segunda-feira, 3 de agosto de 2009

UMA IDADE DIFÍCIL

Nasci no cabalístico 6 de 6 de 48 (ano com números equidistantes de 6), mas não me tomem pelo anticristo. (Arreda para lá feioso 666, bem sei que quando o espúrio reino estiver para começar, tu antes mostrarás os sinais.) E esse blablablá numérico, de interesse nenhum para quem lê o tablóide, tem de fato o intuito seguinte. Mostrar, com a implacabilidade dos números, a quem quiser conferir na ponta do lápis, que hei chegado aos 40 anos. Uma idade especialmente difícil.
Sim, eu poderia ter pisado no umbral dos meus 40 anos numa festa entre amigos, família... mas que faço eu? Na data natalícia, refugio-me com a mulher e filho numa cidade potiguar. Mossoró, onde Virgulino não entrou e eu escapo - pelo fator distância inclusive - do "parabenizador-pra-você". Preto no branco, petróleo no sal, raciocínio analógico. Eu não falei que 40 anos seria uma idade especialmente difícil? Agora, quanto ao uísque amigo (a curriola merece), eis minha justificação: devo, não nego, mas pago quando puder.
Na véspera, o mar de Majorlândia fazia pano de fundo à latomia da minha Olivetti portátil. Eu tentava furiosamente um intróito para esta crônica. Nesse sentido, em vão tentei. Mas, da solidão e talvez por reflexionar sobre um "farol do fim do mundo" (Julio Verne), arranquei ideia para um conto pequenino. Apenas uma ideia. A musa que preside as letras ainda não se modernizou. E, até hoje, ao ouvido do poeta, continua soprando palavras, fragmentos de frases... quando já poderia trazer o texto completo num teleprompter. Para, aí, o poeta só copiar.
Alguém que completa anos é um pouco como aquele homem da anedota. A cair de um altíssimo edifício e, enquanto a queda não termina, não obstante o previsível desfecho, a dizer "até aqui tudo bem". Ah, seguramente eu não terei mais catapora, papeira, sarampo alemão, essas mazelas infantis. E bexiga também não terei, que esta foi varrida da face da Terra (e da face de seus moradores) pela medicina moderna. Em compensação, devo me preocupar com o colesterol, os triglicerídios, o ácido úrico... ou, preferivelmente, não devo; apenas com os esforços físicos extenuantes, para os quais (esforços sexuais, à parte) decidi que contrato dublê.
E eis-me aqui, quarentão, a driblar a morte. Como no passado, mas ela (epa!) cada vez mais a "manjar" minhas firulas - para um dia, por inevitável, me derrubar feio no gramado. Assim, não adianta mesmo andar de trancinhas, se tem dia que la está a fim de um rastafári. Nem de não jogar gamão. Até lá, é aproveitar as pequenas alegrias da vida de que falou Hesse. Prazer comedido é prazer dobrado, além de mais em conta. E, quando a morte vier, disto me lembrar: ficarei sem boca para rir, sem olhos para chorar.
Finalmente, aos 40 anos, não tenho vocação para ser Paulo, Paulo, no caminho de Damasco. Nenhuma voz, de fonte mal identificada, tem força bastante para promover mudanças bruscas em minha vida. Não caio do cavalo. E mais: vou continuar adubando (com o estrume do animal) os meus pequenos vícios, a ver se bem no meio deles floresce uma grande virtude. "Eras!" Tudo depende de el prisma con que se mira. Por isso, tem sido e não tem sido uma grande jornada esses 40 anos. Tornei a bailar "La bamba" (de novo nas paradas) e ainda não sei o que é votar para presidente (por que será, meu bom José?).
Pois é, 40 anos. Até aqui tudo bem.

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