segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

PONTO E VÍRGULA

Era uma vez uma Vírgula que vivia na página tal de um livro. Colocada entre duas orações coordenadas assindéticas, ela se julgava a mais infeliz das criaturas. E fazia da linha onde virgulava o seu muro das lamentações. Por algum tempo, pensou-se que o problema da Vírgula seria apenas inveja da Aspa (com a qual guardava certo parentesco). Pois a Vírgula tinha sido vista, em diversas ocasiões, a dizer coisas depreciadoras sobre a Aspa. Que esta, além de não botar os pés no chão, só servia para aspear gírias etc.
Pelas asperezas que eram endereçadas à outra, a invídia realmente acontecia. Porém, o que infelicitava a Vírgula era mais embaixo: um outro tipo de ressentimento. Uma paixão desmedida, cega e doentia pelo tal Ponto Parágrafo. Do tipo paixão não correspondida, uma vez que o Ponto nem sequer olhava para ela. Mas, espere aí... Pontuando a palavra "timidez", não padeceria ele de igual defeito?... Ah, a Vírgula se perguntava e não obtinha uma resposta convincente. O Ponto era um fechado em si mesmo.
Formavam-se rodas para discutir a situação da desolada Vírgula. O Travessão, como era do feitio, abria o diálogo:
- A Vírgula, hein? Vai de mal a pior... Precisamos ajudá-la nessas horas tão difíceis.
O Ponto de Interrogação:
- Concordo, mas como?
E o Acento Agudo (sempre respeitado pela agudeza das observações):
- Proponho uma assembléia geral extraordinária. Que decidirá o modus faciendi.
E reuniram-se todos sob a presidência do Til, a sua voz anasalada se fazendo ouvir por todo o miolo do livro:
- Companheiros, assim eu soube da pauta desta reunião designei para relator o Dois-Pontos. Ele que vai falar.
E o Dois-Pontos, um tipo pedante que tinha a mania de explicar o por acontecer, pôs-se a ler o relatório adrede preparado. No qual explicava, tintim por tintim, o que se passava. Da paixão da Vírgula à timidez do Ponto, sendo o xis da questão a falta de alguém que os aproximasse. "Assuma alguém a intermediação, senhor presidente, que a natureza fará o resto." Em seguida, o Asterisco, que era responsável por uma acreditada nota de rodapé, aproveitou para lembrar que "ninguém estava ali num livro de auto-ajuda. Mesmo assim, senhor presidente, sou a favor de que se indique alguém - nesta prosopopéia - para a ação proposta pelo relator."
- Eu...
Era a Reticência se apresentando para a nobre missão. Ora, como estafeta do amor a Reticência não emplacaria nunca, nunquinha. Podia-se apostar que continuaria tudo como dantes, quer dizer, nas entrelinhas... E foi prevendo isso que o atilado presidente da assembléia retomou a palavra:
- Estou pensando na Crase. Ela já tem experiência em estabelecer uniões.
Nisso, o Parêntese levantou uma questão de ordem. "Seria a Crase que une a preposição 'a' ao artigo definido 'a'? Ou, então, a que une a mesma preposição aos pronomes demonstrativos 'aquele', 'aquilo'? Eu pergunto, senhor presidente, porque... blá...blá...blá..."
E o Parêntese prosseguiu na digressão. Blá...blá...blá... Uma digressão tão comprida, tão infinda que fez a Barra dormir a sono solto, paralisando o serviço de taquigrafia da assembléia. Aí, diante da maçada, o Til encerrou a reunião (embora marcasse outra para as calendas gregas).
Entrementes que a assembléia malogrou, um sinal (que não se fizera presente na reunião) tomou para si resolver o falado problema. Ele já tinha uma larga folha de serviços prestados ligando palavras compostas, pronomes átonos a verbos, e, portanto, ser-lhe-ia também fácil promover a união do Ponto com a Vírgula. O leitor já percebeu que eu falei do Hífen, vulgo Traço-de-União. Sem muito nhenhenhém, o alcoviteiro do Hífen fez o trabalho completo. Não esquecendo nem mesmo de chamar o Acento Circunflexo para juiz de paz.
Casaram-se os sinais. E, na situação de marido e mulher, tomaram o nome de Ponto-e-Vírgula (olha o Hífen aí no ménage à trois!). Contudo, a felicidade deles não foi para sempre. Um revisor mau e cruel, os olhos de basilisco, surpreendeu-os em pleno ninho de amor - uma pausa prosódica inadequada! E, não sabendo patavina do acontecido, desfez a parelha antes que rodasse a edição seguinte.

2 comentários:

Janice Adja disse...

Com a nova gramática o hífen em alguns casos conseguiu união estável com o amor mais sólido ainda?
beijos!

Paulo Gurgel disse...

Transcrevo um comentário de Antonio Pereira no diHITT:
"E reuniram-se todos sob a presidência do Til, a sua voz anasalada". Inconfundível, o til. Mas, na sua magnífica história, a minha personagem preferida é, sem margem para dúvidas, o alcoviteiro hífen!
Parabéns pelo texto. A criatividade seduz-me sempre