sábado, 28 de novembro de 2009

SANTA LEITURA

Érico e Paulo Gurgel (1)

Eis uma cena do início de minha vida, que se repetia todos os dias e da qual estou hoje a me lembrar: meu pai, sentado no sofá principal da sala, a ler com grande interesse o jornal. Perto dele, este que lhes fala entretido com algum brinquedo, embora de quando em quando desviasse a atenção para o velho (2). E ele, tão absorto em seu ato de ler, que nem atinava com ser o motivo da minha intermitente admiração. Naqueles fugidios instantes em que eu relaxava na atenção ao brinquedo, obviamente.
Sempre que possível eu evitava interrompê-lo em sua santa leitura (3). Ao contrário do que fazia minha mãe, a matraquear um assunto atrás do outro, sem ao menos se tocar para a inconveniência da hora. E bem feito porque ele sempre a desouvia!
Ainda pouco me entendia por gente, mas recordo também que aquilo me perturbava. Meu pai dedicar parte de seu tempo a um punhado de folhas impressas, ainda por cima capazes de manchar o sofá novo, como se queixava minha mãe. E, mais: ao fazer aquilo ele se comportava, para os meus tenros olhos, feito um estranho. Um ser sob alguma ação hipnótica porque, naquelas horas, podia o teto vir abaixo. Que o velho, certamente, não ia levantar a vista do seu jornal. Nem para apreciar o novo teto solar com que a casa acabara de ser contemplada.
Intrigava-me saber que força misteriosa possuía o jornal. A ponto de um ser humano, muita vez de forte personalidade, entregar-se a ele como um escravo. Com o tempo, porém, identifiquei existir no ser humano uma especial fragilidade, que é a carência orgânica de informação. Exatamente o que o jornal tem de sobra. E que, para que aconteça a consentida dominação jornal-leitor, não hesita em nos passar diariamente. O seu produto informação, sob as suas mais diversas apresentações: editorial, reportagens, colunismo social, charges, publicidade etc.
Uma vez sonhei com papai sendo levado, contra a vontade, a uma redação de jornal. E o desfecho dessa experiência onírica, se alguém quer saber, foi a redação ficar só escombros. Porque papai, qual um bíblico Sansão (4), no fim derrubou as colunas (5).
No entanto, nem tudo acontece como a gente sonha. E, sem haver sofrido arranhões nesse meu sonhar, papai continuou... vida boa não quer pressa. A ler o seu jornalzinho no sofá (por vezes, à mesa da sala de jantar), apenas lhe faltando um cachimbo na boca para compor a cena clássica. E, quando me formei em "doutor do ABC", papai me deu a ler um suplemento infantil do jornal. Que eu li com grande satisfação, bem na frente de um muito enciumado aparelho de televisão.
Pronto, naquele momento estava inaugurado o meu novo hábito!
É um hábito que me abre diariamente as fronteiras do conhecimento. Graças a ele, não mais permanecem sem respostas as minhas inúmeras perguntas. Exceto estas: quem somos? de onde viemos? o que aqui fazemos? aonde vamos? Por mais que eu me esbalde nessas difíceis perguntas, Sísifo é testemunha! Talvez porque, nas chamadas questões existenciais, não baste a gente só extrapolar os limites do suplemento infantil, daí o insucesso verificado. No mais, jornal é massa. Enquanto o dinheiro do velho não se manifesta, colecioná-lo com afinco vale uma enciclopédia.
Brincadeira! O fato é que, na aurora da minha vida, ao me tornar um leitor assíduo de jornal, posso ambicionar a ser, quando adulto, um grande escritor. Com um estilo apurado e desenvolto (em que "aurora da minha vida" e expressões que tais não tenham vez). E uma menção honrosa que agora me deem, eu saberei que estou no caminho certo. Ah, imaginem então se eu ganho esse prêmio maior (6) que está em jogo!... Aos oito anos de idade e já haver obtido o que papai não conseguiu nunca! Com todos esses anos de cupões recortados dos jornais e por ele enviados para sorteios que não lhe sorriem jamais!...

(1) filho e pai, respectivamente, reunidos na primeira psicografia intervivos do mundo; (2) tratamento carinhoso, porém em desacordo com a idade paterna; (3) apesar do que possa parecer o título não foi escolhido por Robin, que faz dupla dinâmica com Batman; (4) sem Dalila; (5) as colunas do prédio, bem entendido; (6) viagem a Disney, com direito a levar acompanhante, oferecido pela Associação Nacional de Jornais.

Publicado em 26/06/94 no Jornal do Leitor de O Povo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

TUDO SE TRANSFORMA

Sr Editor:
Numa de suas crônicas, andou Luis Fernando Veríssimo preocupado com o que os adesivos de para-brisas dizem, bem como com as situações esquisitas que eles criam para os donos dos automóveis. Como no caso de um cidadão que foi visto a dirigir um carro, em cujo vidro traseiro se lia: "Fofinho". Entretanto, não condizendo o teor do adesivo com a aparência de quem estava ao volante. Um cidadão grave, obviamente não fofo. E que se sujeitava ao vexame apenas para não desagradar algum filho que gostava da curtição. Para, no remate de sua crônica, concluir que... "as cidades estavam cheias deles. Os falsos fofinhos."
"Veja" acertou ao tomar o mestre Luis Fernando como colaborador da revista. Só que - para o azar de seu alunado de humor - o superlativo Veríssimo tem uma pena, dessas de esgotar o assunto. E apenado seja o que o retome depois que o insuperável mestre gracejou! A não ser... a não ser que um fato interessante surja, adubando o assunto para novas reflexões. A exemplo do que aconteceu em Fortaleza, nos meses de outubro e novembro de 88: um ano que terminou (para o olvido da Diaethria meridionalis, a borboleta-propaganda da Mesbla). Veículos veiculando (epa!) através de adesivos nos para-brisas este comunicado: "Cambeba, não!".
O tipo de mensagem que me deixou encucado e os leitores saberão o porquê.
É que eu jamais vira uma manifestação organizada de repúdio a um bairro! E, agravando, repudiavam o bairro em que, há alguns meses, vinha eu morando. "Cambeba, não!". Como se eles pudessem fazer, por ser uma parte ruim, a excisão do bairro do resto da cidade. E não era bairrismo deslavado, não. Mas bem que o antigo Parque Iracema estava a merecer um melhor tratamento da parte desses senhores. Ainda mais que, longe da Aldeota, o rechaçado Cambeba não passava de um bairro em via de desenvolvimento.
Súbito, residir no lugar em questão tinha virado uma rebordosa. Cá se amargava a má administração municipal, como no restante da cidade, e cá se tornava o alvo da indignação coletiva. Ah, me pareceu uma sorte cruel, das que se inscrevem no figurino queda - coice... Por isso, num primeiro instante, me revoltei. Mas, a ter de ficar na "problemática", eu logo busquei a "solucionática" (de que falou Dadá Maravilha). Quando apreciei a ideia de sugerir, a cada cidadão que por mim passasse (cujo sentimento anti-Cambeba estivesse explicitado no para-brisa do carro), um outra opção de protesto. Mudar para "Camberra, não!", "Camboja, não!" ou mesmo para "Camboriú, não!". Nomes de cidades distantes, países longínquos... que não possuíam colônias expressivas em Fortaleza.
Depois, imaginei trocar o Cambeba da expressão por cambará, cambuci, camboatã ou por qualquer outro nome de árvore, as opções eram tantas... Mas, diabos, o que tinha a ver a maltratada flora nacional com esse corrosivo sentimento anti-Cambeba? E também imaginei que mudassem para cambaxirra (ave), cambaleão (variante de camaleão), cambucu (peixe)... Quer dizer, qualquer uma dessas palavras mais o indefectível "não!". No entanto, por depreciar a nossa fauna, seriam providências desacertadas. Nesses tempos em que avulta o ambientalismo...
A propósito, cambeba (ou cambeva) é palavra oriunda do tupi e designa várias espécies de peixes teleósteos.
Pois bem, descartada a possibilidade de empregar os topônimos, os nomes de árvores e animais (pelos motivos já expostos), com o que mais eu poderia contar? Com o que mais... no sentido de ganhar o manifestante anti-Cambeba para a causa do bairro ou, quando nada, de lograr o empate com um "então, esquece"? Algo arrasador, que convencesse, era do que eu precisava. E foi que me brotou esta expressão alternativa: "Cambalacho, não!". A ser usada pelo homem de virtudes, o que é contra a toda e qualquer tramoia. Pelos cambalacheiros, não! Nisso, vi passar um carro com uma vistosa tira de "Cambada, não!".
E outro carro, outro, outro e... outro. Eram os "cambebistas" dando o troco aos, digamos, "cambadistas", coisas de uma refrega eleitoral.
X X X X X
No fim, venceu o candidato apoiado pelo Cambeba, entendendo-se aqui o governo estadual e não o bairro que o sedia. Mesmo porque o bairro votou muito dividido, mas não fazendo, certamente, no nome apresentado pela senhora prefeita. Como fez toda a mui leal e heroica cidade de Fortaleza, e que assim julgou a sua desastrada administração. Quanto a mim, para não voltar à vaca fria que foi para o brejo, evito me alongar em comentários que tais. Agora que a nossa cidade tem novo alcaide e a hora é de reconstrução, pois. Fala mais alto o nome desta cidade, e que cada fortalezense colabore no que for possível.
Um "cambadista" mais renitente, porém, poderá levantar uma questão. "Mas, o que faço com o meu adesivo de 'Cambeba, não!'?" Ora, será bem simples a solução. Lei de Lavoisier nele! O "cambadista" salve da tira a parte ainda útil e que estivera eclipsada pelo calor das paixões políticas. Reduzindo-a, assim, para... "beba, não!". Recoloque-a, em seguida, no para-brisa do automóvel. E passe a circular com o carro perfeitamente integrado na campanha em prol da sobriedade.

Publicado em 22/02/89, na seção "Cartas", do jornal "Diário do Nordeste".

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

RESSONÂNCIAS LITERÁRIAS

Antologia de prosa e poesia publicada em 2009 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Airton Fontenele Sampaio Xavier, Airton Ferro Marinho, Antero Coelho Neto, Antônio Sílvio de Araújo, Antonio Vicente de Alencar (convidado), Celina Côrte Pinheiro, Christiane Araujo Chaves Leite, Dalgimar Beserra de Menezes, Dimas Macedo (convidado), Emanuel de Carvalho Melo, Fernando Antônio Siqueira Pinheiro, Francisco Antônio Tomaz Ribeiro Ramos, Francisco das Chagas Dias Monteiro (Chico Passeata), Francisco Flávio Leitão de Carvalho, Francisco José Pessoa de Andrade Reis, Geraldo Beserra da Silva, Maria Ilnah Soares e Silva, Jesus Irajacy Fernandes da Costa, João de Deus Pereira da Silva, José Luciano Sidney Marques, José Maria Bonfim, José Maria Chaves, José Teúnes Ferreira de Andrade Filho, Josué Viana de Castro Filho, Luciano Nunes Maia (convidado), Luiz de Araujo Barbosa, Luiz Gonzaga de Moura Júnior, Luiz Luciano Menezes de Arruda, Luiz Teixeira Neto, Marcelo Gurgel Carlos da Silva, Martinho Rodrigues Fernando, Nilson de Moura Fé, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Sebastião Diógenes Pinheiro, Vladimir Távora Fontoura Cruz, Walter Gomes de Miranda Filho, Wellington Alves e William Moffitt Harris
Apresentação: José Maria Chaves
Prefácio: Giselda de Medeiros Albuquerque (da Academia Cearense de Letras)
Dedicatória: "À memória do Prof. Eilson: saudades sobramistas" por Marcelo Gurgel
Projeto Gráfico e Arte Final: Júlio Amadeu
Coordenação: Marcelo Gurgel
Organização e Revisão: Marcelo Gurgel e Walter Miranda
Imagem da Capa: Glauco Sobreira
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda
Tiragem: 1.000 exemplares
Livro com 224 páginas.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

JAMB (1986-1990)

Abaixo relaciono minhas colaborações ao Jornal da Associação Médica Brasileira (JAMB) durante o período de 1986 a 1990:
  1. COMO EU VEJO - Fev/86
  2. AOS QUE RONCAM - Fev/87
  3. (À PROCURA DE) FÓSFOROS - Abr/87
  4. O SEGUNDO - Jun/87
  5. EM CARTAZ (I) - Ago/87
  6. SALVE A INFLAÇÃO BRASILEIRA! - Nov/87
  7. DOMURU E EU - Jan/89
  8. BRASIL, MOSTRA TUA TARA - Mai/89
  9. O CAMINHO DO MEIO - Mai/90
  10. A SENHORITA E. - NI
  11. ESCOLA DE SAMBA? DEIXA EU FALAR... - NI
Todos esses textos já estão publicados no Preblog.

sábado, 31 de outubro de 2009

BRASIL, MOSTRA TUA TARA

A Constituinte não topou este desafio
Garantir a estabilidade no emprego para técnico de futebol.
Salomão Rei
Se ele houvesse possuído apenas um terço das concubinas, ainda assim teria sido um sábio.
Bilaquiana
Abri a janela pálido de espanto... Outra parada militar em minha homenagem!
Subornar uma autoridade pode dar cana
E está custando os olhos da cara o suborno para não acabar preso.
Feito gente
As tarifas públicas crescem à noite.
Puxa, como você adivinhou o meu pensamento?
Ora, foi fácil. Você tem poucos.
Só com dinheiro vivo
O crime pago com cheque não compensa.
Os mortos governam os vivos
Será por que em muitos lugares do Brasil ainda não perderam o direito de votar?
Uma lágrima autêntica como é
tem gosto de soro caseiro.
Música
Essa coisa divina que aumenta a produção das vacas leiteiras.
Caetano (dando Bandeira)
Irene preta / Irene boa / Irene sempre de bom humor / Quero ver Irene dar sua risada.
Para não revidar uma agressão
Conte até dez. Ou até cinco, se você for pavio curto.
Filosofia Zen
Ficando de pé numa perna só, pode alguém suportar a fadiga da outra perna?
Uma comparação
Apodrecendo feito manga que a gente precisava vender.
Outra, estilo Faustão
Sou do tempo em que tio não era o motorista do ônibus escolar.
Engoma, engoma
O que tem o nu a ver com as calças?
Receita antibanquete canibal
Mijar no caldeirão. Dizer que fez isso.
É muita indignação... faltando
Outro aumento no preço dos combustíveis e o cidadão fingir que não é com ele. Só porque está de tanque cheio.
Bateau Mouche IV - a explicação de uma tragédia
Gente demais. Antes de partir não esvaziaram os cinzeiros de bordo.
E o que vai mudar depois
Os nomes dos Bateau Mouche I, II e III.
Má ideia
Homem correr atrás de um rabo de saia... Escócia a dentro.
Dos males do Brasil
O maior - demonstrável por A mais B - é o analfabetismo.
Afora, é claro
Esse contínuo "estado de não come".

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

ESCOLA DE SAMBA? DEIXA EU FALAR...

Você talvez ainda esteja rememorando com prazer o recente desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Um espetáculo de encher os olhos. Quer pela garra dos passistas e ritmistas - o samba dito no pé - quer pelo luxo e esplendor das fantasias, carros alegóricos e adereços. A isso, acrescente-se também a harmonia, a criatividade dos enredos, a cenografia etc. Sem favor algum, o maior espetáculo da Terra. Haja vista, entre outras coisas, a afluência de turistas do mundo inteiro para assistir ao desfile. E... como saem eles embasbacados do sambódromo.
Nessa empolgação, você talvez não tenha dado conta de um fenômeno. A cada ano, as escolas de samba vêm se afastando mais e mais dos princípios que nortearam a criação. Em parte, justificada a mudança por terem as agremiações, na medida em que os tempos são outros, se transformado em função de uma nova realidade. Agora, que ficaram diferentes, ficaram. Irreconhecíveis até, quando se recorre - para efeito de comparação - ao referencial de um passado meio cá. E, sobre compará-las com a "Escola de Samba Deixa Eu Falar", dos saudosos Ismael Silva e Heitor dos Prazeres, ah, então nem falar...
Mas, continua possível uma escola de samba retornar às origens. E eis, quesito a quesito, como ela ficaria.

Bateria - Nada de pessoas com surdos, taróis, reco-recos, pandeiros, cuícas e... que sei eu! Voltaria a ser um conjunto de pilhas eletroquímicas, associadas em série ou em paralelo, para se obter uma maior diferença de potencial ou durabilidade. Uma solução, com o pedido de desculpa pela ambiguidade da palavra, bem a gosto do Dr. Batérico.
Carros alegóricos - Andariam empurrados. Mas aí já não seria por problema de bateria.
Porta-bandeira - Uma base de metal, plástico ou madeira, com um orifício central, no qual se pode enfiar a haste de uma bandeira.
Mestre-sala - Não mais sassaricaria na Marquês de Sapucaí. Lugar de mestre é em casa. E, para ser exato, na dependência onde as refeições são servidas e as visitas recebidas.
Ala das baianas - Só pessoas do sexo feminino e nascidas na Bahia.
Outras alas - À la carte.
Concentração - O momento em que todos os participantes meditariam profundamente pelo Método Silva. Em vez de ficar empostando a voz, afinando algum instrumento, ajeitando adereço ou dando um arremate de última hora na fantasia.
Fogos - Artifício suprimido a fim de não papocar o espetáculo.
Carnavalesco - Novamente equiparado a papa e rei. Joãozinho XXX reabriu o processo.
Comissão de frente - O júri sendo corrompido de maneira clara na frente de todos.
Enredo - Ficaria sob a responsabilidade de quem sabe mexericar, dedurar, futricar etc
Destaques - O sujo falando do mal lavado. E com que folga, hein!
Puxador - O ladrão de automóveis, o viciado em maconha. Para testar o método sincopado da ressocialização pelo samba.
Fantasia - Nenhuma vestimenta. Apenas imaginação, devaneio... Remember o rei que desfilou nu. E, no tocante a isso, já tem o mulherio que entra na avenida só de tapa-sexo.
Adereços - Ampla utilização dos arreios de cavalo. O que, aliás, é bem melhor do que pegar em rabo de ginete.
Evolução - Sem essa! E, por já ter causado problema bastante, fique a evolução restrita às Ciências Naturais.
Bicheiro - Um frasco cheio de bichas (sanguessugas, no sentido antigo). Já que as bichas de hoje não podem ser assim contidas, ainda mais durante o período da folia.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

OUVIR AS BASES

PGCS
"Ora (direis) ouvir as bases! Trouxa,
Desaprumaste!" E eu vos direi, porém
Que não tenho uma liderança frouxa
Nem que sozinho decido também...

Quando o impasse é descomunal, e atrozes
conflitos me cercam, busco eu - de dia
E de noite - ouvir atiladas vozes:
Naipe de uma como que sinfonia!...

Direis agora: "Deputado esperto!
O que aprontas com elas? Qual é
O ganho dessa oitiva a céu aberto?"

E eu vos direi: "Não são elas capazes
De só falar o que a gente ouvir quer?
Pois se assim não fosse, ó... danem-se as bases."

OUVIR ESTRELAS

Olavo Bilac
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

AOS QUE RONCAM

-
Não se pode roncar impunemente,
A noite toda, feito um caititu
A morgar no bem-bom. Ou julgas tu
Que cá, nesta casa, não mora gente?

Ressonando, não dás nenhuma trégua
Ao sossego daqui. Pô, Roncador!
Lembras um carro de bois gemedor
Cuja bulha tem o alcance da légua.

Queres roncar? Busca um novo endereço
Distante de ouvido cristão, ó Anta!
(Nesse afã, talvez te ajude Morfeu.)

Pois, se aqui te quedas, eu não apreço
Um reles tostão por tua garganta,
Já que te acham o próprio Asmodeu.

Foi publicado no Jornal da Associação Médica Brasileira (JAMB nº. 1157), de fevereiro de 1987. É uma paródia do soneto AOS QUE SONHAM, de Raul de Leoni (a seguir).

AOS QUE SONHAM

Não se pode sonhar impunemente
Um grande sonho pelo mundo afora,
Porque o veneno humano não demora
Em corrompê-lo na íntima semente.

Olhando no alto a árvore excelente
Que os frutos de ouro esplêndidos enflora
O Sonhador não vê, e até ignora
A cilada rasteira da serpente.

Queres sonhar? Defende-te em segredo
E lembra, a cada instante e a cada dia
O que sempre acontece e aconteceu:

Prometeu e o abutre no rochedo,
O Calvário do Filho de Maria
E a cicuta que Sócrates bebeu!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

OUTROS TEXTOS PUBLICADOS NO DN - CULTURA

Além dos 23 textos ultimamente aqui inseridos com o marcador DN - CULTURA, há outros 21 deles que foram publicados no caderno de cultura do "Diário do Nordeste" e que já estão no Preblog (por vezes sob títulos diferentes).
Estes 21 textos são os seguintes:
FÓSFOROS
O SEGUNDO
AS COROAS DE APOLO
EM CARTAZ - I
BANCA DAS NEVES
HOMEM & MULHER
MINHA HISTÓRIA
A BOMBA
O VENDEDOR DE ESTRELAS
PONTO E VÍRGULA
JORGE, SUAS PAQUERAÇÕES (SOL, PRAIA... AÇÃO)
A PROPOSTA DO DR. CARTA PÁCIO
O CAMINHO DO MEIO
JORGE, SUA LUTA ANTI-SOLIDÃO (GURGELZIM E A ARTE DO DESENCONTRO)
A SENHORA E.
JORGE, SEU VIOLÃO DE OURO (GURGELZIM DA VIOLA)
INVENTANDO COISAS
DR. CARTA PÁCIO E O LOTEAMENTO HUMANO
OS TÍQUETES DO TEMPO
JORGE, SUA VIDA SEXUAL (GURGELZIM E O COMETA HALLEY)
O FAROL

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A PREGUIÇA

Tem um bicho que a preguiça chegou ali, parou. A ficha dele: mamífero desdentado, da família dos bradipodídeos e que atende pelo nome de preguiça. Aliás, não atende. Gritar "ei, preguiça" e aguardar que ele dê a mínima... é tempo jogado fora. O bicho, caso um mau movimento o ponha sentado sobre os bagos, vai ter uma enorme dificuldade para se livrar da situação. Mas... conjeturo eu, em vez de chão (que lhe criaria o problema descrito), a preguiça é parada mesmo é numa árvore. Em cujos galhos (onde também encontra as folhas de que se alimenta) deixa-se pender horas e horas, indiferente ao desassossego do mundo.
Um zoológico que se preze tem de ter pelo menos uma preguiça no plantel. E bem tratada, hein, para que nunca bata o prego. Como isso, entretanto, apesar de todos os cuidados nem sempre é possível, então o zoológico tem de ter a alternativa. Um "aspone" (recrute-se da administração pública) que substitua a preguiça até que apareça outra da espécie. Sabem como é, a preguiça é um espetáculo - em slow-motion - que não pode parar. E do "aspone", além de ser um substituto, deve-se ainda exigir que seja um PHD (passa as horas dormindo).
Pois é, a preguiça... vida boa, não quer pressa. Lembro-me agora de alguém que, indagado a respeito de que se ocupava, assim respondeu: "levo algodão nas costas". Esclarecendo, a seguir, de que algodão estava a falar. Era o algodão de "uma boa rede cearense", na qual ele, um homem pouco afeito ao trabalho, gostava de preguiçar nas horas de ócio (que não eram poucas).
E, por falar em rede, tem a história do caipira que estava sendo conduzido num "leito balouçante" desses... para ser enterrado. Vivo e gozando saúde, o caipira escolhera ser enterrado para não ter jamais que encarar o trabalho. O homem era um preguiçoso da marca maior. Esquecido desse detalhe, houve um compadre que, no meio do caminho, quis demovê-lo de tão absurda ideia. Mediante um prometido: dava-lhe uma saca de arroz (o que por certo lhe amenizaria as dificuldades) e não se enterrava mais o caipira. Mas este, com pouco entusiasmo pela proposta, limitou-se a perguntar: "Compadre, é arroz sem casca?". "É com", respondeu o outro. E o indolente: "Então, nada feito". A seguir, dirigindo-se ao cortejo: "Toca esse enterro, pessoal".
Uma outra de preguiçoso - sem a casca de pessimismo da história anterior - merece também ser contada. É sobre um homem que se achava, sentado num pedra, a contemplar sua propriedade (como se não houvesse o que fazer). Nisso, um transeunte lhe perguntou se, em vez de tanta imobilidade, não devia ele amanhar aquelas terras. "Não é preciso", respondeu o homem. "Já veio uma ventania que me derrubou as árvores;depois, um raio que se encarregou de tocar fogo no mato bravio..." E arrematou: "Agora, eu espero um terremoto que me tire as batatas da terra." É, talvez exista essa coisa chamada de "força lavradora da natureza".
Ê, preguiça. Que o dicionário dá como sinônimo de aversão ao trabalho, indolência e mandriice. Mestre Aurélio inclusive aproveita para dar a origem da palavra (do latim prigitia). E registra ser também o nome que recebe a corda do guindaste, acepção por mim considerada um despautério (basta ver o que o guindaste faz). Como também, para o grande e autêntico preguiçoso, deve ser um despautério a expressão "vivendo e colhendo" significar "vivendo e bem". Ora, se é colhendo não pode ser bem... Mesmo porque, além do terremoto (que tira as batatas da terra), não há outro fenômeno na natureza em prol do colher.
Bem faço em não generalizar que o preguiçoso é um inimigo do trabalho. Porque há preguiçoso que se dedica ao trabalho... com uma languidez que só vendo. Sendo inoportuno lhe perguntar se não há nada que ele faça ligeiro, pois já se sabe a resposta que esse preguiçoso vai ter na ponta da língua: "eu me canso ligeiro". É, razão teve Eça quando disse não existir uma profissão mais absorvente que a vadiagem. E, por Eça e outras, é que o preguiçoso é alguém que cuida de descansar... antes de se encontrar cansado.
Um pensamento sob medida para terminar a crônica: "Gosto de trabalhar. O trabalho me fascina. Posso ficar sentado, olhando para ele, durante horas." Gostaram os leitores? É de Jerome K., um pensador que tinha preguiça até para assinar o sobrenome.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

DOMURU E EU

Em minhas poucas horas em Kobe, Japão, afastei-me de meu animado grupo de excursão para ir visitar Enryba Domuru, o famoso monge Zen. Encontrei-o no jardim de seu mosteiro, a passear solito, os pés miúdos pisando em folhas secas caídas das amoreiras. Enquanto alguém, que eu não via mas adivinho que seria um discípulo seu, tocava num shamnisen (alaúde japonês de três cordas) cujos silêncios eram belíssimos. Já havendo assistido no Brasil, durante alguns anos, Domuru falava um português razoável - daí haver sido possível o nosso diálogo. E, embora eu fizesse por onde, em momento algum ele perdeu o equilíbrio que o fazia merecedor da boa reputação.

- Como fizeste para alcançar o Nirvana?
- A ti pode parecer estranho, mas foi pela evasão... de mim mesmo.
- E imitando-te... posso eu também chegar a esse estado de paz, plenitude e ausência de todo e qualquer sofrimento?
- Sim, porém aí terás feito... bem, digamos que...
- Pô! Domuru. Sem rodeios.
- Uma besteira. Uma daquelas besteiras... sem tirar nem pôr!
- Espera. Atingiste o Nirvana e agora és contra?
- Nem contra nem a favor, muito pelo contrário. Apenas digo que há tolice no agir de quem, a pretexto de querer chegar ao Nirvana, ignora o Sansara.
- Explica-me o que é isto.
- Não é Zen explicar algo. Todavia... Sansara é a instabilidade das coisas, a transitoriedade da vida, a agitação do mundo. É o que se contrapõe ao Nirvana para que ocorra o equilíbrio.
- E há como resumir tal ensinamento?
- Sim, numa frase. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.
- Puxa! Domuru. É... anfíbio o que acabas de dizer. E suponho que tu tens outras coisas a me ensinar.
- O amor à natureza! Medita sobre o seu equilíbrio de formas, cores... Não há beleza que se compare à de uma rosa entrefechada.
- A beleza de um botão entreaberto, talvez.
- Ora, vejo que estás progredindo... E, para o contato com a natureza, não te eximas jamais das cavalgadas no campo.
- Devo eu mesmo ferrar o animal?
- Sim, conquanto dês uma no cravo e outra na ferradura.
- De acordo.
- E jejua, meu jovem. Pois muito terás de jejuar.
- Sem limites?
- Com. Se não deves matar o cabrito, tampouco deves deixar o tigre morrer de fome.
- Mas... devo apenas meditar, jejuar, maravilhar-me com a natureza?
- Exercita-te também nos trabalhos manuais. Como no ofício da tecelagem, por exemplo.
- Está bem. Serei o que tece as próprias vestes.
- Sem atar nem desatar, prometes?
- Esquece, esquece.
- Então, aprende que o grande Daruma, para alcançar o autoconhecimento, nove anos meditou em frente a uma parede branca.
- Bem, às vezes, eu assisto à missa com um olho no culto, outro no padre. Eu sei que é pouco...
- Ora, é um belo e edificante exemplo, dentre os muitos que encontramos no cristianismo. Esta religião, por sinal da cruz, é a única que oferece a solução para um importante dilema. Imagina que um homem seja colocado entre a cruz e a espada...
- Pode esse homem eleger ambas as alternativas?
- É o que acontece. Ele vira padre-capelão.
- Calma aí, Domuru. Aonde queres chegar?
- Com a ajuda do sin-cre-tis-mo, eu quero chegar ao homem exemplar. Aquele que não é carne nem é peixe.

Nisso, pareceu-me ter ouvido um apito familiar. Do cargueiro, fundeado em Kobe, no qual eu vinha viajando (sem lavar o porão). Ora, longe que eu me achava do porto, nem sei como escutei aquele apito, mas se era real (era!), o navio estava prestes a zarpar. Então, premido pelo pouco tempo que me restava, em mim berrou uma fera imediatista.
- Anda lá, Domuru. Quero agora o teu infalível preceito para desenvolver a personalidade.
- Ó jovem. Quando conseguires não ser boi nem ferrão, não ser vidraça nem estilingue, não ser sândalo nem machado...
Demais! Aí, tomei o meu caminho de volta. Assim: nem tão lento que parecesse provocação, nem tão rápido que parecesse covardia. E penso que Enryba Domuru deve ter gostado desse meu jeito de sair de cena.

sábado, 5 de setembro de 2009

A FLOR DO ABORRECIMENTO

"A melhor crônica a gente não a escreve. Ela nos escreve,
pronta que já estava na sensibilidade comum." - Artur da Távola

Fortaleza, seis horas. À base do sacolejo, eu desperto a manhã de seu sono pesado. Ato contínuo, meus velhos chinelos me arrastam até o banheiro. Neste lugar, reflito: o espelho... por que ele tem de fazer as mesmas coisa todos os dias? Lavar os olhos, esvaziar a bexiga, banhar-se, escovar os dentes. Etc.
De volta ao quarto. Minhas roupas escolhem o corpo que pretendem usar durante o dia. A camisa social, um tórax espadaúdo, as meias (que estão furadas), dois pés de incontidos dedões, a gravata, um pescoço que a não sufoque, assim por diante. E cá estou produzido (no sentido que os estilistas dão a esta última palavra).
"Que horas são?", pergunta o meu relógio de pulso outrora pontual. "Sou quinze pras sete", respondo secamente. Pois acabo de me lembrar de outro relógio, o do ponto, que, para meu especial desagrado, repetirá esta pergunta logo mais. Ah, eu devia ter troçado dele: "Oração? Só na igreja."
Chove aos potes. A caminho do trabalho, eu finjo que não vejo os táxis. Os táxis, todos no desespero, acenando para mim. Passo (ao) largo: estou ocupado com a minha pressa ou apressado com a minha ocupação, sei lá, não quero ser mais um a chover no molhado.
O fato é que, após ter cruzado por alguns barquinhos de papel, eu encalho. Enquanto o sol, disposto a espiar minhas íris, começa a abrir uma imensa clareira nas nuvens. E, como que por desencanto, algo acontece a meu superportátil guarda-chuva (até então oculto sob a camisa). Ele, triunfante, abre o seu amarfanhado náilon. Ao sentir, porém, um pingo de chuva retardatário, ele se recolhe... por precaução.
"Por quanto tempo serei ainda um quarador ambulante?", indago. O astro diurno, "firmamentão" acima de minha cabeça, dissipa os cúmulos dessa dúvida: "Por um tempo inferior ao que se gasta contando até dez". E eu constato que sim, por volta do número 9,756.
"O quê?" Um sabiá-laranjeira agora escuta os sons maviosos que saem dos meus ouvidos - a natureza é bela! A cena seguinte, a de um gato subindo na laranjeira, ardilosamente, demonstra que a a natureza também precisa fazer uma revisão em sua dialética. Enquanto isso, na defesa de seu existir, seja o sabiá menos ingênuo, menos laranja.
O saguão do edifício em que trabalho. À porta do elevador, como sempre, encontro-me com o Sr. Cunegundes que pressiona meu nariz. Ele, invariavelmente, faz isso quando quer subir ao quarto andar. Agora, detestável é o Sr. Coriolano que, para ir ao sexto, tem que dar um chute em minha panturrilha esquerda. Mas hoje vou chiar. "Por que não perta só o meu nariz, como faz o bom, afável e simpático Sr. Cunegundes, e sobe o resto pela escada?" E tomara que não dê zorra. É inominável onde tenho o botão de emergência.
Chego, enfim, a meu escritório. O local em que cultivo, dia após dia, a flor do aborrecimento. Sim, é correto o que disse Alain Rémond: "Um escritório é uma microsociedade governada por códigos que dão origem a incontáveis fofocas, neuroses, paixões". Como é também correto eu desabar, digo, desabafar: "Ai de ti, Homo burocraticus!" Fofocas, neuroses, paixões... estou mesmo encalacrado. Eu, Homo burocraticus.
Eis os sinais: a escrivaninha se fecha para mim, os cafezinhos me consideram um cara frio, fraco e fedorento, a cadeira não aprecia meu estofo e a máquina de escrever, os meus mindinhos emperrados; para o arquivo de fichas sou fichinha; os cigarros se irritam com meus brônquios, o telefone não quer papo comigo, o bebedouro não me engole, o ventilador de teto me põe para circular e resmas de papel ofício mofam... de mim.
Pois é, acho que estou me coisificando. Não escapo nem mesmo de uma cesta de plástico barato da seção. A qual, na fatuidade de seus papeizinhos amassados, a toda hora me joga na cara um... "tá me enchendo, pô!"

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

EM CARTAZ - II

CHICAGO VICE
Estados Unidos, 1954. Rip Altman é um dos homens de ouro da polícia de Chicago. Logo no início da história, ele aparece desmantelando uma rede de prostituição - sem tocar nas camas! Em razão disso, é promovido em periculosidade de trabalho. E recebe a incumbência de vigiar, noite e dia, os passos de Carmine. O mafioso Carmine que, com mãos de ferro e pés de barro, controla toda a famiglia Gambino. Altman nisso é inexcedível. Gruda. Segue Carmine em todos os passos, só o perdendo de vista nos momentos em que o chefão mafioso planta bananeira. Pelas tantas, o homem da lei surpreende Carmine num descampado, encosta-o num canto de parede... É quando o mafioso se confessa arrependido da vida de lenocínio, pistolagem, tráfico de drogas etc. E diz que vai largar tudo para ficar apenas na extorsão. Convencido da regeneração de Carmine, Altman fica seu amigo e até aceita comer com ele uma pizza de cogumelos, decerto alucinógenos. E que tem efeitos inclusive sobre o cérebro do roteirista pois, daí para frente, o filme se mostra pouco compreensível. Fosse projetado ao contrário, talvez as coisas fizessem sentido, se encaixassem...
MORTE NO TONEL
Mercado Comum Europeu, 1985. Drama baseado na vida real de Joachim B., um cidadão português de ascendência materna alemã. Em face da recessão econômica em seu país, Joachim B. emigra, indo fixar residência na Baviera, Alemanha. Após algumas dificuldades, ele arranja emprego numa fábrica de cerveja. De função em função, chega à mais ambicionada delas. A função de primeiro-amassador de lúpulo da fábrica, a qual exige pés escrupulosamente limpos. Em contrapartida, dá-lhe renda suficiente para fazer generosas remessas de dinheiro à esposa que ficou em Portugal. Um mês a remessa não se materializa, e a mulher recebe uma má notícia. Joachim teria morrido afogado num grande tonel de cerveja. Ela viaja às pressas para a Baviera, os diretores da fábrica acodem ao aeroporto da região para recebê-la e... a má notícia é confirmada. Inclusive circunstanciada: Joachim tivera uma morte terrível, porém rápida (apesar de seu vaivém final entre o tonel e o mictório). Em prantos, a viúva toma o primeiro avião de volta para Portugal. Não sem antes apanhar, a modo reparatório, duas malas alheias na esteira do aeroporto.
O EREMITA
Grã-Bretanha, 1978. Apesar do título é o filme que apresenta as cenas com os maiores ajuntamentos humanos da filmografia mundial. São as pessoas que povoam os pesadelos do eremita. E, na pele deste, acha-se Daniel O'Brega, um ator irlandês que dispensa apresentação (pelo menos neste papel). O eremita é um desiludido com o mundo dos homens, mas não com o dos morcegos. Vive numa totalmente escura furna, de onde só sai para comprar gelo redondo. Certa manhã, a sua faxineira o encontra com febre e agonizante. Internado á força no Hospital de Base de Wakefield, eis o diagnóstico que lhe dão: histoplasmose. Uma doença da qual ele fica bom, só por pirraça com os médicos e o padre da extrema-unção. De volta à vidinha boa de antes, dessa vez desiludido com o mundo dos morcegos - transmissores da histoplasmose - o eremita vai morar num poço artesiano que secara. Mas que, no primeiro inverno, reenche de água, afogando-o. É um filme que até hoje não foi exibido no condado de Yorkshire, o local da filmagem. Depredariam o cinema. Por conta do calote que o veterano diretor Paul Hunter, 18, passou nos figurantes por lá recrutados.
NUNCA TE VI
Brasil, 1986. Com Paulo César Aperreio, no melhor papel de sua carreira. Ele é Macondo Ferraz, um bem-sucedido homem de negócios paulista (entre suas atividades, está a de dirigir uma carteira de investimentos com a qual ajuda as pessoas até que elas fiquem falidas). E que, entediado com o trabalho, resolve passar umas férias na Europa e na França, com conexão na Bahia. O mau tempo, porém, obriga o avião em que ele vai a fazer um pouso de emergência no Dedo de Deus, em Teresópolis. E, quando melhoram as condições meteorológicas, uma surpresa desagradável: o avião não pega nem com empurrão. Com o sistema de comunicação avariado, resta a passageiros e tripulantes a espera pelas equipes de busca e salvamento. Elas chegam dias após, e todos são resgatados com vida. Todos, menos Ferraz cuja ausência é diminuída por uma ossada que as equipes descobrem no local. Detalhe crucial: uma trempe, com as cinzas ainda quentes, parecem apontar na direção de um canibalismo por parte dos sobreviventes. Mas, ao fim dos interrogatórios policiais, são todos inocentados. Sob protestos de um detetor de mentiras importado dos Estados Unidos (mentira, importado do Japão). Rodado com o nome provisório de "Nunca te vi, sempre te comi", por sugestão do distribuidor o filme teve o título encurtado. Para não confundir o cinemeiro pornô.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A CRÍTICA INÉDITA SOBRE A OBRA LITERÁRIA DE PAULO GURGEL

PAULO GURGEL: HUMORISTA E POETA
O médico, poeta e humorista Paulo Gurgel é também ficcionista nas horas vagas. E horas vagas para ele é o tempo disponível entre a profissão, a poesia e o violão. Que me desculpem a rima. Mas o ritmo poético e o acorde acordam nesse homem o humor, que o pratica com grande sobriedade e agudo senso crítico. Sensível à beleza artística, é um expert da criatividade.
Vez por outra, nos mostra nos suplementos literários a dimensão de seu talento inventivo numa simples crônica ou estória engraçada. Diríamos, mas propriamente, de fino humor, onde a ironia desponta aguda, ferina, insinuante, inusitada. É este o poeta que temos agora em mãos, participante de duas antologias, a primeira datada de 1981, VERDEVERSOS, e a segunda com o título ENCONTRAM-SE, do ano em curso.
A publicação dos livros mencionados é da responsabilidade do Centro Médico Cearense, e na primeira antologia nada menos de dez figurantes são encontrados. Na segunda, a lista estica para quatorze. E isto prova que, se a coisa pega, vamos longe. Médicos escrevendo poesia? - ora direis os tolos! E nós respondemos que é o que de melhor pode acontecer nos dias de hoje. Há os males do corpo e os da alma. Os nossos médicos-poetas cuidam dos dois. E em nosso meio já temos cultores das musas de alto nível, de nome nacional, como Airton Monte e Caetano Ximenes Aragão, para citar apenas dois do VERDEVERSOS, sem contar com Pedro Henrique Saraiva Leão, que saiu do movimento concreto do Ceará, lançado em 1957, e que não está incluído entre aqueles poetas.
Mas, o que vem a ser a poesia de Paulo Gurgel? O humor estaria ausente? Não. E até isto se nota em sua minibiografia. Vejamos: "Detesto ser levado a sério; o contrário, também." Em outra passagem o temos assim: "Amante dos livros, dois deles marcariam-lhe profundamente a juventude: 'Os Lusíadas', de Homero, e 'Ilíada", de Camões." (O grifo é nosso, mas a afirmação é dele.) "Abriram-lhe tanto a visão que fez um exame de vista sem que o oculista lhe dilatasse a pupila."
Isso são trechos esparsos de sua minibiografia (que não é tão mínima assim). O humor também invade a prosa desse cartunista da palavra e da imagem poética, que nos deu apenas o espaço do quarto minguante para redigir estas palavras: "Quero só quatro linhas para botar num livro". E aí estão mais que "quatro palavras" que, contudo, não dão ainda para fazer um juízo crítico de seus trabalhos inseridos nas publicações já referidas. Mas não podemos fechar esta nota sem antes dar ao público uma demonstração de sua criatividade poética:
"Que anjos são esses
Que se nutrem da celestial ambrósia
Mas que não diligenciam
Quando mastigo cogumelos venenosos?"
Humor cáustico, mas humor, também aqui se vê. E só ele, entre nós, o faz com tanta autenticidade assim. Vamos à frente, poeta; não há retorno para nada. O que está morto está perdido. Às bruxas o passado e o louro dos herois.

José Alcides Pinto fez essa apreciação em 1983, a respeito do trabalho literário de Paulo Gurgel, entregando a este uma cópia para a publicação, o que só acontece agora.

PECULIAR APRECIAÇÃO DO LIVRO "SOBRE TODAS AS COISAS" EDITADO PELA SOBRAMES - CEARÁ
Chegou-me às mãos, por gentileza de Geraldo Bezerra (45), o livro SOBRE TODAS AS COISAS - EDIÇÃO CONJUNTA - SOBRAMES/CE (1). Então, eu li Celina Pinheiro(5), Francisco Medeiros(37), Helvécio Feitosa(67), Luiz Alberto(99), Marigélbio Lucena(119), Hamilton Monteiro(55), Emanuel Carvalho(27), João Wilson(91), Luiz Moura(107), Dalgimar Meneses(17), Ícaro Meton(83) e Paulo Gurgel(129).
Foi então que, dando asas à imaginação, eu, fugindo do QUOTIDIANO(101), agarrei um COMPANHEIRO(102) e dizendo É PRECISO VIVER(52), fomos ver o NOTURNO DA CIDADE GRANDE(60). Antes de relatar esta CRÔNICA DA NOITE(93), digo: - nós, TORCEDORES DE FUTEBOL(125), separados do CARTOLA DO FUTEBOL(127), fomos ver MEU TIME DE FUTEBOL(126) que estava EM CARTAZ(135) elevado. MEU CORAÇÃO I(85), sem REFLEXÃO(103), sentiu o jogo CUMBUCO(55).
Deixei-o lá, saí, só, procurando BILACA(40), com a INQUIETUDE(63) e o INDISCIPLINADO(113) e ADMIRÁVEL MUNDO LOUCO...(91) cheio de MUTAÇÕES(48). Então, HOMO FALLUS ERECTUS(42), apertei o SEGUNDO(131) MEU CORAÇÃO II(86) cheio de DESEJO(85) e FEITIÇARIA(64). Era uma TARDE ABSURDA(62), véspera de CARNAVAL(105) e o CARNAVALESCO(14) em TEMPO REDESCOBERTO(65) aguardava o DESENLACE(12), sim, UM ESTRANHO ENTERRO(71), CICATRIZ(117) de O INFORTÚNIO DE JUCA(75), vítima de O MAL-DO-ZECA(79). Era como um NATAL VENDIDO(95) e eu, sentindo INSÔNIA(59) e cheiro de DERROTA(28), lembrando os REFLEXOS DO NEGRO(30), onde SER OU NÃO SER... HONESTO(5) era MAGRA FANTASIA(32), propus á ROSA(49), sim, a VOCÊ(58): - SEJAMOS NÓS(44).
Realizamos então A PRIMEIRA FUGA(17): era O DIA DE SÂO SARUÊ(83) e deixamos "O SERTÃO EM POLVOROSA(67). PERDÃO... ERA UMA VEZ UM PAJEÚ(84). Mas MARIA CLARA(103), a BRANCA DAS NEVES(137), aproveitando AS COROAS DE APOLO(133), disse-me: escreve a ELEGIA EM VIDA A JOSÉ DE AGUIAR RAMOS,VAMOS CONSTRUIR O HOSPITAL DO CÂNCER(119), pois CADA MOMENTO, A VIDA(46) é AMOR NA CONCEPÇÃO DO POETA(37).
Eu, com FEBRE(33), compus este CANTO ENIGMÁTICO(105), autêntica SÚPLICA DE NATAL(61), endereçando A VOCÊ, MEU FILHO, MINHAS ESPERANÇAS(97) pois, APESAR DE TUDO(34), NINGUÉM SE LEMBROU DE TI...(53), mas AINDA PRESTA O TEU AMOR(45).
Rumei então para NOVA IORQUE(31) onde daria a AULA DE 14 DE MAIO DE 1975(21) sobre O QUE PODE HAVER DE COMUM ENTRE: INVERSÃO UTERINA TOTAL, O REDEMOINHO MARÍTIMO DE MAELSTROM E A MANOBRA DE GUAXINIM(122) e soltei THE ATOMIS BOMB(43) e TAU SALOMONIS(25) com as MEMóRIAS DE UM ATESTADO MÉDICO(107).
Com A MARCHA DO TEMPO(50), olhando OS OLHOS DA MULHER AMADA(99), UMA SEMANA MAIS TARDE(43), entre REFLEXÕES(35), à hora d'O JANTAR(9), uma CONCEPÇÃO(38): - SER POETA(29), é UMA ESTÓRIA DE EMERGÊNCIA(89) NO UMBRAL DO ANÍSIO(27), cresce como BOLA DE NEVE(51) da INFÂNCIA(87), após a BALADA DO POETA SEM NOME(100), dedicada à MÃE(10).
Em ANTÍTESE(104), após o EXAME PRÉ-NUPCIAL(11) e consultar RELÓGIOS(7), resolvi escrever UM POEMA PRA VOCÊ(96). Era a VISITA DA POESIA(56): - O CURIOSO CURIÓ(116) desprendeu uma FORTUITA LÁGRIMA(39), sequei-a com FÓSFOROS(129).

Texto escrito no Rio, em 11 de abril de 1988, por Tito de Abreu Fialho, então presidente da SOBRAMES - Nacional, e enviado ao Ceará para os participantes do citado livro.

LANÇAMENTO DA ANTOLOGIA "EFEITOS COLATERAIS"
Minhas senhoras; meus senhores; meus colegas.
O caro, preclaro, e raro colega Luiz Gonzaga de Moura Júnior, presidente desta entidade médico-literária, solicitou-me apresentar a vocês os demais colegas presentes nesta antologia. Mormente para cumprir um protocolo, eis que são todos conhecidos e apreciados.
Permitam-me - contudo - de início nomear outros, os quais nesta crestomatia não figuram: Francisco de Castro / AfrânioPeixoto / Oswaldo Cruz / Miguel Couto / Clementino Fraga, pai e filho / Fernando Magalhães / Maurício de Medeiros / Aloysio de Castro / Deolindo Couto / Peregrino Junior / Carlos Chagas Filho / Pedro Nava / Ivo Pitanguy / o nosso Airton Monte, todos figuras de truz da Medicina e da Literatura brasileiras.
Como são, igualmente - quiçá com a mesma proficiência - os colegas hoje e agora reunidos nesta coletânea, a demonstrar, mais uma vez, que "letra de médico" não é tão ilegível, como apregoam alguns: (...)
PAULO GURGEL, verdeversejando desde 1981, terça com a mesma destreza a crônica, o humor, e o conto, de maneira fluida, condensando-se ao sabor do ar expirado por seus temas prediletos. Pneumologista de escol, não padece daquela dispneia intelectual, tão encontradiça, a qual nem os médicos conseguem tratar.

Discurso proferido por Pedro Henrique Saraiva Leão (um dos participantes da antologia), em 14 de dezembro de 1990, na noite de lançamento do livro "Efeitos Colaterais".

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A CRÍTICA PUBLICADA SOBRE A OBRA LITERÁRIA DE PAULO GURGEL

UMA ANTOLOGIA DE POETAS MÉDICOS
I
São oitenta e três poemas e dez poetas médicos reunidos numa antologia ("Verdeversos"), numa bem apresentada edição do Centro Médico Cearense, com os respectivos cuidados de edição, paginação e ilustração. (...)
II
Finalmente, Joâo Bosco Sobreira e Paulo Gurgel Carlos da Silva. O primeiro participou da antologia "Queda de Braço" e tem um livro de poemas inédito "A Pedra e a Fala". Do segundo há uma curiosa e irreverente minibiografia que antecede os seus dez poemas. (...)
Humor e irreverência , talvez um toque de non sense, encontramos nos poemas de Paulo Gurgel "Vesperal" e "Profética". Bem anda o poeta, em tempos "reaganianos" - como escreve Millôr - em aludir ao mito do caubói invencível John Wayne. A preocupação social nos poemas "Desfazenda" e "Auto do Compadecido". No final deste poema, o entretexto cresce na medida em que o poeta escreve: "As minhas mãos / Uma sabia da outra". Um momento de evocação da infância recuperada aparece no sugestivo poema "Quintal de Infância".
Carlos D'Alge
In: Jornal "O Povo", fevereiro de 1981.

ESTANTE DE LIVROS
Dez médicos puseram as mangas de fora e reuniram em "Verdeversos" as suas poesias: Airton Monte, Alarico Leite, Caetano Ximenes, Emanuel de Carvalho Melo, João Bosco Sobreira, José Jackson Sampaio, Maria Irene Nobre, Lucíola Rabelo, Paulo Gurgel e Winston de Castro Graça.
Os poemas de Paulo Gurgel, quase todos, trazem a marca do grande poeta. (...)
Paulo Gurgel é, para mim, uma revelação poética admirável. O poema "Quintal de Infância" é um quadro estético, e espelho de uma sensibilidade artística incontestável: (...)
A Paulo Gurgel, que se ocupa aqui de cousas triviais, pode-se aplicar as palavras de Otto Maria Carpeaux: "A arte é um dom do Céu, mas tem que servir à Terra".
"Oriental" é um poema que mostra a radiografia do homem: (...)
Estou certo de que Paulo Gurgel ainda nos vai fazer surpresas maravilhosas no campo da poesia.
Abdias Lima
In: "Tribuna do Ceará", 18 de março de 1981.

LIVROS
"Encontram-se" neste livro quatorze luminares da medicina brasileira: Beto Bezerra, Dalgimar Meneses, Emanuel Carvalho, Francisco Nóbrega, Francisco Sampaio, Heitor Catunda, Jackson Sampaio, Lucíola Rabello, Paulo Gurgel, Ricardo Augusto R. Pinto, Rose Mary M. da Silveira, Sérgio Macedo, Wilson Medeiros e Winston Graça.
Encontram-se para, em verso e em prosa de claridade lunar ou solar, nos dar conselhos sobre a saúde, falar sobre o mistério da vida, sobre os problemas da carne, as saudades dos cais, para protestar contra um mondo robotizado ou rir (Paulo Gurgel) de tudo, inclusive de si próprio.
PAULIFICANTE
PAULO, não é que nasci? Tinha um grande projeto,
-----fluvial, de atravessar caudaloso o
PAUL da humana existência, mas
-----represo-me, estagno-me - sorte
PAU - termino por saber que me espreita uma
PÁ de terra e que, dia qualquer,
-----eu morro
P... da vida.
Paulo Gurgel é um humorista à Leon Eliachar. É pena que não esteja enriquecendo as revistas do Sul.
Abdias Lima
In: "Tribuna do Ceará", 15 de junho de 1983.

CRIAÇÕES
"Criações", a nova antologia que o Centro Médico Cearense acaba de publicar, é um livro que mesmo não se destinando à realização de uma ambicionada carreira literária, enfeixa em suas páginas a virtude de provocar outras reflexões. No geral, trata-se de um projeto que, se por um lado peca pela falta de unidade estética e mundividencial, por outro assombra pela qualidade de alguns textos que apresenta, assaltando, muitas vezes de surpresa, a sensibilidade literária do próprio leitor. (...)
Sobre a irreverência do discurso de Paulo Gurgel, eu teria muita coisa a dizer, mas, contraditoriamente, eu diria que nada tenho a acrescentar. Gostaria que os seus textos fossem assimilados tal como ele os concebeu, assim de forma tão irrecusavelmente metafórica que parecem espreitar a sua própria decodificação.
No mais, gostaria de aqui registrar a importância dessa iniciativa do Centro Médico Cearense, no sentido de divulgar, através de sucessivas edições, a produção literária de seus associados, erguendo um empreendimento inquestionavelmente pioneiro no âmbito das associações profissionais existentes no Ceará.
A Editora do Centro Médico Cearense, portanto, está de parabéns, como de parabéns estão os seus articuladores, especialmente os médicos Emanuel Carvalho e Paulo Gurgel, responsáveis pelo seu programa editorial. E se mesmo, como insinuei, ainda não atingiu um estágio capaz de polarizar a ambivalência por mim reclamada, no início desta apresentação, isto se deve ao fato de o Centro Médico Cearense, antes de ser uma sociedade de escritores, se constituir numa escola que apreende a vida exatamente ao contrário daquilo que aprendemos na escola, dando-nos, assim, a lição de que literatura é vida e de que viver nem sempre representa uma opção pelos descaminhos da realidade.
Dimas Macedo
In: "Diário do Nordeste", 28 de fevereiro de 1986, e nas páginas 40-42 do livro "Ossos do Ofício", publicado pela Editora Oficina, em Fortaleza, 1992.

DIAGNÓSTICO POÉTICO E FICCIONAL
Paulo Gurgel e Emanuel de Carvalho reuniram-se com médicos seus amigos e, através da Editora Centro Médico Cearense, publicaram "Criações" - um belo e sugestivo título para a antologia que ora apresentam ao público cearense. Cearense, dizemos nós, porque dificilmente esta equipe de poetas ultrapassará as fronteiras do Estado, não pela qualidade dos poemas, que são bons, mas por falta de distribuição, que é esse, ainda, o maior problema para quem escreve e reside na província. (...)
Voltemos, agora, ao livro - "Criações". Há um fato de muita singularidade neste livro: são as "biografias" dos autores apresentadas (e animadas) pelo poeta Paulo Gurgel - um homem muito inteligente e portador de um espírito de observação fora do comum, dotado de um senso de humor raro entre escritores, mesmo ao nível nacional. O livro não faria sentido algum se o leitor não começasse pelas orelhas - orelhas de bom sinal, por sinal, diga-se de passagem.
Os antologiados - nove ao todo - estão reunidos aqui, neste volume de prosa e poesia, cada qual dando a dimensão de seu talento, de sua criatividade, de sua veia poética ou ficcional. É um grupo da pesada e que pesa muito nas letras de nosso Estado. Pela ordem de entrada no florilégio: Dalgimar Meneses, Emanuel Carvalho, Geraldo Bezerra, Hamilton Monteiro, Hugo Barros, Luís Teixeira, Paulo Gurgel, Pedro Henrique S. Leão e Sérgio Macedo.
José Alcides Pinto
In: "Tribuna do Ceará", 24 de maio de 1986.

SOBRE TODAS AS COISAS E ALGO MAIS
I
Esses médicos do Ceará são fogo. Além de bons, em muitos casos ótimos, excelentes profissionais, muitos deles se destacam também em outras atividades, notadamente no campo da Cultura, da Literatura em particular. Existe aqui inclusive uma seção da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, que há vários anos vem atuando com muita garra na edição de livros, oito ao todo até o momento, prosa e poesia, contando com este interessantíssimo "Sobre Todas as Coisas", saído recentemente. A exemplo de cinco já publicados, este agora reúne um bom número de médicos escritores, explorando (no bom sentido) mais de um gênero literário, com destaques para o conto e a poesia. (...)
VIII
Dizer que Paulo Gurgel é um dos sujeitos mais inteligentes aqui da terrinha, criativo (e engenhoso) como poucos é repetir o óbvio. Quem lê o que sai dele em nossa imprensa sabe disso, daí o número de leitores (futuros eleitores?) que ele tem, atentos sem tirar nem pôr à sua prosa, sempre gostosa e bem humorada, sem esquecer, é claro, o seu estilo escorreito e muito bem servido, em termos de língua... brasileira. Sim, ele escreve como o povo fala, sem arrebites digamos gramaticoides, o que seria realmente uma besteira. A parte dele encerra este "Sobre Todas as Coisas" e encerra otimamente, com a gente podendo falar, por isso mesmo, num final feliz. São crônicas e estórias, numa delas ( "Em Cartaz") fazendo brincadeiras com filmes (?) - tudo muito engraçado, à maneira do autor. Médico, está certo, dos bons de nossa cidade, com uma excelente folha de serviços, mas para mim, que ainda não o procurei para uma consultinha, um escritor de mão cheia, legibilíssimo, mesmo quando se está assistindo a uma novela tipo "Sassaricando".
Antônio Girão Barroso
In: "Revista", coluna do "Tribuna do Ceará", 30 de janeiro de 1987.

O CANTAR E O CONTAR SOBRE TODAS AS COISAS
Neste entardecer de fim de milênio, onde as ameaças à raça humana são inúmeras e insondáveis, a palavra parece ser revisitada e recuperada por alguns grupos atentos à integridade do homem. Neste sentido, o verbo se faz remédio e a Literatura se faz milagre. (...)
"Sobre Todas as Coisas" traz variadas texturas e variadas sensorialidades onde o leitor, feito beija-flor, parte por diferentes texturas e variadas paisagens. Alguns dos construtores desta antologia, já conheço de outras tramas literárias e pude viajar através das reafirmações do estilo de pensar e vestir a palavra de cada um; é o caso de Paulo Gurgel, Hamilton Monteiro e Celina Pinheiro.
Paulo Gurgel recria a palavra dentro de uma imagística cinematográfica e hemorrágica, onde a realidade é sempre mais inédita que a fantasia e o espanto afoga sempre o leitor aturdido e perplexo. Deste modo, Paulo Gurgel é escritor engenhoso e iluminado por soluções, individualíssimas e insuspeitas.
Diogo Fontenele
In: "Tribuna do Ceará", 21 de novembro de 1987.

MÉDICOS ESCRITORES
I
Com um título geral e significativo (para o texto leia-se significante) chega-nos às mãos a antologia "Sobre Todas as Coisas", da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Ceará, num total de treze participantes - poetas e ficcionistas - já com o nome firme nas letras, todos demonstrando sensibilidade e dom para a literatura e as artes. (...)
II
As últimas páginas de "Sobre Todas as Coisas" são preenchidas por Paulo Gurgel, um homem de letras dos mais completos de sua geração. É um artista nato. Talento vasando por todos os poros. Mergulhado no absurdo existencial, na vanguarda criativa, tira de tudo isso os efeitos mais surpreendentes. É um idealista. Seu estilo é inconfundível. Sabe lidar com o reino das palavras e seus encantos. Dono de um potencial de fabulação imenso, com alguns contos já premiados, é um dos pontos altos desta antologia. Suas estórias (crônicas, poemas, fábulas?) oscilam entre o picaresco e a prosa de costumes (confidencial). Trabalha com os signos e os signos eróticos. É o desenhista e o escultor da palavra. O cotidiano é a menina de seus olhos. A condição humana está por inteiro em seus escritos.
José Alcides Pinto
In: "Tribuna do Ceará", 16 de abril de 1988.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

COISANDO INVENTOS

O homem enquanto espécie, ao longo dos milênios, tem progressivamente atulhado os locais onde mora, estuda, trabalha e se diverte de uma infinidade de objetos. São objetos que ele criou, está a criar, para o seu conforto, adestramento, exercício das profissões e entretenimento. À satisfação, portanto, de suas enormes necessidades de espécie mais evoluída do planeta. Antes disso, quando ainda não havia chegado a Homo habilis, e suas exigências era bem menores, ele apenas se cercava de uns poucos objetos. Os trecos que ele ia achando "pelaí" e botando neles as devidas serventias.
Foi somente quando o homem se fez artesão que a coisa deslanchou. Pois, em virtude da habilidade conseguida, ele passou a criar os objetos de que necessitava. A cadeira, por exemplo, para atender ao corpo que pedia o "de-sentar". E cada artefato que ele criava tinha uma só utilidade, mas não por muito tempo. Pois, adiante, aparecerem os sofisticadores dos inventos. No caso da cadeira: 1) quem a colocou entre varais para transformá-la numa liteira; 2) quem a pôs no guincho para cinematografar; 3) quem lhe acrescentou armações curvas para que pudesse balançar; 4) quem a equipou de fios elétricos para ser capaz de eletrocutar...
(Não, a sela não é cadeira; constitui um invento à parte.)
Assim como há os sofisticadores, há os subvertedores dos inventos. Aqueles que encontram para a coisa inventada a sua utilização num contexto, digamos, não familiar. Ora, se por um lado, todo e qualquer invento integra o plano da realidade, por outro, existe nele o germe do suprarreal. E os subvertedores sacam bem isso. Quando, por exemplo, descobrem (Chicago, anos 30) que o estojo do violino é bom também para carregar metralhadora. E, a propósito de ambos os grupos, o leitor me permita esta síntese: são os sofisticadores que aprimoram os inventos (o canivete suíço é a obra-prima deles!), mas são os subvertedores que conferem às coisas inventadas as mais surpreendentes funções.
Para ilustrar o que acabo de dizer, apreciemos as cenas seguintes: o operário da construção civil a trinchar o bife do almoço com a colher de pedreiro / o malandro a marcar o samba tamborilando numa caixa de fósforos / o médico a pesquisar o reflexo de Babinski por intermédio da chave do carro / o molecote que fui a soprar guarânia no pente com papel / e você aí a limpar o cabeçote do gravador com o auxílio de um cotonete... As provas de que, em tempo integral, somos mesmos uns subvertedores dos inventos. Na razão direta em que os objetos todos - do cotidiano - estão aí a pedir algum uso surreal.
Já houve quem reduzisse luxação de ombro com as manobras preconizadas, mais bola de bilhar (número 7) - com esta colocada no oco axilar do paciente, no momento da redução. Cirurgião que inserisse bolas de pingue-pongue em tórax de enfermo para fechamento do espaço extrapleural. E, certa vez, um colega que, acometido de feroz tendinite, a qual não melhorava com os medicamentos auto-receitados, ainda assim não se dar por vencido. Apelando para o calor, esse eficaz meio físico da fisioterapia. Aí, desprovido de melhor equipamento, botou o ferro de engomar a aquecer e... passou a tendinite a ferro.
Ah, são tantos os usos possíveis para os objetos que o mais possante dos computadores, caso se metesse a registrá-los, queimaria os circuitos integrados já na segunda letra do alfabeto. No "B" de Bom-Bril. E dou novos exemplos, agora no campo da música. Pode-se tirar som de violino (violin-like) de um serrote ferido por um arco. Som de xilofone de um jogo de garrafas com escalonados níveis de água. E som de porco, ora bolas, açulando porco (como Hermeto fez numa gravação). Contudo, eu já deixei de comprar uma flauta de segunda mão, baratíssima, porque o proprietário tinha o hábito de restaurar as chaves do instrumento com um inusitado produto biológico. Casulo de aranhas.
Marcel Duchamp, artista plástico francês dos mais inovadores, usava muito das associações surrealistas nos objetos do cotidiano. Colocando-os fora do contexto habitual, o que fazia deles obras artísticas designadas de ready made. Aqui, aproveito para chamar a atenção do leitor a um fato que acontece nas enfermarias de nossos hospitais. Durante as horas de solidão, os pacientes mais hábeis que reprocessam determinados componentes do lixo hospitalar (frascos e equipos de soro, por exemplo), transformando-os em singelas obras de arte. De arte hospitalar, dou o meu aval a tais criações, mesmo não sendo um crítico de artes plásticas.
Imaginação criadora é também o que não falta aos habitantes do sistema carcerário. Daí, os "cossocos" (armas brancas fabricadas de um quase impossível material), as "teresas" (cordas improvisadas para a escapada geral) etc. Numa de suas fugas da ilha-prisão, Papillon lançou-se ao mar em cima de um saco de aniagem recheado de cocos (um objeto flutuante, pois não). Porém, o mais astucioso engenho para a fuga fê-lo o cirurgião plástico Osmani Ramos, de quem fui amigo em fase pré-criminosa (dele, bem entendido). Utilizando-se de material especializado existente na enfermaria do presídio onde, na qualidade de médico, tinha fácil acesso, ele montou uma escada... de gesso. Sem que chegasse a usá-la, pois que os agentes prisionais a descobriram antes. Mas vai para ele o primeiro prêmio na categoria originalidade.
E a citação de uma mancada histórica. Da parte do cidadão Charles Duell, então diretor do Departamento de Patentes dos Estados Unidos da América, que enviou carta ao presidente William McKinley, no fim da qual pedia exoneração e extinção do cargo. Com a justificativa: "Tudo o que tinha de ser inventado já foi inventado". Em 1889, isso. Quando ainda hoje, um século depois, inventando coisas - e coisando as já inventadas - o homem não dá o menor sinal de que vai arrefecer.

COISANDO INVENTOS
é uma espécie de "resposta" a INVENTANDO COISAS
(que já foi publicado no Preblog, em junho de 2008).

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

UM DEUS DORMIU LÁ EM CASA

No existir monótono do ser humano, e tornado ainda infeliz pelos projetos não realizados, tudo seria bem mais venturoso se súbito um deus aparecesse. Eu não falo de um deus bíblico, muito poderoso, mas de um deus em carne e osso, não preocupado com a espiritualidade. Apenas capaz de transformar algum sonho em realidade, porque instrumentalizado se achasse para isso. Embora coubesse também ao eleito: abrir a porta, recebê-lo cordialmente (não se desleixando nos detalhes de cada situação) e indicar-lhe o quarto de dormir.
Eis a experiência - inesquecível - vivida por quatro eleitos.

Beto, 23, aficionado por automóveis - "A vida toda eu quis ter um carro, mas cadê a grana para isso? Sou franco. Por diversas vezes, cheguei a pensar em puxar um, sair rodando por aí... Mas, seria uma fria, meu irmão. Chega a polícia, me engaveta e, o que é pior, daí para frente sou um cara marcado. Por isso, meu consolo era imaginar que um dia a coisa ia mudar. E como foi que mudou. No dia em que eu estava folheando a 'Quatro Rodas', me babando todo de um Comodoro 88 com opcionais. Entrou um cara meio parrudo, cabelo curtinho, em minha casa. Todo sujo de graxa, me pediu água para beber e lavar as mãos. Dei-lhe água para uma e outra coisa, e disse-lhe também que sentasse um pouco. O homem era cegonheiro, desses sujeitos que transportam veículos das fábricas para as revendedoras. Na porta tava lá o 'caminhãozinho' que não me deixava mentir. Parara por causa de prego. Como eu sempre guardo em casa uma pinga da boa, indo com o jeitão dele ofereci-lhe uma dose... no capricho. O homem ficou doido. Me disse que nunca havia provado cachaça igual. Aí, mandei ver outra, outra e outra. E ficamos amigos. Pelas tantas, sabendo da minha fissura ele me ofereceu a chave de um Monza, para que eu desse umas voltinhas. Saí no carro, né? E ele ficou em casa bebendo da 'branquinha'. E cada dia eu saía num carro diferente, que o gente boa me facilitava. Desde que não faltasse a 'maldita'. Enquanto ele lá mamava, eu rodava com a minha gata. Oito dias, oito carros, até que a polícia apareceu para estragar... a mando dos patrões dele. Mas não peguei cana, né? Não havia roubado nada. Pois é, deus dormiu lá em casa um... não, oito dias, mas para ver que nem ele é perfeito. Eu tinha que pagar o combustível que botava nos carros."
Tony, 45, bicheiro - "Em verdade, foi uma deusa que dormiu lá em casa. Eu me achava num astral mais baixo que poleiro de pato... Tinha levado o fora duma 'mina', numa circunstância que não interessa contar agora, quando a deusa apareceu. Na graça de uma loura - de cinema, meus queridos - que bateu à minha porta. Perguntando por uma pessoa que eu nem conhecia, e depois pedindo para usar o telefone. Ligou várias vezes, porém, do outro lado ninguém atendia. Aí, entre uma ligação e outra, eu puxei conversa. Depois, preparei-lhe um drinque que ela bebeu. E, como o programa dela havia mixado, topou o meu convite para sair na noite. Fizemos um circuito de bar, restaurante e danceteria, nessa ordem. Ao fim da noite, como pessoas civilizadas, fomos pra cama. Perdi a conta do número de minhas cavalgadas até que o dia amanhecesse. Foi safadeza, daquelas que o garoto aqui via nas revistinhas do Zéfiro... a loura topava. Só houve um senão, já no fim. Quando, apesar do imenso prazer que eu tivera, me dei conta do seguinte fato. Não havia visto, nem uma vez só, sombra de orgasmo em seu rosto, corpo... Era grilo com relação a mim? Dela quis uma explicação, meus queridos. E ela, que já estava de saída, foi, me atirou esta: 'Acaso você é Édipo?'" (*)
Juvenal, 56, leitor inveterado - "Bem, eu sou agnóstico. Mas um dia deus dormiu lá em casa. Na pessoa de um vendedor de enciclopédia que bateu à minha porta, com a proposta de vender uma coleção por um plano especial. Não tem ninguém mais bibliomaníaco que eu, mas, ultimamente, eu vinha me privando do hábito. Sem dinheiro para comprar livros e, por vezes, até o jornal. Os tempos bicudos... Aí, eu disse ao vendedor que desculpe mas não dá... Ele até não insistiu muito. E desabafou que fizera uma rota enorme, achava-se naquele momento longe de casa... Já era noite, e eu entendi aquela conversa mole como um pedido de hospedagem. Então, mandei que ele arriasse os livros num canto da sala, e mostrei-lhe o quarto onde ele podia descansar o corpo afadigado. E, noite adentro, enquanto ele ressonava, fiz meu serviço esperto na enciclopédia. Bendita a hora em que fiz meu curso de leitura dinâmica! De modo que, quando o homem despertou pela manhã, eu já estava no verbete 'zwinglianismo'. Depois disso, voltei à realidade só que mais instruído."
Lucas, 38, ufólogo - "Tenho lido tudo sobre o assunto, participado de inúmeros congressos... A ufologia é uma ciência e os ufos são naves espaciais que transportam seres alienígenas, acredito nisso. No tempo de que disponho, chova ou faça sol, armado de luneta posto-me no terraço de minha casa a perscrutar o céu. Certa vez, no terraço... eu ia até me recolher mais cedo, não estava com o aspecto de que ia aparecer algum ufo... Pois bem, mas surgiu algo que me encheu a vista. Não, eu não tinha bebido nem estava tomado de uma ilusão. No descampado, ao fundo da residência, vi que pousava um disco voador. E dele, minutos após, vi que descia um ser indiscutivelmente extraterrestre. Verde, presumíveis dois metros, a cabeça desproporcional ao corpo e com anteninhas, olhos bovinos, os braços finos, longos, com os dedos rentes ao chão... Caminhava arqueado. Um ufólogo tem de estar preparado para o grande momento, recebi o estranho com naturalidade. E graças ao tradutor de línguas - ele estava equipado de um - foi possível a comunicação verbal, de lá para cá e vice-versa. De maneira que, a noite toda, trocamos informações sobre coisas e fatos da Terra e de Cloros, o planeta dele. Clima, fauna, flora, sistemas de governo, esportes, religiões, Plano Cruzado, de tudo um pouco. Fui interlocutor desse deus, porém não o deixei dormir. E não relaxei em meu papel nem quando amanhecia, com ela já a partir... Porque aproveitei para lhe fazer minha última pergunta, uma curiosidade que eu tinha... Perguntei-lhe: 'Como é que vocês transam sexo, lá?' E ele me respondeu: 'Assim, ao mesmo tempo em que os seus dedos agilmente sacolejavam os lóbulos das minhas orelhas.' Por sinal, fizera isso comigo muitas vezes durante a noite. Antes de ele partir, imaginei fotos, vídeo e tal, mas o habitante de Cloros me proibiu de fazer tais registros. Entretanto, eu tenho como provar esse contato de, digamos, quarto grau. Peço apenas que aguardem nove meses, talvez menos. Que a futura mamãe aqui vai deslumbrar o mundo, ora se vai..."

(*) No blog EntreMentes este item foi publicado com uma nova versão:
Tony, 45, bicheiro - "Em verdade, foi uma deusa que dormiu lá em casa. Eu me achava num astral mais baixo que poleiro de pato... Tinha levado o fora duma 'mina', numa circunstância que não interessa contar agora, quando a deusa apareceu. Na graça de uma loura - de fechar o comércio 24 horas, meus queridos - que bateu à minha porta. Perguntando por uma pessoa que eu nem conhecia, e depois pedindo para usar o telefone. Ligou várias vezes, porém, do outro lado ninguém atendia. Aí, entre uma ligação e outra, eu puxei conversa. Depois, preparei-lhe um drinque que ela bebeu. E, como o programa dela havia mixado, topou o meu convite para sair na noite. Fizemos um circuito de bar, restaurante e danceteria, nessa ordem. Ao fim da noite, como pessoas civilizadas, fomos pra cama. Entorpecido pelo álcool, caí em sono profundo até por volta de meio-dia. E, ao despertar, constatei que a deusa, talvez decepcionada pelo meu apagão, tinha ido embora. No espelho do banheiro, havia deixado escrito a batom um número: 1985. Uma charada que, de imediato, eu não decifrei. Mas um bicheiro experiente como eu devia ter entendido o aviso e mandado 'cotar' o malfadado número. Que foi a milhar do tigre que deu, naquele dia, e me quebrou a banca."

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

UMA IDADE DIFÍCIL

Nasci no cabalístico 6 de 6 de 48 (ano com números equidistantes de 6), mas não me tomem pelo anticristo. (Arreda para lá feioso 666, bem sei que quando o espúrio reino estiver para começar, tu antes mostrarás os sinais.) E esse blablablá numérico, de interesse nenhum para quem lê o tablóide, tem de fato o intuito seguinte. Mostrar, com a implacabilidade dos números, a quem quiser conferir na ponta do lápis, que hei chegado aos 40 anos. Uma idade especialmente difícil.
Sim, eu poderia ter pisado no umbral dos meus 40 anos numa festa entre amigos, família... mas que faço eu? Na data natalícia, refugio-me com a mulher e filho numa cidade potiguar. Mossoró, onde Virgulino não entrou e eu escapo - pelo fator distância inclusive - do "parabenizador-pra-você". Preto no branco, petróleo no sal, raciocínio analógico. Eu não falei que 40 anos seria uma idade especialmente difícil? Agora, quanto ao uísque amigo (a curriola merece), eis minha justificação: devo, não nego, mas pago quando puder.
Na véspera, o mar de Majorlândia fazia pano de fundo à latomia da minha Olivetti portátil. Eu tentava furiosamente um intróito para esta crônica. Nesse sentido, em vão tentei. Mas, da solidão e talvez por reflexionar sobre um "farol do fim do mundo" (Julio Verne), arranquei ideia para um conto pequenino. Apenas uma ideia. A musa que preside as letras ainda não se modernizou. E, até hoje, ao ouvido do poeta, continua soprando palavras, fragmentos de frases... quando já poderia trazer o texto completo num teleprompter. Para, aí, o poeta só copiar.
Alguém que completa anos é um pouco como aquele homem da anedota. A cair de um altíssimo edifício e, enquanto a queda não termina, não obstante o previsível desfecho, a dizer "até aqui tudo bem". Ah, seguramente eu não terei mais catapora, papeira, sarampo alemão, essas mazelas infantis. E bexiga também não terei, que esta foi varrida da face da Terra (e da face de seus moradores) pela medicina moderna. Em compensação, devo me preocupar com o colesterol, os triglicerídios, o ácido úrico... ou, preferivelmente, não devo; apenas com os esforços físicos extenuantes, para os quais (esforços sexuais, à parte) decidi que contrato dublê.
E eis-me aqui, quarentão, a driblar a morte. Como no passado, mas ela (epa!) cada vez mais a "manjar" minhas firulas - para um dia, por inevitável, me derrubar feio no gramado. Assim, não adianta mesmo andar de trancinhas, se tem dia que la está a fim de um rastafári. Nem de não jogar gamão. Até lá, é aproveitar as pequenas alegrias da vida de que falou Hesse. Prazer comedido é prazer dobrado, além de mais em conta. E, quando a morte vier, disto me lembrar: ficarei sem boca para rir, sem olhos para chorar.
Finalmente, aos 40 anos, não tenho vocação para ser Paulo, Paulo, no caminho de Damasco. Nenhuma voz, de fonte mal identificada, tem força bastante para promover mudanças bruscas em minha vida. Não caio do cavalo. E mais: vou continuar adubando (com o estrume do animal) os meus pequenos vícios, a ver se bem no meio deles floresce uma grande virtude. "Eras!" Tudo depende de el prisma con que se mira. Por isso, tem sido e não tem sido uma grande jornada esses 40 anos. Tornei a bailar "La bamba" (de novo nas paradas) e ainda não sei o que é votar para presidente (por que será, meu bom José?).
Pois é, 40 anos. Até aqui tudo bem.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O BINGO DAS PEDRAS FRIAS

Os três comparsas estavam reunidos na casa de pasto do Bucho de Lama. Os três eram Armandinho, Honorato e Claudionor, figuras por demais conhecidas no bairro pelas peças que viviam aprontando. E Bucho de Lama , que com eles parolava, acabara de lhes dar o sinal verde. Na noite de sexta, o grupo pudesse contar com as dependências do restaurante para o evento. Eles não se afastassem, porém, daquilo que tinha sido esquematizado num guardanapo de papel, ali no balcão.
Com um balcão, onze ou doze mesas de fórmica com as respectivas cadeiras, o restaurante nos últimos tempos vinha se despovoando. E, nos fins de semana, oh, dor maior! Ao se constatar que a frequência ao mesmo não passava de uns gatos pingados bebericando no balcão, algum grupo em torno de um violão na mesa embaixo da castanholeira... ("Peraí", restaurante ao ar livre na periferia desta cidade sem um pé de castanhola não existe.) E todos bebendo, bebendo, mas indiferentes aos odores da mão-de-vaca que fervilhava num panelão da cozinha.
O plano consistia do seguinte: os três organizariam o bingo de um peru assado, ficando eles com a renda dos cartões vendidos. E Bucho de Lama, com a renda - que se antevia considerável - das bebidas, dos tira-gostos... Mas, porque o chamassem à cozinha, o proprietário não ouviu o resto da conversa. O capítulo em que os cupinchas planejaram: 1) furtar o peru (comprá-lo, estreitaria bastante a margem de lucro); 2) fraudar o bingo (para que a papação da ave fosse feita por eles, naturalmente). E, daí, a dúvida histórica: acaso tivesse tomado conhecimento de tais nefandas intenções, o velho Bucho teria ainda cedido a casa para a promoção? Seja como for, estás dispensado da peruação, leitor.
O lance de furtar o peru. Encarregar-se-ia do furto o Honorato, mas devidamente alertado para não reincidir em erro anterior. Um erro relacionado com a expropriação de uma galinha do quintal de D. Maju, quando ele então deu bobeira. Por ter deixado, depois que comeu a ave, as penas cadavéricas em seu lixo pessoal, e este, ao ser revolvido pelas mãos indignadas de D. Maju, revelar a seguir o que acontecera. E aí, embora pudesse ainda negar o crime, Honorato, diante de uma conta apresentada pela vetusta senhora, novamente bobear. Ao sair-se com esta: "O quê?! Quinhentos cruzados por aquela galinha velha e dura?!" Quer dizer, sujou.
O lance de fraudar o bingo. Nenhum deles poderia aparecer como promotor do evento, muito menos dizer o bingo. Ia aparecer marmelada explícita. Aí, Armandinho ficou de abordar Amiltão, o dono de um fusca adaptado para divulgações sonoras; Claudionor, de convidar Moleza para mestre de cerimônias do sorteio. O Moleza podia. Integrava a turma, mas não bebia do licor de pera e, por isso, não tinha uma imagem desgastada perante o grande público. Agora, como seria a burla. Um pouco antes de ser chamado o bingo, um grupo muito especial de pedras se submeteria a um processo de resfriamento num depósito de isopor com gelo. Exatamente as pedras que, quando fossem retiradas do saco pelos dedos termossensíveis do Moleza, fariam bater um cartão também muito especial - em poder da trinca.
E chega a sexta-feira. Com o velho Bucho a correr de uma mesa para outra, bamboleando o grande e mole abdome (que justificava o apelido). A limpar, a todo instante, as entradas da fronte (ainda não era calvo) de um farto suor, resultante este do grande trabalho que o movimento da casa estava a exigir dele. Enquanto, no palco improvisado, através de um sistema de som (do tempo em que a casa oferecia seresta), Moleza ia dando o recado. De raro em raro, sacando uma pedra que não tinha nada a ver, mas só... para não dar na vista. A seu lado, à contemplação de todos, e envolto em papel celofane vermelho, achava-se o assado e por suposto bem temperado peru.
De olho no prêmio, a trinca marcava o cartão. Sob a copa da castanholeira, numa mesa já abarrotada de cascos da cerveja consumida. E, ainda, a fazer gracinhas do tipo:
- Balança o saco, pô.
- Ei, esse não...
E riam-se dos chistes proferidos. Até que souberam de um fato pouco animador: o Amiltão recém se mandara depois de embolsar o apurado com a venda dos cartões. O estipêndio da Amiltão Divulgadora, deixara recibo. E, agora, Armandinho, Honorato e Claudionor? Na pindaíba em que se achavam, era tentar junto ao velho Bucho a "pendura" de mais uma cervejada - mas, isso, só depois. Porque o cartão, que estava prestes a ser batido, iria certamente lhes dar ensejo a uma grande "deglu-glutição".
Era apenas o Moleza pegar a última pedra fria, e pronto! Mas, diabos, lá estava ele a sacar toda uma sequência de números que não constavam do cartão. E, ainda, a desperdiçar o tempo com derivações: "22, dois patinhos na lagoa... 1, ronco do porco... 33, idade de Cristo... 90, nas ventas... 44, quaquaquá..." Tudo bem que se quebre a monotonia do sorteio, mas desafiar a Termodinâmica, com suas leis implacáveis, é que não! E, como exemplar lição, ofereça-se à vista de todos o caso vertente, em cujo final se deu a" melódia". Assim que o Moleza gritou: "18, dos outros..."
Bateu o cartão J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O CETRO

Há muito tempo, quando a China não era um só país, uma de suas províncias era governada por um rei muito estimado por seu povo. Chamava-se Liang, rei da província de Liang-Ming. De seu trono de fino lavor, ele atendia incansavelmente aos súditos que o procuravam. A uns, dando sábios conselhos, a outros, aplicando a justiça salomônica (mutatis mutandis), e a todos, enfim, parcelando o imposto a pagar. Nesses múltiplos misteres, era o rei auxiliado por seu grão-ministro Hie-Na.
Abra-se um parêntese para descrever o grão-ministro. Hie-Na não chegara ao alto mandarinato assim por acaso. Em criança, fora companheiro de folguedos de Liang. Depois, graças aos anos em que viveu na Índia, havia reunido uma enorme bagagem de truques engenhosos (considerados por Liang como genéricos dos milagres). E foi por conta desse acervo que Hie-Na chegou a grão-ministro. Cansado já estava o Filho do Céu de ser acusado de milagres em vão prometidos. De modo que, ao fazer de Hie-Na um dignitário, este é que se encarregaria da mistificação. E feche-se a descrição do grão-ministro com outro parêntese.
Em seus aparecimentos públicos o rei não se apartava do cetro, o símbolo de seu poder. Era um cetro que remontava ao fundador de sua dinastia e quem o empunhasse detinha o poder temporal. Somente quando a morte lhe fechasse os olhos é que de suas mãos deveria o bastão real sair. Para as mãos do príncipe herdeiro, evidentemente. E assim a sua dinastia continuaria a varar os séculos. Sucede, porém, que certa noite o rei Liang teve um sonho mau. Assim considerado porque viu ele, naquele sonho, o cetro na mão do rei de uma província vizinha.
Aquele soba! No resto da noite, o rei não conseguiu mais dormir. E, mal o dia amanheceu, ele fez vir à sua presença o seu fiel grão-ministro, de cuja boca tantos conselhos sábios já tinham brotado. Pois bem, germinou mais este (da boca) do grão. O rei, sugeriu ele, deveria partir o cetro em dois para governar apenas com a metade. Quanto à outra metade, guardaria ele, grão-ministro, em local que usurpador nenhum pudesse alcançar. Uma espécie de proteção contra aquele tipo de gente que bota as unhas de fora quando um rei se acha velho e desdentado.
E o rei passou a reinar com meio cetro à vista de todos, mas sabendo todos da existência da outra metade em local patrulhado por dragão. Até que ele teve outro sonho mau. Como na vez anterior, pela manhã ele chamou o grão-ministro aos aposentos reais. E este tornou a sugerir que partisse o meio cetro em dois novos pedaços. O rei Liang reinaria, daí para frente, com um quarto do bastão e ele, grão-ministro, se encarregaria da guarda dos três quartos restantes. Um tamanho mais que suficiente, Vossa Majestade, para o povo saber quem está a governá-lo.
E o tempo foi passando... com o rei outras vezes visitado por seu pesadelo. Até restar em sua mão, muitas partições após, somente uma pequena lasca do cetro. Enquanto isso, colecionava o grão-ministro os pedaços do cetro realmente dito, num local que nem o dragão mais sabia. E já se riam muitos súditos. De início, às escondidas, mas depois, em plena cara real. Que Liang interpretava como sendo risos dirigidos ao bobo da corte. Por suas mal sucedidas tentativas de tirar música soprando num pedaço da flauta de bambu.
Ah!, a história essa roda mendaz... Um dia, ao voltar de uma caçada, o rei teve uma baita surpresa. Ele encontrou o grão-ministro refestelando-se em seu trono de fino lavor e... empunhando o seu cetro. É que Hie-Na, aproveitando-se da ausência do rei, passara da idéia longamente astuciada à ação. E colara à resina os vários fragmentos do cetro em seu poder, de modo a refazê-lo completamente. Ou quase... mas com uma diferença que ninguém notava. Então, disseram todos: Viva Hie-Na, o fundador da nova dinastia!
Ao rei destituído (para quem a roda mendaz girou para trás) restou o caminho do exílio e olhe lá.
Moral da história
Se queres conhecer o vilão, põe-lhe uma vara na mão. Ou um cetro.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A ENTREVISTA DO BOI

A propósito de uma festa popular que, uma vez ao ano, acontece em 22 localidades do litoral catarinense, motivei-me a entrevistar o seu principal personagem, o boi. A Semana Santa já havia transcorrido e, nessa altura do calendário religioso, não mais ia ser fácil achar o propalado personagem. Pelo fato de ele já se encontrar reduzido a um montão de ossos. Então, apelei para uns amigos do Pantanal, um bairro de Florianópolis onde há um "repeteco" da farra do boi. Mais: fazem isto todo fim de semana. E eles, prestimosos, puseram o boi na linha (telefônica, graças a Deus).
Dou nome ao boi: Tatá. Dele ainda arranquei (epa!) outros dados individuais: idade (5 anos, mas não publique isto); raça (guzerá, melhor que anote bovina); religião (budismo mitigado); e passatempo (todos, menos este). Em seguida, a entrevista.

- Já estando escolhido para ser a figura central de uma festa popular, como você se sente?
- Encurralado. Antes me botassem numa tourada ou numa das vaquejadas que vocês fazem aí no Nordeste. Assim, eu não teria uma morte tão humilhante.
- Sente-se, então, como um peru no Natal?
- Sim, guardadas as proporções.
- E... não existe uma maneira de escapar da tortura e da morte que os farristas lhe reservam?
- Só existe uma, bem amaneirada. Transformar-me em boi voador.
- É, mas asinha o prenderiam. Com base numa lei que “manda prender esse boi, seja esse boi o que for”.
- Chicanice.
- Bem, na qualidade de animal totêmico, segundo a antropologia...
- Ora, vão eles amolar... o bode que tem muito mais retorno.
- Porém, há uma corrente de intelectuais que defende a farra. Partindo do princípio de que ela é uma tradição.
- Tudo bem, se eu estivesse no bumba-meu-boi. Mas avise antes... esses zoófobos senhores de que me aguarda o martírio.
- E as autoridades locais nunca tomam uma providência?
- Ah, só têm empurrado o problema com a barriga... verde, aliás. Na ingênua esperança de que os farristas, com o passar dos tempos, abrandem a violência.
- Há rumores de que governador Pedro Ivo acha-se disposto a pegar o boi pelos chifres...
- Epa! Até ele?!
- Quero dizer, o seu governador está a fim de enfrentar o problema para resolvê-lo de uma vez por todas. Nem que tenha de usar a polícia. Que você acha, então?
- Aplaudo-o. Agora, que ele vá conseguir pôr um paradeiro na farra, no aspecto bárbaro da farra, eu não acredito. Brigam policiais e farristas, o evento fica mais animado, mas no fim saio eu esquartejado.
- E... quanto à recente intervenção do Gabeira, do Partido Verde...
- De verde entendo eu que sou ruminante.
- Concordo. Mas o Gabeira disse que a farra é para acontecer mesmo e sem a interferência da polícia.
- Ele, um escritor de tutano, falou isso realmente?
- Não falou só por farra, pois ele se encontrava num palanque.
- “Peraí”. O Gabeira não é aquele que já comeu “carne do boi”?
- Hum... hum...
- Tá explicado agora. Porque o macho vem crepusculando tanto.
- OK, mas agora é tarde para boi... cotá-lo. Ele foi aplaudidíssimo pelos farristas que até lhe prometeram uma farra do boi sem violência.
- Para já?
- Não exatamente. Assim que todos estiverem conscientes de que a violência contra o animal...
- Ora, até lá morre o Gabeira ou o boi. Como não me chamo Ápis nem moro no Egito...
- Já sei. Você acha que morre primeiro.
- Adivinhão. Agora conta outra para eu dormir

quinta-feira, 9 de julho de 2009

NO VELÓRIO, SÓ FINÓRIO

"Onde estiver seu tesouro,
lá deverá estar seu coração."
E. H. Carr

Eta velório para mortal nenhum botar defeito! Falo do velório pedra noventa que fizeram para o comendador Bonifrates, logo que ele bateu as velhas botas. O comendador morrera sem deixar mulher e filhos, mas parentes até do enésimo grau, criaturas dos desvãos do mundo, acorreram em grande número para chorar o seu passamento. Aqui, uma mulher gritava de cortar coração, ali, um homem todo compungido soluçava de dor e, acolá, outra mulher ensopava de lágrimas o ombro alheio. Conjuntivites à parte, as lágrimas rolavam aos borbotões no imperdível velório.
O falecido era o assunto de todas as rodas. E, para assanhar a cupidez geral, os papos iam bater na fortuna que ele presumivelmente deixara. Houve alguém que até estimou o montante de cobres economizados por Bonifrates, à custa de correr atrás dos bondes mas sem pegá-los. Fiu, dentro do espírito de tostão poupado, tostão ganho, só isso já dava uma dinheirama (imaginem o que ganhara de outros modos). Mas aí, surgiu um outro para assegurar que o salto quantitativo na fortuna do comendador se dera justamente quando ele abandonara aquela prática. Para então (epa!) se dedicar a correr na cola dos táxis da cidade, um hábito bem mais rentável.
Pois é, Bonifrates era um gigante da avareza, desses que a gente reconhece pelo dedo. Dedo com unha-de-fome. E, se já para o fim de uma vida de esganação, dele filaram um que outro óbolo para as obras de Santa Engrácia, ora, isso não empanava quase a fama de pão-duro. Ah, o coração mole e dilatado, por vezes abrindo a guarda... Porém, o coração logo, logo se trancando a poder do endógeno digitálico da sovinice, que isso o tranca tinha lá de sobra. E daí, então, por muito tempo, daquela cornucópia não saía uma mísera moeda que não fosse sob a rubrica da agiotagem.
Mas... de que morrera o velho somítico? Segundo a medicina gratuita, de uma pneumonia que ele pegara nas costas. E o que é a morte, meus temerosos leitores, foi o harpagão ceifado por uma doença que a medicina hodierna trata a cascudo. A isso e mais as milhões de unidades da "bolorina" de Alexander Fleming, claro. Entretanto, para este narrador, mais que a pneumonia o que matou Bonifrates foi a sua política de contenção de despesas. Tão rígida que o fez se fiar apenas(mente) no poder curativo das sobras de um frasco de Peitoral de Angico Pelotense. Aliás, sobras que já provinham do tratamento de moléstia assemelhada num tio-avô, falecido com o frasco ainda pela metade. Xaropezinho reincidente, hê, hê...
O caixão - preto com ornatos dourados - de primeiríssima! Com o mesmo balizado por quatro espigados castiçais empunhando as tais velas de alumiar defunto. Ao pé do ataúde, coroas funerárias completavam a "decô". Quanto aos olores, eram tão ativos olores que disfarçavam os miasmas em formação. Dava gosto velar aquele corpo comendatário. Pois, a todo instante, por lá circulavam bandejas com café e vinho licoroso, tabuleiros com doces e salgadinhos... Além de haver uma sortida mesa de frios e, para os bem-espaçados do estômago, a pièce-de-résistance. Que nada faltou ao bom carpidor.
Ah, decerto não era Bonifrates quem financiava o caro funeral. Primeiro, que ele não aprovaria o desperdício, mesmo em se tratando de círio bom, defunto bom. E, segundo, que ele, por estar morto, ficara sem condições de assinar um simples cheque ao portador. De forma que podemos retirar Bonifrates do rol dos suspeitos para substituí-lo por alguns anjos que andavam pelo mundo... Que eram eles os patrocinadores das derradeiras homenagens ao comendador, de olho, porém, naquela jacente herança.
Nesse afã, os anjos não repararam num tipo franzino, de "oclinhos", que circulava por lá com certa desenvoltura. De sua mão direita, pendia uma maleta de cor preta - com que vontade agarrada! Enquanto sua outra mão corria, "pianísticamente", por sobre os tabuleiros das babas-de-moça. Era o advogado do comendador Bonifrates. Um rosto que se abria num sorriso "malúfico" de dissimulação. Porque, leitores, creiam. Naquele velório só ele sabia das extravagantes vontades do comendador, ditadas quando este se achava já nas vascas da morte. Numa carta testamentária bem guardada nos escaninhos de sua maleta.
O segredo, eu conto o segredo como foi: Bonifrates não legou um mísero cobre para ninguém. Deixem que o avarento, para a surpresa dos que conheciam o seu interesse apenas por coisas materiais, estivera nos últimos tempos a estudar o assunto da metempsicose. Indo beber da doutrina da transmigração da alma até no Livro Tibetano dos Mortos. Então, quando pressentiu que a indesejada das gentes se punha a caminho, tomou a providência. Fez-se herdeiro de si mesmo. E deu as condições para ser reconhecido na próxima reencarnação: guri com forte reflexo de preensão palmar, num berço de pau-branco carunchado etc.
É isso. Quem espera por sapatos de defunto a vida toda anda descalço. E nessa história, que acaba aqui, calçado som quem ficou foi o advogado de Bonifrates. Para ele, como paga dos serviços testamenteiros, o comendador lhe deixou umas ações bem ordinárias. da Panair do Brasil.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

OUTRA DO DR. CARTA PÁCIO

Recebo mais uma correspondência do Dr. Carta Pácio, ele desta vez preocupado com o atual sistema de licenciamento de veículos no Brasil. Dou trânsito livre à sua ideia.

"Prezado senhor:
Nestes tempos têm-se detectado um fato relacionado com o grande número de carros em circulação no país, para o qual chamo a sua atenção. A inconveniência de licenciá-los pelo atual sistema alfanumérico, que tem duas letras mais quatro números. Amiúde, veículos distintos recebem placas iguais, o que pode ocasionar transtornos a seus proprietários. Por isso, marcha-à-ré e meia se cogita em mudar o sistema ora usado para outro que corrija a falha.
Trago aqui a minha sugestão. O Departamento de Trânsito continuaria fornecendo os quatro números, os quais seriam pospostos a duas palavras adrede escolhidas. Duas palavras ao sabor da imaginação do proprietário do veículo. De modo a aumentar o número de combinações possíveis e a diminuir a probabilidade de repetição de placas por esse Brasil velho com porteira. E não fica apenas nesta vantagem o sistema que proponho. Apresenta outras, facilmente pressentidas.
Para se comunicar en passant, o motorista da cidade não mais teria de lançar mão dos adesivos de para-brisa. Nem o caminhoneiro, da filosofia de para-choque que fez a glória do Carneiro Portela. Por que já basta de "fofinho", "ando todo arranhado mas não largo a minha gata", "brahmalogia", "o Pluto é filho da pluta"... Fora com tudo isso! Em troca, veríamos chapas assim: GERAÇÃO DOURADA 5913, TÁXI LUNAR 7853, MILHAR FELIZ 1212, PRIMAVERA EMPALHADA 6723...
As placas seriam de maior tamanho, meu prezado senhor. Para prever um PERNAMBUCANO SOLITÁRIO 3171, por exemplo. Mas não chegariam ao tamanho dos outdoors, embora como estes poderiam veicular anúncios ao ar livre. Entretanto, o forte da nova chapa seria divulgar uma posição política (FORA SARNEY 2364), uma confissão (CRISTO SALVA 7291), um atributo da personalidade (FINO TRATO 8734), uma intenção (TENEBROSA TRANSAÇÃO 9541) e um estado d'alma (ALTO ASTRAL 2189) do dono do carro. E agruras para o primeiro manter o segundo circulando (SEGUNDA FAMÍLIA 3728).
E quanto "você sabe com quem está falando?" seria evitado no trânsito nervoso da cidade! Porque as placas dos carros abalroados já falariam, muitas vezes, pelos proprietários. E João não desacataria o dono do Comodoro, placa PAVIO CURTO 9960, Antônio não aplicaria rasteira no dono do Santana, chapa MESTRE BIMBA 8651, assim por diante. E seria fácil anotar a placa LEITURA DINÂMICA 4444, duma Marajó cujo dono fugiu do local do atropelamento sem prestar socorro.
Quanto aos carros oficiais, seriam estes identificados pela inclusão de sinais de pontuação em suas chapas. Como nos exemplos: NUMA BOA... 7529, E DAÍ? 3348 e DANEM-SE! 4879. Sinais que inclusive serviriam para realçar a pronta resposta da autoridade constituída diante de certas perguntas. Saiba como é, meu prezado senhor. Há sempre algum cidadão mais impertinente querendo saber onde foi parar o seu (dele) imposto.
E finalizo esta, com a citação da placa que desde já reservo para o meu carro: NADA CONSTA 0390. Que me livrará para sempre de toda multa. Uma forma de compensar o alcoolismo de um veículo que há tempos me vem combalindo as finanças.
Creia-me seu, sinceramente."
Dr. Carta Pácio

Se a sugestão em tela vai emplacar, ninguém sabe. Mas, ultimamente, noto que o Dr. Carta Pácio tem pendido para a filosofia de que "o bom bocado é também para quem o faz". E, como sempre faço nas cartas que ele me envia, ponho no rodapé desta última o meu acrescento: Sic transit gloria mundi. Querendo significar que a glória do mundo está no trânsito. Axé, Dr. Carta Pácio.
PGCS

sexta-feira, 26 de junho de 2009

PIRÂMIDES

O brasileiro, talvez por já se achar acostumado a uma pirâmide social adversa, não estranhou mais uma. Ao contrário, recebeu-a com o maior agrado possível, uma vez que esta última atendia pelo atraente nome de pirâmide... da fortuna. Aí, na qualidade de piloto, co-piloto, tripulante ou passageiro (nessa ordem de entrada), nela embarcou. Para uma viagem de alegria que se transfez em tristeza. Pois, fora o piloto que a tempo oportuno saltou de para-quedas, os demais quebraram a cara. Alguns, mais: a pirâmide nasal.
Que coisa! É pirâmide, mas tem piloto, co-piloto, tripulante e passageiro - como um avião de carreira. Isto, aliás, demonstra um certo hibridismo como o que se vê na Esfinge. Aquele ser fantástico, meio-leão e meio-homem, que os egípcios esculpiram na rocha, em Gizé. Ali, ali, perto das Grandes Pirâmides, que serviram de cenário para uma frase célebre de Napoleão. Ao proferi-la estaria o general eufórico com alguma posição de piloto recém-conquistada? Bem, só feito militar não devia ser.
À la fé que Napoleão estava a ganhar algum, embora os livros de História digam coisas diferentes. "A História é algo que não aconteceu, escrito por quem não estava lá." Que me perdoe o pessoal do ramo. Mas, voltando à pirâmide: nos dias atuais, ela não mais transmite a impressão de ser um poliedro estável; anda ruindo fácil, fácil por aí... a julgar pela quantidade de piramideiros soterrados. Por isso, já tem gente pensando em ressuscitar o "ai da base", uma gíria arcaica.
Embora pareça um consórcio financeiro, a pirâmide da fortuna é o sucedâneo da antiga corrente da felicidade. Uma carta de conteúdo supersticioso ou místico que alguém recebia de um remetente "mui amigo" e tinha de transcrevê-la em vinte cópias. Estas, por sua vez, deviam ser enviadas para mais vinte pessoas, assim por diante. E isso, meu caro leitor, no tempo em que não havia a fotocopiadora da esquina. Para aumentar as dificuldades, tampouco os selos eram pagos por Fernando Chinaglia.
Ai de quem quebrasse uma dessas correntes! Dando veracidade ao seu conteúdo, desgraças tantas sucederiam ao irresponsável que ele, para se ver livre delas, buscaria até pistolão. Topando inclusive a hipótese descer mais cedo às geenas. Ilustro a descrição da paranóia reinante com o que escreveu R. Schneider: "Se você é um desses loucos (que quebram a corrente), o melhor é jogar logo toda a correspondência fora, sem nem mesmo ler. Afinal são muito reduzidas as suas chances de se servir dela, seja para o que for". Quer dizer, antes ser um desinformado postal do que um apragatado, combalido e tal.
Por isso, de próprio punho, cada pessoa fazia vinte cópias da carta - uma vintena a ser remetida para vinte apavorados destinatários. E esse número ainda podia ser maior, conforme o grau de sadismo do idealizador da primeira carta. Como se tratava de uma progressão geométrica, dentro de pouco tempo, toda a cidade acabava "acorrentada". E, o que não relaxava na corrente, ainda segundo R. Schneider, era contemplado pela "indescritível sensação de ter enchido o saco de milhares e milhares de pessoas, que iriam ficar completamente desequilibradas até que conseguissem passar à frente, por sua vez, o maldito petardo".
Outra vez, às pirâmides! O leitor já deve ter lido alhures, ou ouvido falar, sobre uma estranha energia que elas concentram. A ponto de uma pirâmide poder recarregar as baterias de quem sob ela se coloque. Sei não, mas pelas últimas que foram vistas, as pirâmides apenas têm abalado a saúde - financeira - de muita gente. E, quanto à febre que aparece no piramideiro, veja também o que diz o vademecum ( o vai comigo): desaparece em lise, não precisando do antitérmico piramido.
E agora a lei, com seu faro de dobermann, está aí à cata dos piramideiros. Pirâmide também é crime de estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal. Dá multa mais prisão. E a lei, com seu braço de estivador, procura um piloto contraventor; porém, na dificuldade de localizá-lo, um passageiro contraventor igualmente serve. Atenção, senhor passageiro, habilite-se. Pois aí está uma proposta... piramidal.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

PLIM, PLIM

Minha opção
Pelo joio que não recebe subsídio.
Batávica
O comandante de um navio prestes a afundar não abandona... o escaler.
Bigamia ou monogamia?
Bem, eu fico com a segunda.
Uma comparação
Como o velho queijo que acaba fondue.
Ssst, que a serpente
Desde o Paraíso que ela só silva. Para não apontar o mandante do crime.
Um conselho revisitado
Em vez de dar o peixe deve-se ensina o homem a pescar. Financiando-lhe a vara, o molinete, a linha, o anzol, a isca... Ufa!
Um tipo de pobre
O "classe-média" depois de pagar o imposto de renda.
Explicitinha
O desejo do convexo é o que o côncavo fique mais... E vice-versa.
E Reagan continua desbastando o nariz
Para ver se fica bom da síndrome de Pinóquio.
Se é teatro besteirol
Compre seu ingresso para a bobageral.
Pára-quedismo?
Eu nunca tentei, meu irmão. Não tenho queda.
Ah, tudo seria mais fácil...
Se houvesse a luz já no início do túnel.
Eu te amo-a
A frase que foi dita a Maria Rosa por quem pensava em Rosa Maria.
Outra comparação
De olhos bem arregalados feito um morcego ruim do radar.
Poltergeist, meu televisor
Quando entro na sala ele joga em mim o controle-remoto.
Receita de cocada à CNEN
Rale um coco até a desintegração atômica. Amém.
O milagre da multiplicação
Onde metade comeu sanduíche de peixe e metade, peixe empanado.
A lealdade segundo Sarney
Presidencialismo, cinco anos e bigodes.
Escreve, escreve, escreve
Mas antes lembra que Sócrates e Cristo não eram chegados ao ato de escrever.
"Todas as horas ferem, a última mata"
É também o lema da bomba-relógio.
Das quitações
Paga o bem com o bem, o mal, com o troco.
Ombro amigo
Ah, certamente não sofria de bursite quem criou a tal expressão!
E desista, Brasil
Que você não tem cintura para o bambolê. Ou vai querer que o arco escorregue até o Rio Grande do Sul?

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A PROPOSTA DO DR. CARTA PÁCIO

Todos os dias recebo cartas de pessoas que me escrevem com os mais diversos pretextos. Leio-as e depois as destruo em meu moedor de carne que já conheceu tempos de abastança. Entretanto, guardei uma das que chegaram nos últimos tempos por sua singularidade:
"Prezado senhor:
O que proponho nessas linhas vem a ser uma verdadeira revolução na literatura universal. Porque estou certo de que toda obra literária, mesmo no fastígio da glória, ela tão-somente aspira à simplicidade da anedota. E não estou a falar apenas da que se filia ao gênero picaresco, cujo anseio parece óbvio. Constato que todo obra literária deseja é se resolver logo, através do discurso direto, curto e objetivo. Ao invés de devanear por aí porque o autor assim estabeleceu. Ainda mais que os tempos de hoje (em que a pressa é a tônica) estão a exigir um enredo sem volteios, onde o leitor chegue asinha ao final. E possa depois dizer que leu o livro tal... (ai!) num tapa.
Para começo de conversa, acolhendo o que proponho o escritor ganharia tempo. Ao escrever romance, novela ou conto bastar-lhe-ia compor início e final. Nada de meio! Esse enchimento de linguiça em que o escritor supostamente põe o talento. E para que essa coisa execrável separando o escritor do escrevedor? Só serve para discriminar, criar párias na arte literária. Portanto, abaixo o talento que sabe a prolixidade.
E viva a sinopse! Uma comissão de lacônicos poderia muito bem reescrever os clássicos. Eis como ficaria, por exemplo, o "Dom Quixote de la Mancha": Era um vez um fidalgo idealista que, com a mente excitada pelas façanhas dos herois dos livros de cavalaria, se dispõe a correr mundo para desfazer erros e vingar agravos. Alto, magro, beirando os cinquent'anos, para fazer com que a Mancha, sua terra natal, também participasse da glória que iria adquirir, adota o altissonante nome de Dom Quixote de la Mancha. Em suas aventuras, acompanha-o o gordo Sancho, seu fiel escudeiro, a quem o fidalgo prometera a posse de bens materiais que resultassem de suas andanças. Mas dão os dois com o cavalo e o burro na água, respectivamente. E a história termina com Dom Quixote recuperando a razão, em seu leito de morte, e com Sancho pouco recompensado por tão morosa empreitada.
Dirão uns que a obra revisitada fica sensaborona. Entretanto, pior é perdermos tempo lendo romance de autor russo. Prolixo, não! Apenas porque o seu editor pagava por página escrita. Viremos, pois, essa página. Já se foi a época em que o escritor dava ao lume uma obra maçuda (e maçante) só para impressionar, mostrar que tinha fôlego, por aí... Agora, economizar é preciso. E nos sobrará tempo para ler livros e mais livros, naturalmente reescritos.
E o que se economizaria de papel. Um ganho ecológico, por sinal, já que o papel é fabricado a partir da celulose e esta provém de florestas arrasadas. O que é a ironia, prezado senhor. Cada vez que o Partido Verde faz circular um manifesto, ele, por baixo, pôs abaixo umas tantas criaturas vegetais. E aqui aproveito para sugerir que as crianças usem mais o megafone.
Felizmente, ficou para trás o estilo barroco. O sujeito escrever, com aquela tola riqueza de ornatos, uma estrofe inteira para nomear o galo! Mas, ainda há muito o que mudar. Dá na vista que continuamos nós, escritores, mal colocados quando alguém sentencia que um desenho vale mil palavras. Não passamos de uns verborrágicos, meu senhor, e nos esvaímos na mais reles verborragia desatada. Digamos numa palavra aquilo que o pintor só possa expressar em mil pinceladas. E teremos aprendido a lição de Ezra Pound, em seu "ABC da Literatura" (Cultrix, 218 páginas). Oh, perdão...
Precisamos emagrecer o estilo. De modo a reaproximá-lo do seu original sentido de ponteiro (de osso ou metal), com que se escrevia sobre a camada de cera das tábulas. E, de quebra, facilitaríamos a edição, o transporte, a distribuição e o manuseio dos livros, pouco importando suas quantidades. Também resolveríamos o crônico problema da falta de espaço nas bibliotecas. Toda a obra infanto-juvenil de Jules Verne num único livro de bolso... não parece até ficção?! Asseguro inclusive que a microfilmagem não ousaria tanto em termo de redução.
Na nova ordem literária pouca gente sairia perdendo. O prefaciador, que seria desmontado do dorso alheio (não se tolerando que ele voltasse como posfaciador), e... ah, Xerazade! Eu falo da sultana Xerazade que, todas as noites, contava uma história cheia de peripécias para o sultão Xaryar, seu marido. E, com tal artimanha, ia adiando a morte já decretada pelo marido, que não era besta de perder o entretenimento. Não, eu não me apiedo de Xerazade. Mesmo porque um dia, aliás, uma noite a sua imaginação iria mesmo bater pino.
E, finalmente, peço desculpa pelo muito que se alongou a carta. Em minha proposta, prezado senhor, a epistolografia constitui a exceção.
Esperando uma resposta favorável, creia-me seu sinceramente
Dr. Carta Pácio."

Não respondi. E guardei a carta com este acrescento: "Escrever numa folha de papel em branco é uma forma de perturbar-lhe o silêncio (Samuel Beckett)".
PGCS

sexta-feira, 29 de maio de 2009

GATO, TIJOLO & FAMÍLIA

Certa vez, atinou Monteiro Lobato com a grande quantidade de conceitos e definições que existiam para o humor. Uns pretensiosos, outros científicos, ao fim das contas, muitos. O que lembrava a superabundância de remédios para a tosse, com a mesma limitação de que nenhum realmente servia. Para Lobato, a tosse e o humor apresentavam circunstâncias causadoras vagamente compreendidas. Daí o duplo fracasso: dos xaropes "peitoraes" (para quem se fiava nos reclamos) e dos conceitos, definições e que tais sobre o humor.
No que se refere à tosse, registra-se, porém, a nítida melhora do quadro. A partir do muito que se tem investigado sobre as causações dela. E, assim, a medicina já mostra, nos últimos tempos, apreciáveis avanços no sentido de debelar o incômodo sintoma. Máxime, quando consegue curar a doença que ocasiona a tosse. Quem já teve, por exemplo, uma bronquite na qual o rir é substituído pelo tossir, é que sabe valorizar essa conquista da medicina. E pensar, ilustre passageiro, que tudo começou com o Rhum Creosotado...
Mas, voltemos ao escritor paulista. Inconformado com a existência de uma definição - realmente satisfatória - para a questão do humor, que fez ele? Formulou uma, inteiramente pessoal, valendo-se do chamado método peripatético. Trocando em miúdos, aliás, porque estava sem eles, Lobato dispensou o ônibus habitual. E pôs-se a andar, andar, andar... enquanto matutava. Assim foi que, ao cabo de 6.201 passos, chegou a esta genial (porque simples) noção. "Humor é a maneira imprevisível, certa e filosófica de ver as coisas." Repare que cada adjetivo qualificador custou 2.067 passos, o rendimento do método.
Ele, melhor que Taine, Bergson e Freud, autores de ensaios clássicos sobre o assunto, foi quem solveu o problema conceitual do humor. E fê-lo numa linguagem clara, objetiva e derradeira, dando quinau nos espíritos sedentários (adeptos já naquela época do vale-transporte). Acredito mesmo que a concepção lobateana para o humor possa ser ilustrada por uma velhíssima anedota. Aquela sobre a diferença entre o gato, o tijolo e a família, cuja resposta consiste em atirar os dois primeiros numa parede. Pois "o que miar será o gato".
Embora pareça "jequíssima" a piada, ela contém os três princípios fundamentais de Lobato. Senão, vejamos:
É imprevisível. No pressuposto de que o leitor não soubesse a resposta, como procederia então? Inicialmente, no terreno do previsível, tentando identificar nos seres em questão a diferença. Aliás, as diferenças já que são muitas - o que também só faz complicar. O gato pertence ao reino animal, o tijolo, ao reino mineral. O gato recebe o nome científico de Felis cattus domesticus, já o tijolo tem o nome oriundo do espanhol tejuelo. Ou, ainda: este é fabricado pelo homem, enquanto aquele é o resultado do esforço gemebundo da espécie na noite dos tempos (apud Darwin). Etc. Ao fim da discussão, só o humor oferecerá a resposta imprevisível, isto é, a que não guardará qualquer associação lógica com a pergunta.
É certa. Fosse a resposta "o que voar será o gato", não haveria anedota alguma. Uma piada incide no exagero, na hipérbole, mas nunca na mentira. Ela não é assunto para um gato-de-botas. Em sendo uma maneira certa de ver, a piada pode ser comprovada na prática inclusive. No caso vertente: jogando o gato e o tijolo na parede, mas o que, convenhamos, não fica bem. Que eu saiba, não estou a falar para um fedelho em traje marinheiro, mal-comportado e com a ideia fixa de impingir maus-tratos a um bichano. Quer dizer, fazer dele gato, sapato e tamborim. O Lobato tá certo.
É filosófica. Pelo conselho pragmático que dá, ao mesmo tempo em que ajuda o aconselhado a compreender a realidade que o cerca. É o tipo do conhecimento que um dia poupará o leitor do vexame de comprar gato por tijolo. Gato (à exceção do importado que fala meow) é dado grátis na unidade, tijolo é vendido no milheiro. E que também poupará o leitor da atribuição de comer gato por lebre. Gato... Epa! Receio haver descambado para uma filosofice que não leva a nada. Puro engatinhar mental. Além do mais, cansei.
Quanto à família, vai muito bem, graças a Deus.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

E VIU QUE ISTO ERA BOM

  1. No princípio o Prefeito criou o Plano de Metas da Prefeitura. E disse: exista o Erário. E o Erário existiu. E da dotação orçamentária separou uma polpuda parte para que desfrutasse de salário, representação e mordomias. E viu que isto era bom.
  2. Disse também o Prefeito: O principal problema da cidade é o abastecimento de água. E abriu uma concorrência para a construção de uma adutora, uma estação de tratamento e uma rede de distribuição para o precioso líquido; além de chafarizes para os bairros mais distantes. A concorrência foi ganha por uma firma de engenharia de um cunhado seu. E viu que isto era bom.
  3. Disse também o Prefeito: Abram novas avenidas asfaltadas e arborizadas. E, numa atitude de homem devotado à causa pública, consentiu que as avenidas atravessassem uns terrenos seus até então pouco valorizados. E viu que isto era bom.
  4. Disse também o Prefeito: Sejam atendidos os pedidos de iluminação pública. E surgiram quarteirões bem iluminados de acordo com os reclamos dos vereadores de seu partido: verdadeiras ilhas de feérica iluminação no oceano de breu da oposição. E viu que isto era bom.
  5. Disse também o Prefeito: Seja feito o zoológico da cidade. E deu incumbência a seu filho mais velho para que organizasse o referido parque. Houve a injeção de fartos recursos financeiros e a cidade passou a ter o seu zoológico. O único do mundo com os animais exclusivamente em pôsteres. E viu que isto era bom.
  6. Disse também o Prefeito: Façamos as assessorias. E foram feitas, cresceram e multiplicaram-se em cargos de confiança de modo a garantir a seu esquema político uma poderosa máquina eleitoreira. E viu que todas as coisas que tinha feito eram boas.
  7. Assim, acabada a sua gestão, o Prefeito descansou. Certificando-se antes da magnitude da aposentadoria que a Câmara Municipal lhe votou e de que todos os seus parentes e apadrinhados estivessem aquinhoados com bons empregos.
Inspirado no Gênesis (1,1-2,3). Publicado no "Arsenal de Literatura" com o título de O PREFEITO CONTRA A CIDADE.

sábado, 23 de maio de 2009

ARSENAL DE LITERATURA

Faço uma breve pausa no Preblog das publicações de minhas colaborações literárias no DN - CULTURA para dar uma informação.
Encontrei casualmente na internet um documento intitulado Catálogo da Imprensa Alternativa (em arquivo PDF, com 183 páginas), originário da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, com verbetes sobre um grande número de periódicos alternativos no Brasil.
Dentre as publicações que o catálogo relaciona, encontra-se em sua página 14 o nome do "Arsenal de Literatura", uma revista que foi editada aqui no Ceará. Participei, em novembro de 1980, de seu projeto inicial (com o texto O PREFEITO CONTRA A CIDADE). Após o que eu não sei se a revista chegou a ter outros números.

sábado, 16 de maio de 2009

NUVENS

Em pequenino eu achava que os santos moravam nas nuvens. Cada santo em sua nuvem, conforme a importância. Se o santo era proeminente, a nuvem idem, de modo a traduzir o seu prestígio. Até chegar ao humílimo santo na humilíssima nuvem. Em outras palavras, esse mundo velho sem porteira, mundo cheio de desigualdades sociais, tinha o seu "repeteco" lá nos páramos, achava eu. Nos dias de hoje, chamo isso de visão antropomórfica dos seres celestiais. Ah!, mas eu punha os santos nas nuvens, conquanto não fossem elas negras!... As nuvens negras, esclareço aqui, eram só para os santos mutuários do Banco da Nublada Habitação. De santinho-do-pau-oco para baixo.
Um que destoava era São Jorge. No mister de aporrinhar o dragão, o santo inglês morava no local de trabalho. Na Lua, dindinha Lua. Desanuviado por convicção, o santo pelejador ainda mora lá. Fosse nefelibata, a sua inseparável lança teria virado um para-raios. Mas, raios! Por que santo (afora São Jorge), depois de uma existência terrena agoniada, escolhe ir morar numa nuvem a um pulo daqui? E por que, cargas d'água (ô expressãozinha apropriada!), após sofrer o diabo nas mãos dos dioclecianos da vida, santo resolve ir morar numa nuvem a um tiro de canhão daqui? Quando há os anéis de Saturno...
Eram perguntas da mente infantil jamais respondidas. E viver nas nuviosas fofuras... para santo tinha lá suas vantagens. Primeiro, não havia a monotonia da paisagem; segundo... Espere aí, a monotonia da paisagem talvez seja melhor do que esse eterna-metragem sensaborão. Da Terra para santo ver. Aliás, desde as famosas estripulias do Barão Vermelho que morar nas nuvens só apresenta desvantagens. O avião supersônico, o canhão a laser, o satélite "xeretão" e agora essa mania salobra da nucleação artificial. Eta costumezinho bobo! Como era antes: dia da faxina, a santarada em mutirão, São Pedro ao comando... "Hora de esgotar, pessoal!" E a chuva benfazeja caía sobre as plantações.
Quantas vezes eu me recostei na relva para apreciar o pleomórfico espetáculo! Sopradas pelo artífice vento, as nuvens a formarem enxundiosas figuras de animais! A anta, o rinoceronte, o urso, a ovelha... Ganhava de longe a ovelha. Aliás, o lanífero animal mais parecia - ainda parece - uma nuvenzinha que baixou à Terra. E eu via no céu outros animais também feitos do algodonoso material, mas isso em pequenino. Hoje, quando penso que Magalhães Pinto vislumbrou nelas a política, estraga tudo. "A política é como a nuvem; olha-se outra vez e já mudou." Pois bem, foi depois dessa comparação que Magalhães Pinto adotou o guarda-chuva, talvez receiando alguma nuvem derramadeira. O guarda-chuva. Para proteger a careca e a casa bancária. Sub umbra alarum tuarum protege me.
Nas histórias em quadrinhos um tipo de nuvem é bastante comum. Observada do chão, ela se confunde com as demais nuvens distribuídas à sua volta. Porém, ela oculta o covil de um astucioso vilão - é uma nuvem artificial. De onde ele, através de uma avançada parafernália, espreita a Terra para cometer suas vilanias. Só que o vilão, no final, entra em trombas (d'água), sempre. Aliás, quase sempre. Não esqueçamos o guerreiro poderoso que, depois de saciado na bendita Geni, partiu incólume em seu zepelim prateado. Numa nuvem fria...
Agora, o leitor atente para estes versos:
"Abraço a Juno ou, louco, abraço aquela
Nuvem de ouro ilusória e vagabunda?!...
Minha ventura, ó céus, é tão profunda,
Tão larga e tanto que eu duvido dela!"
Pertencem ao soneto "Íxion", de Raimundo Corrêa. Reza a lenda que Íxion, rei dos lápitas, fora admitido no convívio de Júpiter e de sua esposa, a deusa Juno. Ultrapassando os limites da conveniência, Íxion fica perdidamente apaixonado pela deusa. Avisado da corte desrespeitosa do rei dos lápitas, e também para pô-lo à prova, Júpiter produz uma nuvem dourada, com a forma de Juno, e a coloca junto dele. O louco apaixonado corre a abraçá-la, mas o ciumento Júpiter, com o seu poder divino, o precipita no inferno aos cuidados das Fúrias. Na mansão dos mortos, o pobre Íxion é amarrado com serpentes a uma roda de fogo, a qual nuca cessa de girar, girar, girar...
Moral da história
Quando a nuvem é dourada o melhor é deixá-la passar. Em branca nuvem mesmo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

COMO EU VEJO

A sociedade
Dá ênfase aos valores perversos. Por exemplo, valoriza o diploma da pessoa quando o mais importante deveria ser a moldura do mesmo.
O amor platônico
Frio e distante. Como se fosse plutônico.
O feminismo
Um senhor movimento.
As pessoas em geral
Elas deveriam se despojar de tantos e inúteis envoltórios. Olhai os sabonetes do motel.
A maioria silenciosa
Só abre a boca para dizer amém - e amém por gestos, para tudo ficar "nos conformes".
A política 
É a convivência dos contrários ou o contrário das convivências, sei lá.
A monarquia
Olhe, meu súdito. Se for para acabar com as reinações da república...
O diálogo americano-soviético
No x Nyet. No x Nyet. No x Nyet.
A violência urbana
Na escalada em que vai, o estupro caminha para ser um ato de cordialidade.
A Terra
Apesar de chover dentro e da umidade que apresenta em certos locais (na Atlântida, por exemplo) ainda é um bom lugar para se morar. Não sei de ninguém na Terra que, em gozo das faculdades mentais, tenha dado o seu quarto-e-sala de entrada na compra de um apartamento novo em Vênus.
O "milagre brasileiro"
Vínhamos a classe média fazendo um animado piquenique. Que foi a pique por falta de níquel.
Os escândalos
São a mola propulsora do sucesso. Outro escândalo!
A fé
Removendo montanhas... em parceria com os terremotos.
O diabo
Nem só de amassar pão ele vive.
O Brasil
É o país das obras faraônicas. Mais uma vez o Egito se curva...
O alinhamento automático
É boçal todo aquele que se alinha automaticamente seja lá com o que for. Alinhamento é para pneus.
Os bons tempos d'antanho
Como era com fundos o meu cheque!
A realidade
Banal. Aí me embanano todo.
A paisagem atual
Montanhas de promissórias, rios de iliquidez e vales... de vales, ora bolas!
A vida, a morte
Para viver estou aqui, para morrer estou nenhures.
O bem
A ser exercitado. Deus tem o número do meu telefone.

domingo, 3 de maio de 2009

SALVE A INFLAÇÃO BRASILEIRA!

"Em casa que tem inflação 
todos brigam e ninguém tem razão." 
Provérbio modificado

A verdade é que tratamos mal a inflação. No pressuposto de que ela é a causa de todos os nossos males, inclusive os que vivem malocados, e lhe descemos a ripa sem contemplação. A inflação enquanto bode expiatório. Enquanto isso, na escolha do atual sumo bode da expiação, os brasileiros estamos de novo sendo incompetentes. Em não reparando na grossa blindagem dele. E quanto mais lanhamos o bode, mais ele come das nossa hortaliças. A ponto de nos esquecermos até da velha saúva de guerra. A saúva, quem diria...
Volta e meia, os economistas trancafiam a inflação num secreto porão do Planalto. E tome pancada, choque, pau-de-arara, leito de Procusto (ou será de pró-custo?) ao som de umas horríveis lambadas do Pará. Finda a sessão, em que estado pensam vocês se achar a inflação? Estropiada, com um dígito a menos? Caindo pelas tablitas? Nada disso. Ela se encontra tinindo nos cascos, se como a houvessem tratado a pó do guaraná (legítimo). Numa palavra, rejuvenescida. Em condições de enfrentar o senhor ministro da Fazenda e do Brinquedo.
O senhor ministro da Fazenda e do Brinquedo, que já tem caçado muito urso no invernadouro, tem lá sua estratégia. Põe a inflação a hibernar. Mas, é bom que se recapitule aqui a fisiologia de um ser que hiberna. Primeiro, ele come feito um danado para estocar gordura. Segundo, hiberna. Terceiro, ele desperta com uma fome descomunal. Fome ortodoxa, saiam da frente (se isto for possível). E, o que é pior, pega o país bem no rigor da entressafra.
O exemplo da Bolívia. Santa Rita da Cochabamba, como eles estão! Mastigando coca a mil, estão desentocando uma inflação de 24 mil... por cento! Não é à-toa que o país irmão é hoje considerado um celeiro de técnicos na luta antiinflação. Ora, um que outro bem que poderia prestar socorro ao Brasil. Mas, por motivo de segurança nacional (da Bolívia), nenhum deles pode ser liberado. Um só boliviano que largue o cabo-de-guerra, a inflação recupera terreno e ganha o jogo.
Em geral o assalariado e a inflação são inimigos naturais. Por isso, é comum o primeiro reclamar:
- Diacho, você me deixou nu com a mão no bolso.
E o segundo ripostar:
- Que bom! Você ainda tem um bolso...
Vai daí, arma-se uma tremenda confusão que termina com o assalariado... nu com a mão no bolso. Ad infinitum.
E também existe uma teoria de que a inflação brasileira está só fazendo musculação, criando marra. Para ir lá fora dar um pau na dívida externa. Se isto se confirmar, meu Deus, a inflação entrará para o panteão dos heróis nacionais. Terá efígie numa cédula de muitos zeros à direita, mas que pouca alegria dará ao portador. E aprendam isto: que uma inflação não abandona nunca seus mais caros princípios.
Por essa e outras é que a inflação deve ser bem tratada pelos brasileiros. Acarinhada inclusive. Só assim ela não vai chamar a hiperinflação, a mãezinha dela.

domingo, 19 de abril de 2009

O PACTO

Num albergue postado no caminho de Málaga achavam-se dois cavaleiros andantes. Era sexta-feira, dia em que os paladinos não andavam à cata de aventuras, porque nesse dia da semana descansavam os mouros. Sem mouros com que pelejar, não havia muito o que fazer. Só pernas pro ar, que de ferro já bastava a armadura de cada um.
Damiano e Cosmião chamavam-se. Formavam uma dupla inseparável, na base do "só-vou-à-liça-se-você-for" (mesmo porque o rocim era único). Batendo-se contra o inimigo comum, Damiano se expunha para proteger Cosmião; este, por sua vez, não ficava atrás e fazia o mesmo com relação a Damiano. A única - e não honrosa - exceção foi quando tiveram pela frente Conan, o Bárbaro. E isto porque nossos herois ficaram escondidinhos como lagartos. Em duas palavras, deu Itararé.
O bate-papo estava assaz medieval, quando Cosmião introduziu uma ideia caprichosa. Mudando do vinho para a água, como observou um aldeão que depois virou mosto. Cosmião, a voz estentórea para que o amigo bem o ouvisse, falou:
- Nossa amizade, ó Damiano, não padece dúvida. Contudo, deveríamos vitalizá-la através de algo assim como... um pacto de sangue.
- De onde tiraste tal ideia, amigo Cosmião?
- Bem... alhures, os cavaleiros leais assim procedem.
- Ora, o rosário de nossas pelejas contra meio mundo já é a prova cabal da lealdade de um para com o outro. Então, para que o pacto de sangue?
Pequeno desencontros entre os dois amigos por vezes ocorriam. Mas que eram resolvidos com uma curta oração do "Breviário do Cavaleiro Andante", que um puxava e que o outro respondia:
- Cada um quer dar a vida pelo outro.
- Só não o conseguindo pela incompetência dos adversários.
- Amém. 
Até que houve a aquiescência de Damiano. Afinal, o rito de sangue proposto por Damião não era algo completamente esquipático. Para quem já se encontrava na "ônzima" caneca de vinho, minha senhora, pelo menos não era.
E Cosmião fez o celebrante:
- Vê, Damiano, coloquei minha mão sobre a távola. Agora, com a palma de tua mão cobre o dorso da minha para que, em seguida, eu as transfixe com o punhal. O sangue ao correr selará a nossa eterna amizade. Ou vais correr tu?
Damiano não correu. Porém, não suportou bem ver o "sangue do seu sangue" a correr da mão cravada pela lâmina. E fez uma séria acusação contra o amigo: que Cosmião agira em benefício próprio, botando a mão a jusante para pegar menos punhal. Mas isto não tem a menor influência, torquiu Cosmião, tem, retorquiu Damiano. Nesse tem-não-tem, Cosmião acionou o punhal novamente. Só que, desta vez, no coração do pobre Damiano.
Morto Damiano, Cosmião deu às de vila-diogo. E passou a vaguear pelas faldas de Sierra Nevada. A mão ferida, pensada com unguentos de rosmaninho, sarou logo. Mas... o que são os desígnios das Fúrias (as deusas romanas da Vingança), minha atenta senhora. Algum tempo depois, o errante cavaleiro Cosmião adoentou e morreu. De icterícia catarral, um mal a ver com o sangue do pacto.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

UM ESQUELETO PARA MICHAEL JACKSON

O cantor Michael Jackson, já conhecido por suas extravagâncias, arranjou mais uma. Ele quer montar uma câmara de horrores em sua casa de Los Angeles. Quer uma câmara toda repleta de crânios e esqueletos disformes assim como uma biblioteca de compêndios médicos sobre doenças estranhas. Para completar a tétrica coleção, está lhe faltando, porém, o mais ambicionado troféu. O esqueleto de John Merrick, o homem-elefante.
Os restos mortais de John Merrick não se encontram num campo-santo qualquer. Tampouco num cemitério de elefantes. Repousam num hospital de Londres, onde se prestam ao ensinamento médico. Quer dizer, não repousam. O esqueleto é famoso por suas grandes deformidades. Uma coluna vertebral retorcida que sustenta (haja Atlas!) um crânio descomunal. Muitas outras alterações também enfeavam o pobre John Merrick. No entanto, por terem sido das partes moles, voltaram ao pó.
Um milhão de dólares não fez com que o esqueleto humano mudasse de proprietário! Perdão, de intermediário. E olhem que o hospital londrino tem sérios problemas de caixa. Está no osso. Mesmo assim não vende os restos de Merrick. Principalmente para Michael Jackson que os deseja ter para o seu deleite. Como a um brinquedinho articulado. Não são ossos de borboleta (ninharia) a soma oferecida pelo cantor, mas o hospital não vende o esqueleto. Razões morais são alegadas.
O esquésito (a palavra existe) Michael Jackson está para ler de "Merrickesh"! Será que ele deseja fazer o Príncipe Hamlet, o craniólogo, em sua tragédia de dúvida e desespero? Androginia dá dúvida, mas desespero só às vezes. Ou será que ele pretende copiar da pretendida ossatura apenas um novo passo de discothèque? Pois, literalmente, JM é espelho de MJ. Nesta hipótese, fãs do mundo inteiro, sacudi-vos! Nada tendes a perder, senão o vosso suor! Michael contasse com o esqueleto, então o balanço seria tremendo.
Imagino que um anjo torto, desses que vivem à sombra, haja lhe aparecido e dito: "Vai, Máiquel, ser musicólogo na vida..." E Michael Jackson foi sê-lo, só que no Museu da Teratologia. O museu, ô Michael, se ainda não tem o horrífico estandarte, eu aproveito para sugerir um deles. Um que tenha uma caveira a encimar duas tíbias cruzadas. Não, MJ, os velhos bucaneiros não cobram direitos autorais.
E quem não se recorda de Michael Jackson em seu videoclipe mais famoso? No qual ele aparece dançando ao lado de hediondas criaturas da noite, recém-saídas de suas tumbas etc. É Michael Jackson em seu elemento. E quem não sabe de seu hábito, meio believe it or not, de dormir numa esquife hiperbárica? Como se isso lhe prolongasse a vida. Pois bem, qualquer semelhança com o hábito de um certo conde da Transilvânia não é mera coincidência...
Dear Michael Jackson: Venham de lá esses seus ossos que eu quero apertá-los. Mas... se, numa dessas contorções que você tanto gosta de fazer, o seu esqueleto, vai, assume uma posição bem bizarra de não mais voltar ao normal, hein? E, tempos depois, aparece outro excêntrico querendo comprá-lo, hein, hein?
Já sei, meu tangará, são os ossos do ofício.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

IMPAGÁVEIS DO PG - II

NO MAR DAS CONTRADIÇÕES
É onde o afogado ganha vida nova.
NÃO PODEM SER POSTOS DE CABEÇA PARA BAIXO
Alguns idealismos. Porque caem as moedas dos bolsos.
AGUENTE OS TRANCOS
Que os barrancos desmoronam.
PASSATEMPO SINCRETISTA
Matar as moscas com um jornal enrolado.
JONAS ENGOLIDO PELA BALEIA
E nós, os crédulos, pela balela.
PENSAMENTO ANTA
Ninguém governa a governanta.
SOBRE O DIREITO DE IR E VIR
Olhai os bumerangues da Austrália.
LEI DA PISTOLAGEM
Todo homem tem seu preço... de liquidação.
A HISTÓRIA DO PATINHO FEIO
Não passou de um erro taxonômico.
ESPERANDO GODIVA
Coventry era uma fresta!
A RATOEIRA É TAMBÉM CAPAZ
De fazer o gato passar maus momentos.
CONTRA-INDICO
Aspirina na febre de consumo.
CLUBE DE XENÓFOBOS
Com ramificações no exterior. Funda-se.
UM MAS...
Esses elogios com "mas".
E CANTAM AS SIRENAS
Fora da tábua não há salvação.

terça-feira, 7 de abril de 2009

IMPAGÁVEIS DO PG - I

TODAS AS PROFISSÕES SÃO IMPORTANTES
Portanto, o faroleiro não faça farol.
CÚMULO DA TRAGÉDIA
Ir de Challenger para Chernobyl.
"CHEGAR AO MÁXIMO DE BELEZA COM O MÍNIMO DE MATERIAL"
Otto Lara Rezende? Ou a esteticista que criou escola?
ADULTÉRIO DE SULTÃO
É com o harém alheio.
CONSELHO QUE DARIA A UM JOVEM POETA
Sê fecundado pela poesia mas, oh, não desoves aqui.
ROCKRÍTICA
Vai para o conjunto de rock que se preocupa em criar o guarda-roupa antes do som.
NÃO DISCUTA COM QUALQUER UM
Mas apenas com o magarefe, que não radicaliza.
PASSIONAL
Nunca dê esse passo.
"DEEM-ME UMA ALAVANCA E EU ERGUEREI O MUNDO"
Grande coisa, Arquimedes. Atlas faz isso o tempo todo e.... sem alavança, tá sabendo?!
GARÇOM
Uma pérola em minha ostra!
SUCESSO NÃO É CAVALETE
Mas precisa dos pés no chão. Bem firmes.
ESSE AEDES
Só falta agora transmitir a AIDS.
BIRITA
Para quem de frio titita.
A POLÍTICA MORA NO MUNDO
Mas dá o enedereço errado para a Moral.
GUERRA, NUNCA MAIS
Não quero ver Guernica bombardeada num museu.
AS UVAS ESTÃO VERDES
Os desejos podres.
E PORQUE EU NÃO ERRO UMA
Sou presentólogo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O CADERNO DN - CULTURA

No período de 1987 a 89, fui colaborador do DN - CULTURA, o caderno de cultura do Diário do Nordeste. Foram dois anos em que, aos domingos (em semanas alternadas), eu tive a satisfação de ver meus contos, crônicas, poemas e "picles" serem publicados nesse meio de comunicação.
Graças à atenção que o jornalista Carlos Augusto Viana dispensava a meus escritos.
Após revisados, eles serão aqui postados. Aos poucos, né?!

terça-feira, 17 de março de 2009

MÉTODOS DE SUICÍDIO

"Chamar um artista de mórbido porque trata do tema da morbidez é um disparate tão grande quanto chamar Shakespeare de louco porque escreveu Rei Lear." Oscar Wilde

Ora, não me achem mórbido. Nem pensem que este texto se destina a induzir alguém ao suicídio. O pretendente ao ato, com a visão amarga da vida, digamos que ele já exista. Já exista - e queira deixar de existir - motivado por uma grande privação. Como, por exemplo, a de não mais poder se divertir descendo pela lixeira do edifício, porque o síndico baixou a proibição. É, portanto, ao que já está in(arre!)dável na determinação de pôr fim à vida que me dirijo, e discorro sobre alguns dos métodos da autodestruição. Faço, entretanto, a ressalva de que tais métodos podem ocasionar no desvalido a morte ou o falecimento, às vezes ambas as coisas.
Esmagamento pelo trem - Consiste em se deixar amarrar à linha férrea e ficar na espera do bruto. Certificar-se antes de que não está num ramal ferroviário desativado, porque a morte aí será por insolação, o que é acachapante.
Afogamento - Além da ponte de onde vai pular, requer que se sujeite a um detalhe: o da indefectível pedra amarrada ao pescoço. Uma morte espetacular se o suicida for praticante de saltos ornamentais.
Ingestão de formicida - Tem a vantagem de não morrer "com a boca cheia de formigas". Para evitar a sobredosagem nunca esquecer que uma colher das de sopa mede exatamente quinze centímetros cúbicos.
Corda no pescoço - O tamanho da corda é importante: nem curto que impossibilite de enlaçar o pescoço, nem longo que permita os pés no chão. Há uma variante que é quando se usa a gravata-borboleta.
Envenenamento por gás - Há quem diga que o gás não tenha nada a ver e que a morte se dê pela sensação de claustrofobia. Mas, prevalece o consenso de que a vítima fica, no final, sem condições de fazer um cafezinho.
Tiro na cuca - Fica fácil pela proximidade do alvo. De qualquer maneira, se errar o tiro no teto pode ser aproveitado para fixar uma samambaia-chorona.
Haraquiri - Não tem popularidade no mundo ocidental. É o mais cruel dos atos, pois a lâmina da espada costuma fazer cócegas no baço.
Fogo às vestes - Suicídio e cremação, tudo ao mesmo tempo. A morte, no entanto, não é a regra quando o insano ateia fogo às vestes, estando elas no varal.
Greve de fome - Pode ser total, ao se recusar ingerir todo e qualquer alimento, ou parcial, quando se deixa de comer jiló aos sábados, por exemplo. Neste último caso, que o grevista não ignore ser possível morrer antes de uma senilidade mal definida.

quarta-feira, 11 de março de 2009

NOITES DE CÃO

Triiim... Triiim... Triiim...
Mary Rose despertou, enfiou os pés nos chinelos e dirigiu-se ao telefone.
- Alô?!
- Uuuu. Uuuu. Uuuu. Uuuu.
Do outro lado do fio, a voz que uivava - a quinta noite consecutiva que isso acontecia - e, como nas vezes anteriores, às três horas da madrugada.
Mary Rose, no resto da noite, não mais conseguiu dormir. Por mais que contasse cobras e lagartos... cobras e lagartos.... cobras e lagartos... não conseguiu dormir. Amanhã, cretino, iria ter outra vez com o policial Smith Joe. Quem sabe, Smith Joe, a essa altura, já tivesse no bolso do colete, junto com o pirulito, o nome do engraçadinho dos uivados telefônicos. Amanhã, maldito. A vingança, aprendera algures, é um prato que se come frio.
Hoje, maldito. Mary Rose pôs-se fora da cama. Manhã, com azia e olheiras. Não quis, não estava a fim de alimento algum: "breakfastio" (ou, talvez, por desejar apenas aquele prato frio). Procurou Smith Joe no Departamento de Trotes da Polícia. Smith Joe, do DEPTROT, era um corpulento policial que, nas horas vagas, gostava de tocar piano à maneira de acordeão. Também gostava de ser eficiente. Durante a noite, em operação conjunta com um "trotecista" da Companhia de Correios e Telefones, mantivera sob escuta o telefone de Mary Rose. Então, quando ela o procurou, Smith Joe já sabia qual fulano fizera a chamada das três horas da matina.
- O telefone está no nome de Kenneth Paul. Conhece-o?
- Kenneth Paul? Co'os diabos, é meu vizinho.
- Existe alguma rixa entre ambos?
- Não.
Smith Joe solicitou o comparecimento de Kenneth Paul no DEPTROT. Comparecimento amigável, querido Paul. Venha, querido Paul. Ou, do contrário, irei eu, aí, lhe aplicar uns telefones. Telefones na gíria policial, querido Paul. Quem pergunta se penico de barro faz zoada, acaba mais cedo ou mais tarde... pedindo penico. (Esta última frase era a cara de Smith Joe. Ele a citava por todo, qualquer ou nenhum pretexto.)
Meia hora após, Kenneth Paul estava no DEPTROT. Enfrentando o olhar feio de Mary Rose, sob o olhar de leguleio de Smith Joe.
- Paul, meu vizinho, por que esses trotes bestas?
- Mary Rose, a senhorita tem um cão...
- Que tem Vociferous com isso? Não faz mal a uma aranha.
- Vociferous uiva à noite. Um pouco antes das três horas da madrugada.
- Não percebo. Nessa hora estou numa fase REM (rapid eye movements) do meu sono.
- Também estou numa fase REM. Mas Vociferous me acorda.
- Por isso, me dá aqueles telefonemas eivados de uivados?...
- Sim, até que você se desfaça do cão.
- Eu me desfazer de Vociferous? Never.
- Então, vamos ser solidários na insônia.
- Fico sem telefone, mas Vociferous continua comigo. Com casa, comida e coleira lavada.
- Comida, você falou? Carne com vidro moído, por exemplo?...
- Atreva-se, Paul.
Foi quando o pirulito de Smith Joe acabou. E, para descer à bombonière, ele precisava antes de tudo pôr um termo àquela discussão. Pensando nisso, Smith Joe sentenciou:
- Bote uma focinheira no cão, senhorita.
Valeu. Com Vociferous agora de focinheira, durante a noite, os dois vizinhos voltaram às boas.
Vejamos, então, o que acontece  a Mary Rose quando ela, às três horas da calada, atende o seu telefone:
- Alô?!
- Mupf. Mupf. Mupf. Mupf.

terça-feira, 3 de março de 2009

ESCREVENDO COM NÚMEROS

Raimundo Magalhães Júnior nos relata uma recreação que esteve em voga no Brasil, aí pela segunda metade do século dezenove: escrever com números. Nesse passatempo, os números eram inseridos em palavras para que fossem lidos como sílabas destas. Quando, por exemplo, alguém compunha "bisc-8", era "biscoito" que se devia ler, por interessar apenas o sentido fonético do número.
Eis algumas sentenças, pinçadas no autor supracitado, para dar uma idéia mais completa do assunto: "O 10-engano é o castigo do 7-tico" (o desengano é o castigo do cético). "O 10-tino do 9-lo é ser 19-lado" (o destino do novelo é ser desenovelado). "O mí-0 está sempre 10-contente" (o mísero está sempre descontente). E ainda: "A baleia, que bem conhe-6, produz o esperma-7" (a baleia, que bem conheceis, produz o espermacete).
Já foi uma mania nacional. Isso que, em dias mais recentes, encontra-se vestigialmente em pára-choques de caminhões. Carneiro Portela, em seu "Máximas, Adágios e Legendas de Caminhões", registra alguns exemplos: "70 me passar, passe 100 atrapalhar", "60 no bar, 70 sair 100 pagar, aí eu mando a polícia 20 buscar". Também atento à fraseologia burlesca veiculada pelos caminhões estradeiros, o autor destas linhas anotou do pára-choques de um deles, esta legenda inusitadamente escrita com números fracionários: "Rezei 1/3 a fim de encontrar 1/2 de te levar a 1/4".
Pertence a Filinto de Almeida, que se assinava F. d'A, a composição de maior fôlego desse passatempo. Ele, no último quartel do século dezenove, publicou no "Jornal do Povo" do Rio de Janeiro, os seguintes versos, todos eles terminados por números:
"Veio um dia ao Brasil um holan-10
E comeu de uma vez tanto bisc-8
Que de cheio e repleto nem 60
E fez por causa disso o diabo a 4.
Dá-lhe logo o doutor tão forte 12
Que ao ventre causou-lhe mil 10-as-3.
Então suplica o enfermo a um fran-6
Que era dos seus lamentos triste ou-20
Que por graça à saude lhe re-9,
Pois que ele a tinha forte como um br-11.
E o súcio, escutando a voz do mí-0,
Compassivo a curá-lo então 70
E curou-o metendo-lhe o ca-7!"
Esse F. d'A era um n-1-mero, vocês não acham?

(escrito em 1983 e revisado em 2009 para publicação no Preblog e no EntreMentes)

segunda-feira, 2 de março de 2009

OUTRA DO BARNABÉ SEM PÉ

Meu Deus, como é frágil a saúde dos governantes de uma nação! Volta e meia ficam dodóis de enfartes, bolsas de gorduras nas pálpebras, ciáticas, abscessos retroperitoniais e fístulas do duodeno. Tanto que, há muito, já exclui essas doenças dos "livrai-os, Senhor" de minhas orações matinais. Em compensação, estou rezando em dobro para que eles jamais venham a sofrer da mais ominosa das doenças.
A mais ominosa das doenças é, a meu ver, a que ocorre no ouvir: cera nos ouvidos. O governante que adoece com essa moléstia fica inteiramente surdo ao clamor dos governados e, mais gritante ainda, ao clamor dos funcionários de sua administração. É capaz de, entre outras mazelas, reajustar os salários do funcionalismo em 40 mais 30 por cento (depois de um ano em que a inflação foi 99,7 por cento) e, no final das contas, achar(-se) o máximo. Felizmente, isto (a tal doença no governante, suas consequências nos governados) "jamais aconteceu no Brasil", numa prova de que "Deus é...".
Tenho um companheiro de infortúnio, digo, de repartição, que se chama Antonomásio. Desconfio que ele tenha sido batizado com água quente, pois esquenta a cabeça facilmente. Ao saber que, num distante país, o funcionalismo público tinha sofrido um reajuste salarial de 40 mais 30 por cento, que era igual a 82 por cento, quando a inflação havia sido 97,7 por cento no ano anterior, ficou uma fera sem bela. Tomou para si as dores alienígenas e foi deblaterar em praça pública:
- Este reajuste salarial é uma empulhação.
Mas logo apareceu um sujeito, também funcionário público, que, empinando sobre os coturnos pediu licença, isto é, não a pediu para discordar de Antonomásio. Seguiu-se uma discussão dos 82 por cento de Antonomásio contra os 110 por cento do de coturnos, que somente terminou quando este último gritou:
- Boto a tropa na rua.
Antonomásio falante estava, calado ficou. Depois veio me procurar para que eu refizesse, ou não, os cálculos seus de matemática salarial. Ora, Antonomásio, eu não me interesso por matemática salarial do além-mar, sim, mas você é um descendente direto de Não Euclides, o famoso criador da não menos famosa geometria não euclidiana, só que a genética não funcionou em mim, Antonomásio.
Não, mas eu não ia deixar Antonomásio no mato sem cachorro. Lembrei-me de que Sônia, minha namorada, interessava-se por esse tipo de assunto e até colecionava os artigos de jornal do Joelmir Beting. Entretanto, Sônia e eu, há cerca de uma semana, estávamos brigados por um motivo de somenos. Paulo, este grampo que eu encontrei em seu sofá-cama, não é um grampo, é, não é, é, então é seu, eu só uso grampo da marca Teimosão.
Por que só há juízes em Berlim? Deveria existir em Fortaleza um juiz, pelo menos um, para arbitrar essas pendências de namoro. Eu ganharia aquela questão inclusive, porque não era um grampo e sim um burocrático clipe-acima-de-qualquer-suspeita. Como sinal de reconciliação, embora também querendo ajudar Antonomásio, liguei para Sônia, quebrando o gelo baiano que se interpunha entre nós.
- Sônia, você ainda tem aquele artigo do Beting?
- Qual?
- O do "Barnabé sem Pé", que trata do "aumento" do funcionalismo público federal.
- Tenho sim, recortei do jornal.
- Vê aí o que ele diz.
- Que o reajuste foi de 40 por cento em janeiro e será de 30 por cento em junho...
- Prossiga...
- Considerando, porém, a corrosão pela inflação que ocorrerá entre os dois meses, o "aumento" é realmente de 61,5 por cento. 
- O "aumento" é de 61,5 por cento?
- É.
Nisso, Antonomásio, que estava a meu lado, retirou-se bruscamente. Tinha a cara de quem ia fazer uma besteira, do tipo enfrentar tropa na rua, e eu não consegui segurá-lo pelo cotovelo. E olhem que nada foi comentado, em sua presença, sobre a hipercorrosiva inflação de quase 10 por cento apenas no mês de janeiro, nesse remoto país que... tanto mexe com Antonomásio.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O ASTERÓIDE DA MÃO ESTENDIDA

Em recente estada no Rio de Janeiro, o astrônomo belga Henri Debehogne informou que batizara com o nome de Figueiredo, em homenagem ao presidente brasileiro, um asteróide que descobrira em suas pesquisas no Observatório Europeu do Sul. O novo asteróide ("novo" sob a óptica do astrônomo) foi encontrado orbitando entre Marte e Júpiter) com o alvará em perfeita ordem.
"Foi o fruto temporão de um longo trabalho", declarou Debehogne, um brechador de primeira grandeza. Sem que isto signifique dizer que o belga seria capaz de desprezar uma anã branca. Ao contrário, Debehogne é sensível com os obscuros e, o tempo todo, fez questão de dividir a glória de sua descoberta "com aquela gente boa do Observatório Europeu do Sul", o qual, surrealisticamente, fica no Chile.
Na coletiva à imprensa, na  qual compareceu apenas um repórter e ainda assim vestido de juiz de futebol (com um gravador escondido), Debehogne, entre uma e outra gota de "Visazul" que pingava em seus preciosos olhos, prestou novos esclarecimentos sobre o asteróide. Ah, sim, o intrépido repórter free lancer que realizou a entrevista foi Ouriço Júnior, filho do famoso Juvenal Ouriço Repórter, este último um personagem teúdo e manteúdo por Carlos Eduardo Novaes.
A ENTREVISTA
OJ - Prof. Debehogne, o público brasileiro está ávido por notícias sobre a sua descoberta, o asteróide Figueiredo. Como tudo começou?
HD - No princípio, Deus criou o Céu e a Terra...
OJ - Não, Prof. Debehogne, não precisa retroceder ao Gênesis. O espaço colocado à sua disposição é o de uma página de jornal. Não tem a magnitude do espaço cósmico, pois.
HD - Está bem. Retrocedo, então, ao dia em que, pelo telescópio, me deparei com um estranho bólido. Estranho, repito, porque o bólido não parecia ser um corpo celeste. Mas... se ele não era um corpo celeste, seria o quê?
OJ - Não faça suspense, Professeur.
HD - Entrei em contato com os astrônomos deste seu país, detalhei o que vira, e eles, com maior experiência no ramo, concluíram que se tratava de uma simples bola do emergente vôlei brasileiro.
OJ - O saque "Jornada nas Estrelas". Ponto para os brasileiros.
HD - Preferi considerar o dito pelo não dito - a imagem do bólido não era compatível com o meu saber esportivo - e prosseguir com minhas pesquisas. Quando tenho um propósito eu sou mais obstinado do que um cão no cio. Então: eu não mais arredaria o olho do telescópio, pelo menos enquanto não chegassse a um entendimento plausível.
OJ - E quando fazia mau tempo lá fora?
HD - Quando ocorria má transparência atmosférica, eu usava minha fiel luneta. Esta aqui.
O astrônomo aproveita para mostrar ao repórter a luneta com a qual, em tempos distantes, esquadrinhava os pensionatos femininos de Bruxelas. Em seguida, retorna ao tema central da entrevista.
HD - Um dia, como prêmio à minha pertinácia, a sorte e o asteróide acenaram para mim.
OJ - O asteróide também acenou?
HD - Literalmente falando. O asteróide que descobri é dotado de um apêndice... à maneira de uma mão estendida. Por isso, ele tinha - e ainda tem - como.
OJ - Essa aí me deixou siderado.
HD - Descoberto o asteróide, faltava um nome de cristão para ele. Dei tratos à bola - bola de vôlei, não - e encontrei, tendo em vista a sua mão estendida, o nome apropriado: Figueiredo.
OJ - Vestiu como uma luva. Será que o planetinha gostou do nome?
HD - Se gostou? De lá me fez com os dedos um "O", que é a abreviatura de "OK".
OJ - Sobre a mão estendida: é a direita ou a esquerda?
HD - É a direita, embora seja canhoto.
OJ - Mas, Prof. Debehogne, para que uma rocha especial vai querer a tal mão estendida?
HD - Para espantar mosquito marciano, sei lá.
OJ - Há relato anterior de outro asteróide nessa condição?
HD - Não. Consultei o "Almagesto" de Hiparco em sua melhor edição, a que foi atualizada por Ptolomeu, e não encontrei uma só linha (epa!) a respeito do fenômeno.
OJ - E não há possibilidade de ter sido uma alucinação? O Professeur é natural de um País, com o perdão da palavra, Baixo e naquele ar rarefeito dos Andes...
Nisso, o pesquisador belga, de inopino, abandona o confortável pufe, onde estava sentado dando a entrevista. Mas, parece que muda de idéia e volta a sentar-se (pufe!). Só que, agora, tem cara de poucos amigos.
HD - Escute, meu jovem: o asteróide realmente existe, já o registrei no Minor Planets Center dos Estados Unidos - os de lá me fizeram apenas uma ressalva: que eu maneirasse no consumo do ácido - e você, agora, só tem direito a mais uma de suas impertinentes perguntas.
OJ - Por que, estando o senhor no Chile, não chamou o asteróide de Pinochet?
HD - Não misturo Ciência com Política.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A VEZ DA VOZ

"E disse: minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de ninguém." (Chico Buarque)

Mãe Natureza equipou grande parte de sua criação animal com um órgão fonador, o qual, como o nome indica, se destina à emissão de sons. A esses sons, intencionalmente emitidos pelo animais, dá-se o nome genérico de voz. Possuem-na, por exemplo, o Falsete, o Polichinelo, o Veludo, o Trovão, o Ventríloquo e a Taquara Rachada.
No princípio, a voz de um animal era compreendida apenas por outro de sua espécie. Mas, aí surgiu o homem que, muito à vontade, tratou de inventar a pesquisa. A pesquisa, pela palavra em si, foi um achado. Servia para o homem disfarçar o incomensurável bedelhismo e, ainda, de quebra, para ele conseguir algum ($$$) com alguma fundação. Crítica à parte, foi através da pesquisa que o homem chegou a resultados animadores na decodificação da voz dos macacos, dos golfinhos e das cantoras de fado.
É na hora de ouvir a voz da própria consciência que o homem sente grande dificuldade. E botem dificuldade nisso, agora que ele deu para andar com os ouvidos calafetados pelos fones de um "Aiko-man". O ser humano, ao nascer, tem o direito inalienável a duas caixas de som e a um microfone apenas. Os leitores podem indagar: e nós com isso? É que 1º) devemos ouvir, 2º) devemos falar. Fiquem na oitiva, portanto.
Lembram-se de quando Ulisses Guimarães definiu Abi-Ackel como "sendo uma voz à procura de uma idéia"? Pois bem, enquanto o ministro a procura, eis meu recado para Ulisses. Ulisses: vá tirando o seu cavalinho-de-tróia da chuva. Você não devia ter sido assim cruel com o Abizão. Ora, logo com ele que é tão cordial com todos, gregos e troianos, e, ainda outro dia, recebeu no gabinete ministerial uma humilde porca. Sem audiência marcada, acrescente-se.
Já que "politiquizei" o texto, pretendo dar um giro na recente história política deste país (Brasil, da fase castelista para cá). Corriam os sofridos de 1965, o duro regime da época decidiu fazer certas "nenas" democráticas e, com este fito, criou de cima para baixo dois partidos - a ARENA e o MDB - que, com o tempo, viriam a ser chamados de "Partido sem Voz" e "Partido sem Vez", respectivamente, pela inteligência crítica da nação. Cada qual no seu ofício: o "Partido sem Voz" legislando, até ficar afônico, sobre o teor de cloreto de sódio a ser permitido nas pipocas do reino, e o "Partido sem Vez", mantido fora desse processo, a bem do próprio nome.
Criando uma imagem, eu diria que os dois partidos estavam numa espécie de gangorra. Só que a ARENA cavalgava a trave, sem querer descer, e o MDB, sem poder subir. A explicação disso não se achava no peso político de cada um e sim na gangorra anquilosada, como convinha aos "omes". Por mais que o MDB tentasse o impulso, a gangorra se mantinha "paradona". Houve um momento em que ela emitiu uns rangidos, fez menção de se movimentar, mas aí vieram os "omes", os verdadeiros brincantes, e pararam a gangorra. Reforma, foi o motivo alegado.
Agora é a vez de dar um puxão nas orelhas, com mais força na esquerda. A Oposição, por motivos intestinos, pegou piração de baleia. Mania de suicídio. É jangada que se desmonta em paus para se fazer ao mar. PMDB, PT, PDT, PTB, PEtc. Tenho certeza de que Tia Zulmira Ponte Preta, a essas malfadadas horas, deve estar se revirando sob a lápide, e dizendo com voz sepulcral: "Cada pulga quer um cão só para si". Enquanto isso, o Espírito da Situação paira sobre as águas - impávido que só vendo!
Paro o berro. Não quero forçar, por mais tempo, as cordas vocais. Afinal, de voz ainda preciso para umas derradeiríssimas palavras. Vão para três tipos delas: 1) Voz de sereia (Por que me fizeste perder o norte magnético e o tempo? Devia ter previsto que a dona não iria nunca abrir as pernas.) 2) Vox populi (Quanto tempo andas também ruim das pernas? Nunca estiveste? Remember 33 d.C. e aquela multidão gritando "Barrabás, Barrabás, Barrabás"...) 3) Voz de prisão (T'esconjuro!)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

VIOLÊNCIA URBANA

Uma abordagem epidérmica do problema
Em nosso país, quem nunca foi vítima de um ato de violência urbana que atire a primeira pedra! Atire, com violência inclusive. O sujeito, hoje em dia, não consegue andar pelas ruas de uma cidade...  sem ser molestado. Por qualquer (ou nenhum) motivo pode se ver no centro de uma agressão física - uma dolorosa experiência que vai do chega-pra-lá ao nocaute-pra-sempre.
Significando este último: ser mandado para a cidade-dos-pés-juntos. Uma cidade tão superlotada que, se todos, ao mesmo tempo, espreguiçassem as pernas, a situação ficaria de morte. E de morte para todos, sem distinção de raça, sexo, credo ou seguro-funerário.
Tome cinco, Paulinho Rangel! Você estava mesmo com o santo nos couros ao escrever que, na "República do 1º de Abril", se vive sob o império de quatro leis:
1ª - Lei do Mais Forte
2ª - Lei da Selva
3ª - Lei do Cão
4ª - Lei do Murici ( que cada um cuide de si).
Se a "República" de Platão foi utópica; a de Rangel, não. Existe verdadeiramente e, por ter como cenário uma nação perita em futebol, vive chutando por aí. Porém, não vou me deter nas raízes do problema da violência urbana, outros que ralem a mandioca. O assunto é por demais complexo, mistura-se com política, e de política somente me interessa a do corpo: como mantê-lo vivo?
Sim, como mantê-lo vivo? Uma ajuda, respondo, é o conhecimento do que acontece no corpo, no plano da fisiologia, ao ser mobilizado para uma ação de agressão e defesa. O conhecimento puro é importante e, mais ainda, é a sua aplicabilidade no dia-a-dia-de-cão.
Em preparação para uma luta, o ser humano experimenta várias alterações fisiológicas, mediadas pelo sistema nervoso autônomo. Este sistema, por sua vez, é composto de dois subsistemas que se contrabalançam: o simpático e o parassimpático.
É o simpático que faz os preparativos internos para a luta. Acionado, contrai os vasos da pele e das vísceras para que mais sangue aflua ao cérebro (favorecendo o raciocínio rápido) e aos músculos (ensejando o aumento da força), aumenta o açúcar sanguíneo (garantindo o dispêndio extra de energia), acelera a respiração e os batimentos cardíacos, apressa a coagulabilidade sanguínea (reduzindo as perdas prováveis de sangue) etc. Dentre as transformações fisiológicas descritas, apenas uma pode ser percebida de relance (em tempo hábil, portanto). Trata-se da contração dos vasos cutâneos, cuja tradução clínica desse fenômeno é o empalidecimento brusco da pele. Num entrevero de rua, procure observar se isto acontece, ou não, no rosto de seu oponente.
Recém-empalidecido significa influência do simpático, fisiologia a serviço do embate-bate, agressão possível ou iminente: você se prepara. Ao contrário, recém-ruborizado significa influência do parassimpático, despreparo para a luta, agressão não cogitada: você relaxa.
Agora, se você está a caminhar pela Rua do Rosário e, sem querer, pisa na unha encravada de um estranho que reage assim: nem empalidece nem enrubesce, mas fica verde, furioso e de camisa rasgada, aí maninho, neste caso, a esperança de que você salve a própria pele está nas coisas práticas da vida. Fugir, gritar mamãe, contar com as pernas, pedir o urinol, safar-se, escafeder-se, apegar com o santo, dar às de vila-diogo e, se possivel, tudo ao mesmo tempo.

TECNOMITOLOGIA

:-)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

CARTA DE UM NÁUFRAGO

Gosto de ficar horas e horas numa praia deserta. Sou meio Padre Anchieta e, à maneira dele, passo o meu tempo a escrever versos na areia. Uns haicais, quase sempre dedicados à Maria Madalena (essa a minha peculiaridade).
Deu que, na última das minhas andanças praianas, encontrei uma carta. Carta de náufrago, reconheci logo por causa do envelope, tipo casco-escuro, que eu tive de abrir com um saca-rolhas. 
De dentro, espumando - só podia ser de raiva! - saiu esta mensagem:
"Estou (ou sou) náufrago há quase 20 anos numa ilha do Atlântico, talvez perto das costas brasileiras, uma vez que, no meu rádio de pilhas (7 fôlegos elas têm), escuto com alguma facilidade programas radiofônicos desse país. Isto, embora suavize minha solidão, estabelece uma confusão (to)tal na minha mente que, por vezes, chego a tirar o chapéu e a ficar pulando em cima do dito-cujo.
Lembro que, no início de minha estada na ilha, emocionado ouvia as transmissões esportivas que faziam a glória do país do futebol, como era assim designado. Havia times de popularidade, árbitros e bandeirinhas de segura competência e torcidas participantes.
Veio 1964, o ano do rebuliço, quando tudo foi mandado para as cucuias. Primeiro, decretando sob intervenção a Liga de Futebol e, segundo, extinguindo os clubes a ela filiados. Depois, a esse imenso país de arquibaldos e geraldinos, impuseram dois timecos: o C. R. Situação e a Oposição F. C., os quais travariam, a partir de então, a maior pelada de que se tem notícia.
No começo, só dava o C. R. Situação. E não podia ser de outra maneira, pois a Oposição F. C., que já entrara em campo desfalcada, sofria sistemáticas expulsões de seus jogadores. A arbitragem era tão parcial que, ainda no primeiro tempo, acabei com a minha boina italiana.
Já no segundo tempo melhorou alguma coisa. Incentivado por uma crescente torcida, a Oposição F. C. avolumou seu jogo e ameaçou virar o placar. Só não o conseguiu porque o Presidente da Liga autorizou a entrada em campo de alguns jogadoresw (biônicos) para reforçar, em quantidade, o C. R. Situação. Meu panamá de puro feltro não houve como evitar o estrago.
Findou o tempo complementar, o escore equilibrado. Por sugestão do C. R. Situação, acatada com certa relutância pela Oposição F. C., decidiu-se que ia ocorrer prorrogação. Por conta do suadouro, no intervalo concedido, os jogadores de ambos os times mudaram as camisas. Se, no vestiário do C. R. Situação existia um jogo completo de camisas limpas, o mesmo não acontecia no da Oposição F. C., que teve de improvisar com camisas desiguais.
Foi só o Presidente da Liga ver a Oposição F. C. em campo, desuniformizado, recrudesceu. Ou seja: ditou uma nova regra, oxítona, chamada vinculação. A jogada só podia ser armada, desdobrada e completada entre os que estão com as mesmas cores (por exemplo, de alviverde para alviverde), sob pena de anulação do gol que porventura resultar. Casuismo, quando me acalmei minha cartola inglesa estava em pandarecos.
E, por nada mais possuir que proteja minha cabeça do sol desvairado dos trópicos, de forma irreversível, me fiz ao mar em busca do continente. Do continente europeu, que distância não é problema para quem, como eu, sabe nadar de cachorrinho."

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O BEIJO

O beijo: taí um tema que anda nas bocas. Descrito como o ato de pousar os lábios em alguém, vá lá, o beijo é um ato de superfície não necessariamente superficial. Ah, a profundidade que ele tem quando o coração está na jogada! (E reparem que eu não estou falando apenas do beijo de uma mulher que pinta os lábios em coração.)
Além do beijo pessoa-pessoa há o pessoa-coisa, não esqueçamos. Quando se beija, por exemplo, um amuleto, uma carta de baralho ou um bilhete de loteria - de olho na sorte grande. O beijo que o pugilista dá na lona, de olho roxo, bem... deve ser uma exceção à regra.
Como surgiu o beijo? Dan Carlinsky, um estudioso do assunto, viu o começo de tudo nas aves que, bico a bico, alimentam seus filhotes. Depois, com um simples aperto na tecla de fast forward, Dan avançou milhões de anos e chegou aos homens das cavernas. Não é que os cavernícolas lambiam, uns aos outros, nas faces, como forma de compensar a carência orgânica de sal?
A civilização nos legou benefícios. Um deles, o de que, com a invenção do saleiro, ficamos todos mais elegantes à mesa da refeição; outro, o de que atrelamos novas razões e emoções ao ato de beijar. Há uma classificação para o beijo: 1) caloroso, 2) afetuoso, 3) religioso e 4) voluptuoso.
O primeiro tipo, o beijo caloroso, é o das pessoas que, em sinal de amizade, beijam-se nas faces. Esbanjado pelos eslavos, vem se universalizando. Os últimos, talvez, serão os esquimós que ainda desconhecem o beijo: eles se contentam em esfregar o órgão do atchim. (Gente fria é outra coisa!). O segundo, o beijo afetuoso, quem tem supermãe tem todos.
Já o beijo religioso é o que se dá, como sinal de respeito, em uma autoridade eclesiástica. O anti-exemplo dele foi o beijo, de triste memória, dado por Judas na face de Jesus. Naquele tempo, Jesus mostrava aos homens o caminho do Céu, o caminho alternativo com relação a todos outros que só levavam a Roma. Deu que os "omes" não gostaram da pregação e resolveram tirá-lo de circulação. Estavam só precisando de um "beijo-duro", quando apareceu Judas, que andava com problema de caixa. Judas entregou o Nazareno e, desde então, tem sido (merecidamente) malhado.
O último tipo, o beijo voluptuoso, o que dizer dele? É o que nos transporta ao céu (da boca, bem entendido), é o que não conhece a barreira da língua (pelo contrário), é o que instaura na gente o princípio do prazer (cujo fim é também o prazer). Bem-aventurados os que têm bons lábios. Bem-aventureiros os que têm boas lábias.
Sinônimo de beijo é ósculo, os dicionários registram. Desculpe-me, minha senhóra, mas ósculo parece beijo de sujeito pedante, daquele que a chama de minha senhôra. Já beijoca, palavra também dicionarizada, soa melhor pois é, exatamente, o beijo com estrépito. O smack dos norte-americanos, o "?" dos brasileiros, que aqui ninguém sabe a ortografia de algo que só existe na tradição oral. Mmmrrrzzz? Pppfffttt? Nnnssslll?
Aconteceu de um cientista calcular a quantidade de germes a serem transmitidos num único beijo. E, com esta descoberta em mente, ele, ao chegar a residência, então evitar o beijo de sua (dele) esposa;
- Não, querida, beijo na boca, não.
- Já sei. Você não quer se arriscar aos 100 milhões de Streptococcus pyogenes do meu beijo.
- Seja compreensiva. Você não está usando pastilhas antissépticas.
- Cafajeste, não exige isto quando vai nos beijos de suas secretárias. No de F., que tem 150 milhões de Staphylococcus aureus, no de B., que tem 230 milhões de Haemophilus influenzae e no de S., que, com 375 milhões de Pseudomonas aeruginosa, mais parece uma guerra bacteriológica.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

UM JARDIM ZOO-ILÓGICO

O desinteresse pela vida animal é geral. Cidades de razoável porte, como Fortaleza, não se dão mais ao barato de ter um zoológico. Foi-se o tempo da procura pelo “segundo maior espetáculo da Terra”, no dizer de Arrelia, um palhaço que ficou no desemprego depois que o circo pegou fogo.
Fui criança, como a maioria das pessoas (a maioria, porque já houve uma exceção: Dom Pedro II), e recordo-me do fascínio que o zoológico despertava em minha alma infantil. Fortaleza, dos anos 50, estava à altura do Rio de Janeiro (ao nível do mar) ao apresentar, no Parque da Criança, uma permanente exposição da vida animal selvagem.
Verdade, não era um zoo completo. Tinha lá suas deficiências: a preguiça, por exemplo, que morrera de um mal lentíssimo, em seu lugar haviam botado por muito tempo um zelador em regime de horas extras.
Hoje, nem isso. Fortaleza, carente de um zoológico, transmite a impressão de que nos quinto e sexto dias da Criação houve ponto facultativo... para Deus. Urge, portanto, que algum órgão municipal encampe:
1°) a mini-ideia de um jardim zoo-lógico.
2º) a maxi-ideia de um jardim zoo-ilógico.
Levando esta última a efeito com os seguintes seres:
O Dragão – Na qualidade de sparring já fez a glória de muito cavaleiro andante que queria impressionar sua donzela. Hoje, porém, em via de extinção (dragão, cavaleiro e donzela). Basicamente, é um animal dócil mas, quando se trata de defender a prole, fica tão fera quanto aquele deputado goiano. Tem como prato preferido o churrasco misto, que ele prepara na própria fuça.
O Basilisco – Lagarto nascido de um ovo posto por um galo e chocado por um sapo, o que explica o seu complexo de Édipo tumultuado. Com o auxílio de sua língua bífida, viscosa, ele passa a maior parte do tempo comendo moscas imaginárias. Sabendo-se que ele tem uma dieta sine matéria, o que ninguém explica é como o basilisco consegue eliminar tantos dejetos. Hércules, que já limpou as estrebarias de Áugias, certamente recusaria fazer faxina na jaula dele.
O Licorne – Animal que lembra um pequeno cavalo, embora dele se diferencie por um cavanhaque à la bode, uma cauda no melhor estilo rococó e um longo chifre no meio da testa. Adora ser montado por um pestinha, digo, um garoto em roupa de marinheiro. Demonstrando isso através de corcovos de alegria, dados antes e depois de fraturar o cóccix de seu pequeno cavaleiro. É proibido de participar de competições hípicas por causa de seu enorme chifre: vence todas, mesmo quando termina com um corpo atrás. Por detestar o milho, a sua alimentação é toda à base de pipoca, canjica, munguzá e papa de maizena.
A Esfinge – Alimária que tem cabeça de mulher e corpo de leão. Anda sempre com uma perguntinha enigmática na ponta da língua. Do tipo: o que é, o que é? De manhã está no PTB, de tarde no PMDB e de noite no PDS? Bem rápido, antes que ela abocanhe sua pessoa, responda à queima-guardanapo: Jânio Quadros.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O MAIOR ARTILHEIRO

O nosso país é habitado por 125 milhões de técnicos de futebol (1), sendo eu um deles. O que me credencia a emitir palpites e opiniões sobre o esporte bretão que um dia radicou no Brasil. 
Se me perguntam, por exemplo, quem é o maior artilheiro do futebol nacional de todos os tempos, eu não hesito em apontá-lo.
O maior artilheiro de meu país tem uma longa carreira futebolística. Só que, avesso ao estrelismo, ele é menos citado do que na realidade merece. O caso de dizer: vive no chão.
É disciplinado, jamais recebeu cartão amarelo, vermelho ou de outra cor. Não comanda à base do palavrão, não cospe no rosto do adversário e não faz gesto obsceno para a torcida rival.
Não mandinga, não faz cera, não simula contusão. E nem chuta - com raiva - a bola para as laterais. Em súmula, nada faz que comprometa o espetáculo do futebol.
Em campo, posta-se muito bem, a ponto de confundir a defesa antagônica. A forma física é única do primeiro ao nonagésimo minuto; ou, por mais tempo, se houver prorrogação.
Objetivo em tudo, não dá drible desnecessário. Intervém sempre à base do "bate-pronto", que é quando a bola fica dificílima para o goleiro.
E não é mercenário: fora o rendimento em campo não se interessa por mais nenhum. Se todo jogador fosse como ele o futebol brasileiro não estaria tão "estagflacionado".
Respeita ao máximo os princípios do torcedor "doente". O artilheiro jamais foi (nem será) um garoto-propaganda (2) em comercial de televisão para vender saúde (vitaminas) ou doença (cigarros) - cara e coroa do consumismo deslavado.
Explorando o fator surpresa, ele é simplesmente inexcedível na finalização de uma jogada. Sem exagero, ele já balançou as redes de praticamente todos os estádios de futebol do Brasil.
Pois bem! A esta altura do campeonato, presumo que uma coisa já tenha ficado fácil: levantar a identidade dele. É... o montinho-artilheiro (3).

(1) em 1982
(2) Pelé e Gerson
(3) in cauda venenum

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

GURGELZIM DA VIOLA

Nos vividos de 1967, Gurgelzim tomou a resolução de aprender violão. Comprou dedeira, pestana (uma espécie de prótese para violão), apito de lá, método do Canhoto (na versão destra, a única que existe, aliás) e, last but not the least, pegou emprestado o instrumento.
Mão direita na boca, mão esquerda no braço (boca e braço do violão, bem entendido, que aqui ninguém está falando de ioga), no começo era aquela luta para sacar do instrumento algum som musical, mesmo por aproximação. Em momentos, a vontade de largar tudo e voltar a soprar pente com papel.
“Felizmentecapto”, Gurgelzim foi conseguindo, com pouca catatonia, dominar as chamadas posições do violão: primeira, segunda, terceira e marcha à ré. Deste estágio para o seguinte, o de tocar “Parabéns pra você”, foi mais rápido do que um apagar de velas de um bolo confeitado.
O repertório, até então menos diversificado do que o de um grilo com insônia, avolumou-se com o tirar as músicas de ouvido. E somente quando faltava cotonete na praça é que acontecia de ele cometer alguma heresia harmônica. Do tipo: “Último desejo”, de Noel Rosa, no tom de... ré maior.
Quanto ao espelho, entrou na fase seguinte – a dos acordes dissonantes – que, para quem não sabe, produzem um tremendo visual. Um acorde maior de sexta com nona, por exemplo, é tão estético para os olhos (daí o espelho) que torna dispensável ferir as cordas. O som é um mero subproduto.
Conforme o ponto de áudio, o som pode também ser um superproduto. Senão, por que Gurgelzim muito ensaiaria o pinho dentro de um guarda-roupa? Por causa da acústica, claro. O fato, entretanto, era motivo de insatisfação para seu pai, que não gostava de andar com o colete reverberando “Abismo de rosas”. O cujo fez inclusive greve de não comer peixe frito com alcaparras até que Gurgelzim demovesse da idéia malsã.
Durou pouco a represália paterna, pois o “dilermandinho” da casa provou, por A menos B, que se estava economizando naftalina.
Percalço nenhum, até hoje, fez Gurgelzim tirar a viola do fundo do sovaco e botar no fundo do saco. Como? Desafinar na vida? Ora, isto acontece com ele e com todos. “Rosa”, do Pixinguinha, em ambiente de feijoada com caipirinha, taí a prova incontestável de que a desafinação é geral.

GURGELZIM E O COMETA HALLEY

Movido a álcool de aniversário, Gurgelzim (que o céu o tenha, mas só depois do ano de 2048) fez uma ligeira modificação em seu programa da noite de sábado: não assistiria mais ao filme de arte na Casa Amarela e, sim, iria a uma churrascaria na Rua Padre Anchieta. Uma moça, indo de carona, espetara-lhe a quente sugestão e ele topou, pensando no que aconteceria depois de destrinchar o churrasco.
A viagem “ideira” foi de uma velocidade “lesmática”. Por dois fatores: 1º) Lendo o odômetro do carro ele viu que era tempo de fazer o rodízio dos pneus (e fez). 2º) A ciclovia da BR-116 não é apropriada para quem está com pressa.
Não era o lugar dos assados mais sórdido do que aqueles freqüentados por Gurgelzim et caterva – uma turma que, às três horas da manhã, muitas vezes já tem derrubado o Governo da República. Agora, quando se trata de derrubar um churrasco com fritas é diferente, e um pouco de nervosismo sempre bate em Gurgelzim, um condenado à dieta hipossódica. E, se o médico da Previdência, que fechou questão sobre a dieta, na 15ª consulta do dia 23/04/80, entra ali e o flagra em ato de desobediência?
Na radiola de ficha, Lindomar Castilho impunemente cantava suas canções feministas. Com os ossículos desarticulados nos ouvidos médios, Gurgelzim não conseguia ouvir “chongas” do que ela propunha (“vamos a um motel?”), até que, “sexapelativa”, a mesma fez um gesto de boa vontade. Ele respondeu que sim.
A seguir, mais rápido do que um peixe pisca o olho, o casal já estava num alta-rotatividade. Desinibida, ela num átimo (“ótimo!”) ficou em trajes mínimos. Apenas com uma calcinha onde se lia: 203. (Que safadeza é esse número?)
Coube a iniciativa subseqüente a Gurgelzim, que passou a falar da obra teofilosófica de Tomás de Aquino. Malgrado o tremor automático da cama (Pavlov explica), por algum tempo, foi possível o diálogo leste-oeste, na base do tomismo de cá com o “tô-na-mesma” de lá.
Pelas tantas, talvez pelo emprego inadequado de um silogismo, ela ficou cismadíssima. E passou a fazer picadinho do travesseiro de espuma enquanto gritava uns palavrões. Daqueles de torcida organizada para cima de juiz de futebol ladrão.
Como desaforo não se leva para casa, Gurgelzim cuidou de desfazer todo o equívoco. E nisso até exorbitou pois, no final, em tom confesso, ela garantiu que, sem contar as estrelas (mais numerosas do que os descendentes de Abraão), só o cometa Halley ela vira aparecer três vezes.
Um gênio do sexo, definiria Glauber Rocha, se ainda vivesse neste vale de "lagrymas e katarros".

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

GURGELZIM E A ARTE DO DESENCONTRO

Cês se recordam de Gurgelzim, o desventurado, que, tempos atrás, se entreteve com uma beldade na Praia dos Diários?
Jogando uma onda fria na memória de todos, lembro que houve um flerte – unilateral, é verdade – mas não de todo encerrado, pois ficou para o nosso herói trapalhão um número de telefone do mais alto significado: o do telefone dela.
A ligação mil vezes tentada, mil vezes não conseguida. Nosso herói bufo, horas a fio, enrodilhado em outro fio, o do telefone, numa patética busca da voz amada.
Pessoas cariteiras (caridosas+palpiteiras) chamaram-lhe a atenção. Talvez houvesse algum engano na ordem dos números. Então, Gurgelzim, novamente horas a fio (de alta tensão), combinando e recombinando os números ao telefone. Também nada.
Pensou contratar um detetive particular: fez; planejou consultar uma cartomante: também fez. Mas, esses profissionais pareciam trabalhar em sentidos opostos, pois enquanto o detetive seguia uma pista que ia dar na filha de um açougueiro na Serrinha, a cartomante decifrava nas cartas a viúva de um pescador no Mucuripe. No final, não era carne nem era peixe.
Nessa altura, Gurgelzim era a própria imagem da desolação. De vestes em “desaseda”, barba de doze-horas-sem-fazer, já andava para lá de “píssico”. E passou a ter insônia. Uma insônia rebelde a todo medicamento, colírio de Dienpax inclusive.
Gurgelzim tinha querenças: um espelhinho com o escudo do Flamengo de muita utilidade para o pentear-se e uma esparramada samambaia de plástico que oxigenava seu quarto-e-sala de solteiro. Pois bem, as coisas andavam tão às canhas que o primeiro, como que prenunciando sete anos de azar, havia se quebrado e a segunda fazia um tempão que não levava água.
Pessoas palpidosas (palpiteiras+caridosas), temendo que sua vida estivesse por um triz (ou por um trim), aconselharam-no a ler Khalil Gibran, Lobsang Rampa e outros bálsamos para o espírito. Valeram, pois o nosso herói truão saiu depressinha de uma depressão, daquelas que levam o ser humano ao coquetel Jim Jones (fanta+cianureto).
Além de sair do pântano do baixo astral puxando-se pelos próprios cabelos, Gurgelzim, de forças retemperadas, mudou de mentalidade no plano sentimental. Entendeu que, se não deveria renunciar a tudo feito um “janinho” qualquer, também não deveria se obstinar por causa de uma quimera. Cabeça desaquecida, fosse o que os orixás quisessem.
Não é que deu quase certo. Fez o acaso com que eles, numa rua estórica, se cruzassem. Ela, num vistoso vestido amarelo, a passar esplendorosa quase roçando nele, na direita dele. Numa ocasião em que Gurgelzim" olhava com fixidez para a esquerda, por causa de um maldito torcicolo.

domingo, 11 de janeiro de 2009

VOO BALDEADO

Paris, um ano qualquer. Via-me dentro de um avião que me levaria de volta ao Rio.
Naquela manhã úmida, enquanto aguardava a decolagem, distraía-me olhando as pessoas que, numa das laterais da pista, punham vapores pela boca: falavam. Antevendo o tipo de viagem que eu faria um frisson percorreu-me a espinha. Eu, passageiro único de um longo vôo internacional Paris-Rio.
Desejei ter alguma companhia durante a viagem: nem que fosse um palestino com granadas no cinto ou, então, Allien, o oitavo passageiro. Melhor do que curtir uma solidão que já se prenunciava troposférica.
Subiu um tipo no avião. Franzino, usava um chapelão que me pareceu démodé. Mastigou um bonjour qualquer quando passou por mim e dirigiu-se à cabina de comando: era o piloto. Pôs-se a mexer chaves, botões e manivelas de modo a estremecer toda a aeronave. E a cuja foi ganhando velocidade, ganhando velocidade até que... se desgrudou do chão. No ato, fui transferido para duas poltronas atrás por meio de um salto simples mortal.
A equipagem do avião era constituída apenas pelo piloto e, por conseguinte, não havia aeromoças com acepipes para a gente duplamente beliscar. Ele, sozinho, não podia também se dar ao luxo de ir até o michel, se necessidade tivesse. Anotei outras dificuldades a bordo: ruído da pesada ao invés de uma música leve; inexistência de jornais para a leitura do horóscopo; sacos que vomitavam no próprio freguês etc.
Fui suportando. De antemão eu sabia (desde que comprara a passagem a um agente de viagens por um preço bem camarada) que o voo seria na classe econômica. E tomara algumas precauções, como a de levar uma lata de galinha com farofa.
O avião devia estar voando bastante baixo pois, num curto intervalo de tempo, foram de encontro a meus óculos um mané-magro e um besouro-do-cão.
Houve um instante em que cambaleei até a cabina de comando para oferecer ao piloto uma asa da galinha. Recusou. Quieto, caladão, ele mais parecia um mineiro. Pude então ver quão sub-utilizado era o painel do avião: o único instrumento que o pilotinho consultava, o tempo todo, era um curioso aparelho de dois (ou três?) ponteiros, o qual estava no pulso dele, lembro-me agora.
Surpresa das surpresas! O (meu) avião, com um accomplissement de fazer inveja aos concordes da vida, já estava pousando em sua primeira escala. Presumi ser Lisboa. Mas, não, era solo francês ainda. Saint-Cloud, um dos arredores de Paris, como mais tarde vim a saber.
A máquina-voadora parou, mas a estória é que não. Baixou um santo serelepe no “aeromaquinista” a ponto de ele, transfigurado, saltar do avião para os braços de um povinho que se formava no descampado, perdão, no aeroporto econômico. Levado com “hurras”, qual um técnico de time campeão, nunca mais tive notícias dele.
Começar de novo a viagem. Com a diferença que agora eu não tinha mais l’argent. Na França, pior de tudo, não existe como no Brasil uma “Lei dos Estrangeiros”. Dessas que, após uma declaração política, brindam o cidadão estrangeiro com uma passagem aérea de volta a seu país.
Então, procurei a Embaixada do Brasil. (Com os pobres de Paris aprendi essa lição.)
O embaixador, um cara legal, que considerava o Brasil a sua segunda pátria, valeu-me na dificuldade. E despachou-me para o Rio, a tempo de pegar a feijoada do sábado, num voo de outra empresa. Bem diferente da primeira que operava somente com um 14-bis.
(escrito em 1981, revisado em 2009)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

SOL, PRAIA... AÇÃO

Ir à praia é uma das formas de combater a solidão. Há uma impressão – errônea! – de que é o contrário, quando se observa o comportamento dos primeiros banhistas da manhã. Cada um, tacitamente, demarca uma espécie de lote de terreno particular. Entretanto, com o passar das horas, ninguém se constrange de ver o lotezinho repartido com mais e mais banhistas que vão afluindo. Até que, por volta do meio-dia, cada qual cuida de um minifúndio que só dá para plantar o próprio traseiro. Essa falta de espaço, longe de incomodar, é motivo de regozijo geral pois, onde há pessoas apinhadas, há condições favoráveis para o atamento de novas amizades. E todos blefam a solidão: tal é a confraria balneária.
Gurgelzim, assim que entendeu esse fenômeno psicossocial, vestiu um calção de banho e foi à prática. Chegou cedo – ainda com pouca gente por lá – à Praia dos Diários. Atraído por um biquíni amarelo com cadarços nas laterais, procurou se posicionar bem naquela manhã praiana. Querendo ser discreto, mas não ignorado, foi quedar perto da moça do biquíni, numa pontinha da esteira dela. Uma aproximação entre desconhecidos costuma requerer certo timing, menos para Gurgelzim que sabe ser, como ninguém, agradável. Capaz de soltar as amarras de qualquer pessoa, empregando tão somente o papo espirituoso e, além disso, originalíssimo.
1ª ação
“Já nos conhecemos de algum lugar?”
“Não”, respondeu a de biquíni.
“Acho que sim... de uma fila do INAMPS.”
“Nunca estive doente.”
“Nem eu”, troçou (com cedilha) o de calção, enquanto apertava a barriga para dissipar uma cólica de momento.
Como a beldade fizesse a menção de ir a um mergulho, Gurgelzim ofereceu-se para ir junto. Mas, ante um pedido dela, aquiesceu ficar no local tomando de conta de uma escova de cabelos. Demorou só uma hora.  
2ª ação
Gurgelzim falou sobre violência urbana, bebê de proveta, caça à baleia, plenilúnio, Triângulo das Bermudas, Cachoeira de Paulo Afonso e outras cascatas. Foi notado o interesse dela quando a “conversa” descambou para pneumotórax espontâneo, pois, na ocasião, ela disse “Hum...” e foi para um novo mergulho. Gurgelzim continuou sentado, apreciando uma pesca de arrastão. À distância... porque tinha de cuidar da escova de cabelos. (Ah! A Natureza sempre tão pródiga, enchendo a rede dos pescadores de latas de cerveja, copos de plástico e frascos de bronzeador...) Demorou só duas horas. 
3ª ação
Gurgelzim falou sobre cultivo de samambaias, metrô do Rio, Guerra dos Mascates, ritos de cremação, Ionesco, Besta do Apocalipse e outras coisas bestas. Ela participou vivamente do “interlóquio”, à maneira própria, coçando o nariz descascado pelo sol da praia. Justamente quando Gurgelzim contava uma anedota bem picante (fonte: revista Família Cristã), ela o interrompeu com a notícia de que ia mudar de ponto na praia. “Por causa dos raios solares, como eles estão incidindo aqui”, explicou. Pegou seus pertences, a escova de cabelos inclusive, e despediu-se com um beijo a apenas 15 cm (quinze centímetros) do rosto de Gurgelzim. Afastou-se, lindona, em seu biquíni amarelo que combinava com os sapatos altos da mesma cor.
Ação Final
Uma garota de conversa tão aberta, amistosa, não é de se esquecer facilmente. E Gurgelzim, um sentimental, ficou (re)mexido. Princípio de paixão? Talvez. O fato é que, desde então, Gurgelzim tem sentido uma dor no peito que nem com emplastro Sabiá passa. Se, ao menos, para um pouco de fetichismo, houvesse retido alguma lembrancinha dela... A escova de cabelos? Que nada! Ele ficou apenas com um número de telefone, que “num” ajuda, pois anda eternamente fora do gancho. Feito alguém.

A RUA GURGELZIM

Tipo interessante o Paula Ney. Fez muita boemia, alguma poesia e... virou nome de rua na Aldeota. Na Aldeota Leste. Há quem credite o fato à coquetterie da expressão “loura desposada do sol” que cunhou para Fortaleza, numa ocasião em que estava acometido do Sonetococcus brasiliensis.
Não vou, entretanto, generalizar. Muita gente também pegou o tal germe e não emplacou. Talvez por falta de febre e de delírio. Ou de sorte, como Gurgelzim, um azarão (por enquanto).
Antes que eu esqueça: Gurgelzim, apesar do que o nome possa sugerir, não é meu parente: fomos apresentados num espelho casual. Mas, conheço-o bem. Sei dos seus sonhos (desvirtuados), dos seus projetos (irrealizados) e, por conseguinte, do que mais precisa: de solidariedade humana. Uma qualidade, por sinal, que eu tenho bastante quando (me) reflito.
Assim, se Gurgelzim tem o desejo de virar nome de avenida, rua, travessa ou beco (nesta ordem de prioridade), diligencio para que ele seja atendido. Nem que eu tenha de fazer uma campanha do tipo RECONHECIMENTO URBANO PARA GURGELZIM!
Aliás, um reconhecimento desses já andou perto. No tempo em que Gurgelzim freqüentava o Rhuinas, um bar na Praia do Futuro, que lisonjeava seus clientes – os mais madrugadores – pondo os nomes deles em placas, que eram colocadas em suas paredes como se ruas fossem. Infelizmente não deu, pois o Rhuinas, antes do que se previa, teve o destino do próprio nome. Uma Pompéia irresgatável... para sempre.
Dia virá em que a coisa muda: confio nele. Desprende-se-lhe um pino qualquer e ele “estoura” em Fortaleza. Pode ser muito bem através de um soneto, feito em dia de sol crescente, com alumbramento comparável ao de Paula Ney.
A sorte está lançada. Ou melhor, laçada; com ela nas mãos a campanha ganhará a rua (em/de dois sentidos). Gurgelzim não pode continuar na lista telefônica como um mero assinante.
E tem mais: os vereadores de nossa cidade não faltarão com o indispensável apoio, acredito. Eles são tão eficientes nessas amenidades...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

POEMA ANTIESPORTIVO

E foi tudo pra nada:
O passe recebido
O drible aplaudido
A zaga deslocada.

E foi tudo pra nada:
O pique empreendido
O guardião batido
A meta escancarada.

E foi tudo pra nada:
O chute esfusiante
A rede de barbante
Com a bola encaçapada.

E foi tudo pra nada:
O urro, o murro ao vento
A façanha do tento
A torcida ouriçada.

E foi tudo pra nada:
O heróico gol de placa
Se o teu time, ó panaca
É o pior da temporada.

domingo, 21 de dezembro de 2008

VAN GOGH

Van Gogh, pintor holandês
Desconcertado, uma vez
Teve uma bem estrambótica
Idéia -  a ver com a óptica
Confusa na qual se via
Uma carcaça sem valia.
Então, insano pensar!
Decidiu ele amputar
Uma das orelhas suas.
(E pinçou uma das duas
Para passar o cutelo.)
Depois, achando-se belo
Pintou um auto-retrato
Na verdade, um caricato
A que faltava algo vivo:
O pavilhão auditivo
Que ficou com a sina torta
De ser... natureza-morta.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O "SONHO" DA MEZALÂNDIA

A Geometria nos fala de um cone de revolução, um sólido que é produzido pela rotação de um triângulo retângulo em redor de um dos lados do ângulo reto. E a Ciência Política nos ensina que a América Latina, em sua parte meridional, também tem o seu cone de revolução (ou de revoluções, já que são tantas, meu Deus).
Pois bem, está aí a Mezalândia que não me deixa mentir. Que está de gobierno novo, e cujo presidente acaba de anunciar que "o país vai entrar firme no mercado externo".
- Pode-se saber... com qual produto?
- Com o de sempre, o "sonho".
- Fazendo propaganda para incrementar a venda, imagino.
- Não, é o contrário. Aqui o segredo é a alma do negócio.
- E quem vai garantir uma operação comercial nessa condição?
- O General-Presidente, claro. Quem pode o mais, pode o menos.
- Está se referindo à revolução que ele fez?
- Que ele fez, com o respaldo popular. Pois antes ele ouviu seus parceiros de bridge, seu ajudante-de-ordens e sua esposa. Depois, pensou longamente por uns dois minutos e, abençoado pela nossa padroeira Santa Rita de la Cochabamba, só então decidiu.
- A seguir, em seu discurso de posse, ele calou fundo na alma do povo ao denunciar "os grandes males nacionais".
- Foi engano. Ele leu, por distração, a carta-renúncia do presidente deposto.
- Bem, voltando ao assunto do início, o "sonho". Ouvi dizer que toda a sua produção já está apalavrada com os compradores do exterior.
- É verdade. Não há "sonho" por aqui que já não esteja transformado em pasta, sua forma de exportação.
- A propósito, você fez me lembrar de que não temos a figura do ministro sem pasta.
- Lógico. Todos eles, o General-Presidente e seus ministros, estão perfeitamente sintonizados com o modelo da nossa 205ª revolução.
- Agora, uma pergunta final. Como vai ficar o consumo interno desse produto?
- Não se aflija. Teremos pesadelo de sobra nos próximos anos.

ZÉ BRASIL (ESQUETE)

O pano é aberto.
Mostra um cenário "hollywoodiano" - apenas no calendário da parede (merchandising da Souza Cruz). É o interior de um humilde barracão, pois.
Há a movimentação de dois personagens. Um, que atende pelo nome de Zé Brasil (em verdade, este pouco se movimenta; limita-se a dar gemidos pungentes numa cama), e outro, que representa a sua esposa, D. Esperança.
Alguém sopra dos bastidores:

Começa, ô panaca!
ZÉ BRASIL
Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, oi.
(Esta última interjeição não foi um gemido e sim uma saudação que ele endereçou a um terceiro personagem que penetrou no recinto.)
O novo figurante faz o médico. É um tipo gorducho, de óculos, que lembra o Dr. Sardinha da televisão, que lembra o... Bom, deixa pra lá.
(Na sua direção, aflita, corre D. Esperança.)
D. ESPERANÇA
Dr. Golfinho, meu esposo agoniza.
DR. GOLFINHO (pegando o pulso do paciente)
Calmaí... Quando começou a doença dele?
D. ESPERANÇA
Tem andado doente há alguns anos. Nos últimos tempos, esteve sob os cuidados de Dr. Henrique Simão que o proibiu de beber. Mas, ontem, após receber o seu mês de INPS, gastou o dinheiro todo na cachaça.
DR. GOLFINHO
Hum... deixe-me ver... Deve ter bebido meio litro de aguardente.
D. ESPERANÇA
Por aí, doutor. Então, quando acordou da bebedeira, elezinho falou de uma dor no umbigo e se pôs a gemer.
Dr. Golfinho passa a examinar o abdome do enfermo. Nesse ínterim, o contra-regra entra no palco para retirar um samovar - utensílio russo que não se coaduna com a ambientação da peça. E, concluída a apalpação diagnóstica, abre a sua maleta para pegar um frasco de remédio. O que faz com um sorriso de satisfação: sorriso gordo, com os dois queixos de gordo.
DR. GOLFINHO (mostrando "eucaristicamente" o frasquinho)
Pronto, minha senhora.
D. ESPERANÇA (esperançosa)
O remédio age logo?
DR. GOLFINHO
Antes de lhe dar a resposta, me dê uma informação. Vocês têm filhos?
D. ESPERANÇA
Netos também, doutor.
DR. GOLFINHO
Ótimo! E agora lhe respondo... que o medicamento tem ação imediata. Mas, antes de ministrá-lo, a senhora tem que agitar o frasco por uns quarenta anos. Comece agora. Vai servir para o Zé Brasil Neto.
Vendo o público enfurecido, Dr. Golfinho retira-se apressadamente. Nada tem de heróico o mezinheiro.
Cai, por enquanto, o pano.

(escrito em 1980, revisado em 2008)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

ARRAIAS, PAQUETÕES E BOLACHINHAS

O mês em curso me faz lembrar os julhos da minha infância. Quando o céu de Fortaleza ficava povoado de vistosas arraias fazendo as suas belas evoluções aéreas. Um fenômeno explicado pelas férias escolares que incidiam, ontem como hoje, num mês de muitos ventos.
As arraias (ou "raias" como pronunciavam os moleques), as quais, em outras partes do Brasil, seriam chamadas de pipas, pandorgas ou papagaios.
Para a confecção de uma delas, não se necessitava de muita coisa. Palitos secos de coqueiro, linha, papel-seda e um pouco de grude. Com os palitos secos, em número de três, amarrados nos cruzamentos por pedaços de linha (e com um destes pedaços utilizado para delimitar o perímetro) fazia-se o esqueleto da arraia. A seguir, nesta armação se colavam os retalhos do papel-seda por meio de um grude preparado na cozinha de casa.
Os complementos do brinquedo eram o cabresto e o rabo da arraia. Para o cabresto, que servia para prender a arraia, bastava um pequeno pedaço de linha. E, para o rabo da arraia, além de uma maior porção de linha, à qual se atavam pequenas tiras de pano (molambo era o ideal), a intervalos regulares, ficando uma tira maior, a ponteira, para ser colocada no final da linha. O rabo (ou rabiola) era então preso na extremidade da arraia para lhe conferir estabilidade. Sem ele, ao ser posta no ar, a arraia ficaria a girar loucamente e sem ganhar altura.
Havia uma versão gigante da arraia, o paquetão, cujo esqueleto era feito de taboca. O qual era colocado no ar apenas por quem tinha a robustez suficiente para controlá-lo. E existiam também as bolachinhas, umas imitações baratas das arraias, que serviam de divertimento para as crianças menores. Feitas de algum papel grosso, cortado na forma redonda, e a seguir perfurado por palitos de coqueiro que funcionavam como armação, eram feias e não ganhavam grande altura.
Empinava-se a arraia com a ajuda de um companheiro que a elevava bem acima da cabeça. Até que, a um sopro mais forte do vento, a arraia era largada enquanto o outro a puxava. O outro era o dono da arraia que, muitas vezes, tinha de correr contra o vento para que ela subisse. Não havendo o auxílio de um companheiro para empiná-la, a alternativa era o "soltador" de arraia se posicionar num local elevado como um muro ou o terraço de casa.
E a arraia subia em movimentos coleantes sob o incentivo de repetidos puxões aplicados em sua linha. Com esta, a cada instante, sendo liberada de um carretel que rolava entre os dedos do "soltador". Até que a arraia se encontrasse na altura desejada (ou a linha chegasse ao fim). Neste ponto, começava o bonito espetáculo da arraia a movimentar-se no espaço em resposta aos "lanceios" feitos no chão.
Uns contentavam-se com esse aspecto "pacífico" da brincadeira. Outros, porém, preferiam praticar o "corte" de arraias. Uma peleja entre arraias em que, ao cruzamento das linhas, uma delas (às vezes, ambas) sofria o "corte". E, ficando sem o controle da linha que a prendia, passava a ser arrastada pelo vento até terminar enganchada num fio elétrico, árvore ou telhado. Sendo, nessa "agonia", acompanhada pelos moleques em louca correria como se fora um troféu.
A muitos frustrava a arraia "cortada" ser também "aparada". Quando essa arraia "derrotada" não caía em domínio público, por haver sido em pleno ar capturada e recolhida pela arraia "vencedora", graças à habilidade do dono desta.
Não seria possível o "corte" de arraias sem a participação do cerol. Preparado com vidro moído e cola derretida, assim que secava na linha em que era aplicado, o cerol a transformava num instrumento verdadeiramente cortante. Capaz de causar acidentes nos brincantes e em terceiros, aliás, como acontece até hoje. E, o que é pior, com alguns destes acidentes a se mostrarem terrivelmente letais.

Publicada em 21 de julho de 2008 no EntreMentes.

ACHADO CASUAL

Antologia de prosa e poesia publicada em 2008 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Airton Marinho, Antero Coelho Neto, Celina Corte Pinheiro, Chico Passeata (Francisco Monteiro), Christiane Chaves Leite, Dalgimar Beserra de Menezes, Eilson Goes (15/06/1941 - 18/10/2008), Fernando Siqueira Pinheiro, Flávio Leitão, Francisco Tomaz Ramos, Ilnah Soares, Jesus Irajacy Costa, José Maria Bonfim, José Maria Chaves, José Wilson de Sousa, Luciano Arruda, Luciano Sidney, Luiz Moura, Marcelo Gurgel, Martinho Rodrigues, Nilson de Moura Fé, Paulo Gurgel, Pedro Henrique Saraiva Leão, Sebastião Diógenes, Vladimir Távora, Walter Miranda e Weimar Gomes.
Apresentação: José Maria Chaves (Presidente da Sobrames Nacional) e Linhares Filho (Professor do Curso de Letras da UFC e Membro da Academia Cearense de Letras) com o texto "Sob o Signo de Duas Artes".
Dedicatória: "À memória do Prof. Eilson: saudades sobramistas" por Marcelo Gurgel.
Projeto Gráfico e Arte Final: Júlio Amadeu
Coordenação: Walter Miranda
Organização e Revisão: Walter Miranda e Marcelo Gurgel
Imagem da Capa: Obra iconográfica do pintor peruano Pablo Amaringo após ingerir a bebida alucinógena ayahuasca.
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda.
Tiragem: 700 exemplares
Livro com 178 páginas.

ACHADO CASUAL

Lançamento do livro
A Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Ceará (Sobrames - CE) e a Diretoria de Cultura e Arte do Ideal Clube anunciam para hoje, à noite, a solenidade de lançamento do livro "Achado Casual", a vigésima-terceira antologia anual da Sobrames - CE.
Os autores e o livro serão apresentados pelo Prof. Dr. Linhares Filho, Membro da Academia Cearense de Letras.

Data: 25 de novembro de 2008, às 19h30.
Local: Salão Meireles do Ideal Clube.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A TÍTULO DE...

Vez por outra me surpreendo desempoeirando velhos papéis guardados. Entre notas fiscais, cartas, recibos, cartões de visitas, um que sempro encontro pegando aquele ranço é o meu título de eleitor.
Arranjo tempo para levar dois dedos de prosa com ele:
- Oi, bicho.
- Até que enfim... você me aparece. No mínimo, está de saída para votar.
- Desinformado... Então, as traças não lhe contaram? Que não vai haver eleição no ano de 1980.
- Mas... não estava tudo certo?
- E você... é como o cartão de crédito que acredita em tudo aquilo que ouve?
- Bem, a intenção...
- Aí é que está! É grande a distância entre intenção e gesto.
- Quer dizer que o partido do governo vai continuar...
- Um momento. Agora se diz: partido no governo.
- Detalhes de semântica.
- Muito mais. É o próprio jogo democrático, dizem.
- E a oposição?
- Caiu no conto do pluripartidarismo. Quando deu fé estava já toda dividida.
- Sendo assim, não vejo ocasião mais propícia do que esta para o partido no governo, como você diz, desfechar um golpe de misericórdia na oposição.
- Teoricamente. Na prática, a oposição pode fazer uma holding.
- E qual é a opinião dominante no seio da classe política?
- Olhe, anjo. Quem conseguiu lugar no salão vai continuar se requebrando para que o mandato, digo, o bambolê não caia da cintura.
- Você considera isso justo?
- Não. Mas os políticos, sustentados pelos resultados de uma pesquisa feita entre eles, bastante semelhante a uma que ocorreu no Congo Belga, em 1928 (Macaco, você quer banana?), acharam a prorrogação de seus mandatos a coisa mais justa do mundo. De modo que pretendem continuar representando o povo...
- Representando para o povo, fica melhor.
- Como preferir. Agora, a consequência é que você nem em 81 vai receber carimbada nova.
- Mas... 1982 promete. Com eleições para vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores...
- Não esteja tão confiante. A nossa democracia é dinâmica, hiperdinâmica eu diria, e não pode cumprir fielmente um modelo de nação mais desenvolvida, como a Guatemala, por exemplo.
- Pô! O que é que eu vou fazer esse tempo todo?
Nessa altura, percebo que a raison d'être do meu título de eleitor anda a perigo e tento bancar o amável, pois tenho medo de que ele abandone de vez a gaveta para ir morar no Arquivo Nacional.
- Semana que vem, vai ter eleição para síndico do meu prédio. Você quer ir comigo?

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

APENAS

O esbarro
- Olhe por onde anda, descuidado - pensei. Mas o grito gêmeo com o pensamento não aflorou. Segurei-o na garganta, assim que o estranho prontamente se desculpou por haver esbarrado em mim. E, sendo eu um pedestre costumeiramente desatento, até que ponto não havia também contribuído para o encontrão?
Mal se afastou o estranho, recompus-me. Os cabelos despenteados, as vestes em desalinho, os óculos mal armados no rosto...
A seguir, toquei-me em frente. Naquela rua de passantes tão apressados, outros esbarros que ocorressem. Sim, onde está o problema se todos temos as palavras corteses, os tapinhas nas costas e os sorrisos pré-moldados?
O meu receio é apenas o de que algum dia esbarre em mim mesmo.
(de 1980, reescrita)
O esparro
Na sala do meu apartamento de solteiro, como objeto de decoração, eu pendurara um tipiti na parede. O tipiti, para quem não sabe, é um cesto cilíndrico de palhas entrançadas, em cujo interior o caboclo da Amazônia põe a massa da mandioca ralada para ser espremida, antes de levá-la ao forno para que se transforme em farinha.
Não pensando em fazer agricultura de subsistência no apartamento, eu usava o tipiti ornamentado por uma planta do grupo dos filodendros: uma cara-de-cavalo.
Vivendo à sombra, e com uma modesta "ração" semanal de água, era uma planta realmente durona. Tirando algumas câimbras nas raízes, de que se queixava raramente, a cara-de-cavalo gozava uma saúde invejável. Enquanto iam tossindo e morrendo umas sempre-vivas vizinhas.
Certa vez, uma visitante me sugeriu aumentar-se-lhe o viço, colocando anticoncepcional em sua água. Bem, acho que a cara-de-cavalo não gostou da absurda sugestão. Pois tive a impressão de vê-la a rir, com todas as folhas, com o teor da resposta que dei à intrusa.
Que ela e eu éramos apenas bons amigos.
(de 1980, reescrita)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

ESTÓRIAS DE DESVALIDOS

Escrivão não leu, o pau comeu
Tenório Avenças era o escrivão juramentado do cartório de Arapiúna. Uma urbe de pé de serra onde ele, morando e autenticando documentos, fazia um tipo perfeitamente adaptado à monotonia do lugar.
Ao amanhecer, ele punha a sela no velho burrico, as suas pernas para atravessar a cidade, e ia se entediar no cartório em regime de tempo integral. E, apenas quando o crepúsculo começava a soltar os morcegos, é que ele, montado na lerdice do asno, fazia o caminho de volta para a casa.
Um pacato cidadão, o diligente Tenório. Com a ressalva de que, à sua passagem, não o chamassem jamais de "escrivão jumentado".
Porque aí, meu irmão, dava briga com viés de guerra mundial.
A flor vai ao lodo
Umas e outras tomou João Limeira, acompanhado por uma "mulher de programa".
De bordejo em bordejo, os dois foram parar no portão de entrada de um clube social. Um clube com fama de "fechado", ao qual ele, na qualidade de sócio remido, muitas vezes levara a família para as piscinas domingueiras.
Fazia menção de que ia entrar, quando foi barrado por um dos diretores do clube, o qual, empunhando o estandarte dos bons costumes, chamou-o a um canto.
- Limeira, esta mulher aí parece uma prostituta.
Já afogueado pela bebida, João Limeira cresceu:
- Olha, negócio de parecer é com as que já estão aí. A que vai entrar comigo é prostituta mesmo.
Enlaçou a mulher. Entrou.
Garrafa cheia eu não quero ver espocar
Bebedor contumaz foi um certo Angico. Já meio combalido, nem assim se esquivava das bebidas espirituosas.
Cachaça, vermute, rum, uísque (inclusive paraguaio), enfim, o que pintasse era com ele. Ali, no balcão... resistindo. E não repartia nem com o santo.
Uma vez, porém, foi visto abrindo exceção:
- Angico, champanha?
- Não, moço. Eu não posso ouvir mais aquele estouro...
E arrematava, pesaroso:
- Deve ser a tal neurose.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

BICHOS DO NOSSO FOLCLORE

Boitatá
Bicho temido que habita nos campos santos. Para limpar a honra de monstro ultrajado, espera um dia dar uma carreira (no sentido mais olímpico possível) naquele cientista que descreveu ser ele: “a inflamação de produtos fosfóreos de corpos orgânicos em decomposição”.
Boto
Mamífero em forma de peixe dos rios da bacia amazônica. Um autêntico Don Juan fluvial, pois se transforma em rapaz de boa aparência para seduzir as moiçolas ribeirinhas. Considerado o progenitor das crianças de paternidade ignorada, esta sua fama está a se acabar pelo uso generalizado dos exames de DNA.
Caapora
É visto nas matas brasileiras a cavalgar um porco-do-mato. Tem os pés invertidos, o que melhora o desempenho de acelerar o seu veículo animal. Por sua mania de percutir as árvores da floresta, há muito tempo virou persona non grata entre os cupins.
Lobisomem
De origem européia, naturalizou-se brasileiro. Sem abdicar do costume trazido de cometer desatinos nas noites de lua cheia. Meio lobo e meio homem, a sua porção racional é a que uiva.
Saci
O famoso negrinho de uma perna só. Entre as baforadas de seu cachimbo, vive a armar ciladas nos caminhos para atazanar os viajantes. O travesso molecote do barrete vermelho respeito só tem aos nascidos em Caratinga, a terra de São Ziraldo, um santo bípede.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

NAPOLEÃO

Napoleão franzino
Na artilharia:
Deus cresça este menino
Em galhardia.

Napoleão, sua fama
De façanheiro:
Estava pronta a cama
De brigadeiro.

Napoleão, só glórias,
Pleno apogeu:
Ninguém tem mais vitórias,
Espelho meu!

Napoleão no Egito
Piramidal:
A empostação num grito
Sesquipedal.

Napoleão, seu estro
De lutador:
Tão bem empunha o cetro
De Imperador!

Napoleão, o avanço
Tem tropelias
Quando respira o ranço
Das terras frias.

Napoleão, o logro
Deles se via
Na potência de fogo
Das pneumonias.

Napoleão, agora
São os ingleses
Que fazem soar a hora
De mais revezes.

Napoleão no exílio
De Santa Helena
E... finda-se seu brilho:
Ilha pequena!

Napoleão, quem sabe
Às visões mil
Não fossem bons os sabres...
Mas o Amplictil.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

INFORMATIVO "A FERRAGISTA"

Em outubro de 1976, o empresário Edmilson Alves de Sousa, diretor-presidente do grupo "A Ferragista", deu início em Fortaleza à publicação de um periódico mensal de sua empresa.
Com o nome de "Informativo A Ferragista", tratava-se de um mensário de circulação dirigida, em formato de tablóide, impresso em cor sépia e cuja tiragem ficava na casa dos 10 mil exemplares. Inicialmente era composto e impresso no parque gráfico da "Tribuna do Ceará"; mais adiante, estas etapas passaram a ser feitas no "Jornal O Povo".
Por ser de distribuição gratuita, era Edmilson quem arcava com os custos do jornal, embora estes fossem parcialmente reduzidos pela inserção de anúncios de fornecedores de sua empresa. E, com gratuidade, os colaboradores do "Informativo A Ferragista" também lhe fornecíamos o material de suas páginas.
Em 1982, Edmilson foi merecidamente agraciado com a comenda "Amigo da Cultura", da Secretaria da Cultura e do Desporto do Estado do Ceará, por seu trabalho à frente do "Informativo A Ferragista", então já contando com 66 números publicados. Um trabalho que ele, após a homenagem recebida, ainda deu continuidade até outubro de 1983, quando o jornal alcançou a marca final de 81 números.
Seções e colaboradores
Administração: Franklin Fernandes Teixeira (coluna "Condomínio, o que é isto?") e Pedro Coelho Neto (coluna "Obrigações fiscais e trabalhistas")
Agronomia: Dácio Oliveira Pinheiro
Cariri: jornalista J. Lindemberg de Aquino
Direito: Joaquim Solon Mota
Educação: Marlene Bastos e Cyra Montezuma (também sobre Turismo)
História: general Raimundo Telles Pinheiro e médico Vinicius Barros Leal (também sobre Medicina)
Humor: médicos Paulo Gurgel Carlos da Silva e Celina Corte Pinheiro (coluna "Sessão coruja")
Língua Portuguesa: professor Hélio Melo
Literatura: Dias da Silva (crítica literária), George Barros Leal, José Danilo Correia Mota, advogado José Feliciano de Carvalho, Barros Alves, médico Pedro Bezerra de Araújo (às vezes, sob o pseudônimo de Pedro Nadie)
Medicina: médicos Marcus Antonius B. da Cunha (coluna "Destaques médicos"), Ocelo Pinheiro e Valter Justa
Música: Christiano Câmara
Página Espírita: coronel Edynardo Weyne (coluna "Grão de Mostarda") e Lúcio Márcio Teles
Vários: padre Fred Solon, Aluisio Ferro Gomes ("Seicho-no-ie").
Além disso, outras seções (não assinadas) e outros esporádicos colaboradores.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

ILUSTRADORES

Rendo minhas homenagens àqueles que, através de seus traços artísticos, ilustraram alguns dos meus velhos escritos.
São eles:
- Amorim
- Duarte
- Emanuel Melo
- Karlus
- Klevisson
- Mino
- Moésio
- Não Identificados
- Ricardo Augusto
- Valber
- Yendis

sábado, 30 de agosto de 2008

NOSSOS MOMENTOS

O médico psiquiatra Wellington Alves de Souza, natural do Crato - CE, publicou em 1988 o livro de poesia "Nossos Momentos". Com esta obra, Wellington completou uma trilogia que havia iniciado em 1981, com "Momento de Tempo", e continuado em 1984, com "Outros Momentos".
Nas três obras, a presença da palavra momento(s)! Por ser a poesia, como lembrou o contista Moreira Campos na apresentação do livro, "um instante, um momento, uma centelha, uma visita". E que, por isso, como também complementou, ela (a poesia) "será sempre realizada num íntimo compromisso ou preocupação com o eterno".
Em "Nossos Momentos", a convite de Wellington escrevi uma das abas do livro. É o texto que acabo de inserir no Preblog. E a médica e poeta Aline de Moraes fez o texto da outra aba. Nas útimas páginas do livro, Adísia Sá e Eudoro Santana deram seus depoimentos sobre o autor. E o artista plástico Mino assinou a bela capa de "Nossos Momentos".
Aqui aproveito para dizer que Wellington é irmão do empresário Edmilson Alves de Souza, de quem eu já era amigo. Publicando, durante anos, o informativo mensal "A Ferragista" (uma espécie de house organ de seu grupo empresarial), que reservava espaço para assuntos diversos, Edmilson se destacou como um grande incentivador das artes no Ceará.
Foi nas páginas do informativo de Edmilson que eu dei os meus primeiros passos de escrevinhador.

Na galáxia dos livros brilha mais uma estrela. "Nossos Momentos", que Wellington Alves vem de publicar, por ser inteiramente impossível para o autor não partilhar conosco a sua rica cosmovisão. Na qual consciência não é ornamento, é ação. Ação que intenta reorganizar o homem, a sociedade para o seu grande destino. Por conseguinte, é o homem a sua confissão (malgrado o que disse Terêncio a respeito do ser humano). Arco de pura sensibilidade, o autor transpõe para o falar poético o cotidiano, a turbulência de existir, o tédio, a morte, a vivência psicanalítica, o sentimento da amizade, a esperança... e o amor à sua companheira, Fátima, "o ombro mais buscado". Do que resultam poemas de extraordinária oralidade, como se feitos para um jogral. Ou para que o solo de um violão lhes dê o contraponto. Além de tudo, Wellington é solidário com a vida em sua totalidade;na dor (o vitimário das arenas burguesas), mas também na alegria, na beleza e na liberdade. Este último sentimento, por sinal, tem feito dele um globe-totter e um poeta engajado na grande causa socialista. De ambos os ofícios, ao que parece, o autor de "Nossos Momentos" obtém a renovável força ("Aquela Criança em Acapulco...") para o cantar libertário. Axé para você, poeta.

sábado, 23 de agosto de 2008

A COR DO FRUTO

Em 1986, um jovem chamado Fernando Novais, então com 22 anos, nascido na cidade de Jardim e que cursava Odontologia na UFC, estreou literariamente no Ceará com um livro de poesia, "A Cor do Fruto".
Eu o havia conhecido nos circuitos boêmios de Fortaleza, algum tempo antes. Em 1985, talvez. Lembro-me de que gostava de MPB e de que vinha também fazendo poemas para um livro.
Senti-me lisonjeado no dia em que ele, ao me passar os originais de "A Cor do Fruto", pediu-me fizesse eu uma apreciação a respeito. A qual foi parar numa das orelhas do livro, ao ser este impresso. E que, agora, a coloco nesta postagem do Preblog
Nesse livro de poesia, considero que andei em excelentes companhias. Com Carlos D'Alge, que o prefaciou, e com Joaryvar Macedo que escreveu a outra orelha.
(Por falar em Fernando Novais, onde andará o amigo poeta?).

Não pretendo, neste espaço disponível, realizar uma análise estilística acabada da poética de Fernando Novais (FN), em "A Cor do Fruto", obra literária que ora se materializa. Meu propósito, bem mais modesto, é chamar a atenção do leitor para certos aspectos da técnica literária que o autor emprega neste livro, assim como para o seu temário.
1 - o som: de seus versos de metro espontâneo. Além de rimas FN usa, à saciedade, outras combinações sonoras como o eco e a aliteração. Linguagem sendo igual à massa sonora. Deste modo, frases e palavras são sacrificadas no altar da metáfora. O nocional pelo imagístico. É o perde-ganha da poesia.
2 - a denúncia: sobre o mundo desigual, o pensamento automatizado, a guerra, os seres sem pretexto, a inanição do sentimento, a hipocrisia etc. Usando apenas de expressões contidas (e evitando o chamado "texto sujo"), FN "dá uma geral" sobre a vida, seu balanço canhestro. E suas conclusões são irônicas e, por vezes, imprevisíveis.
3 - o ludismo: de quando o poeta cultua o instante, o descompromisso, o aqui-agora. & brinca com a ambigüidade das palavras & revisita os adágios já gastos & revolve o cancioneiro patropi. De quando o poeta, anarquicamente quase, cola os fragmentos de sua mundivivência. Coisa com qualquer loisa. & a geléia é geral.
4 - o corpo: "mais uma necessária montaria / do que ideal companhia", tal como é rotulado pelo poeta. Que, como qualquer homem, sofre as agruras da condição humana (ser matéria descartável é uma delas). Contudo: haverá um "eu" eterno, aderido ao "eu" percível? Não sei a resposta definitiva. Só sei que FN, vez por outra, bota as asas de "anjo contrário" e... ganha altura.
Não existe arte senão para outro e por outrem. Saboreemos, pois, as essencialidades de "A Cor do Fruto", de Fernando Novais.

domingo, 10 de agosto de 2008

EM BUSCA DE POESIA

PROEMIAL

Há janelas abertas no telhado por onde entram luzes. Do sol, da lua e das estrelas. Quando::: Actéon ousa ver Diana, a Caçadora. Ela, porém, encontrando-se desvestida, não gosta e faz mágica má. Act contínuo, Éon vira cervo e é perseguido por feroz matilha. Morre. Cervo ou servo, Lady Di não o quis. E, para gregos, romanos e bárbaros, expli::: citou::: que o banho de uma deusa é (para ser) indevassável.
(O vate o que mora numa água-furtada - há janelas abertas etc - sabe esta e outras estórias. Que sabem a plenilúnios.)

+

O livre o desabrido. O que vigia dourados trigais. O que ninguém consegue pegar a unha NEM à espora - galo.
Quando o olho clarear será aurora.
E::: das cinzas faz-se a (outra) ave, desiludida tão. Recompondo-se como há séculos há seculórios aprendera de sacerdotes, em Mênfis.
É-lhe imanente a memoração. Porque os grilhões do DNA.
Ave, ave. Só a engenharia genética, um dia, vos dará as exatas asas para o vôo libertário.

+

Como é bom tocar um clavicórdio! Aquele um.
Bailam Maries, Amandas e Yolandas. Bailam dançarynas de/os traços mais fugidios. Por seus rostos não se lhe adivinham as máscaras.
A dança é breve, é. Enquanto seu yang/sangue ferve por vós.
Cortai para::: uma cinelândia-fantasma de gentes que não dançam mais, que não dançam, que não, que::: a memória é urna cinerária.
Bye, bye larinas.

+

Andar ilho andar ilha.
O rio circular o que margina a ilha é Uroboros, a serpente que morde a própria cauda. Da esmeralda é sua cor.
Quando ele o rio encrespa a superfície / & ela a serpente, a pele / ::: aí tendes vagas ((intransponíveis)) vagas. E a solidão do mundo no próprio mundo.
O ser insular o gnomo da hexacorália.
Morreis muitos em Uroboros, suas estremeções periódicas.

+

Quanta coisa se irisa diante de mim!
Ou::: mais alucynações. Sois cavilosa, ó ânfora etrusca.

+

O deserto por palmilhar. Mas o que é o deserto senão a orla de um oásis?
Irei convosco, pois. Seremos dromômanos, manos sob o olhar complacente dos djins de fogo. Suportaremos manos, nós, o peso das mochilas, fardos da temporalidade. E deixaremos profundas, fundas pegadas na vastidão arenosa, que o vento, acumpliciando conosco, por certo não as apagará.
Assim, saberão os pósteros que estivemos aqui, ali / & ontem, hoje / em busca do poema, seus mananciais.
Porque amanhã em Aldebarã, a estrela.

Escrito para prefácio do livro "Em busca de poesia", de Dalgimar Beserra de Menezes, que foi publicado em 1985.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

MÉDICOS ESCRITORES E ESCRITORES MÉDICOS

Livro que reúne mais de cem autores, entre médicos escritores (que fazem literatura) e escritores médicos (autores de livros de medicina), que foram graduados pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.
Foi uma edição comemorativa dos cinqüenta anos da FMUFC, que contém, em sua primeira parte, dados biográficos dos autores e, na segunda parte, uma antologia de textos.
Livro organizado pelo médico Geraldo Bezerra da Silva, por indicação do médico e professor José Murilo Martins.
Integra a Coleção Alagadiço Novo cujo Conselho Editorial, em 1998, era composto por Francisco Carvalho, José Murilo Martins e Geraldo Jesuíno da Costa
Apresentação: João Maia Nogueira
Capa: Assis Martins
Editoração eletrônica: Carlos Alberto Dantas
Imprensa Universitária, 1998
180 páginas

Participo deste livro com meus dados biográficos nas páginas 55 e 57 e com o poema "Descubram seus rostos" e o conto "Ponto e vírgula" nas páginas 157 e 158, respectivamente.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

1º CONCURSO NACIONAL DE PROSA E POESIA

Livro publicado pela Associação Médica Brasileira (AMB), em 1991.
Reuniu os textos em 10 primeiros lugares nas categorias prosa e poesia de um concurso nacional, promovido pela AMB, por ocasião de seu quadragésimo aniversário.
Prefaciado por Antonio Celso Nunes Nassif, Presidente da AMB. Apresentado por Julio Sanderson de Queiroz, Diretor Cultural da AMB.
Coordenadores do livro: Mario Jorge Rosa de Noronha e Julio Sanderson de Queiroz.

O CAMINHO DO MEIO
(7º lugar)

Um dia Godarta se encontrava à sombra de sua figueira-da-índia favorita. Exercitando-se na separação do Eu, enquanto a mente vagueava pelos confins do mundo. Assim, via-se uma carpa prateada a mergulhar num rio bem profundo, procurando alcançar o ponto onde repousavam todas as causas. E reconhecia-se no corpo de um crocodilo cujos toscos dentes tinham inquietações menos metafísicas. Godarta era a carpa que não morria, o crocodilo que não jejuava e era: Buda, o Iluminado.
Nisso, eis que dele se aproximou Bronkho, o discípulo não exatamente favorito. Bronkho era um obtuso do espírito. Por mais que se esforçasse ele não assimilava as Quatro Verdades, que são o cerne da doutrina budista. A bem da verdade (desta vez, verdade não budista), entregue-se Bronkho pelo seguinte. Perigava ele ser jubilado, a começar na disciplina de Godarta. Pois que nada, até então, se decantara do espírito do discípulo que melhor não se conseguisse do espírito de um javali.
Foi todo metediço, ele. E, querendo ganhar ponto, na tigela de esmoleiro do Mestre depositou figos. Um punhado de figos cristalizados... quando Godarta só os comia ao natural. A seguir, sentou-se. De modo que sua postura imitasse a do Mestre, nas comichões inclusive.
"Oh, por que não tirei patente desta posição?" - pensou Godarta. E mergulhou em si novamente. Nesses mergulhos era quando ele consultava a glândula pineal, a bola de cristal dos Iluminados. Mas Godarta mergulhou a ver se Bronkho desistia do assédio e ia chapinhar num lago próximo com as velhas cegonhas. "Homessa! Nem com elas o noviço aprendera a fazer as abluções." Só que Bronkho - com a idéia fixa de ser também um Iluminado - não arredou pé. E continuou a cacetear o monge.
- Mestre, como devo proceder para alcançar a Iluminação?
Godarta, por uns momentos, acarinhou a idéia de mandar o discípulo para o Ciclo dos Renascimentos. Numa transmigração à ré, quem sabe, ele chegasse a pirilampo, bichinho que tem lá suas iluminações. Mudou de idéia, porém. Assim que lembrou ser Bronkho, sem carteira de trabalho assinada, um ativo faz-tudo doméstico. Mais: lembrou que o noviço lhe proporcionava, o tempo todo, um senhor treinamento na virtude da Paciência. Então, em vista destes lembrados, o Venerável preferiu mil vezes resmungar o "Om", a palavra das palavras.
No oco da figueira sagrada Godarta tinha um adjutório. Para quando alguém fazia uma pergunta como a que Bronkho fez. Uma harpa em miniatura, a qual era vigiada pelos esquilos que habitavam a árvore. "Ah, o Nirvana não é tudo!" E Godarta costumava tocar a harpa para o seu corpo ficar Sansara, para ficar tudo jóia rara, qualquer coisa que se falara. Etecétera. Mas... o Venerável usava também a harpa para ilustrar os seus ensinamentos. E - era aquela uma ocasião - a entregou ao morrinha do Bronkho, acompanhada de uma pergunta de reflexão.
- Quando as cordas estão muito retesadas, obtém-se um som agradável?
- Não, Mestre.
- E se estão por demais frouxas?
- Também não, Mestre.
Óbvia a intenção de Godarta. Através desse diálogo, mostrar ao noviço o caminho para a iluminação. O Caminho do Meio.
Assim, prosseguiu:
- Afina, pois, as cordas do instrumento. Nem tão tensas nem tão frouxas... e toca.
- Mas, Mestre, eu não sei tocar harpa.
- Então, esquece.
Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. E se Bronkho era Buda em botão... não levava jeito de desabrochar. Foi o que Godarta concluiu um pouco antes de se fazer peregrino para mostrar a todas as gentes o Caminho do Meio.
Quanto a Bronkho, o Opaco... ah, esse ficou no Meio do Caminho.

domingo, 20 de julho de 2008

POETAS DO BRASIL

Coletânea de poesias publicada em 1985 pela Mirante Arte Editoral. Obra com muitos participantes e editada pelo sistema de cooperativa.
Neste livro encontra-se o meu "Micropoemas do Infortúnio". Revisado e por partes, o "Micropoemas..." tem sido também publicado no Blog do PG.