segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

CREME BÁRBARO

Sou de um país onde os carros enferrujam, as lâmpadas queimam, os relógios dão defeito e as bonecas perdem a fala. A bem da verdade, diga-se: estes incidentes também acontecem no resto do mundo; mas, com a saliência que se vê entre nós? Aqui, o usufruto de um bem qualquer chega a ser virtual. Compramos algo e rezamos para que dure um terço do que foi garantido. No atendimento das multiformes necessidades de homem, que se quer atual, o brasileiro é um desprotegido. E, como somos uns anestesiados, raro chiamos. No Brasil, nem asmático chia... quando se demora na fila da Previdência.
Neste ponto começa minha triste sina. Há oito meses, quando eu comprei uma lata de barbear Bozzano, uma marca de creme por mim nunca dantes usada. No início, dia após dia, com pequenos toques na válvula da lata eu punha a espuma na face, sem saber o que a sorte me reservara. Foi quando notei o fim de meu perturbador extrato de almíscar selvagem, que eu vinha usando à razão de uma gota/orelha/dia. Ora, se o extrato (em que pese o meu zelo econômico) se acabara, como então entender o creme de barbear que, comprado na mesma ocasião, ainda estava me oferecendo a cada vez mais generosa espuma? Só se eu estava diante de um bem de consumo anômalo, por assim dizer. Fiquei perplexo e tomado de uma ansiedade progressiva.
Eu que fazia apenas a barba, passei também a raspar o bigode (para acabar mais rapidamente com o creme de barbear). Primeira advertência da namorada. Aí, decidi que, no serviço diário de barba e bigode, também retiraria as costeletas. Segunda advertência da namorada. Depois, passaria a usar o creme em outras regiões pilosas do corpo... Não, eu não coloquei em prática a idéia. Junto com a terceira advertência, a namorada certamente faria a temível greve dos joelhos colados.
Em deliberação seguinte, pedi ajuda a Lula, o Metalúrgico. Enviei-lhe uma mui alvissareira epístola, na qual explicava como ele conseguiria, aqui no Ceará, dobrar a votação de seu partido. Com o meu voto em 86, desde que meu líder viesse passar uma temporada em minha residência, servindo-se à vontade do creme de barbear. A resposta veio desanimadora, naquele estilo telegráfico de que Lula tanto gosta: CARO GURGEL PT PT USO BARBA POSTIÇA MAS NÃO ESPALHE PT TENTE MIELE PT.
Enquanto tentasse soluções meramente cosméticas, raciocinei, eu não conseguiria nunca dissipar o infindável creme. Talvez porque houvesse, na calada da noite, alguém injetando creme novo no vasilhame, por isso o conteúdo não tinha mais fim. Três noites seguidas montei guarda no úmido banheiro, e não vi duendes. Também botei outro creme de barbear, seu igual, no armário embutido do banheiro, para ver se ele entendia a indireta. E a criaturinha da Bozzano, necas. Vai ver eu adquirira a cornucópia da fortuna, disfarçada em lata de creme de barbear.
Uma fera fascista ciciou dentro de mim: jogue fora a lata de creme, e fim da ansiedade! Pensamento seguinte, me vi meio desfalecido numa montanha de creme de barbear. Cães São Bernardo em caravana passavam por mim, surdos e indiferentes a meus “relpes”. Um só de mim se aproximou, mas ao abrir a salvadora torneirinha de seu barril o que constatei: mais creme de barbear. Depilo-me, quero dizer, pelo-me... de medo somente em pensar que posso vir a ter esses pavores noturnos. Não, eu não vou resolver minha ansiedade com um ato de ingratidão.
Meu lenitivo, nessas horas difíceis, é saber que tudo é passageiro. Aliás, tudo menos o motorista, o trocador e, obviamente, o meu creme de barbear.

Cartum feito pelo colega Ricardo Augusto, um dos autores do livro.

2 comentários:

Pablo disse...

Professor adoramos o seu blog,por favor faça uma visita ao nosso www.estudanteolhovivo.blogspot.com
Obrigado

Paulo Gurgel disse...

Pablo, olá.
Com grande atraso tomei conhecimento deste seu comentário.
Obrigado pelo que escreveu.
Não pude visitar o seu blog por já ter sido removido.
Paulo