Assistimos ao boom dos videogames. Em todos os lares, os pais estão sendo pressionados pelos filhos para que adquiram o último modelo lançado. Tão sistemática é essa pressão que os pais, sacrificando o orçamento doméstico, acabam finalmente cedendo. Então, olha lá a garotada a apertar os botões dos joy-sticks, vivendo nas telas aventuras mil. Muitas vezes, envolvendo os velhos na brincadeira, porque o diabo do jogo é gostoso mesmo. E vicia em qualquer idade.
Mas... eu fico pensando se em nossas cidades não já estamos participando, mesmo involuntariamente, de alguns games.
Pivetes no sinal - O jogador tem que sincronizar a velocidade do carro com a abertura do sinal em cada cruzamento. Pegando sinal fechado é obrigado a parar o veículo. Quando então aparece uma bateria de pivetes oferecendo laranjas, bichos de pelúcia, jornais, água mineral... Na compra, não pode ultrapassar o dinheiro que leva na carteira ou o jogo é encerrado. O pivete que passa a flanela no para-brisa pode também arranhar a lataria do carro, e o jogador deve escapar dele assim que o sinal abrir. E, em cada bateria de pivetes, um está armado de gilete a fim de cortar a sua face. O jogador deve mostrar a sua habilidade levantando antes o vidro do carro.
Bum-eiro - Quatro mil bueiros que podem explodir a qualquer momento. Você deve percorrer a Cidade Maravilhosa sem ser atingido por suas explosões. Ganha o jogador que, atendendo a essa exigência, fizer o percurso mais longo.
Outros jogos (em desenvolvimento) - Ocupem favela, Enchentes, Saidinha bancária etc.
Pensamento
Videogames não tornam as crianças violentas. Proibi-las de jogar, sim.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
sexta-feira, 18 de maio de 2012
BAIXARIAS
Baixo no tipo físico e, como se isso não fosse tudo, fui um dos baixos do Coral Universitário em 1971.
Sob a regência do maestro Orlando, nos reuníamos aos sábados, à tarde, no Conservatório Alberto Nepomuceno. E ensaiávamos peças folclóricas e do cancioneiro popular, enquanto esperávamos o dia em que iríamos encantar o público.
Era 1971: o ano do meu internato na Faculdade de Medicina! Atividades nos dois turnos, rodízio nas várias clínica e plantões. Além disso, responsabilidades extracurriculares em dois hospitais da cidade. Parecia improvável que, com tantos compromissos, eu pudesse ainda participar de um coral. Mas... aquelas tardes de sábado eram a oportunidade que eu tinha para espairecer. Ao lado de grandes amigos, como o engenheiro Osternes (irmão do compositor Brandão), o odontólogo Ivan Meira e o veterinário Nelson Coelho.
Antes dos ensaios com o maestro Orlando Leite, éramos separados em grupos. Baixos, tenores, contraltos e sopranos, os chamados quatro naipes do coral. E cada grupo, por sua vez, recebia a orientação de um monitor, em geral um aluno do curso superior de Música. Sabendo ler partitura, o monitor era quem nos passava a nossa parte nos arranjos musicais. E nós a aprendíamos de ouvido.
As vesperais findavam com os naipes do coral reunidos sob a regência do maestro Orlando. Ficava, modéstia à parte, aquela coisa belíssima. Ouvissem, por exemplo, a canção "Eu não existo sem você", de Tom e Vinicius, em que nós, os baixos, cantávamos:: "sei, eu sei, a vida assim, que nada levará de mim". Pronunciávamos apenas as sílabas que correspondiam às notas graves do arranjo. Uma moleza, reconheço.
Era comum algum participante do coral levar um amigo para testes. Os requisitos eram poucos: boa vontade e ser universitário; não era exigido conhecimentos de teoria musical. Uma vez admitido, tinha de ser assíduo. Nelson, por exemplo, foi levado por mim. Alto e espigado, Nelson deu a impressão inicial a Elói de que viera ao mundo para ser tenor. Elói era o monitor encarregado naquele dia de fazer a avaliação. Ele teclou ao piano uma nota bem aguda, que Nelson, a voz gravíssima, tentou reproduzir. Aquela nota, solfejada por Nelson, o bom Elói só foi encontrá-la a oitavas de distância. Apesar do jeitão, o amigo era outro baixo!
Os baixos ensaiávamos numa sala do pavimento superior do Conservatório. Terezinha, nossa monitora, para pegar a afinação do lá, descia até o térreo onde ficavam os pianos. Não tinha o chamado ouvido absoluto, o que não era nenhum desdouro (ouvido absoluto é um dom). Agora, por que não carregava consigo o simplérrimo apito de lá, de modo a evitar tantas e incessantes incursões ao piano, é isso até hoje um mistério para mim.
Numa ocasião, tentávamos cantar as notas de uma música que já constava de nosso repertório, e nunca a tínhamos achado tão difícil. Até que um dos baixos protestou: "Nesse tom eu só sei roncar". Desconfiada de que algo estava errado, Terezinha correu à sala do piano para conferir a afinação e de onde voltou esbaforida. Pois não é que o "baixinho" tinha razão. Na subida anterior pela escada, "o lá tinha descido um pouco", foi como ela se justificou para nós.
Sob a regência do maestro Orlando, nos reuníamos aos sábados, à tarde, no Conservatório Alberto Nepomuceno. E ensaiávamos peças folclóricas e do cancioneiro popular, enquanto esperávamos o dia em que iríamos encantar o público.
Era 1971: o ano do meu internato na Faculdade de Medicina! Atividades nos dois turnos, rodízio nas várias clínica e plantões. Além disso, responsabilidades extracurriculares em dois hospitais da cidade. Parecia improvável que, com tantos compromissos, eu pudesse ainda participar de um coral. Mas... aquelas tardes de sábado eram a oportunidade que eu tinha para espairecer. Ao lado de grandes amigos, como o engenheiro Osternes (irmão do compositor Brandão), o odontólogo Ivan Meira e o veterinário Nelson Coelho.
Antes dos ensaios com o maestro Orlando Leite, éramos separados em grupos. Baixos, tenores, contraltos e sopranos, os chamados quatro naipes do coral. E cada grupo, por sua vez, recebia a orientação de um monitor, em geral um aluno do curso superior de Música. Sabendo ler partitura, o monitor era quem nos passava a nossa parte nos arranjos musicais. E nós a aprendíamos de ouvido.
As vesperais findavam com os naipes do coral reunidos sob a regência do maestro Orlando. Ficava, modéstia à parte, aquela coisa belíssima. Ouvissem, por exemplo, a canção "Eu não existo sem você", de Tom e Vinicius, em que nós, os baixos, cantávamos:: "sei, eu sei, a vida assim, que nada levará de mim". Pronunciávamos apenas as sílabas que correspondiam às notas graves do arranjo. Uma moleza, reconheço.
Era comum algum participante do coral levar um amigo para testes. Os requisitos eram poucos: boa vontade e ser universitário; não era exigido conhecimentos de teoria musical. Uma vez admitido, tinha de ser assíduo. Nelson, por exemplo, foi levado por mim. Alto e espigado, Nelson deu a impressão inicial a Elói de que viera ao mundo para ser tenor. Elói era o monitor encarregado naquele dia de fazer a avaliação. Ele teclou ao piano uma nota bem aguda, que Nelson, a voz gravíssima, tentou reproduzir. Aquela nota, solfejada por Nelson, o bom Elói só foi encontrá-la a oitavas de distância. Apesar do jeitão, o amigo era outro baixo!
Os baixos ensaiávamos numa sala do pavimento superior do Conservatório. Terezinha, nossa monitora, para pegar a afinação do lá, descia até o térreo onde ficavam os pianos. Não tinha o chamado ouvido absoluto, o que não era nenhum desdouro (ouvido absoluto é um dom). Agora, por que não carregava consigo o simplérrimo apito de lá, de modo a evitar tantas e incessantes incursões ao piano, é isso até hoje um mistério para mim.
Numa ocasião, tentávamos cantar as notas de uma música que já constava de nosso repertório, e nunca a tínhamos achado tão difícil. Até que um dos baixos protestou: "Nesse tom eu só sei roncar". Desconfiada de que algo estava errado, Terezinha correu à sala do piano para conferir a afinação e de onde voltou esbaforida. Pois não é que o "baixinho" tinha razão. Na subida anterior pela escada, "o lá tinha descido um pouco", foi como ela se justificou para nós.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
CORRE(I)ÇÃO
Sr. Editor,
Há algum tempo enviei-lhe uma carta em que fazia oportunas considerações a respeito do Congresso Nacional. Presumo que ela não tenha sido publicada, até o momento, devido ao excesso de termos bajulatórios que empreguei ao escrevê-la.
Ainda assim, rogo que publique em seu jornal (*) a sobredita carta, após atualizá-la com as seguintes alterações:
Afinal, temos o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar.
(*) O missivista não se lembra de que jornal estava a se referir nesta carta da década de 1980.
Há algum tempo enviei-lhe uma carta em que fazia oportunas considerações a respeito do Congresso Nacional. Presumo que ela não tenha sido publicada, até o momento, devido ao excesso de termos bajulatórios que empreguei ao escrevê-la.
Ainda assim, rogo que publique em seu jornal (*) a sobredita carta, após atualizá-la com as seguintes alterações:
- Acrescentar ao adjetivo "capaz", que aparece na oitava linha da carta, a expressão "de tudo".
- Substituir a expressão "fruto do trabalho", que aparece na décima quinta linha, por "furto no trabalho".
Afinal, temos o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar.
(*) O missivista não se lembra de que jornal estava a se referir nesta carta da década de 1980.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
OS 7 ANÕES DO ORÇAMENTO
Estes sete anões quem são? Sete parlamentares de baixa estatura física. Complementa-lhes a baixa estatura moral.
Na Grécia antiga havia sete sábios; no Brasil moderno são sete sabidos.
Fiéis ao número, vinham pintando o sete no Orçamento. Cada um com seus sete fôlegos e, em conjunto, formando uma hidra, um bicho-de-sete-cabeças.
Como a Hidra de Lerna, à espera de um Hércules que possa combatê-los. E dar-lhes, ao final, uma merecida sepultura política de sete palmos.
Homúnculos-de-sete-instrumentos, utilizavam-se de pé-de-cabra, chave-mestra, máscara, maçarico, gazua, dinamite e... um saco de aniagem para botar a pilhagem.
Quarenta ladrões? Nunca mais! Atendendo aos reclamos da modernidade, Ali Babá enxugou a folha de pessoal para sete anões.
Um que representa todos: João Alves, cujo espectro vai da felicidade à raiva. Aproveita-se da Era Dunga (em que vivemos) para dar seus golpes de Mestre. Fica Dengoso com o apurado e cai numa boa Soneca. Feliz com os bilhetes premiados em mais de duzentas loterias. Dá uns espirros - Atchim - porque o dinheiro não está bem limpo. Mas, ultimamente, por causa de uma CPI tem andado bastante Zangado.
Pelo dedo se conhece o gigante. Pela mão, se conhece o anão: mão-leve!
Na Grécia antiga havia sete sábios; no Brasil moderno são sete sabidos.
Fiéis ao número, vinham pintando o sete no Orçamento. Cada um com seus sete fôlegos e, em conjunto, formando uma hidra, um bicho-de-sete-cabeças.
Como a Hidra de Lerna, à espera de um Hércules que possa combatê-los. E dar-lhes, ao final, uma merecida sepultura política de sete palmos.
Homúnculos-de-sete-instrumentos, utilizavam-se de pé-de-cabra, chave-mestra, máscara, maçarico, gazua, dinamite e... um saco de aniagem para botar a pilhagem.
Quarenta ladrões? Nunca mais! Atendendo aos reclamos da modernidade, Ali Babá enxugou a folha de pessoal para sete anões.
Um que representa todos: João Alves, cujo espectro vai da felicidade à raiva. Aproveita-se da Era Dunga (em que vivemos) para dar seus golpes de Mestre. Fica Dengoso com o apurado e cai numa boa Soneca. Feliz com os bilhetes premiados em mais de duzentas loterias. Dá uns espirros - Atchim - porque o dinheiro não está bem limpo. Mas, ultimamente, por causa de uma CPI tem andado bastante Zangado.
Pelo dedo se conhece o gigante. Pela mão, se conhece o anão: mão-leve!
sexta-feira, 27 de abril de 2012
A VERDADE É UMA SÓ...
... TODO MUNDO MENTE
"Everybody lies." Dr. House
Anfitrião: - Ainda é cedo.Autoridade: - Determinei a abertura de um rigoroso inquérito.
Secretária: - O chefe está em reunião.
Médico: - Não é para se preocupar.
Atendente: - O doutor saiu para atender uma emergência.
Dentista: - Não vai doer nada.
Bêbado: - Esta é a saideira.
Governo: - Não haverá pacote.
Curador: - O artista é antes de tudo autêntico.
Impotente: - Isto nunca me aconteceu antes.
Orador: - E para finalizar...
sexta-feira, 20 de abril de 2012
COMO IDENTIFICAR UM CALHORDA
- Ele chama a mulher de patroa.
- Ele dobra um dos cantos do cartão de visita.
- Ah, meu Deus, ele tem cartão de visita!
- Na hora de pagar a conta num restaurante, ele faz estardalhaço e graceja com o garçom.
- Mas é lento em sacar a carteira.
- Ele trai a amante e as garotas de programa com a esposa.
- Só aparece desacompanhado no swing.
- Muito fala, dá bom dia a cavalo.
- Faz dos ouvidos dos outros pinico.
- Não tem preconceito de ter preconceitos.
- Pratica a filha-da-putice em estado de arte.
- Nem a morte vai redimi-lo.
Marcadores:
INÉDITO
Local:
Fortaleza - CE, Brasil
sexta-feira, 13 de abril de 2012
LIÇÕES DE VIDA
Com Benjamin: aprendi a não desejar ser o caçula da família - o estuário de todos os croques.
Com Não-Euclides, meu professor de Matemática: aprendi a importância de estudar a geometria não-euclidiana.
De Paulo Gurgel Sênior, meu pai: veio-me a sabedoria sobre a madureza dos limões. Há que se colher, de preferência, os que já estão bicados pelos passarinhos.
Com o relojoeiro Rústico: aprendi que se deve usar um relógio em todas as horas, minutos e segundos.
A Simonides: devo a paixão pela ópera, o mais belo dos espetáculos apesar da música.
A Apius: devo minha iniciação em numismática, a qual, em um momento de necessidade, fez surgir algum dinheiro atual.
Com Papillon: aprendi que uma colisão com uma frágil borboleta pode causar uma comoção cerebral, dependendo da forma como se dá.
Com Bonaparte: aprendi a única coisa que não se recomenda fazer com uma espada. Sentar-se nela!
Com Josué: aprendi como fazer parar o sol no firmamento. É meio desonesto mas ajuda a ganhar uma batalha.
Com Nero: aprendi a só atear fogo às vestes quando elas se encontram no varal.
De Aracne: veio-me a técnica de fiar confiando.
Com Quasímodo: aprendi a ter uma melhor postura na vida.
Com Não-Euclides, meu professor de Matemática: aprendi a importância de estudar a geometria não-euclidiana.
De Paulo Gurgel Sênior, meu pai: veio-me a sabedoria sobre a madureza dos limões. Há que se colher, de preferência, os que já estão bicados pelos passarinhos.
Com o relojoeiro Rústico: aprendi que se deve usar um relógio em todas as horas, minutos e segundos.
A Simonides: devo a paixão pela ópera, o mais belo dos espetáculos apesar da música.
A Apius: devo minha iniciação em numismática, a qual, em um momento de necessidade, fez surgir algum dinheiro atual.
Com Papillon: aprendi que uma colisão com uma frágil borboleta pode causar uma comoção cerebral, dependendo da forma como se dá.
Com Bonaparte: aprendi a única coisa que não se recomenda fazer com uma espada. Sentar-se nela!
Com Josué: aprendi como fazer parar o sol no firmamento. É meio desonesto mas ajuda a ganhar uma batalha.
Com Nero: aprendi a só atear fogo às vestes quando elas se encontram no varal.
De Aracne: veio-me a técnica de fiar confiando.
Com Quasímodo: aprendi a ter uma melhor postura na vida.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
PLÁSTICO SUJO SE LAVA EM CASA?
Numa das capitais do Nordeste brasileiro, as autoridades sanitárias municipais resolveram adotar uma nova medida. Fazer com que os barraqueiros, ao servirem bebidas e comidas a seus fregueses, usassem apenas recipientes descartáveis. E, para que não considerassem a norma descabida, foram todos os barraqueiros conscientizados sobre a importância da medida como uma forma de preservar a saúde da clientela. Abolindo assim, de uma vez por todas, o pouco higiênico costume que eles tinham de lavar suas louças em água não corrente (que só muito raramente era trocada).
Fora, portanto, os baldes com água onde os pratos e os copos eram mergulhados para retirar as sujidades. Quanto ao custo adicional, representado pela compra do material descartável, ora, poderia o mesmo ser repassado para os preços dos tiragostos e das bebidas. Afinal, tudo na vida tem um ônus.
Posta em prática a salutar medida, alguns dias após, uma equipe de televisão retornou ao local das barracas para fazer uma matéria. Barraqueiros e fregueses foram entrevistados.
Eis o depoimento da proprietária de uma das barracas:
Fora, portanto, os baldes com água onde os pratos e os copos eram mergulhados para retirar as sujidades. Quanto ao custo adicional, representado pela compra do material descartável, ora, poderia o mesmo ser repassado para os preços dos tiragostos e das bebidas. Afinal, tudo na vida tem um ônus.
Posta em prática a salutar medida, alguns dias após, uma equipe de televisão retornou ao local das barracas para fazer uma matéria. Barraqueiros e fregueses foram entrevistados.
Eis o depoimento da proprietária de uma das barracas:
"O secretário tá certo, meu senhor. Em querer proteger a saúde da população, não é mesmo? E nós já tamos cumprindo a lei. Prato, copo e talher, tudo aqui é de prástico. Mas... ô material trabalhoso para a gente lavar!"
sexta-feira, 30 de março de 2012
AMIGO E DINHEIRO
Amigo é pra essas coisas
Silvio Silva Júnior/Aldir Blanc
- Salve!
- Como é que vai?
- Amigo, há quanto tempo!
- Um ano ou mais...
- Posso sentar um pouco?
- Faça o favor.
- A vida é um dilema
- Nem sempre vale a pena...
- Pô...
- O que é que há?
- Rosa acabou comigo.
- Meu Deus, por quê?
- Nem Deus sabe o motivo.
- Deus é bom.
- Mas não foi bom pra mim.
- Todo amor um dia chega ao fim.
- Triste...
- É sempre assim.
- Eu desejava um trago.
- Garçom, mais dois.
- Não sei como eu lhe pago.
- Se vê depois.
- Estou desempregado...
- Você está mais velho.
- É...
- Vida ruim.
- Você está bem disposto.
- Também sofri.
- Mas não se vê no rosto.
- Pode ser...
- Você foi mais feliz.
- Dei mais sorte com a Beatriz.
- Pois é..
- Tudo bem.
- Pra frente é que se anda.
- Você se lembra dela?
- Não.
- Lhe apresentei...
- Minha memória é fogo!
- E o l´argent?
- Defendo algum no jogo.
- E amanhã?
- Que bom se eu morresse!
- Pra quê, rapaz?
- Talvez Rosa sofresse.
- Vá atrás!
- Na morte a gente esquece.
- Mas no amor a gente fica em paz.
- Adeus
- Toma mais um.
- Já amolei bastante.
- De jeito algum!
- Muito obrigado, amigo.
- Não tem de quê.
- Por você ter me ouvido.
- Amigo é pra essas coisas.
- Tá...
- Tome um cabral.
- Sua amizade basta.
- Pode faltar.
- O apreço não tem preço, eu vivo ao Deus dará
Silvio Silva Júnior/Aldir Blanc
- Salve!
- Como é que vai?
- Amigo, há quanto tempo!
- Um ano ou mais...
- Posso sentar um pouco?
- Faça o favor.
- A vida é um dilema
- Nem sempre vale a pena...
- Pô...
- O que é que há?
- Rosa acabou comigo.
- Meu Deus, por quê?
- Nem Deus sabe o motivo.
- Deus é bom.
- Mas não foi bom pra mim.
- Todo amor um dia chega ao fim.
- Triste...
- É sempre assim.
- Eu desejava um trago.
- Garçom, mais dois.
- Não sei como eu lhe pago.
- Se vê depois.
- Estou desempregado...
- Você está mais velho.
- É...
- Vida ruim.
- Você está bem disposto.
- Também sofri.
- Mas não se vê no rosto.
- Pode ser...
- Você foi mais feliz.
- Dei mais sorte com a Beatriz.
- Pois é..
- Tudo bem.
- Pra frente é que se anda.
- Você se lembra dela?
- Não.
- Lhe apresentei...
- Minha memória é fogo!
- E o l´argent?
- Defendo algum no jogo.
- E amanhã?
- Que bom se eu morresse!
- Pra quê, rapaz?
- Talvez Rosa sofresse.
- Vá atrás!
- Na morte a gente esquece.
- Mas no amor a gente fica em paz.
- Adeus
- Toma mais um.
- Já amolei bastante.
- De jeito algum!
- Muito obrigado, amigo.
- Não tem de quê.
- Por você ter me ouvido.
- Amigo é pra essas coisas.
- Tá...
- Tome um cabral.
- Sua amizade basta.
- Pode faltar.
- O apreço não tem preço, eu vivo ao Deus dará
Dinheiro é pra essas coisas
Paródia: Paulo Gurgel, 1992
- Salve!
- Como é que vai?
- Cruzeiro, há quanto tempo!
- Um ano ou mais...
- Posso sentar um pouco?
- Faça o favor.
- A vida é um sufoco.
- Nem sempre existe troco...
- Pô...
- O que é que há?
- Collor acabou comigo.
- Meu Deus, por quê?
- Nem Deus soube o boato.
- Foi o over.
- Ah, não foi bom pra mim.
- Todo ativo um dia chega ao fim.
- Triste...
- É sempre assim.
- Eu desejava um ajuste.
- Congresso faz.
- Não sei quando é o embuste.
- Ora, rapaz.
- Estou tão bloqueado...
- Você está de volta.
- É...
- Ágio ruim.
- Você está bem enxuto.
- Também sofri.
- Não sobe o dólar um puto.
- Pode ser...
- Você foi mais feliz.
- Dei mais sorte com o tal Eris.
- Pois é...
- Tudo bem.
- Pacote é que manda.
- Se lembra da poupança?
- Não.
- Lhe indiquei...
- A garantia foi-se!
- E o CDB?
- Pior do que um coice.
- E a inflação?
- Ah, se recrudescesse...
- Pra quê, rapaz?
- Talvez Zélia sofresse...
- Vá atrás!
- Cabral não a esquece.
- Mas em casa a gente fica em paz.
- Adeus.
- Tá dois por um.
- Já despenquei bastante.
- Ziriguidum!
- É muito ágio, amigo.
- Compensa não.
- Vou acabar falido.
- Dinheiro é pra essas coisas.
- Peço...
- Vá ao leilão.
- A liquidez não dá.
- Pra liberar.
- Se tudo aumenta o preço, eu saio do colchão.
Paródia: Paulo Gurgel, 1992
- Salve!
- Como é que vai?
- Cruzeiro, há quanto tempo!
- Um ano ou mais...
- Posso sentar um pouco?
- Faça o favor.
- A vida é um sufoco.
- Nem sempre existe troco...
- Pô...
- O que é que há?
- Collor acabou comigo.
- Meu Deus, por quê?
- Nem Deus soube o boato.
- Foi o over.
- Ah, não foi bom pra mim.
- Todo ativo um dia chega ao fim.
- Triste...
- É sempre assim.
- Eu desejava um ajuste.
- Congresso faz.
- Não sei quando é o embuste.
- Ora, rapaz.
- Estou tão bloqueado...
- Você está de volta.
- É...
- Ágio ruim.
- Você está bem enxuto.
- Também sofri.
- Não sobe o dólar um puto.
- Pode ser...
- Você foi mais feliz.
- Dei mais sorte com o tal Eris.
- Pois é...
- Tudo bem.
- Pacote é que manda.
- Se lembra da poupança?
- Não.
- Lhe indiquei...
- A garantia foi-se!
- E o CDB?
- Pior do que um coice.
- E a inflação?
- Ah, se recrudescesse...
- Pra quê, rapaz?
- Talvez Zélia sofresse...
- Vá atrás!
- Cabral não a esquece.
- Mas em casa a gente fica em paz.
- Adeus.
- Tá dois por um.
- Já despenquei bastante.
- Ziriguidum!
- É muito ágio, amigo.
- Compensa não.
- Vou acabar falido.
- Dinheiro é pra essas coisas.
- Peço...
- Vá ao leilão.
- A liquidez não dá.
- Pra liberar.
- Se tudo aumenta o preço, eu saio do colchão.
sexta-feira, 23 de março de 2012
FAMÍLIAS
Ter família é uma tendência que se observa nos seres em geral. Uma tendência da qual não escapam nem mesmo os seres inanimados. Como os gases nobres, a Coca-Cola e as pizzas.
Já ser família é outra coisa. É excludente. Exige-se que a pessoa seja honesta, recatada e de boa índole. A menos que queira ser a ovelha negra da família.
Em número de membros, a maior família do Brasil é, ao que tudo indica, a dos Silvas. Num artigo, A Convenção da Família Silva, eu já me preocupei com a impossibilidade desta "megafamília", à qual inclusive pertenço, um dia fazer a sua convenção.
Mas há outras famílias também interessantes. Senão, vejamos:
A família Júnior - Reúne o Fábio Júnior, o Blota Júnior, o Teragram Júnior, o Chevette Júnior e o jogador Júnior, entre outros. Seus membros abreviaram o nome para Jr., adaptando-se ao internetês.
A família Di - Seus principais expoentes foram o pintor di Cavalcanti, o Didi "Folha Seca" e a Lady Di (apesar da pronúncia anglicana de seu nome). Atualmente, há o Didi dos Trapalhões.
A família Maravilha - Tem a Elke, a Mara e o Fio (de quem todos nós gostamos).
A família Tutu - Tem o Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz, a ex-deputada Tutu Quadros e, que não venha mais cá, o Tutu Marambá.
Nome de família dá muita confusão. Numa apresentação, não ouvindo bem a pronúncia de um sobrenome, eu pedi que a pessoa me confirmasse, se era Espínola ou Espíndola. Era Espínola, ele não tinha o "D" feito, OK, ficou então explicado.
Mas pior foi o que o mesário de uma sessão eleitoral certa vez aprontou. Durante a chamada dos votantes da sessão, trocou o nome de um certo Quintino Reis da Costa por... Quinhentos Réis da Bosta.
Além disso, a numerologia tem feito seus estragos. A cantora Sandra Sá, que mudou o nome para Sandra de Sá, e Jorge Ben, para Jorge Benjor, pioraram artisticamente com as mudanças. Mas a facção do PCB, que mudou para PC do B, não. A que continuou PCB, e que depois virou o nauseante PPS, foi a que piorou.
O apego pelo nome da família é algo muito relativo. Nem todo mundo inclui no cartão de visita os nomes de todas as famílias que contribuíram para a formação de seu genoma. Eu, por exemplo, sou Amaral, Lacerda, Coelho, Noronha e muito mais, mas não porto estes nomes comigo.
Alguns vultos históricos, porém, conservaram os sobrenomes de quase todos os antepassados. Como Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança, o Dom Pedro II, que tinha um ajudante de ordens só para lembrar a sequência. E como Pablo Diego José Francisco de Paulo Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santíssima Trinidad Ruiz y Picasso, que, para evitar o cansaço, subscrevia-se Pablo Picasso.
Melhor assim do que, no meio desse cipoal de nomes, cometer alguma distração. Do tipo que o trovista Ayrton Christovam um dia relatou:
Já ser família é outra coisa. É excludente. Exige-se que a pessoa seja honesta, recatada e de boa índole. A menos que queira ser a ovelha negra da família.
Em número de membros, a maior família do Brasil é, ao que tudo indica, a dos Silvas. Num artigo, A Convenção da Família Silva, eu já me preocupei com a impossibilidade desta "megafamília", à qual inclusive pertenço, um dia fazer a sua convenção.
Mas há outras famílias também interessantes. Senão, vejamos:
A família Júnior - Reúne o Fábio Júnior, o Blota Júnior, o Teragram Júnior, o Chevette Júnior e o jogador Júnior, entre outros. Seus membros abreviaram o nome para Jr., adaptando-se ao internetês.
A família Di - Seus principais expoentes foram o pintor di Cavalcanti, o Didi "Folha Seca" e a Lady Di (apesar da pronúncia anglicana de seu nome). Atualmente, há o Didi dos Trapalhões.
A família Maravilha - Tem a Elke, a Mara e o Fio (de quem todos nós gostamos).
A família Tutu - Tem o Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz, a ex-deputada Tutu Quadros e, que não venha mais cá, o Tutu Marambá.
Nome de família dá muita confusão. Numa apresentação, não ouvindo bem a pronúncia de um sobrenome, eu pedi que a pessoa me confirmasse, se era Espínola ou Espíndola. Era Espínola, ele não tinha o "D" feito, OK, ficou então explicado.
Mas pior foi o que o mesário de uma sessão eleitoral certa vez aprontou. Durante a chamada dos votantes da sessão, trocou o nome de um certo Quintino Reis da Costa por... Quinhentos Réis da Bosta.
Além disso, a numerologia tem feito seus estragos. A cantora Sandra Sá, que mudou o nome para Sandra de Sá, e Jorge Ben, para Jorge Benjor, pioraram artisticamente com as mudanças. Mas a facção do PCB, que mudou para PC do B, não. A que continuou PCB, e que depois virou o nauseante PPS, foi a que piorou.
O apego pelo nome da família é algo muito relativo. Nem todo mundo inclui no cartão de visita os nomes de todas as famílias que contribuíram para a formação de seu genoma. Eu, por exemplo, sou Amaral, Lacerda, Coelho, Noronha e muito mais, mas não porto estes nomes comigo.
Alguns vultos históricos, porém, conservaram os sobrenomes de quase todos os antepassados. Como Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança, o Dom Pedro II, que tinha um ajudante de ordens só para lembrar a sequência. E como Pablo Diego José Francisco de Paulo Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santíssima Trinidad Ruiz y Picasso, que, para evitar o cansaço, subscrevia-se Pablo Picasso.
Melhor assim do que, no meio desse cipoal de nomes, cometer alguma distração. Do tipo que o trovista Ayrton Christovam um dia relatou:
O escrivão, veja você
Ao registrar o Carvalho
Esqueceu de pôr o "V"
E até hoje ainda dá galho.
sexta-feira, 16 de março de 2012
É A LÍNGUA IMEXÍVEL?
Nos últimos tempos, nossos políticos e tecnocratas têm andado às voltas com a tarefa de criar novas palavras para a língua falada no Brasil. Que, dizem uns, se tratar de português, e outros, de brasileiro mesmo. Não entrando no mérito de tal discussão, já que não tenho uma opinião formada sobre o assunto, uma coisa, porém, eu afirmo. A língua que Arraes chorou no exílio está sendo, como nunca, invadida por neologismos.
Resta ver com qual finalidade. Muitas vezes, os neologismos são criados para preencher necessidades da comunicação, isso é fato. E o idioma precisa deles para o seu rejuvenescimento, assim como se descarta de outras vocábulos que vão virar arcaísmos. Feito uma árvore que todo dia estreia novas folhas, desfazendo-se de outras já sem viço. E, queiram ou não, a mais corriqueira das palavras um dia já foi neologismo.
O insuperável Guimarães Rosa a três por quatro inventava palavras. Novos modos de arrumá-las, concatená-las, tal e coisa. São exemplos de composições tipicamente rosianas: "maquiavelhaco" (maquiavélico+velhaco), "enormonho" (enorme+medonho). No conto "Uns Inhos Engenheiros", em que ele descreve a construção de um ninho por um casal de passarinhos, há um brotar tamanho de palavras que o espetáculo apresenta um frescor, um encanto nunca vistos. Como se fosse a vez primeira em que isso acontecesse na Natureza e, ao ocorrer lá estivesse o olhar divertido de um homem que, paralelamente, criasse uma linguagem só para lhes celebrar a façanha.
O gênio de Cordisburgo, no dizer da scholar norte-americana Mary L. Daniel, parecia querer a língua que se falava antes de Babel. E, por isso, ele amalgamava, forçava, torcia e a submetia a experiências as mais audazes. Muitas vezes encontrando inéditos sentidos para as frases e palavras, mas... estou a falar de um artista no ato da criação. Nossos homens públicos, ao que se sabe, não chegam a tanto.
A atual temporada iniciou-se com o famoso "imexível" do ministro Magri (por sinal, o mais mexível dos ministros do Governo Collor). A que se seguiu o "dessazonalizar" do Kandir, com o aparente significado de que se deve subtrair os produtos sazonais (roupas de inverno, por exemplo) do cálculo dos índices de inflação. E, mais recentemente, o "orfanizado" do José Inácio, o líder do governo no Senado Federal, para caracterizar que há categorias necessitadas de uma lei que as proteja numa livre negociação.
O assunto com vistas a Houaiss, que nos promete um grande dicionário. Já que o Aurélio, autor do "Novo Dicionário da Língua Portuguesa", não mais se acha entre nós (foram suas últimas palavras "zwinglianismo" e "zingliano"). Então, meu bom Houaiss, que tal incluir em sua obra os verbetes "apoiamento" e "propositura"? Tão apreciados por nossos homens públicos, destinam-se a substituir "apoio" e "proposta".
Sei não, mas se a língua existe para ocultar o pensamento, como alguém já disse, tudo começa a fazer sentido. Uma língua em processo de expansão só pode é ocultar muito mais, exatamente o que esses senhores gostam de fazer.
Resta ver com qual finalidade. Muitas vezes, os neologismos são criados para preencher necessidades da comunicação, isso é fato. E o idioma precisa deles para o seu rejuvenescimento, assim como se descarta de outras vocábulos que vão virar arcaísmos. Feito uma árvore que todo dia estreia novas folhas, desfazendo-se de outras já sem viço. E, queiram ou não, a mais corriqueira das palavras um dia já foi neologismo.
O insuperável Guimarães Rosa a três por quatro inventava palavras. Novos modos de arrumá-las, concatená-las, tal e coisa. São exemplos de composições tipicamente rosianas: "maquiavelhaco" (maquiavélico+velhaco), "enormonho" (enorme+medonho). No conto "Uns Inhos Engenheiros", em que ele descreve a construção de um ninho por um casal de passarinhos, há um brotar tamanho de palavras que o espetáculo apresenta um frescor, um encanto nunca vistos. Como se fosse a vez primeira em que isso acontecesse na Natureza e, ao ocorrer lá estivesse o olhar divertido de um homem que, paralelamente, criasse uma linguagem só para lhes celebrar a façanha.
O gênio de Cordisburgo, no dizer da scholar norte-americana Mary L. Daniel, parecia querer a língua que se falava antes de Babel. E, por isso, ele amalgamava, forçava, torcia e a submetia a experiências as mais audazes. Muitas vezes encontrando inéditos sentidos para as frases e palavras, mas... estou a falar de um artista no ato da criação. Nossos homens públicos, ao que se sabe, não chegam a tanto.
A atual temporada iniciou-se com o famoso "imexível" do ministro Magri (por sinal, o mais mexível dos ministros do Governo Collor). A que se seguiu o "dessazonalizar" do Kandir, com o aparente significado de que se deve subtrair os produtos sazonais (roupas de inverno, por exemplo) do cálculo dos índices de inflação. E, mais recentemente, o "orfanizado" do José Inácio, o líder do governo no Senado Federal, para caracterizar que há categorias necessitadas de uma lei que as proteja numa livre negociação.
O assunto com vistas a Houaiss, que nos promete um grande dicionário. Já que o Aurélio, autor do "Novo Dicionário da Língua Portuguesa", não mais se acha entre nós (foram suas últimas palavras "zwinglianismo" e "zingliano"). Então, meu bom Houaiss, que tal incluir em sua obra os verbetes "apoiamento" e "propositura"? Tão apreciados por nossos homens públicos, destinam-se a substituir "apoio" e "proposta".
Sei não, mas se a língua existe para ocultar o pensamento, como alguém já disse, tudo começa a fazer sentido. Uma língua em processo de expansão só pode é ocultar muito mais, exatamente o que esses senhores gostam de fazer.
sexta-feira, 9 de março de 2012
TURMAS
Quando era moleque, algumas vezes acompanhei a turma do bairro numa insensata missão. Circular em bando pelas ruas de outro bairro - por pura provocação! Iniciando (ou revidando) o que eles faziam com a gente quando vinham a nosso bairro. Havia troca de palavrões, mostrar de músculos e, ao final, uma correria da turma visitante, o que geralmente impedia de o conflito assumir maiores proporções.
Vivermos em bairros diferentes era o único fato que alimentava essa rivalidade. A sociologia, a que cabe elucidar essa forma de comportamento grupal, deve ter alguma explicação. Do tipo: um grupo hostiliza outro grupo por que aquele vê neste como que uma ameaça à sobrevivência. E, transportando isso para a relação entre as nações, entende-se por que as guerras são um nunca acabar.
Na história contemporânea a gente vê o quanto o povo de um país pode ser induzido ao estado de beligerância. Se lhe oferecem uma liturgia de signos, paradas, hinos, oratória marcial, culto à raça e uma arquitetura monumental e triunfalista. Se lhe incentivam a se organizar em legiões e milícias juvenis. Goebbles, Hitler, Mussolini, Stalin, Peron, Mao, Franco e Salazar foram grandes manipuladores desse universo kitsch.
Meu lugar era na retaguarda. Que é onde deve ficar o serviço de saúde de uma tropa.
DE UM TRATADO DE GUERRA PUERIL
(2) Sinônimos: bodoques, estilingues, baladeiras.
(3) Para recomeçar tudo no dia seguinte.
A vantagem era que "ninguém matava, ninguém morria".
Vivermos em bairros diferentes era o único fato que alimentava essa rivalidade. A sociologia, a que cabe elucidar essa forma de comportamento grupal, deve ter alguma explicação. Do tipo: um grupo hostiliza outro grupo por que aquele vê neste como que uma ameaça à sobrevivência. E, transportando isso para a relação entre as nações, entende-se por que as guerras são um nunca acabar.
Na história contemporânea a gente vê o quanto o povo de um país pode ser induzido ao estado de beligerância. Se lhe oferecem uma liturgia de signos, paradas, hinos, oratória marcial, culto à raça e uma arquitetura monumental e triunfalista. Se lhe incentivam a se organizar em legiões e milícias juvenis. Goebbles, Hitler, Mussolini, Stalin, Peron, Mao, Franco e Salazar foram grandes manipuladores desse universo kitsch.
Meu lugar era na retaguarda. Que é onde deve ficar o serviço de saúde de uma tropa.
DE UM TRATADO DE GUERRA PUERIL
- Toda e qualquer desavença poderá ser a causa do estado de beligerância. (1)
- As armas permitidas serão as atiradeiras. (2) O uso de outros instrumentos de combate será considerado um procedimento aético.
- A munição necessária para a refrega será suprida pelas carrapateiras que existem nos terrenos baldios do bairro.
- No calor da contenda serão toleradas as referências desabonadoras às mães dos combatentes.
- Não existirá a figura do prisioneiro de guerra. Todos terão que lutar até o fim.
- As partes beligerantes acordam suspender o combate um pouco antes da hora do jantar. (3)T
(2) Sinônimos: bodoques, estilingues, baladeiras.
(3) Para recomeçar tudo no dia seguinte.
A vantagem era que "ninguém matava, ninguém morria".
sexta-feira, 2 de março de 2012
CAPICUAS
A capicua (palavra de origem catalã: "cap i cua", cabeça e cauda) é um conjunto de números cujo reverso é ele próprio. É um tipo de palíndromo numérico ou palíndromo da matemática. Alguns exemplos: 11, 123, 23432 e 3456543.
Uma técnica de obtenção de um capicua é pegar-se um determinado número, inverter a ordem de seus dígitos e somar o número obtido ao número original, obtendo-se um novo número e repetindo-se este processo até chegar a um número capicua. Exemplo: tendo-se 84, invertendo-se, obtém-se 48; 84+48=132; e 132+231=363.
Os palíndromos numéricos com datas são mais interessantes. Em 11/02/2011, ocorreu um destes. E hoje, 21/02/2012, está ocorrendo outro.
No entanto, encontrar uma simetria que inclua horas e minutos em uma data é bem mais difícil. No milênio passado, ocorreu uma às 11h11 de 11 de Novembro do ano 1111, formando a sequência 11h11 11/11/1111. Outra ocorreu às 20h02 no dia 20 de fevereiro de 2002, formando a sequência 20h02 20/02/2002. E a próxima vez será somente às 21h12 de 21 de dezembro de 2112, que formará a sequência 21h12 21/12/2112.
No dominó, a pedra que pode finalizar o jogo, de um lado ou de outro, é também chamada de capicua (segundo o Aurélio).
"Capicuas" integra com "Anagramas" e "Palíndromos" uma espécie de trilogia de textos correlacionados, que foram iniciados na década de 1980 e só agora concluídos. A estes, pode se acrescentar um quarto texto, "Escrevendo com números", já publicado na mídia impressa ("A Ferragista" e "Opinião do Leitor") e no Preblog.
Uma técnica de obtenção de um capicua é pegar-se um determinado número, inverter a ordem de seus dígitos e somar o número obtido ao número original, obtendo-se um novo número e repetindo-se este processo até chegar a um número capicua. Exemplo: tendo-se 84, invertendo-se, obtém-se 48; 84+48=132; e 132+231=363.
Os palíndromos numéricos com datas são mais interessantes. Em 11/02/2011, ocorreu um destes. E hoje, 21/02/2012, está ocorrendo outro.
No entanto, encontrar uma simetria que inclua horas e minutos em uma data é bem mais difícil. No milênio passado, ocorreu uma às 11h11 de 11 de Novembro do ano 1111, formando a sequência 11h11 11/11/1111. Outra ocorreu às 20h02 no dia 20 de fevereiro de 2002, formando a sequência 20h02 20/02/2002. E a próxima vez será somente às 21h12 de 21 de dezembro de 2112, que formará a sequência 21h12 21/12/2112.
No dominó, a pedra que pode finalizar o jogo, de um lado ou de outro, é também chamada de capicua (segundo o Aurélio).
"Capicuas" integra com "Anagramas" e "Palíndromos" uma espécie de trilogia de textos correlacionados, que foram iniciados na década de 1980 e só agora concluídos. A estes, pode se acrescentar um quarto texto, "Escrevendo com números", já publicado na mídia impressa ("A Ferragista" e "Opinião do Leitor") e no Preblog.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
PALÍNDROMOS
Os palíndromos são palavras ou frases que podem ser lidas da esquerda para a direita e vice-versa, sempre com o mesmo significado. Exemplos: A DIVA É MOTE E TOM É A VIDA (ao Tom Jobim) e À D. ANA: DÁS UMA DANADA (à Ana, mulher do Tom). Estes dois palíndromos foram criados por Fraga, ao tempo em que o "Pasquim" abriu uma temporada sobre o assunto.
Há muitos outros exemplos: O SÓ REMETER É TEMEROSO, SOMAR SOB OS RAMOS, A TROPA À PORTA, EVA ASSE E PAPE ESSA AVE, ALI ROGO RETER O GORILA, SOCORRAM MARROCOS, ROMA ME TEM AMOR, O TREPONEMA É AMENO PERTO, ATIRA O CASACO À RITA, A TORRE DA DERROTA, A CARA RAJADA DA JARARACA, ZÉ DE LIMA - RUA LAURA MIL E DEZ etc.
Para "palindromizar" exige-se um vocabulário acima da média e uma boa dose de paciência. Escolhe-se um tema (nome) para centralizar o trabalho nele. O tema é o ponto em que o palíndromo se espelha para os lados. Se houver uma letra-chave, que não permita o retorno, aí está o "miolo" do palíndromo.
Vale tudo no palíndromo: Non sense, livre pensar, achado sonoro (aliterações e cacofonias são ótimos resultados). Até bobagens são bem-vindas (porque são exercícios que levam à boa técnica). Mas o ideal é perseguir uma frase que enuncie uma clara intenção ou contenha alguma "substância", além do mero efeito vai-vem.
Ainda é Fraga que dá estas dicas: "Evite construir com grupos consonantais duros (inflexíveis à inversão). CH, NC, ND, SC, entre outros, são pedras no caminho. Já BL, CL, BR, CR, GR, TR, VR, entre tantos, são domesticáveis. Use e abuse dos L, M, R, S, pois estas quatro letras, garantindo início/fim de mil combinações, são a base corriqueira dos palíndromos."
Outro recurso que salva construções é a pontuação. Como diz o "palindromista de plantão" do "Pasquim": "Dois pontos, vírgulas, pontos de interrogação etc. são boias no mar das dificuldades e servem para quebrar, unir, enfatizar ou suavizar uma frase. Nenhum palíndromo vai aparecer para você na posição que Napoleão perdeu a guerra. Tem que forçar a submissão dos termos!"
É música para os ouvidos saber que há também o palíndromo... musical. Eis um exemplo:
Quanto ao "antipalíndromo": existe? Segundo alguns, ele existe. Sempre que frase pode ser lida ao contrário, porém com um significado diferente: ATÉ, CUBANOS! ROMA.
SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS
Mais do que um palíndromo, a frase acima é considerada um "quadrado mágico". Como são 5 palavras de 5 letras, as mesmas podem ser dispostas adequadamente de modo a formar um quadrado, o qual pode ser lido na horizontal ou na vertical, para a direita ou para a esquerda, para baixo ou para cima.
Em função dessa espantosa simetria, a frase foi usada como um talismã na Antiguidade. Três de suas cinco palavras são claramente latinas: tenet (manter, ocupar, dirigir, governar), opera (obra, ação, trabalho, processo, ou uma forma verbal correspondente) e rotas (rodas, círculos, ciclos, disco do sol). Uma das hipóteses é de que a misteriosa frase tenha sido cunhada pelo escravo romano Loreius. Mas, por não ser totalmente de formação latina, Giba Assis acha que traduzir essa frase como "o lavrador mantém cuidadosamente o arado nos sulcos" equivale a compor um "samba do escravo romano doido".
Ler também: Só papos
Há muitos outros exemplos: O SÓ REMETER É TEMEROSO, SOMAR SOB OS RAMOS, A TROPA À PORTA, EVA ASSE E PAPE ESSA AVE, ALI ROGO RETER O GORILA, SOCORRAM MARROCOS, ROMA ME TEM AMOR, O TREPONEMA É AMENO PERTO, ATIRA O CASACO À RITA, A TORRE DA DERROTA, A CARA RAJADA DA JARARACA, ZÉ DE LIMA - RUA LAURA MIL E DEZ etc.
Para "palindromizar" exige-se um vocabulário acima da média e uma boa dose de paciência. Escolhe-se um tema (nome) para centralizar o trabalho nele. O tema é o ponto em que o palíndromo se espelha para os lados. Se houver uma letra-chave, que não permita o retorno, aí está o "miolo" do palíndromo.
Vale tudo no palíndromo: Non sense, livre pensar, achado sonoro (aliterações e cacofonias são ótimos resultados). Até bobagens são bem-vindas (porque são exercícios que levam à boa técnica). Mas o ideal é perseguir uma frase que enuncie uma clara intenção ou contenha alguma "substância", além do mero efeito vai-vem.
Ainda é Fraga que dá estas dicas: "Evite construir com grupos consonantais duros (inflexíveis à inversão). CH, NC, ND, SC, entre outros, são pedras no caminho. Já BL, CL, BR, CR, GR, TR, VR, entre tantos, são domesticáveis. Use e abuse dos L, M, R, S, pois estas quatro letras, garantindo início/fim de mil combinações, são a base corriqueira dos palíndromos."
Outro recurso que salva construções é a pontuação. Como diz o "palindromista de plantão" do "Pasquim": "Dois pontos, vírgulas, pontos de interrogação etc. são boias no mar das dificuldades e servem para quebrar, unir, enfatizar ou suavizar uma frase. Nenhum palíndromo vai aparecer para você na posição que Napoleão perdeu a guerra. Tem que forçar a submissão dos termos!"
É música para os ouvidos saber que há também o palíndromo... musical. Eis um exemplo:
Quanto ao "antipalíndromo": existe? Segundo alguns, ele existe. Sempre que frase pode ser lida ao contrário, porém com um significado diferente: ATÉ, CUBANOS! ROMA.
SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS
Mais do que um palíndromo, a frase acima é considerada um "quadrado mágico". Como são 5 palavras de 5 letras, as mesmas podem ser dispostas adequadamente de modo a formar um quadrado, o qual pode ser lido na horizontal ou na vertical, para a direita ou para a esquerda, para baixo ou para cima.
Em função dessa espantosa simetria, a frase foi usada como um talismã na Antiguidade. Três de suas cinco palavras são claramente latinas: tenet (manter, ocupar, dirigir, governar), opera (obra, ação, trabalho, processo, ou uma forma verbal correspondente) e rotas (rodas, círculos, ciclos, disco do sol). Uma das hipóteses é de que a misteriosa frase tenha sido cunhada pelo escravo romano Loreius. Mas, por não ser totalmente de formação latina, Giba Assis acha que traduzir essa frase como "o lavrador mantém cuidadosamente o arado nos sulcos" equivale a compor um "samba do escravo romano doido".
Ler também: Só papos
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
ANAGRAMAS
Anagrama é palavra ou frase formada pela transposição das letras de outra palavra ou frase. Exemplos, com nomes de pessoas: Alice e Célia; Isabel e Belisa; Manoel e Leonam. Ao anagramatizar-se uma palavra, é possível, muitas vezes, se obter diversos vocábulos. Como na palavra peso, que forma pose e sopé, na palavra alegria, que dá galeria, alergia e Argélia e na palavra amor, que origina ramo, mora, Omar e Roma.
Em nosso idioma, costuma-se apontar o mais belo anagrama como sendo Iracema, o nome da heroína do romance de José de Alencar. Supondo-se que o romancista, ao criá-lo, tenha recorrido à palavra América. No entanto, rascunhos preservados do romance indicam que Alencar, antes de escolher o nome da "virgem dos lábios de mel", andou vacilando entre Iracema e Aracema.
Pelos curiosos resultados obtidos, compor anagrama já foi uma mania no passado. Luís XIII, rei da França, tinha um anagramista oficial. Outra mania foi o logogrifo que, ainda modernamente, tem seus adeptos (V. coluna "Logomania", de Luiz Carlos Bravo, no DN). Relacionado ao anagrama, o logogrifo é uma espécie de charada. O praticante, a partir de uma palavra-chave, cujas letras aparecem misturadas, deve formar o maior número possível de palavras com quatro letras ou mais. Exige-se, ainda, que uma letra - em destaque - conste de todas as palavras formadas, e que a palavra-chave seja decifrada no final.
Quando a palavra ou a frase pode ser lida da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, sempre com o mesmo sentido, aí temos o palíndromo. São exemplos de palindromos: osso; orava o avaro. Sendo com números, o fenômeno recebe o nome de capicua. 13531, por exemplo, é uma capicua. E, no dominó, a pedra que pode finalizar o jogo, de um lado ou de outro, idem (segundo o Aurélio). Na próximo número do tablóide, falarei sobre o palíndromo. Ele é também, no mínimo, um interessante exercício mental.
A formação anagramática tem sido um recurso muito usado com o fim de disfarce autoral. Utilizou-se desse recurso, Manoel du Bocage, ao adotar o pseudônimo arcádico Elmano Sadino (Elmano, anagrama do nome Manoel, e Sadino, uma homenagem ao rio Sado que atravessa Setúbal, a cidade natal de Bocage). Já Alcofibras Nasier foi o pseudônimo de François Rabelais. Sendo médico e religioso, Rabelais se valeu do pseudônimo anagramático para publicar os feitos de "Pantagruel" e "Gargantua", personagens de romances à época considerados obscenos. No Brasil, vários escritores usaram também o aludido recurso. Como Bastos Tigre, cujo criptônimo era D. Xiquote, anagrama de D. Quixote, com o qual assinava os seus textos satíricos. E como o grande Guimarães Rosa que, algumas vezes, subscreveu-se Soares Guiamar, mais um anagrama do que um pseudônimo.
Personagens de poemas e romances podem também ter nomes anagramatizados. Verifica-se isso, principalmente, no roman à clef, o romance baseado em pessoas e fatos reais.
O anagramista é o caricaturista do vocábulo. E, se o nome de uma pessoa em evidência dá tal oportunidade, caricatura-o sem dó. Como fez o Prof. João Hipólito ao modificar o nome de Getúlio Vargas para... Egoista Vulgar . E como fizeram os companheiros de Surrealismo de Salvador Dalí, ao modificarem o nome deste para... Avido Dollars, sob o pretexto de que o pintor catalão era um mercantilista.
Mas, em ocasiões, a criatura pode se voltar contra o criador. A exemplo disso, R. Magalhães Jr. relata o que um dia aconteceu ao anagramista francês César Coupé. Depois de umas tantas atazanações anagramáticas com os outros, Coupé se tornou vítima de seus colegas de passatempo. Ao ter o próprio nome anagramatizado, com grande malícia, para... cocu separé (corno separado).
Em nosso idioma, costuma-se apontar o mais belo anagrama como sendo Iracema, o nome da heroína do romance de José de Alencar. Supondo-se que o romancista, ao criá-lo, tenha recorrido à palavra América. No entanto, rascunhos preservados do romance indicam que Alencar, antes de escolher o nome da "virgem dos lábios de mel", andou vacilando entre Iracema e Aracema.
Pelos curiosos resultados obtidos, compor anagrama já foi uma mania no passado. Luís XIII, rei da França, tinha um anagramista oficial. Outra mania foi o logogrifo que, ainda modernamente, tem seus adeptos (V. coluna "Logomania", de Luiz Carlos Bravo, no DN). Relacionado ao anagrama, o logogrifo é uma espécie de charada. O praticante, a partir de uma palavra-chave, cujas letras aparecem misturadas, deve formar o maior número possível de palavras com quatro letras ou mais. Exige-se, ainda, que uma letra - em destaque - conste de todas as palavras formadas, e que a palavra-chave seja decifrada no final.
Quando a palavra ou a frase pode ser lida da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, sempre com o mesmo sentido, aí temos o palíndromo. São exemplos de palindromos: osso; orava o avaro. Sendo com números, o fenômeno recebe o nome de capicua. 13531, por exemplo, é uma capicua. E, no dominó, a pedra que pode finalizar o jogo, de um lado ou de outro, idem (segundo o Aurélio). Na próximo número do tablóide, falarei sobre o palíndromo. Ele é também, no mínimo, um interessante exercício mental.
A formação anagramática tem sido um recurso muito usado com o fim de disfarce autoral. Utilizou-se desse recurso, Manoel du Bocage, ao adotar o pseudônimo arcádico Elmano Sadino (Elmano, anagrama do nome Manoel, e Sadino, uma homenagem ao rio Sado que atravessa Setúbal, a cidade natal de Bocage). Já Alcofibras Nasier foi o pseudônimo de François Rabelais. Sendo médico e religioso, Rabelais se valeu do pseudônimo anagramático para publicar os feitos de "Pantagruel" e "Gargantua", personagens de romances à época considerados obscenos. No Brasil, vários escritores usaram também o aludido recurso. Como Bastos Tigre, cujo criptônimo era D. Xiquote, anagrama de D. Quixote, com o qual assinava os seus textos satíricos. E como o grande Guimarães Rosa que, algumas vezes, subscreveu-se Soares Guiamar, mais um anagrama do que um pseudônimo.
Personagens de poemas e romances podem também ter nomes anagramatizados. Verifica-se isso, principalmente, no roman à clef, o romance baseado em pessoas e fatos reais.
O anagramista é o caricaturista do vocábulo. E, se o nome de uma pessoa em evidência dá tal oportunidade, caricatura-o sem dó. Como fez o Prof. João Hipólito ao modificar o nome de Getúlio Vargas para... Egoista Vulgar . E como fizeram os companheiros de Surrealismo de Salvador Dalí, ao modificarem o nome deste para... Avido Dollars, sob o pretexto de que o pintor catalão era um mercantilista.
Mas, em ocasiões, a criatura pode se voltar contra o criador. A exemplo disso, R. Magalhães Jr. relata o que um dia aconteceu ao anagramista francês César Coupé. Depois de umas tantas atazanações anagramáticas com os outros, Coupé se tornou vítima de seus colegas de passatempo. Ao ter o próprio nome anagramatizado, com grande malícia, para... cocu separé (corno separado).
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
SOLIDARIEDADE
"Eu não acredito em caridade. Eu acredito em solidariedade. Caridade é vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro. A maioria de nós tem muito o que aprender com as outras pessoas." (Eduardo Galeano)
Solidariedade é a relação de responsabilidade que existe entre pessoas de um modo que cada elemento de um grupo se sinta na obrigação moral de apoiar os outros. Não foi um sindicato polonês que inventou esse conceito.
Nem é aplicável apenas no câncer, como dizia Otto Lara Rezende (a respeito dos mineiros).
A solidariedade requer desprendimento de quem se solidariza. Ajudar uma moça bonita a trocar um pneu de carro, para depois tentar uma carona para o motel, não entra na quota. Fazer cortesia com o chapéu ou o solidéu alheios, idem, idem.
Quem avisa amigo é? Não, não é só avisar pura e simplesmente. Na solidariedade, agente e paciente desse ato precisam estar vinculados emocionalmente. Do contrário, todas as placas de trânsito seriam solidárias.
Dá para acreditar na solidariedade do algoz que diz à vítima: "Acredite, vai doer mais em mim"? E na solidariedade do delegado que, após meter o preso numa enxovia, diz: "Estou do seu lado mas não abro"? Claro que não.
Em "Memórias póstumas de Brás Cubas", Machadão deixou esta para a posteridade: "Suporta-se com paciência a cólica do próximo." Trata-se, a meu ver, de outro não-exemplo.
Solidariedade quando tudo anda nos eixos não tem graça. Quero ver é se você daria a mão a alguém que esteja numa enrascada? Como estar sentado numa cadeira elétrica no exato instante em que a chave é acionada? Mas solidariedade que lembra o suicídio coletivo das baleias tem outro nome: é estultície.
Existem tribos em que o homem se isola para "sentir", a seu modo, as dores do parto. Por vezes, mostrando-se mais convincente do que a mulher. Desse comportamento primitivo é que resultaram o costume de "beber o mijo" da criança e a licença-paternidade. Além disso, como o bicho homem continua a evoluir, novas formas de solidariedade certamente surgirão nessa área.
E sabia que...
... só porque leu este artigo você acaba de praticar um ato de solidariedade?
Solidariedade é a relação de responsabilidade que existe entre pessoas de um modo que cada elemento de um grupo se sinta na obrigação moral de apoiar os outros. Não foi um sindicato polonês que inventou esse conceito.
Nem é aplicável apenas no câncer, como dizia Otto Lara Rezende (a respeito dos mineiros).
A solidariedade requer desprendimento de quem se solidariza. Ajudar uma moça bonita a trocar um pneu de carro, para depois tentar uma carona para o motel, não entra na quota. Fazer cortesia com o chapéu ou o solidéu alheios, idem, idem.
Quem avisa amigo é? Não, não é só avisar pura e simplesmente. Na solidariedade, agente e paciente desse ato precisam estar vinculados emocionalmente. Do contrário, todas as placas de trânsito seriam solidárias.
Dá para acreditar na solidariedade do algoz que diz à vítima: "Acredite, vai doer mais em mim"? E na solidariedade do delegado que, após meter o preso numa enxovia, diz: "Estou do seu lado mas não abro"? Claro que não.
Em "Memórias póstumas de Brás Cubas", Machadão deixou esta para a posteridade: "Suporta-se com paciência a cólica do próximo." Trata-se, a meu ver, de outro não-exemplo.
Solidariedade quando tudo anda nos eixos não tem graça. Quero ver é se você daria a mão a alguém que esteja numa enrascada? Como estar sentado numa cadeira elétrica no exato instante em que a chave é acionada? Mas solidariedade que lembra o suicídio coletivo das baleias tem outro nome: é estultície.
Existem tribos em que o homem se isola para "sentir", a seu modo, as dores do parto. Por vezes, mostrando-se mais convincente do que a mulher. Desse comportamento primitivo é que resultaram o costume de "beber o mijo" da criança e a licença-paternidade. Além disso, como o bicho homem continua a evoluir, novas formas de solidariedade certamente surgirão nessa área.
E sabia que...
... só porque leu este artigo você acaba de praticar um ato de solidariedade?
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
A LEI DA COMPENSAÇÃO
"Existe no mundo, meu irmão / a lei da compensação."
Jackson do Pandeiro
A lei da compensação pertence ao "ordenamento jurídico" do Universo. Como a lei da gravidade, a lei do eterno retorno e a lei geral dos gases.Deus tem utilizado essa lei em situações corriqueiras. Dando o frio conforme o cobertor, abrandando o vento para o carneiro tosquiado e só mandando a dor que uma pessoa possa suportar.
Radicalizou no caso Jó, é verdade. Mas foi criterioso com as cobras. Mesmo sendo elas só pescoço, Deus não lhes deu asas (e se tivesse dado... tinha-lhes tirado o veneno).
A lei da compensação é uma espécie de Bom-Bril de Deus. E, sendo Ele o Criador e o Incriado, eis outra compensação!
Na História, a lei amiúde está presente. Sabendo que o inimigo ia cobrir o sol de flechas numa batalha, Leônidas apelou para ela:
- Melhor, combateremos à sombra.
Houve um tempo em que os esquimós usavam anzóis como dinheiro. Era ruim para tirar do bolso, mas... para que a afobação? Eles têm um dia que dura seis meses.
Num hospital do SUS:
- Dr. Martins, chegando atrasado!?
- É, mas vou sair adiantado.
O comportamento do Dr. Martins, que não é tão incomum assim, é mais um dos exemplos da lei da compensação.
No futebol, a lei é muito usada pelos árbitros. Quando, por exemplo, eles favorecem um time com a marcação de um pênalti duvidoso, eles compensam anotando outro para o time adversário. Sacumé, eles têm medo de serem rotulados de arbitrários.
Agora, se você nunca montou num cavalo e lhe oferecem um cavalo que nunca foi montado, não vá nessa. É uma tergiversação da lei.
A lei da compensação é o que assegura que você vai receber amanhã o que você faz hoje a alguém, seja bom ou seja ruim.
Ruim é mais fácil de acontecer. Como na canção do Jackson em que o "Garrafão" passou a ser chamado de "vidro de penicilina", e o "Serrotão", "serrinha de aparar unha". PGCS
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
COMPARAÇÕES
MAIS...
... curto do que coice de porco.
... sujo do que poleiro.
... enfeitado do que penteadeira de rapariga.
... fraco do que caldo de bila.
... grosso do que papel de enrolar prego.
... escondido do que orelha de freira.
... por fora do que umbigo de vedete.
... por dentro do que água de coco.
... animado do que pinto no lixo.
... vermelho do que meia de bispo.
... inchado do que um baiacu.
... frio do que bunda de foca.
... feio do que mudança de pobre.
... remendado do que saia de cigana.... curto do que coice de porco.
... sujo do que poleiro.
... enfeitado do que penteadeira de rapariga.
... fraco do que caldo de bila.
... grosso do que papel de enrolar prego.
... escondido do que orelha de freira.
... por fora do que umbigo de vedete.
... por dentro do que água de coco.
... animado do que pinto no lixo.
... vermelho do que meia de bispo.
... inchado do que um baiacu.
... frio do que bunda de foca.
... feio do que mudança de pobre.
... fresco do que mês de julho.
... por fora do que arco de barril.
... quebrado do que arroz de terceira.
... liso do que rapariga na Sexta-Feira da Paixão.
... embolado do que angu de caroço.
... exibido do que carro de sorteio.
... suado do que tampa de chaleira.
... grosso do que dedo destroncado.
... surdo do que uma porta.
... tonto do que o índio amigo do Zorro.
... folgado do que charuto em boca de bêbado.
... velho do que a Sé de Braga.
... melado do que espinhaço de pão-doce.
... revirado do que mala de louco.
... ignorado do que aviso de praia poluída.
... folgado do que bolacha em boca de velho.
... ralo do que sopa de preso.
... chato do que um jogador de frescobol.
... antigo do que a moda da camisola nos anjos.
... furioso do que um touro espanhol.
... devagar do que hora de noivo.
... exposto do que bunda de mandril.
... bem recebido do que dinheiro em fim de mês.
... inútil do que peito de homem.
... beijado do que anel de cardeal.
... desajeitado do que embrulho de velocípede.
... perdido do que calcinha em lua-de-mel.
A comparação, segundo Hênio Tavares, é o confronto de dois ou mais objetos em que depreendemos algum ponto de contato. E, como tal, é um dos recursos básicos da linguagem humana.
Portanto, não subestimemos a importância da comparação; esta constitui o primeiro passo da metáfora (PGCS).
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
UM DIA NA VIDA DA IRMÃ LETÍCIA
O Brasil viu pela televisão a Irmã Letícia em sua atuação como refém voluntária na fuga de uns assaltantes de Goio-Erê. E foi graças a ela que o gerente de um banco se livrou de um sufoco que se arrastava há dias. Toda sorridente, a irmãzinha embarcou num avião e, no decorrer do voo, ainda tentou trazer de volta ao rebanho aquelas ovelhas desgarradas. Sem sucesso, é verdade.
O "Planeta Diário" criou três ou quatro quadros para descrever como seria um dia na vida da carismática irmã. Tem o mérito de haver sido o primeiro a mostrar. Porém, a religiosa leva uma vida tão intensa de trabalhos que não passa de uma pálida amostra o que o PD apresentou. A irmãzinha, no mais monótono de seus dias, tem um ritmo tão trepidante que poucos conseguiriam acompanhá-la.
Algo assim:
- A irmã responde uma carta do Green Peace em que se compromete a fechar o buraco da capa de ozônio da atmosfera. Com a parte do corpo que a entidade indicar, fazendo a ressalva para não ser com um dedo. A capa em questão não é dique holandês.
- A irmã se deixa encerrar num saco de gatos maracajás para dar pontos a uma equipe de gincana. E sai do saco lépida e faceira, cantando Dominique, nique, nique para o espanto de todos. Uma equipe participante da gincana ganha 50 pontos e a Irmã Letícia, outros 50 pontos mais vacinação antirrábica.
- O diabo transporta Irmã Letícia para uma colina onde lhe promete doar tudo o que a vista alcança. Inclui, a seguir, os recursos do subsolo. Mas ela lhe responde que não é de servir a dois senhores, ao mesmo tempo, pois se trata de uma acumulação ilícita de funções.
- Liga a um praticante de roleta russa para demovê-lo do tresloucado ato. O pobre diabo põe mais cinco balas no tambor do revólver e livra-se, para sempre, do vício e da religiosa.
- À noite, Irmã Letícia, que abandonou o cilício, põe um disco do Beto Barbosa na vitrola. E livra a pele, mas não os ouvidos, um martírio daqueles.
O "Planeta Diário" criou três ou quatro quadros para descrever como seria um dia na vida da carismática irmã. Tem o mérito de haver sido o primeiro a mostrar. Porém, a religiosa leva uma vida tão intensa de trabalhos que não passa de uma pálida amostra o que o PD apresentou. A irmãzinha, no mais monótono de seus dias, tem um ritmo tão trepidante que poucos conseguiriam acompanhá-la.
Algo assim:
- A irmã responde uma carta do Green Peace em que se compromete a fechar o buraco da capa de ozônio da atmosfera. Com a parte do corpo que a entidade indicar, fazendo a ressalva para não ser com um dedo. A capa em questão não é dique holandês.
- A irmã se deixa encerrar num saco de gatos maracajás para dar pontos a uma equipe de gincana. E sai do saco lépida e faceira, cantando Dominique, nique, nique para o espanto de todos. Uma equipe participante da gincana ganha 50 pontos e a Irmã Letícia, outros 50 pontos mais vacinação antirrábica.
- O diabo transporta Irmã Letícia para uma colina onde lhe promete doar tudo o que a vista alcança. Inclui, a seguir, os recursos do subsolo. Mas ela lhe responde que não é de servir a dois senhores, ao mesmo tempo, pois se trata de uma acumulação ilícita de funções.
- Liga a um praticante de roleta russa para demovê-lo do tresloucado ato. O pobre diabo põe mais cinco balas no tambor do revólver e livra-se, para sempre, do vício e da religiosa.
- À noite, Irmã Letícia, que abandonou o cilício, põe um disco do Beto Barbosa na vitrola. E livra a pele, mas não os ouvidos, um martírio daqueles.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
A ENTREVISTA DA MOSCA
- Você tem sido acusada de transportar um grande número de germes em suas patas...
- Ah, é? Nunca ninguém contou quantos germes um biólogo carrega nos sapatos.
- E também de viver no lixo.
- Me lixo pra isso.
- Gosta de estar em evidência?
- Isso é com a mosca azul.
- Que acha da expressão "acertar na mosca"?
- Detesto. Principalmente quando estou pousada num alvo.
- Também se amarra em pousar numa careca?
- Sim. A careca do Dr. Ulysses é a minha pista de pouso favorita.
- Soube que a ANC (*) andava às moscas?
- Sim, o seu melhor momento...
- Outra coisa que detesta?
- Rabo de cavalo.
- Ah, você não gosta desse penteado feminino?
- Não, não. Estou falando do rabo do animal... porque ele vive me mosqueando.
- Algum entretenimento, distração etc.?
- Sou muito doméstica. Mas frequento restaurantes, de preferência os conhecidos por frege-moscas.
- Agora, uma palavrinha final...
- Quando você se mosca?
- Não entendi.
- Quando você se manda, ó cara!
(*) Assembleia Nacional Constituinte
- Ah, é? Nunca ninguém contou quantos germes um biólogo carrega nos sapatos.
- E também de viver no lixo.
- Me lixo pra isso.
- Gosta de estar em evidência?
- Isso é com a mosca azul.
- Que acha da expressão "acertar na mosca"?
- Detesto. Principalmente quando estou pousada num alvo.
- Também se amarra em pousar numa careca?
- Sim. A careca do Dr. Ulysses é a minha pista de pouso favorita.
- Soube que a ANC (*) andava às moscas?
- Sim, o seu melhor momento...
- Outra coisa que detesta?
- Rabo de cavalo.
- Ah, você não gosta desse penteado feminino?
- Não, não. Estou falando do rabo do animal... porque ele vive me mosqueando.
- Algum entretenimento, distração etc.?
- Sou muito doméstica. Mas frequento restaurantes, de preferência os conhecidos por frege-moscas.
- Agora, uma palavrinha final...
- Quando você se mosca?
- Não entendi.
- Quando você se manda, ó cara!
(*) Assembleia Nacional Constituinte
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
COM BRINCO NÃO SE BRINCA
Deu-se o acontecimento num barzinho da moda na Aldeota. Minha mulher e eu bebericávamos por lá, quando ela, pondo a mão em uma das orelhas, subitamente exclamou: "perdi um dos brincos". E pôs-se a percorrer com o olhar o chão do barzinho, em busca de uma pequenina esfera de ouro que corresponderia ao brinco extraviado. Ajudada por mim que logo considerei um empreendimento difícil, tantas eram as reentrâncias do piso naquele lugar.
Pessoas das mesas vizinhas passaram a olhar com espanto aquele casal da vista baixa, isto é, nós. Reforçado, depois de algum tempo, pela participação do faxineiro da casa na busca, com vassoura e pazinha à mão. Mas o diabo do brinco não conseguia ser localizado para o crescente desespero de minha mulher, em virtude de ser ele um adereço que tinha importância afetiva: o par de brincos pertencia à nossa filha de dois anos.
Em má hora, minha esposa o tomara "emprestado", por combinar com a roupa com que ia sair.
Procura que procura, o brinquinho acabou sendo encontrado. Pelo faxineiro que nos ajudava, espontaneamente, e que assim se fez merecedor de uma gorjeta. Então, minha mulher tratou logo de recolocar o brinco na orelha, quando lá deixou cair... desta vez, a rosca do brinco. Depois do diminuto, íamos agora enfrentar o diminutíssimo.
Fiquei de fora da nova busca. Enquanto pensava sobre o que poderia esperar de alguém que, dias atrás, perdera uma das lentes de contato. Na verdade, não a perdera, a lente apenas migrara da córnea para um dos cantos do olho, deixando a minha mulher "chorosa" até que o caso fosse por fim esclarecido.
Apesar de estar perdida no mais difícil dos terrenos, a rosquinha do brinco também foi encontrada. Pelo bom ajudante que recebeu de minha parte uma gorjeta complementar - do tamanho inversamente proporcional ao do objeto localizado, a regra era essa. Quanto à minha esposa, esta ganhou um conselho meu: somente usar brincos grandes, de pingente, e que tilintassem em caso de queda.
Não é todo dia que a gente encontra por aí alguém com olhos de lince. Vai ver capaz de enxergar até um micróbio de caspa.
Pessoas das mesas vizinhas passaram a olhar com espanto aquele casal da vista baixa, isto é, nós. Reforçado, depois de algum tempo, pela participação do faxineiro da casa na busca, com vassoura e pazinha à mão. Mas o diabo do brinco não conseguia ser localizado para o crescente desespero de minha mulher, em virtude de ser ele um adereço que tinha importância afetiva: o par de brincos pertencia à nossa filha de dois anos.
Em má hora, minha esposa o tomara "emprestado", por combinar com a roupa com que ia sair.
Procura que procura, o brinquinho acabou sendo encontrado. Pelo faxineiro que nos ajudava, espontaneamente, e que assim se fez merecedor de uma gorjeta. Então, minha mulher tratou logo de recolocar o brinco na orelha, quando lá deixou cair... desta vez, a rosca do brinco. Depois do diminuto, íamos agora enfrentar o diminutíssimo.
Fiquei de fora da nova busca. Enquanto pensava sobre o que poderia esperar de alguém que, dias atrás, perdera uma das lentes de contato. Na verdade, não a perdera, a lente apenas migrara da córnea para um dos cantos do olho, deixando a minha mulher "chorosa" até que o caso fosse por fim esclarecido.
Apesar de estar perdida no mais difícil dos terrenos, a rosquinha do brinco também foi encontrada. Pelo bom ajudante que recebeu de minha parte uma gorjeta complementar - do tamanho inversamente proporcional ao do objeto localizado, a regra era essa. Quanto à minha esposa, esta ganhou um conselho meu: somente usar brincos grandes, de pingente, e que tilintassem em caso de queda.
Não é todo dia que a gente encontra por aí alguém com olhos de lince. Vai ver capaz de enxergar até um micróbio de caspa.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
E SILVIO SANTOS NÃO VEIO AÍ...
No início do ano, quando ventos favoráveis impulsionavam sua candidatura Silvio Santos a retirou. Disfonia, o motivo alegado. No entanto, a duas semanas do pleito presidencial, o acionista majoritário do SBT, com a voz bem empostada, anunciou o interesse de de reapresentá-la. Aduzindo que agora contava com um time de assessores de primeira, o que não acontecia antes. Essa importância de ter uma boa assessoria, como Silvio Santos inclusive reconheceu, seria para compensar a sua inexperiência em política, administração pública, coisa e tal.
Nesse afã, o apresentador de TV se cercou de alguns pefelistas notoriamente ligados ao Planalto. Lobão, Hugo Napoleão, Gadelha e outros que viram em Silvio Santos uma oportunidade de ouro, quer dizer, uma tábua de salvação. Já que o barco Aureliano Chaves fazia água por todos os lados. E Silvio e os pefelistas, com estes posando de assessores políticos, se lançaram à tarefa de criar uma candidatura de última hora. Contando, numa avaliação inicial, com a desistência do ex-transatlântico Aureliano.
Mas, isto não ocorrendo, foram à cata de uma sigla de aluguel. Encontraram uma boa acolhida no PMB, o balcão de negócios do pastor Armando Corrêa, que renunciou em favor de Silvio Santos, depois de acertados os detalhes da operação. O apresentador voltou então a aparecer nas pesquisas de intenção de votos, embora já houvesse apresentado desempenho melhor. Em verdade, o seu nome não aprecia: o eleitor assinalaria Armando Corrêa para votar em Silvio Santos, aliás, Senor Abravanel (o Senor é meu pastor, nada me faltará), aliás...
O que Silvio não esperava: o PMB de Armando Corrêa não passava de uma autêntica arapuca evangélico-partidária. Por isso, em uma sessão memorável do TSE, o pequeno partido foi julgado em situação irregular, e assim inviabilizou a candidatura do apresentador. E a paz relativa voltou à campanha política. Com a vantagem de que o eleitorado, nos dias seguintes, andou livre do feioso microcandidato, sua ego trip e seus projetos de salvação nacional.
Mas, como Silvio Santos não veio aí, perdemos a chance de ver o Brasil sob sua presidência. A seu jeito, algo mais ou menos assim:
Tudo por dinheiro - O slogan do governo SS, bem diferente do farisaismo e da hipocrisia do "tudo pelo social" do governo anterior.
Cidade x cidade - A acirrada disputa de 4.500 municípios para aumentar a fatia de participação nas verbas federais.
Namoro na TV - Entre o capital e o trabalho.
Roletrando - Um programa de erradicação dos fanhos pela terapia de choque.
Quanto a Porta da esperança, Show de calouros, Isto é incrível e Qual é a música?... bem, deixo à imaginação dos leitores.
Nesse afã, o apresentador de TV se cercou de alguns pefelistas notoriamente ligados ao Planalto. Lobão, Hugo Napoleão, Gadelha e outros que viram em Silvio Santos uma oportunidade de ouro, quer dizer, uma tábua de salvação. Já que o barco Aureliano Chaves fazia água por todos os lados. E Silvio e os pefelistas, com estes posando de assessores políticos, se lançaram à tarefa de criar uma candidatura de última hora. Contando, numa avaliação inicial, com a desistência do ex-transatlântico Aureliano.
Mas, isto não ocorrendo, foram à cata de uma sigla de aluguel. Encontraram uma boa acolhida no PMB, o balcão de negócios do pastor Armando Corrêa, que renunciou em favor de Silvio Santos, depois de acertados os detalhes da operação. O apresentador voltou então a aparecer nas pesquisas de intenção de votos, embora já houvesse apresentado desempenho melhor. Em verdade, o seu nome não aprecia: o eleitor assinalaria Armando Corrêa para votar em Silvio Santos, aliás, Senor Abravanel (o Senor é meu pastor, nada me faltará), aliás...
O que Silvio não esperava: o PMB de Armando Corrêa não passava de uma autêntica arapuca evangélico-partidária. Por isso, em uma sessão memorável do TSE, o pequeno partido foi julgado em situação irregular, e assim inviabilizou a candidatura do apresentador. E a paz relativa voltou à campanha política. Com a vantagem de que o eleitorado, nos dias seguintes, andou livre do feioso microcandidato, sua ego trip e seus projetos de salvação nacional.
Mas, como Silvio Santos não veio aí, perdemos a chance de ver o Brasil sob sua presidência. A seu jeito, algo mais ou menos assim:
Tudo por dinheiro - O slogan do governo SS, bem diferente do farisaismo e da hipocrisia do "tudo pelo social" do governo anterior.
Cidade x cidade - A acirrada disputa de 4.500 municípios para aumentar a fatia de participação nas verbas federais.
Namoro na TV - Entre o capital e o trabalho.
Roletrando - Um programa de erradicação dos fanhos pela terapia de choque.
Quanto a Porta da esperança, Show de calouros, Isto é incrível e Qual é a música?... bem, deixo à imaginação dos leitores.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
A POESIA É NECESSÁRIA
É-me necessária (preciso particularizar).
Em pequeno, ouvi a mãe cantar uma balada metafísica. O começo, talvez.
Ou foi quando o pai compôs uns versos de pé-quebrado?
Ele ainda tem aquele calo ósseo, mas como dói.
Minha estreia: "Ode a 29 de Fevereiro".
Todo poeta é bissexto até que prove o contrário.
E como é fácil prová-lo!
De herói infante a hierofante. Todo mundo é bom, todo mundo evolui.
Aprendi que para poetar existe o sublime e o prosaico.
O sublime, ah, o sublime, é supimpa!
Enquanto o prosaico às vezes pede uma limpa.
E um epigrama vale o quanto pesa?
Um dia, fiquei sem fôlego para recitar um alexandrino. Fui - solução lógica - a um otorrino.
"Fosse ao campo das lobélias", ele foi peremptório.
Um récipe é um récipe é um récipe, e pronto!
Os poetas não se dão bem, dizem, mas eu já morei com um espécime.
De paredes-meias, graças a Deus.
Ele era alvar, refinado como o açúcar e praticava a vivissecção.
Ensinou-me a fazer albas para o anoitecer.
Porém, era um derruído. E, felizmente, sua casa também ruiu.
E daquele cone de sombra restou o meu gosto pelos eclipses.
Lua, lua moondana.
Por ocasião do lançamento de minha "Ode a 13 de Agosto", recebi a tão aguardada carteira de poeta oficial.
E resguardei-me da crítica insensata numa gaiola de Faraday.
Poeta federal, hein, com direito a tirar ouro do nariz.
Em caso de distanásia, asseguro uma imorredoura pensão a Paulo Gurgel Sênior, meu pai.
De um discurso sobre o método: o contrasenso é sempre mal d/ivid/id/o.
Não sou frequentado por pesadelos, não sou K.fk.
Eu sou (danem-se, irmãozinhos) a um só tempo crispação e serenidade.
E viva a poesia-imprecação porque fere os tíímpanos.
Em pequeno, ouvi a mãe cantar uma balada metafísica. O começo, talvez.
Ou foi quando o pai compôs uns versos de pé-quebrado?
Ele ainda tem aquele calo ósseo, mas como dói.
Minha estreia: "Ode a 29 de Fevereiro".
Todo poeta é bissexto até que prove o contrário.
E como é fácil prová-lo!
De herói infante a hierofante. Todo mundo é bom, todo mundo evolui.
Aprendi que para poetar existe o sublime e o prosaico.
O sublime, ah, o sublime, é supimpa!
Enquanto o prosaico às vezes pede uma limpa.
E um epigrama vale o quanto pesa?
Um dia, fiquei sem fôlego para recitar um alexandrino. Fui - solução lógica - a um otorrino.
"Fosse ao campo das lobélias", ele foi peremptório.
Um récipe é um récipe é um récipe, e pronto!
Os poetas não se dão bem, dizem, mas eu já morei com um espécime.
De paredes-meias, graças a Deus.
Ele era alvar, refinado como o açúcar e praticava a vivissecção.
Ensinou-me a fazer albas para o anoitecer.
Porém, era um derruído. E, felizmente, sua casa também ruiu.
E daquele cone de sombra restou o meu gosto pelos eclipses.
Lua, lua moondana.
Por ocasião do lançamento de minha "Ode a 13 de Agosto", recebi a tão aguardada carteira de poeta oficial.
E resguardei-me da crítica insensata numa gaiola de Faraday.
Poeta federal, hein, com direito a tirar ouro do nariz.
Em caso de distanásia, asseguro uma imorredoura pensão a Paulo Gurgel Sênior, meu pai.
De um discurso sobre o método: o contrasenso é sempre mal d/ivid/id/o.
Não sou frequentado por pesadelos, não sou K.fk.
Eu sou (danem-se, irmãozinhos) a um só tempo crispação e serenidade.
E viva a poesia-imprecação porque fere os tíímpanos.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
ERA
... uma mulher tão ciumenta que obrigou o marido a dispensar a secretária eletrônica.
... um gajo (não confundir com gago) tão repetitivo que só presenteava a namorada com rosas rosas.
... um futurólogo tão desatualizado que só predizia fatos passados.
... um tipo tão expansivo que se regia pela Lei dos Gases.
... uma moça tão econômica que não usava perfume quando a "tchurma" estava gripada.
... um cidadão tão desastrado que vivia tropeçando no anjo da guarda.
... um polemista tão radical que tudo quanto escrevia começava a partir da tréplica.
... um cara tão saudosista que seu relógio só marcava outr'ora.
... um empresário com tantos títulos que mais um protestado nem fazia diferença.
... uma dona tão infiel, supercheio de amantes o seu guarda-roupas.
... um homenzinho tão feio que não dava trabalho ao maquiador para representar o Corcunda de Notre Dame.
... um milionário tão mesquinho que ao morrer deixou toda a sua fortuna para as obras misantrópicas.
... um sujeito tão bronco do qual se dizia: analfabeto de pai, mãe e ama-seca.
... um gajo (não confundir com gago) tão repetitivo que só presenteava a namorada com rosas rosas.
... um futurólogo tão desatualizado que só predizia fatos passados.
... um tipo tão expansivo que se regia pela Lei dos Gases.
... uma moça tão econômica que não usava perfume quando a "tchurma" estava gripada.
... um cidadão tão desastrado que vivia tropeçando no anjo da guarda.
... um polemista tão radical que tudo quanto escrevia começava a partir da tréplica.
... um cara tão saudosista que seu relógio só marcava outr'ora.
... um empresário com tantos títulos que mais um protestado nem fazia diferença.
... uma dona tão infiel, supercheio de amantes o seu guarda-roupas.
... um homenzinho tão feio que não dava trabalho ao maquiador para representar o Corcunda de Notre Dame.
... um milionário tão mesquinho que ao morrer deixou toda a sua fortuna para as obras misantrópicas.
... um sujeito tão bronco do qual se dizia: analfabeto de pai, mãe e ama-seca.
Publicado no Informativo A Ferragista n.º 86, de outubro de 1986
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
PIADAS DE CRUZAMENTOS
Ainda valem as piadas de cruzamentos tais como: "Cruzou um periscópio com uma cabra e conseguiu um bode expiatório"?
Então, tá.
Então, tá.
- Cruzou um espanador com um balão meteorológico e obteve um condor.
- Cruzou o vento fresco com a mata virgem e nasceu essa bichinha aí.
- Cruzou um + com um x e obteve um asterisco.
- Cruzou uma fita cassete com uma caneta esferográfica e criou uma fita que rebobina sozinha. (*)
- Cruzou um papagaio com uma paca e obteve um pássaro que fala paca.
- Cruzou um elefante com uma anta e conseguiu uma elefanta com a tromba "M".
- Cruzou a Ipiranga com a Avenida São João e alguma coisa aconteceu em seu coração.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
PILEQUES E PILHÉRIAS
Quando o hollywoodiano Humphrey Bogart disse que "a humanidade estava duas doses abaixo do normal", consideraram o assunto encerrado em matéria de tiradas. Não mesmo: alguém, na maior cearensidade, tempos depois levantou o copo, dizendo: o trago é o que tira o travo da vida.
Esse alguém foi Pingaleão, um tipo inesquecível como um logotipo que, se não houvesse sido despejado deste mundo, capacidade de sobra teria para entornar o Proálcool. Ah, como o ar, era-lhe essencial o bar!...
Um recuo à infância. Diferente das outras crianças, Pingaleão não tinha o hábito de comer barro. Preferia lamber cortiças de tampinhas, notadamente as que trescalavam algum odor etílico. E, delas para as espirituosas, foram apenas dois passos, digamos, cambaleantes.
Dentre seus hábitos mais bebe-e-comezinhos constavam: dar preferência aos postes totalmente parados "para fazer água"; dormir com o pé direito plantado no chão "para fazer terra"; e tantos outros, embora de menor lucidez.
Já no plano cultural, sua grande ambição - nunca escamoteou! - era avistar-se com o sociólogo Gilberto Freyre a fim de extorquir do autor de "Casa Grande e Sem Sala" a secreta receita do licor de pitanga. Nunca teve a sorte, o órfão de anjo da guarda!
Uma vez, quando dormia em praça pública, à moda de Noé sob a videira, furtaram-lhe a Cremilda, sua dentadura de estimação avaliada em seis milhões de dólares ugandenses. Outra, foi expulso de um bar por um garçom que não concordou, o carola, com ser Genésio o autor do Sermão da Montanha Russa. Pingaleão e o gênero humano: que decepção recíproca!
Ainda havia o chefe. Além dos diabinhos do delirium tremens, havia o chefe do emprego, fosse qual fosse, sempre o perseguindo. Como o da meteorologia, por exemplo, que o despediu só porque ele redigiu um boletim que começava com "o dia hoje será colonial".
Que o fígado faz mal ao álcool (apud Millôr) todo mundo sabe, mas não foi por isso que morreu Pingaleão. Homem nunca de meias doses, numa terça-feira de carnaval, ao ouvir um "talvez" de uma colombina, ele resolveu se matar. E enforcou-se numa serpentina de salão.
Esse alguém foi Pingaleão, um tipo inesquecível como um logotipo que, se não houvesse sido despejado deste mundo, capacidade de sobra teria para entornar o Proálcool. Ah, como o ar, era-lhe essencial o bar!...
Um recuo à infância. Diferente das outras crianças, Pingaleão não tinha o hábito de comer barro. Preferia lamber cortiças de tampinhas, notadamente as que trescalavam algum odor etílico. E, delas para as espirituosas, foram apenas dois passos, digamos, cambaleantes.
Dentre seus hábitos mais bebe-e-comezinhos constavam: dar preferência aos postes totalmente parados "para fazer água"; dormir com o pé direito plantado no chão "para fazer terra"; e tantos outros, embora de menor lucidez.
Já no plano cultural, sua grande ambição - nunca escamoteou! - era avistar-se com o sociólogo Gilberto Freyre a fim de extorquir do autor de "Casa Grande e Sem Sala" a secreta receita do licor de pitanga. Nunca teve a sorte, o órfão de anjo da guarda!
Uma vez, quando dormia em praça pública, à moda de Noé sob a videira, furtaram-lhe a Cremilda, sua dentadura de estimação avaliada em seis milhões de dólares ugandenses. Outra, foi expulso de um bar por um garçom que não concordou, o carola, com ser Genésio o autor do Sermão da Montanha Russa. Pingaleão e o gênero humano: que decepção recíproca!
Ainda havia o chefe. Além dos diabinhos do delirium tremens, havia o chefe do emprego, fosse qual fosse, sempre o perseguindo. Como o da meteorologia, por exemplo, que o despediu só porque ele redigiu um boletim que começava com "o dia hoje será colonial".
Que o fígado faz mal ao álcool (apud Millôr) todo mundo sabe, mas não foi por isso que morreu Pingaleão. Homem nunca de meias doses, numa terça-feira de carnaval, ao ouvir um "talvez" de uma colombina, ele resolveu se matar. E enforcou-se numa serpentina de salão.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
PC FUJÃO
Não há dúvida de que existe um clamor nacional para colocar o PC Fujão atrás das grades. E uma grande corrente tem-se formado com a intenção de vê-lo... acorrentado, digamos assim. No entanto, o famigerado PC (que de politicamente correto apresenta só as iniciais) continua solto em algum lugar do território nacional. A dormir o sono dos injustos, porém... sem roncar! Sim, depois daquele tratamento que ele fez na Espanha, sem roncar!
Quando afirmo que o PC se acha no Brasil, digo isso com convicção. Dez entre dez escroques, depois de praticados seus golpes, escolhem o nosso país para aqui viver à tripa forra. É o que a gente vê nos filmes e o PC não vai ser uma exceção à regra. O Brasil, para quem deve (e teme), reúne condições insuperáveis. Aqui, como alguém já disse, apenas as mulheres perdidas são facilmente achadas.
Todos os esforços da Polícia Federal têm sido até o momento infrutíferos. Acho que está na hora de entrar mais gente na jogada. Li algures que um cidadão comum, desprovido da estrela de xerife, pode dar voz de prisão a um maior infrator e conduzi-lo à delegacia mais próxima. É o meu caso (o de cidadão comum) mas, como não tenho formação jurídica, posso estar enganado.
Agora, se for verdade essa prerrogativa, a novela do PC Fujão pode se considerar encerrada. O meu "teje preso" para ele é só uma questão de tempo. O diabo é que esse tempo pode consumir séculos porque eu também não sei onde está o PC.
Brincadeira. Face à dificuldade de trancafiar na cela alguém da dimensão de um PC, eu me pergunto se não é hora de o braço da Lei melhorar o muque. Praticando em cima de corruptos mais fracos. Como o Caldo Magri, por exemplo, que só levou 30 mil dólares.
- É o PC outra vez.
Para se mostrar importante o ministro demora um pouco para atender. Organiza seus pensamentos. No íntimo, ele está preocupado com os detalhes da cela que abrigará o inimigo público nº. 1. Telefone, fax, TV em cores, videocassete, chuveiro elétrico... Nada pode faltar... Enfim, atende:
- É o ministro.
- Bom dia, ministro. Aqui é o Dr. Paulo César. Estou querendo saber se as minhas exigências vão ser atendidas.
- Sim, todas. Pode vir se entregar...
- Ainda não, ministro. Antes eu preciso saber se a cela tem vista para o mar?
- Em Brasília não é possível. Podemos providenciar uma no Rio...
- Ouça. Não discuto mais a cidade onde vou ficar. No contato anterior, chegamos a um acordo de que eu ficaria em Brasília, lembra?
- Claro. Mas é que construir um edifício por aqui com vista para o mar...
- Sim, qual é o problema?
- Leva tempo. Até lá os seus crimes podem estar prescritos...
- E daí?
- Como fica o clamor público?
- Ah, isso não é problema meu! Tchau.
Quando afirmo que o PC se acha no Brasil, digo isso com convicção. Dez entre dez escroques, depois de praticados seus golpes, escolhem o nosso país para aqui viver à tripa forra. É o que a gente vê nos filmes e o PC não vai ser uma exceção à regra. O Brasil, para quem deve (e teme), reúne condições insuperáveis. Aqui, como alguém já disse, apenas as mulheres perdidas são facilmente achadas.
Todos os esforços da Polícia Federal têm sido até o momento infrutíferos. Acho que está na hora de entrar mais gente na jogada. Li algures que um cidadão comum, desprovido da estrela de xerife, pode dar voz de prisão a um maior infrator e conduzi-lo à delegacia mais próxima. É o meu caso (o de cidadão comum) mas, como não tenho formação jurídica, posso estar enganado.
Agora, se for verdade essa prerrogativa, a novela do PC Fujão pode se considerar encerrada. O meu "teje preso" para ele é só uma questão de tempo. O diabo é que esse tempo pode consumir séculos porque eu também não sei onde está o PC.
Brincadeira. Face à dificuldade de trancafiar na cela alguém da dimensão de um PC, eu me pergunto se não é hora de o braço da Lei melhorar o muque. Praticando em cima de corruptos mais fracos. Como o Caldo Magri, por exemplo, que só levou 30 mil dólares.
* * * * *
Toca o telefone no Ministério da Justiça. Alguém atende, diz "espere um pouco" e transfere a ligação para o ramal privativo do ministro. Antes, com a voz em surdina, avisa:- É o PC outra vez.
Para se mostrar importante o ministro demora um pouco para atender. Organiza seus pensamentos. No íntimo, ele está preocupado com os detalhes da cela que abrigará o inimigo público nº. 1. Telefone, fax, TV em cores, videocassete, chuveiro elétrico... Nada pode faltar... Enfim, atende:
- É o ministro.
- Bom dia, ministro. Aqui é o Dr. Paulo César. Estou querendo saber se as minhas exigências vão ser atendidas.
- Sim, todas. Pode vir se entregar...
- Ainda não, ministro. Antes eu preciso saber se a cela tem vista para o mar?
- Em Brasília não é possível. Podemos providenciar uma no Rio...
- Ouça. Não discuto mais a cidade onde vou ficar. No contato anterior, chegamos a um acordo de que eu ficaria em Brasília, lembra?
- Claro. Mas é que construir um edifício por aqui com vista para o mar...
- Sim, qual é o problema?
- Leva tempo. Até lá os seus crimes podem estar prescritos...
- E daí?
- Como fica o clamor público?
- Ah, isso não é problema meu! Tchau.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
APANHEI-TE, DEPUTADO
Como gosto de um piano em Nazareth! Por isso, na expressão em epígrafe, estou a parodiar o título de um de seus famosos chorinhos, o "Apanhei-te, cavaquinho". Há quem afirme que Nazareth, com esse chorinho, pretendeu provar que o piano - o instrumento que tocava - batia em velocidade interpretativa o cavaquinho, um instrumento de grande aceitação pelos músicos da época. E há quem afirme que não. Baseado nas circunstâncias de que o chorinho, originariamente um polca, apresentava um andamento menos rápido e, também, porque fora composto em homenagem a Mário "Cavaquinho", grande amigo de Nazareth.
O meu "Apanhei-te...", porém, não é dedicado a um amigo em particular. Vai para os "deputados-pianistas", assim apelidados pela sem-cerimônia com que tocam os botões dos colegas ausentes em plenário. Tudo bem, se os botões acionados não fossem os tais que originam votos no painel eletrônico da Câmara. Eles, os tocadores, podem dar o maior cavaco diante do que vou dizer, mas Poder Legislativo, com "deputados-pianistas" ao contraponto, não cria leis harmoniosas. Fabrica, sim, leis mixes (questão de mixagem?) que ferem os ouvidos da maioria silenciosa (mas até quando?).
Os "deputados-pianistas", pelo menos os mais destacados, já eram conhecidos de outros recitais na Câmara. Por parte dos colegas não pianistas que, todavia, nunca o apontavam (contém-te, dedo!) à execração pública. Mas, um dia, acabou-se a ocultação. Indiscretas máquinas fotográficas deram este "flagra": sete parlamentares pilhados em botões alheios. Na maior volúpia, sete deputados foram vistos em botões alheios (e isto entendido fora do contexto ainda fica mais feio). Aí, diante do "Apanhei-te...", vieram as desculpas dos apanhados. Um deles, o Homero "Rubinstein", saiu-se com "estou cansado do samba de um botão só"; outro, o Fernando "Paderevski", com "o botão do vizinho é melhor do que o meu"; et caterva, com etc. Todos, enfim, tinham desculpas para os modos dúplice, tríplice... com que acionavam os botões e, por conseguinte, votavam.
Mas, a melhor justificativa foi a do deputado Albino "Pogolerich". Flagrado por um chargista, em voto quíntuplo (duas mãos, dois pés e o nariz em cinco botões), declarou ele que estava apenas praticando uma posição do Kama-sutra. Ora, o cara querer mostrar que é bom de Kama, em pleno plenário, é no mínimo faltar com o decoro que a Casa exige. Não, minha senhora, a Câmara Baixa nunca esteve tão. Nem em 1984, quando o "Gallup" mostrou o Congresso, do qual a Casa é parte integrante, em último lugar no ranking da incredibilidade nacional.
Credite-se apenas, em favor da Câmara, que sua Mesa Diretora tomou alguma providência. Fez aos "deputados-pianistas" uma advertência formal do tipo "e-nada-é-a-mesma-coisa". E debite-se, contra, que a Mesa, após ouvir a Comissão de Constituição (?) e Justiça (??), decidiu não anular a fraudulosa votação que aprovou um projeto de lei. "Ó tempora! O mores!" Bata, minha senhora, na madeira (da Mesa) três vezes. Quatro, não! Que a madeira é frágil, parece de aglomerado.
Eleitor, em 1986, ano de Assembleia Nacional Constituinte (ou do Congresso com poder constituinte, o que não é a mesma coisa), tomarei lá minhas providências. Votarei em candidato que jure fidelidade a seu botão e, mesmo assim, ficarei de olho neles (candidato e botão). A dúvida: conseguirá o olho humano ser mais rápido do que o dedo?Ciscos riscos sempre existirão. Dentre os quais o de surgir, em 1986 e adjacências, uma Constituição que... não tem nada a ver.
Ainda sobre os "deputados-pianistas". O país inteiro vê "Amadeus", e os "pianistas" estão em evidência. "Amadeus" é filme premiadíssimo, mostra a vida e a obra do gênio Mozart, enquanto os "pianistas" dão um filmeco, digno do pior circuito. E tomara que curto, o circuito. Aliás, o simples chamá-los de "pianistas" já soa fortíssimo, imerecido até. Tocadores de harmônica, com o perdão do pouco dotado instrumento, é o que eles são. E de harmônica de botão.
O meu "Apanhei-te...", porém, não é dedicado a um amigo em particular. Vai para os "deputados-pianistas", assim apelidados pela sem-cerimônia com que tocam os botões dos colegas ausentes em plenário. Tudo bem, se os botões acionados não fossem os tais que originam votos no painel eletrônico da Câmara. Eles, os tocadores, podem dar o maior cavaco diante do que vou dizer, mas Poder Legislativo, com "deputados-pianistas" ao contraponto, não cria leis harmoniosas. Fabrica, sim, leis mixes (questão de mixagem?) que ferem os ouvidos da maioria silenciosa (mas até quando?).
Os "deputados-pianistas", pelo menos os mais destacados, já eram conhecidos de outros recitais na Câmara. Por parte dos colegas não pianistas que, todavia, nunca o apontavam (contém-te, dedo!) à execração pública. Mas, um dia, acabou-se a ocultação. Indiscretas máquinas fotográficas deram este "flagra": sete parlamentares pilhados em botões alheios. Na maior volúpia, sete deputados foram vistos em botões alheios (e isto entendido fora do contexto ainda fica mais feio). Aí, diante do "Apanhei-te...", vieram as desculpas dos apanhados. Um deles, o Homero "Rubinstein", saiu-se com "estou cansado do samba de um botão só"; outro, o Fernando "Paderevski", com "o botão do vizinho é melhor do que o meu"; et caterva, com etc. Todos, enfim, tinham desculpas para os modos dúplice, tríplice... com que acionavam os botões e, por conseguinte, votavam.
Mas, a melhor justificativa foi a do deputado Albino "Pogolerich". Flagrado por um chargista, em voto quíntuplo (duas mãos, dois pés e o nariz em cinco botões), declarou ele que estava apenas praticando uma posição do Kama-sutra. Ora, o cara querer mostrar que é bom de Kama, em pleno plenário, é no mínimo faltar com o decoro que a Casa exige. Não, minha senhora, a Câmara Baixa nunca esteve tão. Nem em 1984, quando o "Gallup" mostrou o Congresso, do qual a Casa é parte integrante, em último lugar no ranking da incredibilidade nacional.
Credite-se apenas, em favor da Câmara, que sua Mesa Diretora tomou alguma providência. Fez aos "deputados-pianistas" uma advertência formal do tipo "e-nada-é-a-mesma-coisa". E debite-se, contra, que a Mesa, após ouvir a Comissão de Constituição (?) e Justiça (??), decidiu não anular a fraudulosa votação que aprovou um projeto de lei. "Ó tempora! O mores!" Bata, minha senhora, na madeira (da Mesa) três vezes. Quatro, não! Que a madeira é frágil, parece de aglomerado.
Eleitor, em 1986, ano de Assembleia Nacional Constituinte (ou do Congresso com poder constituinte, o que não é a mesma coisa), tomarei lá minhas providências. Votarei em candidato que jure fidelidade a seu botão e, mesmo assim, ficarei de olho neles (candidato e botão). A dúvida: conseguirá o olho humano ser mais rápido do que o dedo?
Ainda sobre os "deputados-pianistas". O país inteiro vê "Amadeus", e os "pianistas" estão em evidência. "Amadeus" é filme premiadíssimo, mostra a vida e a obra do gênio Mozart, enquanto os "pianistas" dão um filmeco, digno do pior circuito. E tomara que curto, o circuito. Aliás, o simples chamá-los de "pianistas" já soa fortíssimo, imerecido até. Tocadores de harmônica, com o perdão do pouco dotado instrumento, é o que eles são. E de harmônica de botão.
Publicado no "DN - Cartas" de 11 de julho de 1985
e no "JAMB" de agosto de 1985.
Marcadores:
DN - CARTAS,
JAMB
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
FANTASMAS
Antigamente, os fantasmas viviam assombrando as residências. Gemiam, arrastavam correntes e faziam uma sonoplastia infernal, tudo com a finalidade de atemorizar os moradores. E estes, por sua vez, passavam as noites em claro. Claro. Principalmente, quando os fantasmas - serem luminosos, proteiformes e avoaçantes - se davam à mostra para contatos imediatos do terceiro grau, como que coroando as suas sessões de assombração.
Feio costume, esse. Digamos que fosse da natureza de um fantasma atemorizar os viventes. Como é da índole do escorpião ferroar as baratas. Tem que fazer isso e pronto! Embora se possa identificar nesse comportamento de um fantasma os ressentimentos de uma vida humana pregressa. Do tempo em que flanava num corpinho de 20, quando foi inesperadamente jubilado por bala, facada ou porretada.
Uma lógica fácil de compreender. Agora, o que não dá para entender é o que vem acontecendo ultimamente. Numa espécie de perversão dos instintos, alguns fantasmas pararam de assustar as pessoas. E não apenas isso. Como trazem os jornais, passaram ao exercício de uma filantropia desbragada. Imagine você que dois deles, da escuderia do PC Farias, acabam de bancar a reforma e a decoração da casa da Zélia, no Morumbi, em São Paulo.
Com quanto esses fantasmas "morreram" para tocar essas obras na casa da Zélia? A troco de quê? E a cama da Zélia entrou no rol das coisas reformadas?
São perguntas que permanecem sem respostas.
E a cama foi aquela que a czarina da Economia botou na rua para o Bernardo sentar a pua?
Dei tratos à bola (nome sugestivo em se tratando do assunto) para imaginar como poderia ser essa gravidez de Zélia.
Antes de tudo, ela não aceitaria aplicações na poupança: são improdutivas. O aplicador, no caso, teria de fazer um investimento de risco. Para começar, um depósito de uns duzentos milhões de, digamos, ativos espermatozóides. Os quais seriam, pelo caráter inflacionário, logo bloqueados. Menos um que, após um período de nove meses, seria devolvido sob a forma de um filhote.
Sentir uma contração no meio circulante seria o primeiro sinal. Zélia se dirigiria a uma maternidade, onde uma ultrassonografia mostraria perda de liquidez. Então, os médicos realizariam uma cesariana na czarina...
Ela administrou um orçamento de trilhões; ele, como professor de uma escolinha, tinha um salário, ó...
Ele, cabeça chata; ela, chata da cabeça aos pés, principalmente quando usa o "economês".
Ele, nordestino; ela, sem norte magnético e... sem destino.
Tiveram um filho - que, evidentemente, não se chamou Bernardo - e foram felizes para sempre. Se bem que estas últimas palavras, para o humorista de Maranguape, tenham o significado de um... vapt-vupt.
Feio costume, esse. Digamos que fosse da natureza de um fantasma atemorizar os viventes. Como é da índole do escorpião ferroar as baratas. Tem que fazer isso e pronto! Embora se possa identificar nesse comportamento de um fantasma os ressentimentos de uma vida humana pregressa. Do tempo em que flanava num corpinho de 20, quando foi inesperadamente jubilado por bala, facada ou porretada.
Uma lógica fácil de compreender. Agora, o que não dá para entender é o que vem acontecendo ultimamente. Numa espécie de perversão dos instintos, alguns fantasmas pararam de assustar as pessoas. E não apenas isso. Como trazem os jornais, passaram ao exercício de uma filantropia desbragada. Imagine você que dois deles, da escuderia do PC Farias, acabam de bancar a reforma e a decoração da casa da Zélia, no Morumbi, em São Paulo.
Com quanto esses fantasmas "morreram" para tocar essas obras na casa da Zélia? A troco de quê? E a cama da Zélia entrou no rol das coisas reformadas?
São perguntas que permanecem sem respostas.
E a cama foi aquela que a czarina da Economia botou na rua para o Bernardo sentar a pua?
* * * * *
Ao deixar o importante cargo que ocupava, Zélia manifestou um desejo: ter um filho no próximo ano. O que, salvo melhor juízo, não se consegue na espécie sem passar pela interessante experiência de uma gravidez.Dei tratos à bola (nome sugestivo em se tratando do assunto) para imaginar como poderia ser essa gravidez de Zélia.
Antes de tudo, ela não aceitaria aplicações na poupança: são improdutivas. O aplicador, no caso, teria de fazer um investimento de risco. Para começar, um depósito de uns duzentos milhões de, digamos, ativos espermatozóides. Os quais seriam, pelo caráter inflacionário, logo bloqueados. Menos um que, após um período de nove meses, seria devolvido sob a forma de um filhote.
Sentir uma contração no meio circulante seria o primeiro sinal. Zélia se dirigiria a uma maternidade, onde uma ultrassonografia mostraria perda de liquidez. Então, os médicos realizariam uma cesariana na czarina...
* * * * *
Ele aprendeu o ofício de fazer rir; ela, de fazer chorar.Ela administrou um orçamento de trilhões; ele, como professor de uma escolinha, tinha um salário, ó...
Ele, cabeça chata; ela, chata da cabeça aos pés, principalmente quando usa o "economês".
Ele, nordestino; ela, sem norte magnético e... sem destino.
Tiveram um filho - que, evidentemente, não se chamou Bernardo - e foram felizes para sempre. Se bem que estas últimas palavras, para o humorista de Maranguape, tenham o significado de um... vapt-vupt.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
GURGELZIM, HETERÓCLITO E JORGE
Não é um segredo trancado a sete chaves. Qualquer um que venha lendo os textos publicados no Preblog já se deparou com este trio: Gurgelzim, Heteróclito e Jorge. Eles não interagem, estão sempre em histórias exclusivas. Mas adotam padrões de comportamento que fazem suspeitar de que os três sejam um só personagem.
Se assim pensou, o leitor está certo.
Gurgelzim, Heteróclito e Jorge seriam também o próprio escritor, quando este quer tirar o foco de si mesmo?
Bem, fica difícil de negar essa possibilidade diante do nome com que foi batizado o primeiro.
Gurgelzim surgiu nos tempos do "Informativo a Ferragista". Apareceu em A RUA GURGELZIM, com a ideia fixa de virar nome de rua em Fortaleza. SOL, PRAIA E... AÇÃO, GURGELZIM E A ARTE DO DESENCONTRO, GURGELZIM E O COMETA HALLEY e GURGELZIM DA VIOLA foram as histórias seguintes com ele como protagonista.
Heteróclito (Clitinho) foi o nome com que ele ressurgiu em dois contos - HETERÓCLITO, SUAS CASAS DE PASTO e HETERÓCLITO, SEUS INIMIGOS - publicados em "MultiContos", uma antologia de contos premiados pelo BNB Clube.
Finalmente, reapareceu como Jorge George Bizarria. Em O LAR SINGULAR DE JORGE GEORGE, que foi publicado (sob outro título) num breve retorno do "Informativo A Ferragista" (1986), e, em JORGE, UM CEARENSE, uma "entrevista" que ele concedeu ao livro "Outras Criações" (1992). Já JORGE GEORGE EM RITMO DE DESVENTURA, em duas partes, e A FESTA DOS SÓSIAS são as conclusões de antigos rascunhos. Estão apenas no Preblog.
Se assim pensou, o leitor está certo.
Gurgelzim, Heteróclito e Jorge seriam também o próprio escritor, quando este quer tirar o foco de si mesmo?
Bem, fica difícil de negar essa possibilidade diante do nome com que foi batizado o primeiro.
Gurgelzim surgiu nos tempos do "Informativo a Ferragista". Apareceu em A RUA GURGELZIM, com a ideia fixa de virar nome de rua em Fortaleza. SOL, PRAIA E... AÇÃO, GURGELZIM E A ARTE DO DESENCONTRO, GURGELZIM E O COMETA HALLEY e GURGELZIM DA VIOLA foram as histórias seguintes com ele como protagonista.
Heteróclito (Clitinho) foi o nome com que ele ressurgiu em dois contos - HETERÓCLITO, SUAS CASAS DE PASTO e HETERÓCLITO, SEUS INIMIGOS - publicados em "MultiContos", uma antologia de contos premiados pelo BNB Clube.
Finalmente, reapareceu como Jorge George Bizarria. Em O LAR SINGULAR DE JORGE GEORGE, que foi publicado (sob outro título) num breve retorno do "Informativo A Ferragista" (1986), e, em JORGE, UM CEARENSE, uma "entrevista" que ele concedeu ao livro "Outras Criações" (1992). Já JORGE GEORGE EM RITMO DE DESVENTURA, em duas partes, e A FESTA DOS SÓSIAS são as conclusões de antigos rascunhos. Estão apenas no Preblog.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
A FESTA DOS SÓSIAS
Há algum tempo Jorge George vinha identificando pessoas que lembrassem fisicamente celebridades da política, do esporte e do "showbiz". Se, por exemplo, ele conhecia alguém parecido com o lutador Madzilla, tornava-se amigo do conhecido, de longa data, oferecendo-se inclusive para ser sparring - em troca de saber o endereço e o número do telefone.
Estes detalhes tinham a ver com uma festa de arromba que ele estava planejando. Uma festa à base de sósias, que colocaria Fortaleza no mapa dos grandes acontecimentos.
Nessa festa, cada sósia teria de atuar, falar, vestir-se etecétera e tal como se fosse o original. Para isso, ia receber cachê - além de participar de uma grande boca livre. O que, aliás, ficaria mais em conta para o anfitrião do que trazer o popstar propriamente dito, que, além de cobrar um cachê mais alto, resultaria em gastos adicionais com passagens aéreas, hotel e carro com motorista.
Daqui em diante, vou me referir aos sósias como se eles fossem as pessoas representadas. Fica mais objetiva a descrição dessa festa que, por sinal, não terminou bem.
Os convidados não cumpriram os termos pactuados. A começar por Jorginho Guincho que devia chegar de limusine, fazendo um ar blasé... O ar blasé até que ele fez, mas, pasmem, ele chegou de carona num caminhão limpa-fossa. Foi o primeiro sinal de que a coisa ia dar em m...
Nas rodas que se formaram, Robalo Certos dizia repetidamente que ia transformar o iate Lady Di numa baleeira. Loola, com o português para lá de escorreito, não deixou escapar um único "menas". E Armário Covas, se tivesse bebido água quente de torneira como foi aconselhado, pelo menos podia ter disfarçado aquela voz de castrato.
Rushdie, cercado de amigos xiitas... Supla, ninguém sabia se era o pai ou o filho...
Só Jucas Chave, com seu repertório de velhas piadas, parecia autêntico.
A citação de tantos nomes masculinos deixa a impressão de que foi uma festa only for men. Não, não foi. Kássia Elle esteve por lá representando o mulherio.
Como toda festa que se preza tem bicão, a Cover in Fort teve o seu. E, para ter certeza de que o penetra não faltaria, Jorge George cercou o acontecimento de sigilo, impedindo que filtrasse qualquer informação. Foi assim que Bigorrilho (o original) deu o ar de sua desgraça.
Também vieram as tietes do Agreste e da Zona da Mata.
Tô lhe contando que é pra lhe dar água na boca, como diz o Chico. Aliás, o sogro do Carlinhos Marrom só falava em levar a experiência da UDR para Cuba.
Apesar de amestrados, os colunistas saíram indignados com a farsa. Prometendo que só estariam na próxima edição da festa se o anfitrião estalasse os dedos para eles. E o vexame só não foi maior porque Jorge George não estava lá. Quem estava era um sósia dele, claro.
Estes detalhes tinham a ver com uma festa de arromba que ele estava planejando. Uma festa à base de sósias, que colocaria Fortaleza no mapa dos grandes acontecimentos.
Nessa festa, cada sósia teria de atuar, falar, vestir-se etecétera e tal como se fosse o original. Para isso, ia receber cachê - além de participar de uma grande boca livre. O que, aliás, ficaria mais em conta para o anfitrião do que trazer o popstar propriamente dito, que, além de cobrar um cachê mais alto, resultaria em gastos adicionais com passagens aéreas, hotel e carro com motorista.
Daqui em diante, vou me referir aos sósias como se eles fossem as pessoas representadas. Fica mais objetiva a descrição dessa festa que, por sinal, não terminou bem.
Os convidados não cumpriram os termos pactuados. A começar por Jorginho Guincho que devia chegar de limusine, fazendo um ar blasé... O ar blasé até que ele fez, mas, pasmem, ele chegou de carona num caminhão limpa-fossa. Foi o primeiro sinal de que a coisa ia dar em m...
Nas rodas que se formaram, Robalo Certos dizia repetidamente que ia transformar o iate Lady Di numa baleeira. Loola, com o português para lá de escorreito, não deixou escapar um único "menas". E Armário Covas, se tivesse bebido água quente de torneira como foi aconselhado, pelo menos podia ter disfarçado aquela voz de castrato.
Rushdie, cercado de amigos xiitas... Supla, ninguém sabia se era o pai ou o filho...
Só Jucas Chave, com seu repertório de velhas piadas, parecia autêntico.
A citação de tantos nomes masculinos deixa a impressão de que foi uma festa only for men. Não, não foi. Kássia Elle esteve por lá representando o mulherio.
Como toda festa que se preza tem bicão, a Cover in Fort teve o seu. E, para ter certeza de que o penetra não faltaria, Jorge George cercou o acontecimento de sigilo, impedindo que filtrasse qualquer informação. Foi assim que Bigorrilho (o original) deu o ar de sua desgraça.
Também vieram as tietes do Agreste e da Zona da Mata.
Tô lhe contando que é pra lhe dar água na boca, como diz o Chico. Aliás, o sogro do Carlinhos Marrom só falava em levar a experiência da UDR para Cuba.
Apesar de amestrados, os colunistas saíram indignados com a farsa. Prometendo que só estariam na próxima edição da festa se o anfitrião estalasse os dedos para eles. E o vexame só não foi maior porque Jorge George não estava lá. Quem estava era um sósia dele, claro.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
JORGE GEORGE EM RITMO DE DESVENTURA - 2.ª PARTE
E prosseguiram a viagem. Com o taxista chupando uma ponta de cigarro vitalícia, um sufoco. Até que... a fumaça começou a mudar o odor para melhor, haviam chegado à churrascaria. Desceram. Pensando na etapa seguinte, Jorge não dispensou o táxi.
E comeram e beberam e conversaram. Ao fim de uma picanha, e também querendo ser picante, Jorge falou de sua doença. "Priapismo. Em Marrocos me curaram em excesso." Embevecida, Petúnia abriu as pupilas que um dia fizeram a desgraça do Sr. Reitor. Com isso, ele sacou logo: a fêmea topava ir a um motel de classe; mais: queria suíte com hidromassagem e cascata. Era um desejo tão evidente que, vamos mas não venhamos, seria grossura da parte dele pedir uma confirmação no plano verbal.
Jorge foi apresentado à conta. "Quinhentos cruzados, senhor, com o frete já incluído." Na nova profissão o garçom vinha passando por um período de adaptação. E Jorge George autografou um cheque de quinhentos cruzados de frente, mas sem fundos. Até o dono da casa veio pessoalmente agradecer. "Compraremos uma carne de moita de referência para o caso de o senhor voltar aqui."
- Ótimo. Mas troquem também o óleo de fritar batatas, sugeriu Jorge.
Agora, era sair dali conduzindo a mulher. Mas Petúnia pediu tempo. "Preciso retocar o batom."
Meio nervoso, Jorge a viu desaparecer no rumo do toalete.
"Meu Deus, como ela demora. Depois do batom vem o rímel? E depois do rímel?..." Petúnia remanchava...
- Ei, amigo...
Era o garçom que interrompia o benemérito Jotagê em suas divagações. Umas divagações que terminavam sempre no saguão do Banco Central.
"Bem, pelo tratamento amistoso que ainda me dispensa, não deve estar pondo meu cheque... em idem", pensou Jorge.
O garçom prosseguiu:
- A moça se mandou.
- Mas como?
- Arrodeou a churrascaria pelos fundos e pediu carona a um motoqueiro.
Desgraçou geral. Foi ele se fiar na fidelização de Petúnia, e viram só no que deu. Ainda bem que o táxi o esperava para levá-lo de volta.
Deu o toque de retirar:
- Pela Mister Rau, motorista. E não precisa respeitar as motocicletas, não.
Ninguém julgue a madrugada pela boca da noite. Por essa desfeita, ele passou o metazoário, isto é, a esponja. Enquanto espera o dia em que vai penetrar o coração de Petúnia, nem que seja usando uma chave mestra.
Espero que tenham gostado deste conto em duas capitulações. Não haverá para ele uma versão cinematográfica de que venham a gostar mais. PGCS
E comeram e beberam e conversaram. Ao fim de uma picanha, e também querendo ser picante, Jorge falou de sua doença. "Priapismo. Em Marrocos me curaram em excesso." Embevecida, Petúnia abriu as pupilas que um dia fizeram a desgraça do Sr. Reitor. Com isso, ele sacou logo: a fêmea topava ir a um motel de classe; mais: queria suíte com hidromassagem e cascata. Era um desejo tão evidente que, vamos mas não venhamos, seria grossura da parte dele pedir uma confirmação no plano verbal.
Jorge foi apresentado à conta. "Quinhentos cruzados, senhor, com o frete já incluído." Na nova profissão o garçom vinha passando por um período de adaptação. E Jorge George autografou um cheque de quinhentos cruzados de frente, mas sem fundos. Até o dono da casa veio pessoalmente agradecer. "Compraremos uma carne de moita de referência para o caso de o senhor voltar aqui."
- Ótimo. Mas troquem também o óleo de fritar batatas, sugeriu Jorge.
Agora, era sair dali conduzindo a mulher. Mas Petúnia pediu tempo. "Preciso retocar o batom."
Meio nervoso, Jorge a viu desaparecer no rumo do toalete.
"Meu Deus, como ela demora. Depois do batom vem o rímel? E depois do rímel?..." Petúnia remanchava...
- Ei, amigo...
Era o garçom que interrompia o benemérito Jotagê em suas divagações. Umas divagações que terminavam sempre no saguão do Banco Central.
"Bem, pelo tratamento amistoso que ainda me dispensa, não deve estar pondo meu cheque... em idem", pensou Jorge.
O garçom prosseguiu:
- A moça se mandou.
- Mas como?
- Arrodeou a churrascaria pelos fundos e pediu carona a um motoqueiro.
Desgraçou geral. Foi ele se fiar na fidelização de Petúnia, e viram só no que deu. Ainda bem que o táxi o esperava para levá-lo de volta.
Deu o toque de retirar:
- Pela Mister Rau, motorista. E não precisa respeitar as motocicletas, não.
Ninguém julgue a madrugada pela boca da noite. Por essa desfeita, ele passou o metazoário, isto é, a esponja. Enquanto espera o dia em que vai penetrar o coração de Petúnia, nem que seja usando uma chave mestra.
Espero que tenham gostado deste conto em duas capitulações. Não haverá para ele uma versão cinematográfica de que venham a gostar mais. PGCS
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
JORGE GEORGE EM RITMO DE DESVENTURA - 1.ª PARTE
Amor louco - ele muito e ela pouco.
Provérbio
Jorge checou a si próprio (não dizem que o primeiro ego é o ego corporal?) para ver se a imagem estava ótimo. Estava: dos pés às cabeça. Faltava só retocar a mecha de cabelo que caía sobre a testa, vulgo pega-rapaz, pronto, para que ele agora tocasse a campainha do apartamento de Petúnia. Oito, cinco, sete, dois, três, um, seis, quatro... triiim. Ah, Jorge George está nervoso. Por isso, não reparem na contagem regressiva que ele acabou de fazer.Jorge e Petúnia: de algum tempo se conheciam, mas ainda não eram íntimos. Perita em artes venusianas, a moça já havia despachado três anginosos para o além, Jorge não sabia disso. E mesmo que soubesse, ele não pularia fora. Logo mais, o tão aguardado programa a dois deveria acontecer e, benza deus, que outros depois acontecessem. Anginoso? Não, não era. E para matá-lo só mesmo com o recurso do fio desencapado na banheira.
O olho mágico do apartamento de Petúnia fora instalado ao contrário. Através dele Jorge espiou a voluptuosa moradora. Ela vinha vindo bela como nunca, como se fosse Vênus, a Calipígia, para lhe abrir a porta. Enquanto ele, lá fora, era um fauno que mal se continha nos cascos, perdendo até a noção comercial do tempo. Quem já deixou táxi parado marcando hora sabe o que estou a dizer.
Aberta a porta, Jorge a desarmou de uma tramela e abraçou-a com uma sofreguidão - sem retorno! Em seguida, houve uma espécie de interlúdio, que consistiu de uma sequência de corridas que eles fizeram, em torno de uma mesinha de centro, no sentido dos ponteiros do relógio. Até que a fêmea se deu por capturada. E, como sempre faz quando quer mostrar que é senhor de uma situação, ele rasgou (já na primeira tentativa) a lista telefônica de Barroquinha.
Notou também que ela estava mais baixa que de costume.
- Por que não está de sapatos altos?
- Não consegui subir neles.
- OK, então vamos.
À saída, ainda foi preciso desarmá-la de uma faca de furar porco.
Lá fora, o táxi em que ele viera aguardava o casal. Marcando hora parado. Por um problema na pinceleta da grampola, o carro de Jorge se achava numa oficina e ele esquecera o endereço.
Mergulharam no táxi, não tinham tempo a perder. Jorge George deu o nome de uma churrascaria da zona oeste da cidade, muito conhecida pelas promoções de espetinhos.
O motorista tinha a barba amanhecida (embora fosse noite) e os ombros resolutos. Ele sopesou o primeiro detalhe; ela, o segundo.
Na Míster Rau, por pouco, não atropelaram um motoqueiro.
Jorge cutucou o taxidermista (este nome é ótimo):
- Ei, você não viu?!
O outro preferiu apontar para um adesivo colocado no para-brisa do táxi. Onde ele leu: EU RESPEITO JAMANTA. Sem discussão.
(a continuar)
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
O LAR SINGULAR DE JORGE GEORGE
No ano fiscal de 1972, Jorge George morou no Rio. Mais precisamente: Jorge George morou no elevador social de um edifício na Prado Júnior, nas proximidades do Beco da Fome. Um elevador espaçoso (aliás, sobejamente espaçoso se atentarmos para o fato de que não botavam forro de proteção em dia de mudança), com a capacidade máxima para oito pessoas e que contava com uma razoável assistência técnica. Jorge George sonhava ser cidadão de Copacabana e sucedia que, àquela freguesia, só havia aquele elevador cabível no orçamento. Era pegar ou... usar as escadas de um prédio. Ah, os bons tempos bicudos...
A princípio, Jorge George enfrentou a incompreensão dos moradores do edifício. Um deles, por sinal o mais iracundo, era Severino, do 403. Ele, mulher e filhos totalizavam oito "paraíbas", a capacidade máxima do elevador como já vimos; mas, com Jorge George dentro... Por isso, antes que alguém fosse ao fundo do poço, Jotagê, o nosso cuidoso Jorge George, se prontificou a sair do ascensor, sim, toda vez que a ponderável família Severino do utiliário precisasse. E se alguém mais falava contra sua permanência no elevador, sem tardamento Jotagê o punha cativo. Não com palavras, mas com atos. Como, por exemplo, o de pagar rigorosamente em dia a taxa de condomínio.
Vá lá que ele fosse considerado um habitante atípico de Copacabana. Mas... se existia "entonces" tanta gente vivendo na corda bamba por que, à vista disso, um que outro não podia morar num elevador? E, não preciso ir muito longe, em seu habitáculo Jorge George foi o precursor do palatável apartamento-cápsula, hoje moda no Japão. Também não me perguntem a razão da moda do apartamento-cápsula pegar justo no Japão, um país sem problema de espaço (tenho um mapa do Japão nos tempos do almirante Yamamoto que prova isto).
No diuturno sobe-e-desce do elevador, Jorge George presenciava todos os colóquios. Os que falavam na alta dos gêneros de primeira necessidade (DESCE), os que comentavam sobre a penúltima queda do cruzeiro (SOBE) - os papos de antanho, enfim, batidos sempre na tecla do otimismo. E ia conhecendo, pouco a pouco, a alma de cada inquilino do edifício, inserindo-se nesse hetero-conhecimento a do Sr. Poucafé, residente no 601. O reservado Sr. Poucafé, julgado pelas vezes em que pegou o elevador sobraçando melões, era, podia-se apostar neste juízo, um melômano incurável. Mas, diabos, quantas estórias ficavam com o desfecho ignorado - para Jotagê - pois, no melhor delas, o raio do elevador tinha chegado ao rés-do-chão.
Não esqueçamos, porém, as desvantagens do "lar-singu-lar" de Jorge George Bizarria. Uma delas, o diminuto espaço-tempo para suas privacidades. O que fez com que, certa ocasião, fosse flagrado com uma loura da boca pintada em coração que trabalhava com prendas da rua. Deu a maior "confa", o semostrador terminou nos braços da polícia, pois leguleio nesse mundo-de-meu-deus é que nunca faltou. Como circunstância atenuante Jotagê alegou não ter passado de 1/4 de ereção. Contudo, não se livrou de uma comprida temporada na prisão, cumprida (felizmente) num posto policial móvel.
A princípio, Jorge George enfrentou a incompreensão dos moradores do edifício. Um deles, por sinal o mais iracundo, era Severino, do 403. Ele, mulher e filhos totalizavam oito "paraíbas", a capacidade máxima do elevador como já vimos; mas, com Jorge George dentro... Por isso, antes que alguém fosse ao fundo do poço, Jotagê, o nosso cuidoso Jorge George, se prontificou a sair do ascensor, sim, toda vez que a ponderável família Severino do utiliário precisasse. E se alguém mais falava contra sua permanência no elevador, sem tardamento Jotagê o punha cativo. Não com palavras, mas com atos. Como, por exemplo, o de pagar rigorosamente em dia a taxa de condomínio.
Vá lá que ele fosse considerado um habitante atípico de Copacabana. Mas... se existia "entonces" tanta gente vivendo na corda bamba por que, à vista disso, um que outro não podia morar num elevador? E, não preciso ir muito longe, em seu habitáculo Jorge George foi o precursor do palatável apartamento-cápsula, hoje moda no Japão. Também não me perguntem a razão da moda do apartamento-cápsula pegar justo no Japão, um país sem problema de espaço (tenho um mapa do Japão nos tempos do almirante Yamamoto que prova isto).
No diuturno sobe-e-desce do elevador, Jorge George presenciava todos os colóquios. Os que falavam na alta dos gêneros de primeira necessidade (DESCE), os que comentavam sobre a penúltima queda do cruzeiro (SOBE) - os papos de antanho, enfim, batidos sempre na tecla do otimismo. E ia conhecendo, pouco a pouco, a alma de cada inquilino do edifício, inserindo-se nesse hetero-conhecimento a do Sr. Poucafé, residente no 601. O reservado Sr. Poucafé, julgado pelas vezes em que pegou o elevador sobraçando melões, era, podia-se apostar neste juízo, um melômano incurável. Mas, diabos, quantas estórias ficavam com o desfecho ignorado - para Jotagê - pois, no melhor delas, o raio do elevador tinha chegado ao rés-do-chão.
Não esqueçamos, porém, as desvantagens do "lar-singu-lar" de Jorge George Bizarria. Uma delas, o diminuto espaço-tempo para suas privacidades. O que fez com que, certa ocasião, fosse flagrado com uma loura da boca pintada em coração que trabalhava com prendas da rua. Deu a maior "confa", o semostrador terminou nos braços da polícia, pois leguleio nesse mundo-de-meu-deus é que nunca faltou. Como circunstância atenuante Jotagê alegou não ter passado de 1/4 de ereção. Contudo, não se livrou de uma comprida temporada na prisão, cumprida (felizmente) num posto policial móvel.
Conto publicado em O POVO, de 27/05/84,
e em A FERRAGISTA, de agosto de 1986.
Marcadores:
A FERRAGISTA,
O POVO
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
A PRIMEIRA CIRURGIA DO MUNDO
Eu não entendo os criacionistas. Eles não compreendem o conceito de um macaco evoluir para um homem, mas não têm nenhum problema para admitir o de uma costela se transformar em uma mulher. Jonco Stl
Estava Deus posto em sossego num penhasco cheio de musgos, apreciando o seu trabalho ecológico de seis dias, quando percebeu a aproximação de alguém. Um ser bastante diferente dos outros criados por Ele - era bípede, quase pelado - que reconheceu de pronto: (1) Adão.
O jeito dele, meio malandro, era de quem vinha pedir alguma coisa, sacou logo Deus.
Acontece que Adão, apesar do desembaraço com que circulava no soçaite animal, (2) na frente do Todo-Poderoso tinha lá sua inibição: ficava um sujeito sem verbo. A saída, nessa situação, era que o Sujeito, também chamado Verbo, tinha o Predicado de ser um bom puxador de diálogo:
"Que cara é essa, rapaz?"
(Adão começava aqui...
"Que cara é essa, rapaz? Não está gostando do Paraíso?"
... e aqui terminava de susPIRAR.)
"Sabe, Deus, é que eu tenho notado que todo bicho por aqui têm uma companheira... Menos eu que, para ser sincero, já ando farto desse tal prazer solitário!" (3)
Deus não se abalou com a objetividade do recém-chegado. Recordou-se de que, ao fazer Adão, (4) considerara um empreendimento perigoso e de resultado incerto. Preferiu, entretanto, não mencionar isso pois, certamente, o bicho-homem ficaria magoado. Afinal, ele estava vivo, sadio e chutando por aí...
"Não houve esquecimento de minha parte, mentiu Deus. (5) Apenas me reservei o direito de criar sua companheira em outra oportunidade."
"E quando vai ser?"
"Até agora... desde que você me fale de suas preferências."
Enquanto Adão sentava-se ao lado, o Criador fez surgir prancheta, papel A4 e tirou do bolso uma lapiseira. (6) E pôs-se a desenhar em conformidade com o que Adão ia imaginando... gesticulando curvas e mais curvas no ar. (7)
Terminado o croqui da Mulher, Deus passou-o às mãos de Adão para que este desse o grau. (8) O celibatário homem, ao ver o que iria levar para o seu leito de folhas, experimentou uma onda de entusiasmo tão intensa que logo ficou ereto. (9)
"Gostou?", perguntou Deus, com obviedade.
"Se gostei?!"
"Bem, ainda há um problema. Esta delicada criatura, se moldada em barro, diretamente, não vai combinar com você."
"Como?"
"Você, como tem uma mente assaz irrequieta, só harmoniza com alguém que venha de você. Daí, uma costectomia ser indispensável..."
"Costectomia?"
"Uma operaçãozinha. Retiro-lhe uma das costelas (10) e, partindo dela, faço artesanalmente a Mulher."
"Não vai doer?"
"Não, se eu chamar o Espírito Santo para dar a anestesia geral."
O Espírito Santo veio voando. (11). Adão foi posto a "dormir" e Deus Pai realizou a primeira cirurgia do mundo. (12) Em seguida, foi o que se sabe: pós-operatório e lua-de-mel a um só tempo.
O que se sabe... quase tudo. Pois ainda consta que, a caminho do Céu, Deus Pai e Espírito Santo tenham travado o seguinte diálogo:
"Pai, não é desfazendo de sua meticulosidade criadora, mas tenho cá dúvidas de que a harmonia conjugal deles seja para sempre."
"Ora, Santo, (13) não reparou você que, durante a intervenção, eu poupei o periósteo da costela?"
"Sim."
"Com isso, a costela se recompõe. E, a qualquer tempo, eu posso fazer a Outra."
(1) Sem olhar o Catálogo da Criação.
(2) Animal Society no jargão dos colunistas.
(3) Não precisava ser tão radical.
(4) Projeto Bellum.
(5) Absolvendo-se ex officio.
(6) Presente do Dr. Sérgio Gomes de Matos.
(7) O primeiro retrato falado de que se tem notícia.
(8) Nota 10 com louvor.
(9) O corpo inteiro, entenda-se.
(10) A porção-mulher do primeiro Homem.
(11) Convocado pelo "bip".
(12) Com êxito de 200 %.
(13) Intimidade divina.
Estava Deus posto em sossego num penhasco cheio de musgos, apreciando o seu trabalho ecológico de seis dias, quando percebeu a aproximação de alguém. Um ser bastante diferente dos outros criados por Ele - era bípede, quase pelado - que reconheceu de pronto: (1) Adão.
O jeito dele, meio malandro, era de quem vinha pedir alguma coisa, sacou logo Deus.
Acontece que Adão, apesar do desembaraço com que circulava no soçaite animal, (2) na frente do Todo-Poderoso tinha lá sua inibição: ficava um sujeito sem verbo. A saída, nessa situação, era que o Sujeito, também chamado Verbo, tinha o Predicado de ser um bom puxador de diálogo:
"Que cara é essa, rapaz?"
(Adão começava aqui...
"Que cara é essa, rapaz? Não está gostando do Paraíso?"
... e aqui terminava de susPIRAR.)
"Sabe, Deus, é que eu tenho notado que todo bicho por aqui têm uma companheira... Menos eu que, para ser sincero, já ando farto desse tal prazer solitário!" (3)
Deus não se abalou com a objetividade do recém-chegado. Recordou-se de que, ao fazer Adão, (4) considerara um empreendimento perigoso e de resultado incerto. Preferiu, entretanto, não mencionar isso pois, certamente, o bicho-homem ficaria magoado. Afinal, ele estava vivo, sadio e chutando por aí...
"Não houve esquecimento de minha parte, mentiu Deus. (5) Apenas me reservei o direito de criar sua companheira em outra oportunidade."
"E quando vai ser?"
"Até agora... desde que você me fale de suas preferências."
Enquanto Adão sentava-se ao lado, o Criador fez surgir prancheta, papel A4 e tirou do bolso uma lapiseira. (6) E pôs-se a desenhar em conformidade com o que Adão ia imaginando... gesticulando curvas e mais curvas no ar. (7)
Terminado o croqui da Mulher, Deus passou-o às mãos de Adão para que este desse o grau. (8) O celibatário homem, ao ver o que iria levar para o seu leito de folhas, experimentou uma onda de entusiasmo tão intensa que logo ficou ereto. (9)
"Gostou?", perguntou Deus, com obviedade.
"Se gostei?!"
"Bem, ainda há um problema. Esta delicada criatura, se moldada em barro, diretamente, não vai combinar com você."
"Como?"
"Você, como tem uma mente assaz irrequieta, só harmoniza com alguém que venha de você. Daí, uma costectomia ser indispensável..."
"Costectomia?"
"Uma operaçãozinha. Retiro-lhe uma das costelas (10) e, partindo dela, faço artesanalmente a Mulher."
"Não vai doer?"
"Não, se eu chamar o Espírito Santo para dar a anestesia geral."
O Espírito Santo veio voando. (11). Adão foi posto a "dormir" e Deus Pai realizou a primeira cirurgia do mundo. (12) Em seguida, foi o que se sabe: pós-operatório e lua-de-mel a um só tempo.
O que se sabe... quase tudo. Pois ainda consta que, a caminho do Céu, Deus Pai e Espírito Santo tenham travado o seguinte diálogo:
"Pai, não é desfazendo de sua meticulosidade criadora, mas tenho cá dúvidas de que a harmonia conjugal deles seja para sempre."
"Ora, Santo, (13) não reparou você que, durante a intervenção, eu poupei o periósteo da costela?"
"Sim."
"Com isso, a costela se recompõe. E, a qualquer tempo, eu posso fazer a Outra."
(1) Sem olhar o Catálogo da Criação.
(2) Animal Society no jargão dos colunistas.
(3) Não precisava ser tão radical.
(4) Projeto Bellum.
(5) Absolvendo-se ex officio.
(6) Presente do Dr. Sérgio Gomes de Matos.
(7) O primeiro retrato falado de que se tem notícia.
(8) Nota 10 com louvor.
(9) O corpo inteiro, entenda-se.
(10) A porção-mulher do primeiro Homem.
(11) Convocado pelo "bip".
(12) Com êxito de 200 %.
(13) Intimidade divina.
Informativo "Mandacaru", ano III, jul 81, n° 13
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
EM BIBLIOTECA TUDO SE SABE
Leitor amigo,
Deixe cronificar em você o gosto pelos livros - eles que são os mais desenvoltos agentes do entretenimento e da cultura. Ler e coçar é questão de começar! - já disse o velho letrado. Assim: desenvolva o hábito de frequentar as livrarias da cidade, de espiar seus mostruários, de inteirar-se das obras recém-lançadas, para depois - quem sabe? - virar um adquirente regular de livros.
Adote o costume da leitura (se já não o tem). Da leitura sistemática nas filas do ônibus, do banco, da farmácia e da previdência; no escritório e na lanchonete; na sala do televisor (desligado) e na cama. Olho vivo, portanto, que esta é a maneira de você entrar para o rol dos que sabem das coisas, na categoria sênior.
Mais: existe uma coisa que se chama envolvimento leitor-livro. Ele não deve acabar quando se vira a última página de um exemplar que foi lido. O livro requer ser guardado facilmente alcançável, a fim de que, em uma dúvida, você possa rever uma frase, um tópico ou a obra inteira.
O livro não pede, mas justo é que você retribua os seus ganhos de cultura livresca, oferecendo-lhe certo conforto "pessoal". Como conforto se traduza mantê-lo protegido das traças, mofos e poeiras, e colocá-lo de modo conveniente na biblioteca.
Aqui, onde eu queria chegar: o colecionamento dos livros, o qual só fica bem feito quando efetuado com arte e artimanha. Os livros, assim como as pessoas, têm ideias, gosto e temperamentos; excetuando-se os poucos momentos que passam nas mãos do dono, coabitarão um espaço comum. Por isso, bem ou mal, interrelacionar-se-ão.
Considere então as tais afinidades inter-livros quando for ordená-los, objetivando que prevaleça a harmonia em sua biblioteca. Um pouco da minha casuística para que o leitor entenda plenamente o que busco dizer:
O livro "O Feijão e o Sonho", de Orígenes Lessa, por exemplo, a arrumação ideal será a que coloque o "Supermercado", de Paulo Mendes Campos, e o "Escolha seu Sonho", de Cecília Meireles, à esquerda e à direita dele, respectivamente.
Nesta linha de raciocínio, o "Cuca Fundida", de Woody Allen, e o "Doente Imaginário", de Molière, se mantidos na proximidade do "Pequena Psiquiatria", de Van den Berg, sentir-se-ão menos grilados.
Já pensou que despautério se eu deixasse o "Fumando Espero", de Francisco Rodrigues, ao lado do "É Melhor Não Fumar", de Jorge Pachá? Ou, então, o "Macunaíma", de Mário de Andrade, capaz de tantas inconveniências, ao lado do circunspecto "Ulisses", de James Joyce?
Coisa parecida se eu deixasse o "A Grande Bofetada", de Jorge Hachaus, de meia-parede com o "Com as Mãos Sujas de Sangue", de Marcos Faerman, sabendo que são ambos rixentos e temperamentais?
Certas sutilidades, entretanto, o leitor só aprenderá com o tempo, ao entrosar com os livros. Quer ver? O "Textos Revolucionários", de Che Guevara, conhecidamente um asmático, se beneficiará com a vizinhança do "Medicina para Milhões", do camarada J. S. Horn.
Já o "Sexualidade & Criação Literária", entrevistas do Gay Sunshine, ficará mais à vontade na companhia do "Sexo nas Prisões", de Jorge Rizzini. Sem falar que será também uma prova de tolerância para com as minorias.
Mas, leitor, mesmo me fazendo de criterioso, eu nem sempre sustento a paz no mundo dos livros. Certa feita, encontrei em minha biblioteca o "A Técnica e o Riso", do economista Roberto Campos, atirado ao chão com várias páginas arrancadas. Colocado num canto de prateleira, ele incriminou num relato que me pareceu inverídico, o "Dicionário dos Marginais", de Ariel Tacca. Veio com uma história mal alinhavrada, testemunhada em falso pelo "É Mentira, Terta?", do Chico Anísio, e logo para cima de moi que sei do quanto ele é capaz de inventar para manter uma imagem vendável (quer fazer carreira de best seller).Não demorou, "Juvenal Ouriço Repórter", de Carlos Novaes, desvendou o acontecido trazendo à minha presença o "Onde Estivestes de Noite", de Clarice Lispector. E este entregou o serviço, fora tudo na verdade um ataque de ciumeira por parte de uma brochura. O nome da cuja? "Bonitinha mas Ordinária", de Nelson Rodrigues.
Informativo "Mandacaru", ano III, ago/set 81, n° 14
Deixe cronificar em você o gosto pelos livros - eles que são os mais desenvoltos agentes do entretenimento e da cultura. Ler e coçar é questão de começar! - já disse o velho letrado. Assim: desenvolva o hábito de frequentar as livrarias da cidade, de espiar seus mostruários, de inteirar-se das obras recém-lançadas, para depois - quem sabe? - virar um adquirente regular de livros.
Adote o costume da leitura (se já não o tem). Da leitura sistemática nas filas do ônibus, do banco, da farmácia e da previdência; no escritório e na lanchonete; na sala do televisor (desligado) e na cama. Olho vivo, portanto, que esta é a maneira de você entrar para o rol dos que sabem das coisas, na categoria sênior.
Mais: existe uma coisa que se chama envolvimento leitor-livro. Ele não deve acabar quando se vira a última página de um exemplar que foi lido. O livro requer ser guardado facilmente alcançável, a fim de que, em uma dúvida, você possa rever uma frase, um tópico ou a obra inteira.
O livro não pede, mas justo é que você retribua os seus ganhos de cultura livresca, oferecendo-lhe certo conforto "pessoal". Como conforto se traduza mantê-lo protegido das traças, mofos e poeiras, e colocá-lo de modo conveniente na biblioteca.
Aqui, onde eu queria chegar: o colecionamento dos livros, o qual só fica bem feito quando efetuado com arte e artimanha. Os livros, assim como as pessoas, têm ideias, gosto e temperamentos; excetuando-se os poucos momentos que passam nas mãos do dono, coabitarão um espaço comum. Por isso, bem ou mal, interrelacionar-se-ão.
Considere então as tais afinidades inter-livros quando for ordená-los, objetivando que prevaleça a harmonia em sua biblioteca. Um pouco da minha casuística para que o leitor entenda plenamente o que busco dizer:
O livro "O Feijão e o Sonho", de Orígenes Lessa, por exemplo, a arrumação ideal será a que coloque o "Supermercado", de Paulo Mendes Campos, e o "Escolha seu Sonho", de Cecília Meireles, à esquerda e à direita dele, respectivamente.
Nesta linha de raciocínio, o "Cuca Fundida", de Woody Allen, e o "Doente Imaginário", de Molière, se mantidos na proximidade do "Pequena Psiquiatria", de Van den Berg, sentir-se-ão menos grilados.
Já pensou que despautério se eu deixasse o "Fumando Espero", de Francisco Rodrigues, ao lado do "É Melhor Não Fumar", de Jorge Pachá? Ou, então, o "Macunaíma", de Mário de Andrade, capaz de tantas inconveniências, ao lado do circunspecto "Ulisses", de James Joyce?
Coisa parecida se eu deixasse o "A Grande Bofetada", de Jorge Hachaus, de meia-parede com o "Com as Mãos Sujas de Sangue", de Marcos Faerman, sabendo que são ambos rixentos e temperamentais?
Certas sutilidades, entretanto, o leitor só aprenderá com o tempo, ao entrosar com os livros. Quer ver? O "Textos Revolucionários", de Che Guevara, conhecidamente um asmático, se beneficiará com a vizinhança do "Medicina para Milhões", do camarada J. S. Horn.
Já o "Sexualidade & Criação Literária", entrevistas do Gay Sunshine, ficará mais à vontade na companhia do "Sexo nas Prisões", de Jorge Rizzini. Sem falar que será também uma prova de tolerância para com as minorias.
Mas, leitor, mesmo me fazendo de criterioso, eu nem sempre sustento a paz no mundo dos livros. Certa feita, encontrei em minha biblioteca o "A Técnica e o Riso", do economista Roberto Campos, atirado ao chão com várias páginas arrancadas. Colocado num canto de prateleira, ele incriminou num relato que me pareceu inverídico, o "Dicionário dos Marginais", de Ariel Tacca. Veio com uma história mal alinhavrada, testemunhada em falso pelo "É Mentira, Terta?", do Chico Anísio, e logo para cima de moi que sei do quanto ele é capaz de inventar para manter uma imagem vendável (quer fazer carreira de best seller).Não demorou, "Juvenal Ouriço Repórter", de Carlos Novaes, desvendou o acontecido trazendo à minha presença o "Onde Estivestes de Noite", de Clarice Lispector. E este entregou o serviço, fora tudo na verdade um ataque de ciumeira por parte de uma brochura. O nome da cuja? "Bonitinha mas Ordinária", de Nelson Rodrigues.
Informativo "Mandacaru", ano III, ago/set 81, n° 14
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
A SOLUÇÃO DO PROBLEMA "ANIVERSÁRIOS"
Finalmente encontrei a solução do problema.
Através de uma fórmula por mim criada em que as datas de estimação da mulher são somadas e divididas, disso resultando uma quinta data, que, por sua vez, é multiplicada por um fator de correção, o qual produz uma sexta data que, por sinal, coincide com a data do meu aniversário natalício.
Não poderia chegar a um resultado diferente, uma vez que eu uso na última operação o chamado fator egocêntrico de correção. C.Q.D.
Aniversário
"Comemoração que sempre fazemos com menos um ano de entusiasmo." Leon Eliachar
Através de uma fórmula por mim criada em que as datas de estimação da mulher são somadas e divididas, disso resultando uma quinta data, que, por sua vez, é multiplicada por um fator de correção, o qual produz uma sexta data que, por sinal, coincide com a data do meu aniversário natalício.
Não poderia chegar a um resultado diferente, uma vez que eu uso na última operação o chamado fator egocêntrico de correção. C.Q.D.
Aniversário
"Comemoração que sempre fazemos com menos um ano de entusiasmo." Leon Eliachar
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
O PERIGO DAS DEFINIÇÕES
Omnis definitio periculosa est.
Tese é uma hipótese que não caiu do cavalo.
O mundo é uma orquestra. Uns carregam o piano para que outros levem a vida na flauta.
A ordem dos fatores altera o produto. É por isso que José Maria não é Maria José.
A toda primeira intenção corresponde uma segunda de maior intensidade.
De tanto ver triunfar as nulidades botei uns zeros à minha esquerda.
Não importa a cor do rato contanto que ele não seja apanhado pelo gato.
Esse tal espírito corporativo - também chamado de espírito de corpo - só serve para encobrir os espíritos de porco.
O amor é a parte burocrática da genética.
Hiperinflação é quando você quer trocar uma cédula e o outro diz: "Sim, mas só se você passar o seu dinheiro primeiro".
Agiota é uma palavra que já diz tudo: um ágil de um lado e um idiota do outro.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
IN ILLO TEMPORE
Naquele tempo, disse eu a meu botões: "Vou me candidatar a acólito da Igreja de Nossa Senhora das Dores".
No RH do templo, em Otávio Bonfim, levaram a sério a minha pretensão e me deram para ler em casa uma espécie de "Manual do Acólito", que continha as orientações necessárias a um coroinha de primeira missa. Trazia o rito completo da missa celebrada em latim e posso dizer que foi o meu primeiro contato com essa língua tão cheia de palavras e construções incompreensíveis. Como, por exemplo, entender que tanto saecula quanto saeculorum podiam ser traduzidas por "séculos"? Dúvidas, dúvidas, dúvidas que só seriam solucionadas adiante com meus estudos de latim no Colégio Cearense.
Além do rito e do latinório, o acólito tinha de conhecer bem o nome das coisas sacras: missal, patena, turíbulo, cálice e, finis coronat opus, o sacrário.
Quanto ao esforço para me levantar de madrugada e, ainda sonolento, ir balançar o turíbulo na igreja, tinha lá umas compensações a posteriori. Um desjejum de café com leite, servido numa grande caneca de ágata, acompanhado de pão (dos pobres?) com bastante manteiga e... um ingresso para assistir ao filme de sábado no Cine Familiar! Este último era o braço propositivo de um patrulhamento que Frei Teodoro fazia para que não frequentássemos o Cine Nazaré. Não que ele quisesse nocautear a concorrência, não, era somente para defender os bons costumes do bairro.
O sacerdote rezava a maior parte da missa de costas para os fiéis. No rito, havia o momento em que um dos acólitos transportava o pesado missal de um lado para outro do altar. Com o detalhe de uma rápida genuflexão feita pelo meio do caminho. Pois bem, numa missa das cinco, o missal desequilibrou-se de minhas mãos e rolou escadaria abaixo. Todo vexado, apanhei o livro santo para colocá-lo onde devia. E Frei Oto levou um tempão para achar o evangelho do dia, o qual tinha sido desmarcado pela queda do missal.
Por vezes, aparecia no convento dos franciscanos frades um tal "Frei Cosquinha". Assim apelidado pelo costume de agarrar os meninos pelos corredores do convento. Não o prejulguem, era apenas pelo divertimento de lhes fazer cócegas.
Uma ocasião, tio Edson, que vinha se preparando para o concurso de um banco oficial, me veio com uma propostaindecente decente. Eu devia ir à igreja, expressamente para rezar um certo número de padres-nossos e aves-marias, intercalados com pedidos especiais em favor de sua aprovação no concurso. É que meu tio defendia a teoria de que as súplicas, quando partidas de um coração infantil, eram prioritárias para o Criador. Chamem isso de tráfico de influência, de atitude religiosamente incorreta, enfim, da forma como quiserem.
Quem era eu para contestar uma teoria que, além de defendida por um ex-seminarista, prometia aumentar o meu pé de meia, e como de fato aconteceu?
Caprichei. Naquele tempo a fé não costumava falhar.
No RH do templo, em Otávio Bonfim, levaram a sério a minha pretensão e me deram para ler em casa uma espécie de "Manual do Acólito", que continha as orientações necessárias a um coroinha de primeira missa. Trazia o rito completo da missa celebrada em latim e posso dizer que foi o meu primeiro contato com essa língua tão cheia de palavras e construções incompreensíveis. Como, por exemplo, entender que tanto saecula quanto saeculorum podiam ser traduzidas por "séculos"? Dúvidas, dúvidas, dúvidas que só seriam solucionadas adiante com meus estudos de latim no Colégio Cearense.
Além do rito e do latinório, o acólito tinha de conhecer bem o nome das coisas sacras: missal, patena, turíbulo, cálice e, finis coronat opus, o sacrário.
Quanto ao esforço para me levantar de madrugada e, ainda sonolento, ir balançar o turíbulo na igreja, tinha lá umas compensações a posteriori. Um desjejum de café com leite, servido numa grande caneca de ágata, acompanhado de pão (dos pobres?) com bastante manteiga e... um ingresso para assistir ao filme de sábado no Cine Familiar! Este último era o braço propositivo de um patrulhamento que Frei Teodoro fazia para que não frequentássemos o Cine Nazaré. Não que ele quisesse nocautear a concorrência, não, era somente para defender os bons costumes do bairro.
O sacerdote rezava a maior parte da missa de costas para os fiéis. No rito, havia o momento em que um dos acólitos transportava o pesado missal de um lado para outro do altar. Com o detalhe de uma rápida genuflexão feita pelo meio do caminho. Pois bem, numa missa das cinco, o missal desequilibrou-se de minhas mãos e rolou escadaria abaixo. Todo vexado, apanhei o livro santo para colocá-lo onde devia. E Frei Oto levou um tempão para achar o evangelho do dia, o qual tinha sido desmarcado pela queda do missal.
Por vezes, aparecia no convento dos franciscanos frades um tal "Frei Cosquinha". Assim apelidado pelo costume de agarrar os meninos pelos corredores do convento. Não o prejulguem, era apenas pelo divertimento de lhes fazer cócegas.
Uma ocasião, tio Edson, que vinha se preparando para o concurso de um banco oficial, me veio com uma proposta
Quem era eu para contestar uma teoria que, além de defendida por um ex-seminarista, prometia aumentar o meu pé de meia, e como de fato aconteceu?
Caprichei. Naquele tempo a fé não costumava falhar.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
MOTEL, HOTEL E FLOTEL
Chamava o seu motel de escola. E, quando fazia alguma obra para ampliá-lo, dizia que estava construindo novas salas de aula. Assim era Zé Galinha, um destaque do ramo da motelaria.
Certa vez uma moça se deu mal. Achando que o moteleiro agia com hipocrisia, meteu-se a censurá-lo:
- Deixa de besteira, Zé. Por que não chama o seu negócio logo de motel?
A resposta veio de fuscão preto:
- Ora, minha filha. Para não deixar em má situação uma moça como você...
A cidadezinha, além da estação ferroviária, tinha dois hotéis.
Quando alguém, recém-chegado à cidade, perguntava ao chefe da estação em qual deles deveria se hospedar, a recomendação já estava na ponta da língua:
- Tanto faz. Onde ficar vai se arrepender de não ter escolhido o outro.
Flotel é um hotel flutuante. Não sei de piadas sobre flotéis. Enquanto isso, deixe navegar em sua imaginação essa autêntica joia doNilo Mamoré. É o boliviano "Reina de Enin", montado num catamarã e que tem doze camarotes climatizados.
Certa vez uma moça se deu mal. Achando que o moteleiro agia com hipocrisia, meteu-se a censurá-lo:
- Deixa de besteira, Zé. Por que não chama o seu negócio logo de motel?
A resposta veio de fuscão preto:
- Ora, minha filha. Para não deixar em má situação uma moça como você...
A cidadezinha, além da estação ferroviária, tinha dois hotéis.
Quando alguém, recém-chegado à cidade, perguntava ao chefe da estação em qual deles deveria se hospedar, a recomendação já estava na ponta da língua:
- Tanto faz. Onde ficar vai se arrepender de não ter escolhido o outro.
Flotel é um hotel flutuante. Não sei de piadas sobre flotéis. Enquanto isso, deixe navegar em sua imaginação essa autêntica joia do
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
O HOMEM DOS 7 ESPORTES
Falta alguém tranquilizar a Dona Lêda Collor de que seu filho não corre perigo. Quando, todo fim de semana que Deus dá, ele aparece praticando alguma peripécia esportiva. Como pilotar em alta velocidade uma possante moto, deslizar sobre as águas do Paranoá num jet-ski, dirigir numa estrada movimentada uma carreta de dezoito pneus. E, ainda, a correr, a nadar, a pedalar etc.
Uma sequência de proezas a que se juntam outras, de natureza marcial. Se o mar é de almirante, a terra, de general, e o céu de brigadeiro, dirigir submarino, Urutu e avião de caça, respectivamente.
Mas não te surpreendas, ó leitor, com o que eu vou dizer agora. Sobre um segredo - que vazou - relacionado ao marketing promocional do presidente. É que existem sete sósias do Collor na Casa da Dinda. E cada um é bamba em algum tipo de esporte. Chega o fim de semana, um deles se exibe para brasileiro ver. E o brasileiro, ignorando esse detalhe, fica pensando que há um superpresidente no comando da nação. O primeiro (Menem é o segundo) do ranking mundial!
Não é novidade a estratégia em questão. A Cofap, por exemplo, para fazer a atual campanha do Turbogas (um amor de amortecedor), usou quatro cachorros da raça bassê. Dando a impressão de existir, pela soma das habilidades dos quatro, um super-ator canino. O Rin Tin Tin do seriado da televisão, idem. Em vez de um único cão, oito contracenam com a cavalaria norte-americana. Se isso é anti-ético não sei dizer, mas são as liberdades do mundo do espetáculo.
O presidente por pouco não está na novela Pantanal, também vazou. Em seu lugar, Sérgio Reis, um noviço na arte de representar, foi colocado no cast da novela (para explorar a semelhança física do cantor com o presidente). Mas, assessores do presidente, temendo que a manobra não fosse bem recebida pelo público, roeram as cordas da viola e não deram caráter oficial à substituição. Bem, se collar, collou... foi a orientação que a Manchete deu, daí para frente.
Na única aparição esportiva do presidente - em carne e osso - ele não convenceu. Foi quando jogou num treino da seleção brasileira de futebol. Mesmo assim ele criou uma enorme dificuldade para o Tafarel. Eu não gostaria de estar, naquele hora, sob a pele do grande goleiro. Imagina o sujeito ter de adivinhar para que lado a bola vai ser chutada e aí, num fechar dos olhos, saltar para o lado oposto. Ah, não estivesse ali o Tafarel aquela bola não teria entrado!
Aliás, todo goleiro de escol sabe muito bem a principal lição de Nenem Prancha. Pênalti cobrado pelo diretor do clube não é de se pegar. Cobrado pelo presidente da República, a bola então já parte completamente indefensável.
A bem da verdade, ato arriscado até hoje o filho de Dona Lêda só praticou um. Foi quando, de forma resoluta, destemida e impávida, ele adentrou uma casa bancária e... abriu uma caderneta de poupança.
Uma sequência de proezas a que se juntam outras, de natureza marcial. Se o mar é de almirante, a terra, de general, e o céu de brigadeiro, dirigir submarino, Urutu e avião de caça, respectivamente.
Mas não te surpreendas, ó leitor, com o que eu vou dizer agora. Sobre um segredo - que vazou - relacionado ao marketing promocional do presidente. É que existem sete sósias do Collor na Casa da Dinda. E cada um é bamba em algum tipo de esporte. Chega o fim de semana, um deles se exibe para brasileiro ver. E o brasileiro, ignorando esse detalhe, fica pensando que há um superpresidente no comando da nação. O primeiro (Menem é o segundo) do ranking mundial!
Não é novidade a estratégia em questão. A Cofap, por exemplo, para fazer a atual campanha do Turbogas (um amor de amortecedor), usou quatro cachorros da raça bassê. Dando a impressão de existir, pela soma das habilidades dos quatro, um super-ator canino. O Rin Tin Tin do seriado da televisão, idem. Em vez de um único cão, oito contracenam com a cavalaria norte-americana. Se isso é anti-ético não sei dizer, mas são as liberdades do mundo do espetáculo.
O presidente por pouco não está na novela Pantanal, também vazou. Em seu lugar, Sérgio Reis, um noviço na arte de representar, foi colocado no cast da novela (para explorar a semelhança física do cantor com o presidente). Mas, assessores do presidente, temendo que a manobra não fosse bem recebida pelo público, roeram as cordas da viola e não deram caráter oficial à substituição. Bem, se collar, collou... foi a orientação que a Manchete deu, daí para frente.
Na única aparição esportiva do presidente - em carne e osso - ele não convenceu. Foi quando jogou num treino da seleção brasileira de futebol. Mesmo assim ele criou uma enorme dificuldade para o Tafarel. Eu não gostaria de estar, naquele hora, sob a pele do grande goleiro. Imagina o sujeito ter de adivinhar para que lado a bola vai ser chutada e aí, num fechar dos olhos, saltar para o lado oposto. Ah, não estivesse ali o Tafarel aquela bola não teria entrado!
Aliás, todo goleiro de escol sabe muito bem a principal lição de Nenem Prancha. Pênalti cobrado pelo diretor do clube não é de se pegar. Cobrado pelo presidente da República, a bola então já parte completamente indefensável.
A bem da verdade, ato arriscado até hoje o filho de Dona Lêda só praticou um. Foi quando, de forma resoluta, destemida e impávida, ele adentrou uma casa bancária e... abriu uma caderneta de poupança.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
O PÁSSARO QUE PERDEU O AMIGO
Um pássaro descrevia com entusiasmo um milharal que existia nas redondezas. Convidando outro para que ambos fossem lá para um amplo, geral e irrestrito banquete.
Mas o outro se mostrou temeroso:
- Costuma haver caçadores naquele milharal.
- Ora, dividiremos o risco.
- Qual! Você é pequenino e eu sou grande...
Ficava entendido que o pássaro de porte avantajado, no caso de ambos serem vistos por um caçador, seria o alvo preferencial. E o pequenino, assim, é que teria maior chance de escapar.
E isso não era tudo. O pássaro graúdo lembrou um detalhe que tornava a aventura arriscadíssima:
- Você pia sem parar. Vai certamente chamar a atenção para nós.
- Fico em silêncio. No milharal eu só vou abrir o bico para comer grão.
- Bem, sendo assim...
E voaram os dois para a desejada lambança. Só que o pequenino, mal se viu entre as espigas, esqueceu-se do trato. E pôs-se a piar incessantemente, o que atraiu para o local uns caçadores.
Bastou um tiro para acertar... logo quem? O passarão, como era previsível.
Quanto ao pequenino, este voou para longe sem maiores dificuldades. E sem uma ponta de arrependimento, acrescente-se ainda. Tanto que ele escapou comentando:
- Perco um amigo mas não perco o piado.
Mas o outro se mostrou temeroso:
- Costuma haver caçadores naquele milharal.
- Ora, dividiremos o risco.
- Qual! Você é pequenino e eu sou grande...
Ficava entendido que o pássaro de porte avantajado, no caso de ambos serem vistos por um caçador, seria o alvo preferencial. E o pequenino, assim, é que teria maior chance de escapar.
E isso não era tudo. O pássaro graúdo lembrou um detalhe que tornava a aventura arriscadíssima:
- Você pia sem parar. Vai certamente chamar a atenção para nós.
- Fico em silêncio. No milharal eu só vou abrir o bico para comer grão.
- Bem, sendo assim...
E voaram os dois para a desejada lambança. Só que o pequenino, mal se viu entre as espigas, esqueceu-se do trato. E pôs-se a piar incessantemente, o que atraiu para o local uns caçadores.
Bastou um tiro para acertar... logo quem? O passarão, como era previsível.
Quanto ao pequenino, este voou para longe sem maiores dificuldades. E sem uma ponta de arrependimento, acrescente-se ainda. Tanto que ele escapou comentando:
- Perco um amigo mas não perco o piado.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
CARTA A ALCENI
Exmo. Sr.:
Extraído de um livro técnico, envio-lhe a gravura de um médico italiano paramentado para combater uma das pestilências da Idade Média. De efeito protetor duvidoso, o uniforme - veja se concorda comigo - conferia a seu usuário o aspecto de um homem-pássaro. Ou, melhor, de um maestro-pássaro, se atentarmos para o fato de que ele, com certa desenvoltura, em uma das mãos carrega uma batuta.
Vamos, porém, ao que agora interessa: adequar o medieval uniforme ao Brasil de hoje. Pois bem, para se chegar a um "modelito" atualizado, eu observo que o mesmo está a precisar do seguinte: primeiro, uma mochila "dorso-transportável"; segundo, uma moringa pendente à cintura; terceiro, um guarda-chuva que ocupe o lugar da batuta, pois quem sai à chuva não é para se molhar; e, quarto (entrando como "opcional obrigatório"), uma bicicleta.
Não esquecendo, ainda, da inscrição que deve existir no novo uniforme: SUPERFATURAMENTO É A MÃE!
Vamos, porém, ao que agora interessa: adequar o medieval uniforme ao Brasil de hoje. Pois bem, para se chegar a um "modelito" atualizado, eu observo que o mesmo está a precisar do seguinte: primeiro, uma mochila "dorso-transportável"; segundo, uma moringa pendente à cintura; terceiro, um guarda-chuva que ocupe o lugar da batuta, pois quem sai à chuva não é para se molhar; e, quarto (entrando como "opcional obrigatório"), uma bicicleta.
Não esquecendo, ainda, da inscrição que deve existir no novo uniforme: SUPERFATURAMENTO É A MÃE!
PGCS
sexta-feira, 29 de julho de 2011
A COMPETIÇÃO PELA APARÊNCIA
As mulheres com polegadas a menos numa parte do corpo - sobre a qual recai a preferência nacional - têm agora o problema resolvido. Com a invenção do bumbum postiço, uma peça de vestuário que confere à usuária a ilusão de possuir um traseiro carnudo. Ora, mas isto apenas vem a se juntar ao já vasto arsenal das mistificações femininas, dentre as quais já se encontram: os cílios postiços, as lentes de contato coloridas, a cinta etc. Além de algo que está sendo prometido para breve, o sutiã "vamp", o qual, ao nível ilusório, deverá resolver o problema dos seios mirrados.
E ficaremos os homens de fora dessa competição pela aparência? Pois, salvo o caso do calvo que se defende com uma peruquinha, com o cuidado de que ela não seja óbvia, pouco lançamos mão de tais artifícios? Inclusive os rotulamos de "coisas de mulher", quando sobejam as provas de que a vaidade não é um apanágio feminino. Então, por que o escrúpulo de não participar desse jogo?
Guerra é guerra.
Podemos reeditar a moda dos poulaines, sapatos compridos que foram muito populares na Idade Média. Havendo-os até com o formato de pênis. Na Batalha de Nicópolis, em 1396, cruzados franceses foram obrigados a cortar as pontas de seus poulaines... para que pudessem fugir. Mas não é certo de que foi isso o que levou um papa a proibi-los.
Como também podemos trazer de volta o codpiece, que foi moda no século 18. Consistindo este em uma parte saliente da calça onde o homem podia aninhar o órgão sexual. Com bastante enchimento, claro, para dar a impressão de que teria um órgão em permanente ereção. Além disso, com cores berrantes, fitas vistosas, ouro e pedraria. Tudo o que pudesse chamar a atenção para o ponto em questão.
E ficaremos os homens de fora dessa competição pela aparência? Pois, salvo o caso do calvo que se defende com uma peruquinha, com o cuidado de que ela não seja óbvia, pouco lançamos mão de tais artifícios? Inclusive os rotulamos de "coisas de mulher", quando sobejam as provas de que a vaidade não é um apanágio feminino. Então, por que o escrúpulo de não participar desse jogo?
Guerra é guerra.
Podemos reeditar a moda dos poulaines, sapatos compridos que foram muito populares na Idade Média. Havendo-os até com o formato de pênis. Na Batalha de Nicópolis, em 1396, cruzados franceses foram obrigados a cortar as pontas de seus poulaines... para que pudessem fugir. Mas não é certo de que foi isso o que levou um papa a proibi-los.
Como também podemos trazer de volta o codpiece, que foi moda no século 18. Consistindo este em uma parte saliente da calça onde o homem podia aninhar o órgão sexual. Com bastante enchimento, claro, para dar a impressão de que teria um órgão em permanente ereção. Além disso, com cores berrantes, fitas vistosas, ouro e pedraria. Tudo o que pudesse chamar a atenção para o ponto em questão.
Assinar:
Postagens (Atom)





