quinta-feira, 23 de julho de 2009

O CETRO

Há muito tempo, quando a China não era um só país, uma de suas províncias era governada por um rei muito estimado por seu povo. Chamava-se Liang, rei da província de Liang-Ming. De seu trono de fino lavor, ele atendia incansavelmente aos súditos que o procuravam. A uns, dando sábios conselhos, a outros, aplicando a justiça salomônica (mutatis mutandis), e a todos, enfim, parcelando o imposto a pagar. Nesses múltiplos misteres, era o rei auxiliado por seu grão-ministro Hie-Na.
Abra-se um parêntese para descrever o grão-ministro. Hie-Na não chegara ao alto mandarinato assim por acaso. Em criança, fora companheiro de folguedos de Liang. Depois, graças aos anos em que viveu na Índia, havia reunido uma enorme bagagem de truques engenhosos (considerados por Liang como genéricos dos milagres). E foi por conta desse acervo que Hie-Na chegou a grão-ministro. Cansado já estava o Filho do Céu de ser acusado de milagres em vão prometidos. De modo que, ao fazer de Hie-Na um dignitário, este é que se encarregaria da mistificação. E feche-se a descrição do grão-ministro com outro parêntese.
Em seus aparecimentos públicos o rei não se apartava do cetro, o símbolo de seu poder. Era um cetro que remontava ao fundador de sua dinastia e quem o empunhasse detinha o poder temporal. Somente quando a morte lhe fechasse os olhos é que de suas mãos deveria o bastão real sair. Para as mãos do príncipe herdeiro, evidentemente. E assim a sua dinastia continuaria a varar os séculos. Sucede, porém, que certa noite o rei Liang teve um sonho mau. Assim considerado porque viu ele, naquele sonho, o cetro na mão do rei de uma província vizinha.
Aquele soba! No resto da noite, o rei não conseguiu mais dormir. E, mal o dia amanheceu, ele fez vir à sua presença o seu fiel grão-ministro, de cuja boca tantos conselhos sábios já tinham brotado. Pois bem, germinou mais este (da boca) do grão. O rei, sugeriu ele, deveria partir o cetro em dois para governar apenas com a metade. Quanto à outra metade, guardaria ele, grão-ministro, em local que usurpador nenhum pudesse alcançar. Uma espécie de proteção contra aquele tipo de gente que bota as unhas de fora quando um rei se acha velho e desdentado.
E o rei passou a reinar com meio cetro à vista de todos, mas sabendo todos da existência da outra metade em local patrulhado por dragão. Até que ele teve outro sonho mau. Como na vez anterior, pela manhã ele chamou o grão-ministro aos aposentos reais. E este tornou a sugerir que partisse o meio cetro em dois novos pedaços. O rei Liang reinaria, daí para frente, com um quarto do bastão e ele, grão-ministro, se encarregaria da guarda dos três quartos restantes. Um tamanho mais que suficiente, Vossa Majestade, para o povo saber quem está a governá-lo.
E o tempo foi passando... com o rei outras vezes visitado por seu pesadelo. Até restar em sua mão, muitas partições após, somente uma pequena lasca do cetro. Enquanto isso, colecionava o grão-ministro os pedaços do cetro realmente dito, num local que nem o dragão mais sabia. E já se riam muitos súditos. De início, às escondidas, mas depois, em plena cara real. Que Liang interpretava como sendo risos dirigidos ao bobo da corte. Por suas mal sucedidas tentativas de tirar música soprando num pedaço da flauta de bambu.
Ah!, a história essa roda mendaz... Um dia, ao voltar de uma caçada, o rei teve uma baita surpresa. Ele encontrou o grão-ministro refestelando-se em seu trono de fino lavor e... empunhando o seu cetro. É que Hie-Na, aproveitando-se da ausência do rei, passara da idéia longamente astuciada à ação. E colara à resina os vários fragmentos do cetro em seu poder, de modo a refazê-lo completamente. Ou quase... mas com uma diferença que ninguém notava. Então, disseram todos: Viva Hie-Na, o fundador da nova dinastia!
Ao rei destituído (para quem a roda mendaz girou para trás) restou o caminho do exílio e olhe lá.
Moral da história
Se queres conhecer o vilão, põe-lhe uma vara na mão. Ou um cetro.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A ENTREVISTA DO BOI

A propósito de uma festa popular que, uma vez ao ano, acontece em 22 localidades do litoral catarinense, motivei-me a entrevistar o seu principal personagem, o boi. A Semana Santa já havia transcorrido e, nessa altura do calendário religioso, não mais ia ser fácil achar o propalado personagem. Pelo fato de ele já se encontrar reduzido a um montão de ossos. Então, apelei para uns amigos do Pantanal, um bairro de Florianópolis onde há um "repeteco" da farra do boi. Mais: fazem isto todo fim de semana. E eles, prestimosos, puseram o boi na linha (telefônica, graças a Deus).
Dou nome ao boi: Tatá. Dele ainda arranquei (epa!) outros dados individuais: idade (5 anos, mas não publique isto); raça (guzerá, melhor que anote bovina); religião (budismo mitigado); e passatempo (todos, menos este). Em seguida, a entrevista.

- Já estando escolhido para ser a figura central de uma festa popular, como você se sente?
- Encurralado. Antes me botassem numa tourada ou numa das vaquejadas que vocês fazem aí no Nordeste. Assim, eu não teria uma morte tão humilhante.
- Sente-se, então, como um peru no Natal?
- Sim, guardadas as proporções.
- E... não existe uma maneira de escapar da tortura e da morte que os farristas lhe reservam?
- Só existe uma, bem amaneirada. Transformar-me em boi voador.
- É, mas asinha o prenderiam. Com base numa lei que “manda prender esse boi, seja esse boi o que for”.
- Chicanice.
- Bem, na qualidade de animal totêmico, segundo a antropologia...
- Ora, vão eles amolar... o bode que tem muito mais retorno.
- Porém, há uma corrente de intelectuais que defende a farra. Partindo do princípio de que ela é uma tradição.
- Tudo bem, se eu estivesse no bumba-meu-boi. Mas avise antes... esses zoófobos senhores de que me aguarda o martírio.
- E as autoridades locais nunca tomam uma providência?
- Ah, só têm empurrado o problema com a barriga... verde, aliás. Na ingênua esperança de que os farristas, com o passar dos tempos, abrandem a violência.
- Há rumores de que governador Pedro Ivo acha-se disposto a pegar o boi pelos chifres...
- Epa! Até ele?!
- Quero dizer, o seu governador está a fim de enfrentar o problema para resolvê-lo de uma vez por todas. Nem que tenha de usar a polícia. Que você acha, então?
- Aplaudo-o. Agora, que ele vá conseguir pôr um paradeiro na farra, no aspecto bárbaro da farra, eu não acredito. Brigam policiais e farristas, o evento fica mais animado, mas no fim saio eu esquartejado.
- E... quanto à recente intervenção do Gabeira, do Partido Verde...
- De verde entendo eu que sou ruminante.
- Concordo. Mas o Gabeira disse que a farra é para acontecer mesmo e sem a interferência da polícia.
- Ele, um escritor de tutano, falou isso realmente?
- Não falou só por farra, pois ele se encontrava num palanque.
- “Peraí”. O Gabeira não é aquele que já comeu “carne do boi”?
- Hum... hum...
- Tá explicado agora. Porque o macho vem crepusculando tanto.
- OK, mas agora é tarde para boi... cotá-lo. Ele foi aplaudidíssimo pelos farristas que até lhe prometeram uma farra do boi sem violência.
- Para já?
- Não exatamente. Assim que todos estiverem conscientes de que a violência contra o animal...
- Ora, até lá morre o Gabeira ou o boi. Como não me chamo Ápis nem moro no Egito...
- Já sei. Você acha que morre primeiro.
- Adivinhão. Agora conta outra para eu dormir

quinta-feira, 9 de julho de 2009

NO VELÓRIO, SÓ FINÓRIO

"Onde estiver seu tesouro, lá deverá estar seu coração."
E. H. Carr
"A avareza cresce com os anos, porque vai tomando no homem
 os espaços que, com o tempo, outras formas de egoísmo
 deixam vazios."
Monteiro Lobato
Eta velório para mortal nenhum botar defeito! Falo do velório pedra noventa que fizeram para o comendador Bonifrates, logo que ele bateu as velhas botas. O comendador morrera sem deixar mulher e filhos, mas parentes até do enésimo grau, criaturas dos desvãos do mundo, acorreram em grande número para chorar o seu passamento. Aqui, uma mulher gritava de cortar coração, ali, um homem todo compungido soluçava de dor e, acolá, outra mulher ensopava de lágrimas o ombro alheio. Conjuntivites à parte, as lágrimas rolavam aos borbotões no imperdível velório.
O falecido era o assunto de todas as rodas. E, para assanhar a cupidez geral, os papos iam bater na fortuna que ele presumivelmente deixara. Houve alguém que até estimou o montante de cobres economizados por Bonifrates, à custa de correr atrás dos bondes mas sem pegá-los. Fiu, dentro do espírito de tostão poupado, tostão ganho, só isso já dava uma dinheirama (imaginem o que ganhara de outros modos). Mas aí, surgiu um outro para assegurar que o salto quantitativo na fortuna do comendador se dera justamente quando ele abandonara aquela prática. Para então (epa!) se dedicar a correr na cola dos táxis da cidade, um hábito bem mais rentável.
Pois é, Bonifrates era um gigante da avareza, desses que a gente reconhece pelo dedo. Dedo com unha-de-fome. E, se já para o fim de uma vida de esganação, dele filaram um que outro óbolo para as obras de Santa Engrácia, ora, isso não empanava quase a fama de pão-duro. Ah, o coração mole e dilatado, por vezes abrindo a guarda... Porém, o coração logo, logo se trancando a poder do endógeno digitálico da sovinice, que isso o tranca tinha lá de sobra. E daí, então, por muito tempo, daquela cornucópia não saía uma mísera moeda que não fosse sob a rubrica da agiotagem.
Mas... de que morrera o velho somítico? Segundo a medicina gratuita, de uma pneumonia que ele pegara nas costas. E o que é a morte, meus temerosos leitores, foi o harpagão ceifado por uma doença que a medicina hodierna trata a cascudo. A isso e mais as milhões de unidades da "bolorina" de Alexander Fleming, claro. Entretanto, para este narrador, mais que a pneumonia o que matou Bonifrates foi a sua política de contenção de despesas. Tão rígida que o fez se fiar apenas(mente) no poder curativo das sobras de um frasco de Peitoral de Angico Pelotense. Aliás, sobras que já provinham do tratamento de moléstia assemelhada num tio-avô, falecido com o frasco ainda pela metade. Xaropezinho reincidente, hê, hê...
O caixão - preto com ornatos dourados - de primeiríssima! Com o mesmo balizado por quatro espigados castiçais empunhando as tais velas de alumiar defunto. Ao pé do ataúde, coroas funerárias completavam a "decô". Quanto aos olores, eram tão ativos olores que disfarçavam os miasmas em formação. Dava gosto velar aquele corpo comendatário. Pois, a todo instante, por lá circulavam bandejas com café e vinho licoroso, tabuleiros com doces e salgadinhos... Além de haver uma sortida mesa de frios e, para os bem-espaçados do estômago, a pièce-de-résistance. Que nada faltou ao bom carpidor.
Ah, decerto não era Bonifrates quem financiava o caro funeral. Primeiro, que ele não aprovaria o desperdício, mesmo em se tratando de círio bom, defunto bom. E, segundo, que ele, por estar morto, ficara sem condições de assinar um simples cheque ao portador. De forma que podemos retirar Bonifrates do rol dos suspeitos para substituí-lo por alguns anjos que andavam pelo mundo... Que eram eles os patrocinadores das derradeiras homenagens ao comendador, de olho, porém, naquela jacente herança.
Nesse afã, os anjos não repararam num tipo franzino, de "oclinhos", que circulava por lá com certa desenvoltura. De sua mão direita, pendia uma maleta de cor preta - com que vontade agarrada! Enquanto sua outra mão corria, "pianísticamente", por sobre os tabuleiros das babas-de-moça. Era o advogado do comendador Bonifrates. Um rosto que se abria num sorriso "malúfico" de dissimulação. Porque, leitores, creiam. Naquele velório só ele sabia das extravagantes vontades do comendador, ditadas quando este se achava já nas vascas da morte. Numa carta testamentária bem guardada nos escaninhos de sua maleta.
O segredo, eu conto o segredo como foi: Bonifrates não legou um mísero cobre para ninguém. Deixem que o avarento, para a surpresa dos que conheciam o seu interesse apenas por coisas materiais, estivera nos últimos tempos a estudar o assunto da metempsicose. Indo beber da doutrina da transmigração da alma até no Livro Tibetano dos Mortos. Então, quando pressentiu que a indesejada das gentes se punha a caminho, tomou a providência. Fez-se herdeiro de si mesmo. E deu as condições para ser reconhecido na próxima reencarnação: guri com forte reflexo de preensão palmar, num berço de pau-branco carunchado etc.
É isso. Quem espera por sapatos de defunto a vida toda anda descalço. E nessa história, que acaba aqui, quem ficou calçado foi o advogado de Bonifrates. Para ele, como paga dos serviços testamenteiros, o comendador lhe deixou umas ações bem ordinárias da Panair do Brasil.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

DR. CARTA PÁCIO E AS PLACAS DOS VEÍCULOS NO BRASIL

OUTRA DO DR. CARTA PÁCIO (TÍTULO NO DN - CULTURA)
Recebo mais uma correspondência do Dr. Carta Pácio, ele desta vez preocupado com o atual sistema de licenciamento de veículos no Brasil. Dou trânsito livre à sua ideia.

"Prezado senhor:
Nestes tempos têm-se detectado um fato relacionado com o grande número de carros em circulação no país, para o qual chamo a sua atenção. A inconveniência de licenciá-los pelo atual sistema alfanumérico, que tem duas letras mais quatro números. Amiúde, veículos distintos recebem placas iguais, o que pode ocasionar transtornos a seus proprietários. Por isso, marcha-à-ré e meia se cogita em mudar o sistema ora usado para outro que corrija a falha.
Trago aqui a minha sugestão. O Departamento de Trânsito continuaria fornecendo os quatro números, os quais seriam pospostos a duas palavras adrede escolhidas. Duas palavras ao sabor da imaginação do proprietário do veículo. De modo a aumentar o número de combinações possíveis e a diminuir a probabilidade de repetição de placas por esse Brasil velho com porteira. E não fica apenas nesta vantagem o sistema que proponho. Apresenta outras, facilmente pressentidas.
Para se comunicar en passant, o motorista da cidade não mais teria de lançar mão dos adesivos de para-brisa. Nem o caminhoneiro, da filosofia de para-choque que fez a glória do Carneiro Portela. Por que já basta de "fofinho", "ando todo arranhado mas não largo a minha gata", "brahmalogia", "o Pluto é filho da pluta"... Fora com tudo isso! Em troca, veríamos chapas assim: GERAÇÃO DOURADA 5913, TÁXI LUNAR 7853, MILHAR FELIZ 1212, PRIMAVERA EMPALHADA 6723...
As placas seriam de maior tamanho, meu prezado senhor. Para prever um PERNAMBUCANO SOLITÁRIO 3171, por exemplo. Mas não chegariam ao tamanho dos outdoors, embora como estes poderiam veicular anúncios ao ar livre. Entretanto, o forte da nova chapa seria divulgar uma posição política (FORA SARNEY 2364), uma confissão (CRISTO SALVA 7291), um atributo da personalidade (FINO TRATO 8734), uma intenção (TENEBROSA TRANSAÇÃO 9541) e um estado d'alma (ALTO ASTRAL 2189) do dono do carro. E agruras para o primeiro manter o segundo circulando (SEGUNDA FAMÍLIA 3728).
E quanto "você sabe com quem está falando?" seria evitado no trânsito nervoso da cidade! Porque as placas dos carros abalroados já falariam, muitas vezes, pelos proprietários. E João não desacataria o dono do Comodoro, placa PAVIO CURTO 9960, Antônio não aplicaria rasteira no dono do Santana, chapa MESTRE BIMBA 8651, assim por diante. E seria fácil anotar a placa LEITURA DINÂMICA 4444, duma Marajó cujo dono fugiu do local do atropelamento sem prestar socorro.
Quanto aos carros oficiais, seriam estes identificados pela inclusão de sinais de pontuação em suas chapas. Como nos exemplos: NUMA BOA... 7529, E DAÍ? 3348 e DANEM-SE! 4879. Sinais que inclusive serviriam para realçar a pronta resposta da autoridade constituída diante de certas perguntas. Saiba como é, meu prezado senhor. Há sempre algum cidadão mais impertinente querendo saber onde foi parar o seu (dele) imposto.
E finalizo esta, com a citação da placa que desde já reservo para o meu carro: NADA CONSTA 0390. Que me livrará para sempre de toda multa. Uma forma de compensar o alcoolismo de um veículo que há tempos me vem combalindo as finanças.
Creia-me seu, sinceramente."
Dr. Carta Pácio

Se a sugestão em tela vai emplacar, ninguém sabe. Mas, ultimamente, noto que o Dr. Carta Pácio tem pendido para a filosofia de que "o bom bocado é também para quem o faz". E, como sempre faço nas cartas que ele me envia, ponho no rodapé desta última o meu acrescento: Sic transit gloria mundi. Querendo significar que a glória do mundo está no trânsito. Axé, Dr. Carta Pácio.
PGCS

sexta-feira, 26 de junho de 2009

PIRÂMIDES

O brasileiro, talvez por já se achar acostumado a uma pirâmide social adversa, não estranhou mais uma. Ao contrário, recebeu-a com o maior agrado possível, uma vez que esta última atendia pelo atraente nome de pirâmide... da fortuna. Aí, na qualidade de piloto, co-piloto, tripulante ou passageiro (nessa ordem de entrada), nela embarcou. Para uma viagem de alegria que se transfez em tristeza. Pois, fora o piloto que a tempo oportuno saltou de para-quedas, os demais quebraram a cara. Alguns, mais: a pirâmide nasal.
Que coisa! É pirâmide, mas tem piloto, co-piloto, tripulante e passageiro - como um avião de carreira. Isto, aliás, demonstra um certo hibridismo como o que se vê na Esfinge. Aquele ser fantástico, meio-leão e meio-homem, que os egípcios esculpiram na rocha, em Gizé. Ali, ali, perto das Grandes Pirâmides, que serviram de cenário para uma frase célebre de Napoleão. Ao proferi-la estaria o general eufórico com alguma posição de piloto recém-conquistada? Bem, só feito militar não devia ser.
À la fé que Napoleão estava a ganhar algum, embora os livros de História digam coisas diferentes. "A História é algo que não aconteceu, escrito por quem não estava lá." Que me perdoe o pessoal do ramo. Mas, voltando à pirâmide: nos dias atuais, ela não mais transmite a impressão de ser um poliedro estável; anda ruindo fácil, fácil por aí... a julgar pela quantidade de piramideiros soterrados. Por isso, já tem gente pensando em ressuscitar o "ai da base", uma gíria arcaica.
Embora pareça um consórcio financeiro, a pirâmide da fortuna é o sucedâneo da antiga corrente da felicidade. Uma carta de conteúdo supersticioso ou místico que alguém recebia de um remetente "mui amigo" e tinha de transcrevê-la em vinte cópias. Estas, por sua vez, deviam ser enviadas para mais vinte pessoas, assim por diante. E isso, meu caro leitor, no tempo em que não havia a fotocopiadora da esquina. Para aumentar as dificuldades, tampouco os selos eram pagos por Fernando Chinaglia.
Ai de quem quebrasse uma dessas correntes! Dando veracidade ao seu conteúdo, desgraças tantas sucederiam ao irresponsável que ele, para se ver livre delas, buscaria até pistolão. Topando inclusive a hipótese descer mais cedo às geenas. Ilustro a descrição da paranóia reinante com o que escreveu R. Schneider: "Se você é um desses loucos (que quebram a corrente), o melhor é jogar logo toda a correspondência fora, sem nem mesmo ler. Afinal são muito reduzidas as suas chances de se servir dela, seja para o que for". Quer dizer, antes ser um desinformado postal do que um apragatado, combalido e tal.
Por isso, de próprio punho, cada pessoa fazia vinte cópias da carta - uma vintena a ser remetida para vinte apavorados destinatários. E esse número ainda podia ser maior, conforme o grau de sadismo do idealizador da primeira carta. Como se tratava de uma progressão geométrica, dentro de pouco tempo, toda a cidade acabava "acorrentada". E, o que não relaxava na corrente, ainda segundo R. Schneider, era contemplado pela "indescritível sensação de ter enchido o saco de milhares e milhares de pessoas, que iriam ficar completamente desequilibradas até que conseguissem passar à frente, por sua vez, o maldito petardo".
Outra vez, às pirâmides! O leitor já deve ter lido alhures, ou ouvido falar, sobre uma estranha energia que elas concentram. A ponto de uma pirâmide poder recarregar as baterias de quem sob ela se coloque. Sei não, mas pelas últimas que foram vistas, as pirâmides apenas têm abalado a saúde - financeira - de muita gente. E, quanto à febre que aparece no piramideiro, veja também o que diz o vademecum ( o vai comigo): desaparece em lise, não precisando do antitérmico piramido.
E agora a lei, com seu faro de dobermann, está aí à cata dos piramideiros. Pirâmide também é crime de estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal. Dá multa mais prisão. E a lei, com seu braço de estivador, procura um piloto contraventor; porém, na dificuldade de localizá-lo, um passageiro contraventor igualmente serve. Atenção, senhor passageiro, habilite-se. Pois aí está uma proposta... piramidal.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

PLIM, PLIM

Minha opção
Pelo joio que não recebe subsídio.
Batávica
O comandante de um navio prestes a afundar não abandona... o escaler.
Bigamia ou monogamia?
Bem, eu fico com a segunda.
Uma comparação
Como o velho queijo que acaba fondue.
Ssst, que a serpente
Desde o Paraíso que ela só silva. Para não apontar o mandante do crime.
Um conselho revisitado
Em vez de dar o peixe deve-se ensina o homem a pescar. Financiando-lhe a vara, o molinete, a linha, o anzol, a isca... Ufa!
Um tipo de pobre
O "classe-média" depois de pagar o imposto de renda.
Explicitinha
O desejo do convexo é o que o côncavo fique mais... E vice-versa.
E Reagan continua desbastando o nariz
Para ver se fica bom da síndrome de Pinóquio.
Se é teatro besteirol
Compre seu ingresso para a bobageral.
Pára-quedismo?
Eu nunca tentei, meu irmão. Não tenho queda.
Ah, tudo seria mais fácil...
Se houvesse a luz já no início do túnel.
Eu te amo-a
A frase que foi dita a Maria Rosa por quem pensava em Rosa Maria.
Outra comparação
De olhos bem arregalados feito um morcego ruim do radar.
Poltergeist, meu televisor
Quando entro na sala ele joga em mim o controle-remoto.
Receita de cocada à CNEN
Rale um coco até a desintegração atômica. Amém.
O milagre da multiplicação
Onde metade comeu sanduíche de peixe e metade, peixe empanado.
A lealdade segundo Sarney
Presidencialismo, cinco anos e bigodes.
Escreve, escreve, escreve
Mas antes lembra que Sócrates e Cristo não eram chegados ao ato de escrever.
"Todas as horas ferem, a última mata"
É também o lema da bomba-relógio.
Das quitações
Paga o bem com o bem, o mal, com o troco.
Ombro amigo
Ah, certamente não sofria de bursite quem criou a tal expressão!
E desista, Brasil
Que você não tem cintura para o bambolê. Ou vai querer que o arco escorregue até o Rio Grande do Sul?

quarta-feira, 10 de junho de 2009

DR. CARTA PÁCIO E A REVOLUÇÃO NA LITERATURA UNIVERSAL

A PROPOSTA DO DR. CARTA PÁCIO (TÍTULO NO DN CULTURA)
Todos os dias recebo cartas de pessoas que me escrevem com os mais diversos pretextos. Leio-as e depois as destruo em meu moedor de carne que já conheceu tempos de abastança. Entretanto, guardei uma das que chegaram nos últimos tempos por sua singularidade:
"Prezado senhor:
O que proponho nessas linhas vem a ser uma verdadeira revolução na literatura universal. Porque estou certo de que toda obra literária, mesmo no fastígio da glória, ela tão-somente aspira à simplicidade da anedota. E não estou a falar apenas da que se filia ao gênero picaresco, cujo anseio parece óbvio. Constato que todo obra literária deseja é se resolver logo, através do discurso direto, curto e objetivo. Ao invés de devanear por aí porque o autor assim estabeleceu. Ainda mais que os tempos de hoje (em que a pressa é a tônica) estão a exigir um enredo sem volteios, onde o leitor chegue asinha ao final. E possa depois dizer que leu o livro tal... (ai!) num tapa.
Para começo de conversa, acolhendo o que proponho o escritor ganharia tempo. Ao escrever romance, novela ou conto bastar-lhe-ia compor início e final. Nada de meio! Esse enchimento de linguiça em que o escritor supostamente põe o talento. E para que essa coisa execrável separando o escritor do escrevedor? Só serve para discriminar, criar párias na arte literária. Portanto, abaixo o talento que sabe a prolixidade.
E viva a sinopse! Uma comissão de lacônicos poderia muito bem reescrever os clássicos. Eis como ficaria, por exemplo, o "Dom Quixote de la Mancha": Era um vez um fidalgo idealista que, com a mente excitada pelas façanhas dos herois dos livros de cavalaria, se dispõe a correr mundo para desfazer erros e vingar agravos. Alto, magro, beirando os cinquent'anos, para fazer com que a Mancha, sua terra natal, também participasse da glória que iria adquirir, adota o altissonante nome de Dom Quixote de la Mancha. Em suas aventuras, acompanha-o o gordo Sancho, seu fiel escudeiro, a quem o fidalgo prometera a posse de bens materiais que resultassem de suas andanças. Mas dão os dois com o cavalo e o burro na água, respectivamente. E a história termina com Dom Quixote recuperando a razão, em seu leito de morte, e com Sancho pouco recompensado por tão morosa empreitada.
Dirão uns que a obra revisitada fica sensaborona. Entretanto, pior é perdermos tempo lendo romance de autor russo. Prolixo, não! Apenas porque o seu editor pagava por página escrita. Viremos, pois, essa página. Já se foi a época em que o escritor dava ao lume uma obra maçuda (e maçante) só para impressionar, mostrar que tinha fôlego, por aí... Agora, economizar é preciso. E nos sobrará tempo para ler livros e mais livros, naturalmente reescritos.
E o que se economizaria de papel. Um ganho ecológico, por sinal, já que o papel é fabricado a partir da celulose e esta provém de florestas arrasadas. O que é a ironia, prezado senhor. Cada vez que o Partido Verde faz circular um manifesto, ele, por baixo, pôs abaixo umas tantas criaturas vegetais. E aqui aproveito para sugerir que as crianças usem mais o megafone.
Felizmente, ficou para trás o estilo barroco. O sujeito escrever, com aquela tola riqueza de ornatos, uma estrofe inteira para nomear o galo! Mas, ainda há muito o que mudar. Dá na vista que continuamos nós, escritores, mal colocados quando alguém sentencia que um desenho vale mil palavras. Não passamos de uns verborrágicos, meu senhor, e nos esvaímos na mais reles verborragia desatada. Digamos numa palavra aquilo que o pintor só possa expressar em mil pinceladas. E teremos aprendido a lição de Ezra Pound, em seu "ABC da Literatura" (Cultrix, 218 páginas). Oh, perdão...
Precisamos emagrecer o estilo. De modo a reaproximá-lo do seu original sentido de ponteiro (de osso ou metal), com que se escrevia sobre a camada de cera das tábulas. E, de quebra, facilitaríamos a edição, o transporte, a distribuição e o manuseio dos livros, pouco importando suas quantidades. Também resolveríamos o crônico problema da falta de espaço nas bibliotecas. Toda a obra infanto-juvenil de Jules Verne num único livro de bolso... não parece até ficção?! Asseguro inclusive que a microfilmagem não ousaria tanto em termo de redução.
Na nova ordem literária pouca gente sairia perdendo. O prefaciador, que seria desmontado do dorso alheio (não se tolerando que ele voltasse como posfaciador), e... ah, Xerazade! Eu falo da sultana Xerazade que, todas as noites, contava uma história cheia de peripécias para o sultão Xaryar, seu marido. E, com tal artimanha, ia adiando a morte já decretada pelo marido, que não era besta de perder o entretenimento. Não, eu não me apiedo de Xerazade. Mesmo porque um dia, aliás, uma noite a sua imaginação iria mesmo bater pino.
E, finalmente, peço desculpa pelo muito que se alongou a carta. Em minha proposta, prezado senhor, a epistolografia constitui a exceção.
Esperando uma resposta favorável, creia-me seu sinceramente
Dr. Carta Pácio."

Não respondi. E guardei a carta com este acrescento: "Escrever numa folha de papel em branco é uma forma de perturbar-lhe o silêncio (Samuel Beckett)".
PGCS

sexta-feira, 29 de maio de 2009

GATO, TIJOLO & FAMÍLIA

Certa vez, atinou Monteiro Lobato com a grande quantidade de conceitos e definições que existiam para o humor. Uns pretensiosos, outros científicos, ao fim das contas, muitos. O que lembrava a superabundância de remédios para a tosse, com a mesma limitação de que nenhum realmente servia. Para Lobato, a tosse e o humor apresentavam circunstâncias causadoras vagamente compreendidas. Daí o duplo fracasso: dos xaropes "peitoraes" (para quem se fiava nos reclamos) e dos conceitos, definições e que tais sobre o humor.
No que se refere à tosse, registra-se, porém, a nítida melhora do quadro. A partir do muito que se tem investigado sobre as causações dela. E, assim, a medicina já mostra, nos últimos tempos, apreciáveis avanços no sentido de debelar o incômodo sintoma. Máxime, quando consegue curar a doença que ocasiona a tosse. Quem já teve, por exemplo, uma bronquite na qual o rir é substituído pelo tossir, é que sabe valorizar essa conquista da medicina. E pensar, ilustre passageiro, que tudo começou com o Rhum Creosotado...
Mas, voltemos ao escritor paulista. Inconformado com a existência de uma definição - realmente satisfatória - para a questão do humor, que fez ele? Formulou uma, inteiramente pessoal, valendo-se do chamado método peripatético. Trocando em miúdos, aliás, porque estava sem eles, Lobato dispensou o ônibus habitual. E pôs-se a andar, andar, andar... enquanto matutava. Assim foi que, ao cabo de 6.201 passos, chegou a esta genial (porque simples) noção. "Humor é a maneira imprevisível, certa e filosófica de ver as coisas." Repare que cada adjetivo qualificador custou 2.067 passos, o rendimento do método.
Ele, melhor que Taine, Bergson e Freud, autores de ensaios clássicos sobre o assunto, foi quem solveu o problema conceitual do humor. E fê-lo numa linguagem clara, objetiva e derradeira, dando quinau nos espíritos sedentários (adeptos já naquela época do vale-transporte). Acredito mesmo que a concepção lobateana para o humor possa ser ilustrada por uma velhíssima anedota. Aquela sobre a diferença entre o gato, o tijolo e a família, cuja resposta consiste em atirar os dois primeiros numa parede. Pois "o que miar será o gato".
Embora pareça "jequíssima" a piada, ela contém os três princípios fundamentais de Lobato. Senão, vejamos:
É imprevisível. No pressuposto de que o leitor não soubesse a resposta, como procederia então? Inicialmente, no terreno do previsível, tentando identificar nos seres em questão a diferença. Aliás, as diferenças já que são muitas - o que também só faz complicar. O gato pertence ao reino animal, o tijolo, ao reino mineral. O gato recebe o nome científico de Felis cattus domesticus, já o tijolo tem o nome oriundo do espanhol tejuelo. Ou, ainda: este é fabricado pelo homem, enquanto aquele é o resultado do esforço gemebundo da espécie na noite dos tempos (apud Darwin). Etc. Ao fim da discussão, só o humor oferecerá a resposta imprevisível, isto é, a que não guardará qualquer associação lógica com a pergunta.
É certa. Fosse a resposta "o que voar será o gato", não haveria anedota alguma. Uma piada incide no exagero, na hipérbole, mas nunca na mentira. Ela não é assunto para um gato-de-botas. Em sendo uma maneira certa de ver, a piada pode ser comprovada na prática inclusive. No caso vertente: jogando o gato e o tijolo na parede, mas o que, convenhamos, não fica bem. Que eu saiba, não estou a falar para um fedelho em traje marinheiro, mal-comportado e com a ideia fixa de impingir maus-tratos a um bichano. Quer dizer, fazer dele gato, sapato e tamborim. O Lobato tá certo.
É filosófica. Pelo conselho pragmático que dá, ao mesmo tempo em que ajuda o aconselhado a compreender a realidade que o cerca. É o tipo do conhecimento que um dia poupará o leitor do vexame de comprar gato por tijolo. Gato (à exceção do importado que fala meow) é dado grátis na unidade, tijolo é vendido no milheiro. E que também poupará o leitor da atribuição de comer gato por lebre. Gato... Epa! Receio haver descambado para uma filosofice que não leva a nada. Puro engatinhar mental. Além do mais, cansei.
Quanto à família, vai muito bem, graças a Deus.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

E VIU QUE ISTO ERA BOM

  1. No princípio o Prefeito criou o Plano de Metas da Prefeitura. E disse: exista o Erário. E o Erário existiu. E da dotação orçamentária separou uma polpuda parte para que desfrutasse de salário, representação e mordomias. E viu que isto era bom.
  2. Disse também o Prefeito: O principal problema da cidade é o abastecimento de água. E abriu uma concorrência para a construção de uma adutora, uma estação de tratamento e uma rede de distribuição para o precioso líquido; além de chafarizes para os bairros mais distantes. A concorrência foi ganha por uma firma de engenharia de um cunhado seu. E viu que isto era bom.
  3. Disse também o Prefeito: Abram novas avenidas asfaltadas e arborizadas. E, numa atitude de homem devotado à causa pública, consentiu que as avenidas atravessassem uns terrenos seus até então pouco valorizados. E viu que isto era bom.
  4. Disse também o Prefeito: Sejam atendidos os pedidos de iluminação pública. E surgiram quarteirões bem iluminados de acordo com os reclamos dos vereadores de seu partido: verdadeiras ilhas de feérica iluminação no oceano de breu da oposição. E viu que isto era bom.
  5. Disse também o Prefeito: Seja feito o zoológico da cidade. E deu incumbência a seu filho mais velho para que organizasse o referido parque. Houve a injeção de fartos recursos financeiros e a cidade passou a ter o seu zoológico. O único do mundo com os animais exclusivamente em pôsteres. E viu que isto era bom.
  6. Disse também o Prefeito: Façamos as assessorias. E foram feitas, cresceram e multiplicaram-se em cargos de confiança de modo a garantir a seu esquema político uma poderosa máquina eleitoreira. E viu que todas as coisas que tinha feito eram boas.
  7. Assim, acabada a sua gestão, o Prefeito descansou. Certificando-se antes da magnitude da aposentadoria que a Câmara Municipal lhe votou e de que todos os seus parentes e apadrinhados estivessem aquinhoados com bons empregos.
Inspirado no Gênesis (1,1-2,3). Publicado no "Arsenal de Literatura" com o título de O PREFEITO CONTRA A CIDADE.


sábado, 23 de maio de 2009

ARSENAL DE LITERATURA

Faço uma breve pausa no Preblog das publicações de minhas colaborações literárias no DN - CULTURA para dar uma informação.
Encontrei casualmente na internet um documento intitulado Catálogo da Imprensa Alternativa (em arquivo PDF, com 183 páginas), originário da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, com verbetes sobre um grande número de periódicos alternativos no Brasil.
Dentre as publicações que o catálogo relaciona, encontra-se em sua página 14 o nome do "Arsenal de Literatura", uma revista que foi editada aqui no Ceará. Participei, em novembro de 1980, de seu projeto inicial (com o texto O PREFEITO CONTRA A CIDADE). Após o que eu não sei se a revista chegou a ter outros números.

sábado, 16 de maio de 2009

NUVENS

Em pequenino eu achava que os santos moravam nas nuvens. Cada santo em sua nuvem, conforme a importância. Se o santo era proeminente, a nuvem idem, de modo a traduzir o seu prestígio. Até chegar ao humílimo santo na humilíssima nuvem. Em outras palavras, esse mundo velho sem porteira, mundo cheio de desigualdades sociais, tinha o seu "repeteco" lá nos páramos, achava eu. Nos dias de hoje, chamo isso de visão antropomórfica dos seres celestiais. Ah!, mas eu punha os santos nas nuvens, conquanto não fossem elas negras!... As nuvens negras, esclareço aqui, eram só para os santos mutuários do Banco da Nublada Habitação. De santinho-do-pau-oco para baixo.
Um que destoava era São Jorge. No mister de aporrinhar o dragão, o santo inglês morava no local de trabalho. Na Lua, dindinha Lua. Desanuviado por convicção, o santo pelejador ainda mora lá. Fosse nefelibata, a sua inseparável lança teria virado um para-raios. Mas, raios! Por que santo (afora São Jorge), depois de uma existência terrena agoniada, escolhe ir morar numa nuvem a um pulo daqui? E por que, cargas d'água (ô expressãozinha apropriada!), após sofrer o diabo nas mãos dos dioclecianos da vida, santo resolve ir morar numa nuvem a um tiro de canhão daqui? Quando há os anéis de Saturno...
Eram perguntas da mente infantil jamais respondidas. E viver nas nuviosas fofuras... para santo tinha lá suas vantagens. Primeiro, não havia a monotonia da paisagem; segundo... Espere aí, a monotonia da paisagem talvez seja melhor do que esse eterna-metragem sensaborão. Da Terra para santo ver. Aliás, desde as famosas estripulias do Barão Vermelho que morar nas nuvens só apresenta desvantagens. O avião supersônico, o canhão a laser, o satélite "xeretão" e agora essa mania salobra da nucleação artificial. Eta costumezinho bobo! Como era antes: dia da faxina, a santarada em mutirão, São Pedro ao comando... "Hora de esgotar, pessoal!" E a chuva benfazeja caía sobre as plantações.
Quantas vezes eu me recostei na relva para apreciar o pleomórfico espetáculo! Sopradas pelo artífice vento, as nuvens a formarem enxundiosas figuras de animais! A anta, o rinoceronte, o urso, a ovelha... Ganhava de longe a ovelha. Aliás, o lanífero animal mais parecia - ainda parece - uma nuvenzinha que baixou à Terra. E eu via no céu outros animais também feitos do algodonoso material, mas isso em pequenino. Hoje, quando penso que Magalhães Pinto vislumbrou nelas a política, estraga tudo. "A política é como a nuvem; olha-se outra vez e já mudou." Pois bem, foi depois dessa comparação que Magalhães Pinto adotou o guarda-chuva, talvez receiando alguma nuvem derramadeira. O guarda-chuva. Para proteger a careca e a casa bancária. Sub umbra alarum tuarum protege me.
Nas histórias em quadrinhos um tipo de nuvem é bastante comum. Observada do chão, ela se confunde com as demais nuvens distribuídas à sua volta. Porém, ela oculta o covil de um astucioso vilão - é uma nuvem artificial. De onde ele, através de uma avançada parafernália, espreita a Terra para cometer suas vilanias. Só que o vilão, no final, entra em trombas (d'água), sempre. Aliás, quase sempre. Não esqueçamos o guerreiro poderoso que, depois de saciado na bendita Geni, partiu incólume em seu zepelim prateado. Numa nuvem fria...
Agora, o leitor atente para estes versos:
"Abraço a Juno ou, louco, abraço aquela
Nuvem de ouro ilusória e vagabunda?!...
Minha ventura, ó céus, é tão profunda,
Tão larga e tanto que eu duvido dela!"
Pertencem ao soneto "Íxion", de Raimundo Corrêa. Reza a lenda que Íxion, rei dos lápitas, fora admitido no convívio de Júpiter e de sua esposa, a deusa Juno. Ultrapassando os limites da conveniência, Íxion fica perdidamente apaixonado pela deusa. Avisado da corte desrespeitosa do rei dos lápitas, e também para pô-lo à prova, Júpiter produz uma nuvem dourada, com a forma de Juno, e a coloca junto dele. O louco apaixonado corre a abraçá-la, mas o ciumento Júpiter, com o seu poder divino, o precipita no inferno aos cuidados das Fúrias. Na mansão dos mortos, o pobre Íxion é amarrado com serpentes a uma roda de fogo, a qual nuca cessa de girar, girar, girar...
Moral da história
Quando a nuvem é dourada o melhor é deixá-la passar. Em branca nuvem mesmo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

COMO EU VEJO

A sociedade
Dá ênfase aos valores perversos. Por exemplo, valoriza o diploma da pessoa quando o mais importante deveria ser a moldura do mesmo.
O amor platônico
Frio e distante. Como se fosse plutônico.
O feminismo
Um senhor movimento.
As pessoas em geral
Elas deveriam se despojar de tantos e inúteis envoltórios. Olhai os sabonetes do motel.
A maioria silenciosa
Só abre a boca para dizer amém - e amém por gestos, para tudo ficar "nos conformes".
A política 
É a convivência dos contrários ou o contrário das convivências, sei lá.
A monarquia
Olhe, meu súdito. Se for para acabar com as reinações da república...
O diálogo americano-soviético
No x Nyet. No x Nyet. No x Nyet.
A violência urbana
Na escalada em que vai, o estupro caminha para ser um ato de cordialidade.
A Terra
Apesar de chover dentro e da umidade que apresenta em certos locais (na Atlântida, por exemplo) ainda é um bom lugar para se morar. Não sei de ninguém na Terra que, em gozo das faculdades mentais, tenha dado o seu quarto-e-sala de entrada na compra de um apartamento novo em Vênus.
O "milagre brasileiro"
Vínhamos a classe média fazendo um animado piquenique. Que foi a pique por falta de níquel.
Os escândalos
São a mola propulsora do sucesso. Outro escândalo!
A fé
Removendo montanhas... em parceria com os terremotos.
O diabo
Nem só de amassar pão ele vive.
O Brasil
É o país das obras faraônicas. Mais uma vez o Egito se curva...
O alinhamento automático
É boçal todo aquele que se alinha automaticamente seja lá com o que for. Alinhamento é para pneus.
Os bons tempos d'antanho
Como era com fundos o meu cheque!
A realidade
Banal. Aí me embanano todo.
A paisagem atual
Montanhas de promissórias, rios de iliquidez e vales... de vales, ora bolas!
A vida, a morte
Para viver estou aqui, para morrer estou nenhures.
O bem
A ser exercitado. Deus tem o número do meu telefone.

domingo, 3 de maio de 2009

SALVE A INFLAÇÃO BRASILEIRA!

"Em casa que tem inflação 
todos brigam e ninguém tem razão." 
Provérbio modificado

A verdade é que tratamos mal a inflação. No pressuposto de que ela é a causa de todos os nossos males, inclusive os que vivem malocados, e lhe descemos a ripa sem contemplação. A inflação enquanto bode expiatório. Enquanto isso, na escolha do atual sumo bode da expiação, os brasileiros estamos de novo sendo incompetentes. Em não reparando na grossa blindagem dele. E quanto mais lanhamos o bode, mais ele come das nossa hortaliças. A ponto de nos esquecermos até da velha saúva de guerra. A saúva, quem diria...
Volta e meia, os economistas trancafiam a inflação num secreto porão do Planalto. E tome pancada, choque, pau-de-arara, leito de Procusto (ou será de pró-custo?) ao som de umas horríveis lambadas do Pará. Finda a sessão, em que estado pensam vocês se achar a inflação? Estropiada, com um dígito a menos? Caindo pelas tablitas? Nada disso. Ela se encontra tinindo nos cascos, se como a houvessem tratado a pó do guaraná (legítimo). Numa palavra, rejuvenescida. Em condições de enfrentar o senhor ministro da Fazenda e do Brinquedo.
O senhor ministro da Fazenda e do Brinquedo, que já tem caçado muito urso no invernadouro, tem lá sua estratégia. Põe a inflação a hibernar. Mas, é bom que se recapitule aqui a fisiologia de um ser que hiberna. Primeiro, ele come feito um danado para estocar gordura. Segundo, hiberna. Terceiro, ele desperta com uma fome descomunal. Fome ortodoxa, saiam da frente (se isto for possível). E, o que é pior, pega o país bem no rigor da entressafra.
O exemplo da Bolívia. Santa Rita da Cochabamba, como eles estão! Mastigando coca a mil, estão desentocando uma inflação de 24 mil... por cento! Não é à-toa que o país irmão é hoje considerado um celeiro de técnicos na luta antiinflação. Ora, um que outro bem que poderia prestar socorro ao Brasil. Mas, por motivo de segurança nacional (da Bolívia), nenhum deles pode ser liberado. Um só boliviano que largue o cabo-de-guerra, a inflação recupera terreno e ganha o jogo.
Em geral o assalariado e a inflação são inimigos naturais. Por isso, é comum o primeiro reclamar:
- Diacho, você me deixou nu com a mão no bolso.
E o segundo ripostar:
- Que bom! Você ainda tem um bolso...
Vai daí, arma-se uma tremenda confusão que termina com o assalariado... nu com a mão no bolso. Ad infinitum.
E também existe uma teoria de que a inflação brasileira está só fazendo musculação, criando marra. Para ir lá fora dar um pau na dívida externa. Se isto se confirmar, meu Deus, a inflação entrará para o panteão dos heróis nacionais. Terá efígie numa cédula de muitos zeros à direita, mas que pouca alegria dará ao portador. E aprendam isto: que uma inflação não abandona nunca seus mais caros princípios.
Por essa e outras é que a inflação deve ser bem tratada pelos brasileiros. Acarinhada inclusive. Só assim ela não vai chamar a hiperinflação, a mãezinha dela.

Originalmente publicado em 1986 no "DN - Cultura" e no "Jornal da AMB".

domingo, 19 de abril de 2009

O PACTO

Pacta sunt servanda. Os pactos devem ser cumpridos.
Num albergue postado no caminho de Málaga achavam-se dois cavaleiros andantes. Era sexta-feira, dia em que os paladinos não andavam à cata de aventuras, porque nesse dia da semana descansavam os mouros. Sem mouros com que pelejar, não havia muito o que fazer. Só pernas pro ar, que de ferro já bastava a armadura de cada um.
Damiano e Cosmião chamavam-se. Formavam uma dupla inseparável, na base do "só-vou-à-liça-se-você-for" (mesmo porque o rocim era único). Batendo-se contra o inimigo comum, Damiano se expunha para proteger Cosmião; este, por sua vez, não ficava atrás e fazia o mesmo com relação a Damiano. A única - e não honrosa - exceção foi quando tiveram pela frente Conan, o Bárbaro. E isto porque nossos herois ficaram escondidinhos como lagartos. Em duas palavras, deu Itararé.
O bate-papo estava assaz medieval, quando Cosmião introduziu uma ideia caprichosa. Mudando do vinho para a água, como observou um aldeão que depois virou mosto. Cosmião, a voz estentórea para que o amigo bem o ouvisse, falou:
- Nossa amizade, ó Damiano, não padece dúvida. Contudo, deveríamos vitalizá-la através de algo assim como... um pacto de sangue.
- De onde tiraste tal ideia, amigo Cosmião?
- Bem... alhures, os cavaleiros leais assim procedem.
- Ora, o rosário de nossas pelejas contra meio mundo já é a prova cabal da lealdade de um para com o outro. Então, para que o pacto de sangue?
Pequeno desencontros entre os dois amigos por vezes ocorriam. Mas que eram resolvidos com uma curta oração do "Breviário do Cavaleiro Andante", que um puxava e que o outro respondia:
- Cada um quer dar a vida pelo outro.
- Só não o conseguindo pela incompetência dos adversários.
- Amém. 
Até que houve a aquiescência de Damiano. Afinal, o rito de sangue proposto por Damião não era algo completamente esquipático. Para quem já se encontrava na "ônzima" caneca de vinho, minha senhora, pelo menos não era.
E Cosmião fez o celebrante:
- Vê, Damiano, coloquei minha mão sobre a távola. Agora, com a palma de tua mão cobre o dorso da minha para que, em seguida, eu as transfixe com o punhal. O sangue ao correr selará a nossa eterna amizade. Ou vais correr tu?
Damiano não correu. Porém, não suportou bem ver o "sangue do seu sangue" a correr da mão cravada pela lâmina. E fez uma séria acusação contra o amigo: que Cosmião agira em benefício próprio, botando a mão a jusante para pegar menos punhal. Mas isto não tem a menor influência, torquiu Cosmião, tem, retorquiu Damiano. Nesse tem-não-tem, Cosmião acionou o punhal novamente. Só que, desta vez, no coração do pobre Damiano.
Morto Damiano, Cosmião deu às de vila-diogo. E passou a vaguear pelas faldas de Sierra Nevada. A mão ferida, pensada com unguentos de rosmaninho, sarou logo. Mas... o que são os desígnios das Fúrias (as deusas romanas da Vingança), minha atenta senhora. Algum tempo depois, o errante cavaleiro Cosmião adoentou e morreu. De icterícia catarral, um mal a ver com o sangue do pacto.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

UM ESQUELETO PARA MICHAEL JACKSON

O cantor Michael Jackson, já conhecido por suas extravagâncias, arranjou mais uma. Ele quer montar uma câmara de horrores em sua casa de Los Angeles. Quer uma câmara toda repleta de crânios e esqueletos disformes assim como uma biblioteca de compêndios médicos sobre doenças estranhas. Para completar a tétrica coleção, está lhe faltando, porém, o mais ambicionado troféu. O esqueleto de John Merrick, o homem-elefante.
Os restos mortais de John Merrick não se encontram num campo-santo qualquer. Tampouco num cemitério de elefantes. Repousam num hospital de Londres, onde se prestam ao ensinamento médico. Quer dizer, não repousam. O esqueleto é famoso por suas grandes deformidades. Uma coluna vertebral retorcida que sustenta (haja Atlas!) um crânio descomunal. Muitas outras alterações também enfeavam o pobre John Merrick. No entanto, por terem sido das partes moles, voltaram ao pó.
Um milhão de dólares não fez com que o esqueleto humano mudasse de proprietário! Perdão, de intermediário. E olhem que o hospital londrino tem sérios problemas de caixa. Está no osso. Mesmo assim não vende os restos de Merrick. Principalmente para Michael Jackson que os deseja ter para o seu deleite. Como a um brinquedinho articulado. Não são ossos de borboleta (ninharia) a soma oferecida pelo cantor, mas o hospital não vende o esqueleto. Razões morais são alegadas.
O esquésito (a palavra existe) Michael Jackson está para ler de "Merrickesh"! Será que ele deseja fazer o Príncipe Hamlet, o craniólogo, em sua tragédia de dúvida e desespero? Androginia dá dúvida, mas desespero só às vezes. Ou será que ele pretende copiar da pretendida ossatura apenas um novo passo de discothèque? Pois, literalmente, JM é espelho de MJ. Nesta hipótese, fãs do mundo inteiro, sacudi-vos! Nada tendes a perder, senão o vosso suor! Michael contasse com o esqueleto, então o balanço seria tremendo.
Imagino que um anjo torto, desses que vivem à sombra, haja lhe aparecido e dito: "Vai, Máiquel, ser musicólogo na vida..." E Michael Jackson foi sê-lo, só que no Museu da Teratologia. O museu, ô Michael, se ainda não tem o horrífico estandarte, eu aproveito para sugerir um deles. Um que tenha uma caveira a encimar duas tíbias cruzadas. Não, MJ, os velhos bucaneiros não cobram direitos autorais.
E quem não se recorda de Michael Jackson em seu videoclipe mais famoso? No qual ele aparece dançando ao lado de hediondas criaturas da noite, recém-saídas de suas tumbas etc. É Michael Jackson em seu elemento. E quem não sabe de seu hábito, meio believe it or not, de dormir numa esquife hiperbárica? Como se isso lhe prolongasse a vida. Pois bem, qualquer semelhança com o hábito de um certo conde da Transilvânia não é mera coincidência...
Dear Michael Jackson: Venham de lá esses seus ossos que eu quero apertá-los. Mas... se, numa dessas contorções que você tanto gosta de fazer, o seu esqueleto, vai, assume uma posição bem bizarra de não mais voltar ao normal, hein? E, tempos depois, aparece outro excêntrico querendo comprá-lo, hein, hein?
Já sei, meu tangará, são os ossos do ofício.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

IMPAGÁVEIS DO PG - II

NO MAR DAS CONTRADIÇÕES
É onde o afogado ganha vida nova.
NÃO PODEM SER POSTOS DE CABEÇA PARA BAIXO
Alguns idealismos. Porque caem as moedas dos bolsos.
AGUENTE OS TRANCOS
Que os barrancos desmoronam.
PASSATEMPO SINCRETISTA
Matar as moscas com um jornal enrolado.
JONAS ENGOLIDO PELA BALEIA
E nós, os crédulos, pela balela.
PENSAMENTO ANTA
Ninguém governa a governanta.
SOBRE O DIREITO DE IR E VIR
Olhai os bumerangues da Austrália.
LEI DA PISTOLAGEM
Todo homem tem seu preço... de liquidação.
A HISTÓRIA DO PATINHO FEIO
Não passou de um erro taxonômico.
ESPERANDO GODIVA
Coventry era uma fresta!
A RATOEIRA É TAMBÉM CAPAZ
De fazer o gato passar maus momentos.
CONTRA-INDICO
Aspirina na febre de consumo.
CLUBE DE XENÓFOBOS
Com ramificações no exterior. Funda-se.
UM MAS...
Esses elogios com "mas".
E CANTAM AS SIRENAS
Fora da tábua não há salvação.

terça-feira, 7 de abril de 2009

IMPAGÁVEIS DO PG - I

TODAS AS PROFISSÕES SÃO IMPORTANTES
Portanto, o faroleiro não faça farol.
CÚMULO DA TRAGÉDIA
Ir de Challenger para Chernobyl.
"CHEGAR AO MÁXIMO DE BELEZA COM O MÍNIMO DE MATERIAL"
Otto Lara Rezende? Ou a esteticista que criou escola?
ADULTÉRIO DE SULTÃO
É com o harém alheio.
CONSELHO QUE DARIA A UM JOVEM POETA
Sê fecundado pela poesia mas, oh, não desoves aqui.
ROCKRÍTICA
Vai para o conjunto de rock que se preocupa em criar o guarda-roupa antes do som.
NÃO DISCUTA COM QUALQUER UM
Mas apenas com o magarefe, que não radicaliza.
PASSIONAL
Nunca dê esse passo.
"DEEM-ME UMA ALAVANCA E EU ERGUEREI O MUNDO"
Grande coisa, Arquimedes. Atlas faz isso o tempo todo e.... sem alavança, tá sabendo?!
GARÇOM
Uma pérola em minha ostra!
SUCESSO NÃO É CAVALETE
Mas precisa dos pés no chão. Bem firmes.
ESSE AEDES
Só falta agora transmitir a AIDS.
BIRITA
Para quem de frio titita.
A POLÍTICA MORA NO MUNDO
Mas dá o enedereço errado para a Moral.
GUERRA, NUNCA MAIS
Não quero ver Guernica bombardeada num museu.
AS UVAS ESTÃO VERDES
Os desejos podres.
E PORQUE EU NÃO ERRO UMA
Sou presentólogo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O CADERNO DN - CULTURA

No período de 1987 a 89, fui colaborador do DN - CULTURA, o caderno de cultura do Diário do Nordeste. Foram dois anos em que, aos domingos (em semanas alternadas), eu tive a satisfação de ver meus contos, crônicas, poemas e "picles" serem publicados nesse meio de comunicação.
Graças à atenção que o jornalista Carlos Augusto Viana dispensava a meus escritos.
Após revisados, eles serão aqui postados. Aos poucos, né?!

terça-feira, 17 de março de 2009

SOBRE A AUTODESTRUIÇÃO

"Chamar um artista de mórbido porque trata do tema da morbidez é um disparate tão grande quanto chamar Shakespeare de louco porque escreveu Rei Lear." Oscar Wilde
AVISO: NÃO LEIA SE VOCÊ FOR UMA PESSOA SENSÍVEL
[...]
15/08/2017 - Atualizando ...
Para encerrar o disse me disse que acontece nos comentários, resolvi mostrar uma das minhas intervenções nas horas vagas:
13/11/2018 - Atualizando ...
Nove anos depois de publicado no Preblog, esta postagem líder de visualizações continua provocando protestos (por vezes insultuosos). Como finalmente me convenci de que não era lá grande coisa, retornei-o para rascunho. Nesta situação, não estará mais disponível para o público.
A propósito: hoje é o Dia da Gentileza.

quarta-feira, 11 de março de 2009

NOITES DE CÃO

Triiim... Triiim... Triiim...
Mary Rose despertou, enfiou os pés nos chinelos e dirigiu-se ao telefone.
- Alô?!
- Uuuu. Uuuu. Uuuu. Uuuu.
Do outro lado do fio, a voz que uivava - a quinta noite consecutiva que isso acontecia - e, como nas vezes anteriores, às três horas da madrugada.
Mary Rose, no resto da noite, não mais conseguiu dormir. Por mais que contasse cobras e lagartos... cobras e lagartos.... cobras e lagartos... não conseguiu dormir. Amanhã, cretino, iria ter outra vez com o policial Smith Joe. Quem sabe, Smith Joe, a essa altura, já tivesse no bolso do colete, junto com o pirulito, o nome do engraçadinho dos uivados telefônicos. Amanhã, maldito. A vingança, aprendera algures, é um prato que se come frio.
Hoje, maldito. Mary Rose pôs-se fora da cama. Manhã, com azia e olheiras. Não quis, não estava a fim de alimento algum: "breakfastio" (ou, talvez, por desejar apenas aquele prato frio). Procurou Smith Joe no Departamento de Trotes da Polícia. Smith Joe, do DEPTROT, era um corpulento policial que, nas horas vagas, gostava de tocar piano à maneira de acordeão. Também gostava de ser eficiente. Durante a noite, em operação conjunta com um "trotecista" da Companhia de Correios e Telefones, mantivera sob escuta o telefone de Mary Rose. Então, quando ela o procurou, Smith Joe já sabia qual fulano fizera a chamada das três horas da matina.
- O telefone está no nome de Kenneth Paul. Conhece-o?
- Kenneth Paul? Co'os diabos, é meu vizinho.
- Existe alguma rixa entre ambos?
- Não.
Smith Joe solicitou o comparecimento de Kenneth Paul no DEPTROT. Comparecimento amigável, querido Paul. Venha, querido Paul. Ou, do contrário, irei eu, aí, lhe aplicar uns telefones. Telefones na gíria policial, querido Paul. Quem pergunta se penico de barro faz zoada, acaba mais cedo ou mais tarde... pedindo penico. (Esta última frase era a cara de Smith Joe. Ele a citava por todo, qualquer ou nenhum pretexto.)
Meia hora após, Kenneth Paul estava no DEPTROT. Enfrentando o olhar feio de Mary Rose, sob o olhar de leguleio de Smith Joe.
- Paul, meu vizinho, por que esses trotes bestas?
- Mary Rose, a senhorita tem um cão...
- Que tem Vociferous com isso? Não faz mal a uma aranha.
- Vociferous uiva à noite. Um pouco antes das três horas da madrugada.
- Não percebo. Nessa hora estou numa fase REM (rapid eye movements) do meu sono.
- Também estou numa fase REM. Mas Vociferous me acorda.
- Por isso, me dá aqueles telefonemas eivados de uivados?...
- Sim, até que você se desfaça do cão.
- Eu me desfazer de Vociferous? Never.
- Então, vamos ser solidários na insônia.
- Fico sem telefone, mas Vociferous continua comigo. Com casa, comida e coleira lavada.
- Comida, você falou? Carne com vidro moído, por exemplo?...
- Atreva-se, Paul.
Foi quando o pirulito de Smith Joe acabou. E, para descer à bombonière, ele precisava antes de tudo pôr um termo àquela discussão. Pensando nisso, Smith Joe sentenciou:
- Bote uma focinheira no cão, senhorita.
Valeu. Com Vociferous agora de focinheira, durante a noite, os dois vizinhos voltaram às boas.
Vejamos, então, o que acontece  a Mary Rose quando ela, às três horas da calada, atende o seu telefone:
- Alô?!
- Mupf. Mupf. Mupf. Mupf.

terça-feira, 3 de março de 2009

ESCREVENDO COM NÚMEROS

Raimundo Magalhães Júnior nos relata uma recreação que esteve em voga no Brasil, aí pela segunda metade do século dezenove: escrever com números. Nesse passatempo, os números eram inseridos em palavras para que fossem lidos como sílabas destas. Quando, por exemplo, alguém compunha "bisc-8", era "biscoito" que se devia ler, por interessar apenas o sentido fonético do número.
Eis algumas sentenças, pinçadas no autor supracitado, para dar uma idéia mais completa do assunto: "O 10-engano é o castigo do 7-tico" (o desengano é o castigo do cético). "O 10-tino do 9-lo é ser 19-lado" (o destino do novelo é ser desenovelado). "O mí-0 está sempre 10-contente" (o mísero está sempre descontente). E ainda: "A baleia, que bem conhe-6, produz o esperma-7" (a baleia, que bem conheceis, produz o espermacete).
Já foi uma mania nacional. Isso que, em dias mais recentes, encontra-se vestigialmente em pára-choques de caminhões. Carneiro Portela, em seu "Máximas, Adágios e Legendas de Caminhões", registra alguns exemplos: "70 me passar, passe 100 atrapalhar", "60 no bar, 70 sair 100 pagar, aí eu mando a polícia 20 buscar". Também atento à fraseologia burlesca veiculada pelos caminhões estradeiros, o autor destas linhas anotou do pára-choques de um deles, esta legenda inusitadamente escrita com números fracionários: "Rezei 1/3 a fim de encontrar 1/2 de te levar a 1/4".
Pertence a Filinto de Almeida, que se assinava F. d'A, a composição de maior fôlego desse passatempo. Ele, no último quartel do século dezenove, publicou no "Jornal do Povo" do Rio de Janeiro, os seguintes versos, todos eles terminados por números:
"Veio um dia ao Brasil um holan-10
E comeu de uma vez tanto bisc-8
Que de cheio e repleto nem 60
E fez por causa disso o diabo a 4.
Dá-lhe logo o doutor tão forte 12
Que ao ventre causou-lhe mil 10-as-3.
Então suplica o enfermo a um fran-6
Que era dos seus lamentos triste ou-20
Que por graça à saude lhe re-9,
Pois que ele a tinha forte como um br-11.
E o súcio, escutando a voz do mí-0,
Compassivo a curá-lo então 70
E curou-o metendo-lhe o ca-7!"
Esse F. d'A era um n-1-mero, vocês não acham?

(escrito em 1983 e revisado em 2009 
para publicação no Preblog e no EntreMentes)

segunda-feira, 2 de março de 2009

OUTRA DO BARNABÉ SEM PÉ

Meu Deus, como é frágil a saúde dos governantes de uma nação! Volta e meia ficam dodóis de enfartes, bolsas de gorduras nas pálpebras, ciáticas, abscessos retroperitoniais e fístulas do duodeno. Tanto que, há muito, já exclui essas doenças dos "livrai-os, Senhor" de minhas orações matinais. Em compensação, estou rezando em dobro para que eles jamais venham a sofrer da mais ominosa das doenças.
A mais ominosa das doenças é, a meu ver, a que ocorre no ouvir: cera nos ouvidos. O governante que adoece com essa moléstia fica inteiramente surdo ao clamor dos governados e, mais gritante ainda, ao clamor dos funcionários de sua administração. É capaz de, entre outras mazelas, reajustar os salários do funcionalismo em 40 mais 30 por cento (depois de um ano em que a inflação foi 99,7 por cento) e, no final das contas, achar(-se) o máximo. Felizmente, isto (a tal doença no governante, suas consequências nos governados) "jamais aconteceu no Brasil", numa prova de que "Deus é...".
Tenho um companheiro de infortúnio, digo, de repartição, que se chama Antonomásio. Desconfio que ele tenha sido batizado com água quente, pois esquenta a cabeça facilmente. Ao saber que, num distante país, o funcionalismo público tinha sofrido um reajuste salarial de 40 mais 30 por cento, que era igual a 82 por cento, quando a inflação havia sido 97,7 por cento no ano anterior, ficou uma fera sem bela. Tomou para si as dores alienígenas e foi deblaterar em praça pública:
- Este reajuste salarial é uma empulhação.
Mas logo apareceu um sujeito, também funcionário público, que, empinando sobre os coturnos pediu licença, isto é, não a pediu para discordar de Antonomásio. Seguiu-se uma discussão dos 82 por cento de Antonomásio contra os 110 por cento do de coturnos, que somente terminou quando este último gritou:
- Boto a tropa na rua.
Antonomásio falante estava, calado ficou. Depois veio me procurar para que eu refizesse, ou não, os cálculos seus de matemática salarial. Ora, Antonomásio, eu não me interesso por matemática salarial do além-mar, sim, mas você é um descendente direto de Não Euclides, o famoso criador da não menos famosa geometria não euclidiana, só que a genética não funcionou em mim, Antonomásio.
Não, mas eu não ia deixar Antonomásio no mato sem cachorro. Lembrei-me de que Sônia, minha namorada, interessava-se por esse tipo de assunto e até colecionava os artigos de jornal do Joelmir Beting. Entretanto, Sônia e eu, há cerca de uma semana, estávamos brigados por um motivo de somenos. Paulo, este grampo que eu encontrei em seu sofá-cama, não é um grampo, é, não é, é, então é seu, eu só uso grampo da marca Teimosão.
Por que só há juízes em Berlim? Deveria existir em Fortaleza um juiz, pelo menos um, para arbitrar essas pendências de namoro. Eu ganharia aquela questão inclusive, porque não era um grampo e sim um burocrático clipe-acima-de-qualquer-suspeita. Como sinal de reconciliação, embora também querendo ajudar Antonomásio, liguei para Sônia, quebrando o gelo baiano que se interpunha entre nós.
- Sônia, você ainda tem aquele artigo do Beting?
- Qual?
- O do "Barnabé sem Pé", que trata do "aumento" do funcionalismo público federal.
- Tenho sim, recortei do jornal.
- Vê aí o que ele diz.
- Que o reajuste foi de 40 por cento em janeiro e será de 30 por cento em junho...
- Prossiga...
- Considerando, porém, a corrosão pela inflação que ocorrerá entre os dois meses, o "aumento" é realmente de 61,5 por cento. 
- O "aumento" é de 61,5 por cento?
- É.
Nisso, Antonomásio, que estava a meu lado, retirou-se bruscamente. Tinha a cara de quem ia fazer uma besteira, do tipo enfrentar tropa na rua, e eu não consegui segurá-lo pelo cotovelo. E olhem que nada foi comentado, em sua presença, sobre a hipercorrosiva inflação de quase 10 por cento apenas no mês de janeiro, nesse remoto país que... tanto mexe com Antonomásio.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O ASTERÓIDE DA MÃO ESTENDIDA

Em recente estada no Rio de Janeiro, o astrônomo belga Henri Debehogne informou que batizara com o nome de Figueiredo, em homenagem ao presidente brasileiro, um asteróide que descobrira em suas pesquisas no Observatório Europeu do Sul. O novo asteróide ("novo" sob a óptica do astrônomo) foi encontrado orbitando entre Marte e Júpiter) com o alvará em perfeita ordem.
"Foi o fruto temporão de um longo trabalho", declarou Debehogne, um brechador de primeira grandeza. Sem que isto signifique dizer que o belga seria capaz de desprezar uma anã branca. Ao contrário, Debehogne é sensível com os obscuros e, o tempo todo, fez questão de dividir a glória de sua descoberta "com aquela gente boa do Observatório Europeu do Sul", o qual, surrealisticamente, fica no Chile.
Na coletiva à imprensa, na  qual compareceu apenas um repórter e ainda assim vestido de juiz de futebol (com um gravador escondido), Debehogne, entre uma e outra gota de "Visazul" que pingava em seus preciosos olhos, prestou novos esclarecimentos sobre o asteróide. Ah, sim, o intrépido repórter free lancer que realizou a entrevista foi Ouriço Júnior, filho do famoso Juvenal Ouriço Repórter, este último um personagem teúdo e manteúdo por Carlos Eduardo Novaes.
A ENTREVISTA
OJ - Prof. Debehogne, o público brasileiro está ávido por notícias sobre a sua descoberta, o asteróide Figueiredo. Como tudo começou?
HD - No princípio, Deus criou o Céu e a Terra...
OJ - Não, Prof. Debehogne, não precisa retroceder ao Gênesis. O espaço colocado à sua disposição é o de uma página de jornal. Não tem a magnitude do espaço cósmico, pois.
HD - Está bem. Retrocedo, então, ao dia em que, pelo telescópio, me deparei com um estranho bólido. Estranho, repito, porque o bólido não parecia ser um corpo celeste. Mas... se ele não era um corpo celeste, seria o quê?
OJ - Não faça suspense, Professeur.
HD - Entrei em contato com os astrônomos deste seu país, detalhei o que vira, e eles, com maior experiência no ramo, concluíram que se tratava de uma simples bola do emergente vôlei brasileiro.
OJ - O saque "Jornada nas Estrelas". Ponto para os brasileiros.
HD - Preferi considerar o dito pelo não dito - a imagem do bólido não era compatível com o meu saber esportivo - e prosseguir com minhas pesquisas. Quando tenho um propósito eu sou mais obstinado do que um cão no cio. Então: eu não mais arredaria o olho do telescópio, pelo menos enquanto não chegassse a um entendimento plausível.
OJ - E quando fazia mau tempo lá fora?
HD - Quando ocorria má transparência atmosférica, eu usava minha fiel luneta. Esta aqui.
O astrônomo aproveita para mostrar ao repórter a luneta com a qual, em tempos distantes, esquadrinhava os pensionatos femininos de Bruxelas. Em seguida, retorna ao tema central da entrevista.
HD - Um dia, como prêmio à minha pertinácia, a sorte e o asteróide acenaram para mim.
OJ - O asteróide também acenou?
HD - Literalmente falando. O asteróide que descobri é dotado de um apêndice... à maneira de uma mão estendida. Por isso, ele tinha - e ainda tem - como.
OJ - Essa aí me deixou siderado.
HD - Descoberto o asteróide, faltava um nome de cristão para ele. Dei tratos à bola - bola de vôlei, não - e encontrei, tendo em vista a sua mão estendida, o nome apropriado: Figueiredo.
OJ - Vestiu como uma luva. Será que o planetinha gostou do nome?
HD - Se gostou? De lá me fez com os dedos um "O", que é a abreviatura de "OK".
OJ - Sobre a mão estendida: é a direita ou a esquerda?
HD - É a direita, embora seja canhoto.
OJ - Mas, Prof. Debehogne, para que uma rocha especial vai querer a tal mão estendida?
HD - Para espantar mosquito marciano, sei lá.
OJ - Há relato anterior de outro asteróide nessa condição?
HD - Não. Consultei o "Almagesto" de Hiparco em sua melhor edição, a que foi atualizada por Ptolomeu, e não encontrei uma só linha (epa!) a respeito do fenômeno.
OJ - E não há possibilidade de ter sido uma alucinação? O Professeur é natural de um País, com o perdão da palavra, Baixo e naquele ar rarefeito dos Andes...
Nisso, o pesquisador belga, de inopino, abandona o confortável pufe, onde estava sentado dando a entrevista. Mas, parece que muda de idéia e volta a sentar-se (pufe!). Só que, agora, tem cara de poucos amigos.
HD - Escute, meu jovem: o asteróide realmente existe, já o registrei no Minor Planets Center dos Estados Unidos - os de lá me fizeram apenas uma ressalva: que eu maneirasse no consumo do ácido - e você, agora, só tem direito a mais uma de suas impertinentes perguntas.
OJ - Por que, estando o senhor no Chile, não chamou o asteróide de Pinochet?
HD - Não misturo Ciência com Política.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A VEZ DA VOZ

"E disse: minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de ninguém." (Chico Buarque)

Mãe Natureza equipou grande parte de sua criação animal com um órgão fonador, o qual, como o nome indica, se destina à emissão de sons. A esses sons, intencionalmente emitidos pelo animais, dá-se o nome genérico de voz. Possuem-na, por exemplo, o Falsete, o Polichinelo, o Veludo, o Trovão, o Ventríloquo e a Taquara Rachada.
No princípio, a voz de um animal era compreendida apenas por outro de sua espécie. Mas, aí surgiu o homem que, muito à vontade, tratou de inventar a pesquisa. A pesquisa, pela palavra em si, foi um achado. Servia para o homem disfarçar o incomensurável bedelhismo e, ainda, de quebra, para ele conseguir algum ($$$) com alguma fundação. Crítica à parte, foi através da pesquisa que o homem chegou a resultados animadores na decodificação da voz dos macacos, dos golfinhos e das cantoras de fado.
É na hora de ouvir a voz da própria consciência que o homem sente grande dificuldade. E botem dificuldade nisso, agora que ele deu para andar com os ouvidos calafetados pelos fones de um "Aiko-man". O ser humano, ao nascer, tem o direito inalienável a duas caixas de som e a um microfone apenas. Os leitores podem indagar: e nós com isso? É que 1º) devemos ouvir, 2º) devemos falar. Fiquem na oitiva, portanto.
Lembram-se de quando Ulisses Guimarães definiu Abi-Ackel como "sendo uma voz à procura de uma idéia"? Pois bem, enquanto o ministro a procura, eis meu recado para Ulisses. Ulisses: vá tirando o seu cavalinho-de-tróia da chuva. Você não devia ter sido assim cruel com o Abizão. Ora, logo com ele que é tão cordial com todos, gregos e troianos, e, ainda outro dia, recebeu no gabinete ministerial uma humilde porca. Sem audiência marcada, acrescente-se.
Já que "politiquizei" o texto, pretendo dar um giro na recente história política deste país (Brasil, da fase castelista para cá). Corriam os sofridos de 1965, o duro regime da época decidiu fazer certas "nenas" democráticas e, com este fito, criou de cima para baixo dois partidos - a ARENA e o MDB - que, com o tempo, viriam a ser chamados de "Partido sem Voz" e "Partido sem Vez", respectivamente, pela inteligência crítica da nação. Cada qual no seu ofício: o "Partido sem Voz" legislando, até ficar afônico, sobre o teor de cloreto de sódio a ser permitido nas pipocas do reino, e o "Partido sem Vez", mantido fora desse processo, a bem do próprio nome.
Criando uma imagem, eu diria que os dois partidos estavam numa espécie de gangorra. Só que a ARENA cavalgava a trave, sem querer descer, e o MDB, sem poder subir. A explicação disso não se achava no peso político de cada um e sim na gangorra anquilosada, como convinha aos "omes". Por mais que o MDB tentasse o impulso, a gangorra se mantinha "paradona". Houve um momento em que ela emitiu uns rangidos, fez menção de se movimentar, mas aí vieram os "omes", os verdadeiros brincantes, e pararam a gangorra. Reforma, foi o motivo alegado.
Agora é a vez de dar um puxão nas orelhas, com mais força na esquerda. A Oposição, por motivos intestinos, pegou piração de baleia. Mania de suicídio. É jangada que se desmonta em paus para se fazer ao mar. PMDB, PT, PDT, PTB, PEtc. Tenho certeza de que Tia Zulmira Ponte Preta, a essas malfadadas horas, deve estar se revirando sob a lápide, e dizendo com voz sepulcral: "Cada pulga quer um cão só para si". Enquanto isso, o Espírito da Situação paira sobre as águas - impávido que só vendo!
Paro o berro. Não quero forçar, por mais tempo, as cordas vocais. Afinal, de voz ainda preciso para umas derradeiríssimas palavras. Vão para três tipos delas: 1) Voz de sereia (Por que me fizeste perder o norte magnético e o tempo? Devia ter previsto que a dona não iria nunca abrir as pernas.) 2) Vox populi (Quanto tempo andas também ruim das pernas? Nunca estiveste? Remember 33 d.C. e aquela multidão gritando "Barrabás, Barrabás, Barrabás"...) 3) Voz de prisão (T'esconjuro!)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A TURMA DO POIRE

Chegavam os tempos da Nova República. O deputado Ulisses Guimarães era o nome mais influente da oposição. Em Brasília, era freqüente ele estar reunido com correligionários para conversar assuntos políticos ou amenidades. Em torno de uma mesa em que não podia faltar a sua bebida predileta, o liquor de poire (pêra, na tradução do francês, e que se pronuncia “puar”).
Até o reino mineral já sabia que o Dr. Ulisses se preparava para ser o novo centro do poder. Alguns políticos da situação, idem. E, por conta disso, eles também compareciam para beber do liquor de pêra do Dr. Ulisses Guimarães.
Inspirado em tal fato, eu cometi na época uma paródia com a marchinha carnavalesca “Turma do Funil” (a letra desta música foi colocada na caixa de comentários). Uma paródia que, diga-se de passagem, não recebeu nenhuma divulgação. Exceto a que faço agora.

Chegou a turma do poire
Todo mundo bebe
Mas ninguém é "vacilão"
Há, há, há, há
Ninguém aqui é "vacilão"
Tem eleição por perto
Vou já pra oposição.

Eu bebo por compromisso
Doutor Ulisses
Eu não sou um cara omisso
Enquanto houver poder
Tou aí, não sou muar
Bebendo com a turma do poire.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

VIOLÊNCIA URBANA

Uma abordagem epidérmica do problema
Em nosso país, quem nunca foi vítima de um ato de violência urbana que atire a primeira pedra! Atire, com violência inclusive. O sujeito, hoje em dia, não consegue andar pelas ruas de uma cidade...  sem ser molestado. Por qualquer (ou nenhum) motivo pode se ver no centro de uma agressão física - uma dolorosa experiência que vai do chega-pra-lá ao nocaute-pra-sempre.
Significando este último: ser mandado para a cidade-dos-pés-juntos. Uma cidade tão superlotada que, se todos, ao mesmo tempo, espreguiçassem as pernas, a situação ficaria de morte. E de morte para todos, sem distinção de raça, sexo, credo ou seguro-funerário.
Tome cinco, Paulinho Rangel! Você estava mesmo com o santo nos couros ao escrever que, na "República do 1º de Abril", se vive sob o império de quatro leis:
1ª - Lei do Mais Forte
2ª - Lei da Selva
3ª - Lei do Cão
4ª - Lei do Murici ( que cada um cuide de si).
Se a "República" de Platão foi utópica; a de Rangel, não. Existe verdadeiramente e, por ter como cenário uma nação perita em futebol, vive chutando por aí. Porém, não vou me deter nas raízes do problema da violência urbana, outros que ralem a mandioca. O assunto é por demais complexo, mistura-se com política, e de política somente me interessa a do corpo: como mantê-lo vivo?
Sim, como mantê-lo vivo? Uma ajuda, respondo, é o conhecimento do que acontece no corpo, no plano da fisiologia, ao ser mobilizado para uma ação de agressão e defesa. O conhecimento puro é importante e, mais ainda, é a sua aplicabilidade no dia-a-dia-de-cão.
Em preparação para uma luta, o ser humano experimenta várias alterações fisiológicas, mediadas pelo sistema nervoso autônomo. Este sistema, por sua vez, é composto de dois subsistemas que se contrabalançam: o simpático e o parassimpático.
É o simpático que faz os preparativos internos para a luta. Acionado, contrai os vasos da pele e das vísceras para que mais sangue aflua ao cérebro (favorecendo o raciocínio rápido) e aos músculos (ensejando o aumento da força), aumenta o açúcar sanguíneo (garantindo o dispêndio extra de energia), acelera a respiração e os batimentos cardíacos, apressa a coagulabilidade sanguínea (reduzindo as perdas prováveis de sangue) etc. Dentre as transformações fisiológicas descritas, apenas uma pode ser percebida de relance (em tempo hábil, portanto). Trata-se da contração dos vasos cutâneos, cuja tradução clínica desse fenômeno é o empalidecimento brusco da pele. Num entrevero de rua, procure observar se isto acontece, ou não, no rosto de seu oponente.
Recém-empalidecido significa influência do simpático, fisiologia a serviço do embate-bate, agressão possível ou iminente: você se prepara. Ao contrário, recém-ruborizado significa influência do parassimpático, despreparo para a luta, agressão não cogitada: você relaxa.
Agora, se você está a caminhar pela Rua do Rosário e, sem querer, pisa na unha encravada de um estranho que reage assim: nem empalidece nem enrubesce, mas fica verde, furioso e de camisa rasgada, aí maninho, neste caso, a esperança de que você salve a própria pele está nas coisas práticas da vida. Fugir, gritar mamãe, contar com as pernas, pedir o urinol, safar-se, escafeder-se, apegar com o santo, dar às de vila-diogo e, se possivel, tudo ao mesmo tempo.
(1982)

TECNOMITOLOGIA

:-)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

CARTA DE UM NÁUFRAGO

Gosto de ficar horas e horas numa praia deserta. Sou meio Padre Anchieta e, à maneira dele, passo o meu tempo a escrever versos na areia. Uns haicais, quase sempre dedicados à Maria Madalena (essa a minha peculiaridade).
Deu que, na última das minhas andanças praianas, encontrei uma carta. Carta de náufrago, reconheci logo por causa do envelope, tipo casco-escuro, que eu tive de abrir com um saca-rolhas. 
De dentro, espumando - só podia ser de raiva! - saiu esta mensagem:
"Estou (ou sou) náufrago há quase 20 anos numa ilha do Atlântico, talvez perto das costas brasileiras, uma vez que, no meu rádio de pilhas (7 fôlegos elas têm), escuto com alguma facilidade programas radiofônicos desse país. Isto, embora suavize minha solidão, estabelece uma confusão (to)tal na minha mente que, por vezes, chego a tirar o chapéu e a ficar pulando em cima do dito-cujo.
Lembro que, no início de minha estada na ilha, emocionado ouvia as transmissões esportivas que faziam a glória do país do futebol, como era assim designado. Havia times de popularidade, árbitros e bandeirinhas de segura competência e torcidas participantes.
Veio 1964, o ano do rebuliço, quando tudo foi mandado para as cucuias. Primeiro, decretando sob intervenção a Liga de Futebol e, segundo, extinguindo os clubes a ela filiados. Depois, a esse imenso país de arquibaldos e geraldinos, impuseram dois timecos: o C. R. Situação e a Oposição F. C., os quais travariam, a partir de então, a maior pelada de que se tem notícia.
No começo, só dava o C. R. Situação. E não podia ser de outra maneira, pois a Oposição F. C., que já entrara em campo desfalcada, sofria sistemáticas expulsões de seus jogadores. A arbitragem era tão parcial que, ainda no primeiro tempo, acabei com a minha boina italiana.
Já no segundo tempo melhorou alguma coisa. Incentivado por uma crescente torcida, a Oposição F. C. avolumou seu jogo e ameaçou virar o placar. Só não o conseguiu porque o Presidente da Liga autorizou a entrada em campo de alguns jogadoresw (biônicos) para reforçar, em quantidade, o C. R. Situação. Meu panamá de puro feltro não houve como evitar o estrago.
Findou o tempo complementar, o escore equilibrado. Por sugestão do C. R. Situação, acatada com certa relutância pela Oposição F. C., decidiu-se que ia ocorrer prorrogação. Por conta do suadouro, no intervalo concedido, os jogadores de ambos os times mudaram as camisas. Se, no vestiário do C. R. Situação existia um jogo completo de camisas limpas, o mesmo não acontecia no da Oposição F. C., que teve de improvisar com camisas desiguais.
Foi só o Presidente da Liga ver a Oposição F. C. em campo, desuniformizado, recrudesceu. Ou seja: ditou uma nova regra, oxítona, chamada vinculação. A jogada só podia ser armada, desdobrada e completada entre os que estão com as mesmas cores (por exemplo, de alviverde para alviverde), sob pena de anulação do gol que porventura resultar. Casuismo, quando me acalmei minha cartola inglesa estava em pandarecos.
E, por nada mais possuir que proteja minha cabeça do sol desvairado dos trópicos, de forma irreversível, me fiz ao mar em busca do continente. Do continente europeu, que distância não é problema para quem, como eu, sabe nadar de cachorrinho."

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O BEIJO

O beijo: taí um tema que anda nas bocas. Descrito como o ato de pousar os lábios em alguém, vá lá, o beijo é um ato de superfície não necessariamente superficial. Ah, a profundidade que ele tem quando o coração está na jogada! (E reparem que eu não estou falando apenas do beijo de uma mulher que pinta os lábios em coração.)
Além do beijo pessoa-pessoa há o pessoa-coisa, não esqueçamos. Quando se beija, por exemplo, um amuleto, uma carta de baralho ou um bilhete de loteria - de olho na sorte grande. O beijo que o pugilista dá na lona, de olho roxo, bem... deve ser uma exceção à regra.
Como surgiu o beijo? Dan Carlinsky, um estudioso do assunto, viu o começo de tudo nas aves que, bico a bico, alimentam seus filhotes. Depois, com um simples aperto na tecla de fast forward, Dan avançou milhões de anos e chegou aos homens das cavernas. Não é que os cavernícolas lambiam, uns aos outros, nas faces, como forma de compensar a carência orgânica de sal?
A civilização nos legou benefícios. Um deles, o de que, com a invenção do saleiro, ficamos todos mais elegantes à mesa da refeição; outro, o de que atrelamos novas razões e emoções ao ato de beijar. Há uma classificação para o beijo: 1) caloroso, 2) afetuoso, 3) religioso e 4) voluptuoso.
O primeiro tipo, o beijo caloroso, é o das pessoas que, em sinal de amizade, beijam-se nas faces. Esbanjado pelos eslavos, vem se universalizando. Os últimos, talvez, serão os esquimós que ainda desconhecem o beijo: eles se contentam em esfregar o órgão do atchim. (Gente fria é outra coisa!). O segundo, o beijo afetuoso, quem tem supermãe tem todos.
Já o beijo religioso é o que se dá, como sinal de respeito, em uma autoridade eclesiástica. O anti-exemplo dele foi o beijo, de triste memória, dado por Judas na face de Jesus. Naquele tempo, Jesus mostrava aos homens o caminho do Céu, o caminho alternativo com relação a todos outros que só levavam a Roma. Deu que os "omes" não gostaram da pregação e resolveram tirá-lo de circulação. Estavam só precisando de um "beijo-duro", quando apareceu Judas, que andava com problema de caixa. Judas entregou o Nazareno e, desde então, tem sido (merecidamente) malhado.
O último tipo, o beijo voluptuoso, o que dizer dele? É o que nos transporta ao céu (da boca, bem entendido), é o que não conhece a barreira da língua (pelo contrário), é o que instaura na gente o princípio do prazer (cujo fim é também o prazer). Bem-aventurados os que têm bons lábios. Bem-aventureiros os que têm boas lábias.
Sinônimo de beijo é ósculo, os dicionários registram. Desculpe-me, minha senhóra, mas ósculo parece beijo de sujeito pedante, daquele que a chama de minha senhôra. Já beijoca, palavra também dicionarizada, soa melhor pois é, exatamente, o beijo com estrépito. O smack dos norte-americanos, o "?" dos brasileiros, que aqui ninguém sabe a ortografia de algo que só existe na tradição oral. Mmmrrrzzz? Pppfffttt? Nnnssslll?
Aconteceu de um cientista calcular a quantidade de germes a serem transmitidos num único beijo. E, com esta descoberta em mente, ele, ao chegar a residência, então evitar o beijo de sua (dele) esposa;
- Não, querida, beijo na boca, não.
- Já sei. Você não quer se arriscar aos 100 milhões de Streptococcus pyogenes do meu beijo.
- Seja compreensiva. Você não está usando pastilhas antissépticas.
- Cafajeste, não exige isto quando vai nos beijos de suas secretárias. No de F., que tem 150 milhões de Staphylococcus aureus, no de B., que tem 230 milhões de Haemophilus influenzae e no de S., que, com 375 milhões de Pseudomonas aeruginosa, mais parece uma guerra bacteriológica.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

UM JARDIM ZOO-ILÓGICO

O desinteresse pela vida animal é geral. Cidades de razoável porte, como Fortaleza, não se dão mais ao barato de ter um zoológico. Foi-se o tempo da procura pelo “segundo maior espetáculo da Terra”, no dizer de Arrelia, um palhaço que ficou no desemprego depois que o circo pegou fogo.
Fui criança, como a maioria das pessoas (a maioria, porque já houve uma exceção: Dom Pedro II), e recordo-me do fascínio que o zoológico despertava em minha alma infantil. Fortaleza, dos anos 50, estava à altura do Rio de Janeiro (ao nível do mar) ao apresentar, no Parque da Criança, uma permanente exposição da vida animal selvagem.
Verdade, não era um zoo completo. Tinha lá suas deficiências: a preguiça, por exemplo, que morrera de um mal lentíssimo, em seu lugar haviam botado por muito tempo um zelador em regime de horas extras.
Hoje, nem isso. Fortaleza, carente de um zoológico, transmite a impressão de que nos quinto e sexto dias da Criação houve ponto facultativo... para Deus. Urge, portanto, que algum órgão municipal encampe:
1°) a mini-ideia de um jardim zoo-lógico.
2º) a maxi-ideia de um jardim zoo-ilógico.
Levando esta última a efeito com os seguintes seres:
O Dragão – Na qualidade de sparring já fez a glória de muito cavaleiro andante que queria impressionar sua donzela. Hoje, porém, em via de extinção (dragão, cavaleiro e donzela). Basicamente, é um animal dócil mas, quando se trata de defender a prole, fica tão fera quanto aquele deputado goiano. Tem como prato preferido o churrasco misto, que ele prepara na própria fuça.
O Basilisco – Lagarto nascido de um ovo posto por um galo e chocado por um sapo, o que explica o seu complexo de Édipo tumultuado. Com o auxílio de sua língua bífida, viscosa, ele passa a maior parte do tempo comendo moscas imaginárias. Sabendo-se que ele tem uma dieta sine matéria, o que ninguém explica é como o basilisco consegue eliminar tantos dejetos. Hércules, que já limpou as estrebarias de Áugias, certamente recusaria fazer faxina na jaula dele.
O Licorne – Animal que lembra um pequeno cavalo, embora dele se diferencie por um cavanhaque à la bode, uma cauda no melhor estilo rococó e um longo chifre no meio da testa. Adora ser montado por um pestinha, digo, um garoto em roupa de marinheiro. Demonstrando isso através de corcovos de alegria, dados antes e depois de fraturar o cóccix de seu pequeno cavaleiro. É proibido de participar de competições hípicas por causa de seu enorme chifre: vence todas, mesmo quando termina com um corpo atrás. Por detestar o milho, a sua alimentação é toda à base de pipoca, canjica, munguzá e papa de maizena.
A Esfinge – Alimária que tem cabeça de mulher e corpo de leão. Anda sempre com uma perguntinha enigmática na ponta da língua. Do tipo: o que é, o que é? De manhã está no PTB, de tarde no PMDB e de noite no PDS? Bem rápido, antes que ela abocanhe sua pessoa, responda à queima-guardanapo: Jânio Quadros.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O MAIOR ARTILHEIRO

O nosso país é habitado por 125 milhões de técnicos de futebol (1), sendo eu um deles. O que me credencia a emitir palpites e opiniões sobre o esporte bretão que um dia radicou no Brasil. 
Se me perguntam, por exemplo, quem é o maior artilheiro do futebol nacional de todos os tempos, eu não hesito em apontá-lo.
O maior artilheiro de meu país tem uma longa carreira futebolística. Só que, avesso ao estrelismo, ele é menos citado do que na realidade merece. O caso de dizer: vive no chão.
É disciplinado, jamais recebeu cartão amarelo, vermelho ou de outra cor. Não comanda à base do palavrão, não cospe no rosto do adversário e não faz gesto obsceno para a torcida rival.
Não mandinga, não faz cera, não simula contusão. E nem chuta - com raiva - a bola para as laterais. Em súmula, nada faz que comprometa o espetáculo do futebol.
Em campo, posta-se muito bem, a ponto de confundir a defesa antagônica. A forma física é única do primeiro ao nonagésimo minuto; ou, por mais tempo, se houver prorrogação.
Objetivo em tudo, não dá drible desnecessário. Intervém sempre à base do "bate-pronto", que é quando a bola fica dificílima para o goleiro.
E não é mercenário: fora o rendimento em campo não se interessa por mais nenhum. Se todo jogador fosse como ele o futebol brasileiro não estaria tão "estagflacionado".
Respeita ao máximo os princípios do torcedor "doente". O artilheiro jamais foi (nem será) um garoto-propaganda (2) em comercial de televisão para vender saúde (vitaminas) ou doença (cigarros) - cara e coroa do consumismo deslavado.
Explorando o fator surpresa, ele é simplesmente inexcedível na finalização de uma jogada. Sem exagero, ele já balançou as redes de praticamente todos os estádios de futebol do Brasil.
Pois bem! A esta altura do campeonato, presumo que uma coisa já tenha ficado fácil: levantar a identidade dele. É... o montinho-artilheiro (3).

(1) em 1982
(2) Pelé e Gerson
(3) in cauda venenum