quarta-feira, 19 de junho de 2013

VOCÊ SABIA

... que existe no Brasil um clube de xenófobos com ramificação no exterior?
... que o filme "Lotação Esgotada" foi o maior fracasso de bilheteria de todos os tempos?
... que a Iluminação pode ser mais facilmente alcançada com uma dieta que inclua pirilampos?
... que os milagres escassearam porque fomos ficando mais exigentes?
... que o Universo tende a um estado de morte térmica, a começar pela fria salamandra?
... que o Corcunda de Notre Dame dava aulas em um curso de correção postural?
... que não vimos a última passagem do cometa de Halley porque ainda estávamos ofuscados com a do Kohoutec?
... que São Nunca, ao contrário do que o nome possa sugerir, teve uma canonização ultra-rápida?
... que um miniaturista japonês, usando um pincel ultrafino, pintou a Via Látea num átomo de hidrogênio?
... que o martelo agalopado já tem machucado o dedo de muito repentista metido a besta?
... que o salário mínimo é também chamado de "só?", qualquer que seja o seu valor nominal?
... que ninguém foi em vida tão singular quanto o poeta Vinício de Moral?
... que aquele que se deixa subornar é sempre digno de nota?
... que o espermograma é cheio de detalhes mas não diz do prazer havido?
... que esta não é a primeira vez (nem será a última) que alguém tira proveito da série "Você sabia'?

quarta-feira, 12 de junho de 2013

PAISAGEM MARINHA À MÁQUINA DE ESCREVER

♪UM PEQUENINO GRÃO DE AREIA
OLHANDO O CÉU VIU UMA ESTRELA♪
PAULO GURGEL

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A SÍNDROME DE ESTOCOLMO

Segundo a lenda, os fundadores de Roma, provenientes de Troia, após convidar os sabinos a um banquete, sequestraram as mais belas mulheres sabinas para povoar a nova cidade. Para recuperar as mulheres, o rei sabino declarou guerra a Roma; porém, as mulheres preferiram ficar com os seus esposos e filhos. Diante disso, os sabinos desistiram de pelejar com os romanos.
A lenda ilustra como o crime de sequestro é coisa antiga. É do tempo em que a cobra fumava de verdade.
Em tempos recentes, Paul Getty, um rapaz de vida desregrada, foi vítima desse crime. Não dando ouvidos ao avô, um dia viu-se obrigado a mandar uma orelha inteira ao unha-de-fome. Através do "Sequex".
Como é o tal "modus sequestrandi"?
Primeiro, formam uma quadrilha (com uma clara divisão das tarefas). Escolhem a futura vítima. Estudam seus hábitos. Ela faz uso contínuo de algum medicamento de alto custo? O diabo e o sucesso de uma operação estão nos pequenos detalhes.
Montam o plano. Onde será a abordagem da vítima? Alugam - por temporada - o imóvel que servirá de cárcere privado.
Depois, vão às compras: capuz, cordas, mordaça, colchonete e uma fita-cassete com ruídos ambientais para confundir a polícia.
Dois meliantes, aos quais chamarei de X e Y para que a quadrilha não se sinta ameaçada, fizeram um sequestro. Com a vítima em boas mãos, ligaram para os familiares dela e informaram as condições de resgate.
O valor era exagerado, 20 milhões, e o o interlocutor se mostrou espantado:
- Vinte milhões?! Eu não tenho esse dinheiro todo, a menos que eu também sequestre alguém!
- Ah, somos colegas! Nesse caso, damos-lhe um desconto.
- De quanto?
- Dez milhões.
- Aceitam fichas telefônicas?
Um comentário sobre a polícia: é uma estraga-prazeres. Tem que ficar de fora em todas as etapas do sequestro. Cartesiano, meu caro Watson. Se a polícia conhece X e conhece Y encontra no gráfico a localização do cativeiro.
O sequestro pode ser relâmpago ou às escuras. Na segunda categoria está o de sogra (cujo sequestro até chega a comemorar aniversário).
A vítima para cá, o dinheiro para lá. O negócio só é bom quando é bom para um lado e melhor para o outro. Como aconteceu com a Bela e a Fera.
Por fim, e como é de praxe, a história termina com o sequestrado dando uma entrevista coletiva para falar bem dos sequestradores. Chamam isso de síndrome de Estocolmo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

NÃO CONFUNDA

Capitão de fragata com... cafetão de gravata.
Ave Maria cheia de graça com... alvenaria cheia de massa.
Carolina de Sá Leitão com... caçarolinha de assar leitão.
Quintino Reis da Costa com... quinhentos réis da bosta, como fez o presidente de uma seção eleitoral ao  tempo da República Velha (RS).
A grande obra de mestre Picasso com... a grande pica do mestre de obras.
Espírito de corpo com... espírito de porco.
Patrimônio com... matrimônio (o primeiro pode aumentar ou diminuir com o segundo).
Perestroika com... espera estoica.
Cheio de vida com... cheio da vida (uma letra é tudo) .
Bem comum com... bem com... um (um espaço é tudo).
Capaz com... capaz de tudo.
Baixa combustão com...  (mulher) baixa com... bustão.
Estar com Maria José no colo com... estar no colo de José Maria.
Rambo com... Rimbaud.
Selassié com... Sei lá se é (nome de um bloco de carnaval).
Quatro Ases e Um Coringa com... quatro com asma e um com íngua; Jane e Erondi com... Jânio e Erundina; Lennon e McCartney com... Lênin e McCarthy.
Tocando B. B. King sem parar (conforme uma canção) com... trocando de biquini sem parar
Paulo Gurgel com... Paulo Coelho.

sábado, 18 de maio de 2013

SOBRE ENQUETES

Sr. Redator:
Sou um admirador desse jornal cuja leitura eu faço, rotineiramente, do seguinte modo: a primeira página, nas bancas de revista; as demais, depois de desembrulhar a carne trazida do açougue ou, no local de trabalho, por cortesia do faxineiro que faz a limpeza das vidraças. Só uma coisa eu não leio: o horóscopo - o que, talvez, seja uma tola superstição minha.
Pois bom, leitor assíduo (já disse!), se eu volto hoje a frequentar essa mesa de redação, é porque acordei com algumas reflexões no bolso do pijama. Primeira: uma "bola branca" à Seção de Cartas que vem jogando um bolão, deixando a gente cabecear livremente. Segunda: uma bomba de encher (fuque-fuque) "bola branca" que, dessimbolizada, nada mais é do que uma sugestão.
Explico: vão ao encontro do povão. procurem saber o que pensa o homem comum a respeito de situações do quotidiano. Sigam, portanto, o exemplo das sisudas revistas especializadas em rádio e televisão. Façam enquetes.
Algumas eu já bolei, com a certeza de que serão aí aproveitadas, para maior glória (contar com a Márcia Gurgel não é tudo!) desse órgão de imprensa.
1 - Qual é o melhor local para morar?
a) Na Cidade dos Funcionários, uma metástase da Aldeota segundo a especulação imobiliária .
b) Na Vila Romero, dividindo a casa com o riacho Pajeú.
c) Nos fundos da Siqueira Gurgel.
2 - Que veículo prefere?
a) O carro chapa branca.
b) Um daqueles que você viu em exposição na Semana de Prevenção aos Acidentes de Trânsito.
c) O pedalinho da Lagoa do Opaia.
3 - Qual é a "Obra do Século"?
a) A rede de esgotos de Fortaleza pela forma irrepreensível como foi tocada.
b) Idem, trocando o continente pelo conteúdo.
c) O Monumento ao Interceptor Oceânico na Beira-Mar.
4 - O que dá mais status?
a) Ser sócio-proprietário do Santa Esmeralda.
b) Passear de carro com o Leudinho.
c) Receber uma comenda de fariseu.
5 - (Só para mulheres.) Com quem você gostaria de ter um filho?
a) Com o Clodovil.
b) Com a porção-homem do Gil.
c) Com o editor-chefe da revista Lampião.
6 - (Só para homens.) Com quem você gostaria de ter um filho?
a) Com a Araci de Almeida.
b) Com a porção-mulher da Bethânia.
c) Com a secretária do editor-chefe da revista lampião.
7 - Qual é o "Acontecimento do Ano" em 1980?
a) O beijo-coristina do J. Moura no Frank Sinatra.
b) O beijo-fadigerol do J. Moura no Papa.
c) O beijo-glucoenergan do J. Moura no Zico.
8 - Qual é a sua diversão preferida?
a) Tomar uma geladinha no Anísio, desinteressado dos pivetes que estão interessados em você. (Por falar nisso, onde anda a sua bolsa capanga?)
b) Assistir ao Canal 2.
c) Praia. Colecionar hematomas do frescobol.
9 - Que objeto você levaria a uma ilha deserta?
a) Um talão do Estacionamento Azul.
b) Um apito de juiz de futebol.
c) O livro em branco do Carneiro Portela.
10 - Qual deve ser a duração ideal de um mandato de vereador?
a) Quatro anos legítimos + Dois anos biônicos.
b) Quatro anos legítimos + Quatro anos biônicos.
c) Quatro anos legítimos + Seis anos biônicos.
Fortaleza, 16 de outubro de 1980

sábado, 4 de maio de 2013

EM CARTAZ - III

O MÁGICO E A SECRETÁRIA
Grã-Bretanha, 2003. Jenny, uma moça de 18 anos, vive feliz em Londres. Divide o seu tempo entre os estudos de taxidermia e o emprego de secretária de um mágico. Nesta segunda atividade, ela é cortada ao meio pelo mágico todas as noites. Às sextas-feiras, em dobro. Numa noite de sábado, Jenny não aparece para a função. E o seu corpo bipartido é encontrado pela polícia, sob um olmo do Hyde Park. O mágico não aparece sequer para a missa negra de corpo presente. É sobre ele que recaem as suspeitas iniciais de haver cometido o crime. Mas, ao ser detido, ele apresenta um álibi irrefutável. Na provável hora do crime, estava a jogar paciência numa casa abandonada. Sem provas contra ele, a polícia aceita a hipótese de que Jenny se partira espontaneamente, em um sulco preexistente, quando dançava salsa numa boate. E prende o indiano que acompanhou a moça na boate, sob acusação de exibição de cadáver. Escrito para a televisão a cabo, o filme é interrompido para a inserção de comerciais de morgues e cemitérios.
O NOME DA PROSA
Produção ítalo-germânica de 1995. Numa época indefinida, em um país indeterminado, uma lei é editada para proteger a sociedade dos crimes de lesa-cultura. Por essa lei, todos são proibidos de ler qualquer coisa. Os livros são queimados em praças públicas, as revistas e os jornais, nos terrenos baldios. Traças e cupins conhecem o seu lugar. Montag, um graduado funcionário do governo, é o agente que comanda a repressão. Numa viagem de trem, ele conhece Clarisse. A sonhadora jovem que logo lhe desperta o gosto pela leitura dos prefácios. E Montag, com a coleção completa de Paulo Coelho na mochila, foge com ela para a Floresta Negra, onde conhecem um grupo de bibliófilos. O grupo se dedica a preservar as obras-primas da literatura universal e, de modo todo especial, o Livro Negro da Neusinha Brizola. O filme é baseado no livro "Gostei Mais do Filme" e foi dirigido pelo mesmo diretor do fracassado "Campeão de Bilheteria".
MORRIS
Norte-americano, 1988. Morris é um policial taciturno que se distrai mantendo um ritmo de trabalho diuturno. Ao seguir os passos de um homem-tronco, que o conduz involuntariamente até uma pista de skate, ele descobre e põe no camburão toda a quadrilha de Duran. Uma quadrilha especializada em roubar pirulitos das crianças com o objetivo superior de subornar o tenente Kojak. Promovido em risco no trabalho, Morris é designado para se infiltrar em outra quadrilha, chefiada por Kerouac. Casualmente, os dois se encontram em um bar fora da jurisdição, mas nenhum tem a coragem de pagar a conta do outro. Numa cena considerada antológica, ele e Kerouac tocam piano a três mãos em um concerto beneficente do Exército da Salvação. Apesar de maneta, Kerouac é rápido, e foge com a renda do espetáculo. Na perseguição do facínora, Morris demole o esqueleto de um dinossauro do Museu de História Natural. A crítica considerou insossa a cena final em que eles duelam numa salina desativada. Morrem apenas os padrinhos.
EM CARTAZ - I
EM CARTAZ - II

sábado, 27 de abril de 2013

ELVIRA PAGÃ

A deusa que veio nos redimir os pecados,
Pecando - salvação única! - com ela,
Ninfa de fontes imemoriais.
Com olhos de rãs, espiamos:
(Suas roliças coxas explodirão as ligas?).
Podemos saltar para o tablado. Momento qualquer.
Um gesto ambíguo, um grito lascivo, um reflexo no ventre,
Tudo pode ser a senha para a invasão dos desejos.
Seu rebolado alucinante: não paralisá-lo,
Apenas retê-lo, senti-lo
Qual onda vibratória enfim captada
Em nossas frequências.

sábado, 20 de abril de 2013

ABI-LOL

Fazer uma boa reportagem nem sempre é fácil. Por isso é que existem tantas “reporcagens” por aí.
Saí a campo a ver se garimpava uma entrevista com o Abi-Lol. Sabem como ele anda? Depois que lhe atiraram uma pedra, ficou meio cabreiro, achando que isso lhe minou a reputação.
Não sei exatamente quem atirou aquela pedra . A primeira, e as outras que se seguiriam...
Mas, se até as pedras se encontram, por que eu não iria encontrá-lo? Localizei, sim, o bruto. Numa ocasião em que três repórteres já o assediavam, sendo eu o quartzo. Aliás, não sou repórter de verdade.
No princípio, Abi-Lol se mostrou muito exaltado, com quatro pedras na mão e falando que estava tirando leite das pedras. Na certa, uma referência às agruras de ser ministro. Não era preciso exibir um certificado de garantia.
Foi desabafando:
"Olha, ser ministro é passar por um teste de dureza. Figueiredo puxa muito pela turma..."
Ao dizer "turma..." tive a impressão de que o ministro interrompeu a palavra. Talvez quisesse dizer turmalina...
O Abi-Lol, apesar da ascendência turca e de ser casado com uma turquesa, é um brasileiro da gema. Tão brasileiro quanto o Sr. H. Stern.
O fato é que, após lapidadas as arestas, rolou um clima cordial entre nós. Que fez a entrevista fluir por entre os cascalhos.
Pelas tantas, o ministro chegou a cantarolar uma música do Luiz Antônio. Um samba-canção que fala em “joia preciosa, cada um deseja e quer”. Não é do tempo de vocês.
Ao final, trocamos tapinhas nas costas e tapões no rosto.
Prometi que iria pôr uma pedra sobre o assunto. Prometi, mas não cumpri. Dei o seixo.
Trinta anos depois, estou aqui revelando o making-of do nosso encontro. E, mesmo que eu publique a entrevista inteira, não vai ser por conta disso que eu vou deixar de dormir feito uma pedra.

sábado, 13 de abril de 2013

O BRASIL ALTER

A lamentar nunca haver existido o Brasil paralelo. Explico. O Brasil paralelo seria o Brasil de cada alternativa que foi descartada, por decisões históricas ou não.
Imagine o patrício que o Brasil está em um caminho que se bifurca. Naquele instante, ele toma o caminho da direita e... lá vamos nós, como tropeiros das ilusões perdidas, até darmos com os burros n'água. Aí, diante de uma realidade apenas quebrada na frieza, cabe-nos perguntar o seguinte:
Que teria acontecido se o Brasil tivesse tomado o caminho da esquerda? Isto lá seria com o Brasil alternativo, o Brasil Alter. O Brasil que, supostamente, estaria na África porque Pedro Álvares não teria embarcado naquela conversa fiada das calmarias.
Tivemos o "Dia do Fico", sem pesarmos as vantagens do "Dia do Vou Embora ". No Brasil Alter, Dom Pedro I teria ido embora para Portugal porque lá era amigo do rei. Aliás, lá seria o próprio rei.
Na II Guerra Mundial, não optamos por lutar ao lado da Alemanha. O Brasil perderia a guerra, é verdade. Mas, hoje, ombrearíamos em progresso com as nações do Eixo.
Na Copa de 50, para dar outro exemplo. O Brasil vivia o clima do "já ganhou", só esperando a hora de levantar o caneco, ouvir o Hino Nacional e pôr as faixas de monocampeão. Perder o título naquela altura do campeonato era algo impensável. Mas aí apareceu Gighia: Uruguai 2, Brasil 1. No Brasil Alter conquistaríamos o título com o placar de 1 a 0. Com o jogo interrompido aos 24 minutos do segundo tempo devido a um foguete soltado pela avó da Rosenery.
(Por uns míseros cruzeiros, a fogueteira de 1950 depois posaria de maiô Catalina para a revista "Cruzeiro".)
Em 1985, o colégio eleitoral não elegeria o Tancredo. E as bactérias do Hospital de Base, que estavam a fim de um sangue presidencial, teriam de se contentar com o Maluf. Meno male.
Nas grandes decisões tomadas, principalmente quando elas nos levaram à beira de um precipício, faltou simplesmente o Brasil Alter. O país onde nos refugiaríamos em busca de uma sorte melhor.

sábado, 6 de abril de 2013

A CLASSIFICAÇÃO TERNÁRIA DO MUNDO

Três dimensões tem a vida, segundo o Conde Korzybski. Em sua obra "The Manhood of Humanity" (A Idade Viril da Humanidade), Korzybshi cita-as: comprimento, largura e profundidade. A primeira dimensão corresponde à vida vegetal. A segunda, à vida animal. E a terceira dimensão é a que pertence à vida humana.
A vida dos vegetais é uma vida em longitude. A vida dos animais é uma vida em latitude. E a vida dos homens é uma vida em profundidade.
Aqui, para destrinchar o palavrório de Korzybski, ocorre-nos aclarar as três ordens do mundo orgânico - planta / animal / homem - por intermédio das propriedades do espaço: comprimento / largura / profundidade (a última no sentido metafórico de tempo).
Assim, a vitalidade vegetal se define em sua fome de sol. A vitalidade animal, em seu apetite por espaço.
E, sobre essas duas existências, a estática (vegetal) e a errática (animal), a existência humana proclama sua originalidade superior. Mas... em que consiste a suprema originalidade do homem? Consiste em que ele, vizinho do vegetal que armazena energia e do animal que disputa espaço, vivencia o tempo.
É preciso, pois, enfatizar essa terceira dimensão que caracteriza a vida humana. Aprofundá-la. Que o homem volte a capitalizar séculos em vez de capitalizar léguas. Que a vida humana seja mais intensa do que extensa. Amém.
É o que se depreende da classificação ternária do mundo que o Conde nos legou.


sábado, 30 de março de 2013

O PARTIDO HUMORISTA - 2

A Sra. Prefeita da Administração Popular preenche todos os requisitos para conduzir os humoristas daqui, quiçá do Brasil, ao Canaã. A terra prometida que faz cócegas em nossos pés, até rirmos a mais não poder.
Depois de transformar a loura desposada do sol, no dizer de Paula Ney, em sarará amigada do sol, a alcaidessa acha que merece mais. A Presidência da República, mas, benza Deus, que tal não aconteça.
Três anos após a refrega eleitoral, ela ainda não desceu do palanque. Sendo a Administração Popular, com honrosas exceções (Mamede, Vital), uma grande piada. As honrosas exceções, aliás, preferiram sair da canoa. A terem de compactuar com os projetos políticos da Sra. Prefeita e de seus apaniguados.
Como é próprio dos messiânicos, ela usa métodos próprios da categoria. Em vez da racionalidade administrativa, recorre a exorcismos. O Executivo Estadual é o seu demônio preferido.
Sobre o recente jejum da alcaidessa, tão bem divulgado pela mídia: marketing político? Ou a Sra. Prefeita, que já tem alguns gurus, apegou-se com mais um? Chamado fome, que não é propriamente um bom conselheiro.
Em se falando de jejum, eu sou mais o aiatolá Khomeini, que não faz uma mera pausa estomacal. Octogenário, minado por doenças cronico-degenerativas, ele jejua de sol a sol no mês do Ramadã. Ali, na ortodoxia, não deglutindo nem a própria saliva durante o jejum. Que dirá a saliva que beijos molhados possam instilar? E repare, prezado senhor, que Khomeini é ímã mas não é de ferro. Não há mãos solícitas que lhe ofereçam uma aguinha de coco, por exemplo.
Sim, houve essa possibilidade...
Quanto a esse fruto, saiba o senhor quão nutritivo ele é. Além da água, sais, vitaminas, glicídios, aminoácidos... Isso sem falar sobre a "lama" do coco, um autêntico bife vegetal. Se eu tivesse de levar alguma coisa para uma ilha deserta, levaria o "Cem Receitas com o Coco" (cuja edição infelizmente está esgotada). Nada mais útil do que esse livro para quem quer sobreviver até que aconteça o resgate. Mas, cá entre nós, eu não aceitaria o salvamento se for para me deixar em Fortaleza. Pelo menos enquanto dure a tal Administração Popular.
Finalizando o tema do Partido Humorista. Para auxiliar em sua divulgação, eu sugiro escolherem um animal que represente o partido. Por que não a hiena? Ela vive rindo e faz sexo duas vezes por ano, o que é uma esperança de que o país seja menos estuprado.

sábado, 23 de março de 2013

O PARTIDO HUMORISTA

Existem no país cerca de quarenta partidos políticos que vão disputar, urna a urna, os votos dos brasileiros. Ainda este ano, se as regras não mudarem. Há partidos para todos os gostos e qualificações. Para quem é jovem, ecologista, social-democrata, comunista, trabalhador, liberal, municipalista... E até para quem é saudosista, se levarmos em consideração que algumas siglas da Velha República estão a ressuscitar por aí.
No entanto, nem com essa super-abundância de partidos dá-se por encerrada a questão. Principalmente, quando se observa que não passa de um reles discurso a identificação do político com o seu partido. Como se o cenário político estivesse lacunoso de partidos que sejam adequados à práxis, advindo disso algumas consequências. Por exemplo, essa dificuldade que o Dr. Ulysses vem tendo para pôr em plenário os seus pupilos. Inclusive para votar a nova Carta Magna do país.
Nessas horas, onde o senhor pensa que andam os deputados e os senadores? Não se espante. Eles fazem animadas rodas na cantina do Congresso, no divertido passatempo de contar piadas uns para os outros. E quem botar sentido, logo ouvirá um que diz: "Tem aquela do brasileiro..." Sobre as ausências notadas nas rodas, ah, essas estão bem justificadas! Correspondem àqueles que ainda estão sob os lençóis, porque passaram a noite em festas de embaixadas contando anedotas de brasileiro.
Apesar do costume, acho que o político brasileiro não deveria ter essa dupla militância. Esposar um partido oficial e... passar as suas mais felizes horas com o que parece outro partido. O Partido Humorista, chamemo-lo assim. Eu não falo apenas das risíveis horas em que contam e ouvem piadas, mas também de seus atos como animais aristotélicos. Pois, no tocante a isso, direitistas, centristas e esquerdistas, todos se igualam.
Lembra-se da práxis? Pois é, só o Partido Humorista atende as exigências dessa madame.
Agora, se o Partido Humorista pretende ser grande, então começo a me preocupar com o futuro dele nas terras alencarinas. Ficará raquítico, enfezado (o que não convém a seu propósito), se aqui já não for grande de berço. Para isso, o partido precisa da filiação de pelo menos uma figura de projeção, já. E quando analiso o desempenho de nossos próceres, há um que logo me toma a atenção: a Sra. Prefeita da Administração Popular.

sábado, 16 de março de 2013

O RELÓGIO SAPECA

O relógio tinha o aspecto de um cachorrinho sapeca com as feições humanizadas. O cabelo de franjinha (lembro-me deste detalhe) e de como ele, com muita graça, empunhava um ramalhete de flores amarelas. Em contraste com a cor de fundo do objeto, entre o verde e o azul.
Na verdade, o cachorrinho descrito era a "capa" sob a qual se ocultava o mostrador do relógio.
Levantada aquela "capa", via-se a hora pelo sistema digital e, ao mesmo tempo, ouvia-se uma música. Uma musiquinha fina, metálica e de poucos compassos. Não duraria muito sem o "da capo" programado para fazer repetir a melodia.
O relógio não tinha um "made in" para indicar onde fora fabricado. Puerto Stroessner? Seria um bom palpite. Avaliado na "feira dos relógios" da Praça do Ferreira, seria classificado como roscofe (termo pejorativo para rotular um relógio de má qualidade).
Como nada é eterno, principalmente nas mãos de um guri, em pouco tempo o relógio ficou defeituoso, com as horas se sucedendo caoticamente. Pior: o conjunto já não se mantinha fechado, o que fazia a música ficar tocando ad infinitum.
Então, dei um jeito de amarrar a capa no corpo do relógio. Para isso, usei a pulseira (de quatro cores, esqueci de descrevê-la) do próprio relógio e o condenei ao esquecimento de uma gaveta. Tentei, pelo menos. Mas, vez por outra, quando eu abria a gaveta, o sacolejo afrouxava a pulseira e o relógio voltava a tocar a impertinente música.
Passei-lhe uma fita durex, porém esta logo cedeu.
Aquele relógio, de poucos cruzados, não tinha mesmo um grande valor. Mas não me agradava deixá-lo tocando e tocando até acabar a pilha. Talvez porque fosse uma crueldade deixá-lo esvaindo-se em música.
Nós, intelectuais e pseudos, somos pessoas sensíveis. Cada nota desperdiçada é uma gota de sangue derramada pelo relógio, pensamos assim. Vislumbrando para ele o mesmo destino dos relógios "derretidos" do Salvador Dalí.
Qualquer crime contra o tempo, ou contra um de seus agentes, é um crime hediondo.

sábado, 9 de março de 2013

PIRAJÁ

O mundo dos insetos fascinava Pirajá, ninguém sabia desde quando. Uns arriscavam que o começo de tudo tinha sido na fazenda Mangagá, a herdade de um tio-avô já meio gagá de Pirajá. Menino malino, ele costumava botar mel de cana nos apiários com o objetivo de antecipar a aposentadoria das abelhas. Isso quando não estava consertando a embreagem dos sapos para que estes não andassem aos trancos.
Passado pelas mãos transformistas de Pirajá, um bufonídeo era outro. Ganhava andadura suave, mas inseto que é bom não pegava mais.
Vê-se aqui a solércia de Pirajá: os sapos viam-se obrigados a ir para o brejo.
Mesmo na fazenda, o menino traçava (epa!) livros a mão cheia. Sobre insetos. E aprendia quão úteis eram eles (os insetos). Às vezes, maravilhado, interrompia a leitura para perguntar, em voz alta, a um interlocutor imaginário: "Quem poliniza as flores, assegurando a formação dos frutos? Quem dá o mel, a laca, o carmim, a seda? Quem, hein?". Interlocutor imaginário, pois ali, no quarto, só estava ele. Ele e, perdão, as baratinhas da cômoda.
Uma vez, o rapazote Pirajá se viu no centro de uma discussão. Estava no barbeiro, quando o fígaro fez um comentário desabonador sobre os barbeiros. Pirajá não concordou. E travaram uma áspera discussão à base de "os barbeiros são uma praga, não fale mal de seus colegas, eu estou falando do barbeiro inseto, inseto é a mãe". Como Pirajá venceu: Colocou o profissional na cadeira e, com "o último argumento dos reis", raspou a barba do barbeiro que, por sinal, era imberbe. Com a navalha e o queixo do rival na mão, também pudera!
Homem feito, Pirajá abraçou a entomologia. Acertou na mosca, vale dizer, em matéria de seguir o seu desatino. Mas, como formiga que corta folha longe de casa, Pirajá resolveu palmilhar o continente africano, onde, por oito longos anos, observou atentamente as termiteiras gigantes. Daí o apoucamento do juízo e a moléstia a ser descrita no parágrafo seguinte.
Dos tempos d'África, além das meninges assadas pelo sol do Kalahari, Pirajá ganhou uma insônia crônica. Consequência de picadas da mosca est-est. Ora, ser distinguido pelo ferrão dessa mosca, como se sabe, é ficar incapaz de pregar os olhos, mesmo apelando para o colírio de Dienpax.
Aí, para enfrentar a barra das noites mal-dormidas, Pirajá dava solitários passeios, equipado de uma lanterna, à maneira de Diógenes. "Procuro uma mariposa", dizia ele a quem o inquirisse. Em vão procurava. Mariposa quer é distância de Insetilux, a lâmpada que fulmina os insetos. Mas... quem não comete seus equívocos?
Como são belas as nuvens de... gafanhotos, Pirajá pensava assim. Mas eram um espetáculo raro. Como também era raro aparecer um circo de pulgas na cidade. (Devem estar percebendo que eu estou a falar de Pirajá no item entretenimentos.) Então, sucedia a pressão de Joaninha, sua namorada, para que fossem a um cineminha pulgueiro.
Um dia, partiu para uma expedição em busca da centopeia centro-europeia. Se a encontrou ninguém sabe, porém todos sabem que ele não foi mais encontrado. E uma efeméride assinala esse fato.
Esta foi a vida, paixão e morte de Pirajá. Para sempre seja louva-deus.

sábado, 2 de março de 2013

MAME E NÃO DÊ VEXAME

"Está bem, somos animais mamíferos. Mas acho que o homem é um pouquinho mais do que a mulher." -  Millôr Fernandes.
Mamar é sugar o leite do seio materno ou das tetas de uma fêmea de animal, conceituou Houaiss, o Enciclopédico. Purismos à parte, no verbete "mamar" Houaiss usou a palavra seio, no lugar da palavra mama, conscientemente sabendo que o seio é a região anatômica que fica entre as mamas, isto é, o vão que existe entre elas.
Mamas são as glândulas que a natureza fez surgir na mulher em função da criança. Embora se diga que, à maneira do autorama, quem brinca com elas é o pai.
Com o verbo mamar, o povo tem criado locuções curiosas. Se o ato de mamar é feito na fêmea do cavalo, diz-se que o indivíduo é um "mama-na-égua", ou seja, é palerma, toleirão; se, diferentemente, é um "mama-na-onça", é intrépido, corajoso. "Mama-na-onça", conforme o entendimento popular, é também o indivíduo casado com mulher feia, o que, aliás, dá no mesmo. E há o "fora os anos que mamou", que o povo alterna com o "fora os anos que andou de bicicleta", para dizer que alguém tem mais tempo de vida do que apregoa.
Mamar é também gíria para fumar e beber. Significando fumar - com delícia - a gente encontra em Silva Barros, quando diz: "... continuou sentado, 'mamando' um charutão". E, como sinônimo de tomar bebedeiras, embriagar-se há uma maior fartura de exemplos. Luiz Peixoto, letrista de Ary Barroso, deixou-nos, entre as páginas antológicas do cancioneiro popular, duas amostras do emprego do verbo mamar com esta acepção. Em "Camisa amarela": "o meu pedaço na avenida estava bem 'mamado' / bem chumbado, atravessado". E, em "Na batucada da vida", esta passagem: "depois do meu batismo de fumaça / 'mamei' um litro e meia de cachaça / bem puxada".
Mamar, além de beber, é desinibir-se. Nestor Holanda, em "Telhado de vidro", assim exemplificou: "Então, Manuel Alves Pinheiro foi ao boteco da esquina e tomou algumas calibrinas. Em outras palavras: mamou coragem."
Mamo coragem, também. Ano passado, um ministro da área econômica vituperou que o empresário brasileiro só pensa em "mamar nas tetas da nação". E considerou-se acima de qualquer suspeita por ter nome de peixe (perdão, leitores, ele tem nome de um animal pisciforme. porém mamífero).
Uma vaca que pasta no céu e é ordenhada na terra é a velhíssima ideia que se tem do Brasil. D. João IV, o Restaurador, dizia que éramos a "vaca de leite" da Monarquia. Em tempos atuais, Brizola, afrontando um desafeto político, lançou-lhe a anátema de que "não mamou... mas segurou a vaca para que os outros mamassem".
Por qualquer prisma que se olhe o país, a gente só vê mamadores.De um lado, são os "leitessugas" da casta da especulação, do conchavo e da mamata (como cabe aqui esta palavra!). Do outro, são os enjeitados da sorte que mamam... no dedo, ora bolas.
A propósito, bezerro enjeitado escolhe teta?
(texto da década de 1980, concluído recentemente)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

CHICO E O ELEPÊ "VIDA"

MÚSICA
Para os cultores da boa música popular brasileira um acontecimento sempre esperado é o lançamento do disco anual de Chico Buarque. Trazendo o título de "Vida", nome também de uma das faixas, o seu último elepê, produzido pela Polygram (os vindouros deverão ser editados pela Ariola, com a qual Chico acaba de assinar contrato), já se encontra nas lojas e departamentos de discos.
Doze canções compõem o disco: "Vida" (inédita), "Mar e Lua" (gravada também por Simone), "Deixe a Menina (inédita), "Já `Passou" (inédita), "Bastidores" (gravada também por Cauby e Cristina, separadamente), "Qualquer Canção" (inédita), "Fantasia" (já gravada pelo conjunto MPB-4), "Eu te Amo" (inédita), "De Todas as Maneiras" (já gravada por Maria Bethânia), "Morena da Angola" (recentemente gravada por Clara Nunes), "Bye Bye, Brasil" (gravação anterior do próprio Chico em compacto) e "Não Sonho Mais" (sucesso recente na voz de Elba Ramalho).
Nestes registros fonográficos Chico esbanja cérebro e coração. É o letrista (desenvolto) de todas as faixas e também o musicista (inspirado) de quase todas; quase, porque ocorrem parcerias em "Eu te Amo" (com Tom Jobim) e "Bye bye, Brasil" (com Roberto Menescal).
Meus comentários sobre cada uma delas:
"Vida" - Da peça "Geni". Mostra o autor a se posicionar no plano existencial. No início, uma dúvida ("quem sabe eu fui feliz") que, entretanto, evolui até transmudar-se em certeza ("eu sei que fui feliz"). Um instante de comoção poética: "luz, quero luz / sei que além das cortinas / são palcos azuis".
"Mar e Lua" - Também da peça "Geni". Fala de um amor proibido entre duas mulheres em uma cidade distante do mar, que "levantavam as saias e se enluaravam de felicidade". Marcadas pela incompreensão humana, buscaram uma fuga suicida "correnteza abaixo" e, à maneira de um enredo mitológico", "foram virando peixes / virando conchas / virando seixos / virando areia / prateada areia / com lua cheia / e à beira mar". O renascimento simbólico delas, em uma cidade grande, quiçá menos repressora.
"Deixe a Menina" - Um samba melodicamente bem conduzido que lembra o Chico dos velhos tempos. Um conselho que fica: "por trás de um homem triste / há sempre uma mulher feliz / e atrás dessa mulher / mil homens sempre tão gentis". É bom dar-lhe ouvidos.
"Já Passou" - Uma canção no melhor estilo joão-gilbertiano. O autor veste a pele de alguém sentimentalmente ferido e, ao mesmo tempo, obsessionado em demonstrar que "já curou". Convence.
"Bastidores" - Música que vem impulsionando o reaparecimento artístico do cantor Cauby Peixoto. O cotidiano de desilusões, medos e hesitações de uma cantora de cabaré que, a despeito de tudo, ainda brilha em cena: "cantei, cantei / jamais cantei tão lindo assim / e os homens lá pedindo bis / bêbados e febris / a se rasgar por mim".
"Qualquer Canção" - Momento de lirismo do Chico. Uma melodia simples a conduzir uma letra, cuja preocupação maior é tocar o coração até de quem não ama.
"Fantasia" - Samba com a abertura à maneira de uma fantasia (em linguagem musical). Pode proceder daí o título da canção. Ou, então, do convite, imaginoso, para que a gente distraia "o erro do suplício ao som de uma canção". A palavra de ordem é mesmo cantar "noite e dia".
"Eu te Amo" - Chico vê(-se) um amante que perde a noção das horas, que não sabe como partir. "Nas travessuras das noites eternas" o amor é um desvario que parece chegar ao mundo não-anímico. Confiram neste terceto: "como se na desordem do armário embutido / meu paletó enlaça o teu vestido / e o meu sapato ainda pisa no teu". Jobim comparece ao piano (a música é dele), majestoso. Há também a participação vocal da cantora Telma.
"De Todas as Maneiras" - Uma espécie de balancete sentimental fechado com perdas. Depois "de todas as maneiras que há de amar", o amante que (in)tenta desvencilhar-se ("larga a minha mão / solta as unhas do meu coração") daquela que, até então, fora a pessoa amada. Simplesmente, por não se conter a um apelo de fora "quando chega o verão".
"Morena de Angola" - Composta por Chico em terras angolanas. Uma letra de ambientação "afro", com o emprego calculado das palavras (chocalho, canela, cochicho, cacho, remelexo etc.), uma estocada ideológica, quando o autor diz: "morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA", e um ritmo assaz envolvente.
"Bye Bye, Brasil" - Do filme de mesmo nome, trazendo de volta um Menescal velho (o que quer dizer novo) de bossa. É, ao lado de "Eu te Amo", a música de maior riqueza harmônica do LP. Vem, entretanto, com um arranjo mais "fechado" do que o da gravação original, em compacto simples. Aqui, bauxita e fliperama, Parintintins e e calça Lee, caminhão e patins, toró e Rua do Sol - Maceió formam os contrastes de um Brasil antropofágico. Desse entrechocar de culturas ainda é possível se esperar que, "com a bênção do Nosso Senhor / o sol nunca mais vai se pôr". Apesar de tudo.
"Não Sonho Mais" - Do filme "República dos Assassinos". Fala de "um sonho medonho / desses que, às vezes, a gente sonha /e baba na fronha / e se urina toda e quer sufocar". Ora, um sonho medonho não pode ser descrito em termos brandos e Chico vai a fundo no antilirismo. É um baião estilizado.
Ainda umas considerações finais. Sobre o Chico-intérprete: ele está mais agradável, mais solto em sua voz pequena. Sobre o amigo Francis: ele também deve ser lembrado pelos arranjos e regência deste bem elaborado disco.
Por tudo que vi e ouvi, recomendo.
1º. de fevereiro de 1981

sábado, 16 de fevereiro de 2013

TUDO EM BAIXO

Antes, ganhava dinheiro com imóveis; agora, com imóveis. Explico: apesar de manter em atividade a sua imobiliária, ainda um bom negócio, ele entrou firme no ramo dos cemitérios, que sabia ser bem lucrativo.
Depois de viajar pelo Brasil para ver arquiteturas de campos santos, técnicas de inumação, códigos de posturas, marketing etc. voltou para Fortaleza, cheio de ideias. Que foram por ele materializadas em um município da região metropolitana de Fortaleza.
Não era por estar relacionado com mortes que o novo empreendimento não precisasse de um nome de batismo. Brincando, e inspirando-me em que existia um restaurante no Morro de Santa Terezinha com o nome de "Tudo em Cima", eu sugeri ao amigo que o chamasse de... "Tudo em Baixo". É claro que ele não acatou a "sugestão", por se tratar obviamente de uma mera brincadeira. E batizou o novo campo santo de "Jardim da Saudade".
Entre parênteses: Sem os termos "Parque", "Jardim", "Saudade" e "Paz" 90 por cento dos cemitérios ficariam anônimos.
Na venda dos primeiros jazigos, ele logo descobriu o perfil do comprador típico. Era, geralmente, alguém das classes B, C e D. As pessoas destas classes socioeconômicas veem a morte como algo acontecível e, prudentemente, reservam uma parte de suas economias para a prestação dos jazigos. Ao contrário dos ricos que, quando a morte lhes chega, há dinheiro folgado para que os familiares lhes providenciem um enterro de luxo.
E os negócios do meu amigo Joaci prosperaram (e não só neste ramo) que ele, atualmente, comanda uma rede de cemitérios no Brasil.
De saída, ele aponta duas grandes vantagens para o que faz:
1) Quem compra não quer utilizar.
2) Quem usa não tem queixas.
Tanto é que o livro de reclamações - para uso exclusivo dos mortos - encontra-se até hoje em branco.
[...]
Em 1930, o prefeito de Palmeira dos Índios, Alagoas, escreveu em um relatório:
"Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos, dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitem a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam."
O prefeito da cidade alagoana era Graciliano Ramos.
[...]
Bônus - Contos Sobrenaturais

sábado, 9 de fevereiro de 2013

NO CAMINHO DE DAMASCO

Numa época que os arcanos não trazem mais, o meu desempenho em prol da ecologia não somava muito. Um dia aconteceu de um intelectual de escol (também conhecido pela militância ecológica) me aplicar um puxão de orelha.
Com o devido cuidado para não esmagar a pulga que se esconde atrás da orelha, caso contrário, estaria ele comprometendo a grande causa.
Bem, esse puxão de orelha foi apenas simbólico. De maneira que não provocou dor doída. Entendam-no como tendo sido uma advertência, um chamamento à razão diante do meu insuficiente interesse pela sorte do planeta Terra. Que é agredida, a todo instante, pelo homem, esse câncer da natureza.
Por vezes, aliás, eu cheguei a brincar com as preocupações dos ecologistas por julgá-las exageradas.
Mas... foi-se o tempo em que eu aplaudia comparações desse tipo: Prefiro um bom sapato e um bom cinto a um jacaré mordendo meu pé e uma cobra se enroscando em minha cintura.
E o fato é que, desde então, eu mudei radicalmente.
Posso inclusive dar exemplos do como tem sido a minha atuação em favor do ambientalismo:
Participei da campanha "abrace o tamanduá bandeira", da qual saí com as costas completamente lanhadas. Nem por isso me arrependi.
Até que chegasse a defesa civil, eu fechei com o dedo um buraco na camada de ozônio da atmosfera.
Gastei uma tonelada de papel com um manifesto para que não derrubassem um marmeleiro.
Protegi o pardal da extinção. E vou fazer o mesmo com o calango e as baratinhas francesas.
Defensivos agrícolas? No pasarán! E o meu lema para atacá-los é este: se dois bicudos não se beijam, logo um pode eliminar o outro.
(rsrsrs, não levem o que eu escrevi aqui a sério)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

CARTA A UM COMPANHEIRO COQUEIRO

(INTÉRPRETE: P. GURGEL)
Antes de mais nada, agradeço a meu intérprete o fato de conseguir chegar ao lugar em que estou, antes dos bulldozers, serras mecânicas, helicópteros e seus manejadores. Não deve ter sido tarefa fácil. Mas, ao contar-me o que ocorre contigo, caro colega, a notícia já era do meu (nosso) conhecimento: os humanos (ironia!) desconhecem que nós, vegetais, somos abrigo, repouso e ninho de pássaros, e eles, ciosos disso e sinceros em sua gratidão, são nossos amigos e correio. Poderia ter pedido a eles que te transmitissem esta carta; contudo, por querer tornar público meu pensamento e gratificar tão esforçado intérprete, preferi que fosse ele o portador desta missiva.
Grato, companheiro, pela solidariedade. Estão nos dizimando aos hectares, sem que os centros de decisão da nação nada ou muito pouco façam em nosso socorro. Aproveitam-se de nossa natural dificuldade, ou melhor, impossibilidade de deslocamento e matam-nos vilmente. Sinto um pouco tua dor solitária, mas nossa dor é maior: vemos nosso vizinho ser golpeado, serrado, derrubado, desfolhado, vemos sua agonia ao ser laçado e conduzido às serrarias, sabedores que seremos os próximos, e que nossos restos serão usados para camas, guarda-roupas, lenha para fogueiras. Nem sequer nossas raízes poderão repousar em paz: os tratores virão inapelavelmente e as arrancarão férrea e insensivelmente.
Dizes que morrer não dói. Concordo(amos). Mas é intensamente doloroso o tempo que decorre entre a sentença e a execução. Não pela expectativa da execução, mas pelo que ocorre neste período. Nossa dor não começa ao vermos os tratores, mas pelos baques surdos de nossos companheiros desabando com uma sonoridade típica de nossa nobre estatura; tua dor se situa nessa ridícula discussão entre "coqueirófilos" e "coqueirófobos". É como o título de uma peça teatral a que meu intérprete assistiu: "Seria cômico se não fosse trágico".
Mas não deves ficar tão preocupado conosco não, companheiro. Só se sente a falta de uma coisa depois que esta coisa está perdida. Deixemos que os humanos se iludam à vontade, mesmo às custas de nossa vida. Porque, depois, eles sentirão nossa falta, quando a vida deles estiver no fim.
Um abraço de um baobá amazônico.

P.S. Agradeço ao baobá a confiança que me dedicou. Espero que os pássaros te digam isso, caso ele não tenha sido já assassinado.

Intérprete: Hugo Barros da Costa (médico)

sábado, 26 de janeiro de 2013

LUCIDEZ, J. NATURA

Senhor Redator:
Não fui surpreendido pela carta do senhor Oswaldo Evandro Carneiro Martins fazendo comentários, ora ácidos, ora alcalinos, sobre dois textos ("J. Natura, o Ecólogo" e "Lucidez, Coqueirófilos!") de minha autoria, recentemente publicados nesta "Seção de Cartas". Pela forma "reptícia" (prefiro dizer assim) com que trabalhei os textos, considerei, desde o início, a possibilidade de ferir os brios de um ou outro ecologista de raciocínio apressado. Foi um risco calculado.
No caso deste cidadão, Oswaldo Evandro Carneiro Martins, o qual se coloca em oposição a mim, assim o faz de forma bastante pessoal. A começar pela frivolice de dissecar meu nome (CPF também não serve?), numa tentativa de estabelecer relações cabalísticas com os meus escritos. Será que este senhor ainda não "eurecou" que o nome de alguém é sempre colocado, à revelia, pelos pais do dito cujo, sejam eles autocratas ou não? Dando o troco à sua moeda azinhavrada, eu também declaro não ter gostado do seu nome. Poderia ser mais altissonante, do tipo verso alexandrino perfeito. Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac fica como sugestão.
Estranho. Achei tão estranho o senhor Evandro Carneiro Martins Oswaldo interromper a rega de suas samambaias-choronas de plástico para escrever linhas e mais linhas a meu respeito, numa espécie de oposição hepática. Viram-no, empunhando as bandeiras do ibope fácil (ecologia, homeopatia, socialismo), certíssimo de que eu trago as mãos vazias? Tudo ilusão de óptica, senhor Carneiro Martins Oswaldo Evandro, pois minhas bandeiras não diferem tanto das suas assim quanto pensa. Considero apenas que cada questão pode vir multifacetada, daí advindo todo um espectro de posicionamentos. Nem tudo está naquele raciocínio primário de CIA versus KGB, para o qual o senhor tenta (debalde) me conduzir. Consulte o baiano Jorge Mautner ("Panfletos da Nova Era") que ele sabe das coisas.
Meus dois textos (des)apreciados por sua crítica-salada, na verdade, merecem considerações apartadas. Assim, "J. Natura", cronologicamente o primeiro tem texto e intertexto. Se o texto alinha (com exagero, reconheço, pois exagerar é uma forma de humor), parágrafo a parágrafo, situações ecológicas vivenciadas por J. Natura, um romântico que descamba para o quixotesco, o intertexto o reconduz, em sentido contrário, para o romântico, tornando-o um personagem até simpático. Agora, o que o faz pensar que eu não tenho carinho por ele? Cervantes, por acaso, repudiou o Cavaleiro da Triste Figura, sua criação
Quanto à sua crítica de que desconheço a realidade ecológica (inferida do desempenho do personagem J. Natura), respondo que criador e criatura podem até ser cotejados mas não são, necessariamente, um ente só. Tartufo não foi Moliére, Falstaff não foi Shakespeare e Macunaíma não foi Mário de Andrade. Mais ainda: pode se permitir, ao que se escreve no terreno ficcional, certas licenças, humorísticas inclusive. Mesmo que, tomado de espanto, o senhor dê, inadvertidamente, uma mordida em sua língua morta de "ignorantia non est argumentum".
Outra coisa que o senhor entendeu-fez-que-não: eu busco, através das ironias, um efeito paradoxal no público ledor. Assim agiu Augusto Boal em "Mulheres de Atenas" (música de Chico Buarque) quando disse; "Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas". Na verdade, objetivou ele criar no público uma reação contra a passividade. Qualquer pessoa medianamente intelectualizada captou a anti-mensagem. Repare que eu falei medianamente intelectualizada, uma vez que a anti-mensagem está no não-explícito, constituindo isso uma limitação do método.
Já no "Lucidez, Coqueirófilos!" o fato tem conotação realística. Melhor "brechável", só que o buraco da fechadura está mais em cima: nem tudo consegue ser enquadrado, a porretadas de Maniqueu, no simplismo do seu modelo opressor versus oprimido, com o poder judiciário a serviço do primeiro. por isso, vou ao além-litígio, ao que interessa: o coqueiro condenado, com o qual me identifico (ninguém se identifica com o que não estima). Sou árvore humanizada (no bom sentido) disposta ao martírio desde que, com ele, ressaltem-se dois traços caracterológicos, a meu ver reprováveis, dos humanos. Aliás, esqueci-me do terceiro: o mau humor (a cada dia descubro adeptos). Falar nisso, humor, na concepção freudiana, é o triunfo do "eu". Tanto ao nível de emissor quanto de receptor, acrescento. Apenas os definitivamente derrotados têm inadequação de humor. Espetam-se com tudo.
Portanto, abra as venezianas mentais, senhor Martins Oswaldo Evandro Carneiro. O que há de anti-ecológico em um parágrafo como este? A me transformar numa árvore-símbolo (para a catarse dos complexos de culpa humanos) prefiro a morte. Espírito vegetal, irei vaguear junto aos bilhões de outros iguais a mim na Amazônia. Na Amazônia que ninguém liga, pois todos, ou quase todos, estão preocupados com suas ecologias de fundo de quintal (reprise). É, pelo menos, uma conclamação à Grande Ecologia. É o sair da ecologia de fundo de quintal (repito) que se sustenta apenas de histrionismo e emocionalismo.
Viva a grande ecologia!
(7 de agosto de 1981)

sábado, 19 de janeiro de 2013

"J. NATURA, O ECÓLOGO"

Sr. Redator:
Ontem (27.07.81) e anteontem, este jornal deu guarida na seção "Cartas do Povo" a duas missivas do Sr. Paulo Gurgel Carlos da Silva, nome um tanto esdrúxulo que confere a Carlos status de família e rebaixa Gurgel ao status de indivíduo. Simbólico, o fenômeno, se analogado ao posicionamento do autor das cartas, que, professa o que eu chamaria anti-ecologismo.
O Sr. Gurgel Carlos deve ser identificado aos interesses do chamado "capitalismo selvagem", que não é tão-só a materialização daquele aforismo do filósofo Thomas Hobbes (1588-1679), que antecipou uma concepção do homem como fera para o seu próprio semelhante (homo hominis lupus). A palavra locucionada aí ("selvagem") bem que significa implicitamente destruidor da natureza, da fauna e flora silvestres, e dos recursos e belezas naturais. O problema ecológico é produto do capitalismo, da instituição capitalista motivo-lucro, e do individualismo considerado como defeito do capitalismo. O sistema capitalista converteu as atividades econômicas em processo de entropia, como reconhece o economista Celso Furtado. É que as denominadas deseconomias externas, vergonhosamente consentidas e sancionadas, estão na essência desse capitalismo reduzido a um mecanismo e estrutura de destruição, poluição e obstrução da natureza.
O Sr. Gurgel Carlos procura zombar de uma causa que hoje constitui o apanágio dos idealistas, humanistas e cientistas (v. o Clube de Roma). Assim, escreve gaiatamente, mas indubitavelmente faz humor negro com um tema trágico e apocalíptico. Sob os termos ecológicos que , denuncia uma doutrina subreptícia, que tenta impingir aos leitores, de modo circunloquial e solerte, mas indigente ou falto de conhecimentos de ecologia.
Vou fazer uma amostragem disso.
Na carta de anteontem, o Sr. Gurgel Carlos lança em cena a sua personagem J. Natura, o Ecólogo. Apenas prova, porém, seu despreparo ou má fé intelectual para com o assunto em que se imiscui, se intromete e se intruja. Diz, por exemplo, da referida personagem, com a qual visa a ridicularizar a ciência e técnica ecológicas:
1) "Apanha a roupa passada num armário onde passeiam baratinhas jamais dedetizadas."
Ignoraria o Sr. Gurgel Carlos que o DDT pode ser utilizado mediante cuidados próprios, isto é, ecologicamente? Ignorantia non est argumentum.
2) "Estacionado entre os pilotis do edifício, o seu (dele, J. Natura) fusca a álcool, comprado numa decisão sábia de não poluir as ruas com chumbo tetra-etila, produto tóxico existente na gasolina."
Defenderia o Sr. Gurgel Carlos as multinacionais do petróleo?
3)"Lá (na feira de pássaros), J. Natura circula comprando avezinhas canoras" (entre as quais, cita "periquitos australianos"). "depois, fora da cidade, "liberdade para os emplumadinhos".
Existirá alguém, afora o Sr. Gurgel Carlos, que não saiba, em função de um mínimo conhecimento ecológico, que pássaros, quer domésticos ou domesticados, quer oriundos de outro ambiente ou clima, não tem condições de sobrevivência nessa liberdade que J. Natura lhes concede?
Na carta de ontem, o Sr. Gurgel Carlos faz uma incursão ao reino da prosopopeia, onde põe a monologar novo personagem que cria, Coqueiro da Varjota, alusivo a uma palmeira dessa espécie, recentemente condenada à morte por uma sentença judicial. A nova personagem, nascida que é das motivações anti-ecológicas do Sr. Gurgel Carlos, fala gaiatamente, de acordo com o humor que o seu criador pratica. Para Coqueiro da Varjota (leia-se: o Sr. Gurgel Carlos os homens têm dois defeitos: "bedelhismo" e hipocrisia. E é aí que a personagem se confunde com o autor. Este, logicamente, pertence à malsinada espécie homem, e é por isso que, através de Coqueiro da Varjota, mete o bedellho no affair e afronta "tantos coqueirófilos" (sic), além de solidarizar-se com o cacique Juruna ("estão me jurunizando", afirma) e com a Amazônia ("que ninguém liga", comenta).
O último defeito dos homens, conforme Coqueiro da Varjota ou o Sr. Gurgel Carlos, isto é, a hipocrisia, fica meio indefinido. Deveria o criador da personagem ter dado um claro pronunciamento ecológico, porque não parece que defenda realmente o cacique Juruna, ou seja, os remanescentes indígenas e seu habitat, que é correlato dos recursos naturais, pertencendo embora à categoria que o economista S. V. Ciriacy-Wantrup denomina recursos culturais tangíveis. Outrossim, o cacique Juruna, como se viu pela televisão, proclama as propriedades medicinais da jurubeba, em face dos medicamentos quimioterápicos das multinacionais; e, por outro lado, a personagem J. Natura é usada pelo Sr. Gurgel Carlos para mofar dos medicamentos homeopáticos ("a homeopatiazinha para a hipocondria de sempre", que a personagem se receita pela vontade de seu criador). E, quanto à Amazônia, deveria a personagem Coqueiro da Varjota ter qualificado aquele "ninguém" a que se refere, que não podem ser pessoas como os ecologistas tão ostensiva e ofensivamente ligados àquela região saqueada pelas multinacionais, mas que sim podem ser pessoas como o próprio Sr. Gurgel Carlos, cuja desova ecológica é das mais suspeitas.
Cordialmente,
Oswaldo Evandro Carneiro Martins
(29 de julho de 1981)

sábado, 12 de janeiro de 2013

LUCIDEZ, "COQUEIRÓFILOS"!

Hesitei se devia escrever estas linhas, mas como a questiúncula não parece ter fim, decidi-me então.
A coisa, eu conto como a coisa está sendo: há dias, através da imprensa escrita, falada e televisionada, que estão polemizando sobre mim, aquele coqueiro da Varjota que virá abaixo por uma ordem judicial. O motivo de minha condenação, sabido de todos, foi porque, de quando em quando, eu deixo cair cocos e palhas em telhado alheio. Uma contravenção que deu briga de vizinhos e seguiu-se de uma demanda que, ao final, me sentenciou de morte.
Não, não estou aborrecido. Dou minhas palmas à palmatória verdugo dos homens. Se, coqueiro alto, com o tombo de meus cocos, estou a ameaçar o cocuruto das pessoas, assumo pelo fato a responsabilidade, mesmo que essa posição me signifique a morte. Morrer não dói. Mais do que o meu desplante dói o desplante (perdão pelo trocadilho) dos homens.
Árvore, como tal sempre prezei o anonimato - o sereno anonimato de todo ser clorofilado. Foi assim que, ao longo de minha existência, eu dei frutos, sombra e enchi os olhos das pessoas. Tive (e ainda tenho) mais utilidades do que um canivete suíço. Entretanto, não busco o reconhecimento gratulatório. Muito menos virar celebridade e passar meus dias dando autógrafos a sabiás deslumbrados.
Portanto, friso: não quero pechinchar pela minha vida. Aliás, enfastiam-me duas características humanas:
1.ª - O "bedelhismo". O que tem chovido de propostas ("ponham um funil de arame na copa", "armem uma rede proteção para os cocos" etc.) dos que tentam comutar minha pena foi surpreendente. Eu não sabia haver tantos "coqueirófilos" assim. Mas não quero mudar meu way of life.
2.ª - A hipocrisia. De um (hor)ror de gente que busca promoção à minha custa. Babam-me e eu nem coqueiro-babão sou! Virei uma árvore-símbolo, estão me "jurunizando".
Finalizo. A me transformar numa árvore-símbolo (para a catarse dos complexos de culpa humanos) prefiro a morte. Espírito vegetal, irei vaguear junto aos bilhões de outros iguais a mim na Amazônia. Na Amazônia que ninguém liga, pois todos, ou quase todos estão preocupados com suas ecologias de fundo de quintal.
Portanto, senhores, tragam seus machados para que eu os perfume. Sei também ser sândalo.

sábado, 5 de janeiro de 2013

UM DIA NA VIDA DE J. NATURA, O ECÓLOGO

Domingo. J. Natura, ainda sonolento, dirige-se à janela do "apto" para concluir o seu despertar. Nada como iniciar o dia enchendo o peito da boa brisa que vem do Parque do Cocó.
Escova os dentes com raspas de juazeiro e mete-se numa ducha fria e rápida. O sabonete biodegradável deixa-lhe um frescor bio-agradável na pele.
Passa um antitranspirante nas axilas. De bastão, pois detesta qualquer desodorante em spray. Sabido é que o spray tem fluorocarbonos que podem afetar a camada de ozônio da atmosfera.
Apanha a roupa passada num armário onde passeiam baratinhas jamais dedetizadas. Vai-se vestindo.
Antes de deixar o quarto, tem tempo de olhar, enternecido, para um pôster na parede, que mostra um filhote de foca nos braços protetores da Brigitte Bardot.
Na cozinha, enquanto apronta o desjejum, ouve rádio. Volume baixo, a menos de 50 decibéis para não ocasionar sobrecarga acústica.
O desjejum: pão de trigo integral e chá de artemísia adoçado com açúcar mascavo. Findo o repasto, noz vômica, a homeopatiazinha para a hipocondria de sempre.
Desce ao térreo. Estacionado entre os pilotis do edifício, o seu fusca a álcool. Comprado numa decisão sábia de não poluir as ruas com chumbo tetra-etila, produto tóxico existente na gasolina.
Ruma para a feira de pássaros do Jardim América., onde J. Natura circula, comprando avezinhas canoras: canários belgas, campinas, periquitos australianos, corrupiões e tudo mais que pipila.
Depois, fora da cidade, liberdade para os emplumadinhos. Solta-os um a um, tendo o cuidado de destruir as gaiolas no final.
O campo! Dependesse dele ficaria mais tempo por lá, a oxigenar os pulmões. Entretanto, tem compromisso marcado para logo mais na Praia do Futuro: coletar, ajudado por amigos, o piche que enfeia aquela praia.
Assim, enche sacos e mais sacos da pegajosa substância, com o plano de levá-los no dia seguinte às autoridades portuárias. Uma espécie de protesto.
Trégua nessa guerra ecológica somente acontece de noite, à hora de dormir. Mas, diabos, J. Natura tem mau sonhar: vê-se em alto mar, arpoando baleias. Que pesadelo, sô!

sábado, 29 de dezembro de 2012

A SEQUÊNCIA DE UMA POLÊMICA

UM DIA NA VIDA DE J. NATURA, O ECÓLOGO - Paulo Gurgel
A Ferragista, junho de 1981 (ano 5, n°. 57)
Cartas do Povo, 19/07/81
LUCIDEZ, "COQUEIRÓFILOS"! - Paulo Gurgel
A Ferragista, julho de 1981 (ano 5, nº. 58)
Cartas do Povo, 20/07/81
"J. NATURA, O ECÓLOGO" (RÉPLICA) - Oswaldo Evandro
Cartas do Povo, 29/07/81
LUCIDEZ, J. NATURA (TRÉPLICA) - Paulo Gurgel
Cartas do Povo, 07/08/81
CARTA A UM COMPANHEIRO COQUEIRO - Hugo Barros da Costa
A Ferragista, agosto de 1981 (?)
NO CAMINHO DE DAMASCO (EPÍLOGO)- Paulo Gurgel
Inédito

sábado, 22 de dezembro de 2012

OUVINDO MAL

1 Pessoas de uma família conversavam animadamente na sala. E os assuntos trazidos à baila eram os mais diversos. A um canto, Vô Raimundo dormitava em sua cadeira de balanço. De forma que apenas poucas palavras, fragmentos de frase tinham acesso a sua consciência.
- ... prato de ostras... não pretendo voltar lá...
- ... depois disso...
- ... disco-laser... não tem mais sentido...
- ... absurdo... um... 147...
Nisso, Vô Raimundo retorna subitamente ao mundo dos despertos. Bastante assustado, porque acabara de escutar o novelístico número com que o governo vem promovendo a "operação mata o veio". À beira de um ataque de nervos. Contudo, se tivesse escutado a conversa na íntegra não teria reagido assim. Por se reportar o número, naquele momento, apenas a um Fiat 147.
2 Não, não se pode prender um homem por assalto quando ele, na verdade, só fez o seguinte.
Encostou-se num guichê de um banco, casualmente portando uma arma de brinquedo que, meia hora atrás, a havia comprado para presentear um filho. Cabendo, assim, a culpa ao funcionário da agência que, intempestivamente, tomou o inocente brinquedo por uma arma real. Ademais, ele não disse "isto é um assalto!" - outro engano do relapso funcionário. O que ele disse, naquele momento de tantos equívocos cometidos, foi exatamente: "isto é um asfalto!". Como poderia ter dito outra frase qualquer sem relação aparente com a situação. Além do que não podia o bom homem ser incriminado, por haver logo após recebido uma sacola de dinheiro - sem ter saldo bancário para isso! É que ele, em sua boa fé, julgou se tratar de um brinde do banco, o qual, por um ato de elegância, não devia recusar.
3 E tem a história da moça que saiu de casa para tentar a sorte na cidade grande. Mas, não tendo ofício certo, passou a rodar a bolsinha no meretrício. Para desgosto do pai que, sabendo desse fato, não queria vê-la nunca mais. Nem as cartas dela o velho respondia. E somente se referia a ela como sendo uma amaldiçoada.
Anos depois, a moça aparece na cidadezinha elegantemente vestida, coberta de joias e fazendo saber que possuía muitos bens e uma vultosa conta bancária. O carro em que ela viera, para demonstrar a boa situação em que vivia, foi logo dado ao pai que nunca possuíra um... E este foi tratando de esquecer o que antes pensava a respeito da filha.
Conversa vai, conversa vem, e fingindo ignorância, o velho pergunta qual era a profissão da filha: "Prostituta", diz ela com franqueza. E o velho: "Ah, bom. Eu pensava que era protestante".

sábado, 15 de dezembro de 2012

A PANACEIA PG

Apresentação
Pensamentos, palavras e sobras.
Propriedades
Melhora a atuação do sistema imunológico, a libido do inibido e reduz a VHS caso esteja aumentada. Mostra também uma leve propriedade antidiurética (porque retarda a ida do leitor ao banheiro), porém  não deve ser usado com essa finalidade.
Indicações
Tédio, má conduta e falta do que fazer.
Contraindicação
Hipocrisia
Posologia
Variável.
Reações adversas
Soluços, tosse nervosa e luxação da mandíbula. Caso surjam a leitura deve ser temporariamente interrompida.
Efeito paradoxal
Do tipo o que dá para rir dá para chorar.
Superdosagem
Como tratar: passar da leitura dinâmica para a leitura normal.

sábado, 8 de dezembro de 2012

NÃO DÁ PARA SEGURAR...

Esta crônica saiu da porção-mulher que eu trago em mim agora, numa proporção de 0,00000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000001%, arredondando-se para mais.
[...]
Lembrar Odilon que eu conheci em 1973 - uma amizade verdadeira!  Não conto os "uiquendes" que juntos passamos em Petrópolis! Ele chegava a dissimular os seus problemas (na esfera judiciária, ele tinha muitos) para que nada pudesse me afligir, como mais tarde vim a saber. Mas o destino, suplantando-me na ironia, tramou que eu o perdesse. E logo para um conhecido em comum, do início de nosso relacionamento: um sargento do Exército!
Se há o conceito de vazio ecológico como não há também o de vazio sentimental? No lugar de Odilon, pus Acrísio no meu bem-querer. Era um tipo fogoso que, apesar de nada saber da arte de transigir, muito me ensinou a respeito. Foi falta de tato, de minha parte, deixar que uma rusga de somenos importância nos levasse à separação. Uma cena patética, no caminho de uma viagem do Rio de Janeiro ao Amazonas, o então Inferno (ainda que) Verde.
O ano de 1976 me trouxe uma amizade que acabou trágica. Clóvis, o amigo que vi morrer, carbonizado, num acidente de estrada, quando voltávamos para Fortaleza de uma folia em Maranguape. E dizer que eu nada pude fazer para salvá-lo das chamas. Tentei, em seguida, esquecer o infeliz acontecimento numa relação afetiva com Flávio. Mas acabei percebendo, quase três anos depois, que o tempo todo eu apenas estivera a enganar a mim mesmo. Não houve, por isso, qualquer trauma quando se deu o rompimento.
Agora, entrosamento de fazer uma dupla do tipo "só vou se você for" aconteceu com Sérvio. Um era o alter ego do outro. E, como se não bastasse, ele era também a imagem do desprendimento, do desapego à própria vida. Provou isso inclusive num entrevero que lhe foi fatal. Numa briga de estranhos: árabes, turcos, sei lá quem.
[...]
Desculpem-me. Desculpem-me se eu passo pelos dedos este rosário de desilusões. É que não dá para segurar os sentimentos quando eu visito os meus mortos no CEMITÉRIO DE AUTOMÓVEIS.

Fortaleza, 2 de novembro de 1995

sábado, 1 de dezembro de 2012

PRAZERES DA MESA

Piche assado com molho secante

  1. Arrume em uma assadura seis postas de piche. Tempere as postas com abissal e linimento-do-reino. Polvilhe tudo com duas colheres de sopa com farinha de intertrigo.
  2. Numa cerzideira refogue duas ceroulas até ficarem macias. Espalhe-as sobre o piche.
  3. A seguir, misture um terço de xícara de azinhavre branco, três dentes de bugalhos socados, uma colher de chá de olécrano, uma colher de chá de mosqueado, uma pitada de alçapão em pó, uma colher de sopa de valsa miudinha e cuenca. Derrame tudo sobre o piche, adicionando vinílico ao redor das postas.
  4. Asse em forno modulado até que o piche fique macio. Verifique espetando com um sarrafo.
  5. Sirva decotado com arruelas de timão.

(não sai a preço gastronômico)

In memoriam Carmem Miranda

Em tudo a maçã...
Na mordida impensada de Eva, na flechada certeira de Tell, na teoria da gravidade de Newton.
O pomo da discórdia quer ter a hegemonia mas precisa de um basta!
Haver quem reconte a História com saber/sabor tropical.
Abacates, bananas, mamões e abacaxis: Unidos, jamais sereis vencidos!

sábado, 24 de novembro de 2012

TROVAS

Quero fazer uma louca
Viagem - com escarcéu,
Beijando ardente tua boca,
Esse meu tangível céu.

Cavalgando bem veloz
Para longe (upa! upa!)
Do meu bem. Que peso atroz
A saudade na garupa!

O sertão todo emudece
Quando toco (não me queixo)
Minha viola que parece
Um bom violão ovation.

Amigo a gente avisa
Aquilo que tem bom uso
Pra ver a Torre de Pisa
Fique no ângulo obtuso.

- Olha um cruzeiro no chão,
Achado assim é um regalo!
- Deixa pra lá, cidadão,
Que não compensa apanhá-lo!

sábado, 17 de novembro de 2012

PALHAÇOS

-
O palhaço Pipoca
é o aliciador das crianças,
é a imagem bem comportada
do riso, da verve, das danças.
Quando ele desponta na rua,
como senhor da luz e do brilho,
a criançada se agita, festeja
e deseja que nunca
acabe o milho.

O palhaço Papoco
é o assustador dos meninos,
é a atabalhoada figura
do chiste, dos ditos ferinos.
Quando ele irrompe na praça,
com o seu medonho grito, o torpe
papel de vilão, é que ele vê
que dureza é não ter
nenhum ibope.

sábado, 10 de novembro de 2012

A CONJURAÇÃO DOS ÓRGÃOS

Pra respirar o nariz
nem liga pro dono agônico,
funga o gás, fica feliz
quando o descobre: carbônico!

Os pulmões, aqui se frise,
pois trinta e três vezes sei:
só pensam na hemoptise
que algum dia eu terei.

E o coração é o tropeço
de quem comete infração.
Absolvido ao avesso,
minha pena é a solidão.

E as mãos? Com essas mãos
que crescem de mim agora,
varo o bidimensional,
pego a moldura por fora.

Assume a boca o poder
fenomenal, absoluto
de expressar o ser-não-ser
à base do anacoluto.

Já o estômago, essencial
que se mantenha famélico.
Acima do bem e do mal,
Não é ele pantagruélico?

Enquanto vão os intestinos
com fúria iconoclasta
desdobrando os mais divinos
manjares... em uma pasta!

Pra não esquecer (desvario!)
o meu passado abissal,
gota a gota, enfim eu crio
um dilúvio vesical.

sábado, 3 de novembro de 2012

COMO VENCER NA MPB

(SEM FAZER FALSETE)
A finalidade deste artigo é fornecer subsídios ao leitor que pretende se tornar um compositor de Música Popular Brasileira.
Inicialmente, refuto aquela ideia estereotipada de que basta o aprendiz de compositor dedilhar o seu violão, numa mesa de bar, para que uma inédita canção apareça tão rapidamente quanto um prato de batatas fritas. A inspiração, caro leitor, seja poética ou musical, poucas vezes tem essa espontaneidade e, na maioria das situações, é um pão - pão do espírito - feito com muito suor do rosto do artista.
Entretanto, dizer que a MPB - assim carinhosamente chamada - seja alguma coisa esotérica, eu não intenciono. A prova é que trago a lume o segredo de algumas técnicas que, caso sejam adotadas pelo leitor, poderão levá-lo a acrescentar novíssimas páginas musicais no Livro de Ouro da Música Popular Brasileira. São métodos de composição, verdadeiros macetes de eficácia comprovada desde a Era Donga.
MÉTODO PESO-PESADO - Deu certo com o Kid Pepe, um boxeador aplicado, que se imortalizou com "O Orvalho Vem Caindo". Noel Rosa, cujo queixos não era de suportar socos, logo no primeiro round lhe deu a parceria desta música. Se o leitor é forte como um rinoceronte ou domina as artes marciais é este o método mais indicado.
MÉTODO CAÇA AO PASSARINHO - Consiste em adotar uma canção feita por quem não apresenta o preparo suficiente para a paternidade. Caso advenham pruridos de natureza ética pela rapinagem lembre-se de que "samba é como passarinho, é de quem pegar primeiro".
MÉTODO CONSTRUIR JUNTOS - Somente é exequível entre dois indivíduos que sejam amigos do peito, irmãos e camaradas. É como o casamento em regime de comunhão de bens: o que um fizer é do outro e vice-versa.
MÉTODO RATO-DE-GAVETA - Um exemplo típico aconteceu a Pixinguinha, que possuía uma música - sem letra - pegando ranço nas gavetas. Quando apareceu o Braguinha todo "Carinhoso"... Desaconselho o método para quem for asmático.
MÉTODO CORRIDA DO OURO - Consiste em explorar o rico filão do folclore nacional. Mas, como ele não é tão inesgotável assim, vai chegar o dia em que só o Câmara Cascudo conseguirá compor alguma coisa no gênero.
MÉTODO MÁQUINA DO TEMPO - O leitor pega nuns versos de um poeta que já bateu as botinas e leva o declamatório da boca ao gogó. Para prevenir contratempos, verificar se o falecido poeta, além das redondilhas, deixou herdeiros atentos.
MÉTODO BIÔNICO - É tipo assim: o leitor escolhe algo da Dolores Duran, música e letra dessa autora. Aí, aplica uma nova música na letra existente. Depois, cria uma nova letra para esquecer o passado. E serve, de preferência, com um arranjo bem modernoso.
MÉTODO BOI-DA-PIRANHA - Já ouviu dizer do boiadeiro que, para atravessar com o rebanho um rio infestado de piranhas, sacrifica um dos seus bois? O Chico Buarque que o diga. Nas vezes em que ele, para atravessar com alguma letra as turvas águas da Censura, precisou sacrificar todo um rebanho de letras alternativas nos dentes cortantes dos censores. É um método que só funciona em pessoa Geni(al).
MÉTODO CHARANGA - Se o leitor até aqui não conseguiu se arranjar com um dos métodos já descritos, a opção que resta é compor hinos para times de futebol, pois isto até o Pedro Bó faz. Como no futebol, os hinos de clubes têm também suas regras e palavras tais como: glória, campeão, vitória, tradição, luta, coração etc. são de emprego compulsório.
Domingo, 1º. de junho de 1980
N.B.
Este texto foi lido em uma reunião do Grupo Siriará de Literatura, estando presente o escritor Moreira Campos.

sábado, 27 de outubro de 2012

DIAS DE SOL, DE CHUVA E DE NADA

1
Num dia de sol
Encontrei Marina,
A cútis a dourar
Na praia; de anilina,
o mar era tépido
Como as suas carícias.
Recordo-me bem
das febris delícias
De um amor-selvagem.
2
Num dia de chuva
Encontrei Helena,
Que me aprisionou
Com a boca serena,
Beijando-me o rosto
E a todo meu ser.
Inundei-me, então
(por puro prazer)
De um amor-selvagem.
3
Num dia de nada
Eu senti as agruras
De ter solidão,
gripe e queimaduras
No corpo; e ainda
De ter uma doença
Que me vivifica:
Persisto na crença
De um amor-miragem.

sábado, 20 de outubro de 2012

A VERDADE SOBRE A AVENIDA SEBASTIÃO DE ABREU

Este manifesto foi distribuído aos participantes de uma caminhada (foto DN), em 1991, a favor da construção desta Avenida.
Quando Prefeito o General Cordeiro Neto, há mais de 30 anos, vislumbrou-se que Fortaleza teria que crescer, inexoravelmente, na direção Sul. Por isso, foi projetada e construída a Perimetral, atualmente uma via de grande tráfego.
Aquela previsão é hoje uma realidade: Unifor, Seis Bocas, Água Fria, Santa Luzia do Cocó, Edson Queiroz, José de Alencar e adjacências, são núcleos onde vivem dezenas de milhares de famílias.
Em 1975, o Prefeito Evandro Ayres de Moura sentiu a necessidade de abrir outra via de acesso para aqueles bairros e fez constar de seu Plano de Ação Municipal a Avenida Sebastião de Abreu, não a construindo por falta de recursos.
Agora, o Governo estadual se dispõe a abrir a avenida, mas tem encontrado a resistência de alguns ecologistas, que temem possa aquela artéria causar um desequilíbrio ao ecossistema e ferir o manguezal do Cocó.
Esse zelo dos ecologistas, porém, não tem razão de ser. Há 15 anos atrás, não havia manguezal no Cocó. A região era ocupada por várias salinas e o que se via eram quadras e mais quadras desnudas para o preparo do sal. Nem por isso o ecossistema foi abalado.
As salinas foram embora e a Natureza se encarregou, sozinha, de formar aquele lindo manguezal que hoje podemos contemplar quando trafegamos pela Avenida Engº. Santana Júnior ou quando adentramos, de barco, o rio Cocó.
Os ecologistas - os verdadeiros - exercem um papel importante na comunidade. Eles são um freio contra os excessos que governantes e particulares se disponham a praticar contra Natureza. Mas a verdadeira ecologia não pode estar atrelada a ideologias nem deve abrigar atitudes preconceituosas contra o progresso.
No caso da Av. Sebastião de Abreu, todos sabem que ela não vai causar nenhum desequilíbrio ecológico pois se trata de um filete dentro de extensa área.
O acesso a Unifor, Água Fria, Edson Queiroz, Santa Luzia do Cocó, Seis Bocas, José de Alencar, Messejana e outros bairros naquela direção não pode continuar sendo feito apenas pela Av. Engº. Santana Júnior e pela BR-116. Se novas vias de acesso não forem abertas, aqueles bairros serão estrangulados.
O crescimento de Fortaleza é uma coisa inevitável. Não podemos esquecer que, em 1960, tínhamos apenas 8 ou 10 edifícios, todos no Centro. Hoje, a cidade tem milhares de grandes prédios e, a cada dia, novos são construídos. Naquele mesmo ano de 1960, a população da cidade era de 507 mil habitantes; em 1970, 893 mil; em 1980, um milhão e 307 mil; em 1990, dois milhões e 308 mil, segundo estimativa do IBGE. As projeções para o ano 2000 - daqui a 9 anos - indicam que Fortaleza terá 4 milhões e 200 mil habitantes (sic). Como poderemos nos locomover se não forem abertas novas ruas e avenidas?
Defendemos a construção da Avenida Sebastião de Abreu como um imperativo de progresso. Ela pode conviver muito bem com a ecologia. Se você também é a favor não deixe que outros decidam por você. Participe da caminhada que será realizada domingo, 3/11, às 10 horas, ao local das obras. Veja o mapa no verso.
COMITÊ PELA ECOLOGIA COM PROGRESSO

sábado, 13 de outubro de 2012

SEBASTIÃO DE ABREU

(PELA CONSTRUÇÃO DA AVENIDA)
Sr. redator,
Desculpe o chavão: já não há ecologistas como antigamente. Nos últimos tempos, talvez pela retração dos verdadeiros representantes da categoria, os espaços da mídia estão sendo ocupados pelos ecoxiitas. Fanáticos, sectários, intolerantes, estão sempre a combater tudo que lembre o progresso.
No entanto, não vão morar nos grotões onde, longe da civilização e dos confortos da sociedade de consumo, poderiam cultivar o ideal bucólico. Ah, não! Preferem as neurastenias das grandes cidades, nas quais montam o picadeiro para o grande show. Eles jamais suportariam aqueles locais onde, no dizer de um humorista francês, os frangos passeiam crus.
A última deles é considerar a Avenida Sebastião de Abreu, em construção no Cocó, uma série ameaça à existência do Parque. Sem levar em conta a argumentação de que a nova avenida, que surge como alternativa à congestionada Santana Júnior, encurtará o percurso Água Fria - Praia do Futuro, e vice-versa, em DOIS QUILÔMETROS.
Os candidatos ao benefício viário/diário fomos ouvidos?
Não. Mas os caranguejos do mangue, com os quais os ecoxiitas aprendem a dar seus passinhos... para trás, decerto o foram.
Afinal, o homem é o câncer da natureza, e eles, os anticorpos salvadores.
Aí, esquecem as toneladas - adicionais - de gases e fumaças que os carros vão despejando na atmosfera enquanto percorrem a longa curva do Iguatemi.
Dar objetividade ao fluxo de veículos na região é algo inadiável.
De desatino em desatino, vai que um dia esses senhores resolvem parar de respirar. E eu não seria contra uma decisão do tipo, que preserva o oxigênio para fins mais nobres enquanto, ao mesmo tempo, reduz os níveis de gás carbônico na atmosfera e, por via da consequência, o efeito estufa.
Em tempo:
O projeto de construção da avenida contempla os interesses dos caranguejos do mangue.

sábado, 6 de outubro de 2012

FANTÁSTICO, O XÔ! DA VIDA

"É um alívio saber que o fantástico existe e que os forasteiros que passam pela nossa província nem sempre estão mentindo." Paulo Mendes Campos
A maioria das pessoas não acredita que o Câncer possa entrevistar o Lucas Mendes ou o Hélio Costa para a Rede Globo de Televisão. Fincará o pé no chão e defenderá - com ânimo e animosidade - a ideia de que tais acontecimentos são impossíveis. Mas... domingo à noite, o que parecia non sense é mostrado no vídeo da televisão. Aí, o que acontecerá com a maioria da maioria das pessoas? Por certo, elas darão um giro de 180 graus, desses de cantar o solado das havaianas, que a ideia, "coitadita", irá se espatifar no chão da sala. Afinal, Globo dixit.
E o que ela não diz? Pois há muita gente, aqui e alhures (mais alhures), dando o seu "showzinho" da vida, que a Globo nem dá sinal de. São pessoas que fazem do coração tripas e que a Globo não as "fantastiquiza". Quem sabe lá o que é fantástico segundo o gabarito global? Fantástico, para mim, é quando alguém faz das fraquezas força e, não bastando isso, ainda precisa das nossas. Sim, mas a credulidade, acreditem, não é uma delas. Pelo menos para efeito deste artigo.
Kevin O'Hagan, físico irlandês - Conseguiu virar num passa-paredes, façanha até então colocada no rol das impossibilidades. E, assim, atrair a atenção dos órgãos de espionagem, contra-espionagem e contra-contra-espionagem do mundo inteiro. Um dia, desapareceu do mapa: CIA e KGB trocaram acusações de sequestro (de cárcere privado, não). Entretanto, o que houve foi que O'Hagan, sem saber dosar bem essa concessão da Física, foi parar no centro da Terra.
Pablito Navarro, criança espanhola - É, para muitos, o principal símbolo da resistência à escola moderna. Pablito, certa vez, ofereceu uma inocente (porém envenenada) maçã à sua professora. Envenenada, nada: a mestra saiu ilesa daquela refeição, digamos, frugal. E Pablito teve de assistir, inúmeras vezes, ao filme "Cria Cuervos" para aprender onde é que tinha errado.
Barry Williams, militar inglês - Durante a II Guerra Mundial, integrando um grupo de elite, Barry participou de temerárias missões em pleno território alemão. Numa delas, furtou todo o estoque de repolhos em conserva da dispensa particular do Führer. Lembrado até hoje por sua grande coragem, o militar inglês só fazia corpo mole para missões no norte da África. É que lá havia a única coisa capaz de detê-lo: coice de girafa.
Toh Lokoloko, filólogo papuásio - Dedicou a vida à "esperantização" dos setecentos dialetos de Papua-Nova Guiné, seu país natal. Em princípio, bem-sucedido (a palavra barafunda, por exemplo, já era compreendida de costa a costa) quando, por motivo desconhecido, resolveu se matar, deixando uma carta-testamento indecifrável. Quanto à palavra barafunda, esta se manteve na tradição oral de sua gente embora com setecentos significados diferentes.
B. Abbas, faquir indiano - Abbas foi o mais famoso faquir da região do Bangalore. Deixava-se encerrar num esquife de vidro onde dava concorridos jejuns de noventa dias corridos. Num desses espetáculos jejunos, que azar, ele foi visto com dois chifres de vaca assomando da boca, e mais gordo do que nunca. "Abbas jiboiava", no parecer de um crítico do faquirismo. Desacreditado, sem bilheteria, tempos depois ele morria de fome.
Estel Trudeau, estelionatário francês - Vendeu oito vezes a Torre Eiffel. Um dos compradores, o sexto, de nome Pierre, encontrando-se depois com ele num café parisiense, e querendo reaver o dinheiro perdido, pensou em surrá-lo com uma baguette. Mas Trudeau, habilmente, não só convenceu Pierre da lisura daquela transação como ainda lhe vendeu, por uma pechincha, o Arco do Triunfo. Assim, ficou o escrito pelo não escriturado, e Pierre, o bom Pierre, é hoje o feliz proprietário dos dois monumentos históricos. Falta apenas se acostumar com o riso ostensivo das autoridades francesas.
André e Luf, xifópagos do País de Tangas (que vai mal, obrigado) - É voz geral que eles são assim-assim por influência dos miasmas teratógenos existentes no país, nos últimos vinte anos. Unha-e-carne. Nas veias do primeiro corre sangue italiano, nas do segundo, sangue árabe. Contudo - Dio e Allah são grandes! - podem se separar. No comenos (quando um come menos) de uma briga de foice CONVENCIONAL. Vamos conferir, torcida.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

PRAIA DE IRACEMA

A Praia de Iracema
(Uma mulher que não esconde a idade.)
Me possui. Tem os cordéis da saudade
Que me prendem nela. Eu piso
Suas ruas de pedras toscas. Eu organizo
A imensa responsabilidade de ser
Seu amante. De bem conhecer
Sua boca, suas taras
Potiguaras, Tabajaras
Seu regaço, seus pés
Guanacés, Tremembés
Suas ancas, seus quadris
Groaíras, Cariris
A Praia de Iracema - reflito
Em seu silêncio ecoa o meu grito.

Fortaleza, 03/11/79

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

VIVO E CHUTANDO

Abandonado na selva amazônica, serei depois recebido, triunfalmente, pelas sociedades geográficas interessadas em minha descoberta de mais um importante afluente do Rio Solimões.
Jogado ao mar com os olhos vendados, os pulsos atados, a âncora de uma pedra no pescoço, farei na volta um relatório do que ainda não foi explorado pelos batiscafos.
Atirado sobre as neves eternas dos Andes, regressarei horas após para contar a história de minha sobrevivência a alguns amigos na sorveteria da esquina.
Empurrado na cratera do Etna, sairei incólume e com a certeza de que, nos arredores, os moradores não serão tão cedo molestados pelo vulcão.
Para encurtar:
Desistam de acabar comigo, pois eu estarei sempre... 

ALIVE AND KICKING!

Fortaleza, 27/10/79

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

SABE QUEM DANÇOU?

Autores: Paulo Gurgel e Airton Monte

O mundo taí mesmo
Com sua cara sonsa
Seu ar blasé...
Que será que ele trama
Pra mim?

O mundo taí mesmo
Que amigo da onça
É tão joyeux...
Preparou-me uma cama,
Pois sim.

Ele toca uma música manjada
Ele toca uma música safada
Um tal de "cão-cão".
Mas, benzinho, eu estou tão cansada
Mon cheri, eu estou entediada
E só danço can-can.

Só existe atualmente a letra da canção. A música não teve registro fonográfico nem foi colocada em partitura.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

ANGRA DE DESEJOS

Autores: Paulo Gurgel Carlos da Silva, Antonio Airton Machado Monte e Idalina Maria Cordeiro

Sou a estrela que te guia
Sou teu pecado carnal
Sou feiticeira da noite
Sou tem bem, sou teu mal.
Porto aberto a mil vontades
Angra de desejos, cais
Qual prazer que o ventre acoita
E em desejos se desfaz.
Deusa amedrontada
Despe os sete véus
Dança em minha cabeça
Como a fada de um bordel.
Pelo curto tempo
De uma eternidade
Faz de tua dança
Um perfeito par com a minha vontade.
Marinheiro, viajeiro
De outros mares navegante
Tens em mim corpo seguro
Para o teu barco errante.

Esta canção existia apenas como música até o dia (uma tarde) em que a apresentei ao escritor Airton Monte e à cantora Idalina Cordeiro e, juntos, compusemos a letra acima. Inscrita por Idalina para o Festival Crédimus da Canção - 1980, ficou entre as 46 canções classificadas para a apresentação no referido festival. Foi apresentada no Ginásio Coberto do Sesc, no dia 3 de julho de 1980 (quinta-feira), por Idalina (voz), Paulinho (violino), um violonista (de cujo nome não me lembro) e por mim (violão).

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

NO ESPINHEIRO DA REALIDADE

Numa certa época, o Brasil era um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza. O celeiro do mundo, onde se plantando tudo dava. Nossos bosques tinham mais vida, nossa vida, mais amores.
Dava gosto ser brasileiro!
Um dia, entusiasmado com a exuberância da Terra brasilis, Stefan Zweig a chamou de... País do Futuro. Aquilo foi uma ducha gelada em nosso coração febril. Então, não éramos o violino di spalla no concerto entre as nações?
Ficaram assim adiadas as comemorações do ufanismo nacional.
Depois de atirados no espinheiro da realidade mudamos um pouco. Passamos a aceitar que o país não estava bem, mas tínhamos uma "ilha de prosperidade". E essa ilha, pasmem os senhores, era o Ceará velho de guerra. Quando a gente olhava em torno e não via por onde... Víamos apenas a propaganda oficial que, martelando a todo instante, tentava dar a impressão de aqui ter o corno da abundância (duplo epa!). Até que uma instituição, analisando taxas econômicas e vitais, colocou o Estado em seu devido lugar: o terceiro mais estropiado do país.
Tentou-se, então, deslocar o foco para Fortaleza, apesar do reducionismo desta nova proposta. Porém, eram tantas as favelas na capital cearense (cerca de 250) que, ao cabo das exclusões, só sobrou a Aldeota. O bairro que abriga mansões, apartamentos de luxo, flats etc. Mas... olhando bem: riqueza e pobreza também convivem nesta parte da cidade. Não, não pode ser a Aldeota em sua totalidade.
Talvez... uma rua do bairro, um quarteirão ou, para não me alongar muito, uma casa.
A residência de um barão no exato momento que ele está a receber um grupo de socialites.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

CONVERSA AO PÉ DO TELEFONE

Ao pé, sim, de pé é que nunca. Gosto de estirar-me no sofá, os pés para cima, porque é assim que um cristão deve telefonar. O fio do aparelho - que é "esticável" - suporta bem tais descontrações.
Lembro-me daquela propaganda na televisão em que os dedos representavam as pernas das pessoas à procura de bens e serviços. Como a propor que o cansativo trabalho das pernas fosse substituído - com economia de tempo e esforço - pelo leve trabalho dos dedos no disco do telefone.
Além disso, andar pouco evita o jet lag.
As linhas cruzadas eram uma diversão à parte. Perdeu a graça quando a brincadeira foi institucionalizada, recebendo o nome de disque-amizade.
Descubro em minha secretária eletrônica que uma amiga me ligara em três oportunidades deixando recados. Vai, eu ligo três vezes para ela (que, como sempre, não está em casa) e deixo recados na secretária eletrônica dela (epa!). Nunca conversamos em tempo real.
Com a vida por um "trim", ocorre-me procurar meu psiquiatra. Ele tem sido um porto seguro em todas minhas situações de naufrágio iminente. Mas, agora, ele  só atende os clientes na portaria de seu edifício... pelo interfone.
Saio a me divertir no fliperama. Bato o recorde de um jogo... sem ter conhecido meus adversários passados. Os nomes deles aparecem no vídeo, com os respectivos pontos marcados, mas eu nunca os vi mais gordos, mais frustrados.
Retorno para casa. É onde eu posso fazer um eletrocardiograma pelo telefone. Não, não estou tendo arritmia, é tudo angústia.
Então, ligo para o Centro de Valorização da Vida. que é uma forma de continuar tudo como antes.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

UMA PROPOSTA INDECOROSA

Brasileiras e brasileiros assistiram pela televisão a última fala do presidente José Sarney, durante a qual ele anunciou que aceitaria abrir mão de um ano do mandato. Ele trocaria, de bom grado, os seis anos na Presidência por cinco, conquanto não se falasse mais em quatro ou três. É compreensível o beau geste presidencial: Sarney perde no boi para não perder o boi.
Aí entra em cena o Sr. Júlio Marcondes de Moura, prefeito de Garça, uma cidade do interior paulista, que resolve ganhar no boi. Reúne algumas centenas de colegas prefeitos e vereadores em sua cidade para pedir uma prorrogação de dois anos em seus mandatos. Passariam de seis para oito anos. Porque seria irracional promover eleições municipais em 1988, se haverá outras eleições em 1990.
Pois é, o Sr. Moura, que é prefeito de Garça, agora quer ser prefeito de graça. Ele ambiciona um mandato maior sem precisar gastar um cruzado em campanha eleitoral (em que pode inclusive se dar mal).
Verifica-se uma ampla adesão à tese do prorrogacionismo. Além do conspirador de Garça, um bom número deles, residentes em Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro, já passaram telegramas de apoio. O que me faz lembrar que pode reproduzir o resultado de uma pesquisa realizada no Congo Belga (Macaco, você quer banana?).
Como cidadão brasileiro (em dia com os impostos) eu aproveito para protestar. Senadorzinho Moura, permita-me que assim o chame em consideração ao que pretende, depois de seis anos de sacrifícios não é justo que a Nação cobre mais tempo de seus representantes municipais. Já se vão seis anos de meias semanas com três meses de férias anuais de grande labor. Para que continuar se matando nesse esquema de "oito e oitenta"? Oito anos de mandato a oitenta salários mínimos ao mês (o que ganha, por exemplo, um vereador em Fortaleza)?
Ora, vá ter o seu merecido descanso, Senadorzinho.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

CRISTÓVAO

- O tempo frio e chuvoso
nos reterá, Divindade.
- Ah, se fosses mais zeloso
co'a tua pontualidade!...
- Atendo, como de praxe,
mas longe fica a outra margem.
- Cristóvão, meu santo táxi,
por que remanchas na viagem?
- Subestimei, Deus Menino,
em tua augusta pesagem.
- Cristóvão, santo mofino,
não denigras tua imagem.
- O tempo passa... e a gente
esmorece, fica gasta...
- Por que és contigo exigente?
Labutas sem ter um basta!
- Talvez por me opor ao ócio
de uma aposentadoria.
- Então, um outro negócio
ameno te serviria?
- Já pensei noutros ofícios,
em tarefas mais suaves...
- Entretanto, os sacrifícios
arrostas. Quais os entraves?
- Aos irmãos, na correnteza,
quem vai prestar valimento?
- Louvo-te por tua grandeza.
Não tens um emolumento?
- Queres Tu saber? Explico:
Pagam-me com ingratidão.
- Paciência... que eu te indico
pr'uma canonização.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

PAPO FURADO

Sr, Redator,
Desde que o comércio, com a venda de bonés, camisetas, chaveiros e outros badulaques, deitou e rolou nos carpetes estendidos para o Papa, eu tinha me convencido de que nada mais faltava para ser mercadejado. Puro engano. Pois logo tomei conhecimento de um fato que me desmentiria: a Telesiará vai cobrar pelo papo furado (Aqui não confundir com a Teleceará que não tem nada a ver.)  Minha primeira reação foi olhar para o calendário. Não, não era ainda 1984, o temível ano em que a privacidade do cidadão morrerá - de vez - de hemoptise. Além do mais, a Telesiará não conseguiria realizar uma ampla escuta em nossos telefones sem entrar em linha cruzada com o SNI. Então, qual seria seu modus operandi? No próximo parágrafo.
Num rasgo de objetividade a Telesiará deu uma de "conceituadora": o papo furado é o que leva quatro (ou mais) minutos. Não me interessa aqui discutir a entrada dela nas águas territoriais do Instituto de Pesos e Medidas e sim como ela agiu para chegar à tal conclusão? Talvez, com a ajuda de algum calculista saído dos contos de Malba Tahan. (Todo mundo sabe que prosa se mede em dedos, ora.) Mas, o fato é que ela não cuidou de que já existe um processo mais simples, o qual consiste em cobrar a "conversação informal" aos usuários, de um modo semelhante ao que acontece com a iluminação pública. E por que assim não procedeu? No próximo parágrafo.
Simples: a Telesiará optou pela imagem do bom-mocismo. Passa a combater os perdulários da palavra (o que todo mundo vê) quando, no fundo, no fundo do bolso os estima (o que ninguém vê). Dá nitidez às primeiras intenções para que as segundas, ofuscadas, não sejam percebidas pelos usuários mais impertinentes. Aqueles que vivem a escrever às redações dos jornais "protestando contra tal estado de coisas etc." Mas eu, não. Não participo dessas passeatas postais. Se, por um lado, estou sendo ácido em meus comentários, por outro, até terço com o público para que colabore com a Telesiará (em suas primeiras intenções, evidentemente). A lei anti-miolo-de-pote não mais se discute, já é uma realidade. Agora, o que fazer? No próximo parágrafo.
Adaptar-se aos novos tempos. Coisa que se consegue fácil, fácil, com a adoção de algumas medidas pelo interessado leitor que, como eu, não quer viver ao arrepio da lei:
1) Procurar a orientação de fonólogo competente para corrigir qualquer vestígio de gagueira.
2) Reciclar os conhecimentos sobre siglas (o tempo que se economiza ao chamar o Departamento Nacional de Obras contra as Secas simplesmente de DNOCS, só para dar um exemplo).
3) Restringir-se no pernicioso hábito de ouvir as transmissões radiofônicas de futebol para não se impregnar daquele linguagem hiperredudante.
4) Abastecer-se de gírias (a expressão "tá ruço" é mais eloquente do que um discurso inteiro do Chico Pinto), não dispensando nem mesmo as que estão fora de uso, tais como "ai da base", "castigou legal" etc.
5) Tentar, enfim, haja o que houver, conservar o pânico toda a vez em que estiver ao aparelho de Bell.
Em tempo
O assunto que aí vai pode ser lido em 3 minutos e 17 segundos, não sendo, portanto, um papo furado.

Cartas do Povo, 28 de setembro de 1980

sexta-feira, 27 de julho de 2012

SONETO VULGAR


O melhor lugar-comum é aqui e agora.

O fato consumado
O tolo devaneio
O prêmio cobiçado
O infundado receio

O súbito lampejo
A lágrima furtiva
O incontido desejo
A resposta agressiva

A sede insaciável
A perda irreparável
A vã filosofia

A ideia magistral
O susto colossal
A suprema ironia.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A LUTA DO SÉCULO

Os jornais noticiaram o sequestro fracassado de um avião de uma empresa irlandesa por L. J. Downey, um ex-monge, que pretendia transviar o a aparelho para Teerã. Acometido da "síndrome da Galveas", que o conduzia ao despropósito de querer acontecer em Teerã, o ex-monge exigia ainda, para libertar os reféns, a publicação de uma mensagem religiosa nos jornais de Dublin, Irlanda. Prometendo, coisa de dar com a língua na prótese dentária, revelar na oportunidade "o maior segredo de todos os tempos".
O maior segredo, correspondendo ao terceiro dos que foram revelados aos pequeninos de Fátima, o qual versaria sobre o Fim do Mundo.
Como, porém, estabelecer a conexão do tal segredo com a viagem do monge sequestrador à cidade iraniana?
Complexo, meu caro Watson.
Antes de tudo, façamos uma análise dos antecedentes de L. J. Downey:
1) Monge trapista em um convento romano, cumprindo voto de silêncio, enquanto apurava os ouvidos para compensar a desativação das cordas vocais. Com o passar dos tempos, é provável que a sua audição tenha-se desenvolvido a ponto de perceber até os passinhos de uma formiga em sua roseira de estimação. Durante a vida monástica, consta ainda que ele gozou o direito de emitir duas palavras, para cada dez anos de silêncio, do seguinte modo: "cama dura", "comida fria" e "eu desisto". Deixando feliz, com estas duas últimas palavras, o superior da congregação assim que viu partir um espírito tão quereloso. Um péssimo exemplo!
Prosseguindo: 2) Guia turístico no santuário de Fátima, um local perfeito para fazer espionagens místicas. 3) Temporada em Dublin, pois, afinal, é na terra dos outros que um profeta solta as transas.
Juntemos agora o que foi exposto acima à pretensa viagem dele a Teerã. Pois bem, perto desta cidade, em Qom, é que deita e rola o aiatolá Khomeini, o qual, por muito tempo, vem representando o Anticristo para o mundo ocidental.
Convencido de que Khomeini era mesmo o Anticristo, L. J. Downey - é o que supomos - tencionava ir ao encontro dele. A fim de que o aiatolá agenciasse o que poderia ser "A Luta do Século". A Luta do Século para Todos os Séculos, Amém, entre o Falcão da Califórnia e o Urso da Sibéria, dois contendores que há tempos vêm aquecendo os músculos.
Mas, o ex-monge trumbicou-se na missão. E ninguém logrou assistir, por enquanto, a uma justa que - sejamos justos - só poderia terminar em nocaute. Nocaute generalizado: dos lutadores, dos segundos, do juiz e de todos nós, espectadores interessados ou não.

Mino,
Para evitar o nocaute use a saída de emergência. A arca de Noé não será "reeditada".

Publicado em "A Ferragista", de maio de 1981, e nas "Cartas do Povo", de 26 de maio de 1981