domingo, 30 de dezembro de 2007

DIÁLOGO DE MALUQUETES, Nº. 1

ELA - Lembra como nos conhecemos?
ELE - Lembro. Foi numa churrascaria...
ELA - Numa churrascaria de subúrbio que tinha toda de samba.
ELE - Você, hein?... Toda esfuziante, balançando as cadeiras...
ELA - Com isso chamei sua atenção, não foi?
ELE - Prestei mais atenção ao seguimento. Quando você... passou a balançar a mesa.
ELA - Depois, parece que houve um bilhetinho seu.
ELE - Um bilhete que não chegou até você. Culpa do garçom.
ELA - O Hermes como mensageiro é das arábias.
ELE - De pra lá de Marrakesh. O homem transforma bilhete em ordem de serviço. No caso, um prato de batatas fritas para a mesa 26.
ELA - Criou algum caso, por isso?
ELE - No caso: não!
ELA - Ainda bem. Pois o Hermes como garçom até que passa...
ELE - Ao largo.
ELA - Naquela noite, o pobre do Hermes atendia sozinho...
ELE - E com o pé preso num engradado de cerveja, eu vi bem. Mas, diabos, por que ele não se soltava? Só assim ele podia ir num pé e voltar no outro.
ELA - Você sempre busca um pé. Agora, voltando a mim...
ELE - À vaca fria.
ELA - Se... e quando estão me paquerando, eu aplico os cinco sentidos, o sexto...
ELE - O bissexto.
ELA - Também. Mas com o bissexto sentido você se impacientou. Aí, decidiu jogar baixo.
ELE - Eu joguei baixo?
ELA - Aquelas boleadeiras... em minhas pernas.
ELE - Uma rês desgarrada.
ELA - Eu nunca fui uma rês desgarrada, "seu" gaúcho-de-imitação. Vinha voltando - felizmente, voltando - do toalete.
ELE - Desvencilhou-se das boleadeiras com a minha ajuda, reconheça.
ELA - "Seu" "brutamente"!
ELE - "Os fins justificam os meios" - truquei.
ELA - "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" - retruquei.
ELE - Ei! Tínhamos, então, algo em comum.
ELA - Sim. Éramos leitores de "O Pequeno Príncipe", de Maquiavel e...
ELE - Saint-Ex.
ELA - Perguntei seu signo.
ELE - Capricórnio.
ELA - Perguntei sabendo. Capricorniano quando não é na marra, é na marrada.
ELE - Depois, batemos aquele papo noite adentro. Com o passar das horas, minha imagem deve ter melhorado.
ELA - É. Melhorou.
ELE - Expliquei-lhe que, vez por outra, tenho defeito no botão de vertical.
ELA - O defeito, a meu ver, é no botão de saturação.
ELE - E... naquela noite, que mais seu "defeitômetro" encontrou "ni mim"?
ELA - Alcoolismo em alto grau.
ELE - Como assim? Bebo assim?
ELA - Não largava a garrafa um instante.
ELE - Nem podia. Era a garrafa da drenagem pleural.
ELA - Desfeitos os equívocos...
ELE - Aparadas as arestas...
ELA - Acertamos que nos encontraríamos, novamente. No tempo do caju.
ELE - No tempo do caju em ponto, mas você faltou.
ELA - Qual é, cara?! Você também não compareceu.
ELE - Calculei que quando eu fosse aos cajus, você já teria vindo das castanhas.
ELA - Eu, idem. Não é gozado?
ELE - Mas... veja. De novo, eles estão de vez...
ELA - Sim. E que bom que você fosse...
ELE - Eu...
ELA - De vez, cara!

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