sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

CONTINENTE À DERIVA

Relatório da NASA, recém-divulgado, (1) dá suporte à teoria da deriva dos continentes, segundo a qual essas extensões de terra (que flutuam sobre o magma em estado de fusão) estariam lentamente se deslocando. Descobriram os cientistas que o continente americano vem se afastando da Europa e da África e que, como consequência disso, o Oceano Atlântico se alarga 1,8 centímetros, anualmente.
Quem primeiro formulou a teoria, recebida com risível visível descrença pela comunidade científica, foi o sábio alemão Alfred Wegener. E, por muitos anos, a teoria wegeneriana das placas tectônicas (ou das placas teutônicas, em consideração à nacionalidade do sábio) não passou disto: teoria; mas, em face das recentes medições efetuadas pela NASA, pode-se afirmar, já: a ideia de Wegener emplacou.
Nessa altura, Monroe - o que restou dele - deve estar dando inhos pulos em seu mausoléu. Sua doutrina política - a América para os americanos - recebe, enfim, o aval da geodinâmica. Mas... aumenta o fosso entre o Velho e o Novo Continentes, alguém contradirá. Fossilismo. Como se o Oceano Atlântico, incontinênti, não cobrisse o fosso com águas tomadas de empréstimo ao mar do Japão.
Comprovada a teoria, interessa, agora, cogitar que mudanças acontecerão no século-a-século do continente vespuciano.
Nos Estados Unidos, para entabular conversa. Neste país haverá protesto da influente comunidade judaica. Esconjurarão a nova diáspora. Mas será a vez dos fóbicos (aproveitem, aproveitem), já que os aviões comerciais farão a rota Los Angeles - Honolulu apenas taxiando. Quando? Na era pós-Reagan (que tem o valor de um Cibazol para o dito-cujo).
Já no México, na esteira de uma interpretação errônea do boletim da NASA, se bem que por curto tempo, haverá uma grande euforia (descabida, saberão depois). "Enfim safamo-nos do tacão norte-americano!". Mas qual! O continente se move como um todo. E no México continuará tudo como dantes: "tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos". (2)
Quanto ao Canadá é um caso à partilha. Seis milhões de franco-canadenses, ao frigir dos ovos, tentarão fundar o chez-Canadá. Pé não dará. Uma saída à francesa não funciona bem quando é para inglês ver.
Desçamos à porção sul do continente vespuciano.A Colômbia será uma só torcida organizada. Pelo desgarro  da América do Sul de sua xará Central. Com um pouco de sorte - clivando-se o continente no istmo panamenho - poderá reaver alguma parte do Panamá que outrora foi seu. Não vejo bem a Argentina na bola de cristal. Mas poderá, se houver general bêbado na Casa Rosada, ir à tréplica nas Falkinas. Com a coragem adquirida na distância - que aumentará - com relação à Grâ-Bretanha. Porém, não esqueçam os hermanitos que "a história é uma velhota que se repete".
E o que acontecerá ao Brasil? Com este país que, no concerto entre as nações, é o décimo violino?
Primeiro, nossas casas se moverão um inho pouco; os cartório de imóveis, idem; e o BNH, idem com impertinência. Segundo, adotaremos nas relações exteriores o magmatismo (de magma) irresponsável, que é mais condizente com a nossa índole. Terceiro, será ampliado o mar territorial brasileiro, mas isto em decreto ultra-reservado para que a Bolívia e o Paraguai não ponham mau-olhado. E, quarto, sentiremos enjoos irrefreáveis e crescentes. Serão enjoos de terra móvel. Quando do futuro clímax, o Excelentíssimo Sr. Andremaluf, o Vomífico, o Presidente Indireto da República, (3) comparecerá na televisão em cadeia (epa!) para mais um... blá-blá-blá.
E haja Brasil! (4)

(1) Obviamente antes de 17/06/84, a data em que este crônica foi publicada no jornal "O Povo".
(2) Esta frase é genuinamente mexicana.
(3) Errei nesta previsão.
(4) No original era: E haja Plasil! A frase foi alterada por José Raimundo Costa, editor do jornal na época da publicação.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

QUANTO FOI?

Numa certa época, quantas vezes não me sentei em um banco da Praça do Carmo! Mas não se tratava de instantes do desfrute de algum otium cum dignitate desse seu criado Matias, porque eu então me achava na flor da meia-idade. Sabem como é, eu não gostava de ir gratuitamente (o taxista concordaria?) ao centro da cidade e, mesmo hoje, só faço isso quando algo me obriga a tanto. Então, sentar-me num banco da praça era para mim uma espécie de interregno, entendam assim. E era também a oportunidade de dar uma boa engraxada nos sapatos.
Invariavelmente, eu escolhia para sossegar as pernas o banco em que "batalhava" um engraxate perneta. Como forma de incentivar o trabalho de um deficiente físico ou porque este se mantinha reservado e silencioso durante a função, até hoje não sei. O fato é que me desagrada a tagarelice de certos profissionais, sobremodo quando pode me atrapalhar a leitura de um jornal, revista ou enciclopédia. Sacrificar esse hábito para ficar escutando, por exemplo, que "quando Cabral chegou ao Brasil, seu moço, isso aqui já estava cheio de caboclo baiano" não é nada interessante. E isto, por exemplo, foi o que eu já ouvi, com esses ouvidos que a terra há de comer, de um engraxate que fazia ponto na Praça do Ferreira.
Como um dia sintetizou o sábio alquimista, falar é prata e calar é ouro.
Calar, naqueles instantes, era para que pudesse ler em sossego o meu jornal. De modo que, lustrados os sapatos, ilustrado um pouco mais ficasse o dono deles. Embora se questione a vantagem (qual? qual?) de um homem moderno viver bem informado de tragédias, a "peça de resistência" da nossa imprensa. Em matéria de tragédia botamos os gregos no chinelo. Fora os raios desferidos por Zeus, temos todos as tragédias dos gregos e, ainda, a maior de todas as tragédias. É que somos, como alguém já observou, economicamente trágicos.
Toc, toc. Era o instante em que o engraxate perneta, com duas pancadinhas da escova na lateral de sua caixa de trabalho, sinalizava que o serviço fora concluído. Eu parava de ler o jornal, de fazer minhas ruminações (V. parágrafo anterior) e, ato contínuo do Banco do Brasil, metia a mão no bolso com uma pergunta já na ponta da língua.
"Quanto foi?".
E, assim que ele dizia, pagava-lhe o serviço feito - com alguma gorjeta (gratificação que se destina à gorja ou garganta, segundo os etimologistas). Era o sinal de minha aprovação ao serviço feito.
Apesar de não ser exatamente o caso, dali eu saía assoviando o "André de sapato novo", só parando nos breques do chorinho para olhar os pisantes e envaidecer-me de como eles tinham ficado.
Um dia, porém, a minha pergunta recebeu uma resposta inesperada (dita com certa animosidade até).
"Você num já sabe quanto é? Por que pergunta?"
Exatamente quanto custava a engraxada naquele dia eu não tinha a menor noção. E, no país da inflação, haja cachimônia para alguém se dedicar a acompanhar preços e tarifas. Nenhum bem aqui produzido, nenhum serviço aqui executado vinha conseguindo sustentar o preço do dia anterior (só meses após é que o Funaro entraria no saloon para curarizar os etiquetadores das lojas e dos supermercados). Portanto, eu precisaria de um computador da última geração que custaria... aí por volta dos... ora, esqueçam. Tinha encontrado um lustrador de sapatos que não sabia onde estes apertam!
Retirei-me com a afronta atravessada na garganta, sentindo-me um perfeito Aureliano ("era para eu perguntar ou responder?").
Mudei de engraxate. Pouco tempo depois, mudei de sapatos. Para aqueles que dispensavam a atenção dos profissionais do brilho.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O ORADOR BAIANO

O avião tinha acabado de decolar do Aeroporto Pinto Martins. Voo para São Paulo com escalas. Pelo microfone, o comandante Aparício fez a saudação de praxe. O célebre "senhores passageiros, aqui lhes fala o... blá, blá, blá..."
Nisso, um tipo recém-embarcado, baixo e de poucas carnes, sem qualquer consideração ao aviso que mandava prender o cinto e ficar sentado durante a decolagem, pôs-se de pé. Pigarreou. E deu início a um formidável discurso de retribuição aos votos de boa viagem. "Em nome de todos os passageiros deste avião", sem explicar, porém, como e quando lhe fora dado o tal mandato.
Refeitos da surpresa, logo soubemos quem era ele: um orador baiano! Meus Deus, orador baiano é fogo! Onde quer que reúna gente, aparece um deles para discursar. Naquele estilo arrebatado, empolado e gongórico que faz do suplício chinês algo preferível.
É... ninguém sabe onde o orador baiano vai buscar tanta inspiração. Já estiveram num enterro em que, estando prestes a baixar o corpo à sepultura, aí começa a chover? No qual esse fenômeno do tempo, que nada tem a ver com o falecido (pessoa boa, honrada e tal), é logo incorporado ao panegírico ("até a natureza chora") que alguém está a fazer? Pois bem, esse alguém, sem padecimento de dúvida, trata-se de um orador baiano.
E ali, naquele "pássaro de aço" (expressão dele), tínhamos o não tão raro espécime. A triturar a finita paciência coletiva com a seu infinita peroração.
Nas horas seguintes, o Carcará de Haia prosseguiu com sua falação. Pois orador baiano, segundo reza a lenda, só pode ser neutralizado à base de sabacu, um recurso que nós, civilizados passageiros, não iríamos tentar, ah, não iríamos! Ficasse o problema a aguardar outro tipo de solução, uma solução biológica, talvez.
Mas, enquanto o ictus apoplético não lhe acontecia, outra coisa se manifestou: o microfone de bordo anunciando que o avião ia pousar. Foi quando o homenzinho, que já estava no vigésimo "como eu ia dizendo", parou o seu discurso. Como que estivesse atendendo a um apelo misterioso, se bem que não era exatamente isso. Ele ia simplesmente descer... porque havia chegado a seu destino. Afinal, era a escala de Salvador.
E com que alívio o vimos desaparecer de nossas vidas! Um alívio que, porém, infelizmente, logo esvaneceu. Assim que ouvimos um dos passageiros, atento ao que estava por acontecer lá fora, com a voz de desânimo anunciar:
- Ei, turma! Está assim de orador baiano para entrar no avião!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

VIAGENS

"Viajas até mesmo ao redor de tua inacreditável imobilidade." - Emílio Moura

Uma coisa o presidente Sarney conseguiu. Em se tratando de viagens presidenciais ao exterior, estabelecer um número sem precedente na história da República. E, ao mesmo tempo, ainda sem haver concluído o mandato presidencial, já deixar uma marca desafiadora para o porvir. Se bem que o futuro, esse eterno pregador de peças, para a desdita dos brasileiros, possa estar nos reservando o seguinte. Outro presidente que nem Sarney, igualmente viajeiro. E, a mais, desfrutando de uma continuidade no poder à la Stroessner (por isso, batam na madeira três vezes).
E o nosso presidente só não vai mais longe porque lhe podaram o mandato. Assim é que, encontrando-se no último ano de governo, ele tem de contentar-se com mais três viagens. E se definir se ainda faz mais duas... Mas é claro que as fará. Ou o pessoal efetivo da comitiva ("tudo pelo elevador social") pedirá a interdição do presidente, alegando alguma insanidade mental. Sarney enjeitando ir ao "exté", onde pode asssumir o papel de que tanto gosta (estadista latino-americano), pode ser tudo... menos Sarney. Dado que não se entende um homem afastado de sua joie de vivre.
No entanto, é possível que cada viagem funcione como uma espécie de fuga. Acossado pelos inúmeros problemas do país, o presidente aqui e acolá opte por dar uma fugida. Não no sentido meramente alegórico, mas fuga mesmo de corpo presente (ou será de corpo ausente?). O assunto está ficando abstruso, não é? Mas vou retomá-lo, dizendo que Sarney um dia escafede-se de vez (pela fronteira, usando a senha "estagflação"). De sorte a evitar o tratamento de choque que Platão preconizava para os poetas da República. Da República de Platão, bem entendido.
Governar este país não é um passeio, como em princípio se pensou. Se vai, Sarney também volta, para que o cargo não seja decretado vago. Pois, por espinhoso que pareça, já tem um monte de aventureiros, querendo lançar a mão... É só ver a corrida maluca dos presidenciáveis ao poder. Alguns deles, inclusive, já foram à Europa para receber o cobiçado polimento. De social-democrata que, dizem, é bom para a candidatura (na do Marronzinho eu pago para ver...). Mas, como até o momento em que escrevo estas linhas, não se gastou nisso dinheiro do contribuinte, então tudo bem.
Não há, porém, como justificar tanta gente a acompanhar o presidente Sarney em cada viagem. Há apenas como explicar. Partindo-se da noção de que é uma fraqueza humana se gostar de boca-livre, e de que coisa outra não é uma viagem dessas. Entretanto, gente em excesso nessas comitivas só contribui para criar a imagem de um país perdulário (de endividado não é segredo). Além, é claro, de trazer na bagagem alguns novos problemas para o presidente. Remember o episódio dos micros da viagem aos Estados Unidos.
De fora da esbórnia, o povão já descobriu que existe uma "melô do Sarney". Ei-la: "Se diverte e já não pensa em mim". Também pudera, não tem direito a participar da lambança oficial. Só político, ministro, empresário, a parentela... mas o povo mesmo, nunca! Afinal, o que entende o povo dos altos negócios que são acertados lá fora? Ora, que fique ele cá submetido à experiência do último pacote econômico (o primeiro heterodoxo a gente não esquece...).
Pois é, vamos e venhamos que o presidente esteja a se desincumbir lá fora de um ror de assuntos importantes. Só que, oh! ror... ainda não se sabe, desse tour de force, qual é o retorno em prol do país. A dívida externa, por exemplo, não diminuiu um tiquinho sequer. Ao contrário, só cresce... e parece mais inexpugnável do que a Fortaleza da Solidão. E isto para não falar de todos aqueles comezinhos problemas (enfadonho enumerá-los) que estão "pelaí" comendo solto. Sob uma inflação anual de mil por cento... à sombra.
O duro é olhar no mapa-múndi e constatar o muito que o presidente ainda tem por fazer. Barbados, Liechtenstein, Nepal, Ilhas Seychelles... ainda não foram visitados. E não é para menos. Diante do pouco tempo que lhe resta na Presidência, é tarefa hercúlea para um homem só (força de expressão, já que não se leva em conta todo o pessoal). Talvez fosse o caso de botar na jogada, nisso que é uma atividade indo e voltando, o seu atual substituto. (1) Há comemorativos recentes que atestam ser ele do ramo. (2) E depois, quem sabe, também botar na jogada o vice do vice, o...

(1) O vice-presidente Paes de Andrade.
(2) A viagem do vice a Mombaça - CE.
Sábado, 05/08/89

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

QUARTO DE EMPREGADA

Uma das obsessões da construção civil tem sido o barateamento das unidades habitacionais que constrói. Evidentemente, isso tem limites. Um apartamento cuja sala é ém "I" - e não em "L", como inicialmente se previa - acaba afastando os prováveis compradores. Um acabamento anunciado como de primeira e que não o é, também. Experiências revolucionárias com a utilização de novos materiais como, por exemplo, fazer as paredes de papier mâché (papel amassado), então nem fala. Antes de tudo, o adquirente de um imóvel é um sujeito bem conservador.
E a política de minimização de custos das construtoras acaba sobrando para uma dependência: o quarto da empregada. Que têm sempre dimensões liliputianas por maiores que sejam as do apartamento. Descrevendo um deles, Rubem Braga disse: "Um quartinho tão minúsculo onde uma pessoa não pode respirar com muita força que esgota completamente o ar." Embora tal nível de consciência não o impedisse de transformar o quarto de empregada no despejo do apartamento. Na oportunidade em que Braga recebeu uns fardos pouco desejáveis, que "não podiam ficar na saleta do cronista".
Ao comprador de um apartamento Millôr Fernandes dá a seguinte orientação no item armários embutidos: "Conte o número e o tamanho dos armários embutidos. Mas conte com cuidado porque, muitas vezes, você pensa que está diante de um armário embutido e está diante do quarto de empregada." Ora, imaginam os senhores construtores que a empregada doméstica, feito aspargo em lata, dorme em pé? E que, nas paredes do quarto, assim que ela estiver instalada, não vai a mesma afixar pôsteres de Michael Jackson, Xuxa Meneghel e Paulo Ricardo? O tipo do detalhe que deixa o compartimento ainda mais exíguo.
E o quarto em questão continua num processo de encolhimento que faz lembrar a anã branca (a qual, por sua vez, faz lembrar Adelaide, a anã paraguaia).
Quarto de empregada é assunto que eu falo com conhecimento de causa. Em 1972, eu morei num quarto-e-sala do edifício Corumbá, em Copacabana. Republicanamente, com colegas médicos recém-formados, e todos "duros". O quarto-e-sala ficava ali no Posto 2, próximo ao afamado Beco da Fome (do qual eu não pretendo fazer aqui nenhum comercial). Um dia, porém, quando a vida em república já cansava, recebi o convite para ir morar num local mais família. O convite veio de minha irmã Marta e de seu marido João Cunha(do), que estavam fixando residência na Glória.
Então, ai de ti Copacabana! Peguei meus teréns e fui morar na rua Benjamin Constant, onde a vez primeira cheguei com o coração ofegante (devido à ladeira, meu irmão).
No pequeno apartamento da Glória, coube-me o quarto da empregada. Tão pequeno, ele, que uma vez aberta a cama de campanha não sobrava espaço para alojar outro pertence. Quando, por exemplo, queria pensar, eu precisava pegar o elevador de serviço (tinha a permissão), atravessar o saguão do prédio, e descer a rua no rumo das obras do metrô do Rio. A razão inclusive por que me tornei um peripatético.
Uma gozada coincidência. Um dia, por razões de serviço, eu fui transferido da rua Benjamim Constant para a cidade de... Benjamim Constant, no Amazonas (ora, vá gostar de positivismo assim). Pois bem, com essa repetição dos nomes, o Exército quase não me deu a ajuda de custo para a transferência.
Nem por isso, naquele quarto, eu passava maus quartos de hora. Minto, eles aconteciam. Apenas quando a cama de campanha estava armada e não era a hora de dormir. Mas eu era feliz e... sabia. Só não sabia era... como tinha conseguido sair do quarto o valente pedreiro que o construiu? o eletricista? o pintor, hein, hein, hein?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O VIOLONISTA MAIOR CLÁUDIO COSTA

A manhã nascia azul quando Cláudio Costa pegou o violão. A vez primeira. Vivia-se o samba-canção, a guarânia, o bolero, a bossa-nova e o rock dos anos 60. Parodiando a célebre frase de Miguel Pereira: o Brasil era um vasto território musical.
Consciente de seu órfico papel, Cláudio entrou em cena. E logo o tínhamos a debulhar sons, divinos sons da magia de seu violão. Sons de carrilhões. E, numa serenata no Parque Araxá, deu-se que Cláudio foi inaugurado.
Canções, quantas canções, a dor resignadamente, eu já desculpei tanta coisa, as saudades nos copos de um bar, porque se revela a maldade da raça, sem retrato e sem bilhete e no sorriso dela meu assunto... Ah, são fragmentos das canções que sempre estiveram no mapa do Brasil.
Trilhos urbanos. E Cláudio foi em busca das harmonias do Brasil Novo. De um Brasil caboclo: Gonzaga, Humberto, Jackson; de um Brasil bossanovístico: João, Jobim, Menescal, Bôscoli, Lyra; de um Brasil afro: Baden, Vinicius, Ben; de um Brasil festivalesco: Chico, Edu, Vandré, Milton; e de um Brasil tropicalista: Gil, Caetano, Duprat.
Reparem todos em suas mãos pequeninas, porém ágeis. Mãos fiandeiras que tecem e retecem as mais lindas melodias, as mais sublimes harmonias. E os contrapontos que desafiam os silêncios da música. Cláudio parece estar nos limites humanos da perfeição. Além, só os titãs podem ir. Mas o que sabem eles da suprema arte do improviso?
Nesta mui leal e heróica cidade de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, Cláudio Costa é o seu violonista maior. Dou fé.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O AUTOR - 2

Na relação dos livros citados na postagem O AUTOR (a primeira do Preblog), em que existem trabalhos de minha autoria, devem ser acrescentados os seguintes títulos:
Achado Casual (2008)
Ressonâncias Literárias (2009)
Receitas Literárias (2010)
São respectivamentes as 23ª, 24ª e 25ª coletâneas anuais da Sobrames, Regional do Ceará.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

MONSTROS

- NÃO DEIXE QUE ELE ME MORDA!
- MAS ELE SÓ TEM DOIS DENTINHOS...
Monstro é o que não falta no Ceará. Em priscas eras o nosso estado já teve o Cão da Itaoca, a Perna Cabeluda, o Monstro da Lagoa Verde... E isto para não falar no Corta-Nádegas que, durante algum tempo, andou a fazer malinações condizentes com o nome lá para as bandas do Conjunto José Valter. Com a ressalva de ser este último um desajustado de carne e osso e não um monstro, no sentido original da palavra.
O Ceará teve momentos de glória na época do Monstro da Lagoa Verde, que chegou a ser comparado com o Monstro do Loch Ness. Enfim, tínhamos um bicharoco da melhor cepa para escocês ver. Mas não tínhamos as brumas da Escócia que conferem a qualquer aparição um ar misterioso. Sem brumas, a lenda desse monstro logo se dissipou.
Mais recentemente, visto por pescadores e lavadeiras, tem dado o ar de sua assombração na Lagoa do Opaia, em Fortaleza, mais outro monstro. Ou coisa parecida, já que pode se tratar de um reles jacaré que tenta sobreviver nas águas da poluída lagoa. Até chegar o dia em que ele vire bolsa de madame ou sapato de bacana. E aqueles que o viram, se for confirmado ser um jacaré, não passariam de uns pescadores de águas turvas.
Antes que uma equipe científica meta o sonar na Lagoa do Opaia, em busca de esclarecer o mistério, atrevo-me a dar um palpite. Não seria o danado do bicho o tal dragão da inflação? Como um pop star, cansado de tantas badalações e que procura uma vila em busca de anonimato, o dragão da inflação veio ter nessa lagoa.
1992 promete ser um ano cheio e mesmo um monstro atilado, como ele é, tem de recarregar suas baterias.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

UMA ASSEMBLEIA DE TELEVISORES

Uma assembleia geral extraordinária que aconteceu no interior de uma locadora de televisores. Todos os aparelhos em dia com suas taxas podiam se manifestar.
- Companheiros, o problema é sério. Onde quer que estejamos só nos deparamos com sexo e violência. É como se as pessoas não fizessem outras coisas. Precisamos dar um basta nessa situação.
- Isso! Querem nos impingir que a vida imita a arte, quando é o contrário.
- Sim, geralmente só sugerimos a ocorrência do ato sexual. Por exemplo: o casal entra no quarto aos beijos e cai na cama; o quarto fica na penumbra e os dois trocam carícias sob os lençóis...
- É. Nossos eventuais excessos são por conta da competição, da pressão do mercado... E os deles? São gratuitos e desnecessários.
- Imaginem vocês o que eu sofri num motel onde me colocaram nos últimos meses. Fui obrigado a ver cenas reais de sexo explícito, a assistir a todo tipo de tara. E depois ainda falam que o erotismo campeia na televisão.
- Quem são os responsáveis por isso tudo? Eles não têm um código de conduta?
- Eu também tive que presenciar todo tipo de violência. Tão logo me ligavam... lá vinha briga de marido com mulher. Mil palavrões, objetos sendo arremessados... Cenas fortíssimas em que não se respeitava nem o horário infantil da televisão.
- Ah, a falta que um seletor de... casal nos faz!
- Violência... alguém aí falou. Que acham do meu tubo de imagem quebrado? Pois foi um torcedor brasileiro no fim do jogo contra a Argentina. Sou mesmo um "azaroni".
- As pessoas não tem modos. Onde estive locado existia um gordão que me assistia de cuecas, tomando Skol e comendo baconzitos. Saio de foco só ao me lembrar daquele mastigar imoral, daqueles arrotos e flatos...
- Eu vi também muito garoto abusado, criada respondona, cunhadinho folgado...
- Quanta hipocrisia! Por muito menos nos desligariam pelo controle remoto.
- E aqui ninguém sabe onde eles têm o botão de desligar.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

RECEITAS LITERÁRIAS

Antologia de prosa e poesia publicada em 2010 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg, Antero Coelho Neto, Antonio Sílvio de Araújo, Antonio Vicente de Alencar (convidado), Celina Côrte Pinheiro, Dalgimar Beserra de Menezes, Elcias Camurça Júnior, Emanuel de Carvalho Melo, Fernando Antonio Siqueira Pinheiro, Francisco Airton Ferro Marinho, Francisco Antônio Tomaz Ribeiro Ramos, Francisco das Chagas Dias Monteiro (Chico Passeata), Francisco Flávio Leitão de Carvalho, Francisco José Pessoa de Andrade Reis, Francisco Nóbrega Teixeira, Francisco Sérgio Menescal de Macedo, Geraldo Bezerra da Silva, Giselda Medeiros (convidada), Jesus Irajacy Fernandes da Costa, João de Deus Pereira da Silva, Joaquim José de Lima Silva, José Luciano Sidney Marques, José Maria Bonfim, José Maria Chaves, José Murilo Martins, José Telles, José Teúnes Ferreira de Andrade Filho, Josué Viana de Castro Filho, Luiz de Araújo Barbosa, Luiz Emanuel Assiz, Luiz Luciano Menezes de Arruda, Luiz Teixeira Neto, Manoel Dias da Fonsêca Neto, Marcelo Gurgel Carlos da Silva, Maria Ilnah Soares e Silva, Martinho Rodrigues Fernando, Nilson de Moura Fé, Oziel de Sousa Lima, Paulo de Tarso Campos Ferreira, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Pedro Henrique Saraiva Leão, Sebastião Diógenes Pinheiro, Vanius Meton Gadelha Vieira, Vladimir Távora Fontoura Cruz, Walter Gomes de Miranda Filho
Apresentação: Marcelo Gurgel
Prefácio: José Batista de Lima, da Academia Cearense de Letras
Homenagens Póstumas: a Oziel de Sousa Lima, por José Maria Chaves, e a Nilson Moura Fé, por Alex Mont'Alverne
Projeto e Editoração: Francisco Batista
Coordenação, Organização e Revisão: Marcelo Gurgel
Capa: Martinho R. Fernando e Marcelo Gurgel
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda
Tiragem: 1.000 exemplares
Livro com 240 páginas.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

FÓSFOROS - 2

Um amigo comentava o grau de interferência dos familiares da esposa em todas as decisões que ela devia tomar. Até para comprar, por exemplo, uma caixa de fósforos na mercearia da esquina.
Um problema logo se impunha: qual deveria ser a marca da caixa de fósforos?
O telefone tocava. E já era uma das irmãs da esposa, inteirada da existência do problema, a lhe oferecer alguma solução. "Escuta, a marca A é de melhor qualidade e no supermercado X está em promoção. Desligo. Tchau."  Mas o caso não estava resolvido, pois o telefone logo tocava novamente. Com outra irmã na linha, estabelecendo uma espécie de dilema. "Não, a marca A vem com menos fósforos na caixa. Compre B."
Pouco tempo após, novos telefonemas tinham elevado o escore para dois a dois. E a esposa, sem sair do pé do telefone, que toca alucinado. São novas ligações que aumentam o escore para três a três, quatro a quatro... Quer dizer, continua tudo ao nível de indecisão (mesmo já tendo sido ouvida a irmã mais velha que mora em Brasília).
E a esposa, desolada, botando o telefone no gancho:
- Não consigo falar com mamãe. Deve ter saído para visitar alguém.
Sim, ainda faltava ouvir a opinião da matriarca da família, o voto de Minerva que dissiparia as dúvidas de tão indeciso espírito.
Por fim consultada, eis como Minerva votou:
- Por que você não compra logo um acendedor elétrico?
A solução perfeita. Ou quase, se considerarmos que houve a seguir novas rodadas de ligações telefônicas. Com sugestões de marcas, modelos, preços, tempos de garantia etc.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PEQUENO GUIA PARA ENTENDER O ESCRITOR

Ele tem parido com dor (pela mulher que seguiu à risca o preceito bíblico) dois filhos, Érico e Natália. E tem dado ao lume, sem a participação dela, uma pequena galeria de personagens. O Jorge George, que tem uma relação absolutamente "desligada" com o mundo e que, por isso, torna-se agente e paciente das maiores desventuras; o Dr. Carta Pácio, que vive a escrever (e, o que é pior, a enviar) missivas com suas mirabolantes propostas, alicerçadas em argumentações pseudocientíficas; o Antonomásio, de curtas aparições, quando o texto está a exigir a presença de alguém de posições firmes, sem papas na língua, e que não leva desaforos para a casa, o qual, por ter sido batizado com água quente, tem esses predicados de sobra; o Professor Kyw, um mestre do vernáculo que defende às últimas consequências o alfabeto pátrio extirpado das letras alienígenas; e o Dr. Asdrúbal, um médico colecionador de casos insólitos na profissão e solidário com as desgraças alheias, mesmo que isto signifique revelar que já passou por elas com galhardia.
Depois de haver participado de duas dezenas de antologias literárias, ainda não ter um livro solo não chega a ser um mistério. É para dar mesmo trabalho a seus futuros (e não autorizados) biógrafos. Mas, caso venha a mudar de ideia, publicará esse livro solo, ao pressentir que a hora de seu canto do cisne esteja chegando. Ora, se os elefantes sabem a hora de se dirigirem aos cemitérios, por que ele não saberá o instante azarado azado de procurar o editor?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O SEXO DOS LEÕES

A nossa Praça General Tibúrcio, depois de passada a limpo por uma reforma, revelou-nos uma coisa surpreendente. A respeito da anatomia de um casal de leões de ferro fundido, os quais, de tão admirados pela população fortalezense, fazem com que o logradouro seja conhecido como a Praça dos Leões.
É que os leões apresentam os sexos trocados. O macho, identificado por sua imponente juba, exibe uma genitália feminina, enquanto a fêmea não pode ser considerada uma leoa, já que tem uma estrovenga.
Aventa-se a hipótese de que o escultor dos leões, com receio de não receber o pagamento de seu trabalho, de um modo pré-vingativo tenha aprontado a coisa. Mas eu, particularmente, penso em outra possibilidade, a de que o anônimo artesão apenas copiou os modelos que lhe foram fornecidos. Um casal de leões que, para a minha hipótese ficar verossímil, possa ter vindo de Marrocos. Depois de submetidos a cirurgias de mudança de sexo em alguma afamada clínica desse país africano.
Difícil é acreditar que, durante muitos anos, o bizarro achado tenha ficado oculto ao olho do fortalezense. O conterrâneo, quem sabe, não pense só naquilo... Agora, eu tenho cá minhas dúvidas se o fato passaria despercebido se, no lugar dos leões, houvesse jumentos. Ainda mais se as esculturas asininas ganhassem vida e começassem a fazer amor em plena praça.
Decidido a pôr uma pá de cal sobre o assunto, ainda tenho a seguinte opinião. Está tudo OK com os sexos dos leões, apenas a juba é que foi posta no exemplar errado. E, se isso tivesse sido desde o princípio admitido, quantas linhas não teriam sido economizadas nos jornais da cidade. Pois a gente começa a discutir o sexo dos leões e, quando menos espera, já está a discutir o sexo dos anjos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

CORRE(I)ÇÕES

Sr. Editor:

Há algum tempo encaminhei-lhe uma carta em que fazia oportunas considerações a respeito do Congresso Nacional. Como a mesma não foi até agora publicada, presumo que tenha sido por conta do excesso de termos bajulatórios que andei nela empregando.
Ainda assim rogo a publicação dessa carta, na qual acabo de identificar a necessidade de fazer três reparos:
  • onde escrevi o adjetivo “capaz” acrescentar que é “de tudo”;
  • onde usei a expressão “fruto do trabalho”, substituí-la por “furto no trabalho”;
  • e, por fim, trocar a expressão “bem comum” por “bem com um”.
Afinal, temos o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar.

Cordialmente,
Paulo

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ANOS 80. A NOVA REFINARIA

Trava-se entre estados nordestinos uma luta política para ver qual deles vai sediar a nova refinaria. Há argumentos técnicos a favor de um, de vários e de todos. Ora é Pernambuco, porque possui o melhor porto, o Rio Grande do Norte, por ser o principal produtor de petróleo da região, e ora é o Ceará, que está em melhor posição geográfica, coisa e tal.
Os ânimos estão acirrados, nenhum estado quer perder. E, por não ser possível contentar a todos, o Governo Federal vem adiando o anúncio do nome do estado que irá sediar a tão disputada refinaria. Por se tratar de uma decisão politicamente desgastante, mesmo que seja respaldada em laudos técnicos.
Enquanto isso, aqui e ali esboçam-se acordos que visam a aumentar os cacifes dos estados envolvidos na disputa. Como, por exemplo, colocar a refinaria em Aracati para beneficiar o Ceará eo Rio Grande do Norte. Ou, então, construir a refinaria no Cariri para dividir as vantagens entre Ceará e Pernambuco (afinal, o Arrais é também cearense).
Só que propostas assim poderão atender aos interesses de dois ou, quando muito, três estados. Passando ao largo dos interesses dos demais. Por ser impossível encontrar uma região em que todos eles façam fronteiras entre si.
O que todos os estados nordestinos apresentam em comum é o fato de serem banhados pelo Oceano Atlântico. Daí me ocorrer a ideia de que possa ser construído um grande navio-refinaria. Com a palavra, os japoneses (para quem navios e fábricas podem ser a mesma coisa). Navegando de um estado para outro (com a exclusão da Bahia que já tem uma refinaria terrestre), a refinaria flutuante, iria deixando nas escalas a sua produção conforme as necessidades locais.
Em momentos de folga nos compromissos assumidos, o navio-refinaria poderia se deslocar, quem sabe, até o Pará. Que não é Nordeste, mas que tem no governo um correligionário do presidente, eis outro argumento técnico.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

RAÇA DE VÍSPORAS!

No governo do presidente Dutra os cassinos foram proibidos de funcionar no Brasil. Entretanto, volta e meia reacende-se a discussão se eles devem voltar a ser legalizados.
Sou contra.
Legalizar os cassinos é criar uma situação perigosa para o país que, em matéria de jogos de azar, não apresenta um senão. Em toda sua história, faço fé.
Loto um terreno de grandes riquezas em nome de quem me desmentir. Porém, com dados que o comprovem.
Então, quando vejo pessoas a serviço de interesses tão prejudiciais, eu só posso é perder a esportiva. Raça de vísporas! Ninguém aqui tem cara de bozó. E saibam esses senhores que encontram em mim um páreo duro. Eu jamais vou aceitar que, no bolso do povo, façam qualquer raspadinha.
Ora, de seus minguados recursos o povo muito precisa. Para aplicar na Bolsa, para colocar no Baú ou, até mesmo, para enfrentar alguma sinuca (das muitas que a vida lhe apronta).
Por isso, não vamos rifar a nossa dignidade. Apenas porque outros nos acenam com a possibilidade de um notão milionário. A nós, antes de tudo, cabe dar as cartas.
É muito cinismo desses senhores. Querendo instalar o império da jogatina no país, só para ver.... o bicho que vai dar.
Merecem ir à lona.

Comentário no Pasquim nº 1046, de 02/08/90, onde foi publicado com uma ilustração do Amorim:
O Jaguar tem um cartum que mata a pau. Dois caras conversam. Um diz:
- Vão acabar com o jogo no Brasil.
O outro responde:
- Vamos apostar que não conseguem.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

SOFRENDO NOS COUROS

- Expedito.
Ele levantou a cabeça e espiou na direção de quem o chamava. Era o patrão. Ainda deu para acrescentar a rubrica num documento e, sem outra demora, deixar o seu birô para ir atender ao chefe. Assim era Expedito, o mais antigo e graduado funcionário daquela firma de exportação de couros. Trinta anos no batente haviam feito dele um homem de confiança da direção. Sempre a postos para esclarecer um detalhe burocrático ou solucionar alguma pendência.
- Expedito.
E lá ia o solícito funcionário aplicar a sua tarimba a serviço da casa. Tinha o maior salário do quadro de empregados. Embora não fossem lá grande coisa os 100 mil cruzeiros que recebia ao término de cada mês de trabalho (vissem que mal dava para as despesas usuais com si próprio e com a família). No entanto, mesmo passando por essas dificuldades, jamais se animara a procurar emprego melhor. Acomodara-se com o status profissional ali conseguido.
Como a empresa vinha atravessando uma crise financeira - rumores de falência eram ouvidas nos corredores - ele procrastinava pedir uma melhoria salarial. Esperando um tempo mais propício para esse tipo de reivindicação. E, nesse compasso de espera, Expedito tomou conhecimento de que a situação era pior do que imaginara. O patrão, numa conversa franca, lhe propôs uma redução temporária no salário que o auxiliar ganhava.
"Em 50 por cento", disse-lhe o patrão, "ficando o seu salário em 50 mil cruzeiros. Mas só até que a empresa supere suas dificuldades atuais".
Ora, se Iacocca topou ganhar um dólar por ano até reerguer a Chrisler, por que Expedito não ia aceitar o sacrifício para ajudar a sua empresa? Aceitou. Esperançoso de que não ia durar muito o sacrifício proposto pelo chefe.
E, de fato, não durou. Alguns meses após, o patrão chamou Expedito para uma nova e auspiciosa conversa. A firma fechara grandes contratos de exportação e havia recuperado a saúde financeira. E ele não esquecera o desprendimento com que o fiel empregado ajudou a salvar a empresa. Como prova de reconhecimento, Expedito ia agora ter um reajuste de... 100 por cento no salário.
"É uma forma de compensar - com vantagem - a perda anteriormente sofrida", acrescentou o patrão.
O que fez Expedito retornar a seu salário de 100 mil cruzeiros.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A CONSTITUIÇÃO DIVINA

Apesar de escrita por linhas tortas, a CD primou por ser bastante sucinta:
Artigo 1º - É proibido comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal.
Parágrafo único - Ficam revogadas as disposições em contrário.
O que significava dizer que, no Paraíso, se podia fazer praticamente de tudo, que não dava bronca. Exceto comer do fruto proibido, o qual tinha de apodrecer no pé, por maior que fosse a fome do saber.
Mas o ser humano fraquejou ao cair na língua bífida de uma serpente. E foi expulso do Paraíso. Passou a ter uma existência de dor e sofrimento sobre a Terra. O homem a comer o pão, que não lhe acrescentava miolos, com o suor do rosto (aliás, do corpo inteiro). E a mulher a parir os filhos com dor, lamentando-se por não pertencer à ordem dos marsupiais.
Quando alguém cometeu o primeiro crime de morte, Deus intuiu que tinha de endurecer. Que era o momento de tomar certas providências que premiassem o mérito e punissem o crime e a contravenção. Criou o Céu e o Inferno.
Nos primeiros tempos os conceitos eram bastante claros. Cada ser humano sabia o que era certo e o que era errado. Para se comportar ele seguia o livre arbítrio - uma boutade de Deus para descrever o universo das coisas previstas. Sabia o ser humano que, ao fim de sua terrena existência, dois desfechos existiam: ao homem justo, um kit de camisola, sandálias e harpa que ele ia usar no Céu; ao carga torta, uma carona na ponta de um espeto até a Geena, onde ele ia ser fritado.
Um dia, o Inferno teve um enorme apagão. Sem dizer água vai, Deus quase pôs fim à espécie humana. Por ter informações privilegiadas, Noé escapou com a família e com os animais que não tinham a ver com o peixe. Aqueles que sobreviveram ao temporal foram recebidos em terra firme com um arco-íris ao fundo - sem pote de ouro! Não era oportuno recomeçar o povoamento do planeta sob a nefasta influência da cobiça.
Com a sociedade humana crescendo e se tornando complexa os limites da ética e da moralidade foram ficando confusos. Apesar de já existir um dispositivo infraconstitucional com 10 Mandamentos para tentar pôr ordem na casa.
Para dar alguns exemplos: crime de morte é gravíssimo, mas o que dizer quando o mesmo é cometido, em larga escala, durante uma guerra? E a mentira piedosa que é contada ao que vai morrer? E o contrabando, o caixa dois e o descaminho? E palitar os dentes na Sexta-Feira da Paixão?
Dividir os pecados em capitais (aqueles que são cometidos nas cidades maiores) e veniais (aqueles que são punidos com doenças venéreas) não contribuiu para que as pessoas entendessem aonde Deus queria chegar.
Nem quando Deus também criou o Purgatório Binacional, com sede na fronteira entre o Céu e o Inferno, para as purgações de segurança mínima. Dirigido por uma comissão bipartite de anjos e demônios, e com a presidência ocupada pelo sistema de rodízio, o Purgatório não durou um milésimo de eternidade. E bastou que um papa desse anistia aos pagãos para que virasse um mamute branco.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

DISPUTAS CURRICULARES

Ele, na frente dos amigos, gostava de contar vantagens. Uma delas era o controle que tinha sobre a mulher, uma paulista de aparência frágil. E, para que a mulher se mantivesse enquadrada, ele recorria a um argumento irretorquível: o curriculum vitae. Aqui entendido o currículo como uma larga experiência de vida, firmada em seus casamentos anteriores.
Se casar fosse construir o andar de um edifício, ele já estava na quarta laje. Podendo ir para a quinta, conforme.
Um dia, porém, o curriculum vitae, mil vezes falado, foi afrontado. Pela mulher que, já não suportando tanta hegemonia do marido na relação conjugal, anunciou na roda:
- Também mostro o meu...
Epa! Então a mulher teria algo equivalente em seu passado (que não lhe fora antes revelado), de onde poderia criar forças para derrotá-lo logo no primeiro assalto?! E nem precisou perguntar como seria o tal currículo, pois ela, abrindo a bolsa, já o mostrou para todos.
- Está aqui. É uma passagem aérea para São Paulo. Só de ida.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

FORA DO AR

Depois do jantar Possidônio adorava reunir-se com os amigos para um carteado. Todas as noites, isso, para o desgosto da mulher que queria ter o marido a seu alcance. A parolar um com outro, nas espreguiçadeiras postas na calçada da casa, um longo papo apenas interrompido para cumprimentar os passantes. Sim, era assim que a mulher gostaria de que fosse... Mas, diabos, havia o maldito carteado que arrastava o marido para longe... Não tão longe, porém, uma vez que a cidade, pequena como era, não permitia um grande distanciamento entre as pessoas.
Tanto que Possidônio não encontrava sossego nos carteados com os amigos. Logo e muita vez, chegava alguém, a mando da mulher, para lhe interromper o jogo, com o recado de que fosse ligeiro em casa. Os motivos eram forjados, claro, pela mulher que ansiava pelo retorno do marido. Só que este, com o passar do tempo, deixara de levar a sério os repetidos chamamentos. Podia a casa pegar fogo - de verdade - que ele não arredava o pé do jogo. Embora se aborrecesse, e muito, com as insistências da cara-metade.
O diacho. Coisa uma era o entretenimento com as cartas, o papo descontraído com os amigos, as bicadas na cachaça que alguém da turma trouxera... E coisa outra era ficar na calçada da residência, entediando-se com a mulher. Alô, seu Souza, como vai? vou bem, recomendações para a patroa, tal e tal... A cumprimentar os conhecidos, que eram tantos quanto o número de almas da cidade. Por sorte, não passavam todos na mesma noite, se bem que havia um que não falhava. Mas esse vinha de longe, era o vento do Aracati e, graças a Deus, não precisava ser saudado.
Mal o vento passava, então todos recolhiam as cadeiras e iam sonolentos para suas camas, assim era a rotina da pequena cidade. Pois bem, dessa rotina Possidônio se livrava... caindo noutra, a qual pelo menos era de seu agrado.
Um dia, a cidade tomou conhecimento de uma grande novidade. No morrote dos Guimarães, onde Possidônio costumava passarinhar quando garoto, tinham acabado de instalar uma antena repetidora de televisão. De modo que a cidade, daí em diante, ficava integrada à aldeia global, o que era a prova do progresso chegando. E quem podia logo se apressou a comprar o seu aparelho de televisão. Possidônio inclusive, mas por um motivo bem particular, digamos assim. Por entender que o aparelho, assim que fosse entronizado em sua residência, operaria uma transformação em sua mulher. Fazendo com que ela não mais o incomodasse no carteado.
Não deu outra. Enquanto Possidônio mexia com as cartas, as novelas das sete, das oito, das nove... se encarregavam de manter a mulher paralisada na sala do lar. E Possidônio já nem se lembrava do tempo desagradável em que não podia cartear em paz. Por isso, foi com grande surpresa que ele viu o molecote dos recados se aproximar do local em que jogava. Não devia ser atrás dele...
Mas era:
- Seu Possidônio, sua mulher me mandou aqui...
- O que ela quer?
- Ela disse que a televisão está fora do ar.
- Ora, vá... Diga a ela que bote no "bê".

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O ENTREGADOR DE JORNAL

Sr. Editor:
Num tempo que as rotativas não trazem mais, uma funcionária do setor de vendas de seu jornal, o Diário do Nordeste, me conquistou. Demonstrando possuir um notável poder de persuasão, no decorrer de uma ligação telefônica (de poucos impulsos), essa pessoa operou em mim um feito simplesmente carismático. Por pôr por (quanto eco, meu Deus!) terra o que, até então, era um tabu meu. Comigo carregava a ideia de que eu jamais seria um assinante de jornal ou revista. Sem que isso significasse alguma restrição ao prestigioso jornal que está a publicar esta crônica (travestida de carta).
Antecedendo a abordagem sofrida, eu devo dizer que, a cada dia, já vinha me tornando o mais regular dos regulares adquirentes do DN. A ponto de só falhar em adquirir um exemplar do periódico na terça-feira (o dia da semana em que o jornal sai com material de segunda).
Era que o sol nas bancas de revistas, me enchendo de alegria e preguiça (quem lê tantas notícias?), reforçava um velho hábito meu. Parar, junto a uma delas, a fim de ver que novidades haviam chegado sob a forma de revista, fascículo ou livro. E, após um momento de leitura e outro de livre arbítrio, adquirir uma dessas mercadorias de cultura, informação e lazer. Entretanto, quando nenhuma delas me provocava algum interesse, pelo menos levar um jornal estava garantido. De modo a compensar um pouco o tempo que o dono da banca gastara comigo. Afinal, ele tinha certas expectativas que não podiam ser tão repetidamente frustradas.
Promovido a assinante de jornal, passei a travar contato com uma nova realidade. Nunca mais sair de casa sem saber os parâmetros da nossa economia indexada, por exemplo. Mas não era só isso. Todo dia que Deus dava, passei a reconhecer o som de uma motocicleta que se aproximava, reduzia a marcha e... parava bem defronte a meu portão. Era o entregador. Seguia-se um breve tempo (em que se pressentia que ele estava dobrando o jornal) e lá vinha o meu exemplar. Depois de ultrapassar o muro da residência para, em seguida, cair no jardim: na grama, num cesto de samambaia ou no capô do carro. Precisão cirúrgica não existia nesses lançamentos do entregador.
Agora, respeite o estrondo que o jornal arremessado fazia ao atingir uma parte cimentada do jardim. Era algo tão tonitruante que até o cachorro do vizinho se punha a latir. O cachorro, fique aqui bem entendido. A crise nacional era fogo, mas custa a crer que o próprio vizinho ficasse latindo para economizar cachorro. Apesar de que esta piada, se for lida por ele, possa comprometer a minha política de boa vizinhança.
Por vezes, o resultado do lançamento dava para ser catalogado como "muito além do jardim" (pedindo vênias pela falta de originalidade da expressão). Era quando o matutino, aproveitando-se de uma janela aberta, aterrissava na sala principal da casa, perto do Buda dourado. Ah, matutino sem tino! Supostamento, o entregador se achava em dia de grande forma física. E conseguira dobrar o jornal nove vezes (o limite para um ser humano), antes de lançá-lo. Nunca o conheci pessoalmente, porém o imagino como um moderno discóbulo.
Jorge de Lima cantou para a eternidade o acendedor de lampiões. Outros, com menor claridade, escreveram sobre o jangadeiro, o boiadeiro e a mulher rendeira. Rompendo o ineditismo existente, coloquei o entregador de jornal no centro desta crônica (que o Sr. Editor naturalmente já percebeu que não é uma carta). É minha tentativa de reparar uma injustiça histórica. Pela regularidade com que ele cumpria o anônimo dever, o seu nome deveria figurar no expediente do jornal.
Atrasos acontecem. Se me propiciam uma perspectiva histórica dos acontecimentos, então deixam de ser problemas. Houve uma vez em que ele deixou o meu jornal pegando chuva. Mas não quero, com isso, entregar o meu entregador. Foi a forma liminar que ele encontrou para me dar um importante recado. Comece a aprender a técnica do papier machê. E, se eu deixei passar a oportunidade, a culpa cabe só a mim.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

SOBRE AS DISTÂNCIAS REGULAMENTARES

A classe média (da qual faço parte, mas não orgulhosamente) foi inventada para manter os pobres distanciados dos ricos. Em troca de nossos serviços, estes nos acenam com a possibilidade de um dia entrarmos para o seleto clube do caviar. E essa mutualidade acontece porque os ricos são extremamente ciosos de seus espaços pessoais onde, procedentes de outras categorias, só entram os personal trainers e os personal stylists.
Não ignoremos que a noção do "eu" não se restringe aos limites da pele. Duas a três décadas atrás, Edward Hall desenvolveu uma área de estudo, a proxêmica (criando inclusive este termo a partir do latim proximus), para definir a "ciência que estuda a estrutura inconsciente do microespaço humano". Em outras palavras, tudo o que se coloca entre o "eu" e o "outro".
Através da proxêmica, aprendemos que, entre dois adultos norte-americanos, a distância conveniente para que eles mantenham uma conversa é de cerca de 70 centímetros (que pode ser ampliada se o interlocutor tiver mau hálito). Isto porque os norte-americanos, em grande parte, pertencem a uma cultura de não-contato resultante de uma herança puritana. Já os latinos gostam de bater papo a uma distância menor, face a face. Daí porque são bem aceitas, no Brasil, as entrevistas no estilo "Cara a Cara", como aquelas que a Gabi faz na televisão.
Os russos, os árabes e os judeus são outras grupos étnicos que gostam da aproximação. São culturas táteis, por assim dizer.
E há particularidades interessantes relacionadas ao sexo: a aglomeração torna o homem combativo e a mulher amistosa; assim, numa sala pequena e apertada, um júri feminino tenderá a ser mais tolerante.
A proxêmica também nos ensina que existe uma escala de distâncias, a qual estabelece a distância apropriada a cada tipo de relacionamento. A distância que é adequada para fazer sexo, para conversar, para discursar etc. Por conseguinte, uma moça não deve dar o "sim" (ainda que a tentação seja grande) para quem a pede em casamento a uma distância de... 4 metros. Pois essa é uma distância pública, apropriada apenas para os discursos.
Desviar o olhar, dar as costas, inquietar-se, recuar e até mesmo avaliar se há necessidade de atacar são condutas observáveis frente a uma invasão da "bolha" individual. É por saber medir qual a distância crítica que o domador controla o leão (ou a leoa).


*****

O oftalmologista Nelson Cunha talvez não se lembre do fato. Estávamos no centro de Fortaleza: ele, eu e Ozildo, um colega de turma na Faculdade de Medicina. Quando Nelson me avisou de que ia fazer uma brincadeira com o colega. Imagino que Nelson já fizera isso antes (para ter tanta certeza do resultado que ia obter). Como era a peça: Nelson, enquanto papeava com Ozildo, faria umas incursões no microespaço dele. Fez a primeira. Sentindo a "bolha" invadida, Ozildo recuou. Nelson tornou a crescer para cima dele. Ozildo recuou ainda mais. Quando deu por encerrada a brincadeira, Nelson tinha conduzido o colega por um quarteirão inteiro - em marcha à ré!
Como um grande germanófilo que era, Ozildo tinha assimilado até essa característica do povo que tanto admirava.

Resposta do Nelson:
"Lembro me sim dessa "característica " do Ozildo. Há também aqueles que durante uma conversa vão marcando os tópicos do assunto com leves toques no interlocutor (vendedores de patos). Há em Monlevade uma senhora, dona de cartório, que perde instantaneamente o ritmo do discurso se voce se livrar dos seus toques. Faço com ela o que fazia com o Ozildo, mas em direção contrária. Afasto-me muito discretamente para além do alcance do seu braço. Ela instintivamente avança na minha direção. Assim seguimos para seu desespero e o gozo da minha alma de moleque."
O grifo é meu. PG

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

MARIA

(original)
1
Maria, por simples gosto
Das aventuras galantes
Nas duas covas do rosto
Vai enterrando os amantes.
2
Não te recordas, Maria
Da noite de São João
Tu vias no céu estrelas
Eu, as areias do chão.

- Anônimo
(paródia)
1
Fui amante de Maria
Acabei me dando mal
Enterrado à revelia
Em seu rosto sepulcral.
2
As tais areias do chão
Não me causaram prazer
Aliás, foram um estorvo
Na hora do "vamos ver".

- PG

quinta-feira, 29 de julho de 2010

LABORES LABORATORIAIS - 2

A Questão Andrômaco
Quando cursávamos medicina, éramos brindados pelos laboratórios farmacêuticos com amostras grátis de seus produtos. Andavam já de olho, os laboratórios de antanho então, nos receituários dos futuros doutores. Uns, é verdade, nos davam meros prospectos, reservando suas amostras para os médicos, principalmente os que possuíam boas clientelas. Mas, assim procedendo, ficavam jurados de entrar numa lista negra em fase de elaboração, a exercer seus efeitos após a formatura da turma. Outros laboratórios, porém, mais generosos, nos enchiam as maletas de amostras, com isso demonstrando que acreditavam em nosso porvir.
Havia um laboratório, o Andrômaco, que não punha qualquer restrição aos acadêmicos de medicina. Nem ao primeiranista, o qual fazia jus a uma amostra grátis por assédio feito. O segundanista recebia duas amostras, o terceiranista, três, e assim por diante. Até chegar ao acadêmico do sexto ano, o quase doutor, que ganhava exatamente seis amostras. Ainda que essa generosidade do Andrômaco gerasse da parte dos próprios estudantes certas maledicências. Como a de comentar que existia, no referido laboratório, um enorme tacho com xarope. No qual, ao pressentir que os acadêmicos estavam por chegar, o pessoal do laboratório logo adicionava alguma porção de água.
Em nossos primeiros anos na Faculdade de Medicina, considerávamos que uma de nossas missões era providenciar remédios gratuitos para os (nem sempre) necessitados. Até reservávamos um dia da semana para fazer a busca ativa. Sim, porque não nos satisfaziam os encontros casuais com os propagandistas de remédios. Diante das crescentes listas em nossas mãos das solicitações feitas por amigos e parentes para que obtivéssemos antibióticos, vermífugos, expectorantes, vitaminas e colírios. E tínhamos de mostrar prestígio conseguindo essas amostras.
Para tanto, verdadeiras hordas de acadêmicos espalhavam-se periodicamente pelas ruas centrais de Fortaleza. Já que o exercício solitário da busca ativa era, por todos, considerado contraproducente. Além de ser bem menos animado, claro. De modo que cumpríamos um autêntico programa de índio, e não sendo de hoje que suspeitávamos disso. Mas... compensava se, ao fim da jornada, tínhamos os cobiçados remédios com que atendíamos os parentes e amigos. E estes, como prova de gratidão, faziam novos pedidos. Ad nauseam.
Um dia cansamos dessa desgastante labuta. Mas, para não deixarmos desassistidos os que ainda nos procuravam com seus pedidos, mudamos a sistemática. E trocamos as nossas cansativas visitas aos laboratórios por grandiloquentes bilhetes endereçados a seus gerentes. Levados esses bilhetes pelos próprios interessados, e nos quais havia sempre o indefectível fecho: "antecipadamente agradecemos". Um santo remédio! Que, desde então, nos livrou do tão ingente esforço que vínhamos praticando.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

LABORES LABORATORIAIS - 1

A Questão Lafi
Em 1968, fui contemplado com uma "bolsa" de um laboratório farmacêutico. Chamava-se Lafi a empresa que me concedeu essa "bolsa", uma casa farmacêutica que nem existe mais. Na verdade, os compromissos que eu assumia por lá tinham mais as características de um subemprego; porém, por não me tomarem muito tempo, não me traziam problemas para o meu curso de graduação na Faculdade de Medicina. Aliás, possibilitavam-me que eu aprendesse um pouco de Farmacologia, sem ao menos ter passado por essa disciplina. E havia ainda os "caraminguás" que eu ganhava do laboratório, por sinal muito bem-vindos.
A Farmacologia era ensinada no quarto ano da Medicina e, em 1968, eu ainda estava no terceiro ano. No Lafi, deram-me um exemplar do Litter, tido como o melhor livro de Farmacologia, no qual eu devia estudar as aulas que, ao longo do ano, teria de ministrar aos propagandistas do laboratório. Não esquecendo de incluir nelas as informações contidas numas apostilas que me chegavam do departamento médico do laboratório.
Essas aulas aconteciam aos sábados, a partir das 11 horas, na sede da empresa à rua Assunção, no centro de Fortaleza. Assistiam às minhas exposições três propagandistas e o próprio gerente regional do Lafi, Dr.Valdemar, um bacharel em Direito.
Uma segunda atribuição minha na empresa era ajudar na promoção de seus produtos. Cabendo-me fazer isso exclusivamente com os meus mestres na Faculdade de Medicina. Ganhei uma valise preta e, a cada mês, o Lafi deixava em minha residência uns caixotes com amostras de seu produtos farmacêuticos. Aos poucos, eu os distribuía com meus professores e, por ser inevitável, também os distribuía com meus colegas de turma. Findo o período de distribuição, eu tinha de fazer um relatório para só então receber uma nova remessa de medicamentos.
O Lafi comercializava duas dezenas de medicamentos, não me lembro do nome de todos. Havia: o Dienpax e o Nitrenpax, sedativos do grupo dos diazepínicos, sendo o segundo um remédio especificamente para dormir; o Clorana e o Triclorana, nomes comerciais da hidroclorotiazida e da hidroclorotiazida associada ao triantereno, diuréticos até hoje muito prescritos; a Disteoxina, uma medicação "hepatoprotetora" (conforme a crença da época na existência dos remédios para o fígado); o Tetracloroetileno Lafi, um vermífugo a ser tomada na dose única de dez "pérolas" para o tratamento da ancilostomose; a Bituelve (do inglês B-twelve), à base de vitamina B12; e o Betamicetin, o nome de fantasia do cloranfenicol do Lafi.
A última droga da relação citada fez-me, certo dia, passar por um pequeno vexame. Quando tentei sugerir ao professor Dr. Murilo Martins que a incluísse em seu receituário. O médico hematologista, de quem teria aulas no ano seguinte, era radicalmente contrário ao uso do cloranfenicol, por considerar que esse antibiótico, entre os efeitos adversos, podia causar anemia aplástica. E, tentar contornar a situação alegando que no Betamicetin, por estar o antibiótico associado a vitaminas do complexo B, reduziria o risco para a aplasia medular, só fez aumentar a gafe.
Algum tempo depois, já desvinculado do laboratório, eu ouviria do Dr. Glauco Lobo (pai) a seguinte história. O emérito cirurgião fora chamado para atender um paciente em casa, quando suspeitou de que estaria diante de um caso de intoxicação digitálica. Mas era uma situação improvável, já que o paciente não devia estar usando digitálico. Entretanto, ao conferir os remédios que ele vinha tomando, encontrou a Digitoxina (à razão de três comprimidos ao dia) entre os mesmos. Como consequência de um erro que acontecera numa farmácia, onde alguém dispensara a Digitoxina (no lugar da Disteoxina).
Como se vê, a "letra de doutor" causava seus problemas já naqueles tempos.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O FILANTE DE JORNAL

Anos de observação fizeram-me convicto de que existe o tal filante de jornal. Ele não surge assim acabado, da noite para o dia, como o objeto de seu estranho desejo vício. Ao contrário, ele aparece aos poucos, vai crescendo em intromissão até se tornar algo avassalador. Neste ponto, não sai mais de nossas vidas. E vamos ficando privados de informação, enquanto ele, sozinho, pode ser comparado a uma Agência Reuters ou a uma United Press.
No início, ele não passa de alguém simpático e afável, que nos cumprimenta. Mas é aí que mora o perigo. Pois subestimamos o mal que ele pode nos infligir. Depois, já sentimos o seu bafo quente na nuca (fora do contexto sexual, felizmente), ao qual se seguirão atos progressivamente lesivos a nós, suas vítimas. A nós que, em pouco tempo, seremos desapeados dessa Aldeia Global.
A título de alerta, eis como se dá a escalada de um filante de jornal:
  1. Ele pergunta o que há de novo no jornal.
  2. Ele passa a ler o periódico, posicionado atrás de você.
  3. Faz a mesma coisa, só que em voz alta.
  4. Pega o caderno de esportes e vai ler noutra sala.
  5. Já é o jornal inteiro que ele pega para ler em casa.
  6. Devolve no dia seguinte o jornal, depois de recortados os cupões promocionais.
  7. Não devolve mais, pois tem outros usos para a imprensa escrita.
  8. Ele intercepta o entregador de jornais.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O ENCONTRO DOS TITÃS

Há muitos milhões de anos Marte era habitado por um único e gigantesco titã. Vênus, neste aspecto, também não era diferente: lá existia outro titã, só que mais gracioso. E os dois titãs não se conheciam titanicamente, quero dizer, pessoalmente. Mas costumavam trocar mensagens telepáticas sobre os assuntos do quotidiano.
Um dia marcaram um encontro.
Aí, surgiu a inevitável pergunta:
- No seu planeta ou no meu?
Após algumas rodadas de negociação telepática, por razões logísticas deu Terra. Que, se os dois partissem quando os planetas estivessem alinhados, ficava a meio caminho para ambos. Embora muitos informes dessem conta de que o local a ser visitado não passava de um planeta inóspito.
Em sua bagagem, o titã venusiano resolveu trazer fogo para aquecer o planeta. Enquanto o titã de Marte zarpou com colossais estoques de água, por imaginar que o calor terrestre só poderia ser suportado com uma ducha a cada instante.
Ao encontro só o titã de Marte chegou pontualmente. Aborreceu-se com o atraso do outro, e foi visto inclusive a comentar:
- Se ela não chegar agora não precisa chegar.
Esse "ela" era uma forma de tratamento que o titã de Marte nunca antes usara para se referir ao de Vênus. Mas estava de acordo com as suspeitas que ele, nos últimos tempos, vinha levantando a respeito da natureza do outro. Então, movido pela curiosidade, resolveu esperar.
Com o atraso de uma eternidade, o titã venusiano chegou. E logo sucedeu, entre eles, um conhecer de corpos através da mútua apalpação. Até que descobriram, um no outro, que possuiam estruturas anatômicas que se completavam. E que, ao fazê-lo, provocava em ambos um indescritível prazer.
Nunca mais voltaram aos planetas de origem.

Bônus
Men Are From Bars Women Are From Venus
Esse trocadilho só dá certo em inglês.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

SOBRE O TÉDIO

Reside na capacidade de entediar-se a principal diferença do ser humano com relação aos animais. Se os macacos soubessem se entediar eles também seriam humanos.
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O tédio tem rima, porém não tem remédio.
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O que é bom, se repetido, também causa tédio. Como o doce de leite que, às tantas colheradas, o paladar enoja, se entedia.
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Cheio da vida não é igual a cheio de vida.
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O pior do tédio é que ele pode conduzir o entediado ao suicídio. Mas... estar sem selos para colocar na carta de despedida é um motivo justo para não se suicidar.
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Felizmente, o Centro de Valorização da Vida agora atende em domicílio. Antes de tomar a decisão radical, ouça o que eles têm a dizer em seu interfone.
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Propostas para combater o tédio: matar moscas com um jornal dobrado, mudar de calçada para não falar com o amigo paulista, desfiliar-se do clube dos entediados.
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E se não consegue evitar as pessoas e situações que causam tédio assumir um ar blasé e... bocejar. Bocejar inicialmente disfarçado (levando o dorso da mão à boca); com a continuidade do problema, bocejar às escâncaras e, por fim, dormir.
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Agora, se um chato acordá-lo para contar a última? Pois bem, que seja mesmo a última a que ele contou.
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Não há dúvida de que o carbono quaternário com a sua sociabilidade levou as coisas longe demais.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

ERA LONDRES E CHOVIA

A história da invenção das palavras cruzadas contada "comme il faut"
Certa vez o "que possui milhões" Vitor Orile, encontrando-se em "cidade à margem do Tâmisa", recebeu convite para jantar na casa de um "pessoa com afeição recíproca". Orile foi. Porque chovia torrencialmente, "sexta nota musical" pelas tantas, depois de servido o "infusão feita com o fruto do cafeeiro", o "aquele que recebe convivas à sua mesa", lhe perguntou:
- O que se pode fazer em uma noite de "precipitação atmosférica sob a forma de gotas" para matar o "medida de duração dos fenômenos"?
- Um destes "dois elevado ao quadrado" entretenimentos, respondeu Orile. Jogar "ponte, em inglês", contar "narrativa curta e picante", fazer "ações de adivinhar" e tocar "instrumento musical que sucedeu ao cravo".
Mas, enquanto falava, Orile, com o "articulação que reúne o braço e o antebraço" apoiado na mesa, se entretinha rabiscando letras e quadrículas nos pedaços de uma "lâmina delgada feita de celulose". De repente, exclamou:
- Enganei-me. Podemos fazer "o número de sentidos do corpo" coisas. Acabo de inventar um novo "ocupação ligeira e agradável".
Foi como Orile inventou as palavras cruzadas.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

TEM REMÉDIO?

Para que tudo fique bem claro começarei do PRIMODIAN. VALDA e eu, muito além daquele chavão de onde cabe um CAMBEM dois, juntos vivíamos. Éramos um casal PLENUM de amor. Como se a vida, em vez de um VALIUM de lágrimas, fosse apenas um CONMEL. TANTUM que nada abalava a nossa felicidade, nem mesmo uma rara e casual BRIDINA. E eu só podia GABAX quão afeiçoado um ao outro éramos. SIRBEN que, entre nós, a mútua renúncia não fosse a condição SINEQUAN para nada.
Mas, eis que um dia, numa praia de grande movimento, ela se decidiu por INOVAL. E, ante a um monte de olhares lascivos, fez um despudorado TOPLEXIL. Eu REAGIN, evidentemente (o que viria depois, o nu FRONTAL?). E, durante dias,lhe fiz um grande SERMION de advertência, sem que - detalhe CAP-TAL - ela se mostrasse uma MADALEN arrependida. Pois ficou em SILENCIUM, só ouvindo como se não fosse, DIABETAL, com ela a reprimenda.
Ah, eu devia ter entendido aquele seu MUTIL como um deixe ESTAC! Pois logo, logo ela partiu PARALON. SOBEE inclusive que foi para viver uma nova experiência, uma NOVARRUTINA. Não pensando em entrar para o teatro BESEROL, mas porque eu lhe havia cansado a BELEXA. E que o UVILON disso tudo fora a minha incompreensão. Como se um homem INTAL situação não devesse reagir, devesse SERTAL um desfibrado que tudo suporta calado.
Ora, não foi porque eu possuísse um humor LABEL, eu fiquei fulo porque ela DESOBESI-M. Ao armar COFASOL na praia, um lugar onde as pessoas de boa índole vão apenas FLANAX. Mas o importante é que hoje eu tento ser FORTEN, me libertar desse maldito COMPLEXO B. E procuro cair na REALAN, o que não é FA-CYL no transe em que me acho. Porém é preciso, antes que me venham ideias de DUOCIDE, já que desaprovo as soluções violentas. Por natureza, sou MANSIL de espírito e tenho de sobra o NOBRIUM sentimento do perdão.
É ESSEN o meu compromisso: quando um ser FEMINIL aprontar outra, haja o que houver, eu vou me conservar SERENIUM. TOTALENS. Isto é, pelo menos enquanto não VOLTAREN os meus incontroláveis ciúmes...

Crônica publicada em "O POVO - CULTURA", em 20/05/89, e no "JAMB", em data incerta. Alguns dos remédios citados no texto não são mais produzidos pela indústria farmacêutica.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

DOM FULANO X DOM BELTRANO

Há os que defendem a monarquia de um modo equivocado desde o início. Propondo o nome de Dom Beltrano para ocupar o trono do país, caso o plebiscito realmente decida que o Brasil vai virar reino. E que, com isso, lesam os interesses de Dom Fulano, o qual, na linha da sucessão, tem precedência. Ainda que Dom Fulano, força é reconhecer, seja um que se perde pelo nome. O que ele tem não condiz com a pompa e a circunstância do cargo real, é demasiado vulgar.
Se é pelo passado de dedicação à TFP, também vence Dom Beltrano. Cuja militância em prol da Tradição e da Propriedade, fê-lo até esquecer a Família. A ponto de Dom Beltrano, apesar de madurão, ainda não ter um descendente - e isso é mau! Na medida em que a dinastia para ir em frente vai ficar na dependência de primos, cunhados e outras lástimas.
Bem, a culpa disso cabe ao próprio Dom Beltrano que, em algum lugar do passado, fez voto de castidade. Não sabendo ser, naquele momento, sábio como Salomão foi. Embora se diga que Dom Beltrano tende hoje a revisar a antiga decisão. Quer dizer, se é para ganhar a coroa ele topa encarar uma outra - de carne e osso. Mandando buscar essa coroa de sangue azul lá "nas Oropas", para o bem da Casa de Bregança Bragança.
E por falar em coroa, como anda a coroa real? Dizem que, numa oficina de reparos, desfalcada dos brilhantes que foram doados para acabar de vez com a miséria do Nordeste. Agora, que a hora de colocá-la na cabeça já se aproxima, justo é que ela fique outra vez "joinha". Pois Dom Beltrano promete usá-la, em grande estilo, no primeiro baile que houver na Ilha Fiscal. Para provar inclusive que é melhor anfitrião do que o seu antecessor na época do Brasil império.
Como palavra, plebiscito soa desagradavelmente: evoca plebe. Mas, paciência, é através dessa forma popular de consulta que o Brasil pode voltar a ser monarquia. E integrar o fechado clube onde já se encontram Lesoto, Tonga, Nepal, Suazilândia... Com essas nações o Brasil tem muito a aprender. Por exemplo, conseguiria o brasileiro sobreviver caso tivesse uma renda anual per capita de 170 dólares? Não? Pois o nepalês consegue isso e ainda saúda o seu rei.
Mesmo detestando a carcomida república, Dom Beltrano não pretende discriminar quem o serve lealmente. A prova é que ele carrega, no bolso do colete, o nome do ex-ministro Magri para o cargo de bobo da corte. Magri, que acredita piamente que do céu chovem dólares, está compenetradíssimo. Em conversa reservada com o futuro monarca, já lhe prometeu não inventar neologismos. Só arcaísmos, daqueles que nos façam lembrar os bons tempos d'antanho.
(rascunhado em 1993 e reescrito em 2010)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

JÁ FOI ASSIM

Para dissipar umas nuvens monárquicas que estão a se formar no horizonte, bata (com cetro, não) na madeira três vezes.
Se isto não der resultado, e tivermos de suportar pompas, circunstâncias e tais, que o anacrônico sistema de governo deverá trazer para o país, sem que em contrapartida algo de bom advenha, oportuna será a seguinte sugestão:
A Corte, por ocasião de sua reinstalação, começar pelo baile da Ilha Fiscal. Era o que estava fazendo quando, para a felicidade geral da nação, foi-lhe dado em 1989 o vade retro.
* * * * *
O monarca representava o Poder Moderador. E, como tal, indicava os nomes que iam compor o Conselho de Estado e o Senado - este último em caráter vitalício - aos quais competia apenas dizer o que o soberano queria ouvir. Ele também indicava o primeiro-ministro que, por sua vez, montava o Gabinete que ia governar o país.
Havia eleições. Nestas, apenas uma diminuta parte da população votava, a fração constituída pelos grandes proprietários de terras e de escravos, cujos representantes alternavam-se no Poder Legislativo como as duas faces da mesma moeda.
Poder Judiciário tampouco merecia ter este nome, pois os magistrados podiam ser suspensos e demitidos.
E acrescentem-se estas outras mazelas: uma Constituição outorgada; uma população material e intelectualmente desassistida; a tolerância com o câncer social da escravidão; Estado e Igreja imiscuindo-se mutuamente; as reclamações das províncias resolvidas manu militari; uma economia baseada no modelo agrário exportador; a pouca expressividade de sua área científica etc.
Cair na real é constatar que o Brasil já foi assim.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

AO REI, NADA

Vote no rei e não vote nunca mais. É como deveria ser, a bem da verdade, o slogan inteiro dessa fajuta campanha monarquista. Pois não consta que existam, nos países onde a anacrônica forma de governo ainda medra (epa!), súditos votando em reis. Quanto ao símbolo, que os monarquistas andam utilizando na campanha televisiva, mais parece "chupado" do logotipo do McDonald's. E, não bastando o enchimento de paciência, ainda deram de passar o pires, digo, a coroa.... pedindo doações. Ora, vão gastar um pouco daquilo que já arrecadaram com os laudêmios de Petrópolis!
Leitorado, 17/03/1993

Sobre a suposta neutralidade do rei, ocorrem-me algumas dúvidas: O rei não fede nem cheira? Não toma partido de nada exceto da TFP? Está descarregado e com isso não se deixa influenciar por campos magnéticos? Decide ele da forma salomônica, o que inclui naturalmente algumas criancinhas cortadas ao meio? Ou, então, o rei já vem com a roupa suja lavada a sabão neutro? Enquanto não me esclarecem, vou apenas torcendo... não, não é a roupa do rei. É para que não venha a nós o vosso reino.
Leitorado, 19/03/1993

No finado império havia uma lei fixando em 50 o número máximo de chicotadas que o escravo podia levar por dia. Apesar desse tabelamento, por ordem do patrão ou por simples entusiasmo sádico do leitor feitor, era comum o escravo ser chicoteado até à morte. Encurtando assim uma vida útil no eito que poderia durar dez, quinze anos... para prejuízo do desavisado patrão que, desgraçadamente, de arrependimento não morria. E publica-se uma pequena relação dos instrumentos, além do já citado chicote, que eram na época usados para a aplicação de castigos corporais nos escravos: correntes, gonilha, gargadeira, tronco, viramundo, algemas, peia, máscara, anjinho, palmatória, ferro de marcar etc. A informação é dada em atenção a Sandra de Sá, Macalé, Neuma da Mangueira e outras personalidades da raça negra que possam estar atualmente envolvidas na campanha da monarquia. Escravidão e monarquia no Brasil foram as duas faces (azinhavradas) da mesma moeda. Quando uma acabou, a outra idem.
Leitorado, 02/04/1993

sexta-feira, 28 de maio de 2010

ESSES JAPONESES MARAVILHOSOS...

É difícil conversar com um homem
que mantém um relacionamento profundo
com o aparelho de televisão. E. Bombeck

Não é ficção: os japoneses desenvolveram um tipo de TV em cores inteiramente revolucionário em matéria de economia de espaço. Nada convencional, o aparelho é para ser colocada na parede, como um quadro, fazendo parte da decoração da casa.
O que é a relatividade: enquanto os americanos ficaram no "time is money", os japoneses, com tecnologia própria, já estão no "space is money". O mundo do futuro pertencerá mesmo a esses japoneses como suas máquinas eletrônicas - eu, cidadão comum, estou convencido disso. Pode acontecer que algum "discordino da silva" diga que não, assegure que pertencerá aos nipônicos, só que no fim, pelo argumento de minha força, acabará cedendo na ideia.
Metido a sociólogo da televisão, mas sem ter as polegadas de um Artur da Távola, eu dei de fazer um questionamento. Até que ponto o comportamento das pessoas será afetado pelo advento do novo televisor? Será bastante afetado, respondo, pois só o coroa aqui, de cara, já está prevendo três ou quatro distorções no comportamento do homem partícipe dessa aldeia global.
O televisor, por não ter quase espessura, ninguém poderá mais dar nele um soco no tampo para fazer voltar som e/ou imagem. Terá que descarregar a "frustração reparadora" no rádio, no relógio digital ou, quem sabe, no liquidificador.
É possível que um ou outro desavisado, perfeito "videota", desperdice preciosas horas contemplando uma gravura de peixinhos ao tempo em que pensa estar assistindo a um programa da televisão educativa.
Alguém, pela madrugada, poderá desligar o televisor de um apartamento vizinho. Um pontapé na parede e... pronto! Fica dispensado do trabalho de vestir o quimono para ir enfrentar o dono do barulhento televisor.
E, pedra importante a gente canta é no final, o que ainda pode acontecer a fulano, um sujeito casado no civil, no religioso e no monótono. F. chega a sua residência e encontra o famigerado televisor-lagartixa, não na parede, mas sim no teto. E, naquela hora das coisas impróprias, vai, descobre que o que está dando prazer à esposa não é ele, pelo vão do ombro é a sessão-coruja.
Colocado numa situação dessas, só para efeito de hipótese, Antonomásio foi enfático quanto ao que faria: "mudo de canal". Sei não, mas o que Antonomásio disse, cabe ser bem meditado, pois tudo que o desbocado fala tem mais de um sentido.
(publicado no Jornal O Povo, aí pelos anos 80)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O MISTÉRIO DA VIDA

A solidariedade é sublime ação
(SUBLIMAÇÃO).
Por isso, vai ficando cada vem mais etérea,
éter,
et....
até não mais existir entre os homens.
Os mortAIS não (se) importam:
não enxotam o abutre que bica
o fígaDOR de Prometeu acorrentado.
EmboraVIboras achem um absurdo
(no meu tempo, meu filho, como era fácil
picar um belo calcanhar!)
que eu use botas blindadas.
(PAUSAPARARIR).
Só um ser sabe o Mistério da Vida
e ESse FINGE.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O SINGULARÍSSIMO DIA DO NAMORADO

Quando a presente mensagem chegar a este prestigioso jornal é bem possível que não seja publicada. É que já transcorreu o 12 de junho, a data em que se comemora o Dia dos Namorados.
No entanto, a mensagem não é totalmente extemporânea, uma vez que ela pode se adequar ao 12 de junho do ano vindouro. Agora, se contribuísse a mensagem para restaurar, de uma vez por todas, o legítimo significado da data, aí tanto melhor. É terrível como ora interpretam a data!
Vendendo o peixe:
Eu tenho - por fonte absolutamente confiável - que o comércio, ao instituir o dia em questão, apenas pensava em homenagear um peixe malacantídeo da costa brasileira, o Namorado. Outros dias seriam depois criados. O Dia do Badejo, o da Garoupa, o da Cavala (a Cavala, quem diria...) e, assim por diante, até só restar o dia 1º de novembro, o qual, por razão óbvia, seria dedicado a Todos os Peixes.
O Dia dos Namorados funcionaria, pois, como um balão de ensaio. Bem aceito pela sociedade, ensejaria a criação de outros dias. Até todo dia ser dia de peixe.
Mas o plano foi sustado. Ao se observar o seu desvirtuamento - com tendência ao descontrole - a partir do Dia dos Namorado. Enamorados (uma letra, às vezes, é tudo) a trocarem entre si presentes e lembrancinhas... como se deles fosse o dia. A toque de caixa registradora inclusive. Enamorados, por todas as partes, a se tornarem posseiros do dia. Quando o Dia, com "D" maíúsculo, não era mais um dia qualquer, devoluto.
Com isso, o Dia crepusculou, gentil senhorita. Visse-o como ele andava, e anda assim de intrujões, e estes com seus mimos fáceis. Chama-se agora Dia dos Namorados, e o festejo dele é outro. Bem diferente do que o comércio (cujo deus é Mercúrio, o paradigma da honestidade) para ele imaginou.
Aí, diante do acontecido, o comércio, que era quem iscava, jogou fora o samburá. E botou as barbatanas barbas de molho. Desobrigou-se. E, alegando a imprevisibilidade sociológica dos resultados, nunca mais se meteu em assunto de dia... a ver com o peixe.
Particularmente, eu penso de outro modo. Porque acredito no Dia dos Namorado, ainda. No dia restaurado em seu bom, puro e original significado que homenageia um peixe malancatídeo. E, por isso, estou aqui. Para incitá-la, gentil senhorita, a que, no ano que vem, em casa ou no restô, coma o Namorado a 12 de junho.
Assim ou assado, coma o Namorado no seu dia.

Opinião do Leitor, Jornal O Povo, 20/06/1985

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O ROJÃO DE ROSENERY

O fato é de conhecimento de todos, uma vez que foi transmitido ao vivo por várias redes de televisão. Aconteceu no momento em que o Brasil, com o coração na mão, disputava com o Chile uma vaga para a Copa de 90. Anteriormente, na partida que tinha sido realizada em território chileno, dera empate - com os brasileiros se considerando prejudicados pela arbitragem. Mas, naquele instante, com o escore favorável (1 a 0), o Brasil silenciava o adversário falastrão. E, pelo domínio de jogo que estava apresentando, já se prenunciava um placar ainda mais ampliado. Era só esperar.
Quando o que não devia acontecer... acontece. Aos 28 minutos do segundo tempo, o goleiro chileno cai aparentemente atingido por um rojão. Vê-se o goleiro no chão, em meio a uma fumaça verde que, ao se dissipar, mostra o pior. Que há sangue na fronte do guarda-valas. Exatamente o que os chilenos estavam esperando para, diante da dificuldade em vencer os brasileiros, nos arrebatar extra-campo a vitória. Puseram o companheiro ferido na maca, trancaram-se no vestiário e, alegando violência no estádio, não mais retornaram ao gramado. Onde só tinham a perder, ao contrário do tapetão em que poderiam sair vitoriosos.
O estádio estupefacto: quem foi? quem não foi? E descobre-se que a causadora do quiproquó foi uma moça bonita de Niterói, de cujas mãos partira um foguete sinalizador. Pouco habituada a frequentar estádios, desfazendo-se em lágrimas pelo que acabara de acontecer, Rosenery, este o seu nome, alegou ter recebido de um estranho o foguete - com as instruções de como usá-lo. Então, no momento azarado azado, ela puxou a cordinha, disparando-o. Deixando o Brasil assim dividido: metade considerando-a uma estraga-prazeres e metade tendo-a na conta de uma desmancha-prazeres.
Seguiu-se uma semana de grande expectativa para os torcedores de lá e de cá, com a decisão do resultado da partida a cargo da FIFA. Felizmente, Brasil e Chile não fazem fronteiras pois só Deus sabe a que ponto as animosidades chegariam. De qualquer maneira, o desempenho de Rosinery lhes deve ter mostrado do que é capaz a balística nacional. Outras coisas também nos seriam mostradas, mas aí fica por conta dos acertos da moça com as revistas masculinas.
Quanto ao Rojas (nome que atrai rojão!), o goleiro vai ter que se explicar em Zurique. Negócio seguinte: alguém ser atingido por um foguete luminoso que, no máximo, pode chamuscar (o que não lhe aconteceu no plano físico) e então aparece com um corte no supercílio. Daí, ou estamos diante de um grande prestidigitador ou, então, diante de um azarado que se deixa atingir pelo fecho da própria luva. Correndo o resto do espetáculo por conta de muito mercúrio cromo.
Consumatum est! O Brasil vai estar na Copa de 90. Uma decisão do comitê organizador da FIFA, após considerar que houve abandono de campo por parte dos liderados de Aravena, deu a vitória ao Brasil. Por 2 a 0, conforme estabelece para esses casos o artigo 6 do regulamento da entidade. Como 1 a 0 já estava quando a partida foi interrompida, gol de Careca, não custa nada indicar o autor moral do segundo gol. Agora que o susto já passou, que tal dar o crédito desse gol à Rosenery? À Rosenery que, certamente, vai agradecer esse reconhecimento público não soltando outro rojão.
(1989)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

MINIMALISTA

Sr. Editor,
De tempos em tempos ressurge a discussão sobre o famoso dedo mínimo de Lula. Aquele que o líder petista não mais possui, claro, já que o outro, em sua dolce vita na mão normal, não é sequer lembrado. A não ser pelo dono, nos momentos em que ele precisa do mindinho sobrevivente para se aliviar de algum prurido no canal auditivo.
Mais recentemente, a discussão tomou corpo quando o seu principal concorrente na corrida presidencial fez o seguinte: adotou, como símbolo de campanha,uma mão espalmada - com todos os dedos à mostra! Como se fosse uma provocação à Lula que, com desvantagem nesse campo, não reúne condições para responder no mesmo estilo. Sob o risco de estar incidindo em meia-verdade.
Outra preocupação é livrar-se dos comentários maldosos sobre a perda digital. Dos "sem-afetos" que, botando o dedo no suspiro, tentam defini-lo como "um trabalhador burro, por ter se acidentado no trabalho". Ora, então esses atiradores de farpas não ouviram o que alguém disse? Sobre aplicar o mesmo raciocínio no caso de Ayrton Senna, apenas para ver a que esdrúxula conclusão se pode chegar.
Principalmente que Senna, o maior piloto de carros de corridas que o mundo já viu, no circuito de Ímola, perdeu bem mais do que um dedo...
A condição de deficiente físico ao líder "minimalista" só pode carrear muitos votos adicionais. Oriundos dos deficientes físicos existentes no país, mas não da parte dos deficientes mentais. Os votos destes, por uma questão de identificação, já estão tendo outro encaminhamento (pelas barbas de Enéas, não me perguntem para quem!).
Teresópolis à parte, um dedo não é tudo! Com os nove que lhe restam, Lula poderá inclusive inovar quando estiver no poder. Não pagando conta pública que antes não tenha passado na prova-dos-noves. Fazendo, sem se equivocar no número, as novenas para Santa Edwirges etc. Contanto que, estando lá, não nomeie ministros cheios de nove-horas (sob o pretexto de que vão participar da reunião palaciana das nove).
Lula não se propõe tocar harpa (embora o país muito se pareça com uma!). Quer apenas governar o Brasil, um país tão cheio de problemas que qualquer um que se meta a resolvê-los terminará cheio de dedos. E, com menos um, ele já parte com alguma vantagem.

Datas da publicação: 17/06/94 no JORNAL DO LEITOR e 29/06/94 no DN - CARTAS  

sexta-feira, 23 de abril de 2010

À SOMBRA DOS SAPATOS IMORTAIS

A propósito de uma pergunta sobre o que fazer com os sapatos de Imelda Marcos, tenho alguma sugestões.
Bem, antes de tudo, fico na dúvida acerca da quantidade exata dos pares de sapatos que aquela senhora na atualidade possui. Estima-se que sejam mais de cinco mil pares. Agora, dizer exatamente de quantos se compõe o acervo acaba não passando tudo de um chute (ora, bolas). E dos mais desajeitados porque, ao que parece, não há chuteiras no lote da viúva. Só sapatos finos, adquiridos com parte dos cinco bilhões de dólares com que se calçou o marido, o ditador Ferdinand, ao tempo em que esteve no poder.
Como era a fórmula: enquanto Dona Imelda fazia da vida sapato, Dom Ferdinand, mais abrangente em sua atuação, ia fazendo gato e sapato. Com o povo e o erário das Filipinas.
Mas, as sugestões. A primeira é jogar tudo no vulcão Pinatubo para exorcizar o mal que a ditadura Marcos causou ao povo filipino. Entretanto, resisto a essa ideia: que culpa tem o vulcão? Além de que o Pinatubo, cujo temperamento é reconhecidamente explosivo, não ia engolir a coisa quieto. Na primeira oportunidade, o vulcão devolveria a carga de sapatos ao meio-ambiente. Disso resultando que o arquipélago ficaria qual um imenso panetone - com os sapatos de Imelda fazendo as vezes de frutas cristalizadas!
A sugestão de distribuí-los com a população carente é demagógica. Derrapa na "pododiversidade" e lá poucas mulheres calçam o número de Dona Imelda. Uma dublê de pés dela e meia dúzia de "sociolatas", não mais que isso, seriam as pessoas contempladas pela medida.
Por isso, a ideia mais plausível é criar o Museu do Sapato. Mas sem essa de contar com os sapatos da defunta! Não precisa morrer a viúva Marcos para que a República das Filipinas tome tombe todos os seus sapatos. Aliás, todos... menos um par de pantufas que lhe seria deixado para fazer sapateado no xadrez. Encarregar-se-ia o Estado de os desempoeirar, lustrar e desodorizar... E de botar meia-sola quando bastante andado estivesse o exemplar. Após o que, alertando os curiosos para que não fossem além dos sapatos, seriam estes colocados em exposição no museu.
Com esta destinação proposta para os sapatos, creio haver cortado o nó górdio de seus cadarços.

Data da publicação no Jornal do Leitor: 22/05/94

sexta-feira, 16 de abril de 2010

CARTA AO JÔ - 3

Caro Jô:

Eu tenho notado que os textos lidos por você, nos últimos tempos, são apenas os que aí aportam através de fax. E não através de cartas, como costumava ser. É possível que estas até estejam a ser rasgadas ou incineradas para que não cheguem à sua mesa.
Desculpe o trocadilho mas, em seu programa, epístola agora só tem vez com pistolão. É mágoa com algum carteiro? Justamente agora que temos um CEP novo. É pinimba com algum filatelista? Ou é aquela impressão de que o fac-símile, vulgo fax, aprimora a qualidade do que foi escrito?
Ora, Jô, a carta não existe para humilhar ninguém. Apresenta um passado glorioso que remonta aos mensageiros da Grécia antiga. Conheceu dias de esplendor nas mãos de Madame de Sevigné. E muitas delas, como as que foram trocadas entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel, alçaram à condição de livros.
Uma carta, entre outras qualidades, pode vir impregnada do perfume da mulher amada. E o fac-símile nem de perto acena com essa possibilidade.
Ah, quanta verdade tristonha ou mentira risonha uma carta nos traz! A própria Bíblia não seria a mesma sem elas. Já pensou se Paulo tivesse apenas passado um fax aos coríntios? Além disso, foi escrevendo uma carta-testamento que Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na História.
Não é o fato de um texto ser veiculado através de fax que o torna digno de ser lido. Se algo merece ser lido, ilustrado por seus pertinentes comentários, é porque deve ter conteúdo. E o que ora escrevo tem de sobra.
Pois é, Jô, leia - em público - esta carta. Quanto ao conteúdo, fica para a próxima vez.

Cordialmente,
Paulo Gurgel

sexta-feira, 9 de abril de 2010

TA...MANCADAS

Admiro sem reservas o povo lusitano. Os portugueses que, entre outras coisas, inventaram o submarino de cortiça (que não afunda nunca!), a versão mais avançada do computador (cuja memória foi substituída por uma vaga lembrança) e o limpador de para-brisa (projetado para funcionar no interior do carro).
No país irmão, ao que se sabe, o consumidor é sempre respeitado. De suas fábricas já saem todos os fósforos testados. As xícaras, para o conforto de destros e canhotos, invariavelmente têm duas aselhas. E as perucas são bastante óbvias para que todos saibam quem são os calvos.
Lá tudo funciona às claras. Inclusive a polícia secreta (cujos integrantes usam vistosos crachás). E, de modo mais competente que nós, eles se defendem da inflação. Na base do escudo.
Enquanto isso, que fazemos nós? Invadimos o "jardim da Europa à beira do mar plantado" com os nossos filhos de Tiradentes. Com os nossos enlatados da televisão. Sabendo que estes, do primeiro ao último capítulo, perpetram os maiores atentados a nosso idioma comum. E, para tripudiar, ainda mandamos o Claudio Humberto ser adido cultural em Lisboa.
É hora de a gente parar com o feio costume de contar anedota de português. Principalmente se houver um patrício na roda, porque aí a piada terá de ser contada outra vez. Por essa e outras é que, mesmo sem ter procuração para defender português, eu sempre reajo quando uma dessas infames piadas está para ser contada.
E reajo à portuguesa, naturalmente. Assentando o meu pé de ouvido na mão do infeliz piadista.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

CARTA AO JÔ - 2

Prezado Jô:
Permita-me tomar um pouco do seu tempo para discorrer sobre um vizinho. Ele é o paradigma de um chato. Avalie você que não se pode, nem por cordialidade, cumprimentá-lo com um "oi, tudo bem?", pois sabe o que acontece? Ele não entende isso como uma saudação, faz parar o incauto e daí para frente... tome conversa aborrecida! Durante a qual, tintim por tintim, ele se põe a descrever os últimos fatos de que teve conhecimento, sobremodo os desagradáveis. Quando podia ter respondido com um "tudo bem" e seguido caminho.
Ele adora frases-feitas, lugares-comuns, é porco-chauvinista e tem mau hálito. Não consegue conversar sem, a todo instante, cutucar o interlocutor como se estivesse a lhe oferecer um pato. Enquanto repete, incessantemente, o bordão "tá me entendendo?". Pois saiba você que, numa dessas vezes, eu tive de reagir. "Ora, eu entendo Kierkegaard, o governo paralelo do Lula e a Lei do Inquilinato, por que não hei de entendê-lo?" Mas, nem assim, Jô, larga ele o detestável estilo, já que "mancômetro" é algo que não tem. Nem cortador de grama, o qual, se ele me toma emprestado, devolve depois quebrado.
O certo é que não vou aturá-lo mais nas festas que faço em minha chácara. E, para barrá-lo na pretensão de entrar sem convite, na próxima vou pôr leão-de-chácara na entrada. Sabe como é, Jô, o sujeito a fazer da minha festa um grande rega-bofe, a falar bem do governo, a contar piada cabeluda na presença de minha irmã que pensa em ser freira... Aí, quando alguém começa a contar outra, que talvez melhore o nível, ele vai, interrompe com um "ah, essa é velha!". E, assim, prossegue até a festa terminar... com ele promovido de chato a bêbado chato!
Diz-se que o universo se acha em expansão, o que pode ser para mim um princípio de esperança. O de que ele fique um pouco mais afastado do microcosmo que habito. Mas... como isso pode levar milhões de anos, o mais prático mesmo é eu me mudar de bairro, cidade ou país (na ordem inversa de preferência). E, se possível, o quanto antes, Jô! Pois o vizinho, para reciclar a sua já imensa chatice, acaba de aderir à cientologia.

Publicado em 20/11/91 no Diário do Nordeste

sexta-feira, 26 de março de 2010

ENTRE "ITES" E "OSES" - 2

O hipocondríaco
- Doutor, eu não tenho doenças. Tenho epidemias!
O asmático
É quem mais chia na fila do SUS.
Na Natureza
Assustado ou confuso, cada ser reage de um modo peculiar. O médico, por exemplo, escondendo-se atrás de uma terminologia profissional.
O preço dos remédios
Um descalabro! Até os medicamentos que se prescrevem para a vertigem estão subindo de preço... vertiginosamente!
Uma, duas, já
- O senhor é louco.
- Gostaria de ouvir uma segunda opinião.
- O senhor é feio.
Se todas as pessoas dessem as mãos...
Uma coisa é certa: as epidemias se propagariam mais rapidamente.
Sóbrio e não só ébrio
- Ainda não sei o diagnóstico de sua doença... mas deve ser por causa da bebida.
- Neste caso... voltarei quando o senhor estiver sóbrio.
E nunca se exceda nos excessos
A temperança é a última que morre.

sexta-feira, 19 de março de 2010

CARTA AO JÔ

Fortaleza, 3 de novembro de 1992
Prezado Jô Soares:
Na qualidade de espectador diário(1) de seu programa na televisão, sinto-me motivado a apresentar algumas sugestões que, caso venham a ser seguidas, vão certamente tirá-lo da mesmice em que, nos últimos tempos, se encontra (o programa, bem entendido).
Ei-las:
  1. Receber o convidado ao pé da escadaria. Não tenha medo de que ele, prevendo uma entrevista movimentada, dê um passo errado e escorregue em sua direção. Você tem massa suficiente para apará-lo em qualquer queda.
  2. Servir ao entrevistado vinho do Porto. Ou, então, um cafezinho preparado numa requintada cafeteira(2), a qual deve ser posta para funcionar no início da entrevista. E não ficar só você(3) a sorver de uma caneca um líquido cuja natureza, até hoje, o grande público desconhece.
  3. Dispensar o Bira, o Derico, o Rubinho e o Miltinho. Mas conservar, do quinteto "Onze e Meia", o seu pianista para que ele toque nos intervalos das entrevistas. Depois que você, com a voz bem lânguida, o tenha anunciado: O-s-m-a-r.
  4. Soltar-se um pouco mais, ignorar o tênue limite que separa o charme da veadagem.
  5. Dispor de uma câmera exclusiva para as confidências e, ao usá-la, postar-se com obliquidade.
  6. Trocar o Jô Suíno (4) por um outro tipo de mascote. Pode ser uma perereca de plástica.
  7. Ter a mão um livro de auto-ajuda para, no final do programa, proceder a leitura de algum pensamento edificante.
São estas as sugestões, meu caro Jô. Adote-as e o seu programa, daqui para frente, passa a ser... OUTRO(5).

Cordialmente,

Paulo Gurgel

(1) com viés para espectador eventual, nem sei se o Jô leu a carta
(2) com jeito de retorta
(3) que egoísta!
(4) já chafurdou demais!
(5) o OUTRO refere-se ao programa do Clodovil