quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

SÍSIFO REVISITADO

Na mitologia grega, Sísifo era filho do rei Éolo. Por astúcias cometidas, foi condenado por Zeus a levar uma rocha até o alto de uma montanha. Eternamente, pois toda a vez que o topo da montanha era quase alcançado, a rocha rolava de volta ao ponto de partida. O que obrigava o condenado a ficar repetindo a sua escalada com a rocha, ad aeternum.
Nos dias de hoje, estaria cumprindo alguma pena alternativa. Como:

malhar em ferro frio
dar nó em pingo d’água
escovar urubu até ficar branco
chupar parafuso até virar prego
enxugar gelo com toalha quente
procurar agulha em palheiro
carregar mala sem alça
embrulhar velocípede
dar murro em ponta de faca
descascar abacaxi com o nariz
cercar capote em campo aberto
botar suspensório em cobra
pingar colírio em olho de chinês
subir em pau de sebo
massagear porco-espinho
trocar pneu com o carro andando
devolver pasta de dente para o tubo
abanar carvão molhado em churrasco
montar touro mecânico até cansar (o touro)
etc

Pensando bem, não seria o caso de Sísifo abreviar o nome para Sifu?
Original: EM, 10/08/2007

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

NULLA DIES SINE LINEA

"Nenhum dia sem uma linha (ou traço)."
O lema atribuído por Plínio, o Velho, ao jovem pintor Apeles. Porque Apeles não aceitava a idéia de passar um único dia sem trabalhar.
Bem, com estas eu já fico para lá de quite com o meu blog, hoje.
Apesar de que ainda tem mais.

Apeles era o pintor oficial de Alexandre o Grande. Neste quadro de Tiepolo, de 1740, ele aparece retratando Campaspe, a concubina favorita de Alexandre.
Notem o ar entediado de Alexandre com relação à concubina. Em contraste com o profundo interesse do jovem pintor por Campaspe (muito além do que o trabalho deveria exigir).
Pois é, Alexandre não foi grande só no nome. E logo passou a pequena para os cuidados afetivos de Apeles.
Original: EM, 25/07/2007
Nulla dies... (em outras línguas)
Not a day without a line.
Ningún día sin una línea.
Pas un jour sans une ligne.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

TANTO NÃO

Imagine:
A história de um glutão que, por haver cedido à tentação de comer o que não devia, infringiu as regras de um spa e passou a temer o pior.

Tanto Não

.....................Paulo Gurgel

Foi bonita a festa, spa
Fiquei contente
Inda guardo pro meu dente
Uma fatia do pudim.

Já “micharam” minha bóia, spa
Não foi bacana
Pois sobrava uma banana
Com canela para mim.

Sei que há dieta a me cercear
Tanto não, tanto não
Sei que aqui não é possível, spa
Comer pão, macarrão...

Comi canapés, spa
Saí do sério
Resta o cemitério
Se eu encaro esse alfinim.

Para ver a letra (Tanto Mar, de Chico Buarque) que motivou a paródia, clique aqui. E para ouvir a música, também.
Original: EM, 24/07/2007

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

LUTAR CONTRA A AIDS

Há cerca de vinte anos cometi esta trova:

Lutar contra a AIDS
É a luta mais vã
Mal hoje curamos
A febre terçã.



Uma paródia de versos célebres de Drummond. Compus esta trova, possivelmente, num momento de desencanto com a profissão que um dia abracei. Nenhum médico está livre desse sentimento, quando dá conta de suas limitações. E, no caso da AIDS (SIDA, para a turma do Obvious), por exemplo, sobravam os motivos. Naquela época, fazer esse diagnóstico era como emitir uma sentença de morte.
Felizmente, os homens da ciência não foram nessa. E debruçaram-se sobre seus ensaios clínicos, indiferentes ao pessimismo dos poetas (cujos humores, por sinal, oscilam muito). Resultando disso que muitas drogas foram descobertas. Medicamentos que, quando associados, maximizam-se os resultados terapêuticos.
É verdade que ainda não se tem uma solução definitiva para a AIDS, mas a seus portadores já se oferece uma boa sobrevida – com qualidade!
Original: EM, 04/07/2007

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

EMBARCOU, TEM QUE REMAR

Sobre o quadro Poeta, de Leon Girardet:


É uma cena romântica: um rio (ou será um lago?), um barco, um poeta e três raparigas em flor. O poeta faz um recital dos últimos poemas que escreveu. Cada uma das moças deve se imaginar a própria musa inspiradora de um, vários, muitos desses poemas... Até de todos, se uma delas for bisavó da Luana Piovani.
A propósito, não é uma cena contemporânea. O figurino das pessoas mostra que não pertencem ao nosso tempo. O bardo mantém uma distância respeitosa das três raparigas, que se acotovelam num dos cantos da embarcação. A qual, por sua vez, está quase encalhada no capim aquático.
Mas... há remos no barco à espera de braços dispostos. Não se faça de rogado, meu poeta. Está a terminar a leitura do livro em suas mãos, agora é empunhar os remos. E levar o barco, as moças, a si próprio para novas paisagens. Onde o enlevo, o encanto, o arrebatamento, tudo é feito sem palavras.
Sim, faça isto. Para não ser depois recomendado à Sociedade dos Poetas Mortos nas Calças.
Original: EM, 22/06/2007

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

NÚMERO COM APELIDOS

São em grande parte uma contribuição do loto ou jogo do víspora. Um jogo em que cada participante dispõe de um ou mais cartões, com fileiras de números que vão sendo marcados, à medida que as pedras numeradas correspondentes vão sendo tiradas de um saco. O jogador que, em primeiro lugar, conseguir marcar todos os números do seu cartão “bate” (ganha) o jogo.
Para o divertimento acontecer uma pessoa fica responsável por “cantar” as pedras. Isto é, por realizar o sorteio. A qual vai anunciando aos participantes os números das pedras tiradas, numa linguagem por vezes curiosa. Com alguns números – seja para quebrar a monotonia do sorteio, seja para dar mais clareza aos números “cantados” – sendo chamados por apelidos. Expressões que o “cantador” sabe serem do conhecimento dos jogadores, tais como:
1 – ronco do porco
7 – conta do mentiroso
8 – violão sem braço
18 – dos outros
22 – dois patinhos na lagoa
33 – idade de Cristo
44 – quá, quá, quá
45 – meio do caminho
81 – o gordo e o magro
90 – não venta
Até o número 25, o que comanda o sorteio pode apelar também para o jogo do bicho. Pelo menos, para seus números mais conhecidos: o 5 (cachorro), o 24 (veado) e o 25 (vaca).
Como o víspora tem 90 números, daí em diante valerá a criatividade do “cantador”.
Original: EM, 17/06/2007

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

PEDRA, PAPEL E TESOURA

Um dia, eu dei de presente a meu filho Érico, então um menino de sete anos, um videogame da marca Master System II. Um brinquedo que trazia, em sua memória, o jogo eletrônico Alex Kidd in Miraculous World, para iniciantes. Participando do jogo, através do joy stick, Érico e eu (que fui seu mestre nos primeiros dias) fazíamos Alex quebrar rochas, dirigir veículos, saltar abismos, percorrer cavernas, mergulhar em águas profundas... E, ainda, ajudávamos o herói-menino a enfrentar e a aniquilar terríveis inimigos, muitas vezes com os poderes especiais que lhe conseguíamos.
Todavia, no Miraculous World, existiam mudanças de fase em que, para Alex prosseguir, tinha que vencer um inimigo. Num torneio de pedra, papel e tesoura: um jogo dentro do jogo! Isto foi para mim uma novidade, pois eu só conhecia o par ou ímpar, o cara ou coroa e o jogo dos palitinhos. Mas logo aprendi como era o pedra, papel e tesoura. Alex e o inimigo duelavam mostrando, um a outro, uma das mãos. A mão fechada era pedra, a mão aberta, papel, e a mão com dois dedos esticados, tesoura.
Sempre uma opção vencia a segunda e perdia para a terceira. Eis como entender essa regra, a partir de suas justificativas:
.....pedra x tesoura: vence a pedra (porque quebra a tesoura)
.....tesoura x papel: vence a tesoura (porque corta o papel)
.....papel x pedra: vence o papel (porque embrulha a pedra)



Depois de algumas partidas ficamos craques. Pois cada inimigo jogava o pedra, papel e tesoura de uma forma pré-estabelecida. Mas, para falar a verdade, enquanto funcionou o nosso Master System II, jamais os três (Alex, Érico e eu) derrotamos o último chefão do Miraculous World. Aliás, naquelas morosas partidas (que não davam direito a salvar os resultados), raríssimas vezes conseguimos entrar em seus aposentos no castelo do Mal.
Original: EM, 18/05/2007

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

SOBRE MALAPROPISMOS

Nonato Albuquerque publicou na Antena Paranoica uma postagem sobre este assunto (aqui), recentemente. O malapropismo consiste em empregar uma palavra em lugar de outra que tem o som parecido. E origina-se da expressão francesa mal à propos (mal a propósito). Embora, muitas vezes, aconteça por confusão, lapso ou ato falho de quem a profere.
Como causa efeitos cômicos no discurso é um recurso muito utilizado nas comédias. Em 1774, Richard Sheridan, em The Rivals, criou uma personagem, a Sra. Malaprop, de cuja boca brotavam os deslizes verbais da peça. Modernamente, encontraríamos, na televisão brasileira, na personagem Ofélia (aquela que só abre a boca quando tem certeza) uma perfeita discípula da Sra. Malaprop. E, na televisão mexicana (com a repercussão do seu programa no Brasil), em Roberto Bolaños, com as falas do seu personagem Chaves.
Vicente Matheus, diretor do Corinthians por oito mandatos, ficou famoso também por seus malapropismos. Do tipo: “Peço aos corinthianos que compareçam às urnas para naufragar a nossa chapa.”
E tampouco estão livres dessas brincadeiras fonéticas os nomes das pessoas. Como exemplos, Carolina de Sá Leitão, cujo malapropismo é... Caçarolinha de Assar Leitão, e Quintino Reis da Costa, chamado de... Quinhentos Réis da Bosta pelo presidente de uma seção eleitoral ao tempo da República Velha (RS).
Original: EM, 07/05/2007

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

PEGANDO PESADO

Já publiquei no BPG um post intitulado “Quem é o animal?”, em que mostrava a foto de um burro atrelado a uma carroça. Com tanta carga se encontrava a carroça que o pobre animal ficava suspenso no ar. Era, portanto, um caso de maus tratos aplicados em um ser irracional, à consideração da Sociedade Protetora dos Animais, como na época eu registrei.
Partindo do princípio de que o leitor não quer exercitar o lado sádico e sim apenas rever a foto, para o tal recordativo eu oriento o leitor a clicar no arquivo de dezembro deste blog e, em seguida, a rolar a página até o dia 15 do mês. LINK
Viu? Agora, a novidade. Parece que a minha crítica tocou o coração do proprietário do animal. A ponto de ele sustentar numa correspondência a mim endereçada que, mercê de algumas medidas simples que adotou, “as coisas já estão melhorando para o burro”. Diz-me o proprietário que “começou por retirar a carroça, pois esta, ao deslocar para si o centro de gravidade do conjunto, é que fazia com que o burro aeroplanasse”. E , para explicar o seu reajuste de conduta, ainda prossegue o proprietário: “Agora, eu ponho a carga diretamente sobre o animal e, deste modo, consigo fazer com que o burro retorne ao solo. E que até dê conta de carretos mais pesados.”


Depois de ver – com olhar analítico – uma foto desses novos tempos de conforto para o burro, que foi enviada juntamente à correspondência, o editor do BPG chegou a seu parecer:
O centro de gravidade realmente retornou ao animal. Mas o editor tem dúvida se o semovente consegue de fato se mover. A menos que o burro saiba, qual o mitológico Anteu, como obter umas forças extras a partir da Terra. Onde, ao que tudo indica, ele voltou a pôr os cascos.
Original: EM, 03/03/2007

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

UM HOMEM EM SUA CARROÇA



Esta cena me embevece pelo bucolismo.
Eu até perdoo o carroceiro se ele, em algum momento, houver chicoteado a mula. Eu falei mula? Então, já coloquei a carroça adiante dos bois.
Eu falei bois? Falei no sentido figurado (claro, não é uma figura?). Porque, olhando bem, existe dúvida quanto ao atrelamento de uma mula, bois ou de qualquer outro animal. E, por isso, não dá nem sequer para saber qual é a força de tração usada na carroça.
Além disto, trata-se de um veículo não emplacado. Não empacado, porém.
Detalhes tão pequenos de uma cena. Compensados plenamente pelo equilíbrio entre os elementos que formam a cena. Um homem, sua carroça...
E deixemos fora disto a sua bagagem.
Original: EM, 23/02/2007

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

HOMEM AO BURACO

Você está num buraco. Trate de reconhecer o ambiente e não se queixe de imediato. Não berre pedindo uma escada, pois não está no sonho de Jacó. Nem peça uma corda. Houve um ditador iraquiano que a pediu. E que aprendeu, tardiamente, que bom era quando estava no buraco. Sem a corda.
Não pule para não irritar com a trepidação os seres subterrâneos. Há uma política de boa vizinhança em curso. O mundo não pode viver sem o húmus que as minhocas produzem.
A visão que tem do céu não é lá essas coisas. É meio restrita, não é?! Além disso, o tempo está nublado, porém é melhor do que ficar a ver buracos negros.
Não bata nas paredes, podem se desmoronar. Não estão escoradas.
E no fundo? Ah, se fosse um buraco para político você encontraria algum gadget. Uma mola, por exemplo, porque buraco onde político fica sempre tem uma mola. Para trazê-lo de volta à superfície.
Lá fora, parece que chegou alguém. Diacho, é um coveiro. Oxalá não seja do tipo que enterra primeiro e só pergunta depois.


Original: EM, 10/02/2007
Post-mortem
"Quando um assassino faz você cavar sua própria sepultura, jogue a areia longe para que ele tenha dificuldades em acabar o serviço." Jonco Stl

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A QUEM PERTENCE O FUTURO

O futuro é algo totalmente irrevelável no presente. Não me venham com jogos de búzios, cartas do tarô, bola de cristal, horóscopos e outras crendices do gênero. Só vamos saber o que o futuro nos reserva quando estivermos lá. Ah, ledo engano, não vamos. Estaremos diante de uma versão updated do presente. A nos dizer que o futuro outra vez mudou de endereço.
O futuro é nômade.
O futuro se desloca o tempo todo como a linha do horizonte.
O futuro, feito a cenoura pendurada na frente da besta, faz com a alimária caminhe sem parar. Sem alcançá-la.
O futuro é como uma caixa preta. Abre-se, encontra-se outra caixa preta. Ad infinitum.
Por isso, faz parte do meu ceticismo desconfiar da futurologia. Não vejo como se possa saber de fatos que ainda vão acontecer. Embora, para não radicalizar sobre o assunto, eu admita existir uma chance – única – para isto ser possível. Um dia, quem sabe, através da revolução tecnológica, a qual sempre nos surpreende.
A propósito, quem está na frente é o Google.


Original: EM, 28/01/2007

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O CORNETEIRO DE PIRAJÁ

Por conta de um recente fato político vem proliferando, na mídia nacional, referências ao corneteiro de Pirajá. Para que fiquemos a par deste assunto, é importante saber o que fez de tão relevante o citado corneteiro.
Consta das estórias da História do Brasil. As veteranas tropas portuguesas na Bahia, que consideravam a independência do Brasil um ato de traição a Portugal, combatiam os bisonhos defensores da nossa nacionalidade. A batalha era em Pirajá, no Recôncavo Baiano. Os portugueses estavam prestes a vencer a refrega. Nisso, ouviram soar no lado brasileiro o “toque de avançar e degolar”, e a seguir perceberam que as nossas tropas estavam a adquirir um ímpeto redobrado de lutar. O sol, que se punha atrás das linhas brasileiras, cegava naquele momento as tropas lusitanas. Não podiam ver, mas suspeitaram de que haviam chegado importantes reforços para os defensores – a cavalaria brasileira! E recuaram das posições já conquistadas, sendo a partir daí levados de vencida pelos brasileiros. Soube-se depois que o indômito corneteiro, de nome Lopes, do seu comandante havia recebido uma outra ordem. A ordem para executar o “toque de retirar”. Mas, por que não a cumpriu? Para responder esta pergunta há duas hipóteses: A primeira que, por puro nervosismo, o corneteiro houvesse se confundido e tocado a música errada. O que, quando se considera a simplicidade melódica de tais musiquinhas, eu particularmente não acredito. A segunda que ele, com melhor visão do cenário futuro no campo de batalha, tenha decidido executar o toque que animou as tropas brasileiras para a vitória final. Por iniciativa própria, portanto. Pela qual melhorou muito a sua biografia, lá isso melhorou. Mas... havendo sido um ato de insubordinação, da qual sobrevieram riscos para os companheiros, não era o caso de o corneteiro Lopes ter sido mandado a uma corte marcial?
Ora, não é de hoje a assertiva de que... tudo está bem quando termina bem.


Original: EM, 09/01/2007

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

DO DIPLOMA AO CANUDO

Diploma é uma palavra que contém “diplo”, uma raiz grega que expressa a idéia de duplicidade. Como acontece a outras palavras, de uso corrente em nosso idioma, que foram criadas a partir desta raiz. Inclusive várias que pertencem ao jargão médico: diplofonia (voz em duas tonalidades), diplopia (visão com duas imagens), diplococos (cocos aos pares) etc.
Como diploma é documento que dificilmente se emite em dobro, acredito que a inspiração para o termo tenha outra origem. O tamanho do papel, como a pedir para ser amassado ou rasgado. De modo que o portador do diploma, a fim de evitar tais ocorrências, logo optava por dobrá-lo ao meio.
Ao meio significa: dobrar apenas uma vez. Dobrar mais vezes é praticar a arte do origami.
Um dia, porém, houve um diplomado que teve idéia melhor. Enrolar o diploma, transformando-o em canudo – um canudo de papel!
Quem? Onde? Quando? Ah, pouco se sabe a respeito do fato transformador.
Com certeza foi antes da música do Martinho da Vila.


Original: EM, 06/01/2007

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

DIREITO DE IMAGEM

Acabo de saber. O dentista que me fez um implante dentário colocou nos prospectos da clínica a sua foto. A foto do meu dente implantado, bem entendido, acompanhado por sua vizinhança dentária.
O caso foi bem sucedido (o que confirmo), sendo o nº. 1 do folheto. A quem me trouxe um prospecto ele falou com essas palavras. Mas, se não houvesse falado, ao deitar a vista nas imagens, eu logo identificaria esses meus parentes.
Parentes são meus dentes, explico com a ajuda do provérbio.
Nesse meu divagar, eis que surge um diabinho. Aos berros:
- Processe-o! Processe-o!
- Baseado em quê?
- Direito de imagem.
Aí, falta entrar em cena um anjinho. Mas ele não aparece, talvez com medo de perder a questão. Aliás, um medo infundado.
Então, para mostrar quem manda no pedaço, dou um peteleco no diabinho. Que ele foi parar naquele lugar onde já perdera as botinhas.
E as coisas voltam aos seus lugares.


Original: EM, 23/12/2006

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

NOVA FASE

O Preblog entra agora em nova fase.
Até aqui estivemos inicialmente postando os trabalhos publicados em meio impresso. Em geral, capítulos de livros e artigos que escrevi para  revistas e jornais. A estes, somaram-se os trabalhos que permaneciam inéditos - cerca de 150 deles - e potencialmente perdidos. Isto se eu não retornasse a eles para concluí-los, revisá-los e, por fim, publicá-los.
Com o esgotamento do filão, agora passo a usar o Preblog para republicar trabalhos que postei em outros blogs (EntreMentes, Linha do Tempo e Acta). Mas apenas os trabalhos autorais que eu julgue, em primeira instância, apresentarem alguma qualidade literária.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

EFEBO


A Chico Pio (*)

a mão esquerda
que retém
uma revista de mulher nua
(e)
a mão direita
que entretém
uma fera que por fim acua

(*) aquele que um dia quis musicar este troço.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

DR. LUSTOSA VEM AÍ

Dr. Lustosa não vem, retorna. A avaliar pelo que temos visto na televisão nos últimos dias. A todo instante, os apelos publicitários dessa miraculosa cêra (com circunflexo) que promete acabar com a dor de dente. Sim, acaba. Apenas não evita que o usuário fique banguela. Porque, aliviado da terebrante dor, ele passa a adiar, por tempo indeterminado, o encontro com a broca odontológica.
Ir ao dentista não chega a ser um passatempo agradável. Falam que o medo que temos de ir ao dentista é algo atávico. Tem a ver com o sofrimento de nossos antepassados, cujos dentes eram dolorosamente extraídos em praça pública. Aí, se aparece algum remédio que nos livre da maldita cadeira do dragão, digo, do dentista, por que iríamos recusá-lo?
Eis o sucesso da cêra. Ameniza uma dor que nos atormenta. Dor tão incômoda que nos deixa bloqueados para as tarefas, digamos, mais comezinhas.
Mas... voltando ao papo furado: Dr. Lustosa, que tem pontos em comum com a cêra homônima. Tais como:
- É chegado a uma panelinha.
- Nunca vai à raiz do problema.
- Dá as caras em tempo de eleição.
Aí, antes que você diga a palavra des-bu-ro-cra-ti-za-ção, você já está com a boca de sovaco. Um sovaco imenso (sei do cacófato) à espera de uma dentadura postiça. Ainda bem que é problema que se resolve mais facilmente em tempo de eleição.

Para finalizar, só parafraseando a cantora Marina: Quem vai juntar os cacos do velho dente?

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

AS LÂMPADAS

(haicais)
boçal o soquete
que espalha ser a lâmpada
somente tiete

o sonho do archote
é (numa noite de inverno)
virar holofote

por demais ilustre
foi que a lâmpada pavoa
soltou-se do lustre

ó farol de milha
belo é teu facho hiperbólico
porém não humilha


Chave geral para o leitor desligar tudo no final.
Enfim, uma ideia luminosa!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

APARANDO UNHAS

Da mente doentia de algum tecnocrata surgiu a ideia de obrigar o cidadão com duas fontes pagadoras a fazer cinco declarações de renda por ano fiscal. Como se já não bastasse a declaração de renda anual, suficientemente prolixa para tomar um fim de semana inteiro (ou mais) do declarante.
Choveram protestos, Brasil afora. Foi quando entrou em cena o presidente Sarney.
Na sequência, Ique, do Jornal do Brasil, faz uma charge (imagem) em que aparece o presidente Sarney agachado, aparando as garras desse "trileão". Um cérbero com três cabeças de Mailson, o ministro da Fazenda.
Colhe Sarney os dividendos políticos de sua intervenção, como fez o compadre Zé da anedota.
Compadre Zé botou em casa um bode a fazer estripulias. Durante a semana, o mal-cheiroso animal quebrou objetos, sujou a casa toda, além de empestá-la com os odores que os bodes têm. Quando ninguém aguentava mais o animal, compadre Zé tirou-o de casa sob os calorosos aplausos da família.


Se as leis fossem cumpridas ao pé da letra no Brasil, manicure de vaca poderia ser uma profissão bastante promissora. Um decreto da década de 1950, em vigor até hoje, determina que, para embarcar num vagão ferroviário, as fêmeas da raça bovina devem ter as unhas aparadas. Pois bem, só no setor ferroviário existem 432 regulamentos, e sabe-se que 90 por cento deles são totalmente inúteis. Como o que determina que uma estação ferroviária só pode ser inaugurada com a presença de um ministro do Estado, o qual deverá dar exatos dois apitos de trem.
A profissão de vocês poderia ser promissora, senhoras manicures. Mas... vem aí um pacote de desregulamentação, baixado pelo Palácio do Planalto, que, no prazo de doze meses, revoga 50.853 atos regulamentadores dos mais de 100 mil que foram acumulados em um século de República. No meio deles, o que manda aparar as unhas das vacas que vão pegar trem.

(rascunhado em 1990 / revisado em 2013)


quarta-feira, 24 de julho de 2013

A FÁBULA DO URUBU-REI

Num lugar distante, existia um Urubu-Rei que, orgulhoso de sua vistosa plumagem, desprezava a companhia dos catartídeos de penas pretas.
"Urubuzinhos sem classe", era como se referia aos nascidos em ninhos sem realeza.
Procurava mostrar-se o mais esnobe possível. Se todos torciam pelo Flamengo, ele, que nunca ia a estádio, era Fluminense. E se a massa disputava com sofreguidão uma carniça qualquer, o que fazia ele? Virava o bico e se mandava para algum lugar afastado, onde pudesse fazer o seu repasto de carne fresca.
A bem da verdade, diga-se, havia ocasiões na vida do Urubu-Rei em que a refeição não andava fácil. (1) Via-se, então, obrigado a enganar a fome, na calada da noite, (2) com as vísceras de algum animal apodrecido.
Certa feita, estando ele em pleno voo, (3) astuciou o plano de fundar uma dinastia. Sim, sendo ele um Urubu-Rei, nada mais justo. Entretanto, havia um problema: onde arranjar uma rainha naquelas paragens em que só dava urubu-malandro? Problemão, sô... de fazer perder as penas do pescoço. (4)
Pôs-se o tempo a passar e nada de o Urubu-Rei arranjar casamento. Até Santo Urubônio que, na qualidade de corretor de casamentos, conhecia a fundo a potencialidade matrimonial da região, recusara a difícil intermediação. "Se aparecer alguma baronesa por aqui, caso eu primeiro", disse o santo. (5)
Mas, um dia, a urucubaca deu sinal de que ia terminar.
Estava o urubu-rei cofiando as coberteiras com o bico, quando teve a atenção voltada para uma movimentação incomum. Perto do galho em que pousava, um bando de zangões perseguia uma Abelha-Rainha em seu voo nupcial. Uma alteza dando sopa (6) bem ali, seria verdade? Alçou voo para conferir: era!
Inscrito de última hora, ele ganhou o pega da Abelha-Rainha sob os protestos da comunidade apídea. Menos da ávida abelhona, com a qual o Urubu-Rei se casou. (7)
E tiveram muitos filhos. (8)
Moral - Noblesse oblige.
(1) Não tinha a renda dos laudêmios de Petrópolis.
(2) No rumor do dia seria flagrado.
(3) Condoreiro.
(4) Nunca as tivera.
(5) Reforço de linguagem.
(6) Aliás, dando mel.
(7) Havia o precedente do Elefante com a Tanajura.
(8) Depois que aderiram ao swing. Não há o projeto de "urubelhas" na Natureza.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

COMPORTAMENTOS DE RISCO

Discutir com o magarefe.
Comprar apartamento na planta.
Praticar surfe ferroviário.
Acender fósforo para ver o nível do combustível.
Idem, dentro do paiol.
Dar em cima da mulher do próximo... muito próximo.
Falar de corda em casa de enforcado.
Ser amigo do amigo da onça.
Idem, com relação ao amigo urso.
Falar mal do Padre Cícero em Juazeiro do Norte.
Espinafrar o marinheiro Popeye.
Desligar o televisor do bar durante o jogo do Brasil.
Pôr a cabeça na boca do leão.
Confiar confiando...
Tirar a fantasia e não vestir a camisinha.
Apanhar sabonete no chão de um banheiro público (só para homens).
Não receber com cortesia o Sr. Mário Valadão. (1) (2)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

LISO, LESO E LOUCO

"Exatamente. Eu já havia corrido uns dez minutos para me livrar de uns porto-riquenhos que estavam em meu encalço. Nos braços, rosto e pescoço, os inúmeros arranhões causados pelos galhos das árvores que, em minha desabalada carreira, eu tinha deixado para trás. Lembro-me, especialmente, de um corte profundo, abaixo do queixo, pelo que ele muito ardia. Era digno de uma sutura de dez pontos, talvez cinco.
"Felizmente, eu já estava a me refazer do cansaço sob a copa de uma frondosa árvore. Não via mais os porto-riquenhos, mas não estava certo de que eles não estavam nas proximidades. Enquanto isso, era recuperar minhas forças, apreciar a beleza vegetal, sentir o cheiro da relva molhada, ouvir o canto dos pássaros... Ei, quando eu pensasse em voltar, encontraria o caminho de volta?
"Forçoso era admitir, eu me encontrava: numa de horror, diante de uma sinuca de bico, sem lenço nem documento, liso, leso e louco e sem dinheiro pro troco, na corda bamba, de mal a pior, dando nó em pingo d'água, vendo urso, matando cachorro a grito, aliás, no mato sem o tal cachorro, chamando Jesus de Genésio, urubu de meu louro, fugido e mal pago e não me peçam para corrigir a última expressão.
Poderá também gostar de:
OS GERÚNDIOS ESTÃO FLORINDO

quinta-feira, 4 de julho de 2013

FRASEADO

Eis algumas frases dignas de registro. Foram colhidas por mim em circunstâncias as mais diversas. Umas, confidenciadas; outras, entreouvidas. Umas, brotaram das bocas de amigos. Outras, não se lhes identificam os autores. E há aquelas que não se nominam os autores e que são produto da sabença popular.
1. Quando Cabral chegou ao Brasil, aqui já estava cheio de"caboco" baiano.
2. É honesto... só até a meia-noite!
3. Cara, você me apertou sem abraçar!
4. Vá com Deus, Nossa Senhora e o Diabo atrás tocando viola.
5. Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece.
6. Jesus Cristo tem cada morador feio.
7. Funcionário público é como porco chupando caju azedo. Grita, mas não larga.
8. É ver começar a guerra e correr para se alistar.
9. No Brasil não há hippies, só arrepiados.
10. É melhor perder no boi do que perder o boi.
11. Quem tem sorte puxe por ela, quem não a tem, puxe a cachorrinha.
12. Jogaram a criança fora e criaram a placenta.
13. Quem comprá-lo pelo que ele vale e vendê-lo pelo que ele pensa que vale, vai lucrar um bom dinheiro.
14. Se pisar num chiclete não sai mais do canto.
A seguir, relato os contextos em que foram ouvidas e, quando possível, as pessoas que as disseram. Também acrescento pequenos comentários, na esperança de lhes diminuir a "outridade".
1. Verdade. Todo dia era dia de índio. Escutei-a na Praça do Ferreira por ocasião de uma engraxada.
2. Dita por um tal Augusto, com a intenção de enlamear um colega. Pude verificar depois que o língua ferina não tinha razão.
3. Reação de um tal Burlamaqui diante de uma pergunta incômoda. Ao final, abracei-o.
4. Despedindo-me de AA, depois de uma noite de aconchego. Amanhecia. Todo mundo sabe que o Diabo quando está bem humorado (tocando viola), nesses momentos não é tão feio quanto o pintam.
5. Do repertório de Zezinho, um hobbesiano prático. Espírito rixento, ele dispunha de abundante munição verbal para a provocação. Essa era uma.
6. Também do Zezinho. Pensamento seu tinha que ter, a um só tempo, religiosidade e beligerância.
7. Perto da castanha é menos azedo.
8. Do poeta Carlos Augusto. Que trava uma guerra particular com a guerra.
9. Nem yuppies, acrescento.
10. Momento de inspiração do "Seu" Antônio, dedicado funcionário do SAME do Hospital de Messejana.
11. Vovó Almerinda (?)
12. Domínio público.
13. Do jornalista Vera Cruz, de quem fui hóspede em São Luís, ao se referir a um conhecido globe-trotter.
14. Do colega Eduardo, dando ênfase às condições físicas de um valetudinário.
Ver também: FRASEOLOGIA MILITAR

quarta-feira, 26 de junho de 2013

DIETAS

“Eis a vossa comida que vem chegando!” Hans Staden 
(obrigado a se anunciar assim pelos tupinambás que o aprisionaram)
Regra geral os seres irracionais seguem dietas monótonas. O bicho-da-goiaba, por exemplo. Ele, o tempo todo, regala-se unicamente do fruto da goiabeira, o qual, a propósito, lhe dá o nome. Ele é ele e suas circunstâncias. Em sua subsistência, o bicho vai conseguindo, ainda, que a casa fique cada vez mais espaçosa. E a coisa é assim desde o bicho-da-goiaba primordial até seus descendentes atuais. Nenhum deles, que eu saiba, já foi visto tomado de cacho pela bananeira.
Pela razão e pela ração, o homem é o grande contraste. Porque  temos arte (culinária) e engenho (de cana) criamos, para nós, inúmeros regimes alimentares, muitos deles contrariando os decretos-leis da Natureza. E, malgrado os destemperos, vamos abrindo cada vez mais o leque das opções alimentares. Num futuro próximo, cardápio de restaurante deverá ser algo parecido com catálogo de autopeças. Cada prato (a feijoada, quem diria) terá um número de cinco dígitos, mais dígito verificador.
Contudo, em defesa do onivorismo a que chegou, o homem tem lá seus argumentos. Que vão do epicurismo à terapêutica e do modismo à elegância, abrigando-se nesta última categoria os argumentos mais ponderáveis. Existe, no tocante ao assunto dieta, um caldeirão de (como diríamos?) motivações. E nele, com o perdão dos nutrólogos, eu meto a colher sem medo de engrolar.
Dieta zero – A dieta terceiro-mundista. Seus seguidores um dia irão à forra com os pantagruélicos ou não me chamo História Universal. Os pantagruélicos, por sua vez, já devem estar botando as barbas no molho, obviamente tártaro.
Dieta zero à esquerda – É a dieta zero com ortodoxia. Aqui caldos de caridade não entram. Seus adeptos, na corrida para esganar os pantagruélicos, talvez cheguem antes.
Dieta vegetariana – Nem é carne nem é peixe, mas é onde o sectarismo está presente. Uma incongruência, não?
Dieta rígida – Levada ao extremo pode ocasionar rigidez no seguidor. A tal rigidez cadavérica.
Dieta da lua – Vem sendo indicada para quem nasceu com a boca virada para a lua. Um maná de dieta.
Dieta do astronauta – A comida vem em bisnagas. É uma dieta redutora de peso, mas não garante o resultado quando da volta à gravidade.
Dieta pantagruélica – Inspirada em Pantagruel, o personagem do primeiro romance de Pantagurel que buscava os prazeres da vida. Os pantagruélicos, comparados com os comensais da Dieta, são fichinha.
Dieta (com “D” maiúsculo, significando assembleia política, parlamento etc.) - Ah, nesta o comer é grande cousa!

quarta-feira, 19 de junho de 2013

VOCÊ SABIA

... que existe no Brasil um clube de xenófobos com ramificação no exterior?
... que o filme "Lotação Esgotada" foi o maior fracasso de bilheteria de todos os tempos?
... que a Iluminação pode ser mais facilmente alcançada com uma dieta que inclua pirilampos?
... que os milagres escassearam porque fomos ficando mais exigentes?
... que o Universo tende a um estado de morte térmica, a começar pela fria salamandra?
... que o Corcunda de Notre Dame dava aulas em um curso de correção postural?
... que não vimos a última passagem do cometa de Halley porque ainda estávamos ofuscados com a do Kohoutec?
... que São Nunca, ao contrário do que o nome possa sugerir, teve uma canonização ultra-rápida?
... que um miniaturista japonês, usando um pincel ultrafino, pintou a Via Látea num átomo de hidrogênio?
... que o martelo agalopado já tem machucado o dedo de muito repentista metido a besta?
... que o salário mínimo é também chamado de "só?", qualquer que seja o seu valor nominal?
... que ninguém foi em vida tão singular quanto o poeta Vinício de Moral?
... que aquele que se deixa subornar é sempre digno de nota?
... que o espermograma é cheio de detalhes mas não diz do prazer havido?
... que esta não é a primeira vez (nem será a última) que alguém tira proveito da série "Você sabia'?

quarta-feira, 12 de junho de 2013

PAISAGEM MARINHA À MÁQUINA DE ESCREVER

♪UM PEQUENINO GRÃO DE AREIA
OLHANDO O CÉU VIU UMA ESTRELA♪
PAULO GURGEL

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A SÍNDROME DE ESTOCOLMO

Segundo a lenda, os fundadores de Roma, provenientes de Troia, após convidar os sabinos a um banquete, sequestraram as mais belas mulheres sabinas para povoar a nova cidade. Para recuperar as mulheres, o rei sabino declarou guerra a Roma; porém, as mulheres preferiram ficar com os seus esposos e filhos. Diante disso, os sabinos desistiram de pelejar com os romanos.
A lenda ilustra como o crime de sequestro é coisa antiga. É do tempo em que a cobra fumava de verdade.
Em tempos recentes, Paul Getty, um rapaz de vida desregrada, foi vítima desse crime. Não dando ouvidos ao avô, um dia viu-se obrigado a mandar uma orelha inteira ao unha-de-fome. Através do "Sequex".
Como é o tal "modus sequestrandi"?
Primeiro, formam uma quadrilha (com uma clara divisão das tarefas). Escolhem a futura vítima. Estudam seus hábitos. Ela faz uso contínuo de algum medicamento de alto custo? O diabo e o sucesso de uma operação estão nos pequenos detalhes.
Montam o plano. Onde será a abordagem da vítima? Alugam - por temporada - o imóvel que servirá de cárcere privado.
Depois, vão às compras: capuz, cordas, mordaça, colchonete e uma fita-cassete com ruídos ambientais para confundir a polícia.
Dois meliantes, aos quais chamarei de X e Y para que a quadrilha não se sinta ameaçada, fizeram um sequestro. Com a vítima em boas mãos, ligaram para os familiares dela e informaram as condições de resgate.
O valor era exagerado, 20 milhões, e o o interlocutor se mostrou espantado:
- Vinte milhões?! Eu não tenho esse dinheiro todo, a menos que eu também sequestre alguém!
- Ah, somos colegas! Nesse caso, damos-lhe um desconto.
- De quanto?
- Dez milhões.
- Aceitam fichas telefônicas?
Um comentário sobre a polícia: é uma estraga-prazeres. Tem que ficar de fora em todas as etapas do sequestro. Cartesiano, meu caro Watson. Se a polícia conhece X e conhece Y encontra no gráfico a localização do cativeiro.
O sequestro pode ser relâmpago ou às escuras. Na segunda categoria está o de sogra (cujo sequestro até chega a comemorar aniversário).
A vítima para cá, o dinheiro para lá. O negócio só é bom quando é bom para um lado e melhor para o outro. Como aconteceu com a Bela e a Fera.
Por fim, e como é de praxe, a história termina com o sequestrado dando uma entrevista coletiva para falar bem dos sequestradores. Chamam isso de síndrome de Estocolmo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

NÃO CONFUNDA

Capitão de fragata com... cafetão de gravata.
Ave Maria cheia de graça com... alvenaria cheia de massa.
Carolina de Sá Leitão com... caçarolinha de assar leitão.
Quintino Reis da Costa com... quinhentos réis da bosta, como fez o presidente de uma seção eleitoral ao  tempo da República Velha (RS).
A grande obra de mestre Picasso com... a grande pica do mestre de obras.
Espírito de corpo com... espírito de porco.
Patrimônio com... matrimônio (o primeiro pode aumentar ou diminuir com o segundo).
Perestroika com... espera estoica.
Cheio de vida com... cheio da vida (uma letra é tudo) .
Bem comum com... bem com... um (um espaço é tudo).
Capaz com... capaz de tudo.
Baixa combustão com...  (mulher) baixa com... bustão.
Estar com Maria José no colo com... estar no colo de José Maria.
Rambo com... Rimbaud.
Selassié com... Sei lá se é (nome de um bloco de carnaval).
Quatro Ases e Um Coringa com... quatro com asma e um com íngua; Jane e Erondi com... Jânio e Erundina; Lennon e McCartney com... Lênin e McCarthy.
Tocando B. B. King sem parar (conforme uma canção) com... trocando de biquini sem parar
Paulo Gurgel com... Paulo Coelho.

sábado, 18 de maio de 2013

SOBRE ENQUETES

Sr. Redator:
Sou um admirador desse jornal cuja leitura eu faço, rotineiramente, do seguinte modo: a primeira página, nas bancas de revista; as demais, depois de desembrulhar a carne trazida do açougue ou, no local de trabalho, por cortesia do faxineiro que faz a limpeza das vidraças. Só uma coisa eu não leio: o horóscopo - o que, talvez, seja uma tola superstição minha.
Pois bom, leitor assíduo (já disse!), se eu volto hoje a frequentar essa mesa de redação, é porque acordei com algumas reflexões no bolso do pijama. Primeira: uma "bola branca" à Seção de Cartas que vem jogando um bolão, deixando a gente cabecear livremente. Segunda: uma bomba de encher (fuque-fuque) "bola branca" que, dessimbolizada, nada mais é do que uma sugestão.
Explico: vão ao encontro do povão. procurem saber o que pensa o homem comum a respeito de situações do quotidiano. Sigam, portanto, o exemplo das sisudas revistas especializadas em rádio e televisão. Façam enquetes.
Algumas eu já bolei, com a certeza de que serão aí aproveitadas, para maior glória (contar com a Márcia Gurgel não é tudo!) desse órgão de imprensa.
1 - Qual é o melhor local para morar?
a) Na Cidade dos Funcionários, uma metástase da Aldeota segundo a especulação imobiliária .
b) Na Vila Romero, dividindo a casa com o riacho Pajeú.
c) Nos fundos da Siqueira Gurgel.
2 - Que veículo prefere?
a) O carro chapa branca.
b) Um daqueles que você viu em exposição na Semana de Prevenção aos Acidentes de Trânsito.
c) O pedalinho da Lagoa do Opaia.
3 - Qual é a "Obra do Século"?
a) A rede de esgotos de Fortaleza pela forma irrepreensível como foi tocada.
b) Idem, trocando o continente pelo conteúdo.
c) O Monumento ao Interceptor Oceânico na Beira-Mar.
4 - O que dá mais status?
a) Ser sócio-proprietário do Santa Esmeralda.
b) Passear de carro com o Leudinho.
c) Receber uma comenda de fariseu.
5 - (Só para mulheres.) Com quem você gostaria de ter um filho?
a) Com o Clodovil.
b) Com a porção-homem do Gil.
c) Com o editor-chefe da revista Lampião.
6 - (Só para homens.) Com quem você gostaria de ter um filho?
a) Com a Araci de Almeida.
b) Com a porção-mulher da Bethânia.
c) Com a secretária do editor-chefe da revista lampião.
7 - Qual é o "Acontecimento do Ano" em 1980?
a) O beijo-coristina do J. Moura no Frank Sinatra.
b) O beijo-fadigerol do J. Moura no Papa.
c) O beijo-glucoenergan do J. Moura no Zico.
8 - Qual é a sua diversão preferida?
a) Tomar uma geladinha no Anísio, desinteressado dos pivetes que estão interessados em você. (Por falar nisso, onde anda a sua bolsa capanga?)
b) Assistir ao Canal 2.
c) Praia. Colecionar hematomas do frescobol.
9 - Que objeto você levaria a uma ilha deserta?
a) Um talão do Estacionamento Azul.
b) Um apito de juiz de futebol.
c) O livro em branco do Carneiro Portela.
10 - Qual deve ser a duração ideal de um mandato de vereador?
a) Quatro anos legítimos + Dois anos biônicos.
b) Quatro anos legítimos + Quatro anos biônicos.
c) Quatro anos legítimos + Seis anos biônicos.
Fortaleza, 16 de outubro de 1980

sábado, 4 de maio de 2013

EM CARTAZ - III

O MÁGICO E A SECRETÁRIA
Grã-Bretanha, 2003. Jenny, uma moça de 18 anos, vive feliz em Londres. Divide o seu tempo entre os estudos de taxidermia e o emprego de secretária de um mágico. Nesta segunda atividade, ela é cortada ao meio pelo mágico todas as noites. Às sextas-feiras, em dobro. Numa noite de sábado, Jenny não aparece para a função. E o seu corpo bipartido é encontrado pela polícia, sob um olmo do Hyde Park. O mágico não aparece sequer para a missa negra de corpo presente. É sobre ele que recaem as suspeitas iniciais de haver cometido o crime. Mas, ao ser detido, ele apresenta um álibi irrefutável. Na provável hora do crime, estava a jogar paciência numa casa abandonada. Sem provas contra ele, a polícia aceita a hipótese de que Jenny se partira espontaneamente, em um sulco preexistente, quando dançava salsa numa boate. E prende o indiano que acompanhou a moça na boate, sob acusação de exibição de cadáver. Escrito para a televisão a cabo, o filme é interrompido para a inserção de comerciais de morgues e cemitérios.
O NOME DA PROSA
Produção ítalo-germânica de 1995. Numa época indefinida, em um país indeterminado, uma lei é editada para proteger a sociedade dos crimes de lesa-cultura. Por essa lei, todos são proibidos de ler qualquer coisa. Os livros são queimados em praças públicas, as revistas e os jornais, nos terrenos baldios. Traças e cupins conhecem o seu lugar. Montag, um graduado funcionário do governo, é o agente que comanda a repressão. Numa viagem de trem, ele conhece Clarisse. A sonhadora jovem que logo lhe desperta o gosto pela leitura dos prefácios. E Montag, com a coleção completa de Paulo Coelho na mochila, foge com ela para a Floresta Negra, onde conhecem um grupo de bibliófilos. O grupo se dedica a preservar as obras-primas da literatura universal e, de modo todo especial, o Livro Negro da Neusinha Brizola. O filme é baseado no livro "Gostei Mais do Filme" e foi dirigido pelo mesmo diretor do fracassado "Campeão de Bilheteria".
MORRIS
Norte-americano, 1988. Morris é um policial taciturno que se distrai mantendo um ritmo de trabalho diuturno. Ao seguir os passos de um homem-tronco, que o conduz involuntariamente até uma pista de skate, ele descobre e põe no camburão toda a quadrilha de Duran. Uma quadrilha especializada em roubar pirulitos das crianças com o objetivo superior de subornar o tenente Kojak. Promovido em risco no trabalho, Morris é designado para se infiltrar em outra quadrilha, chefiada por Kerouac. Casualmente, os dois se encontram em um bar fora da jurisdição, mas nenhum tem a coragem de pagar a conta do outro. Numa cena considerada antológica, ele e Kerouac tocam piano a três mãos em um concerto beneficente do Exército da Salvação. Apesar de maneta, Kerouac é rápido, e foge com a renda do espetáculo. Na perseguição do facínora, Morris demole o esqueleto de um dinossauro do Museu de História Natural. A crítica considerou insossa a cena final em que eles duelam numa salina desativada. Morrem apenas os padrinhos.
EM CARTAZ - I
EM CARTAZ - II

sábado, 27 de abril de 2013

ELVIRA PAGÃ

A deusa que veio nos redimir os pecados,
Pecando - salvação única! - com ela,
Ninfa de fontes imemoriais.
Com olhos de rãs, espiamos:
(Suas roliças coxas explodirão as ligas?).
Podemos saltar para o tablado. Momento qualquer.
Um gesto ambíguo, um grito lascivo, um reflexo no ventre,
Tudo pode ser a senha para a invasão dos desejos.
Seu rebolado alucinante: não paralisá-lo,
Apenas retê-lo, senti-lo
Qual onda vibratória enfim captada
Em nossas frequências.

sábado, 20 de abril de 2013

ABI-LOL

Fazer uma boa reportagem nem sempre é fácil. Por isso é que existem tantas “reporcagens” por aí.
Saí a campo a ver se garimpava uma entrevista com o Abi-Lol. Sabem como ele anda? Depois que lhe atiraram uma pedra, ficou meio cabreiro, achando que isso lhe minou a reputação.
Não sei exatamente quem atirou aquela pedra . A primeira, e as outras que se seguiriam...
Mas, se até as pedras se encontram, por que eu não iria encontrá-lo? Localizei, sim, o bruto. Numa ocasião em que três repórteres já o assediavam, sendo eu o quartzo. Aliás, não sou repórter de verdade.
No princípio, Abi-Lol se mostrou muito exaltado, com quatro pedras na mão e falando que estava tirando leite das pedras. Na certa, uma referência às agruras de ser ministro. Não era preciso exibir um certificado de garantia.
Foi desabafando:
"Olha, ser ministro é passar por um teste de dureza. Figueiredo puxa muito pela turma..."
Ao dizer "turma..." tive a impressão de que o ministro interrompeu a palavra. Talvez quisesse dizer turmalina...
O Abi-Lol, apesar da ascendência turca e de ser casado com uma turquesa, é um brasileiro da gema. Tão brasileiro quanto o Sr. H. Stern.
O fato é que, após lapidadas as arestas, rolou um clima cordial entre nós. Que fez a entrevista fluir por entre os cascalhos.
Pelas tantas, o ministro chegou a cantarolar uma música do Luiz Antônio. Um samba-canção que fala em “joia preciosa, cada um deseja e quer”. Não é do tempo de vocês.
Ao final, trocamos tapinhas nas costas e tapões no rosto.
Prometi que iria pôr uma pedra sobre o assunto. Prometi, mas não cumpri. Dei o seixo.
Trinta anos depois, estou aqui revelando o making-of do nosso encontro. E, mesmo que eu publique a entrevista inteira, não vai ser por conta disso que eu vou deixar de dormir feito uma pedra.

sábado, 13 de abril de 2013

O BRASIL ALTER

A lamentar nunca haver existido o Brasil paralelo. Explico. O Brasil paralelo seria o Brasil de cada alternativa que foi descartada, por decisões históricas ou não.
Imagine o patrício que o Brasil está em um caminho que se bifurca. Naquele instante, ele toma o caminho da direita e... lá vamos nós, como tropeiros das ilusões perdidas, até darmos com os burros n'água. Aí, diante de uma realidade apenas quebrada na frieza, cabe-nos perguntar o seguinte:
Que teria acontecido se o Brasil tivesse tomado o caminho da esquerda? Isto lá seria com o Brasil alternativo, o Brasil Alter. O Brasil que, supostamente, estaria na África porque Pedro Álvares não teria embarcado naquela conversa fiada das calmarias.
Tivemos o "Dia do Fico", sem pesarmos as vantagens do "Dia do Vou Embora ". No Brasil Alter, Dom Pedro I teria ido embora para Portugal porque lá era amigo do rei. Aliás, lá seria o próprio rei.
Na II Guerra Mundial, não optamos por lutar ao lado da Alemanha. O Brasil perderia a guerra, é verdade. Mas, hoje, ombrearíamos em progresso com as nações do Eixo.
Na Copa de 50, para dar outro exemplo. O Brasil vivia o clima do "já ganhou", só esperando a hora de levantar o caneco, ouvir o Hino Nacional e pôr as faixas de monocampeão. Perder o título naquela altura do campeonato era algo impensável. Mas aí apareceu Gighia: Uruguai 2, Brasil 1. No Brasil Alter conquistaríamos o título com o placar de 1 a 0. Com o jogo interrompido aos 24 minutos do segundo tempo devido a um foguete soltado pela avó da Rosenery.
(Por uns míseros cruzeiros, a fogueteira de 1950 depois posaria de maiô Catalina para a revista "Cruzeiro".)
Em 1985, o colégio eleitoral não elegeria o Tancredo. E as bactérias do Hospital de Base, que estavam a fim de um sangue presidencial, teriam de se contentar com o Maluf. Meno male.
Nas grandes decisões tomadas, principalmente quando elas nos levaram à beira de um precipício, faltou simplesmente o Brasil Alter. O país onde nos refugiaríamos em busca de uma sorte melhor.

domingo, 7 de abril de 2013

A CLASSIFICAÇÃO TERNÁRIA DO MUNDO

Três dimensões tem a vida, segundo o Conde Korzybski. Em sua obra "The Manhood of Humanity" (A Idade Viril da Humanidade), Korzybshi cita-as: comprimento, largura e profundidade. A primeira dimensão corresponde à vida vegetal. A segunda, à vida animal. E a terceira dimensão é a que pertence à vida humana.
A vida dos vegetais é uma vida em longitude. A vida dos animais é uma vida em latitude. E a vida dos homens é uma vida em profundidade.
Aqui, para destrinchar o palavrório de Korzybski, ocorre-nos aclarar as três ordens do mundo orgânico - planta / animal / homem - por intermédio das propriedades do espaço: comprimento / largura / profundidade (a última no sentido metafórico de tempo).
Assim, a vitalidade vegetal se define em sua fome de sol. A vitalidade animal, em seu apetite por espaço.
E, sobre essas duas existências, a estática (vegetal) e a errática (animal), a existência humana proclama sua originalidade superior. Mas... em que consiste a suprema originalidade do homem? Consiste em que ele, vizinho do vegetal que armazena energia e do animal que disputa espaço, vivencia o tempo.
É preciso, pois, enfatizar essa terceira dimensão que caracteriza a vida humana. Aprofundá-la. Que o homem volte a capitalizar séculos em vez de capitalizar léguas. Que a vida humana seja mais intensa do que extensa. Amém.
É o que se depreende da classificação ternária do mundo que o Conde nos legou.


sábado, 30 de março de 2013

O PARTIDO HUMORISTA - 2

A Sra. Prefeita da Administração Popular preenche todos os requisitos para conduzir os humoristas daqui, quiçá do Brasil, ao Canaã. A terra prometida que faz cócegas em nossos pés, até rirmos a mais não poder.
Depois de transformar a loura desposada do sol, no dizer de Paula Ney, em sarará amigada do sol, a alcaidessa acha que merece mais. A Presidência da República, mas, benza Deus, que tal não aconteça.
Três anos após a refrega eleitoral, ela ainda não desceu do palanque. Sendo a Administração Popular, com honrosas exceções (Mamede, Vital), uma grande piada. As honrosas exceções, aliás, preferiram sair da canoa. A terem de compactuar com os projetos políticos da Sra. Prefeita e de seus apaniguados.
Como é próprio dos messiânicos, ela usa métodos próprios da categoria. Em vez da racionalidade administrativa, recorre a exorcismos. O Executivo Estadual é o seu demônio preferido.
Sobre o recente jejum da alcaidessa, tão bem divulgado pela mídia: marketing político? Ou a Sra. Prefeita, que já tem alguns gurus, apegou-se com mais um? Chamado fome, que não é propriamente um bom conselheiro.
Em se falando de jejum, eu sou mais o aiatolá Khomeini, que não faz uma mera pausa estomacal. Octogenário, minado por doenças cronico-degenerativas, ele jejua de sol a sol no mês do Ramadã. Ali, na ortodoxia, não deglutindo nem a própria saliva durante o jejum. Que dirá a saliva que beijos molhados possam instilar? E repare, prezado senhor, que Khomeini é ímã mas não é de ferro. Não há mãos solícitas que lhe ofereçam uma aguinha de coco, por exemplo.
Sim, houve essa possibilidade...
Quanto a esse fruto, saiba o senhor quão nutritivo ele é. Além da água, sais, vitaminas, glicídios, aminoácidos... Isso sem falar sobre a "lama" do coco, um autêntico bife vegetal. Se eu tivesse de levar alguma coisa para uma ilha deserta, levaria o "Cem Receitas com o Coco" (cuja edição infelizmente está esgotada). Nada mais útil do que esse livro para quem quer sobreviver até que aconteça o resgate. Mas, cá entre nós, eu não aceitaria o salvamento se for para me deixar em Fortaleza. Pelo menos enquanto dure a tal Administração Popular.
Finalizando o tema do Partido Humorista. Para auxiliar em sua divulgação, eu sugiro escolherem um animal que represente o partido. Por que não a hiena? Ela vive rindo e faz sexo duas vezes por ano, o que é uma esperança de que o país seja menos estuprado.

sábado, 23 de março de 2013

O PARTIDO HUMORISTA

Existem no país cerca de quarenta partidos políticos que vão disputar, urna a urna, os votos dos brasileiros. Ainda este ano, se as regras não mudarem. Há partidos para todos os gostos e qualificações. Para quem é jovem, ecologista, social-democrata, comunista, trabalhador, liberal, municipalista... E até para quem é saudosista, se levarmos em consideração que algumas siglas da Velha República estão a ressuscitar por aí.
No entanto, nem com essa super-abundância de partidos dá-se por encerrada a questão. Principalmente, quando se observa que não passa de um reles discurso a identificação do político com o seu partido. Como se o cenário político estivesse lacunoso de partidos que sejam adequados à práxis, advindo disso algumas consequências. Por exemplo, essa dificuldade que o Dr. Ulysses vem tendo para pôr em plenário os seus pupilos. Inclusive para votar a nova Carta Magna do país.
Nessas horas, onde o senhor pensa que andam os deputados e os senadores? Não se espante. Eles fazem animadas rodas na cantina do Congresso, no divertido passatempo de contar piadas uns para os outros. E quem botar sentido, logo ouvirá um que diz: "Tem aquela do brasileiro..." Sobre as ausências notadas nas rodas, ah, essas estão bem justificadas! Correspondem àqueles que ainda estão sob os lençóis, porque passaram a noite em festas de embaixadas contando anedotas de brasileiro.
Apesar do costume, acho que o político brasileiro não deveria ter essa dupla militância. Esposar um partido oficial e... passar as suas mais felizes horas com o que parece outro partido. O Partido Humorista, chamemo-lo assim. Eu não falo apenas das risíveis horas em que contam e ouvem piadas, mas também de seus atos como animais aristotélicos. Pois, no tocante a isso, direitistas, centristas e esquerdistas, todos se igualam.
Lembra-se da práxis? Pois é, só o Partido Humorista atende as exigências dessa madame.
Agora, se o Partido Humorista pretende ser grande, então começo a me preocupar com o futuro dele nas terras alencarinas. Ficará raquítico, enfezado (o que não convém a seu propósito), se aqui já não for grande de berço. Para isso, o partido precisa da filiação de pelo menos uma figura de projeção, já. E quando analiso o desempenho de nossos próceres, há um que logo me toma a atenção: a Sra. Prefeita da Administração Popular.

sábado, 16 de março de 2013

O RELÓGIO SAPECA

O relógio tinha o aspecto de um cachorrinho sapeca com as feições humanizadas. O cabelo de franjinha (lembro-me deste detalhe) e de como ele, com muita graça, empunhava um ramalhete de flores amarelas. Em contraste com a cor de fundo do objeto, entre o verde e o azul.
Na verdade, o cachorrinho descrito era a "capa" sob a qual se ocultava o mostrador do relógio.
Levantada aquela "capa", via-se a hora pelo sistema digital e, ao mesmo tempo, ouvia-se uma música. Uma musiquinha fina, metálica e de poucos compassos. Não duraria muito sem o "da capo" programado para fazer repetir a melodia.
O relógio não tinha um "made in" para indicar onde fora fabricado. Puerto Stroessner? Seria um bom palpite. Avaliado na "feira dos relógios" da Praça do Ferreira, seria classificado como roscofe (termo pejorativo para rotular um relógio de má qualidade).
Como nada é eterno, principalmente nas mãos de um guri, em pouco tempo o relógio ficou defeituoso, com as horas se sucedendo caoticamente. Pior: o conjunto já não se mantinha fechado, o que fazia a música ficar tocando ad infinitum.
Então, dei um jeito de amarrar a capa no corpo do relógio. Para isso, usei a pulseira (de quatro cores, esqueci de descrevê-la) do próprio relógio e o condenei ao esquecimento de uma gaveta. Tentei, pelo menos. Mas, vez por outra, quando eu abria a gaveta, o sacolejo afrouxava a pulseira e o relógio voltava a tocar a impertinente música.
Passei-lhe uma fita durex, porém esta logo cedeu.
Aquele relógio, de poucos cruzados, não tinha mesmo um grande valor. Mas não me agradava deixá-lo tocando e tocando até acabar a pilha. Talvez porque fosse uma crueldade deixá-lo esvaindo-se em música.
Nós, intelectuais e pseudos, somos pessoas sensíveis. Cada nota desperdiçada é uma gota de sangue derramada pelo relógio, pensamos assim. Vislumbrando para ele o mesmo destino dos relógios "derretidos" do Salvador Dalí.
Qualquer crime contra o tempo, ou contra um de seus agentes, é um crime hediondo.

quarta-feira, 13 de março de 2013

SESSENT'ANOS DE CAMINHADA

"Está naquela idade, de dúvida e de prazer
que já virou o dia e é pleno anoitecer;
entre o menino que catava livro para leitura
e o sessentão, hoje às voltas com literatura,
uma escada longa, com degraus ainda por vencer."
Elsie Studart

SESSENT'ANOS DE CAMINHADAS - PERCURSO E PARADAS OBRIGATÓRIAS DE MARCELO GURGEL
Um livro em comemoração dos 60 anos de idade do médico e escritor Marcelo Gurgel organizado por Elsie Studart e reunindo textos que amigos e familiares escreveram sobre ele.
Neste livro dois capítulos são de minha autoria, um dos quais se intitula:

sábado, 9 de março de 2013

PIRAJÁ

O mundo dos insetos fascinava Pirajá, ninguém sabia desde quando. Uns arriscavam que o começo de tudo tinha sido na fazenda Mangagá, a herdade de um tio-avô já meio gagá de Pirajá. Menino malino, ele costumava botar mel de cana nos apiários com o objetivo de antecipar a aposentadoria das abelhas. Isso quando não estava consertando a embreagem dos sapos para que estes não andassem aos trancos.
Passado pelas mãos transformistas de Pirajá, um bufonídeo era outro. Ganhava andadura suave, mas inseto que é bom não pegava mais.
Vê-se aqui a solércia de Pirajá: os sapos viam-se obrigados a ir para o brejo.
Mesmo na fazenda, o menino traçava (epa!) livros a mão cheia. Sobre insetos. E aprendia quão úteis eram eles (os insetos). Às vezes, maravilhado, interrompia a leitura para perguntar, em voz alta, a um interlocutor imaginário: "Quem poliniza as flores, assegurando a formação dos frutos? Quem dá o mel, a laca, o carmim, a seda? Quem, hein?". Interlocutor imaginário, pois ali, no quarto, só estava ele. Ele e, perdão, as baratinhas da cômoda.
Uma vez, o rapazote Pirajá se viu no centro de uma discussão. Estava no barbeiro, quando o fígaro fez um comentário desabonador sobre os barbeiros. Pirajá não concordou. E travaram uma áspera discussão à base de "os barbeiros são uma praga, não fale mal de seus colegas, eu estou falando do barbeiro inseto, inseto é a mãe". Como Pirajá venceu: Colocou o profissional na cadeira e, com "o último argumento dos reis", raspou a barba do barbeiro que, por sinal, era imberbe. Com a navalha e o queixo do rival na mão, também pudera!
Homem feito, Pirajá abraçou a entomologia. Acertou na mosca, vale dizer, em matéria de seguir o seu desatino. Mas, como formiga que corta folha longe de casa, Pirajá resolveu palmilhar o continente africano, onde, por oito longos anos, observou atentamente as termiteiras gigantes. Daí o apoucamento do juízo e a moléstia a ser descrita no parágrafo seguinte.
Dos tempos d'África, além das meninges assadas pelo sol do Kalahari, Pirajá ganhou uma insônia crônica. Consequência de picadas da mosca est-est. Ora, ser distinguido pelo ferrão dessa mosca, como se sabe, é ficar incapaz de pregar os olhos, mesmo apelando para o colírio de Dienpax.
Aí, para enfrentar a barra das noites mal-dormidas, Pirajá dava solitários passeios, equipado de uma lanterna, à maneira de Diógenes. "Procuro uma mariposa", dizia ele a quem o inquirisse. Em vão procurava. Mariposa quer é distância de Insetilux, a lâmpada que fulmina os insetos. Mas... quem não comete seus equívocos?
Como são belas as nuvens de... gafanhotos, Pirajá pensava assim. Mas eram um espetáculo raro. Como também era raro aparecer um circo de pulgas na cidade. (Devem estar percebendo que eu estou a falar de Pirajá no item entretenimentos.) Então, sucedia a pressão de Joaninha, sua namorada, para que fossem a um cineminha pulgueiro.
Um dia, partiu para uma expedição em busca da centopeia centro-europeia. Se a encontrou ninguém sabe, porém todos sabem que ele não foi mais encontrado. E uma efeméride assinala esse fato.
Esta foi a vida, paixão e morte de Pirajá. Para sempre seja louva-deus.

sábado, 2 de março de 2013

MAME E NÃO DÊ VEXAME

"Está bem, somos animais mamíferos. Mas acho que o homem é um pouquinho mais do que a mulher." -  Millôr Fernandes.
Mamar é sugar o leite do seio materno ou das tetas de uma fêmea de animal, conceituou Houaiss, o Enciclopédico. Purismos à parte, no verbete "mamar" Houaiss usou a palavra seio, no lugar da palavra mama, conscientemente sabendo que o seio é a região anatômica que fica entre as mamas, isto é, o vão que existe entre elas.
Mamas são as glândulas que a natureza fez surgir na mulher em função da criança. Embora se diga que, à maneira do autorama, quem brinca com elas é o pai.
Com o verbo mamar, o povo tem criado locuções curiosas. Se o ato de mamar é feito na fêmea do cavalo, diz-se que o indivíduo é um "mama-na-égua", ou seja, é palerma, toleirão; se, diferentemente, é um "mama-na-onça", é intrépido, corajoso. "Mama-na-onça", conforme o entendimento popular, é também o indivíduo casado com mulher feia, o que, aliás, dá no mesmo. E há o "fora os anos que mamou", que o povo alterna com o "fora os anos que andou de bicicleta", para dizer que alguém tem mais tempo de vida do que apregoa.
Mamar é também gíria para fumar e beber. Significando fumar - com delícia - a gente encontra em Silva Barros, quando diz: "... continuou sentado, 'mamando' um charutão". E, como sinônimo de tomar bebedeiras, embriagar-se há uma maior fartura de exemplos. Luiz Peixoto, letrista de Ary Barroso, deixou-nos, entre as páginas antológicas do cancioneiro popular, duas amostras do emprego do verbo mamar com esta acepção. Em "Camisa amarela": "o meu pedaço na avenida estava bem 'mamado' / bem chumbado, atravessado". E, em "Na batucada da vida", esta passagem: "depois do meu batismo de fumaça / 'mamei' um litro e meia de cachaça / bem puxada".
Mamar, além de beber, é desinibir-se. Nestor Holanda, em "Telhado de vidro", assim exemplificou: "Então, Manuel Alves Pinheiro foi ao boteco da esquina e tomou algumas calibrinas. Em outras palavras: mamou coragem."
Mamo coragem, também. Ano passado, um ministro da área econômica vituperou que o empresário brasileiro só pensa em "mamar nas tetas da nação". E considerou-se acima de qualquer suspeita por ter nome de peixe (perdão, leitores, ele tem nome de um animal pisciforme. porém mamífero).
Uma vaca que pasta no céu e é ordenhada na terra é a velhíssima ideia que se tem do Brasil. D. João IV, o Restaurador, dizia que éramos a "vaca de leite" da Monarquia. Em tempos atuais, Brizola, afrontando um desafeto político, lançou-lhe a anátema de que "não mamou... mas segurou a vaca para que os outros mamassem".
Por qualquer prisma que se olhe o país, a gente só vê mamadores.De um lado, são os "leitessugas" da casta da especulação, do conchavo e da mamata (como cabe aqui esta palavra!). Do outro, são os enjeitados da sorte que mamam... no dedo, ora bolas.
A propósito, bezerro enjeitado escolhe teta?
(texto da década de 1980, concluído recentemente)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

CHICO E O ELEPÊ "VIDA"

MÚSICA
Para os cultores da boa música popular brasileira um acontecimento sempre esperado é o lançamento do disco anual de Chico Buarque. Trazendo o título de "Vida", nome também de uma das faixas, o seu último elepê, produzido pela Polygram (os vindouros deverão ser editados pela Ariola, com a qual Chico acaba de assinar contrato), já se encontra nas lojas e departamentos de discos.
Doze canções compõem o disco: "Vida" (inédita), "Mar e Lua" (gravada também por Simone), "Deixe a Menina (inédita), "Já `Passou" (inédita), "Bastidores" (gravada também por Cauby e Cristina, separadamente), "Qualquer Canção" (inédita), "Fantasia" (já gravada pelo conjunto MPB-4), "Eu te Amo" (inédita), "De Todas as Maneiras" (já gravada por Maria Bethânia), "Morena da Angola" (recentemente gravada por Clara Nunes), "Bye Bye, Brasil" (gravação anterior do próprio Chico em compacto) e "Não Sonho Mais" (sucesso recente na voz de Elba Ramalho).
Nestes registros fonográficos Chico esbanja cérebro e coração. É o letrista (desenvolto) de todas as faixas e também o musicista (inspirado) de quase todas; quase, porque ocorrem parcerias em "Eu te Amo" (com Tom Jobim) e "Bye bye, Brasil" (com Roberto Menescal).
Meus comentários sobre cada uma delas:
"Vida" - Da peça "Geni". Mostra o autor a se posicionar no plano existencial. No início, uma dúvida ("quem sabe eu fui feliz") que, entretanto, evolui até transmudar-se em certeza ("eu sei que fui feliz"). Um instante de comoção poética: "luz, quero luz / sei que além das cortinas / são palcos azuis".
"Mar e Lua" - Também da peça "Geni". Fala de um amor proibido entre duas mulheres em uma cidade distante do mar, que "levantavam as saias e se enluaravam de felicidade". Marcadas pela incompreensão humana, buscaram uma fuga suicida "correnteza abaixo" e, à maneira de um enredo mitológico", "foram virando peixes / virando conchas / virando seixos / virando areia / prateada areia / com lua cheia / e à beira mar". O renascimento simbólico delas, em uma cidade grande, quiçá menos repressora.
"Deixe a Menina" - Um samba melodicamente bem conduzido que lembra o Chico dos velhos tempos. Um conselho que fica: "por trás de um homem triste / há sempre uma mulher feliz / e atrás dessa mulher / mil homens sempre tão gentis". É bom dar-lhe ouvidos.
"Já Passou" - Uma canção no melhor estilo joão-gilbertiano. O autor veste a pele de alguém sentimentalmente ferido e, ao mesmo tempo, obsessionado em demonstrar que "já curou". Convence.
"Bastidores" - Música que vem impulsionando o reaparecimento artístico do cantor Cauby Peixoto. O cotidiano de desilusões, medos e hesitações de uma cantora de cabaré que, a despeito de tudo, ainda brilha em cena: "cantei, cantei / jamais cantei tão lindo assim / e os homens lá pedindo bis / bêbados e febris / a se rasgar por mim".
"Qualquer Canção" - Momento de lirismo do Chico. Uma melodia simples a conduzir uma letra, cuja preocupação maior é tocar o coração até de quem não ama.
"Fantasia" - Samba com a abertura à maneira de uma fantasia (em linguagem musical). Pode proceder daí o título da canção. Ou, então, do convite, imaginoso, para que a gente distraia "o erro do suplício ao som de uma canção". A palavra de ordem é mesmo cantar "noite e dia".
"Eu te Amo" - Chico vê(-se) um amante que perde a noção das horas, que não sabe como partir. "Nas travessuras das noites eternas" o amor é um desvario que parece chegar ao mundo não-anímico. Confiram neste terceto: "como se na desordem do armário embutido / meu paletó enlaça o teu vestido / e o meu sapato ainda pisa no teu". Jobim comparece ao piano (a música é dele), majestoso. Há também a participação vocal da cantora Telma.
"De Todas as Maneiras" - Uma espécie de balancete sentimental fechado com perdas. Depois "de todas as maneiras que há de amar", o amante que (in)tenta desvencilhar-se ("larga a minha mão / solta as unhas do meu coração") daquela que, até então, fora a pessoa amada. Simplesmente, por não se conter a um apelo de fora "quando chega o verão".
"Morena de Angola" - Composta por Chico em terras angolanas. Uma letra de ambientação "afro", com o emprego calculado das palavras (chocalho, canela, cochicho, cacho, remelexo etc.), uma estocada ideológica, quando o autor diz: "morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA", e um ritmo assaz envolvente.
"Bye Bye, Brasil" - Do filme de mesmo nome, trazendo de volta um Menescal velho (o que quer dizer novo) de bossa. É, ao lado de "Eu te Amo", a música de maior riqueza harmônica do LP. Vem, entretanto, com um arranjo mais "fechado" do que o da gravação original, em compacto simples. Aqui, bauxita e fliperama, Parintintins e e calça Lee, caminhão e patins, toró e Rua do Sol - Maceió formam os contrastes de um Brasil antropofágico. Desse entrechocar de culturas ainda é possível se esperar que, "com a bênção do Nosso Senhor / o sol nunca mais vai se pôr". Apesar de tudo.
"Não Sonho Mais" - Do filme "República dos Assassinos". Fala de "um sonho medonho / desses que, às vezes, a gente sonha /e baba na fronha / e se urina toda e quer sufocar". Ora, um sonho medonho não pode ser descrito em termos brandos e Chico vai a fundo no antilirismo. É um baião estilizado.
Ainda umas considerações finais. Sobre o Chico-intérprete: ele está mais agradável, mais solto em sua voz pequena. Sobre o amigo Francis: ele também deve ser lembrado pelos arranjos e regência deste bem elaborado disco.
Por tudo que vi e ouvi, recomendo.
1º. de fevereiro de 1981

sábado, 16 de fevereiro de 2013

TUDO EM BAIXO

Antes, ganhava dinheiro com imóveis; agora, com imóveis. Explico: apesar de manter em atividade a sua imobiliária, ainda um bom negócio, ele entrou firme no ramo dos cemitérios, que sabia ser bem lucrativo.
Depois de viajar pelo Brasil para ver arquiteturas de campos santos, técnicas de inumação, códigos de posturas, marketing etc. voltou para Fortaleza, cheio de ideias. Que foram por ele materializadas em um município da região metropolitana de Fortaleza.
Não era por estar relacionado com mortes que o novo empreendimento não precisasse de um nome de batismo. Brincando, e inspirando-me em que existia um restaurante no Morro de Santa Terezinha com o nome de "Tudo em Cima", eu sugeri ao amigo que o chamasse de... "Tudo em Baixo". É claro que ele não acatou a "sugestão", por se tratar obviamente de uma mera brincadeira. E batizou o novo campo santo de "Jardim da Saudade".
Entre parênteses: Sem os termos "Parque", "Jardim", "Saudade" e "Paz" 90 por cento dos cemitérios ficariam anônimos.
Na venda dos primeiros jazigos, ele logo descobriu o perfil do comprador típico. Era, geralmente, alguém das classes B, C e D. As pessoas destas classes socioeconômicas veem a morte como algo acontecível e, prudentemente, reservam uma parte de suas economias para a prestação dos jazigos. Ao contrário dos ricos que, quando a morte lhes chega, há dinheiro folgado para que os familiares lhes providenciem um enterro de luxo.
E os negócios do meu amigo Joaci prosperaram (e não só neste ramo) que ele, atualmente, comanda uma rede de cemitérios no Brasil.
De saída, ele aponta duas grandes vantagens para o que faz:
1) Quem compra não quer utilizar.
2) Quem usa não tem queixas.
Tanto é que o livro de reclamações - para uso exclusivo dos mortos - encontra-se até hoje em branco.
[...]
Em 1930, o prefeito de Palmeira dos Índios, Alagoas, escreveu em um relatório:
"Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos, dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitem a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam."
O prefeito da cidade alagoana era Graciliano Ramos.
[...]
Bônus - Contos Sobrenaturais

sábado, 9 de fevereiro de 2013

NO CAMINHO DE DAMASCO

Numa época que os arcanos não trazem mais, o meu desempenho em prol da ecologia não somava muito. Um dia aconteceu de um intelectual de escol (também conhecido pela militância ecológica) me aplicar um puxão de orelha.
Com o devido cuidado para não esmagar a pulga que se esconde atrás da orelha, caso contrário, estaria ele comprometendo a grande causa.
Bem, esse puxão de orelha foi apenas simbólico. De maneira que não provocou dor doída. Entendam-no como tendo sido uma advertência, um chamamento à razão diante do meu insuficiente interesse pela sorte do planeta Terra. Que é agredida, a todo instante, pelo homem, esse câncer da natureza.
Por vezes, aliás, eu cheguei a brincar com as preocupações dos ecologistas por julgá-las exageradas.
Mas... foi-se o tempo em que eu aplaudia comparações desse tipo: Prefiro um bom sapato e um bom cinto a um jacaré mordendo meu pé e uma cobra se enroscando em minha cintura.
E o fato é que, desde então, eu mudei radicalmente.
Posso inclusive dar exemplos do como tem sido a minha atuação em favor do ambientalismo:
Participei da campanha "abrace o tamanduá bandeira", da qual saí com as costas completamente lanhadas. Nem por isso me arrependi.
Até que chegasse a defesa civil, eu fechei com o dedo um buraco na camada de ozônio da atmosfera.
Gastei uma tonelada de papel com um manifesto para que não derrubassem um marmeleiro.
Protegi o pardal da extinção. E vou fazer o mesmo com o calango e as baratinhas francesas.
Defensivos agrícolas? No pasarán! E o meu lema para atacá-los é este: se dois bicudos não se beijam, logo um pode eliminar o outro.
(rsrsrs, não levem o que eu escrevi aqui a sério)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

CARTA A UM COMPANHEIRO COQUEIRO

(INTÉRPRETE: P. GURGEL)
Antes de mais nada, agradeço a meu intérprete o fato de conseguir chegar ao lugar em que estou, antes dos bulldozers, serras mecânicas, helicópteros e seus manejadores. Não deve ter sido tarefa fácil. Mas, ao contar-me o que ocorre contigo, caro colega, a notícia já era do meu (nosso) conhecimento: os humanos (ironia!) desconhecem que nós, vegetais, somos abrigo, repouso e ninho de pássaros, e eles, ciosos disso e sinceros em sua gratidão, são nossos amigos e correio. Poderia ter pedido a eles que te transmitissem esta carta; contudo, por querer tornar público meu pensamento e gratificar tão esforçado intérprete, preferi que fosse ele o portador desta missiva.
Grato, companheiro, pela solidariedade. Estão nos dizimando aos hectares, sem que os centros de decisão da nação nada ou muito pouco façam em nosso socorro. Aproveitam-se de nossa natural dificuldade, ou melhor, impossibilidade de deslocamento e matam-nos vilmente. Sinto um pouco tua dor solitária, mas nossa dor é maior: vemos nosso vizinho ser golpeado, serrado, derrubado, desfolhado, vemos sua agonia ao ser laçado e conduzido às serrarias, sabedores que seremos os próximos, e que nossos restos serão usados para camas, guarda-roupas, lenha para fogueiras. Nem sequer nossas raízes poderão repousar em paz: os tratores virão inapelavelmente e as arrancarão férrea e insensivelmente.
Dizes que morrer não dói. Concordo(amos). Mas é intensamente doloroso o tempo que decorre entre a sentença e a execução. Não pela expectativa da execução, mas pelo que ocorre neste período. Nossa dor não começa ao vermos os tratores, mas pelos baques surdos de nossos companheiros desabando com uma sonoridade típica de nossa nobre estatura; tua dor se situa nessa ridícula discussão entre "coqueirófilos" e "coqueirófobos". É como o título de uma peça teatral a que meu intérprete assistiu: "Seria cômico se não fosse trágico".
Mas não deves ficar tão preocupado conosco não, companheiro. Só se sente a falta de uma coisa depois que esta coisa está perdida. Deixemos que os humanos se iludam à vontade, mesmo às custas de nossa vida. Porque, depois, eles sentirão nossa falta, quando a vida deles estiver no fim.
Um abraço de um baobá amazônico.

P.S. Agradeço ao baobá a confiança que me dedicou. Espero que os pássaros te digam isso, caso ele não tenha sido já assassinado.

Intérprete: Hugo Barros da Costa (médico)

sábado, 26 de janeiro de 2013

LUCIDEZ, J. NATURA

Senhor Redator:
Não fui surpreendido pela carta do senhor Oswaldo Evandro Carneiro Martins fazendo comentários, ora ácidos, ora alcalinos, sobre dois textos ("J. Natura, o Ecólogo" e "Lucidez, Coqueirófilos!") de minha autoria, recentemente publicados nesta "Seção de Cartas". Pela forma "reptícia" (prefiro dizer assim) com que trabalhei os textos, considerei, desde o início, a possibilidade de ferir os brios de um ou outro ecologista de raciocínio apressado. Foi um risco calculado.
No caso deste cidadão, Oswaldo Evandro Carneiro Martins, o qual se coloca em oposição a mim, assim o faz de forma bastante pessoal. A começar pela frivolice de dissecar meu nome (CPF também não serve?), numa tentativa de estabelecer relações cabalísticas com os meus escritos. Será que este senhor ainda não "eurecou" que o nome de alguém é sempre colocado, à revelia, pelos pais do dito cujo, sejam eles autocratas ou não? Dando o troco à sua moeda azinhavrada, eu também declaro não ter gostado do seu nome. Poderia ser mais altissonante, do tipo verso alexandrino perfeito. Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac fica como sugestão.
Estranho. Achei tão estranho o senhor Evandro Carneiro Martins Oswaldo interromper a rega de suas samambaias-choronas de plástico para escrever linhas e mais linhas a meu respeito, numa espécie de oposição hepática. Viram-no, empunhando as bandeiras do ibope fácil (ecologia, homeopatia, socialismo), certíssimo de que eu trago as mãos vazias? Tudo ilusão de óptica, senhor Carneiro Martins Oswaldo Evandro, pois minhas bandeiras não diferem tanto das suas assim quanto pensa. Considero apenas que cada questão pode vir multifacetada, daí advindo todo um espectro de posicionamentos. Nem tudo está naquele raciocínio primário de CIA versus KGB, para o qual o senhor tenta (debalde) me conduzir. Consulte o baiano Jorge Mautner ("Panfletos da Nova Era") que ele sabe das coisas.
Meus dois textos (des)apreciados por sua crítica-salada, na verdade, merecem considerações apartadas. Assim, "J. Natura", cronologicamente o primeiro tem texto e intertexto. Se o texto alinha (com exagero, reconheço, pois exagerar é uma forma de humor), parágrafo a parágrafo, situações ecológicas vivenciadas por J. Natura, um romântico que descamba para o quixotesco, o intertexto o reconduz, em sentido contrário, para o romântico, tornando-o um personagem até simpático. Agora, o que o faz pensar que eu não tenho carinho por ele? Cervantes, por acaso, repudiou o Cavaleiro da Triste Figura, sua criação
Quanto à sua crítica de que desconheço a realidade ecológica (inferida do desempenho do personagem J. Natura), respondo que criador e criatura podem até ser cotejados mas não são, necessariamente, um ente só. Tartufo não foi Moliére, Falstaff não foi Shakespeare e Macunaíma não foi Mário de Andrade. Mais ainda: pode se permitir, ao que se escreve no terreno ficcional, certas licenças, humorísticas inclusive. Mesmo que, tomado de espanto, o senhor dê, inadvertidamente, uma mordida em sua língua morta de "ignorantia non est argumentum".
Outra coisa que o senhor entendeu-fez-que-não: eu busco, através das ironias, um efeito paradoxal no público ledor. Assim agiu Augusto Boal em "Mulheres de Atenas" (música de Chico Buarque) quando disse; "Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas". Na verdade, objetivou ele criar no público uma reação contra a passividade. Qualquer pessoa medianamente intelectualizada captou a anti-mensagem. Repare que eu falei medianamente intelectualizada, uma vez que a anti-mensagem está no não-explícito, constituindo isso uma limitação do método.
Já no "Lucidez, Coqueirófilos!" o fato tem conotação realística. Melhor "brechável", só que o buraco da fechadura está mais em cima: nem tudo consegue ser enquadrado, a porretadas de Maniqueu, no simplismo do seu modelo opressor versus oprimido, com o poder judiciário a serviço do primeiro. por isso, vou ao além-litígio, ao que interessa: o coqueiro condenado, com o qual me identifico (ninguém se identifica com o que não estima). Sou árvore humanizada (no bom sentido) disposta ao martírio desde que, com ele, ressaltem-se dois traços caracterológicos, a meu ver reprováveis, dos humanos. Aliás, esqueci-me do terceiro: o mau humor (a cada dia descubro adeptos). Falar nisso, humor, na concepção freudiana, é o triunfo do "eu". Tanto ao nível de emissor quanto de receptor, acrescento. Apenas os definitivamente derrotados têm inadequação de humor. Espetam-se com tudo.
Portanto, abra as venezianas mentais, senhor Martins Oswaldo Evandro Carneiro. O que há de anti-ecológico em um parágrafo como este? A me transformar numa árvore-símbolo (para a catarse dos complexos de culpa humanos) prefiro a morte. Espírito vegetal, irei vaguear junto aos bilhões de outros iguais a mim na Amazônia. Na Amazônia que ninguém liga, pois todos, ou quase todos, estão preocupados com suas ecologias de fundo de quintal (reprise). É, pelo menos, uma conclamação à Grande Ecologia. É o sair da ecologia de fundo de quintal (repito) que se sustenta apenas de histrionismo e emocionalismo.
Viva a grande ecologia!
(7 de agosto de 1981)

sábado, 19 de janeiro de 2013

"J. NATURA, O ECÓLOGO"

Sr. Redator:
Ontem (27.07.81) e anteontem, este jornal deu guarida na seção "Cartas do Povo" a duas missivas do Sr. Paulo Gurgel Carlos da Silva, nome um tanto esdrúxulo que confere a Carlos status de família e rebaixa Gurgel ao status de indivíduo. Simbólico, o fenômeno, se analogado ao posicionamento do autor das cartas, que, professa o que eu chamaria anti-ecologismo.
O Sr. Gurgel Carlos deve ser identificado aos interesses do chamado "capitalismo selvagem", que não é tão-só a materialização daquele aforismo do filósofo Thomas Hobbes (1588-1679), que antecipou uma concepção do homem como fera para o seu próprio semelhante (homo hominis lupus). A palavra locucionada aí ("selvagem") bem que significa implicitamente destruidor da natureza, da fauna e flora silvestres, e dos recursos e belezas naturais. O problema ecológico é produto do capitalismo, da instituição capitalista motivo-lucro, e do individualismo considerado como defeito do capitalismo. O sistema capitalista converteu as atividades econômicas em processo de entropia, como reconhece o economista Celso Furtado. É que as denominadas deseconomias externas, vergonhosamente consentidas e sancionadas, estão na essência desse capitalismo reduzido a um mecanismo e estrutura de destruição, poluição e obstrução da natureza.
O Sr. Gurgel Carlos procura zombar de uma causa que hoje constitui o apanágio dos idealistas, humanistas e cientistas (v. o Clube de Roma). Assim, escreve gaiatamente, mas indubitavelmente faz humor negro com um tema trágico e apocalíptico. Sob os termos ecológicos que , denuncia uma doutrina subreptícia, que tenta impingir aos leitores, de modo circunloquial e solerte, mas indigente ou falto de conhecimentos de ecologia.
Vou fazer uma amostragem disso.
Na carta de anteontem, o Sr. Gurgel Carlos lança em cena a sua personagem J. Natura, o Ecólogo. Apenas prova, porém, seu despreparo ou má fé intelectual para com o assunto em que se imiscui, se intromete e se intruja. Diz, por exemplo, da referida personagem, com a qual visa a ridicularizar a ciência e técnica ecológicas:
1) "Apanha a roupa passada num armário onde passeiam baratinhas jamais dedetizadas."
Ignoraria o Sr. Gurgel Carlos que o DDT pode ser utilizado mediante cuidados próprios, isto é, ecologicamente? Ignorantia non est argumentum.
2) "Estacionado entre os pilotis do edifício, o seu (dele, J. Natura) fusca a álcool, comprado numa decisão sábia de não poluir as ruas com chumbo tetra-etila, produto tóxico existente na gasolina."
Defenderia o Sr. Gurgel Carlos as multinacionais do petróleo?
3)"Lá (na feira de pássaros), J. Natura circula comprando avezinhas canoras" (entre as quais, cita "periquitos australianos"). "depois, fora da cidade, "liberdade para os emplumadinhos".
Existirá alguém, afora o Sr. Gurgel Carlos, que não saiba, em função de um mínimo conhecimento ecológico, que pássaros, quer domésticos ou domesticados, quer oriundos de outro ambiente ou clima, não tem condições de sobrevivência nessa liberdade que J. Natura lhes concede?
Na carta de ontem, o Sr. Gurgel Carlos faz uma incursão ao reino da prosopopeia, onde põe a monologar novo personagem que cria, Coqueiro da Varjota, alusivo a uma palmeira dessa espécie, recentemente condenada à morte por uma sentença judicial. A nova personagem, nascida que é das motivações anti-ecológicas do Sr. Gurgel Carlos, fala gaiatamente, de acordo com o humor que o seu criador pratica. Para Coqueiro da Varjota (leia-se: o Sr. Gurgel Carlos os homens têm dois defeitos: "bedelhismo" e hipocrisia. E é aí que a personagem se confunde com o autor. Este, logicamente, pertence à malsinada espécie homem, e é por isso que, através de Coqueiro da Varjota, mete o bedellho no affair e afronta "tantos coqueirófilos" (sic), além de solidarizar-se com o cacique Juruna ("estão me jurunizando", afirma) e com a Amazônia ("que ninguém liga", comenta).
O último defeito dos homens, conforme Coqueiro da Varjota ou o Sr. Gurgel Carlos, isto é, a hipocrisia, fica meio indefinido. Deveria o criador da personagem ter dado um claro pronunciamento ecológico, porque não parece que defenda realmente o cacique Juruna, ou seja, os remanescentes indígenas e seu habitat, que é correlato dos recursos naturais, pertencendo embora à categoria que o economista S. V. Ciriacy-Wantrup denomina recursos culturais tangíveis. Outrossim, o cacique Juruna, como se viu pela televisão, proclama as propriedades medicinais da jurubeba, em face dos medicamentos quimioterápicos das multinacionais; e, por outro lado, a personagem J. Natura é usada pelo Sr. Gurgel Carlos para mofar dos medicamentos homeopáticos ("a homeopatiazinha para a hipocondria de sempre", que a personagem se receita pela vontade de seu criador). E, quanto à Amazônia, deveria a personagem Coqueiro da Varjota ter qualificado aquele "ninguém" a que se refere, que não podem ser pessoas como os ecologistas tão ostensiva e ofensivamente ligados àquela região saqueada pelas multinacionais, mas que sim podem ser pessoas como o próprio Sr. Gurgel Carlos, cuja desova ecológica é das mais suspeitas.
Cordialmente,
Oswaldo Evandro Carneiro Martins
(29 de julho de 1981)

sábado, 12 de janeiro de 2013

LUCIDEZ, "COQUEIRÓFILOS"!

Hesitei se devia escrever estas linhas, mas como a questiúncula não parece ter fim, decidi-me então.
A coisa, eu conto como a coisa está sendo: há dias, através da imprensa escrita, falada e televisionada, que estão polemizando sobre mim, aquele coqueiro da Varjota que virá abaixo por uma ordem judicial. O motivo de minha condenação, sabido de todos, foi porque, de quando em quando, eu deixo cair cocos e palhas em telhado alheio. Uma contravenção que deu briga de vizinhos e seguiu-se de uma demanda que, ao final, me sentenciou de morte.
Não, não estou aborrecido. Dou minhas palmas à palmatória verdugo dos homens. Se, coqueiro alto, com o tombo de meus cocos, estou a ameaçar o cocuruto das pessoas, assumo pelo fato a responsabilidade, mesmo que essa posição me signifique a morte. Morrer não dói. Mais do que o meu desplante dói o desplante (perdão pelo trocadilho) dos homens.
Árvore, como tal sempre prezei o anonimato - o sereno anonimato de todo ser clorofilado. Foi assim que, ao longo de minha existência, eu dei frutos, sombra e enchi os olhos das pessoas. Tive (e ainda tenho) mais utilidades do que um canivete suíço. Entretanto, não busco o reconhecimento gratulatório. Muito menos virar celebridade e passar meus dias dando autógrafos a sabiás deslumbrados.
Portanto, friso: não quero pechinchar pela minha vida. Aliás, enfastiam-me duas características humanas:
1.ª - O "bedelhismo". O que tem chovido de propostas ("ponham um funil de arame na copa", "armem uma rede proteção para os cocos" etc.) dos que tentam comutar minha pena foi surpreendente. Eu não sabia haver tantos "coqueirófilos" assim. Mas não quero mudar meu way of life.
2.ª - A hipocrisia. De um (hor)ror de gente que busca promoção à minha custa. Babam-me e eu nem coqueiro-babão sou! Virei uma árvore-símbolo, estão me "jurunizando".
Finalizo. A me transformar numa árvore-símbolo (para a catarse dos complexos de culpa humanos) prefiro a morte. Espírito vegetal, irei vaguear junto aos bilhões de outros iguais a mim na Amazônia. Na Amazônia que ninguém liga, pois todos, ou quase todos estão preocupados com suas ecologias de fundo de quintal.
Portanto, senhores, tragam seus machados para que eu os perfume. Sei também ser sândalo.