domingo, 17 de fevereiro de 2008

ALGARAVIA

UM PEQUENO CONTO ÁRABE
Era um desses albergues onde só vai dar o costado uma ou outra alma-perdida. Apesar disto, tomado de repentino e inesperado alento, Al-Cunha bateu na aldrava. E quem veio atendê-lo, após alongado tempo, foi o próprio dono da estalagem. Um albino de nome Al-Meida, o qual, aliás, se mostrou receoso em deixá-lo entrar. No máximo, o recém-chegado ficasse no alpendre e olhe lá. Mas, no que Al-Cunha lhe houvesse perguntado se tinha cara de aldravão, se aparentava ser algum escravo do álcool, se portava algum feio aleijão... "Alastrim" foi a resposta. Estava ocorrendo uma epidemia da doença na aldeia.
Ora, Al-Cunha atravessara terras alagadas, contornara despenhadeiros alcantilados, subira morros alcandorados, percorrera campos alcantifados... para agora estar ali, com o corpo alquebrado, a pedir o inadiável repouso... E o alojamento lhe era negado naquela... naquela aldeola. Sob o pretexto de que vigorava uma lei de quarentena assinada pelo alcaide - uma estúpida lei! Que não relaxava nem para o seu cavalo Al-Faras. Aí, para não aloprar, e mesmo porque as almorreimas já o incomodavam, ele continuou desapeado. E, na expectativa de que Alá interviesse em seu favor, até retirou o alforje da montaria.
Uma chuva começou a cair ensombrecendo o dia. E nada de se notar mudança no alvedrio do opinioso albergueiro - que inclusive gracejou: "A chuva... que há com a chuva? Do telhado ela cai no algeroz e vai se acumular na almácega, o que me garante por algum tempo água em abundância..." Ora, depois de receber tamanha alfinetada, a Al-Cunha só restava usar de uma aleivosia. Dizer a Al-Meida que era um mestre da aleuromancia (nome que os alfarrábios dão à arte de predizer por meio da farinha de trigo). Com esse tipo de charla, quem sabe, ele... Mas não chegou mesmo a ser preciso, entrou em cena Al-Merinda.
Alvíssaras! Pois a mulher de Al-Meida, metendo-se na altercação, conseguiu-lhe a hospedagem (não obstante o risco de o albergue vir a perder o alvará). E o cansado viajor, para compensar o incidente, foi a seguir recebido com um fino repasto. À base de almôndegas, alface (tornado mais palatável pelo azeite guardado numa almotolia) e alcaparras. Alfenim foi a sobremesa e, para rebater tudo, chá de alfavaca. Já Al-Faras foi deixado num terreno alambrado a se regalar com uma generosa alfafa. E um dedicado almocreve, por meio de uma almofaça, cuidou de limpar os pêlos da alimária.
Findo o repasto, Al-Cunha entrou na alcova que lhe indicaram. Mas, antes de se deitar, verificou se havia num alguidar água bastante para qualquer precisão. Feito isso, tirou as alpargatas. E, estirado numa alfombra, pôs-se a dorminhar com a cabeça sobre um almofadão. Até que... altas horas, após haver sido despertado por gemidos lúbricos, inevitáveis pensamentos lhe vieram à mente. Que espécie de algolagnia devia sofrer Al-Merinda para se entregar ao albergueiro e encontrar nisso prazer? Ainda mais que Al-Meida, a pele enfeada pelo que parecia um alvaraz, exalava o mais desagradável almíscar (que lembrava o de um aligátor).
Ah, Al-Merinda! Como ele desejou ter Al-Merinda em sua alcova, possuir aquele corpo alabastrino... E, por muito pouco, aquilo que ele almejava não se tornou realidade. Quando ela, pé ante pé, adentrou o quarto mal alumiado... E ele, mais que o vislumbre da sua aproximação, foi... sentiu-lhe o cheiro bom de alfazema. No entanto, Al-Merinda a ele não se achegou, em vez disso se dirigiu a uma alcofa onde se encontrava as vestes de Al-Cunha. E, pensando que ele dormia, pôs-se a revirar a algibeira do seu caso de algodão, aluindo assim a própria reputação.
Então, aos primeiros albores do dia, Al-Cunha decidiu prosseguir viagem. Só que, aliviado do porta-moedas por Al-Merinda, não haveria como ele pagar o almoço, o aluguer... E o alarde ficou por conta da feroz alcatéia que o dono da estalagem lhe botou no encalço. Com Al-Cunha, é claro, dando tudo de si para, como diz um provérbio de fino álbum, não bater a alcatra naquela terra ingrata.

Publicado em O POVO CULTURA, em 09/09/89, e no livro EFEITOS COLATERAIS

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