sexta-feira, 6 de maio de 2011

O PLURAL DO PLURAL

Chegara ao fim o conclave dos professores de Português. Durante três dias, puristas do idioma pátrio, atilados defensores do vernáculo, pacientes investigadores de etimologias, latinistas de nomeada, adeptos da linguagem castiça e administradores de mesóclises haviam discutido à exaustão todos os problemas da "última flor do Lácio, inculta e bela".
Repudiados tinham sido os barbarismos, os vícios de linguagem, os erros de concordância e a má regência.
A bem dizer, o conclave já se concluíra. Os seus participantes estavam apenas reunidos em um restaurante para a confraternização de encerramento do encontro. Depois, cada um tomaria o rumo de sua cidade de origem e todos só se reencontrariam no congresso do ano seguinte.
Enquanto isso, conversavam descontraidos, entre drinques e tira-gostos, tendo como fundo a música ao vivo que a casa oferecia a seus clientes.
Quando um dos convivas, o Professor Kyw, que era conhecido pela intransigência com que defendia o alfabeto com 23 letras, resolveu fazer um pedido musical:
- Copacabana.
Kyw era um grande fã de Dick Farney (a ponto de não se incomodar com as letras alienígenas existentes no nome artístico do cantor Farnésio Dutra). E a canção Copacabana, que o professor pedira, figurava no repertório de Nilo Ney, o cantor da casa, o qual não se fez de rogado:
- Existens praias tão lindas...
A confraternização acabou ali. Aliás, foi transformada em uma reunião extraordinária, na qual se produziu uma candente nota de protesto, assinada por todos, e que foi deixada na gerência do restaurante, protocolizada (protocolada foi voto vencido) e tudo mais.

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