz um mês, mais ou menos.
- E como me reconheceu?
- Pelo guarda-chuva.
- Mas, nessa época, eu não tinha guarda-chuva.
- Realmente, mas eu tinha...
3
Em 1836, estava previsto um eclipse lunar total que Gauss prometeu mostrá-lo, através do telescópio de seu observatório, ao amigo Ribbentrop, um professor de direito licenciado.
Embora estivesse caindo um toró naquela noite, o excêntrico e desligado amigo apareceu.
Gauss explicou que a observação do eclipse tinha-se tornado impossível, mas Ribbentrop respondeu: "Não, eu trouxe o meu guarda-chuva."
4
Related imageUma dama britânica disse certa vez que, se chegam visitas inesperadas a sua casa, ela rapidamente pega o chapéu e o guarda-chuva. Caso a pessoa que acaba de chegar for do seu agrado, ela diz: "Ah, que bom, eu também acabei de chegar!". Mas se a visita é de alguém inoportuno, ela diz: "É uma pena que eu precise sair".
5
Fique seco!
Para evitar que as pessoas percam seus guardiões da chuva, uma empresa lançou um guarda-chuva com alerta de esquecimento.
É o Davek Alert Umbrella, o guarda-chuva de alta tecnologia que você não pode perder.
Além de forte e elegante, este guarda-chuva incorpora a avançada tecnologia Loss Alert. Que permite transmitir, através de um pequeno chip embutido na alça, um "sinal de proximidade" a seu smartphone. Este sinal é lido por um aplicativo no smartphone que pode rastrear a distância entre o telefone e o guarda-chuva. Se a distância exceder os 10 metros o guarda-chuva enviará um alerta sutil para o seu telefone.
(nota não patrocinada)