terça-feira, 11 de dezembro de 2007

AUTO-ENTREVISTA

Quem és?
Um estraga-prazer que se regenerou. Agora sou um desmancha-prazer. O que significa dizer que atiro pedras no telhado do vizinho, se isto me dá na telha. Repudio a desumanidade de certas gentes que são capazes de enterrar uma toupeira vivinha. E não sou covarde (já me viram numa altercação ao telefone?), apenas tenho um instinto de sobrevivência acima da média. Sei pouco. Mas sei que Sócrates nada sabia. Ei, que direção devo tomar. Respondam-me rápido pois preciso ligar a sinaleira. Sic transit gloria mundi. Ou, como diz o outro, a glória do mundo está no trânsito.
Crês no sobrenatural?
Sobrenaturalmente. Nas horas difíceis - não há exceção - a gente tem que contar com uma força do alto. Reciprocamente. Por isso, sou devoto da Santa Ceia. Se quero ter o corpo fechado não invoco São Sebastião das Flechas, assim por diante. Vejo em tudo o dedo do Senhor (o fura-bolos, presumo). Nostradamus tem um alto índice de acertos, concordo, mas não é cosa nostra. Eu, sim, sou contrafeta em minha terra. Contrafetizo tudo. Ah, pobres e ricos, no final Deus passa a morte-niveladora.
Que pensas do amor?
Amor faz palíndromo com Roma. Em Roma, como as romanas (em conformidade com o adágio, modificado). Nossa mútua atração, dona, aumentaria muito se usássemos, dona, potentes ímãs nos bolsos. Enjôos de terra firme, tive-os sim. Mas não de navegar - sob bandeira liberiana - o corpo da mulher amada. Ah, no dia em que me queiras a paixão a paixão será do tipo vulcânico-piramidal... Mas, agora que faço. Amo Ana Luísa e Ana Maria, e por elas sou amado. Ana Luísa, à minha esquerda, mais perto do coração, leva palpitante vantagem. Comodista que sou.
Que achas da presente conjuntura?
Nem tudo anda caro, há o conquistador barato. Como medida desinflacionária o governo retirou o IPI da cachaça. Agora é bota uma OCA aí. Já o pão nosso de cada dia está cada dia menos codeúdo. Cruzeiro novo, cruzeiro atual... qual será a próxima embromação tecnocrática? Até lá, e depois, convém preferir o cruzeiro marítimo. Se a empresa na qual trabalha faliu, a culpa, por certo, é da sociedade dita anônima. Quem sabe você logo arranja novo emprego, o de botar a cabeça na boca do leão. A hora não é de perder a cabeça, portanto. E quebremos os pratos. Os pratos são uma invenção da fome. Sim, temos fome uns dos outros, mas tirem os dentes da minha perna.
Vislumbras saída para a crise?
Estás me perguntando se vejo? Sim, uma que se acha completamente tomada pela multidão em pânico. A alternativa é sair pela entrada, onde o pisoteio é menor. Afinal não somos uvas. Toda a lenha que não dá bom fogo será reintegrada à árvore, a fim de que esta dê bons frutos. Quero dizer, para ver se... Ó meu, mas com essa catrevaje humana que aí está no poder, terminará meu povo todo ralado. Feito coco de feira. Difícil, muito difícil suportar no corpo tantas sanguessugas colocadas, o que é pior, sob prescrição médica.

Nenhum comentário: