sábado, 28 de novembro de 2009
SANTA LEITURA
terça-feira, 17 de novembro de 2009
TUDO SE TRANSFORMA
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
RESSONÂNCIAS LITERÁRIAS
Antologia de prosa e poesia publicada em 2009 por SOBRAMES, Regional do Ceará.Autores: Airton Fontenele Sampaio Xavier, Airton Ferro Marinho, Antero Coelho Neto, Antônio Sílvio de Araújo, Antonio Vicente de Alencar (convidado), Celina Côrte Pinheiro, Christiane Araujo Chaves Leite, Dalgimar Beserra de Menezes, Dimas Macedo (convidado), Emanuel de Carvalho Melo, Fernando Antônio Siqueira Pinheiro, Francisco Antônio Tomaz Ribeiro Ramos, Francisco das Chagas Dias Monteiro (Chico Passeata), Francisco Flávio Leitão de Carvalho, Francisco José Pessoa de Andrade Reis, Geraldo Beserra da Silva, Maria Ilnah Soares e Silva, Jesus Irajacy Fernandes da Costa, João de Deus Pereira da Silva, José Luciano Sidney Marques, José Maria Bonfim, José Maria Chaves, José Teúnes Ferreira de Andrade Filho, Josué Viana de Castro Filho, Luciano Nunes Maia (convidado), Luiz de Araujo Barbosa, Luiz Gonzaga de Moura Júnior, Luiz Luciano Menezes de Arruda, Luiz Teixeira Neto, Marcelo Gurgel Carlos da Silva, Martinho Rodrigues Fernando, Nilson de Moura Fé, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Sebastião Diógenes Pinheiro, Vladimir Távora Fontoura Cruz, Walter Gomes de Miranda Filho, Wellington Alves e William Moffitt Harris
Apresentação: José Maria Chaves
Prefácio: Giselda de Medeiros Albuquerque (da Academia Cearense de Letras)
Dedicatória: "À memória do Prof. Eilson: saudades sobramistas" por Marcelo Gurgel
Projeto Gráfico e Arte Final: Júlio Amadeu
Coordenação: Marcelo Gurgel
Organização e Revisão: Marcelo Gurgel e Walter Miranda
Imagem da Capa: Glauco Sobreira
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda
Tiragem: 1.000 exemplares
Livro com 224 páginas.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
JAMB (1986-1990)
- COMO EU VEJO - Fev/86
- AOS QUE RONCAM - Fev/87
- (À PROCURA DE) FÓSFOROS - Abr/87
- O SEGUNDO - Jun/87
- EM CARTAZ (I) - Ago/87
- SALVE A INFLAÇÃO BRASILEIRA! - Nov/87
- DOMURU E EU - Jan/89
- BRASIL, MOSTRA TUA TARA - Mai/89
- O CAMINHO DO MEIO - Mai/90
- A SENHORITA E. - NI
- ESCOLA DE SAMBA? DEIXA EU FALAR... - NI
sábado, 31 de outubro de 2009
BRASIL, MOSTRA TUA TARA
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
ESCOLA DE SAMBA? DEIXA EU FALAR...
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
OUVIR AS BASES
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
AOS QUE RONCAM
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
OUTROS TEXTOS PUBLICADOS NO DN - CULTURA
FÓSFOROSO SEGUNDOAS COROAS DE APOLOEM CARTAZ - IBANCA DAS NEVESHOMEM & MULHERMINHA HISTÓRIAA BOMBAO VENDEDOR DE ESTRELASPONTO E VÍRGULAJORGE, SUAS PAQUERAÇÕES (SOL, PRAIA... AÇÃO)A PROPOSTA DO DR. CARTA PÁCIOO CAMINHO DO MEIOJORGE, SUA LUTA ANTI-SOLIDÃO (GURGELZIM E A ARTE DO DESENCONTRO)A SENHORA E.JORGE, SEU VIOLÃO DE OURO (GURGELZIM DA VIOLA)INVENTANDO COISASDR. CARTA PÁCIO E O LOTEAMENTO HUMANOOS TÍQUETES DO TEMPOJORGE, SUA VIDA SEXUAL (GURGELZIM E O COMETA HALLEY)O FAROL
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
A PREGUIÇA
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
DOMURU E EU
sábado, 5 de setembro de 2009
A FLOR DO ABORRECIMENTO
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
EM CARTAZ - II
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
A CRÍTICA INÉDITA SOBRE A OBRA LITERÁRIA DE PAULO GURGEL
O médico, poeta e humorista Paulo Gurgel é também ficcionista nas horas vagas. E horas vagas para ele é o tempo disponível entre a profissão, a poesia e o violão. Que me desculpem a rima. Mas o ritmo poético e o acorde acordam nesse homem o humor, que o pratica com grande sobriedade e agudo senso crítico. Sensível à beleza artística, é um expert da criatividade.
"Que anjos são essesQue se nutrem da celestial ambrósiaMas que não diligenciamQuando mastigo cogumelos venenosos?"
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
A CRÍTICA PUBLICADA SOBRE A OBRA LITERÁRIA DE PAULO GURGEL
"Criações", a nova antologia que o Centro Médico Cearense acaba de publicar, é um livro que mesmo não se destinando à realização de uma ambicionada carreira literária, enfeixa em suas páginas a virtude de provocar outras reflexões. No geral, trata-se de um projeto que, se por um lado peca pela falta de unidade estética e mundividencial, por outro assombra pela qualidade de alguns textos que apresenta, assaltando, muitas vezes de surpresa, a sensibilidade literária do próprio leitor. (...)
No mais, gostaria de aqui registrar a importância dessa iniciativa do Centro Médico Cearense, no sentido de divulgar, através de sucessivas edições, a produção literária de seus associados, erguendo um empreendimento inquestionavelmente pioneiro no âmbito das associações profissionais existentes no Ceará.
A Editora do Centro Médico Cearense, portanto, está de parabéns, como de parabéns estão os seus articuladores, especialmente os médicos Emanuel Carvalho e Paulo Gurgel, responsáveis pelo seu programa editorial. E se mesmo, como insinuei, ainda não atingiu um estágio capaz de polarizar a ambivalência por mim reclamada, no início desta apresentação, isto se deve ao fato de o Centro Médico Cearense, antes de ser uma sociedade de escritores, se constituir numa escola que apreende a vida exatamente ao contrário daquilo que aprendemos na escola, dando-nos, assim, a lição de que literatura é vida e de que viver nem sempre representa uma opção pelos descaminhos da realidade.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
COISANDO INVENTOS
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
UM DEUS DORMIU LÁ EM CASA
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
UMA IDADE DIFÍCIL
segunda-feira, 27 de julho de 2009
O BINGO DAS PEDRAS FRIAS
quinta-feira, 23 de julho de 2009
O CETRO
Abra-se um parêntese para descrever o grão-ministro. Hie-Na não chegara ao alto mandarinato assim por acaso. Em criança, fora companheiro de folguedos de Liang. Depois, graças aos anos em que viveu na Índia, havia reunido uma enorme bagagem de truques engenhosos (considerados por Liang como genéricos dos milagres). E foi por conta desse acervo que Hie-Na chegou a grão-ministro. Cansado já estava o Filho do Céu de ser acusado de milagres em vão prometidos. De modo que, ao fazer de Hie-Na um dignitário, este é que se encarregaria da mistificação. E feche-se a descrição do grão-ministro com outro parêntese.
Em seus aparecimentos públicos o rei não se apartava do cetro, o símbolo de seu poder. Era um cetro que remontava ao fundador de sua dinastia e quem o empunhasse detinha o poder temporal. Somente quando a morte lhe fechasse os olhos é que de suas mãos deveria o bastão real sair. Para as mãos do príncipe herdeiro, evidentemente. E assim a sua dinastia continuaria a varar os séculos. Sucede, porém, que certa noite o rei Liang teve um sonho mau. Assim considerado porque viu ele, naquele sonho, o cetro na mão do rei de uma província vizinha.
Aquele soba! No resto da noite, o rei não conseguiu mais dormir. E, mal o dia amanheceu, ele fez vir à sua presença o seu fiel grão-ministro, de cuja boca tantos conselhos sábios já tinham brotado. Pois bem, germinou mais este (da boca) do grão. O rei, sugeriu ele, deveria partir o cetro em dois para governar apenas com a metade. Quanto à outra metade, guardaria ele, grão-ministro, em local que usurpador nenhum pudesse alcançar. Uma espécie de proteção contra aquele tipo de gente que bota as unhas de fora quando um rei se acha velho e desdentado.
E o rei passou a reinar com meio cetro à vista de todos, mas sabendo todos da existência da outra metade em local patrulhado por dragão. Até que ele teve outro sonho mau. Como na vez anterior, pela manhã ele chamou o grão-ministro aos aposentos reais. E este tornou a sugerir que partisse o meio cetro em dois novos pedaços. O rei Liang reinaria, daí para frente, com um quarto do bastão e ele, grão-ministro, se encarregaria da guarda dos três quartos restantes. Um tamanho mais que suficiente, Vossa Majestade, para o povo saber quem está a governá-lo.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
A ENTREVISTA DO BOI
Dou nome ao boi: Tatá. Dele ainda arranquei (epa!) outros dados individuais: idade (5 anos, mas não publique isto); raça (guzerá, melhor que anote bovina); religião (budismo mitigado); e passatempo (todos, menos este). Em seguida, a entrevista.
- Já estando escolhido para ser a figura central de uma festa popular, como você se sente?
- Encurralado. Antes me botassem numa tourada ou numa das vaquejadas que vocês fazem aí no Nordeste. Assim, eu não teria uma morte tão humilhante.
- Sente-se, então, como um peru no Natal?
- Sim, guardadas as proporções.
- E... não existe uma maneira de escapar da tortura e da morte que os farristas lhe reservam?
- Só existe uma, bem amaneirada. Transformar-me em boi voador.
- É, mas asinha o prenderiam. Com base numa lei que “manda prender esse boi, seja esse boi o que for”.
- Chicanice.
- Bem, na qualidade de animal totêmico, segundo a antropologia...
- Ora, vão eles amolar... o bode que tem muito mais retorno.
- Porém, há uma corrente de intelectuais que defende a farra. Partindo do princípio de que ela é uma tradição.
- Tudo bem, se eu estivesse no bumba-meu-boi. Mas avise antes... esses zoófobos senhores de que me aguarda o martírio.
- E as autoridades locais nunca tomam uma providência?
- Ah, só têm empurrado o problema com a barriga... verde, aliás. Na ingênua esperança de que os farristas, com o passar dos tempos, abrandem a violência.
- Há rumores de que governador Pedro Ivo acha-se disposto a pegar o boi pelos chifres...
- Epa! Até ele?!
- Quero dizer, o seu governador está a fim de enfrentar o problema para resolvê-lo de uma vez por todas. Nem que tenha de usar a polícia. Que você acha, então?
- Aplaudo-o. Agora, que ele vá conseguir pôr um paradeiro na farra, no aspecto bárbaro da farra, eu não acredito. Brigam policiais e farristas, o evento fica mais animado, mas no fim saio eu esquartejado.
- E... quanto à recente intervenção do Gabeira, do Partido Verde...
- De verde entendo eu que sou ruminante.
- Concordo. Mas o Gabeira disse que a farra é para acontecer mesmo e sem a interferência da polícia.
- Ele, um escritor de tutano, falou isso realmente?
- Não falou só por farra, pois ele se encontrava num palanque.
- “Peraí”. O Gabeira não é aquele que já comeu “carne do boi”?
- Hum... hum...
- Tá explicado agora. Porque o macho vem crepusculando tanto.
- OK, mas agora é tarde para boi... cotá-lo. Ele foi aplaudidíssimo pelos farristas que até lhe prometeram uma farra do boi sem violência.
- Para já?
- Não exatamente. Assim que todos estiverem conscientes de que a violência contra o animal...
- Ora, até lá morre o Gabeira ou o boi. Como não me chamo Ápis nem moro no Egito...
- Já sei. Você acha que morre primeiro.
- Adivinhão. Agora conta outra para eu dormir
quinta-feira, 9 de julho de 2009
NO VELÓRIO, SÓ FINÓRIO
quinta-feira, 2 de julho de 2009
OUTRA DO DR. CARTA PÁCIO
sexta-feira, 26 de junho de 2009
PIRÂMIDES
sexta-feira, 19 de junho de 2009
PLIM, PLIM
quarta-feira, 10 de junho de 2009
A PROPOSTA DO DR. CARTA PÁCIO
sexta-feira, 29 de maio de 2009
GATO, TIJOLO & FAMÍLIA
segunda-feira, 25 de maio de 2009
E VIU QUE ISTO ERA BOM
- No princípio o Prefeito criou o Plano de Metas da Prefeitura. E disse: exista o Erário. E o Erário existiu. E da dotação orçamentária separou uma polpuda parte para que desfrutasse de salário, representação e mordomias. E viu que isto era bom.
- Disse também o Prefeito: O principal problema da cidade é o abastecimento de água. E abriu uma concorrência para a construção de uma adutora, uma estação de tratamento e uma rede de distribuição para o precioso líquido; além de chafarizes para os bairros mais distantes. A concorrência foi ganha por uma firma de engenharia de um cunhado seu. E viu que isto era bom.
- Disse também o Prefeito: Abram novas avenidas asfaltadas e arborizadas. E, numa atitude de homem devotado à causa pública, consentiu que as avenidas atravessassem uns terrenos seus até então pouco valorizados. E viu que isto era bom.
- Disse também o Prefeito: Sejam atendidos os pedidos de iluminação pública. E surgiram quarteirões bem iluminados de acordo com os reclamos dos vereadores de seu partido: verdadeiras ilhas de feérica iluminação no oceano de breu da oposição. E viu que isto era bom.
- Disse também o Prefeito: Seja feito o zoológico da cidade. E deu incumbência a seu filho mais velho para que organizasse o referido parque. Houve a injeção de fartos recursos financeiros e a cidade passou a ter o seu zoológico. O único do mundo com os animais exclusivamente em pôsteres. E viu que isto era bom.
- Disse também o Prefeito: Façamos as assessorias. E foram feitas, cresceram e multiplicaram-se em cargos de confiança de modo a garantir a seu esquema político uma poderosa máquina eleitoreira. E viu que todas as coisas que tinha feito eram boas.
- Assim, acabada a sua gestão, o Prefeito descansou. Certificando-se antes da magnitude da aposentadoria que a Câmara Municipal lhe votou e de que todos os seus parentes e apadrinhados estivessem aquinhoados com bons empregos.
sábado, 23 de maio de 2009
ARSENAL DE LITERATURA
sábado, 16 de maio de 2009
NUVENS
"Abraço a Juno ou, louco, abraço aquelaNuvem de ouro ilusória e vagabunda?!...Minha ventura, ó céus, é tão profunda,Tão larga e tanto que eu duvido dela!"
segunda-feira, 11 de maio de 2009
COMO EU VEJO
domingo, 3 de maio de 2009
SALVE A INFLAÇÃO BRASILEIRA!
domingo, 19 de abril de 2009
O PACTO
sexta-feira, 10 de abril de 2009
UM ESQUELETO PARA MICHAEL JACKSON
quarta-feira, 8 de abril de 2009
IMPAGÁVEIS DO PG - II
terça-feira, 7 de abril de 2009
IMPAGÁVEIS DO PG - I
segunda-feira, 23 de março de 2009
O CADERNO DN - CULTURA
terça-feira, 17 de março de 2009
MÉTODOS DE SUICÍDIO
quarta-feira, 11 de março de 2009
NOITES DE CÃO
terça-feira, 3 de março de 2009
ESCREVENDO COM NÚMEROS
"Veio um dia ao Brasil um holan-10E comeu de uma vez tanto bisc-8Que de cheio e repleto nem 60E fez por causa disso o diabo a 4.Dá-lhe logo o doutor tão forte 12Que ao ventre causou-lhe mil 10-as-3.Então suplica o enfermo a um fran-6Que era dos seus lamentos triste ou-20Que por graça à saude lhe re-9,Pois que ele a tinha forte como um br-11.E o súcio, escutando a voz do mí-0,Compassivo a curá-lo então 70E curou-o metendo-lhe o ca-7!"
segunda-feira, 2 de março de 2009
OUTRA DO BARNABÉ SEM PÉ
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
O ASTERÓIDE DA MÃO ESTENDIDA

domingo, 22 de fevereiro de 2009
A VEZ DA VOZ
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
VIOLÊNCIA URBANA
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
CARTA DE UM NÁUFRAGO
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
O BEIJO
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
UM JARDIM ZOO-ILÓGICO
Fui criança, como a maioria das pessoas (a maioria, porque já houve uma exceção: Dom Pedro II), e recordo-me do fascínio que o zoológico despertava em minha alma infantil. Fortaleza, dos anos 50, estava à altura do Rio de Janeiro (ao nível do mar) ao apresentar, no Parque da Criança, uma permanente exposição da vida animal selvagem.
Verdade, não era um zoo completo. Tinha lá suas deficiências: a preguiça, por exemplo, que morrera de um mal lentíssimo, em seu lugar haviam botado por muito tempo um zelador em regime de horas extras.
Hoje, nem isso. Fortaleza, carente de um zoológico, transmite a impressão de que nos quinto e sexto dias da Criação houve ponto facultativo... para Deus. Urge, portanto, que algum órgão municipal encampe:
1°) a mini-ideia de um jardim zoo-lógico.
2º) a maxi-ideia de um jardim zoo-ilógico.
Levando esta última a efeito com os seguintes seres:
O Dragão – Na qualidade de sparring já fez a glória de muito cavaleiro andante que queria impressionar sua donzela. Hoje, porém, em via de extinção (dragão, cavaleiro e donzela). Basicamente, é um animal dócil mas, quando se trata de defender a prole, fica tão fera quanto aquele deputado goiano. Tem como prato preferido o churrasco misto, que ele prepara na própria fuça.
O Basilisco – Lagarto nascido de um ovo posto por um galo e chocado por um sapo, o que explica o seu complexo de Édipo tumultuado. Com o auxílio de sua língua bífida, viscosa, ele passa a maior parte do tempo comendo moscas imaginárias. Sabendo-se que ele tem uma dieta sine matéria, o que ninguém explica é como o basilisco consegue eliminar tantos dejetos. Hércules, que já limpou as estrebarias de Áugias, certamente recusaria fazer faxina na jaula dele.
O Licorne – Animal que lembra um pequeno cavalo, embora dele se diferencie por um cavanhaque à la bode, uma cauda no melhor estilo rococó e um longo chifre no meio da testa. Adora ser montado por um pestinha, digo, um garoto em roupa de marinheiro. Demonstrando isso através de corcovos de alegria, dados antes e depois de fraturar o cóccix de seu pequeno cavaleiro. É proibido de participar de competições hípicas por causa de seu enorme chifre: vence todas, mesmo quando termina com um corpo atrás. Por detestar o milho, a sua alimentação é toda à base de pipoca, canjica, munguzá e papa de maizena.
A Esfinge – Alimária que tem cabeça de mulher e corpo de leão. Anda sempre com uma perguntinha enigmática na ponta da língua. Do tipo: o que é, o que é? De manhã está no PTB, de tarde no PMDB e de noite no PDS? Bem rápido, antes que ela abocanhe sua pessoa, responda à queima-guardanapo: Jânio Quadros.
domingo, 25 de janeiro de 2009
O MAIOR ARTILHEIRO
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
GURGELZIM DA VIOLA
Mão direita na boca, mão esquerda no braço (boca e braço do violão, bem entendido, que aqui ninguém está falando de ioga), no começo era aquela luta para sacar do instrumento algum som musical, mesmo por aproximação. Em momentos, a vontade de largar tudo e voltar a soprar pente com papel.
“Felizmentecapto”, Gurgelzim foi conseguindo, com pouca catatonia, dominar as chamadas posições do violão: primeira, segunda, terceira e marcha à ré. Deste estágio para o seguinte, o de tocar “Parabéns pra você”, foi mais rápido do que um apagar de velas de um bolo confeitado.
O repertório, até então menos diversificado do que o de um grilo com insônia, avolumou-se com o tirar as músicas de ouvido. E somente quando faltava cotonete na praça é que acontecia de ele cometer alguma heresia harmônica. Do tipo: “Último desejo”, de Noel Rosa, no tom de... ré maior.
Quanto ao espelho, entrou na fase seguinte – a dos acordes dissonantes – que, para quem não sabe, produzem um tremendo visual. Um acorde maior de sexta com nona, por exemplo, é tão estético para os olhos (daí o espelho) que torna dispensável ferir as cordas. O som é um mero subproduto.
Conforme o ponto de áudio, o som pode também ser um superproduto. Senão, por que Gurgelzim muito ensaiaria o pinho dentro de um guarda-roupa? Por causa da acústica, claro. O fato, entretanto, era motivo de insatisfação para seu pai, que não gostava de andar com o colete reverberando “Abismo de rosas”. O cujo fez inclusive greve de não comer peixe frito com alcaparras até que Gurgelzim demovesse da idéia malsã.
Durou pouco a represália paterna, pois o “dilermandinho” da casa provou, por A menos B, que se estava economizando naftalina.
Percalço nenhum, até hoje, fez Gurgelzim tirar a viola do fundo do sovaco e botar no fundo do saco. Como? Desafinar na vida? Ora, isto acontece com ele e com todos. “Rosa”, do Pixinguinha, em ambiente de feijoada com caipirinha, taí a prova incontestável de que a desafinação é geral.
GURGELZIM E O COMETA HALLEY
A viagem “ideira” foi de uma velocidade “lesmática”. Por dois fatores: 1º) Lendo o odômetro do carro ele viu que era tempo de fazer o rodízio dos pneus (e fez). 2º) A ciclovia da BR-116 não é apropriada para quem está com pressa.
Não era o lugar dos assados mais sórdido do que aqueles freqüentados por Gurgelzim et caterva – uma turma que, às três horas da manhã, muitas vezes já tem derrubado o Governo da República. Agora, quando se trata de derrubar um churrasco com fritas é diferente, e um pouco de nervosismo sempre bate em Gurgelzim, um condenado à dieta hipossódica. E, se o médico da Previdência, que fechou questão sobre a dieta, na 15ª consulta do dia 23/04/80, entra ali e o flagra em ato de desobediência?
Na radiola de ficha, Lindomar Castilho impunemente cantava suas canções feministas. Com os ossículos desarticulados nos ouvidos médios, Gurgelzim não conseguia ouvir “chongas” do que ela propunha (“vamos a um motel?”), até que, “sexapelativa”, a mesma fez um gesto de boa vontade. Ele respondeu que sim.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
GURGELZIM E A ARTE DO DESENCONTRO
Jogando uma onda fria na memória de todos, lembro que houve um flerte – unilateral, é verdade – mas não de todo encerrado, pois ficou para o nosso herói trapalhão um número de telefone do mais alto significado: o do telefone dela.
A ligação mil vezes tentada, mil vezes não conseguida. Nosso herói bufo, horas a fio, enrodilhado em outro fio, o do telefone, numa patética busca da voz amada.
Pessoas cariteiras (caridosas+palpiteiras) chamaram-lhe a atenção. Talvez houvesse algum engano na ordem dos números. Então, Gurgelzim, novamente horas a fio (de alta tensão), combinando e recombinando os números ao telefone. Também nada.
Pensou contratar um detetive particular: fez; planejou consultar uma cartomante: também fez. Mas, esses profissionais pareciam trabalhar em sentidos opostos, pois enquanto o detetive seguia uma pista que ia dar na filha de um açougueiro na Serrinha, a cartomante decifrava nas cartas a viúva de um pescador no Mucuripe. No final, não era carne nem era peixe.
Nessa altura, Gurgelzim era a própria imagem da desolação. De vestes em “desaseda”, barba de doze-horas-sem-fazer, já andava para lá de “píssico”. E passou a ter insônia. Uma insônia rebelde a todo medicamento, colírio de Dienpax inclusive.
Gurgelzim tinha querenças: um espelhinho com o escudo do Flamengo de muita utilidade para o pentear-se e uma esparramada samambaia de plástico que oxigenava seu quarto-e-sala de solteiro. Pois bem, as coisas andavam tão às canhas que o primeiro, como que prenunciando sete anos de azar, havia se quebrado e a segunda fazia um tempão que não levava água.
Pessoas palpidosas (palpiteiras+caridosas), temendo que sua vida estivesse por um triz (ou por um trim), aconselharam-no a ler Khalil Gibran, Lobsang Rampa e outros bálsamos para o espírito. Valeram, pois o nosso herói truão saiu depressinha de uma depressão, daquelas que levam o ser humano ao coquetel Jim Jones (fanta+cianureto).
Além de sair do pântano do baixo astral puxando-se pelos próprios cabelos, Gurgelzim, de forças retemperadas, mudou de mentalidade no plano sentimental. Entendeu que, se não deveria renunciar a tudo feito um “janinho” qualquer, também não deveria se obstinar por causa de uma quimera. Cabeça desaquecida, fosse o que os orixás quisessem.
Não é que deu quase certo. Fez o acaso com que eles, numa rua estórica, se cruzassem. Ela, num vistoso vestido amarelo, a passar esplendorosa quase roçando nele, na direita dele. Numa ocasião em que Gurgelzim" olhava com fixidez para a esquerda, por causa de um maldito torcicolo.
domingo, 11 de janeiro de 2009
VOO BALDEADO
Naquela manhã úmida, enquanto aguardava a decolagem, distraía-me olhando as pessoas que, numa das laterais da pista, punham vapores pela boca: falavam. Antevendo o tipo de viagem que eu faria um frisson percorreu-me a espinha. Eu, passageiro único de um longo vôo internacional Paris-Rio.
Desejei ter alguma companhia durante a viagem: nem que fosse um palestino com granadas no cinto ou, então, Allien, o oitavo passageiro. Melhor do que curtir uma solidão que já se prenunciava troposférica.
Subiu um tipo no avião. Franzino, usava um chapelão que me pareceu démodé. Mastigou um bonjour qualquer quando passou por mim e dirigiu-se à cabina de comando: era o piloto. Pôs-se a mexer chaves, botões e manivelas de modo a estremecer toda a aeronave. E a cuja foi ganhando velocidade, ganhando velocidade até que... se desgrudou do chão. No ato, fui transferido para duas poltronas atrás por meio de um salto simples mortal.
A equipagem do avião era constituída apenas pelo piloto e, por conseguinte, não havia aeromoças com acepipes para a gente duplamente beliscar. Ele, sozinho, não podia também se dar ao luxo de ir até o michel, se necessidade tivesse. Anotei outras dificuldades a bordo: ruído da pesada ao invés de uma música leve; inexistência de jornais para a leitura do horóscopo; sacos que vomitavam no próprio freguês etc.
Fui suportando. De antemão eu sabia (desde que comprara a passagem a um agente de viagens por um preço bem camarada) que o voo seria na classe econômica. E tomara algumas precauções, como a de levar uma lata de galinha com farofa.
O avião devia estar voando bastante baixo pois, num curto intervalo de tempo, foram de encontro a meus óculos um mané-magro e um besouro-do-cão.
Houve um instante em que cambaleei até a cabina de comando para oferecer ao piloto uma asa da galinha. Recusou. Quieto, caladão, ele mais parecia um mineiro. Pude então ver quão sub-utilizado era o painel do avião: o único instrumento que o pilotinho consultava, o tempo todo, era um curioso aparelho de dois (ou três?) ponteiros, o qual estava no pulso dele, lembro-me agora.
Surpresa das surpresas! O (meu) avião, com um accomplissement de fazer inveja aos concordes da vida, já estava pousando em sua primeira escala. Presumi ser Lisboa. Mas, não, era solo francês ainda. Saint-Cloud, um dos arredores de Paris, como mais tarde vim a saber.
A máquina-voadora parou, mas a estória é que não. Baixou um santo serelepe no “aeromaquinista” a ponto de ele, transfigurado, saltar do avião para os braços de um povinho que se formava no descampado, perdão, no aeroporto econômico. Levado com “hurras”, qual um técnico de time campeão, nunca mais tive notícias dele.
Começar de novo a viagem. Com a diferença que agora eu não tinha mais l’argent. Na França, pior de tudo, não existe como no Brasil uma “Lei dos Estrangeiros”. Dessas que, após uma declaração política, brindam o cidadão estrangeiro com uma passagem aérea de volta a seu país.
Então, procurei a Embaixada do Brasil. (Com os pobres de Paris aprendi essa lição.)
O embaixador, um cara legal, que considerava o Brasil a sua segunda pátria, valeu-me na dificuldade. E despachou-me para o Rio, a tempo de pegar a feijoada do sábado, num voo de outra empresa. Bem diferente da primeira que operava somente com um 14-bis.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
SOL, PRAIA... AÇÃO
Gurgelzim, assim que entendeu esse fenômeno psicossocial, vestiu um calção de banho e foi à prática. Chegou cedo – ainda com pouca gente por lá – à Praia dos Diários. Atraído por um biquíni amarelo com cadarços nas laterais, procurou se posicionar bem naquela manhã praiana. Querendo ser discreto, mas não ignorado, foi quedar perto da moça do biquíni, numa pontinha da esteira dela. Uma aproximação entre desconhecidos costuma requerer certo timing, menos para Gurgelzim que sabe ser, como ninguém, agradável. Capaz de soltar as amarras de qualquer pessoa, empregando tão somente o papo espirituoso e, além disso, originalíssimo.

A RUA GURGELZIM
Não vou, entretanto, generalizar. Muita gente também pegou o tal germe e não emplacou. Talvez por falta de febre e de delírio. Ou de sorte, como Gurgelzim, um azarão (por enquanto).
Antes que eu esqueça: Gurgelzim, apesar do que o nome possa sugerir, não é meu parente: fomos apresentados num espelho casual. Mas, conheço-o bem. Sei dos seus sonhos (desvirtuados), dos seus projetos (irrealizados) e, por conseguinte, do que mais precisa: de solidariedade humana. Uma qualidade, por sinal, que eu tenho bastante quando (me) reflito.
Assim, se Gurgelzim tem o desejo de virar nome de avenida, rua, travessa ou beco (nesta ordem de prioridade), diligencio para que ele seja atendido. Nem que eu tenha de fazer uma campanha do tipo RECONHECIMENTO URBANO PARA GURGELZIM!
Aliás, um reconhecimento desses já andou perto. No tempo em que Gurgelzim freqüentava o Rhuinas, um bar na Praia do Futuro, que lisonjeava seus clientes – os mais madrugadores – pondo os nomes deles em placas, que eram colocadas em suas paredes como se ruas fossem. Infelizmente não deu, pois o Rhuinas, antes do que se previa, teve o destino do próprio nome. Uma Pompéia irresgatável... para sempre.
Dia virá em que a coisa muda: confio nele. Desprende-se-lhe um pino qualquer e ele “estoura” em Fortaleza. Pode ser muito bem através de um soneto, feito em dia de sol crescente, com alumbramento comparável ao de Paula Ney.
A sorte está lançada. Ou melhor, laçada; com ela nas mãos a campanha ganhará a rua (em/de dois sentidos). Gurgelzim não pode continuar na lista telefônica como um mero assinante.
E tem mais: os vereadores de nossa cidade não faltarão com o indispensável apoio, acredito. Eles são tão eficientes nessas amenidades...
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
POEMA ANTIESPORTIVO
O passe recebido
O drible aplaudido
A zaga deslocada.
E foi tudo pra nada:
O pique empreendido
O guardião batido
A meta escancarada.
E foi tudo pra nada:
O chute esfusiante
A rede de barbante
Com a bola encaçapada.
E foi tudo pra nada:
O urro, o murro ao vento
A façanha do tento
A torcida ouriçada.
E foi tudo pra nada:
O heróico gol de placa
Se o teu time, ó panaca
É o pior da temporada.
domingo, 21 de dezembro de 2008
VAN GOGH
Desconcertado, uma vez
Teve uma bem estrambótica
Idéia - a ver com a óptica
Confusa na qual se via
Uma carcaça sem valia.
Então, insano pensar!
Decidiu ele amputar
Uma das orelhas suas.
(E pinçou uma das duas
Para passar o cutelo.)
Depois, achando-se belo
Pintou um auto-retrato
Na verdade, um caricato
A que faltava algo vivo:
O pavilhão auditivo
Que ficou com a sina torta
De ser... natureza-morta.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
O "SONHO" DA MEZALÂNDIA
Pois bem, está aí a Mezalândia que não me deixa mentir. Que está de gobierno novo, e cujo presidente acaba de anunciar que "o país vai entrar firme no mercado externo".
- Pode-se saber... com qual produto?
- Com o de sempre, o "sonho".
- Fazendo propaganda para incrementar a venda, imagino.
- Não, é o contrário. Aqui o segredo é a alma do negócio.
- E quem vai garantir uma operação comercial nessa condição?
- O General-Presidente, claro. Quem pode o mais, pode o menos.
- Está se referindo à revolução que ele fez?
- Que ele fez, com o respaldo popular. Pois antes ele ouviu seus parceiros de bridge, seu ajudante-de-ordens e sua esposa. Depois, pensou longamente por uns dois minutos e, abençoado pela nossa padroeira Santa Rita de la Cochabamba, só então decidiu.
- A seguir, em seu discurso de posse, ele calou fundo na alma do povo ao denunciar "os grandes males nacionais".
- Foi engano. Ele leu, por distração, a carta-renúncia do presidente deposto.
- Bem, voltando ao assunto do início, o "sonho". Ouvi dizer que toda a sua produção já está apalavrada com os compradores do exterior.
- É verdade. Não há "sonho" por aqui que já não esteja transformado em pasta, sua forma de exportação.
- A propósito, você fez me lembrar de que não temos a figura do ministro sem pasta.
- Lógico. Todos eles, o General-Presidente e seus ministros, estão perfeitamente sintonizados com o modelo da nossa 205ª revolução.
- Agora, uma pergunta final. Como vai ficar o consumo interno desse produto?
- Não se aflija. Teremos pesadelo de sobra nos próximos anos.
ZÉ BRASIL (ESQUETE)
Mostra um cenário "hollywoodiano" - apenas no calendário da parede (merchandising da Souza Cruz). É o interior de um humilde barracão, pois.
Há a movimentação de dois personagens. Um, que atende pelo nome de Zé Brasil (em verdade, este pouco se movimenta; limita-se a dar gemidos pungentes numa cama), e outro, que representa a sua esposa, D. Esperança.
Alguém sopra dos bastidores:
Começa, ô panaca!
ZÉ BRASIL
Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, oi.
(Esta última interjeição não foi um gemido e sim uma saudação que ele endereçou a um terceiro personagem que penetrou no recinto.)
O novo figurante faz o médico. É um tipo gorducho, de óculos, que lembra o Dr. Sardinha da televisão, que lembra o... Bom, deixa pra lá.
(Na sua direção, aflita, corre D. Esperança.)
D. ESPERANÇA
Dr. Golfinho, meu esposo agoniza.
DR. GOLFINHO (pegando o pulso do paciente)
Calmaí... Quando começou a doença dele?
D. ESPERANÇA
Tem andado doente há alguns anos. Nos últimos tempos, esteve sob os cuidados de Dr. Henrique Simão que o proibiu de beber. Mas, ontem, após receber o seu mês de INPS, gastou o dinheiro todo na cachaça.
DR. GOLFINHO
Hum... deixe-me ver... Deve ter bebido meio litro de aguardente.
D. ESPERANÇA
Por aí, doutor. Então, quando acordou da bebedeira, elezinho falou de uma dor no umbigo e se pôs a gemer.
Dr. Golfinho passa a examinar o abdome do enfermo. Nesse ínterim, o contra-regra entra no palco para retirar um samovar - utensílio russo que não se coaduna com a ambientação da peça. E, concluída a apalpação diagnóstica, abre a sua maleta para pegar um frasco de remédio. O que faz com um sorriso de satisfação: sorriso gordo, com os dois queixos de gordo.
DR. GOLFINHO (mostrando "eucaristicamente" o frasquinho)
Pronto, minha senhora.
D. ESPERANÇA (esperançosa)
O remédio age logo?
DR. GOLFINHO
Antes de lhe dar a resposta, me dê uma informação. Vocês têm filhos?
D. ESPERANÇA
Netos também, doutor.
DR. GOLFINHO
Ótimo! E agora lhe respondo... que o medicamento tem ação imediata. Mas, antes de ministrá-lo, a senhora tem que agitar o frasco por uns quarenta anos. Comece agora. Vai servir para o Zé Brasil Neto.
Vendo o público enfurecido, Dr. Golfinho retira-se apressadamente. Nada tem de heróico o mezinheiro.
Cai, por enquanto, o pano.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
ARRAIAS, PAQUETÕES E BOLACHINHAS
As arraias (ou "raias" como pronunciavam os moleques), as quais, em outras partes do Brasil, seriam chamadas de pipas, pandorgas ou papagaios.
Para a confecção de uma delas, não se necessitava de muita coisa. Palitos secos de coqueiro, linha, papel-seda e um pouco de grude. Com os palitos secos, em número de três, amarrados nos cruzamentos por pedaços de linha (e com um destes pedaços utilizado para delimitar o perímetro) fazia-se o esqueleto da arraia. A seguir, nesta armação se colavam os retalhos do papel-seda por meio de um grude preparado na cozinha de casa.
Os complementos do brinquedo eram o cabresto e o rabo da arraia. Para o cabresto, que servia para prender a arraia, bastava um pequeno pedaço de linha. E, para o rabo da arraia, além de uma maior porção de linha, à qual se atavam pequenas tiras de pano (molambo era o ideal), a intervalos regulares, ficando uma tira maior, a ponteira, para ser colocada no final da linha. O rabo (ou rabiola) era então preso na extremidade da arraia para lhe conferir estabilidade. Sem ele, ao ser posta no ar, a arraia ficaria a girar loucamente e sem ganhar altura.
Havia uma versão gigante da arraia, o paquetão, cujo esqueleto era feito de taboca. O qual era colocado no ar apenas por quem tinha a robustez suficiente para controlá-lo. E existiam também as bolachinhas, umas imitações baratas das arraias, que serviam de divertimento para as crianças menores. Feitas de algum papel grosso, cortado na forma redonda, e a seguir perfurado por palitos de coqueiro que funcionavam como armação, eram feias e não ganhavam grande altura.
Empinava-se a arraia com a ajuda de um companheiro que a elevava bem acima da cabeça. Até que, a um sopro mais forte do vento, a arraia era largada enquanto o outro a puxava. O outro era o dono da arraia que, muitas vezes, tinha de correr contra o vento para que ela subisse. Não havendo o auxílio de um companheiro para empiná-la, a alternativa era o "soltador" de arraia se posicionar num local elevado como um muro ou o terraço de casa.
E a arraia subia em movimentos coleantes sob o incentivo de repetidos puxões aplicados em sua linha. Com esta, a cada instante, sendo liberada de um carretel que rolava entre os dedos do "soltador". Até que a arraia se encontrasse na altura desejada (ou a linha chegasse ao fim). Neste ponto, começava o bonito espetáculo da arraia a movimentar-se no espaço em resposta aos "lanceios" feitos no chão.
Uns contentavam-se com esse aspecto "pacífico" da brincadeira. Outros, porém, preferiam praticar o "corte" de arraias. Uma peleja entre arraias em que, ao cruzamento das linhas, uma delas (às vezes, ambas) sofria o "corte". E, ficando sem o controle da linha que a prendia, passava a ser arrastada pelo vento até terminar enganchada num fio elétrico, árvore ou telhado. Sendo, nessa "agonia", acompanhada pelos moleques em louca correria como se fora um troféu.
A muitos frustrava a arraia "cortada" ser também "aparada". Quando essa arraia "derrotada" não caía em domínio público, por haver sido em pleno ar capturada e recolhida pela arraia "vencedora", graças à habilidade do dono desta.
Não seria possível o "corte" de arraias sem a participação do cerol. Preparado com vidro moído e cola derretida, assim que secava na linha em que era aplicado, o cerol a transformava num instrumento verdadeiramente cortante. Capaz de causar acidentes nos brincantes e em terceiros, aliás, como acontece até hoje. E, o que é pior, com alguns destes acidentes a se mostrarem terrivelmente letais.
Publicada em 21 de julho de 2008 no EntreMentes.
ACHADO CASUAL
Autores: Airton Marinho, Antero Coelho Neto, Celina Corte Pinheiro, Chico Passeata (Francisco Monteiro), Christiane Chaves Leite, Dalgimar Beserra de Menezes, Eilson Goes (15/06/1941 - 18/10/2008), Fernando Siqueira Pinheiro, Flávio Leitão, Francisco Tomaz Ramos, Ilnah Soares, Jesus Irajacy Costa, José Maria Bonfim, José Maria Chaves, José Wilson de Sousa, Luciano Arruda, Luciano Sidney, Luiz Moura, Marcelo Gurgel, Martinho Rodrigues, Nilson de Moura Fé, Paulo Gurgel, Pedro Henrique Saraiva Leão, Sebastião Diógenes, Vladimir Távora, Walter Miranda e Weimar Gomes.
Apresentação: José Maria Chaves (Presidente da Sobrames Nacional) e Linhares Filho (Professor do Curso de Letras da UFC e Membro da Academia Cearense de Letras) com o texto "Sob o Signo de Duas Artes".
Dedicatória: "À memória do Prof. Eilson: saudades sobramistas" por Marcelo Gurgel.
Projeto Gráfico e Arte Final: Júlio Amadeu
Coordenação: Walter Miranda
Organização e Revisão: Walter Miranda e Marcelo Gurgel
Imagem da Capa: Obra iconográfica do pintor peruano Pablo Amaringo após ingerir a bebida alucinógena ayahuasca.
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda.
Tiragem: 700 exemplares
Livro com 178 páginas.
ACHADO CASUAL
A Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Ceará (Sobrames - CE) e a Diretoria de Cultura e Arte do Ideal Clube anunciam para hoje, à noite, a solenidade de lançamento do livro "Achado Casual", a vigésima-terceira antologia anual da Sobrames - CE.
Os autores e o livro serão apresentados pelo Prof. Dr. Linhares Filho, Membro da Academia Cearense de Letras.
Data: 25 de novembro de 2008, às 19h30.
Local: Salão Meireles do Ideal Clube.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
A TÍTULO DE...
Arranjo tempo para levar dois dedos de prosa com ele:
- Oi, bicho.
- Até que enfim... você me aparece. No mínimo, está de saída para votar.
- Desinformado... Então, as traças não lhe contaram? Que não vai haver eleição no ano de 1980.
- Mas... não estava tudo certo?
- E você... é como o cartão de crédito que acredita em tudo aquilo que ouve?
- Bem, a intenção...
- Aí é que está! É grande a distância entre intenção e gesto.
- Quer dizer que o partido do governo vai continuar...
- Um momento. Agora se diz: partido no governo.
- Detalhes de semântica.
- Muito mais. É o próprio jogo democrático, dizem.
- E a oposição?
- Caiu no conto do pluripartidarismo. Quando deu fé estava já toda dividida.
- Sendo assim, não vejo ocasião mais propícia do que esta para o partido no governo, como você diz, desfechar um golpe de misericórdia na oposição.
- Teoricamente. Na prática, a oposição pode fazer uma holding.
- E qual é a opinião dominante no seio da classe política?
- Olhe, anjo. Quem conseguiu lugar no salão vai continuar se requebrando para que o mandato, digo, o bambolê não caia da cintura.
- Você considera isso justo?
- Não. Mas os políticos, sustentados pelos resultados de uma pesquisa feita entre eles, bastante semelhante a uma que ocorreu no Congo Belga, em 1928 (Macaco, você quer banana?), acharam a prorrogação de seus mandatos a coisa mais justa do mundo. De modo que pretendem continuar representando o povo...
- Representando para o povo, fica melhor.
- Como preferir. Agora, a consequência é que você nem em 81 vai receber carimbada nova.
- Mas... 1982 promete. Com eleições para vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores...
- Não esteja tão confiante. A nossa democracia é dinâmica, hiperdinâmica eu diria, e não pode cumprir fielmente um modelo de nação mais desenvolvida, como a Guatemala, por exemplo.
- Pô! O que é que eu vou fazer esse tempo todo?
Nessa altura, percebo que a raison d'être do meu título de eleitor anda a perigo e tento bancar o amável, pois tenho medo de que ele abandone de vez a gaveta para ir morar no Arquivo Nacional.
- Semana que vem, vai ter eleição para síndico do meu prédio. Você quer ir comigo?
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
APENAS
- Olhe por onde anda, descuidado - pensei. Mas o grito gêmeo com o pensamento não aflorou. Segurei-o na garganta, assim que o estranho prontamente se desculpou por haver esbarrado em mim. E, sendo eu um pedestre costumeiramente desatento, até que ponto não havia também contribuído para o encontrão?
Mal se afastou o estranho, recompus-me. Os cabelos despenteados, as vestes em desalinho, os óculos mal armados no rosto...
A seguir, toquei-me em frente. Naquela rua de passantes tão apressados, outros esbarros que ocorressem. Sim, onde está o problema se todos temos as palavras corteses, os tapinhas nas costas e os sorrisos pré-moldados?
O meu receio é apenas o de que algum dia esbarre em mim mesmo.
Na sala do meu apartamento de solteiro, como objeto de decoração, eu pendurara um tipiti na parede. O tipiti, para quem não sabe, é um cesto cilíndrico de palhas entrançadas, em cujo interior o caboclo da Amazônia põe a massa da mandioca ralada para ser espremida, antes de levá-la ao forno para que se transforme em farinha.
Não pensando em fazer agricultura de subsistência no apartamento, eu usava o tipiti ornamentado por uma planta do grupo dos filodendros: uma cara-de-cavalo.
Vivendo à sombra, e com uma modesta "ração" semanal de água, era uma planta realmente durona. Tirando algumas câimbras nas raízes, de que se queixava raramente, a cara-de-cavalo gozava uma saúde invejável. Enquanto iam tossindo e morrendo umas sempre-vivas vizinhas.
Certa vez, uma visitante me sugeriu aumentar-se-lhe o viço, colocando anticoncepcional em sua água. Bem, acho que a cara-de-cavalo não gostou da absurda sugestão. Pois tive a impressão de vê-la a rir, com todas as folhas, com o teor da resposta que dei à intrusa.
Que ela e eu éramos apenas bons amigos.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
ESTÓRIAS DE DESVALIDOS
Tenório Avenças era o escrivão juramentado do cartório de Arapiúna. Uma urbe de pé de serra onde ele, morando e autenticando documentos, fazia um tipo perfeitamente adaptado à monotonia do lugar.
Ao amanhecer, ele punha a sela no velho burrico, as suas pernas para atravessar a cidade, e ia se entediar no cartório em regime de tempo integral. E, apenas quando o crepúsculo começava a soltar os morcegos, é que ele, montado na lerdice do asno, fazia o caminho de volta para a casa.
Um pacato cidadão, o diligente Tenório. Com a ressalva de que, à sua passagem, não o chamassem jamais de "escrivão jumentado".
Porque aí, meu irmão, dava briga com viés de guerra mundial.
A flor vai ao lodo
Umas e outras tomou João Limeira, acompanhado por uma "mulher de programa".
De bordejo em bordejo, os dois foram parar no portão de entrada de um clube social. Um clube com fama de "fechado", ao qual ele, na qualidade de sócio remido, muitas vezes levara a família para as piscinas domingueiras.
Fazia menção de que ia entrar, quando foi barrado por um dos diretores do clube, o qual, empunhando o estandarte dos bons costumes, chamou-o a um canto.
- Limeira, esta mulher aí parece uma prostituta.
Já afogueado pela bebida, João Limeira cresceu:
- Olha, negócio de parecer é com as que já estão aí. A que vai entrar comigo é prostituta mesmo.
Enlaçou a mulher. Entrou.
Garrafa cheia eu não quero ver espocar
Bebedor contumaz foi um certo Angico. Já meio combalido, nem assim se esquivava das bebidas espirituosas.
Cachaça, vermute, rum, uísque (inclusive paraguaio), enfim, o que pintasse era com ele. Ali, no balcão... resistindo. E não repartia nem com o santo.
Uma vez, porém, foi visto abrindo exceção:
- Angico, champanha?
- Não, moço. Eu não posso ouvir mais aquele estouro...
E arrematava, pesaroso:
- Deve ser a tal neurose.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
BICHOS DO NOSSO FOLCLORE
Bicho temido que habita nos campos santos. Para limpar a honra de monstro ultrajado, espera um dia dar uma carreira (no sentido mais olímpico possível) naquele cientista que descreveu ser ele: “a inflamação de produtos fosfóreos de corpos orgânicos em decomposição”.
Boto
Mamífero em forma de peixe dos rios da bacia amazônica. Um autêntico Don Juan fluvial, pois se transforma em rapaz de boa aparência para seduzir as moiçolas ribeirinhas. Considerado o progenitor das crianças de paternidade ignorada, esta sua fama está a se acabar pelo uso generalizado dos exames de DNA.
Caapora
É visto nas matas brasileiras a cavalgar um porco-do-mato. Tem os pés invertidos, o que melhora o desempenho de acelerar o seu veículo animal. Por sua mania de percutir as árvores da floresta, há muito tempo virou persona non grata entre os cupins.
Lobisomem
De origem européia, naturalizou-se brasileiro. Sem abdicar do costume trazido de cometer desatinos nas noites de lua cheia. Meio lobo e meio homem, a sua porção racional é a que uiva.
Saci
O famoso negrinho de uma perna só. Entre as baforadas de seu cachimbo, vive a armar ciladas nos caminhos para atazanar os viajantes. O travesso molecote do barrete vermelho respeito só tem aos nascidos em Caratinga, a terra de São Ziraldo, um santo bípede.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
NAPOLEÃO
Na artilharia:
Deus cresça este menino
Em galhardia.
Napoleão, sua fama
De façanheiro:
Estava pronta a cama
De brigadeiro.
Napoleão, só glórias,
Pleno apogeu:
Ninguém tem mais vitórias,
Espelho meu!
Napoleão no Egito
Piramidal:
A empostação num grito
Sesquipedal.
Napoleão, seu estro
De lutador:
Tão bem empunha o cetro
De Imperador!
Napoleão, o avanço
Tem tropelias
Quando respira o ranço
Das terras frias.
Napoleão, o logro
Deles se via
Na potência de fogo
Das pneumonias.
Napoleão, agora
São os ingleses
Que fazem soar a hora
De mais revezes.
Napoleão no exílio
De Santa Helena
E... finda-se seu brilho:
Ilha pequena!
Napoleão, quem sabe
Às visões mil
Não fossem bons os sabres...
Mas o Amplictil.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
INFORMATIVO "A FERRAGISTA"
Com o nome de "Informativo A Ferragista", tratava-se de um mensário de circulação dirigida, em formato de tablóide, impresso em cor sépia e cuja tiragem ficava na casa dos 10 mil exemplares. Inicialmente era composto e impresso no parque gráfico da "Tribuna do Ceará"; mais adiante, estas etapas passaram a ser feitas no "Jornal O Povo".
Por ser de distribuição gratuita, era Edmilson quem arcava com os custos do jornal, embora estes fossem parcialmente reduzidos pela inserção de anúncios de fornecedores de sua empresa. E, com gratuidade, os colaboradores do "Informativo A Ferragista" também lhe fornecíamos o material de suas páginas.
Em 1982, Edmilson foi merecidamente agraciado com a comenda "Amigo da Cultura", da Secretaria da Cultura e do Desporto do Estado do Ceará, por seu trabalho à frente do "Informativo A Ferragista", então já contando com 66 números publicados. Um trabalho que ele, após a homenagem recebida, ainda deu continuidade até outubro de 1983, quando o jornal alcançou a marca final de 81 números.
Seções e colaboradores
Administração: Franklin Fernandes Teixeira (coluna "Condomínio, o que é isto?") e Pedro Coelho Neto (coluna "Obrigações fiscais e trabalhistas")
Agronomia: Dácio Oliveira Pinheiro
Cariri: jornalista J. Lindemberg de Aquino
Direito: Joaquim Solon Mota
Educação: Marlene Bastos e Cyra Montezuma (também sobre Turismo)
História: general Raimundo Telles Pinheiro e médico Vinicius Barros Leal (também sobre Medicina)
Humor: médicos Paulo Gurgel Carlos da Silva e Celina Corte Pinheiro (coluna "Sessão coruja")
Língua Portuguesa: professor Hélio Melo
Literatura: Dias da Silva (crítica literária), George Barros Leal, José Danilo Correia Mota, advogado José Feliciano de Carvalho, Barros Alves, médico Pedro Bezerra de Araújo (às vezes, sob o pseudônimo de Pedro Nadie)
Medicina: médicos Marcus Antonius B. da Cunha (coluna "Destaques médicos"), Ocelo Pinheiro e Valter Justa
Música: Christiano Câmara
Página Espírita: coronel Edynardo Weyne (coluna "Grão de Mostarda") e Lúcio Márcio Teles
Vários: padre Fred Solon, Aluisio Ferro Gomes ("Seicho-no-ie").
Além disso, outras seções (não assinadas) e outros esporádicos colaboradores.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
ILUSTRADORES
São eles:
- Amorim
- Duarte
- Emanuel Melo
- Karlus
- Klevisson
- Mino
- Moésio
- Não Identificados
- Ricardo Augusto
- Valber
- Yendis
sábado, 30 de agosto de 2008
NOSSOS MOMENTOS
Nas três obras, a presença da palavra momento(s)! Por ser a poesia, como lembrou o contista Moreira Campos na apresentação do livro, "um instante, um momento, uma centelha, uma visita". E que, por isso, como também complementou, ela (a poesia) "será sempre realizada num íntimo compromisso ou preocupação com o eterno".
Em "Nossos Momentos", a convite de Wellington escrevi uma das abas do livro. É o texto que acabo de inserir no Preblog. E a médica e poeta Aline de Moraes fez o texto da outra aba. Nas útimas páginas do livro, Adísia Sá e Eudoro Santana deram seus depoimentos sobre o autor. E o artista plástico Mino assinou a bela capa de "Nossos Momentos".
Aqui aproveito para dizer que Wellington é irmão do empresário Edmilson Alves de Souza, de quem eu já era amigo. Publicando, durante anos, o informativo mensal "A Ferragista" (uma espécie de house organ de seu grupo empresarial), que reservava espaço para assuntos diversos, Edmilson se destacou como um grande incentivador das artes no Ceará.
Foi nas páginas do informativo de Edmilson que eu dei os meus primeiros passos de escrevinhador.
Na galáxia dos livros brilha mais uma estrela. "Nossos Momentos", que Wellington Alves vem de publicar, por ser inteiramente impossível para o autor não partilhar conosco a sua rica cosmovisão. Na qual consciência não é ornamento, é ação. Ação que intenta reorganizar o homem, a sociedade para o seu grande destino. Por conseguinte, é o homem a sua confissão (malgrado o que disse Terêncio a respeito do ser humano). Arco de pura sensibilidade, o autor transpõe para o falar poético o cotidiano, a turbulência de existir, o tédio, a morte, a vivência psicanalítica, o sentimento da amizade, a esperança... e o amor à sua companheira, Fátima, "o ombro mais buscado". Do que resultam poemas de extraordinária oralidade, como se feitos para um jogral. Ou para que o solo de um violão lhes dê o contraponto. Além de tudo, Wellington é solidário com a vida em sua totalidade;na dor (o vitimário das arenas burguesas), mas também na alegria, na beleza e na liberdade. Este último sentimento, por sinal, tem feito dele um globe-totter e um poeta engajado na grande causa socialista. De ambos os ofícios, ao que parece, o autor de "Nossos Momentos" obtém a renovável força ("Aquela Criança em Acapulco...") para o cantar libertário. Axé para você, poeta.
sábado, 23 de agosto de 2008
A COR DO FRUTO
Não pretendo, neste espaço disponível, realizar uma análise estilística acabada da poética de Fernando Novais (FN), em "A Cor do Fruto", obra literária que ora se materializa. Meu propósito, bem mais modesto, é chamar a atenção do leitor para certos aspectos da técnica literária que o autor emprega neste livro, assim como para o seu temário.
1 - o som: de seus versos de metro espontâneo. Além de rimas FN usa, à saciedade, outras combinações sonoras como o eco e a aliteração. Linguagem sendo igual à massa sonora. Deste modo, frases e palavras são sacrificadas no altar da metáfora. O nocional pelo imagístico. É o perde-ganha da poesia.
2 - a denúncia: sobre o mundo desigual, o pensamento automatizado, a guerra, os seres sem pretexto, a inanição do sentimento, a hipocrisia etc. Usando apenas de expressões contidas (e evitando o chamado "texto sujo"), FN "dá uma geral" sobre a vida, seu balanço canhestro. E suas conclusões são irônicas e, por vezes, imprevisíveis.
3 - o ludismo: de quando o poeta cultua o instante, o descompromisso, o aqui-agora. & brinca com a ambigüidade das palavras & revisita os adágios já gastos & revolve o cancioneiro patropi. De quando o poeta, anarquicamente quase, cola os fragmentos de sua mundivivência. Coisa com qualquer loisa. & a geléia é geral.
4 - o corpo: "mais uma necessária montaria / do que ideal companhia", tal como é rotulado pelo poeta. Que, como qualquer homem, sofre as agruras da condição humana (ser matéria descartável é uma delas). Contudo: haverá um "eu" eterno, aderido ao "eu" percível? Não sei a resposta definitiva. Só sei que FN, vez por outra, bota as asas de "anjo contrário" e... ganha altura.
Não existe arte senão para outro e por outrem. Saboreemos, pois, as essencialidades de "A Cor do Fruto", de Fernando Novais.
domingo, 10 de agosto de 2008
EM BUSCA DE POESIA
Há janelas abertas no telhado por onde entram luzes. Do sol, da lua e das estrelas. Quando::: Actéon ousa ver Diana, a Caçadora. Ela, porém, encontrando-se desvestida, não gosta e faz mágica má. Act contínuo, Éon vira cervo e é perseguido por feroz matilha. Morre. Cervo ou servo, Lady Di não o quis. E, para gregos, romanos e bárbaros, expli::: citou::: que o banho de uma deusa é (para ser) indevassável.
(O vate o que mora numa água-furtada - há janelas abertas etc - sabe esta e outras estórias. Que sabem a plenilúnios.)
+
O livre o desabrido. O que vigia dourados trigais. O que ninguém consegue pegar a unha NEM à espora - galo.
Quando o olho clarear será aurora.
E::: das cinzas faz-se a (outra) ave, desiludida tão. Recompondo-se como há séculos há seculórios aprendera de sacerdotes, em Mênfis.
É-lhe imanente a memoração. Porque os grilhões do DNA.
Ave, ave. Só a engenharia genética, um dia, vos dará as exatas asas para o vôo libertário.
+
Como é bom tocar um clavicórdio! Aquele um.
Bailam Maries, Amandas e Yolandas. Bailam dançarynas de/os traços mais fugidios. Por seus rostos não se lhe adivinham as máscaras.
A dança é breve, é. Enquanto seu yang/sangue ferve por vós.
Cortai para::: uma cinelândia-fantasma de gentes que não dançam mais, que não dançam, que não, que::: a memória é urna cinerária.
Bye, bye larinas.
+
Andar ilho andar ilha.
O rio circular o que margina a ilha é Uroboros, a serpente que morde a própria cauda. Da esmeralda é sua cor.
Quando ele o rio encrespa a superfície / & ela a serpente, a pele / ::: aí tendes vagas ((intransponíveis)) vagas. E a solidão do mundo no próprio mundo.
O ser insular o gnomo da hexacorália.
Morreis muitos em Uroboros, suas estremeções periódicas.
+
Quanta coisa se irisa diante de mim!
Ou::: mais alucynações. Sois cavilosa, ó ânfora etrusca.
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O deserto por palmilhar. Mas o que é o deserto senão a orla de um oásis?
Irei convosco, pois. Seremos dromômanos, manos sob o olhar complacente dos djins de fogo. Suportaremos manos, nós, o peso das mochilas, fardos da temporalidade. E deixaremos profundas, fundas pegadas na vastidão arenosa, que o vento, acumpliciando conosco, por certo não as apagará.
Assim, saberão os pósteros que estivemos aqui, ali / & ontem, hoje / em busca do poema, seus mananciais.
Porque amanhã em Aldebarã, a estrela.
Escrito para prefácio do livro "Em busca de poesia", de Dalgimar Beserra de Menezes, que foi publicado em 1985.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
MÉDICOS ESCRITORES E ESCRITORES MÉDICOS
segunda-feira, 21 de julho de 2008
1º CONCURSO NACIONAL DE PROSA E POESIA
Reuniu os textos em 10 primeiros lugares nas categorias prosa e poesia de um concurso nacional, promovido pela AMB, por ocasião de seu quadragésimo aniversário.
Prefaciado por Antonio Celso Nunes Nassif, Presidente da AMB. Apresentado por Julio Sanderson de Queiroz, Diretor Cultural da AMB.
Coordenadores do livro: Mario Jorge Rosa de Noronha e Julio Sanderson de Queiroz.
Um dia Godarta se encontrava à sombra de sua figueira-da-índia favorita. Exercitando-se na separação do Eu, enquanto a mente vagueava pelos confins do mundo. Assim, via-se uma carpa prateada a mergulhar num rio bem profundo, procurando alcançar o ponto onde repousavam todas as causas. E reconhecia-se no corpo de um crocodilo cujos toscos dentes tinham inquietações menos metafísicas. Godarta era a carpa que não morria, o crocodilo que não jejuava e era: Buda, o Iluminado.
Nisso, eis que dele se aproximou Bronkho, o discípulo não exatamente favorito. Bronkho era um obtuso do espírito. Por mais que se esforçasse ele não assimilava as Quatro Verdades, que são o cerne da doutrina budista. A bem da verdade (desta vez, verdade não budista), entregue-se Bronkho pelo seguinte. Perigava ele ser jubilado, a começar na disciplina de Godarta. Pois que nada, até então, se decantara do espírito do discípulo que melhor não se conseguisse do espírito de um javali.
Foi todo metediço, ele. E, querendo ganhar ponto, na tigela de esmoleiro do Mestre depositou figos. Um punhado de figos cristalizados... quando Godarta só os comia ao natural. A seguir, sentou-se. De modo que sua postura imitasse a do Mestre, nas comichões inclusive.
"Oh, por que não tirei patente desta posição?" - pensou Godarta. E mergulhou em si novamente. Nesses mergulhos era quando ele consultava a glândula pineal, a bola de cristal dos Iluminados. Mas Godarta mergulhou a ver se Bronkho desistia do assédio e ia chapinhar num lago próximo com as velhas cegonhas. "Homessa! Nem com elas o noviço aprendera a fazer as abluções." Só que Bronkho - com a idéia fixa de ser também um Iluminado - não arredou pé. E continuou a cacetear o monge.
- Mestre, como devo proceder para alcançar a Iluminação?
Godarta, por uns momentos, acarinhou a idéia de mandar o discípulo para o Ciclo dos Renascimentos. Numa transmigração à ré, quem sabe, ele chegasse a pirilampo, bichinho que tem lá suas iluminações. Mudou de idéia, porém. Assim que lembrou ser Bronkho, sem carteira de trabalho assinada, um ativo faz-tudo doméstico. Mais: lembrou que o noviço lhe proporcionava, o tempo todo, um senhor treinamento na virtude da Paciência. Então, em vista destes lembrados, o Venerável preferiu mil vezes resmungar o "Om", a palavra das palavras.
No oco da figueira sagrada Godarta tinha um adjutório. Para quando alguém fazia uma pergunta como a que Bronkho fez. Uma harpa em miniatura, a qual era vigiada pelos esquilos que habitavam a árvore. "Ah, o Nirvana não é tudo!" E Godarta costumava tocar a harpa para o seu corpo ficar Sansara, para ficar tudo jóia rara, qualquer coisa que se falara. Etecétera. Mas... o Venerável usava também a harpa para ilustrar os seus ensinamentos. E - era aquela uma ocasião - a entregou ao morrinha do Bronkho, acompanhada de uma pergunta de reflexão.
- Quando as cordas estão muito retesadas, obtém-se um som agradável?
- Não, Mestre.
- E se estão por demais frouxas?
- Também não, Mestre.
Óbvia a intenção de Godarta. Através desse diálogo, mostrar ao noviço o caminho para a iluminação. O Caminho do Meio.
Assim, prosseguiu:
- Afina, pois, as cordas do instrumento. Nem tão tensas nem tão frouxas... e toca.
- Mas, Mestre, eu não sei tocar harpa.
- Então, esquece.
Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. E se Bronkho era Buda em botão... não levava jeito de desabrochar. Foi o que Godarta concluiu um pouco antes de se fazer peregrino para mostrar a todas as gentes o Caminho do Meio.
Quanto a Bronkho, o Opaco... ah, esse ficou no Meio do Caminho.
domingo, 20 de julho de 2008
POETAS DO BRASIL
Neste livro encontra-se o meu "Micropoemas do Infortúnio". Revisado e por partes, o "Micropoemas..." tem sido também publicado no Blog do PG.

