quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

PENSAMENTOS

Eu não vou dar ouvidos à razão. A razão sempre tem razão.
****
Nenhum homem pode manter, por muito tempo, uma aparência para o mundo e outra para si mesmo. Um belo dia sai de casa com as meias desiguais.
****
Consulte seu coração. Ele é o tipo do oráculo doméstico que, muitas vezes, prevê coisas importantes embora - suprema ironia - falhe nos enfartes.
****
Nossa vida é uma trama ininterrupta de subidas e descidas. Daí ser tão popular a montanha-russa.
****
O caráter se manifesta nas grandes ocasiões. Festas a caráter, por exemplo.
****
Tanto na solidão como em sociedade você poderá falhar. Só que, no primeiro caso, não surpreenderá rostos alegres.
****
Primeiro, diga a si mesmo o que você deseja ser; depois, cresça e apareça.
****
Muito cedo na vida eu tive de escolher entre a arrogância honesta e a humildade hipócrita. Aos boçais: adivinhem por qual eu optei.
****
A felicidade depende, antes de tudo, de uma interioridade equilibrada, a qual não se consegue apenas aprumando o corpo.
****
Bem-aventurado o que suporta com denodo a provação porque, depois de ter sido provado, o terno ficará irreprochável.
****
Se você está de pé, bem ereto, não se incomode se a sombra estiver curvada. Sombra, às vezes, faz feio quando bebe.
****
Aos que me picham: eu mostro onde tem muro para isso.
****
Nenhum sofrimento ou provação é total... sem uma mãozinha do governo.
****
Dor e prazer se acham tão próximo no ser humano que, às vezes, dá curto-circuito.
****
Eu, que me queixava de não ter sapatos, soube de um crocodilo que morreu pela causa.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A SENHORITA E

Meus amigos poetas escrevem versos apaixonados para suas mulheres e isto tem provocado queixumes em E, minha mulher, a qual espera de mim algo parecido. Entretanto, eu só escrevo humor. Aí, vejo-me numa situação semelhante ao lance por que passou o monge saltimbanco de uma historinha. Ele, por não saber compor música, poema ou iluminura para Nossa Senhora (como os outros da abadia), pôs-se a fazer piruetas em frente ao altar. "Heresia", gritaram todos. Mas Nossa Senhora considerou que o monge saltimbanco, com a sua exibição, simplesmente lhe fizera a melhor das oferendas.

Eis a minha oferenda para E, minha mulher. À consideração de seus olhos compassivos:

Quando conheci a então senhorita E foi como ganhar na loto. Ela fazendo quina e eu, terno (naquele tempo não havia a sena, por isso não lhe outorgo um prêmio maior). E nosso primeiro e inesquecível flerte se deu numa casa noturna que estava em voga. Lá, eu chegara cedo, pegara uma mesa estratégica e me encontrava já de copo à mão. A saborear o rum da imaginação, o gelo da indiferença, a coca-cola da alienação e o limão da realidade: os tais quatro elementos da cuba-libre. E a me entreter, que ninguém é de esponja, com o ato de fazer rolar um punhado de pitangas.
Nesse meu rum(inar), a senhorita E chegou de vestido branco. Toda vaporosa, em sua ânsia de subir aos páramos ela parecia ser contida pelo braço forte do amigo M. E eu, de imediato, achei-a um ser lunar como Diana, a Caçadora, mas não querendo aqui dizer que ela estivesse a fim de qualquer caça. Nisso, o amigo M se viu em dificuldades momentâneas. Como arranjar, naquela casa já lotada, uma mesa para ele e as senhoritas E e F. Então recorreu a mim. Eu tinha uma mesa, três cadeiras ainda vagabundas e a viril condição de empatar aquele jogo.
Mais: eu tinha um punhado de pitangas. O legado de outro amigo, meio sobre o bêbado, que estivera em minha mesa, dissera longas e más, porém que se retirara. Pois bem, foi só M arrastar F para o salão de danças que eu entrei em campo. De sola. Oferecendo pitangas à senhorita E que, açodada, as aceitou. Até então eu nunca havia comido pitangas... nem a senhorita E. De maneira que o flerte aconteceu sob a égide de um novo e diferente sabor. E entabulamos conversa. Na qual ficou provado que o conhecimento profundo é a última coisa necessária para uma conversa animada (obrigado, Beaumarchais). Depois disso, dançamos conforme os tangos e os boleros que a casa oferecia em seu cardápio musical. A ver se possuíamos ferormônios compatíveis.
Sim, OK, positivo, possuíamos. E a noite, negro corcel, com a ajuda do horário de verão, correu aos pinotes. Assim é que amanhecia, quando ela se despediu de mim com um beijo inesquecível, a dez polegadas do meu rosto por escanhoar. Como a senhorita E tinha namorado sob aviso prévio o máximo concessível era aquilo. Mas, ora, feita a primeira concessão todas as demais estavam feitas. Desde que eu controlasse o fauno viciado em mandrágora que me habitava. Enquanto isso, fosse ficando com o número de seu telefone - de fácil memorização. À prova de amnésia alcoólica, portanto.
Passamos a nos encontrar três, duas, uma vez por semana, a atração aumentando... Como se os nossos corpos fossem progressivamente imantados. Um dia, eu lhe falei de amizade colorida, e ela ripostou com casamento em preto e branco. Pedi tempo. Ainda não me sentia bovino bastante para entrar no rol dos homens sérios, se é que isso existe. Numa noite de isolamento, porém, após ouvir Chico Buarque cantar "O Casamento dos Pequenos Burgueses", entrei em parafuso. Tanta coisa tão linda, tão comovente, tão... sobre as vidas dos que tocam a sonata conjugal a quatro mãos!... E liguei para a senhorita E. Fui mais curto que um coice de porco, perguntando-lhe se uma antiga oferta continuava de pé. Continua, quero dizer, continuo - disse-me ela - mas acabo de cair... ao saber que você mudou de idéia. Pelo telefone ouvi o baque.
Em 84 o liberalismo dos costumes já se achava em franco refluxo. A ponto de o historiador A. Toynbee assegurar que o coroamento da revolução sexual seria a volta do ascetismo. Mas, diabos, em 84 o que ainda estavam fazendo aqueles homens, senhores respeitáveis, nas esquinas em que eu procurava praticar a arte da paquera? Seus carros, lembro bem, exibiam nos pára-brisas o indefectível logotipo do Encontro de Casais... Ah, eu enfrentava uma concorrência fortíssima e, mesmo assim, não os entregava às respectivas patroas. Isso e mais a música do Chico foram os empurrões para o meu "enforcamento", acredito.
Entretanto, antes de irmos morar sob o mesmo teto rebaixado de lambris, precisávamos tomar certas providências. O casamento civil. Fui contra que ela mudasse o nome de solteira, mas depois cedi. Porque ela precisava limpar o nome na praça para novos créditos. Pela frente, havia ainda os gastos com o casamento religioso: convites, decoração da igreja, reportagem fotográfica, bufê a quinhentos cruzeiros por pessoa... e o vestido de noiva. Que a senhorita E fez questão de que fosse assinado por um estilista famoso (a pincel atomico, emporcalhando a cauda do vestido).
À hora de jogar a grinalda, amontoaram-se as raparigas casadoiras. A senhorita G, saltando como a Hortência do basquete, foi quem pegou o ambicionado troféu. Mas, que eu saiba, até hoje morre de frio nas noites de julho. Concluída a recepção, era partirmos para a lua-de-mel num carro com latinhas amarradas na traseira (do carro). Aliás, nem seguimos esse super nordestino costume porque o veículo, com o escapamento semi-solto, já fazia barulho suficiente. A senhorita E queria praia e eu, sertão. E passamos a lua-de-mel na serra, com ela de ouvido grudado numa concha, apenas pelo contentamento de ouvir o marulho, registro o fato.
O casamento é uma espécie de terreno instável. Parafraseando Churchill, é a pior forma de relacionamento homem-mulher, salvo as demais que já se praticaram. E não existe uma fórmula exata para que dê certo. Mas se diz que ajuda a mútua renúncia. Por exemplo, nós vamos colocar cortinas novas na sala. Eu renuncio ao vermelho, ela, ao azul; na rodada seguinte, eu repudio o amarelo, ela, o marrom; etc. Até sobrar uma cor única, incontestável, para a euforia do vendedor que já considerava invendável uma cortina daquela cor... E, aos poucos, sem arrufos de parte a parte, alfaia-se a casa.
Hoje, nos une um amor puro, intenso e desinteressado. Mas ainda não recebi o dote.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

PONTO E VÍRGULA

Era uma vez uma Vírgula que vivia na página tal de um livro. Colocada entre duas orações coordenadas assindéticas, ela se julgava a mais infeliz das criaturas. E fazia da linha onde virgulava o seu muro das lamentações. Por algum tempo, pensou-se que o problema da Vírgula seria apenas inveja da Aspa (com a qual guardava certo parentesco). Pois a Vírgula tinha sido vista, em diversas ocasiões, a dizer coisas depreciadoras sobre a Aspa. Que esta, além de não botar os pés no chão, só servia para aspear gírias etc.
Pelas asperezas que eram endereçadas à outra, a invídia realmente acontecia. Porém, o que infelicitava a Vírgula era mais embaixo: um outro tipo de ressentimento. Uma paixão desmedida, cega e doentia pelo tal Ponto Parágrafo. Do tipo paixão não correspondida, uma vez que o Ponto nem sequer olhava para ela. Mas, espere aí... Pontuando a palavra "timidez", não padeceria ele de igual defeito?... Ah, a Vírgula se perguntava e não obtinha uma resposta convincente. O Ponto era um fechado em si mesmo.
Formavam-se rodas para discutir a situação da desolada Vírgula. O Travessão, como era do feitio, abria o diálogo:
- A Vírgula, hein? Vai de mal a pior... Precisamos ajudá-la nessas horas tão difíceis.
O Ponto de Interrogação:
- Concordo, mas como?
E o Acento Agudo (sempre respeitado pela agudeza das observações):
- Proponho uma assembléia geral extraordinária. Que decidirá o modus faciendi.
E reuniram-se todos sob a presidência do Til, a sua voz anasalada se fazendo ouvir por todo o miolo do livro:
- Companheiros, assim eu soube da pauta desta reunião designei para relator o Dois-Pontos. Ele que vai falar.
E o Dois-Pontos, um tipo pedante que tinha a mania de explicar o por acontecer, pôs-se a ler o relatório adrede preparado. No qual explicava, tintim por tintim, o que se passava. Da paixão da Vírgula à timidez do Ponto, sendo o xis da questão a falta de alguém que os aproximasse. "Assuma alguém a intermediação, senhor presidente, que a natureza fará o resto." Em seguida, o Asterisco, que era responsável por uma acreditada nota de rodapé, aproveitou para lembrar que "ninguém estava ali num livro de auto-ajuda. Mesmo assim, senhor presidente, sou a favor de que se indique alguém - nesta prosopopéia - para a ação proposta pelo relator."
- Eu...
Era a Reticência se apresentando para a nobre missão. Ora, como estafeta do amor a Reticência não emplacaria nunca, nunquinha. Podia-se apostar que continuaria tudo como dantes, quer dizer, nas entrelinhas... E foi prevendo isso que o atilado presidente da assembléia retomou a palavra:
- Estou pensando na Crase. Ela já tem experiência em estabelecer uniões.
Nisso, o Parêntese levantou uma questão de ordem. "Seria a Crase que une a preposição 'a' ao artigo definido 'a'? Ou, então, a que une a mesma preposição aos pronomes demonstrativos 'aquele', 'aquilo'? Eu pergunto, senhor presidente, porque... blá...blá...blá..."
E o Parêntese prosseguiu na digressão. Blá...blá...blá... Uma digressão tão comprida, tão infinda que fez a Barra dormir a sono solto, paralisando o serviço de taquigrafia da assembléia. Aí, diante da maçada, o Til encerrou a reunião (embora marcasse outra para as calendas gregas).
Entrementes que a assembléia malogrou, um sinal (que não se fizera presente na reunião) tomou para si resolver o falado problema. Ele já tinha uma larga folha de serviços prestados ligando palavras compostas, pronomes átonos a verbos, e, portanto, ser-lhe-ia também fácil promover a união do Ponto com a Vírgula. O leitor já percebeu que eu falei do Hífen, vulgo Traço-de-União. Sem muito nhenhenhém, o alcoviteiro do Hífen fez o trabalho completo. Não esquecendo nem mesmo de chamar o Acento Circunflexo para juiz de paz.
Casaram-se os sinais. E, na situação de marido e mulher, tomaram o nome de Ponto-e-Vírgula (olha o Hífen aí no ménage à trois!). Contudo, a felicidade deles não foi para sempre. Um revisor mau e cruel, os olhos de basilisco, surpreendeu-os em pleno ninho de amor - uma pausa prosódica inadequada! E, não sabendo patavina do acontecido, desfez a parelha antes que rodasse a edição seguinte.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

HOMEM & MULHER

O HOMEM DO CONTRA

Começa pelo signo, que é aquele dos peixinhos, um no sentido contrário do outro. Sua cor é a amarela. Em contrapartida, sua pedra é qualquer uma que incomode no sapato.
Seu prato favorito, o contrafilé, e sua bebidinha, o licor "Cointreau". No círculo de amizade, apenas se acham os contraparentes.
O medo que sente do mar. Para contrabalançar tentou a carreira na Marinha. Desistiu, porém, ao perceber que levaria tempo demais para chegar a contra-almirante.
Numa contradança, conheceu a mulher de sua vida. Era contramestra. Depois de avaliar todos os contras, topou o himeneu. Mas ainda não têm filhos por causa dos contraceptivos.
Nas horas de ócio, toca contrabaixo pelo prazer de estar nas contra-oitavas. Ou, então, lê livros e mais livros embora não passe das contracapas.
Rigoroso no ato de comprar, não admite ser logrado no contrapeso. No entanto, quando a mercadoria é de contrabando fecha negócio na contraluz, isto é, no escuro.
Não receia andar na contramão. Se flagrado, sorri contrafeito e enfrenta a multa com uma contraproposta. Quando necessário vai fundo na contravenção.
Periodicamente, sofre de uma contratura muscular que contraverte a lógica. Porque só experimenta alívio quando toma um medicamento contra-indicado.
E acha que os tempos mudaram para melhor, mercê dos contratempos. Está firme no contrapé. E, contra tudo e contra todos, crê na vitória definitiva do contra-senso.
Eis aí a resenha comportamental de um homem do contra. Um homem do contra em meio às contradições de sua época.

A MULHER DO PRÓXIMO

A mulher do lojista é de fechar o comércio.
A do estelionatário é uma falsa.
A do escritor não está prosa.
A do motorista é uma cheia de curvas.
A do teatrólogo vive a fazer cena.
A do jardineiro tem minhocas na cabeça.
A do lenhador é de lascar!
A do militar é uma parada.
E a do estuprador, coitada!

A mulher do cabeleireiro é uma cabeça feita.
A do maître é uma para quinhentos talheres.
A do surfista vai na onda dos outros.
A do metalúrgico é um mulheraço.
A do tipógrafo não dorme no ponto.
A do andarilho é um pedaço de mau caminho.
A do guarda-florestal vive na moita.
A do estivador tá com tudo em cima.
E a do gay nem vem que não tem.

LETRA DE MÉDICO

Antologia de prosa e poesia publicada em 1989 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Celina Pinheiro, Dalgimar Menezes, Francisco Medeiros, Geraldo Bezerra, Hamilton Monteiro, Icaro Meton, Luiz Alberto, Luiz Moura, Paulo Gurgel, Paulo Sérgio, Pedro Henrique e Walter Miranda.
Produção Gráfica: Geraldo Bezerra.
Livro com 150 páginas.

LER FAZ BEM AO ESPÍRITO

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

BRANCA DAS NEVES

Era uma vez uma moça de coração bom (frise-se isto) que se chamava Branca das Neves. Órfã de pai, mãe e ama-seca, ela vivia na companhia de uma senhora de estranhos poderes. Má Drástica, a que tinha os cabelos pretos como a asa do corvo. E que planejava, sem que Branca soubesse, arrancar-lhe o coração para substituí-lo por um "Jarvik-7". Para tanto, a senhora Má contava com um grande trunfo: a faca de ponta do terrível Gargamel.
Mas Gargamel era um boquirroto. Num porre de hidromel, ali por volta da "ônzima" caneca, ele foi, bateu com a língua nos dentes (embora não tivesse estes). A inconfidência de Gargamel, feito ondulação de trigal, propagou-se por todo o reino e todos tomaram conhecimento do plano da senhora Má. Branca das Neves também soube, mas ficou sem acreditar. Foi preciso que pessoas chegadas lhe mostrassem a guia de importação do "Jarvik-7", logo após surrupiá-la de Má Drástica.
A moça Branca ficou apavorada. Se a idéia de vir a ter um coração novo, de plástico mais alumínio, já a inquietava, imagine a de viver atrelada a um trepidante compressor... Era de tremer nas bases. Defendendo o recôndito, passou a usar um califom reforçado em seus passeios na floresta. Com isso, o dia "D" que chegasse.
Numa tarde sépia de outono, Gargamel levou Branca das Neves a um passeio na floresta. Tinha a ordem da senhora Má para arrancar o coração de Branca, mesmo sem anestesia local. Era o dia "D". Então, mata adentro, os dois caminharam durante muito tempo. Chegando a uma clareira, Gargamel consultou o seu relógio "Seiko-No-Iê" a ver se já era a hora "H". Era. Mas nisso, Branca das Neves levou Gargamel a um passeio no talão de cheques. E por 3$800 teve a vida poupada. A bem dizer, o "Jarvik-7" era só uma encenação de Má Drástica. Depois de sacado o coração, Branca não teria direito a reposição nenhuma.
De poder do cheque, o velho garga teve outro rasgo de generosidade. Levou Branca das Neves para a proteção dos 7 Dwarfs.
Vivendo no coração da floresta, os 7 Dwarfs ganhavam a vida raspando as paredes de uma velha mina abandonada, onde o fisco de Má Drástica não os alcançava. O grupo participava da chamada economia subterrânea do reino. Pois bem, os 7 Dwarfs quando Gargamel os procurou, para que protegessem Branca, foram todos concordes. Afinal, o veio da pirita (ouro dos tolos) já chegava ao fim, a moça pagava uma boa taxa de homizio etc. Dava até para mudar de ramo.
Com os 7 Dwarfs, Branca das Neves viveu dias e (ah!) noites felizes.
Mas, um dia, numa consulta de rotina ao "Jiló-500" (misto de computador e penteadeira), a senhora Má descobriu que Branca estava viva. Viva e chutando! Furiosa, chamou Gargamel à presença, passou-lhe uma descompostura total, e ordenou-lhe que fizesse o serviço de fato. Ou do contrário... (Nisso lhe mostrou o "Jarvik-7" que, coincidência ou não, bateu mais forte quando viu Gargamel.) O velho Garga não era mais besta. Já não havia sacado, por insuficiência de fundos, o cheque de Branca, mas o coração dela haveria-de... E foi à luta. Mas antes, para dobrar o poder ofensivo, aliou-se ao superterrível Gargabelha, que ao invés de mel comia abelhas.
Avisada sobre a aproximação dos facínoras, Branca vestiu os 7 Dwarfs de samurais e disse-lhes que cumprissem o mátrio dever. Antes, porém, fê-los passar um dia inteiro assistindo a um filme do A. Kurosawa. Não deu certo. Sem tirar nem atirar, os 7 Dwarfs fizeram que nem o capitão Astiz nas Malvinas. E assinaram a rendição incondicional. Pois era a oportunidade de ouro de se livrar de um matriarcado que já estava cansando.
Quando o fim de Branca parecia inevitável, surpresa geral. Gargabelha e Branca descobriram, à primeira vista, que haviam sido feitos um para o outro. E juntaram trapos e chicote para uma saudável relação sadomasoquista. Quanto ao pobre Gargamel, posto a escanteio pela evolução dos fatos, também não teve sorte madrasta. Foi cercado pelos 7 Dwarfs, com estes alegremente cirandando e cantando:

Gargamel, ô Gargamel
O teu lugar tá garantido
Lá no céu.

E Gargamel caiu no pagode. Afinal a festa era também para ele.
E todos dançaram a mais não poder na noite luarenta. Por isso, não deram tento a uma figura sinistra que, do alto de um carvalho, a todos espiava. Um corvo que tinha as asas pretas como o cabelo da Má Drástica. E que só dizia: Never more... Never more...

domingo, 13 de janeiro de 2008

EM CARTAZ

SAGA "Z "
Produção franco-italiana de 1974. É a história de uma expedição ufo-arqueológica cujos membros divergem nos objetivos científicos. Na trama do filme, passado, presente e futuro se entrelaçam, com o passado levando vantagem nos jogos de azar. Inicia-se a aventura. Ao explorar uma ilha vulcânica, o grupo expedicionário é tenazmente envolvido por uma estranha nuvem verde. De gafanhotos, descobre-se. E ficam sem legumes no resto da expedição. Conhecem um viajante do futuro que se veste como um troglodita (griffe Piere Ug), mas que usa uma obsoleta arma futurista, o porrete a laser. Um flash-back mostra o viajante em seu melhor desempenho. Ele livrando a Saga "Q" (produção franco-italiana de 1969) das garras dos vulcanos, os adoradores do deus do Vulcão. Mas a Saga "Z" é mesmo o ômega. E, por uma questão de adicional noturno, não fecha contrato de proteção com o viajante do futuro. Não contando com o braço armado do personagem-tranchã, e também enfraquecida por dissensões internas (6 ufos x 6 arqueos), a Saga "Z" é presa fácil dos vulcanos. No final, um a um, seus membros são lançados pelos captores na cratera do vulcão. Porém escapam porque a caldeira estava quebrada.
ATÉ QUE A MORTE NOS UNA
Produção germânica de 1968. Depois de comover meia Alemanha (mais do que isso seria comoção internacional), o drama do casal Witz recebe enfim um tratamento cinematográfico justo. Ei-lo: Claus E. Witz e sua mulher, Helga, formam um par que vive às turras. Um dia, após uma acalorada discussão em que Claus chama Helga de ânfora etrusca, resolvem tirar férias conjugais. Em locais que facilitem o reencontro futuro. Assim, ele vai para o Pólo Sul, ela, para o Pólo Norte. Apesar da dubla-bla-blagem que prejudica o filme, dá para ver como acaba. Claus compra um navio quebra-gelo polonês, de segunda mão, onde instala um cassino. E termina seus dias jogando paciência. Já Helga tem sorte diferente, o que não quer dizer melhor. Arranja emprego de foca correspondente do "Ice News". Mas morre ao querer documentar na íntegra uma aurora boreal. De fome e de frio. Com cortes nas cenas que interessam a Onã, o filme é recomendado a cursilhistas hesitantes.
JOPLIN, A LIBERADA
Produção norte-americana de 1955. No dizer geral, Joplin é a viúva de um militar que morreu no front. Com a morte do marido, ela procura levar uma vida não reprimida dando gritinhos primais. A guerra ainda não está terminada, pois falta uma caneta-tinteiro para que assinem a rendição. Aparece. A Alemanha é uma grande massa falida, o que deixa Joplin também muito pobre. Em má hora, ela aplicara toda a sua fortuna em marcos e só o Plano Marshall pode salvá-la. É quando surge dinheiro novo no toucador de Joplin, colocado (dizem...) pelas mãos obsequiosas do próprio Marshall. A seguir, a viúva abre um sex-shopping. É antológica a cena em que ela aparece recrutando clientes na fila do gargarejo dum teatro de revistas. Apaixonada por um fetichista que conhecera numa tinturaria, Joplin casa-se novamente. Mas a viúva não é viúva. Porque aparece o primeiro marido, que simplesmente não morrera no front. A bem da verdade, ele estivera o tempo todo escondido na retaguarda. Joplin, claro, não aceita as desculpas de que ele seria uma reserva moral da América. Por isso, mal o poltrão termina de aparar a volumosa grama do jardim, Joplin o enxota. Mas, antes, lhe dá uns poucos marcos para que recomece a vida na Alemanha destruída.
A LEI DA SELVA
Produção anglo-angolana de 1983. K. Hey é o zarolho capitão de um barco que singra anarquicamente um rio d'África. A bordo, vão também John Stuller, detetive particular, e Linda, sua lânguida esposa. Em quantidade de crimes desvendados, John perde feio para a esposa. Até no caso do canivete suíço que Linda... Bem, assistam com outro ingresso. No meio da viagem, estabelece-se uma discussão sobre o destino a dar a uma cobra fluvial que o capitão apanhara. John tem a idéia de empalhá-la, Linda, de devolvê-la ao rio após aplicar na cobra um nó górdio. É que Linda cultiva o gênero sádico-ecológico. O capitão fica de dar o voto de minerva no dia seguinte. Mas não existirá o dia seguinte para John e e Linda. À noite, a alimária promove uma devastação a bordo, livrando apenas a cara caolha do capitão. K. Hey e a cobra são bons amigos, e despedem-se com um "até à vista". E subentende-se que os pertences do detetive e da mulher integrarão, daí para frente, o patrimônio do capitão. É a lei da selva.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

AS COROAS DE APOLO

Foi fogo conseguir uma entrevista com Apolo. "Hoje é equinócio, não posso faltar com os astrônomos, tenho também que presidir uma mesa-redonda sobre mastectomia radical, puxa, é justamente na hora do lançamento do livro do Carneiro Portela, a menos que o recital do Pavarotti seja adiado, mas aí tem a reunião do Clube dos Charadistas, ou eles me matam..." Apolo tinha sempre desculpas, quíntuplas desculpas. Mas, o o que eu poderia esperar de alguém que é, ao mesmo tempo, deus da luz, da medicina, da poesia, da música e da arte da adivinhação? De alguém, enfim, mais acumulador de encargos do que Ulisses do Brasil, o nosso tri-morubixaba? Só poderia esperar que esse alguém, o super-ocupado deus grego, ficasse por muito tempo procastinando a entrevista, transferindo-a para as calendas gregas. Mas um dia, mercê da insistência, Apolo concordou em me receber para uma individual. Fui pensando, no caminho, em quão diversificada seria a entrevista. Na pauta, além da música, havia poesia, medicina, economia, astronomia etc. Entretanto, quando me vi com Apolo, o faro jornalístico me fez logo abandonar a pauta (despautério?). Para centralizar a tão aguardada entrevista nas duas coroas que cingiam o quengo apolíneo. E que não lance mão delas o leitor aventureiro, a menos que...

A entrevista
- Qual o significado dessas duas coroas?
- Significado afetivo.
- Por favor, explique.
- As duas coroas - uma de louros e a outra de jacintos - simbolizam as grandes paixões de minha vida, Dafne e Jacinto.
- Dafne e Jacinto? Quem são?
- Dafne foi uma ninfa a quem amei perdidamente. Eros, em suas reinações, me flechou com a seta do amor, a que tem a ponta de ouro; e flechou Dafne com a seta do ódio, a que tem a ponta de chumbo.
- Era uma paixão sem reciprocidade?
Era, e eu perseguia Dafne por todos os lugares. Até que um dia, para se livrar de meu assédio, ela se transformou num loureiro.
- Por isso, usa essa coroa de louros?
- Só que, em meu caso, são os louros da derrota...
- Noto que também usa louros na cítara, na aljava e...
- Sou um apologista do loureiro. Suas folhas aromáticas dão um excelente tempero.
- E Jacinto... quem foi ele?
- Um jovem que eu também amei. Jacinto e eu fazíamos um par na base do só-vou-ao-Monte-Parnaso-se-você-for. Mas, quis o destino que eu o atingisse com um disco de arremesso, m-o-r-t-a-l-m-e-n-t-e.
- Jacinto morreu por suas mãos?
- Nas aparências. Pois até hoje eu desconfio das mãos invisíveis de Zéfiro.
- Zéfiro, o Vento Oeste?
- Sim. Suspeito de Zéfiro, de seu ciúme tresloucado a ponto de desviar o disco para a testa de Jacinto.
- E Zéfiro também amava o efebo?
- Soprava por aí. Mas Jacinto, se bem o conheci, não era de andar com esse vento na popa.
- Jacinto morreu em suas mãos. Sendo você o deus da medicina não pôde salvá-lo?
- Bem, eu fui impotente para restituí-lo à vida humana. Então o transformei em jacinto, uma flor lindona.
- E com jacintos compôs a sua segunda grinalda?
- Sim, porém com estão esmaecidos!
- Concordo.
- O que me faz pensar que Panacéia tinha razão...
- ???
- Quando dizia que Jacinto andava meio aidético.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O SEGUNDO

Perguntem a um estudante do curso secundário qual o ponto culminante do globo terrestre. De imediato, ele responderá: o Monte Everest. Agora, perguntem a ele qual o segundo. Não saberá. E não saber nomear o segundo ponto culminante do planeta não atesta, necessariamente, a falência do ensino secundário no Brasil. As pessoas em geral não se interessam pelo que vem logo depois do primeiro. O segundo, seja fato, coisa ou pessoa, costuma ser solenemente ignorado.
Não sendo poço (nem pico) do saber, compulso um relevante livro de Geografia. No qual encontro a resposta para a pergunta que embaraçou o estudante. Ei-la: é o Monte K2 da "kadeia" do Karakoram, no "Pakistão". Pronto! O estudante agora fica bem afiado e, na hora "K", não vai mais errar de montão. Já o Monte K2, com seus 8.611 metros de altura, é a prova sesquipedal de um infortúnio. O de ser o segundo, seja lá no que for.
Na guerra, para dar outro exemplo. O do recente toma-cá-retoma-lá que aconteceu com as "Falkinas". Valeu para a Argentina terminar em segundo lugar? Claro que não. Principalmente, quando o primeiro ficou para um leão. O Leão Britânico, cuja voracidade é por demais conhecida. No fim, passado o porre cívico (porre etílico para o general usurpador), aos hermanitos restou o quê? Um estropiado segundo lugar, felizmente tornado menos penoso pelo reencontro com a Democracia.
E ser o segundo na política? Companheiro de luta, pois sim. Basta o primeiro botar a mão no cargo em disputa para o segundo passar a ser visto com maus olhos. Também pudera! O segundo, por menos ambição que tenha, o tempo todo vive sonhando com ser o primeiro. E com abrir a altanada porta que leva ao poder, onde permanecerá enquanto puder. Mesmo que isto signifique perder a essência de ser, ora bolas, o segundo. Abaixo os desagradáveis prefixos vice, sub e que tais!
Numa ocasião, Luís Fernando Veríssimo falou que o segundo tem a solidão do poder, sem o poder. É compreensível, portanto, que ele almeje a solidão do poder, com. E queira trocar os bastidores pelo proscênio, ainda que a troca aconteça no último ato. Dou por fé. Os olhos do segundo refulguram quando ele, da boca do primeiro, ouve a palavra mágica: desincompatibilização.
Mas o segundo pode simplesmente esperar pela chamada solução biológica, como fez um político nordestino. Substituto que era, apenas esperou pela morte do titular da cadeira senatorial. E deu que, para contentamento do cujo, não se delongaram as parcas. Foi manchete da época: MORRE SENADOR BIÔNICO, ASSUME SENADOR OBITÔNICO. Agora, fazer despacho (no sentido umbandístico da palavra) também ajuda. Mas, o mais eficaz é soltar os marimbondos de fogo sobre o titular do cargo. E, depois, é só ficar aguardando, ao pé do rádio, o boletim "tancredológico".
Nos esportes, ser o segundo significa muitas vezes quebrar a cara. Numa luta de boxe, por exemplo. Não consola, mas é no pugilismo (se acontece o tal beija-lona) que o segundo é socorrido por outros... segundos. Entretanto, há esportes outros, considerados bem menos radicais, em que a situação do segundo é bastante suavizada. Numa corrida de carros da Fórmula 1. O segundo sobe ao pódio, bebe da champã e ainda contabiliza seis pontinhos. Meu Deus, nem a Fórmula 2 oferece tanto!
E, finalmente. Sabe-se da numerologia que a movimentação do 1 (unidade) é que faz aparecer o 2 (dualidade). Ambos são as polaridades do ser, o primeiro ritmo. Um-dois, um-dois, um-dois. Para haver o ritmo tem que existir o dois. Mas, se periga a existência do primeiro, quem "dança" antes é o segundo. Dois-um, dois-um, dois-um. Como na anedota: Viam-se dois compadres perseguidos por uma onça, faminta de não sei quantos dias. Quando, perdendo ambos terreno para a fera, um deles vai, grita: "É inútil. Jamais conseguiremos correr mais rápido do que a onça." No que o outro responde: "E quem disse que eu estou querendo correr mais rápido do que ela? Estou cuidando apenas de não ser o segundo do compadre."
Vingança de segundo... bem, o segundo às vezes é gozado. Quando chama o primeiro de penúltimo.

domingo, 6 de janeiro de 2008

FÓSFOROS

Um fato intrigante, e que não livra a cara de sociedade alguma, é a enorme quantidade de maridos que somem de casa para sempre. Outro, é que os sumiços quase todos apresentam um ponto em comum. Os maridos saíram de casa pretextando comprar fósforos. Em minhas lucubrações, não afasto a possibilidade de que uns poucos estejam a zanzar por aí, cumprindo um percurso de algum Plano Cruzado roteirizado por Kafka.
A maioria, contudo, encontra-se em algum local bem distante do ponto de desaparecimento. Numa região, geralmente soalheira, onde ninguém os conhece. Digo mais: onde ninguém os julga, já que no presente estão a viver com novas caras-metades. Os especialistas atribuem essas peripécias à andropausa (nesta síndrome, mulher nova, bonita & carinhosa é elixir da juventude). E os franceses, ao dêmon de midi, o diabo que se insinua na alma do homem cinqüentão, com o fito de promover as chamadas uniões entre o Outono e a Primavera.
Existindo ou não o diabretes, o desertor conjugal só veio a surgir, a meu ver, após aparecer a caixa de fósforos. Antes, havia a poligamia, o sadomasoquismo, a inversão, o fetichismo, o bestialismo e mais um monte de práticas sexuais com nomes em latim. Mas marido fujão, não. Surgiu, como eu já disse, com o advento da caixa de fósforos. A seguir, inflamando um coração entediado aqui, outro acolá, a utilitária caixinha deu no que deu: transformou-se num dos clichês da época atual. Um fado que não vislumbro para o isqueiro descartável, por exemplo.
Longe de mim a pretensão de ser um experto em mitologia grega. Mas bem que a caixa de fósforos se parece com a caixa de Pandora. (Epimeteu, o primeiro homem, detinha uma caixa que encerrava todos os bens e todos os males. Até que Pandora, a primeira mulher, tomada por uma curiosidade que só vendo, em dia de bode-preto resolve abri-la. E espalha todos os bens e todos os males por esse mundo de meu Zeus. Mas, reza a lenda, que no fundo da caixa ficou a esperança.) Tudo muito encaixado, não é?! Se Jung baixasse neste parágrafo, com certeza ele exclamaria: "Mein Gott, onde eu estava que não descobri este arquétipo?!"
Atenta ao fenômeno, a sociedade psicanalítica "Freud é Amor" exaustivamente o tem estudado. A ponto de fissurar várias de sua melhores caixas cranianas. Todavia, valeu pela conclusão a que chegou: "O indivíduo que abandona o lar assim procede por se considerar, a si próprio, um palito riscado. Ou seja, um sujeito sem valor. Daí, como ponto de partida da viagem que o leva ao Xangri-lá, o recorrer a uma caixa de fósforos COM PALITOS NOVOS. Sem ela, pois, não há o rito de passagem. Mas é bom não esquecer as passagens de primeira."
Conferindo esses foros aos fósforos, a "Freud é Amor" ficou de novo prestigiosa. Pois: fim daquele demoroso revertério que se iniciara por ocasião do episódio Melanie Klein (revoltada com a bolinação, Melanie se apartara da "Freud é Amor" levando justamente o seio bom). Era a colenda sociedade outra vez se fazendo de depositária do fogo prometéico. Para, não sem razão, incendiar os canaviais da psicanálise. Findo o rescaldo, um crítico da "Freud é Amor" era um penitente. Um deles, inclusive, chegou a sugerir numa cápsula do tempo fosse colocado o memorável pronunciamento. Junto com os palitinhos utilizados na fase deliberativa.
Na cápsula do tempo, eu também colocaria a opinião de Antonomásio, um amigo. "O marido fujão é alguém que se acha a fim de perder a cabeça." Como os fósforos.

SOBRE TODAS AS COISAS

Antologia de prosa e poesia publicada em 1987 por CMC / SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Celina Pinheiro, Dalgimar Menezes, Emanuel Carvalho, Francisco Medeiros, Geraldo Bezerra, Hamilton Monteiro, Helvécio Feitosa, Icaro Meton, João Wilson, Luiz Alberto, Luiz Moura, Marigélbio Lucena e Paulo Gurgel.
Produção: Geraldo Bezerra, Luiz Moura e Paulo Gurgel.
Projeto Gráfico e Revisão: Geraldo Bezerra e Paulo Gurgel.
Composição: Jeferson Lima.
Diagramação, Montagem e Arte Final: Geraldo Bezerra e Manuel Martins.
Livro com 138 páginas.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

DIÁLOGO DE MALUQUETES Nº. 2

ELE - Tchau.
ELA - Tchau.
ELE - Bem que tentamos.
ELA - É. Tentamos.
ELE - Mas, com esta escassez de padrinhos que atravessamos...
ELA - E que ninguém sabe quando vai acabar...
ELE - Não íamos conseguir...
ELA - É. Não íamos conseguir mesmo.
ELE - Montar balcão de noivos ficou difícil.
ELA - Super difícil.
ELE - O casamento é hoje uma instituição agonizante.
ELA - Por isso...
ELE - Só as praças que fizemos: João Pessoa...
ELA - João Pessoa... Aquela senhora, lembra?
ELE - Ih! Aquela senhora que cheirava a patchuli...
ELA - A tal. Ela quase topou ser madrinha.
ELE - Quase. Pois você... hein?...
ELA - Que que houve?
ELE - Houve que a convidamos. Aí, sem mais aquela, você pediu da senhora patchuli um faqueiro de 96 peças. Que facada!
ELA - Padrinhos dão bons presentes.
ELE - Devagar com o talher. Ela não estava sendo convidada para ser fada-madrinha. Para madrinha, apenas.
ELA - Em Salvador, foi sua vez.
ELE - Minha vez? Minha vez, como?
ELA - O amigo que arranjou no "Solar do Unhão".
ELE - Padrinho por vocação. Fez o teste e saiu-se muito bem.
ELA - Muito bem, num teste vocacional "micha" que só... Houvesse ao menos reparado no coração dele.
ELE - Era safenado?
ELA - Era safado o homenzinho. E tinha um coração mais duro do que um ovo de piquenique.
ELE - Ah, diz sem fundamento.
ELA - Digo com. Nas noites de lua cheia, ele fazia sacrifícios humanos. Que acha de alguém assim?
ELE - Esqueça. Tínhamos o Rio de Janeiro pela frente.
ELA - Rio... Aquele par animadíssimo que conhecemos no... no...
ELE - No "Trocadero".
ELA - Pelas tantas, com eles já apalavrados para padrinhos, você foi, desconversou. Taí, fiquei sem entender.
ELE - Eram aficionados pelas culturas grega e francesa.
ELA - E daí?
ELE - Quase nos estrepamos.
ELA - Verdade? Estou sem maldar.
ELE - Cultura grega... cultura francesa... Era tudo gíria de swing, percebe agora?
ELA - Ah, sim. E o casal que conhecemos em Sampa?
ELE - Livro a cara da mulher, mas o homem era um pernóstico.
ELA - Tivemos uma noite agradável no "Terraço Itália".
ELE - Tivemos, isso sim, de suportar aquele monografista. Com Guerra do Ópio a noite toda... até nos dar sono.
ELA - Cultura também é cultura.
ELE - E as retificações dele?! Na hora do tin-tin...
ELA - Aliás, chin-chin.
ELE - Porque chin em chinês significava felicidade. O pedante...
ELA - Ainda acho que a sua antipatia por ele foi gratuita.
ELE - Gratuita? Eu paguei sozinho as despesas no piano-bar.
ELA - E se depois houvéssemos esticado a Floriano Lopes?
ELE - A Floriano Lopes, Santa Catarina, em busca dos espécimes?... Qual! A crise de padrinhos é nacional.
ELA - Então, com os proclamos já vencidos...
ELE - Desmarcamos o casamento.
ELA - E agora, José?
ELE - Agora é enfrentarmos o falatório...
ELA - O diz-que-diz...
ELE - Com uma só versão, concorda?
ELA - Em princípio.
ELE - Você é alérgico a cravo de lapela, eu, a flor de laranjareira. E, por isso, não nos casamos.
ELA - Boa.
ELE - Descobrimos estas idiossincrasias na lua-de-mel.
ELA - Peraí. Não vou admitir que houve lua-de-mel.
ELE - Mas é somente para o público interno.
ELA - Não.
ELE - E para meu ego, pelo menos?
ELA - Bem... Assim foi se assim lhe pareceu.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

AS LÉRIAS ESTÃO DE VOLTA

O SOL É A TESE, A LUA, A ANTÍTESE
E o eclipse é a síntese.
DILUIR, DILUIR
Quando não se consegue apagar.
"DISGUSTING"
Conforme a quantidade de discursos um banquete pode ser maçante ou... massacrante.
QUEM AMA A TODOS
Gasta uma fortuna em motel.
DA ARTE DE CORRER COM A SELA
Cogito, ergo "sumo".
DESPERDÍCIO
É o próprio exemplo do esperdício.
QUANDO O CÂNCER FOR CEM POR CENTO CURÁVEL
Que bela metáfora teremos perdido!
ANTE UMA MULHER DE (MUITAS) CURVAS
Não há homem reto.
O INDIVÍDUO NÃO SE SUBMETA AO COLETIVO
Especialmente se tiver dinheiro para o táxi.
QUE FAZEM AS NAÇÕES BELICOSAS DURANTE A GUERRA FRIA?
Esquentam os músculos, ora ora.
DEUS?
O céu é seu recado azul.
DEUS!
A autoridade máxima em "faça-você-mesmo".
O DIA DE NÃO SE LER JORNAL
Terça-feira. Sai com material de segunda.
ECOS DE 30
Carmen Miranda com seu turbante de natureza morta.
DESENROLA-SE
Uma eterna luta: entre o Bem e a Indiferença.
PIANISTA DE "SALOON"
Executa rápido. Senão é executado, idem.
"LA NAVE VÀ..."
(Mas antes) deitar carga ao mar é preciso.
NO TERRENO DA HIPÓTESE
Eu só acampo. Nele tudo é provisório.
POETANDO A "TREIS" POR SEIS
Ah, esse tempo nublado provocando indecisão nos girassóis!...
O ESCOCÊS, QUEM DIRIA...
Cria-se agarrado à saia do pai.
SOLTARIA MEUS DEMÔNIOS, SIM
Se tivesse a certeza de que eles bem se haveriam por aí.
E A GUERRA ACABOU
Podemos em paz matar os feridos.