sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

FITAS DE MÁQUINA

Não digo inseparável que é exagero, mas uma assídua companheira tem sido nos últimos anos a minha máquina de escrever. Pondo as palavras no papel, já tem conferido existência a contos, crônicas, clecs e poemas que, de outro modo, não fora ela, acabariam por certo caindo na vala do esquecimento. E, por isso, sou-lhe grato. Externando essa gratidão, via certas decisões inequívocas: não levar trabalho (literário) para o trabalho, não deixar a gravata enganchar no rolo da máquina, não aderir ao computador com impressora etc.
O fato é que comigo se passa o seguinte. Achar que um texto recém-concluído, desvirginando a brancura do papel, por si já se constitui um antegozo. Sim, porque o gozo propriamente dito dar-se-á apenas por ocasião da publicação. Ah, que bom se houvesse nesses casos a ejaculação precoce... Não ficando o autor à espera de uma publicação que tarda e, às vezes, nem sequer acontece.
Eis no que divirjo da poeta norte-americana Emily Dickinson: a publicação é parte necessária do destino de um escritor.
Mas, falando ainda da companheira, ela não é de ter muitas exigências. Quando apresenta algum defeito, disso se encarrega o especialista. No dia seguinte, lá estou eu com a máquina como se nada houvesse acontecido. Todo irrequieto, debruçado sobre ela, a escrever mil caracteres por hora. Esperem aí: mil é muito? é pouco? Não faço a menor idéia do que representa essa vazão datilográfica. Oscar Wilde se deu por satisfeito porque, ao longo de uma manhã, escreveu uma vírgula e, à tarde, a desescreveu.
Bem, nesse meu afã, somente uma coisa poderá me interromper. Haver chegado a hora de trocar a fita.
Meu Deus, como detesto o servicinho sujo! E fico a adiar o momento em que vou fazê-lo, mesmo sabendo que é apenas uma questão de tempo. Bater forte nas teclas ajuda um pouco, até certo ponto. Mas... quando a gente vai, descobre que tem de teclar duas, três vezes cada letra para que ela saia no papel, aí não dá mais. É fazer hoje o que devia ter sido feito ontem, anteontem... Meio parecido, aliás, com o que também acontece a meu violão. Apenas quando a pátina (gostaram?) já recobre as suas cordas, abafando-lhe o som, é que encordoamento novo ele recebe.
Máquina de escrever com fita nova está tudo resolvido. Não, não está. Por vezes, a fita substituta é tão ruim de tinta, que tudo continua como dantes. Com as letras sendo "anemicamente" impressas no papel, para desespero de quem, depois de tanta relutância, é que se abalançado havia a substituir a fita. Até que, consumidor logrado, sabem qual foi uma vez a minha reação? Escrever no ato um candente protesto ao fabricante - e com a fita de carregação ainda na máquina, esse o meu azar!... Porque o fabricante, obviamente, deve ter recebido a minha carta de reclamação... em branco.
E ficou o escrito pelo não escrito.

*****

Coube a um brasileiro, o padre João Francisco de Azevedo, a invenção da máquina de escrever. Idealizado e construído à mão por ele, este invento figurou na Exposição Agrícola e Industrial de Pernambuco, em 1861. Registro o fato porque muitos ignoram quem é o inventor e - mais ainda - que ele é brasileiro. Padre Azevedo, apesar de festejado em sua época pelo que fez, nenhum lucro material veio a auferir com o invento.
E a gente logo associa a máquina de escrever ao piano. Pois, como o instrumento musical, a máquina através de suas teclas produz uma espécie de música. Tlec, tlec, tlec... Só que bastante monótona a musiquinha, não acham? Uma tecla que aperto tem o som parecido com o da seguinte, assim por diante.... Máquina de escrever versus piano, eita comparação gasta e antiga! Na época de sua invenção, eis como a "Revista Ilustrada" já descrevia a máquina do Padre João Francisco de Azevedo:
"O sistema geral é quase idêntico ao dos pianos, isto é, por meio de um teclado, convenientemente adaptado, consegue-se transmitir ao papel os caracteres correspondentes, formando palavras, linhas, parágrafos, enfim, a escrita regular de uma ou mais páginas. O teclado está disposto em quatro pequenas carreiras, tendo cada tecla a indicação de uma letra; assim pois, tocando-se uma tecla, a letra correspondente vai imprimir-se num papel que envolve e desliza por um rolo no cimo do aparelho. Para a separação das palavras, basta tocar em uma pequena régua colocada ao fundo do teclado."
É... a máquina de escrever nem de longe tem os recursos do piano, instrumento que sola e harmoniza. Em compensação, ganha dele em materialidade. Pois, enquanto vou tlec-tlec-tlec solando, vou também com ela criando a própria "partitura".
Não fora assim, e pedindo vênia à minha "Olivetti" pelo que vou dizer, melhor seria compará-la a uma concertina de botão.

Publicado no jornal O POVO, em 07/01/92, e no livro MEDITAÇÕES

MEDITAÇÕES

Antologia de prosa e poesia publicada em 1991 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Patrocínio: UNIMED de Fortaleza.
Apresentação: Darival Bringel de Olinda.
Autores: Celina Corte Pinheiro, Caetano Ximenes Aragão, Dalgimar Beserra de Menezes, Francisco Medeiros, Francisco Monteiro, Geraldo Bezerra da Silva, Hamilton Monteiro dos Santos, Heládio Feitosa de Castro, Luiz Gonzaga de Moura Júnior, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Paulo Sérgio de Oliveira Moura, Pedro Henrique Saraiva Leão, Tarcísio Diniz e Walter Miranda.
Composição: Gláucia Saraiva.
Arte-Final: Renê Sales e Marcos Antônio.
Capa e Ilustrações: Roberto Alencar e Isaac Rocha (médicos).
Impressão: Gráfica HG.
Livro com 224 páginas.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O VENDEDOR DE ESTRELAS

Era mais um dia de tédio em Letícia, Colômbia. No restaurante do Hotel Anaconda, com o olhar pousado sobre o Rio Solimões, eu sorvia vagarosamente a quarta tulipa de suco de carambola. Contemplava o rio, seu eterno fluir na calha que a natureza lhe reservara, seu manto majestoso cor amarelo-tartaruga... De quando em vez, um boto na vadiação rompia o espelho das águas para quebrar a monotonia. Ou, então, levada de roldão pelo rio passava alguma terra caída - ilhota móvel de vegetação. Em Letícia imperava o tédio.
No cais fluvial, uns nativos tentavam meter uma robusta anta numa embarcação, a qual mais parecia uma Arca de Noé numa versão miniatural. (Mas não havia outros animais a embarcar, nem Noé.) Já bastante ferida pelos puxões imprimidos através das cordas, a anta ainda oferecia uma grande resistência. Homens e animais numa cena antológica. Depois de hora e meia de esforços inúteis, os homens deram um tempo. E entraram numa tasca onde rolavam estridentes cumbias e o estoque da "Costeña" era bom, generoso. No cais, ficou só a pobre anta inventariando os ferimentos.
Nisso, alguém me interrompeu nas divagações:
- Sr. Silva, Paulo G C ?
Bem, respondi que sim. Ao mesmo tempo em que deduzi o seguinte: ele catara o meu nome num catálogo telefônico. Em seguida, na qualidade de brasileiro cordial ainda não desnaturado pelo meio colombiano, eu lhe ofereci uma cadeira (para que sentasse, obviamente). Mas, ao fazê-lo, notei que ele sobraçava um imenso livro de capa sépia, de onde se desprendiam traças agonizantes. Percebendo também a sua intenção de abri-lo, pedi a um garçom que esvaziasse a mesa. Mas isso depois de conferir que o recém-chegado não desejava me acompanhar numa rodada de suco de carambola.
Ele então me deu, cuidadosamente dobrado num dos cantos, o seu cartão de visita. No qual se lia:

JAMIL BEN JAMIL
Vendedor de Estrelas

Mal refeito da surpresa que tão inusitada apresentação me causara, comecei a apreciar o homem que se dizia chamar Jamil Ben Jamil. De estatura mediana, ele tinha presumíveis qüarenta anos, tez morena, cabelos castanhos e mechados, lábios pouco carnudos e um queixo proeminente. Os olhos, bastante encovados, lembravam os de uma pessoa da qual se diz que chora mais cedo. Quanto ao nariz, sugeria ser ele (e por extensão o dono) natural da Ásia Menor. E furto-me a descrever o seu traje, uma vez que ele se vestia de um modo absolutamente comum para a região amazônica, o cachecol inclusive.
Ele era extremamente loquaz. E presto ao folhear o livro de capa sépia, imenso livro só de mapas estelares, tabelas de luminosidade, espectros, gráficos de distâncias, paralaxes - enfim, um catálogo estelar. Ao ritmo de seus dedos ágeis, meninos, eu vi aparecer e desaparecer no catálogo estrelas de todas as magnitudes. Enquanto ele ia dizendo, num fôlego único:
- Temos aqui a Alfa Centauro, uma estrela tripla a 4,3 anos-luz da Terra, mas se o senhor prefere uma estrela dupla disponho de Antares, que é uma supergigante, e se está querendo algo melhor vendo Sirius, a estrela mais brilhante do céu, a apenas 8,5 anos-luz daqui, ou mesmo Regulus, que se estivesse situada a igual distância seria um astro seis vezes mais brilhante...
Sem dúvida, Ben Jamil era um brilhante vendedor. E, para que ele não se esbaldasse em vão, prometi a mim mesmo que compraria dele algum barato celeste. Nem que fosse uma estrela cadente. Antes, porém, tinha curiosidades a matar. E lhe pedi que falasse um pouco sobre a sua profissão de vendedor de estrelas. Ben Jamil não se fez de rogado:
- Estou nesse negócio há mais de dois mil anos. Mas não me refiro a anos-luz, pois estes não medem tempo e sim distância. Pois, como eu ia dizendo, há mais de dois mil anos que montei esse negócio. Foi no tempo de Hiparco, o que organizou o Almagesto. No início, eu só vendia os corpos celestes das longínquas galáxias, as estrelas embuçadas para o olho humano quando nu. Até que, na centúria passada, cheguei às estrelas visíveis, de maior aceitação pelo público comprador. E se a estrela pertence a uma constelação zodiacal, então nem fala. A Beta da Constelação de Escorpião, por exemplo, comprou-me o Salvador Dali por uma quantia astronômica, uma dinheirama que só vendo...
Faltava apenas saber qual era a minha garantia numa transação estelar. Ben Jamil esclareceu:
- Recebe o certificado legal. Mais: uma estrela, assim que é vendida, ela se apaga no firmamento. E fica apenas o buraco negro, fácil de ser conferido num observatório. Eis como provo ao comprador a lisura de meu negócio. Então, Sr. Silva, Paulo G C , pode escolher e comprar sua estrela sem susto nem sobrosso.

*****

O vulgo, cada vez que olha para o céu e nele constata estrela de menos, que faz ele? Bota a culpa na poluição, "a feia fumaça que sobe apagando as estrelas". Até Caetano Veloso caiu na esparrela. Mas eu, não, pois sei quem responsabilizar pelo fato. Ben Jamil, o vendedor de estrelas, que prossegue fazendo seus bons negócios. Eu mesmo lhe comprei a estrela Epsilon do Cruzeiro do Sul que estava com o preço remarcado (para menos). A Epsilon, também chamada de Intrometida, é aquela quinta estrela mal posicionada (abaixo do braço da cruz), que compromete a Constelação do Cruzeiro do Sul. Pois é, tirando a Intrometida do céu austral, eu penso que dei a minha contribuição - estética - para o melhoramento de um dos símbolos da pátria.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O NOME DA COISA

Carolino era atendente num hospital psiquiátrico em Petrópolis. Moreno, atarracado, olhos amendoados, ele me auxiliava na visita médica aos pacientes. Mas não tinha lá muita instrução.
Uma vez lhe pedi o tensiômetro.
Como o aparelho não aparecesse, repeti o pedido. E ele... nada.
Aí, já estranhando a demora (por ser ele sempre muito solícito), enderecei-lhe um olhar inquiridor. A ver porque, em não estando tão atarefado assim, Carolino remanchava... Quando dei de cara com o atendente apalermado, o ar de quem não estava entendendo nada.
Foi preciso, então, que eu lhe explicasse:
- O aparelho de tirar a pressão, seu Carolino.
- Ah, bom.
Não sei como anda hoje o bom Carolino. Mas tomara que tenha evoluído na compreensão dos nomes do instrumental médico, a ponto de não fazer feio quuando lhe pedirem o... esfigmomanômetro.
Que, meio sobre o pedante, vem a ser também o tensiômetro.

No museu do Nirez tive a oportunidade de conhecer um rolo fonográfico. Tratava-se de uma peça cilíndrica, que tinha um registro musical, do tempo em que não existia o disco de cera. Com o advento deste, o rolo saiu de cena. Entre os vários motivos, por ser menos prático do que o disco. O rolo fonográfico, por exemplo, não permitia a feitura de cópias. Assim, cada um deles era gravado isoladamente, com o cantor e a orquestra se esfalfando por uma tiragem que não era lá grande coisa.
Pois bem, ganhando ou adquirindo (não recordo o detalhe) o tal rolo, Nirez precisou remetê-lo. do Rio de Janeiro para Fortaleza onde fica o seu inigualável museu. E, para tanto, procurou os serviços de uma companhia aérea bastante conhecida.
No balcão da companhia, por ser de praxe, uma funcionária pediu a identificação do objeto. E fez anotações.
Tempos depois, em Fortaleza, ao conferir a raridade que em boa hora conseguira para o acervo do Museu Cearense da Comunicação, Nirez se surpreendeu. Com o nome que constava no aviso de remessa desse objeto: rolo pornográfico.

Um matuto contava as suas proezas para uma turma da cidade. E a turma, achando aquilo pitoresco, de gravador ligado ia registrando tudo.
Finda a prosa, alguém resolveu conferir a gravação. Para espanto do tabaréu que, até então, não sabia que troço era aquele. E, por conseguinte, qual a serventia que o troço apresentava.
(Por causa de que antes não lhe haviam explicado, não é?!)
Ora, pois não é que o objeto era capaz de repetir, tintim por tintim, como fora cada um dos seus "causos"!
- Eita bichim enredeiro!
Foi como o matuto desafrontou a coisa.

Esta é de corredor de hospital. Um médico, numa roda de colegas, assegurava a existência de um aparelho capaz de dispensar a canseira dos estudos. Isso lá nos Estados Unidos. Onde o sujeito, durante as horas que estivesse a dormir, poderia receber do prodigioso aparelho toda a sorte de informação. Do assunto que quisesse e escolhesse, ao se conectar no equipamento. E que esforço mnemônico, por conta desse invento, passava a ser coisa do passado, meu irmão.
Bastava o usuário do aparelho, através de hot dogs colocados nos ouvidos, blá, blá, blá...
É claro que se tratava de um "cochilo" do contador de novidades. essa história de hot dogs nos ouvidos... Mas que ficou gozado, ficou. Principalmente porque deu margem a outro acontecimento, se bem que na base da adesão.
Alguém, assim que a roda se desfez, convidar os demais a ir à cantina. Para comer uns headphones.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

ALGARAVIA

UM PEQUENO CONTO ÁRABE
Era um desses albergues onde só vai dar o costado uma ou outra alma-perdida. Apesar disto, tomado de repentino e inesperado alento, Al-Cunha bateu na aldrava. E quem veio atendê-lo, após alongado tempo, foi o próprio dono da estalagem. Um albino de nome Al-Meida, o qual, aliás, se mostrou receoso em deixá-lo entrar. No máximo, o recém-chegado ficasse no alpendre e olhe lá. Mas, no que Al-Cunha lhe houvesse perguntado se tinha cara de aldravão, se aparentava ser algum escravo do álcool, se portava algum feio aleijão... "Alastrim" foi a resposta. Estava ocorrendo uma epidemia da doença na aldeia.
Ora, Al-Cunha atravessara terras alagadas, contornara despenhadeiros alcantilados, subira morros alcandorados, percorrera campos alcantifados... para agora estar ali, com o corpo alquebrado, a pedir o inadiável repouso... E o alojamento lhe era negado naquela... naquela aldeola. Sob o pretexto de que vigorava uma lei de quarentena assinada pelo alcaide - uma estúpida lei! Que não relaxava nem para o seu cavalo Al-Faras. Aí, para não aloprar, e mesmo porque as almorreimas já o incomodavam, ele continuou desapeado. E, na expectativa de que Alá interviesse em seu favor, até retirou o alforje da montaria.
Uma chuva começou a cair ensombrecendo o dia. E nada de se notar mudança no alvedrio do opinioso albergueiro - que inclusive gracejou: "A chuva... que há com a chuva? Do telhado ela cai no algeroz e vai se acumular na almácega, o que me garante por algum tempo água em abundância..." Ora, depois de receber tamanha alfinetada, a Al-Cunha só restava usar de uma aleivosia. Dizer a Al-Meida que era um mestre da aleuromancia (nome que os alfarrábios dão à arte de predizer por meio da farinha de trigo). Com esse tipo de charla, quem sabe, ele... Mas não chegou mesmo a ser preciso, entrou em cena Al-Merinda.
Alvíssaras! Pois a mulher de Al-Meida, metendo-se na altercação, conseguiu-lhe a hospedagem (não obstante o risco de o albergue vir a perder o alvará). E o cansado viajor, para compensar o incidente, foi a seguir recebido com um fino repasto. À base de almôndegas, alface (tornado mais palatável pelo azeite guardado numa almotolia) e alcaparras. Alfenim foi a sobremesa e, para rebater tudo, chá de alfavaca. Já Al-Faras foi deixado num terreno alambrado a se regalar com uma generosa alfafa. E um dedicado almocreve, por meio de uma almofaça, cuidou de limpar os pêlos da alimária.
Findo o repasto, Al-Cunha entrou na alcova que lhe indicaram. Mas, antes de se deitar, verificou se havia num alguidar água bastante para qualquer precisão. Feito isso, tirou as alpargatas. E, estirado numa alfombra, pôs-se a dorminhar com a cabeça sobre um almofadão. Até que... altas horas, após haver sido despertado por gemidos lúbricos, inevitáveis pensamentos lhe vieram à mente. Que espécie de algolagnia devia sofrer Al-Merinda para se entregar ao albergueiro e encontrar nisso prazer? Ainda mais que Al-Meida, a pele enfeada pelo que parecia um alvaraz, exalava o mais desagradável almíscar (que lembrava o de um aligátor).
Ah, Al-Merinda! Como ele desejou ter Al-Merinda em sua alcova, possuir aquele corpo alabastrino... E, por muito pouco, aquilo que ele almejava não se tornou realidade. Quando ela, pé ante pé, adentrou o quarto mal alumiado... E ele, mais que o vislumbre da sua aproximação, foi... sentiu-lhe o cheiro bom de alfazema. No entanto, Al-Merinda a ele não se achegou, em vez disso se dirigiu a uma alcofa onde se encontrava as vestes de Al-Cunha. E, pensando que ele dormia, pôs-se a revirar a algibeira do seu caso de algodão, aluindo assim a própria reputação.
Então, aos primeiros albores do dia, Al-Cunha decidiu prosseguir viagem. Só que, aliviado do porta-moedas por Al-Merinda, não haveria como ele pagar o almoço, o aluguer... E o alarde ficou por conta da feroz alcatéia que o dono da estalagem lhe botou no encalço. Com Al-Cunha, é claro, dando tudo de si para, como diz um provérbio de fino álbum, não bater a alcatra naquela terra ingrata.

Publicado em O POVO CULTURA, em 09/09/89, e no livro EFEITOS COLATERAIS

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

MOSCA NA SOPA

Comecemos por aquilo que contém a mosca, isto é, a sopa. A qual já se encontra bem na sua frente, servida em prato fundo. Apenas aguardando que você - com a fome dos diabos em que se acha - meta logo a colher. Hum... tem cheiro agradável, parece apetitosa e há tentadores pãezinhos na mesa para o acompanhamento. Comme il faut, diria o cronista mundano. E assim poderemos saltar a etapa em que você teria gritado:
- Garçom, o meu prato está molhado.
E ele:
- É a sopa.
Sim , você já se encontra depois do equívoco em questão. Quando já está prestes a sorver a primeira colherada de uma refeição que consagrou o Zarur. Mas aí... de um modo absolutamente frustante, você constata: uma mosca na sopa! Uma hórrida mosca que só Deus sabe dos monturos e de outros locais abjetos por onde andara (o inseto, bem entendido). Até que, num adejo não bem calculado, acabou sendo - como disse o Raulzito - a mosca que pousou na sua sopa. Nojo, asco, repulsa... Pensar que você jamais entra num frege-moscas, que só vai a restaurante limpo, bem administrado e com chêf (a quem manda recomendações ao se retirar satisfeito).
Então, diante do desagradável incidente, agora é chamar o...
- Garçom.
Mesmo sabendo que ele, para enfrentar uma situação dessas, dispõe de mais justificativas do que imagina a nossa vâ gastronomia.
Primeiro, ele pode querer negar o fato (apesar de que o fato está claro, óbvio, patente).
- Não é mosca, é o desenho do prato.
- Mas... como? Está se mexendo!...
- É desenho animado.
Segundo, ao invés de negar o fato, ele pode querer minimizá-lo dizendo que é apenas um mosquito... Rá, rá, rá, rá, aquela falsa premissa de que é somente um elefante que engasga o cliente. Terceiro, ele pode - mesmo que fique de ponta-cabeça a ordem natural das coisas - querer alegar que a mosca é que deu sopa. Quarto, pode o manhoso do garçom querer sopitar (epa!) você, com palavras do tipo "calma, mosca não come muito!" E por aí...
Agora, se ele é um cara verdadeiramente esperto, passado na casca do alho como se diz, é que o incidente vira... uma sopa no mel. Pois o garçom, a propósito de que o acontecido também promove a casa, eis que o dito-cujo certamente dirá:
- Ora, mosca também gosta do que é bem feito.
Vamos e venhamos: você não é mosca morta, mas o homem também não é sopa!
Dá para ver que ele faz um tipo imbatível na argumentação. Capaz de, entre outras proezas, pegar mosca a vinagre.
Por isso, o importante é você não perder o fair-play:
- Garçom, a mosca acaba de morrer afogada na sopa. Traga outra.
Que pode ser outra sopa, outra mosca... Ou, inevitavelmente, uma com a outra.

Publicada no jornal O POVO, em 07/09/90, e no livro EFEITOS COLATERAIS

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O BRASILEIRO CORDIAL

Dizer que o brasileiro é cordial é incorrer num mito. Para início de conversa, ele não tem consideração com o próprio corpo. E só porque um dia lhe cortaram o cordão umbilical, ele então acha que pode fazer tudo. Pôr o dedo na ferida, torcer o nariz, bater perna na rua, sacudir as cadeiras, emprenhar pelo ouvidos, dar a mão à palmatória, queimar os miolos, as pestanas etc. Inclusive fazer corpo mole.
Atire a primeira pedra quem ainda não levou uma facada do brasileiro! Ou, por causa dele, não haja se metido numa fogueira, segurado um rabo de foguete.... Sobre ter o calo pisado, idem. É, os outros que o digam. Pois o brasileiro, além de assassinar o Português, de gastar o Latim, vive arranhando o Inglês, o Francês...
(O demônio não é tão feio, mas quem o pintou, hein?)
O desprezo que ele tem pela ecologia! Do contrário, ele não amolaria o boi, não afogaria o ganso, não cutucaria a onça com a vara curta, não deixaria a vaca ir para o brejo... Ah, o "não matarás" não é para o brasileiro, que vive matando cachorro a grito. E a cobra (que ele mata para mostrar o pau) e os coelhos (que ele mata com uma só cajadada) sabem disso perfeitamente. Como os sapos que ele também engole. É pouco? Pois o brasileiro dito cordial ainda gosta de dar no couro e ficar por cima da carne seca.
Que vexador o brasileiro! Tenha vida ou não, um ser não existe para virar gato e sapato. E tirar o cavalo da chuva até que melhora a imagem do brasileiro. Porém, ao dar com os burros n'água, ele volta a danificá-la.
Vamos ver, agora, se a flora lhe consegue escapar. Bem, descascando o abacaxi, confundindo alhos com bugalhos, torcendo o pepino (de pequenino, meu Deus!), o brasileiro prova que não.
Para ser exato, nem as coisas inanimadas escapam à sanha do brasileiro cordial. Senão, vejamos:
Quem bate na madeira, malha em ferro frio, entorna o caldo e não deixa pedra sobre pedra? Quem rói a corda, morde a isca, põe água na fervura e arrebenta a boca do balão? Quem joga dinheiro pela janela, combate moinhos de ventos e queima os últimos cartuchos? O brasileiro, evidentemente. Que, achando pouco, ainda dá uma no cravo e outra na ferradura, atira no que vê e acerta no que não vê.
E existe mais o que dizer sobre o brasileiro. Que mata o tempo, a fome, a sede, sufoca a emoção, abate os juros, suja a barra, fura o combinado, engole as indiretas, esconde o jogo e torce o sentido das palavras: é muito cordialismo... faltando.
Ah, sim. Como se não bastasse tudo o que faz, o brasileiro de modo sistemático enforca a sexta-feira.

Crônica publicada em VIDA E ARTE, de O POVO, e no livro EFEITOS COLATERAIS

EFEITOS COLATERAIS

Antologia de prosa e poesia publicada em 1990 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Celina Corte Pinheiro, Geraldo Bezerra da Silva, Hamilton Monteiro dos Santos, Luiz Gonzaga de Moura Júnior, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Paulo Sérgio de Oliveira Moura, Pedro Henrique Saraiva Leão, Sebastião Diógenes e Tarcísio Diniz.
Composição: Glauco Sales e Irapuan.
Arte-Final: Glauco Sales.
Capa: Roberto Alencar (médico).
Livro com 130 páginas.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

MINHA HISTÓRIA

Teria oito, nove anos quando um jornal de Fortaleza publicou um poema de minha lavra. Por uns tempos circulei com um recorte do jornal, mostrando-o a todos que a mão alcançava. Na escola risonha e franca, então ninguém escapou. E as pessoas sabiam ser elogiosas, o peito era uma festa. Nele, ainda hoje ressoam aqueles acordes lisonjeiros!... Bem, eu não mostrei o recorte ao Agripino Grieco. Quem o verrinoso Agripino pegava pela proa, ficava depois (se já não estava antes) fazendo água. Com oito, noivo anos, eu não deixava nem que me limpassem as cracas!...
Eram verdadeiramente generosos os espaços dos jornais, mas a criança publicista parou aí. Aliás, hoje ressurge perguntando: que fim levou o recorte com seus versos? O recorte que guardava como a um cimélio... Se, distraidamente, o pus entre as folhas do Thesouro da Juventude (dezoito volumes), só um Theseu dos sebos poderá encontrá-lo. Mas, se o comeram as traças, que baita indigestão elas não tiveram!... Não, eu não vou procurar nas hemerotecas aquilo que foi a minha estréia literária. Primeiro, por não acreditar que afora o afetivo outro valor tenha. E, segundo, por ser uma tarefa a exigir paciência beneditina, qualidade que eu não tenho. No futuro, quem sabe, alguém que use um sofisticado detector de poesia infantil poderá fazê-lo. Com esta finalidade: censo das musas dos anos cinqüenta.
A quadra ginasial! Atravessei a quadra vidrado em Malba Tahan. Os contos orientais de Malba Tahan (pseudônimo do brasileiríssimo Prof. Júlio César de Melo e Sousa) tomaram conta da minha jovem imaginação. Imitando o mestre, tratei logo de arranjar um pseudônimo bem árabe. Era... está bem, como memorialista estou longe de alcançar Pedro Nava. O fato é que escrevi uns curtos contos em que o leitor, a todo instante, tropeçava em Maktub!, pela glória da Caaba e Inch'Allah! Eram lidos - com exclusividade - por um colega de nome Mesquita, no Colégio Cearense. (Que Allah, o Misericordioso, o proteja!) Em contrapartida, Mesquita me fazia ler - também com exclusividade - os contos dele. Outro regionalista árabe, com pseudônimo e tudo!
Um dia meti o pé na estrada da vida para a caminhada tirana. Da mochila, comecei a extrair as mais líricas imagens. Não contente com isso, ainda deambulei pelos céus e ainda deambulei nos mares, tudo em busca do lirismo. Era preciso cantar as raparigas em flor. O ar meio lorpa, versificando no quatro, quatro, três, três, eu ardia numa estranha febre. A febre causada pelo Sonetococcus brasiliensis, se engano não cometeu o esculápio que me socorreu. Mas, fiquei bom do febrão - com imunidade definitiva. E depois disso, por muito tempo, só quis saber da charada, da carta enigmática e do logogrifo. E do poema-piada, mas este quando estava na veneta.
Sobrevieram os anos verdolengos. Vestibular, Faculdade de Medicina, estágios, concursos públicos, plantões... uma canseira, meu irmão. Foram anos em que esqueci a Harmonia nos braços da Verdade, ou nos braços da Sósia da Verdade, sei lá... A bem dizer, eu não a esqueci totalmente. Em Fortaleza Oeste, montei casa para Euterpe. E com Euterpe o fauno se desenfadava de Bichat, Osler, Morgagni, Freud, a curriola esmeraldina. O leitor aqui me dispense de contar os encontros clandestinos com Euterpe, a musa que preside a Música. É assunto para outra ocasião.
De volta à Literatura, assumi para todos os efeitos ser um principiante. E comecei a escrever pensamentos, com a idéia de mais tarde reuni-los num pequeno livro. Um livreco a ser chamado "Pensamentos, Palavras e Obras". Depois, viriam os contos, as novelas e os romances, nesta ordem. Mas, o leitor repare no que há tempos disse um plumitivo de Pindamonhagaba: "Nos, os principiantes, devemos começar pelo princípio, pelo primeiro degrau; coisinhas leves, pensamentos; depois sonetos; depois contos e por fim novelas e romances." O azar do plumitivo foi comentar isso para Monteiro Lobato. E o autor de "A Barca de Gleyre", em carta para o confrade Godofredo Rangel (30/08/1909), registrá-la na íntegra. Com esta ironia final: "Ele andava com uma trena no bolso." Cáspite!
Mas, separando o escritor de um reles plumitivo, há também um detalhe crucial. O célebre estalo, como o que abriu a inteligência do Padre Antonio Vieira. Pois comigo aconteceu um fato que talvez me ponha na primeira categoria. Foi quando a escrivaninha do meu livre-pensar, não resistindo à pressão dos meus cotovelos, arriou com grande estrondo. Assim que me recompus, eu que antes só escrevia pensamentos de pequena voltagem, logrei a redigir a primeira crônica - de duas laudas! Fadiga da madeira, não vale, dirá um crítico de plantão. Está bem, mas foi o mais próximo a que já cheguei de um estalo de Vieira.
Agora, Carlos Augusto Viana, o editor do "DN - Cultura", me liga a cobrar (epa!) uma maior regularidade nas colaborações. E pede que eu saia do meu habitual estilo condensado, uma vez que me garante um bom espaço gráfico, coisa de mão-cheia. Sei não. Se, por um lado, prestigiando-me o autor de "Primavera Empalhada" me deixa em estado de graça, por outro, me põe um peso enorme sobre os ombros. O peso do empreendimento difícil. É que a vaca sagrada, donde tiro o leite (condensado) do humor, tem lá suas imprevisibilidades. Às vezes, estou no melhor da ordenha e a danada recolhe as tetas. E isto para não falar do pior. Quando ela escoceia o balde, derramando tudo.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

PENSAMENTOS

Eu não vou dar ouvidos à razão. A razão sempre tem razão.
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Nenhum homem pode manter, por muito tempo, uma aparência para o mundo e outra para si mesmo. Um belo dia sai de casa com as meias desiguais.
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Consulte seu coração. Ele é o tipo do oráculo doméstico que, muitas vezes, prevê coisas importantes embora - suprema ironia - falhe nos enfartes.
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Nossa vida é uma trama ininterrupta de subidas e descidas. Daí ser tão popular a montanha-russa.
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O caráter se manifesta nas grandes ocasiões. Festas a caráter, por exemplo.
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Tanto na solidão como em sociedade você poderá falhar. Só que, no primeiro caso, não surpreenderá rostos alegres.
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Primeiro, diga a si mesmo o que você deseja ser; depois, cresça e apareça.
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Muito cedo na vida eu tive de escolher entre a arrogância honesta e a humildade hipócrita. Aos boçais: adivinhem por qual eu optei.
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A felicidade depende, antes de tudo, de uma interioridade equilibrada, a qual não se consegue apenas aprumando o corpo.
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Bem-aventurado o que suporta com denodo a provação porque, depois de ter sido provado, o terno ficará irreprochável.
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Se você está de pé, bem ereto, não se incomode se a sombra estiver curvada. Sombra, às vezes, faz feio quando bebe.
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Aos que me picham: eu mostro onde tem muro para isso.
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Nenhum sofrimento ou provação é total... sem uma mãozinha do governo.
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Dor e prazer se acham tão próximo no ser humano que, às vezes, dá curto-circuito.
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Eu, que me queixava de não ter sapatos, soube de um crocodilo que morreu pela causa.
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Quem fica em cima do muro é caco de vidro.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A SENHORITA E

Meus amigos poetas escrevem versos apaixonados para suas mulheres e isto tem provocado queixumes em E, minha mulher, a qual espera de mim algo parecido. Entretanto, eu só escrevo humor. Aí, vejo-me numa situação semelhante ao lance por que passou o monge saltimbanco de uma historinha. Ele, por não saber compor música, poema ou iluminura para Nossa Senhora (como os outros da abadia), pôs-se a fazer piruetas em frente ao altar. "Heresia", gritaram todos. Mas Nossa Senhora considerou que o monge saltimbanco, com a sua exibição, simplesmente lhe fizera a melhor das oferendas.

Eis a minha oferenda para E, minha mulher. À consideração de seus olhos compassivos:

Quando conheci a então senhorita E foi como ganhar na loto. Ela fazendo quina e eu, terno (naquele tempo não havia a sena, por isso não lhe outorgo um prêmio maior). E nosso primeiro e inesquecível flerte se deu numa casa noturna que estava em voga. Lá, eu chegara cedo, pegara uma mesa estratégica e me encontrava já de copo à mão. A saborear o rum da imaginação, o gelo da indiferença, a coca-cola da alienação e o limão da realidade: os tais quatro elementos da cuba-libre. E a me entreter, que ninguém é de esponja, com o ato de fazer rolar um punhado de pitangas.
Nesse meu rum(inar), a senhorita E chegou de vestido branco. Toda vaporosa, em sua ânsia de subir aos páramos ela parecia ser contida pelo braço forte do amigo M. E eu, de imediato, achei-a um ser lunar como Diana, a Caçadora, mas não querendo aqui dizer que ela estivesse a fim de qualquer caça. Nisso, o amigo M se viu em dificuldades momentâneas. Como arranjar, naquela casa já lotada, uma mesa para ele e as senhoritas E e F. Então recorreu a mim. Eu tinha uma mesa, três cadeiras ainda vagabundas e a viril condição de empatar aquele jogo.
Mais: eu tinha um punhado de pitangas. O legado de outro amigo, meio sobre o bêbado, que estivera em minha mesa, dissera longas e más, porém que se retirara. Pois bem, foi só M arrastar F para o salão de danças que eu entrei em campo. De sola. Oferecendo pitangas à senhorita E que, açodada, as aceitou. Até então eu nunca havia comido pitangas... nem a senhorita E. De maneira que o flerte aconteceu sob a égide de um novo e diferente sabor. E entabulamos conversa. Na qual ficou provado que o conhecimento profundo é a última coisa necessária para uma conversa animada (obrigado, Beaumarchais). Depois disso, dançamos conforme os tangos e os boleros que a casa oferecia em seu cardápio musical. A ver se possuíamos ferormônios compatíveis.
Sim, OK, positivo, possuíamos. E a noite, negro corcel, com a ajuda do horário de verão, correu aos pinotes. Assim é que amanhecia, quando ela se despediu de mim com um beijo inesquecível, a dez polegadas do meu rosto por escanhoar. Como a senhorita E tinha namorado sob aviso prévio o máximo concessível era aquilo. Mas, ora, feita a primeira concessão todas as demais estavam feitas. Desde que eu controlasse o fauno viciado em mandrágora que me habitava. Enquanto isso, fosse ficando com o número de seu telefone - de fácil memorização. À prova de amnésia alcoólica, portanto.
Passamos a nos encontrar três, duas, uma vez por semana, a atração aumentando... Como se os nossos corpos fossem progressivamente imantados. Um dia, eu lhe falei de amizade colorida, e ela ripostou com casamento em preto e branco. Pedi tempo. Ainda não me sentia bovino bastante para entrar no rol dos homens sérios, se é que isso existe. Numa noite de isolamento, porém, após ouvir Chico Buarque cantar "O Casamento dos Pequenos Burgueses", entrei em parafuso. Tanta coisa tão linda, tão comovente, tão... sobre as vidas dos que tocam a sonata conjugal a quatro mãos!... E liguei para a senhorita E. Fui mais curto que um coice de porco, perguntando-lhe se uma antiga oferta continuava de pé. Continua, quero dizer, continuo - disse-me ela - mas acabo de cair... ao saber que você mudou de idéia. Pelo telefone ouvi o baque.
Em 84 o liberalismo dos costumes já se achava em franco refluxo. A ponto de o historiador A. Toynbee assegurar que o coroamento da revolução sexual seria a volta do ascetismo. Mas, diabos, em 84 o que ainda estavam fazendo aqueles homens, senhores respeitáveis, nas esquinas em que eu procurava praticar a arte da paquera? Seus carros, lembro bem, exibiam nos pára-brisas o indefectível logotipo do Encontro de Casais... Ah, eu enfrentava uma concorrência fortíssima e, mesmo assim, não os entregava às respectivas patroas. Isso e mais a música do Chico foram os empurrões para o meu "enforcamento", acredito.
Entretanto, antes de irmos morar sob o mesmo teto rebaixado de lambris, precisávamos tomar certas providências. O casamento civil. Fui contra que ela mudasse o nome de solteira, mas depois cedi. Porque ela precisava limpar o nome na praça para novos créditos. Pela frente, havia ainda os gastos com o casamento religioso: convites, decoração da igreja, reportagem fotográfica, bufê a quinhentos cruzeiros por pessoa... e o vestido de noiva. Que a senhorita E fez questão de que fosse assinado por um estilista famoso (a pincel atomico, emporcalhando a cauda do vestido).
À hora de jogar a grinalda, amontoaram-se as raparigas casadoiras. A senhorita G, saltando como a Hortência do basquete, foi quem pegou o ambicionado troféu. Mas, que eu saiba, até hoje morre de frio nas noites de julho. Concluída a recepção, era partirmos para a lua-de-mel num carro com latinhas amarradas na traseira (do carro). Aliás, nem seguimos esse super nordestino costume porque o veículo, com o escapamento semi-solto, já fazia barulho suficiente. A senhorita E queria praia e eu, sertão. E passamos a lua-de-mel na serra, com ela de ouvido grudado numa concha, apenas pelo contentamento de ouvir o marulho, registro o fato.
O casamento é uma espécie de terreno instável. Parafraseando Churchill, é a pior forma de relacionamento homem-mulher, salvo as demais que já se praticaram. E não existe uma fórmula exata para que dê certo. Mas se diz que ajuda a mútua renúncia. Por exemplo, nós vamos colocar cortinas novas na sala. Eu renuncio ao vermelho, ela, ao azul; na rodada seguinte, eu repudio o amarelo, ela, o marrom; etc. Até sobrar uma cor única, incontestável, para a euforia do vendedor que já considerava invendável uma cortina daquela cor... E, aos poucos, sem arrufos de parte a parte, alfaia-se a casa.
Hoje, nos une um amor puro, intenso e desinteressado. Mas ainda não recebi o dote.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

PONTO E VÍRGULA

Era uma vez uma Vírgula que vivia na página tal de um livro. Colocada entre duas orações coordenadas assindéticas, ela se julgava a mais infeliz das criaturas. E fazia da linha onde virgulava o seu muro das lamentações. Por algum tempo, pensou-se que o problema da Vírgula seria apenas inveja da Aspa (com a qual guardava certo parentesco). Pois a Vírgula tinha sido vista, em diversas ocasiões, a dizer coisas depreciadoras sobre a Aspa. Que esta, além de não botar os pés no chão, só servia para aspear gírias etc.
Pelas asperezas que eram endereçadas à outra, a invídia realmente acontecia. Porém, o que infelicitava a Vírgula era mais embaixo: um outro tipo de ressentimento. Uma paixão desmedida, cega e doentia pelo tal Ponto Parágrafo. Do tipo paixão não correspondida, uma vez que o Ponto nem sequer olhava para ela. Mas, espere aí... Pontuando a palavra "timidez", não padeceria ele de igual defeito?... Ah, a Vírgula se perguntava e não obtinha uma resposta convincente. O Ponto era um fechado em si mesmo.
Formavam-se rodas para discutir a situação da desolada Vírgula. O Travessão, como era do feitio, abria o diálogo:
- A Vírgula, hein? Vai de mal a pior... Precisamos ajudá-la nessas horas tão difíceis.
O Ponto de Interrogação:
- Concordo, mas como?
E o Acento Agudo (sempre respeitado pela agudeza das observações):
- Proponho uma assembléia geral extraordinária. Que decidirá o modus faciendi.
E reuniram-se todos sob a presidência do Til, a sua voz anasalada se fazendo ouvir por todo o miolo do livro:
- Companheiros, assim eu soube da pauta desta reunião designei para relator o Dois-Pontos. Ele que vai falar.
E o Dois-Pontos, um tipo pedante que tinha a mania de explicar o por acontecer, pôs-se a ler o relatório adrede preparado. No qual explicava, tintim por tintim, o que se passava. Da paixão da Vírgula à timidez do Ponto, sendo o xis da questão a falta de alguém que os aproximasse. "Assuma alguém a intermediação, senhor presidente, que a natureza fará o resto." Em seguida, o Asterisco, que era responsável por uma acreditada nota de rodapé, aproveitou para lembrar que "ninguém estava ali num livro de auto-ajuda. Mesmo assim, senhor presidente, sou a favor de que se indique alguém - nesta prosopopéia - para a ação proposta pelo relator."
- Eu...
Era a Reticência se apresentando para a nobre missão. Ora, como estafeta do amor a Reticência não emplacaria nunca, nunquinha. Podia-se apostar que continuaria tudo como dantes, quer dizer, nas entrelinhas... E foi prevendo isso que o atilado presidente da assembléia retomou a palavra:
- Estou pensando na Crase. Ela já tem experiência em estabelecer uniões.
Nisso, o Parêntese levantou uma questão de ordem. "Seria a Crase que une a preposição 'a' ao artigo definido 'a'? Ou, então, a que une a mesma preposição aos pronomes demonstrativos 'aquele', 'aquilo'? Eu pergunto, senhor presidente, porque... blá...blá...blá..."
E o Parêntese prosseguiu na digressão. Blá...blá...blá... Uma digressão tão comprida, tão infinda que fez a Barra dormir a sono solto, paralisando o serviço de taquigrafia da assembléia. Aí, diante da maçada, o Til encerrou a reunião (embora marcasse outra para as calendas gregas).
Entrementes que a assembléia malogrou, um sinal (que não se fizera presente na reunião) tomou para si resolver o falado problema. Ele já tinha uma larga folha de serviços prestados ligando palavras compostas, pronomes átonos a verbos, e, portanto, ser-lhe-ia também fácil promover a união do Ponto com a Vírgula. O leitor já percebeu que eu falei do Hífen, vulgo Traço-de-União. Sem muito nhenhenhém, o alcoviteiro do Hífen fez o trabalho completo. Não esquecendo nem mesmo de chamar o Acento Circunflexo para juiz de paz.
Casaram-se os sinais. E, na situação de marido e mulher, tomaram o nome de Ponto-e-Vírgula (olha o Hífen aí no ménage à trois!). Contudo, a felicidade deles não foi para sempre. Um revisor mau e cruel, os olhos de basilisco, surpreendeu-os em pleno ninho de amor - uma pausa prosódica inadequada! E, não sabendo patavina do acontecido, desfez a parelha antes que rodasse a edição seguinte.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

HOMEM & MULHER

O HOMEM DO CONTRA

Começa pelo signo, que é aquele dos peixinhos, um no sentido contrário do outro. Sua cor é a amarela. Em contrapartida, sua pedra é qualquer uma que incomode no sapato.
Seu prato favorito, o contrafilé, e sua bebidinha, o licor "Cointreau". No círculo de amizade, apenas se acham os contraparentes.
O medo que sente do mar. Para contrabalançar tentou a carreira na Marinha. Desistiu, porém, ao perceber que levaria tempo demais para chegar a contra-almirante.
Numa contradança, conheceu a mulher de sua vida. Era contramestra. Depois de avaliar todos os contras, topou o himeneu. Mas ainda não têm filhos por causa dos contraceptivos.
Nas horas de ócio, toca contrabaixo pelo prazer de estar nas contra-oitavas. Ou, então, lê livros e mais livros embora não passe das contracapas.
Rigoroso no ato de comprar, não admite ser logrado no contrapeso. No entanto, quando a mercadoria é de contrabando fecha negócio na contraluz, isto é, no escuro.
Não receia andar na contramão. Se flagrado, sorri contrafeito e enfrenta a multa com uma contraproposta. Quando necessário vai fundo na contravenção.
Periodicamente, sofre de uma contratura muscular que contraverte a lógica. Porque só experimenta alívio quando toma um medicamento contra-indicado.
E acha que os tempos mudaram para melhor, mercê dos contratempos. Está firme no contrapé. E, contra tudo e contra todos, crê na vitória definitiva do contra-senso.
Eis aí a resenha comportamental de um homem do contra. Um homem do contra em meio às contradições de sua época.

A MULHER DO PRÓXIMO

A mulher do lojista é de fechar o comércio.
A do estelionatário é uma falsa.
A do escritor não está prosa.
A do motorista é uma cheia de curvas.
A do teatrólogo vive a fazer cena.
A do jardineiro tem minhocas na cabeça.
A do lenhador é de lascar!
A do militar é uma parada.
E a do estuprador, coitada!

A mulher do cabeleireiro é uma cabeça feita.
A do maître é uma para quinhentos talheres.
A do surfista vai na onda dos outros.
A do metalúrgico é um mulheraço.
A do tipógrafo não dorme no ponto.
A do andarilho é um pedaço de mau caminho.
A do guarda-florestal vive na moita.
A do estivador tá com tudo em cima.
E a do gay nem vem que não tem.

LETRA DE MÉDICO

Antologia de prosa e poesia publicada em 1989 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Celina Pinheiro, Dalgimar Menezes, Francisco Medeiros, Geraldo Bezerra, Hamilton Monteiro, Icaro Meton, Luiz Alberto, Luiz Moura, Paulo Gurgel, Paulo Sérgio, Pedro Henrique e Walter Miranda.
Produção Gráfica: Geraldo Bezerra.
Livro com 150 páginas.

LER FAZ BEM AO ESPÍRITO

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

BRANCA DAS NEVES

Era uma vez uma moça de coração bom (frise-se isto) que se chamava Branca das Neves. Órfã de pai, mãe e ama-seca, ela vivia na companhia de uma senhora de estranhos poderes. Má Drástica, a que tinha os cabelos pretos como a asa do corvo. E que planejava, sem que Branca soubesse, arrancar-lhe o coração para substituí-lo por um "Jarvik-7". Para tanto, a senhora Má contava com um grande trunfo: a faca de ponta do terrível Gargamel.
Mas Gargamel era um boquirroto. Num porre de hidromel, ali por volta da "ônzima" caneca, ele foi, bateu com a língua nos dentes (embora não tivesse estes). A inconfidência de Gargamel, feito ondulação de trigal, propagou-se por todo o reino e todos tomaram conhecimento do plano da senhora Má. Branca das Neves também soube, mas ficou sem acreditar. Foi preciso que pessoas chegadas lhe mostrassem a guia de importação do "Jarvik-7", logo após surrupiá-la de Má Drástica.
A moça Branca ficou apavorada. Se a idéia de vir a ter um coração novo, de plástico mais alumínio, já a inquietava, imagine a de viver atrelada a um trepidante compressor... Era de tremer nas bases. Defendendo o recôndito, passou a usar um califom reforçado em seus passeios na floresta. Com isso, o dia "D" que chegasse.
Numa tarde sépia de outono, Gargamel levou Branca das Neves a um passeio na floresta. Tinha a ordem da senhora Má para arrancar o coração de Branca, mesmo sem anestesia local. Era o dia "D". Então, mata adentro, os dois caminharam durante muito tempo. Chegando a uma clareira, Gargamel consultou o seu relógio "Seiko-No-Iê" a ver se já era a hora "H". Era. Mas nisso, Branca das Neves levou Gargamel a um passeio no talão de cheques. E por 3$800 teve a vida poupada. A bem dizer, o "Jarvik-7" era só uma encenação de Má Drástica. Depois de sacado o coração, Branca não teria direito a reposição nenhuma.
De poder do cheque, o velho garga teve outro rasgo de generosidade. Levou Branca das Neves para a proteção dos 7 Dwarfs.
Vivendo no coração da floresta, os 7 Dwarfs ganhavam a vida raspando as paredes de uma velha mina abandonada, onde o fisco de Má Drástica não os alcançava. O grupo participava da chamada economia subterrânea do reino. Pois bem, os 7 Dwarfs quando Gargamel os procurou, para que protegessem Branca, foram todos concordes. Afinal, o veio da pirita (ouro dos tolos) já chegava ao fim, a moça pagava uma boa taxa de homizio etc. Dava até para mudar de ramo.
Com os 7 Dwarfs, Branca das Neves viveu dias e (ah!) noites felizes.
Mas, um dia, numa consulta de rotina ao "Jiló-500" (misto de computador e penteadeira), a senhora Má descobriu que Branca estava viva. Viva e chutando! Furiosa, chamou Gargamel à presença, passou-lhe uma descompostura total, e ordenou-lhe que fizesse o serviço de fato. Ou do contrário... (Nisso lhe mostrou o "Jarvik-7" que, coincidência ou não, bateu mais forte quando viu Gargamel.) O velho Garga não era mais besta. Já não havia sacado, por insuficiência de fundos, o cheque de Branca, mas o coração dela haveria-de... E foi à luta. Mas antes, para dobrar o poder ofensivo, aliou-se ao superterrível Gargabelha, que ao invés de mel comia abelhas.
Avisada sobre a aproximação dos facínoras, Branca vestiu os 7 Dwarfs de samurais e disse-lhes que cumprissem o mátrio dever. Antes, porém, fê-los passar um dia inteiro assistindo a um filme do A. Kurosawa. Não deu certo. Sem tirar nem atirar, os 7 Dwarfs fizeram que nem o capitão Astiz nas Malvinas. E assinaram a rendição incondicional. Pois era a oportunidade de ouro de se livrar de um matriarcado que já estava cansando.
Quando o fim de Branca parecia inevitável, surpresa geral. Gargabelha e Branca descobriram, à primeira vista, que haviam sido feitos um para o outro. E juntaram trapos e chicote para uma saudável relação sadomasoquista. Quanto ao pobre Gargamel, posto a escanteio pela evolução dos fatos, também não teve sorte madrasta. Foi cercado pelos 7 Dwarfs, com estes alegremente cirandando e cantando:

Gargamel, ô Gargamel
O teu lugar tá garantido
Lá no céu.

E Gargamel caiu no pagode. Afinal a festa era também para ele.
E todos dançaram a mais não poder na noite luarenta. Por isso, não deram tento a uma figura sinistra que, do alto de um carvalho, a todos espiava. Um corvo que tinha as asas pretas como o cabelo da Má Drástica. E que só dizia: Never more... Never more...

domingo, 13 de janeiro de 2008

EM CARTAZ

SAGA "Z "
Produção franco-italiana de 1974. É a história de uma expedição ufo-arqueológica cujos membros divergem nos objetivos científicos. Na trama do filme, passado, presente e futuro se entrelaçam, com o passado levando vantagem nos jogos de azar. Inicia-se a aventura. Ao explorar uma ilha vulcânica, o grupo expedicionário é tenazmente envolvido por uma estranha nuvem verde. De gafanhotos, descobre-se. E ficam sem legumes no resto da expedição. Conhecem um viajante do futuro que se veste como um troglodita (griffe Piere Ug), mas que usa uma obsoleta arma futurista, o porrete a laser. Um flash-back mostra o viajante em seu melhor desempenho. Ele livrando a Saga "Q" (produção franco-italiana de 1969) das garras dos vulcanos, os adoradores do deus do Vulcão. Mas a Saga "Z" é mesmo o ômega. E, por uma questão de adicional noturno, não fecha contrato de proteção com o viajante do futuro. Não contando com o braço armado do personagem-tranchã, e também enfraquecida por dissensões internas (6 ufos x 6 arqueos), a Saga "Z" é presa fácil dos vulcanos. No final, um a um, seus membros são lançados pelos captores na cratera do vulcão. Porém escapam porque a caldeira estava quebrada.
ATÉ QUE A MORTE NOS UNA
Produção germânica de 1968. Depois de comover meia Alemanha (mais do que isso seria comoção internacional), o drama do casal Witz recebe enfim um tratamento cinematográfico justo. Ei-lo: Claus E. Witz e sua mulher, Helga, formam um par que vive às turras. Um dia, após uma acalorada discussão em que Claus chama Helga de ânfora etrusca, resolvem tirar férias conjugais. Em locais que facilitem o reencontro futuro. Assim, ele vai para o Pólo Sul, ela, para o Pólo Norte. Apesar da dubla-bla-blagem que prejudica o filme, dá para ver como acaba. Claus compra um navio quebra-gelo polonês, de segunda mão, onde instala um cassino. E termina seus dias jogando paciência. Já Helga tem sorte diferente, o que não quer dizer melhor. Arranja emprego de foca correspondente do "Ice News". Mas morre ao querer documentar na íntegra uma aurora boreal. De fome e de frio. Com cortes nas cenas que interessam a Onã, o filme é recomendado a cursilhistas hesitantes.
JOPLIN, A LIBERADA
Produção norte-americana de 1955. No dizer geral, Joplin é a viúva de um militar que morreu no front. Com a morte do marido, ela procura levar uma vida não reprimida dando gritinhos primais. A guerra ainda não está terminada, pois falta uma caneta-tinteiro para que assinem a rendição. Aparece. A Alemanha é uma grande massa falida, o que deixa Joplin também muito pobre. Em má hora, ela aplicara toda a sua fortuna em marcos e só o Plano Marshall pode salvá-la. É quando surge dinheiro novo no toucador de Joplin, colocado (dizem...) pelas mãos obsequiosas do próprio Marshall. A seguir, a viúva abre um sex-shopping. É antológica a cena em que ela aparece recrutando clientes na fila do gargarejo dum teatro de revistas. Apaixonada por um fetichista que conhecera numa tinturaria, Joplin casa-se novamente. Mas a viúva não é viúva. Porque aparece o primeiro marido, que simplesmente não morrera no front. A bem da verdade, ele estivera o tempo todo escondido na retaguarda. Joplin, claro, não aceita as desculpas de que ele seria uma reserva moral da América. Por isso, mal o poltrão termina de aparar a volumosa grama do jardim, Joplin o enxota. Mas, antes, lhe dá uns poucos marcos para que recomece a vida na Alemanha destruída.
A LEI DA SELVA
Produção anglo-angolana de 1983. K. Hey é o zarolho capitão de um barco que singra anarquicamente um rio d'África. A bordo, vão também John Stuller, detetive particular, e Linda, sua lânguida esposa. Em quantidade de crimes desvendados, John perde feio para a esposa. Até no caso do canivete suíço que Linda... Bem, assistam com outro ingresso. No meio da viagem, estabelece-se uma discussão sobre o destino a dar a uma cobra fluvial que o capitão apanhara. John tem a idéia de empalhá-la, Linda, de devolvê-la ao rio após aplicar na cobra um nó górdio. É que Linda cultiva o gênero sádico-ecológico. O capitão fica de dar o voto de minerva no dia seguinte. Mas não existirá o dia seguinte para John e e Linda. À noite, a alimária promove uma devastação a bordo, livrando apenas a cara caolha do capitão. K. Hey e a cobra são bons amigos, e despedem-se com um "até à vista". E subentende-se que os pertences do detetive e da mulher integrarão, daí para frente, o patrimônio do capitão. É a lei da selva.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

AS COROAS DE APOLO

Foi fogo conseguir uma entrevista com Apolo. "Hoje é equinócio, não posso faltar com os astrônomos, tenho também que presidir uma mesa-redonda sobre mastectomia radical, puxa, é justamente na hora do lançamento do livro do Carneiro Portela, a menos que o recital do Pavarotti seja adiado, mas aí tem a reunião do Clube dos Charadistas, ou eles me matam..." Apolo tinha sempre desculpas, quíntuplas desculpas. Mas, o o que eu poderia esperar de alguém que é, ao mesmo tempo, deus da luz, da medicina, da poesia, da música e da arte da adivinhação? De alguém, enfim, mais acumulador de encargos do que Ulisses do Brasil, o nosso tri-morubixaba? Só poderia esperar que esse alguém, o super-ocupado deus grego, ficasse por muito tempo procastinando a entrevista, transferindo-a para as calendas gregas. Mas um dia, mercê da insistência, Apolo concordou em me receber para uma individual. Fui pensando, no caminho, em quão diversificada seria a entrevista. Na pauta, além da música, havia poesia, medicina, economia, astronomia etc. Entretanto, quando me vi com Apolo, o faro jornalístico me fez logo abandonar a pauta (despautério?). Para centralizar a tão aguardada entrevista nas duas coroas que cingiam o quengo apolíneo. E que não lance mão delas o leitor aventureiro, a menos que...

A entrevista
- Qual o significado dessas duas coroas?
- Significado afetivo.
- Por favor, explique.
- As duas coroas - uma de louros e a outra de jacintos - simbolizam as grandes paixões de minha vida, Dafne e Jacinto.
- Dafne e Jacinto? Quem são?
- Dafne foi uma ninfa a quem amei perdidamente. Eros, em suas reinações, me flechou com a seta do amor, a que tem a ponta de ouro; e flechou Dafne com a seta do ódio, a que tem a ponta de chumbo.
- Era uma paixão sem reciprocidade?
Era, e eu perseguia Dafne por todos os lugares. Até que um dia, para se livrar de meu assédio, ela se transformou num loureiro.
- Por isso, usa essa coroa de louros?
- Só que, em meu caso, são os louros da derrota...
- Noto que também usa louros na cítara, na aljava e...
- Sou um apologista do loureiro. Suas folhas aromáticas dão um excelente tempero.
- E Jacinto... quem foi ele?
- Um jovem que eu também amei. Jacinto e eu fazíamos um par na base do só-vou-ao-Monte-Parnaso-se-você-for. Mas, quis o destino que eu o atingisse com um disco de arremesso, m-o-r-t-a-l-m-e-n-t-e.
- Jacinto morreu por suas mãos?
- Nas aparências. Pois até hoje eu desconfio das mãos invisíveis de Zéfiro.
- Zéfiro, o Vento Oeste?
- Sim. Suspeito de Zéfiro, de seu ciúme tresloucado a ponto de desviar o disco para a testa de Jacinto.
- E Zéfiro também amava o efebo?
- Soprava por aí. Mas Jacinto, se bem o conheci, não era de andar com esse vento na popa.
- Jacinto morreu em suas mãos. Sendo você o deus da medicina não pôde salvá-lo?
- Bem, eu fui impotente para restituí-lo à vida humana. Então o transformei em jacinto, uma flor lindona.
- E com jacintos compôs a sua segunda grinalda?
- Sim, porém com estão esmaecidos!
- Concordo.
- O que me faz pensar que Panacéia tinha razão...
- ???
- Quando dizia que Jacinto andava meio aidético.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O SEGUNDO

Perguntem a um estudante do curso secundário qual o ponto culminante do globo terrestre. De imediato, ele responderá: o Monte Everest. Agora, perguntem a ele qual o segundo. Não saberá. E não saber nomear o segundo ponto culminante do planeta não atesta, necessariamente, a falência do ensino secundário no Brasil. As pessoas em geral não se interessam pelo que vem logo depois do primeiro. O segundo, seja fato, coisa ou pessoa, costuma ser solenemente ignorado.
Não sendo poço (nem pico) do saber, compulso um relevante livro de Geografia. No qual encontro a resposta para a pergunta que embaraçou o estudante. Ei-la: é o Monte K2 da "kadeia" do Karakoram, no "Pakistão". Pronto! O estudante agora fica bem afiado e, na hora "K", não vai mais errar de montão. Já o Monte K2, com seus 8.611 metros de altura, é a prova sesquipedal de um infortúnio. O de ser o segundo, seja lá no que for.
Na guerra, para dar outro exemplo. O do recente toma-cá-retoma-lá que aconteceu com as "Falkinas". Valeu para a Argentina terminar em segundo lugar? Claro que não. Principalmente, quando o primeiro ficou para um leão. O Leão Britânico, cuja voracidade é por demais conhecida. No fim, passado o porre cívico (porre etílico para o general usurpador), aos hermanitos restou o quê? Um estropiado segundo lugar, felizmente tornado menos penoso pelo reencontro com a Democracia.
E ser o segundo na política? Companheiro de luta, pois sim. Basta o primeiro botar a mão no cargo em disputa para o segundo passar a ser visto com maus olhos. Também pudera! O segundo, por menos ambição que tenha, o tempo todo vive sonhando com ser o primeiro. E com abrir a altanada porta que leva ao poder, onde permanecerá enquanto puder. Mesmo que isto signifique perder a essência de ser, ora bolas, o segundo. Abaixo os desagradáveis prefixos vice, sub e que tais!
Numa ocasião, Luís Fernando Veríssimo falou que o segundo tem a solidão do poder, sem o poder. É compreensível, portanto, que ele almeje a solidão do poder, com. E queira trocar os bastidores pelo proscênio, ainda que a troca aconteça no último ato. Dou por fé. Os olhos do segundo refulguram quando ele, da boca do primeiro, ouve a palavra mágica: desincompatibilização.
Mas o segundo pode simplesmente esperar pela chamada solução biológica, como fez um político nordestino. Substituto que era, apenas esperou pela morte do titular da cadeira senatorial. E deu que, para contentamento do cujo, não se delongaram as parcas. Foi manchete da época: MORRE SENADOR BIÔNICO, ASSUME SENADOR OBITÔNICO. Agora, fazer despacho (no sentido umbandístico da palavra) também ajuda. Mas, o mais eficaz é soltar os marimbondos de fogo sobre o titular do cargo. E, depois, é só ficar aguardando, ao pé do rádio, o boletim "tancredológico".
Nos esportes, ser o segundo significa muitas vezes quebrar a cara. Numa luta de boxe, por exemplo. Não consola, mas é no pugilismo (se acontece o tal beija-lona) que o segundo é socorrido por outros... segundos. Entretanto, há esportes outros, considerados bem menos radicais, em que a situação do segundo é bastante suavizada. Numa corrida de carros da Fórmula 1. O segundo sobe ao pódio, bebe da champã e ainda contabiliza seis pontinhos. Meu Deus, nem a Fórmula 2 oferece tanto!
E, finalmente. Sabe-se da numerologia que a movimentação do 1 (unidade) é que faz aparecer o 2 (dualidade). Ambos são as polaridades do ser, o primeiro ritmo. Um-dois, um-dois, um-dois. Para haver o ritmo tem que existir o dois. Mas, se periga a existência do primeiro, quem "dança" antes é o segundo. Dois-um, dois-um, dois-um. Como na anedota: Viam-se dois compadres perseguidos por uma onça, faminta de não sei quantos dias. Quando, perdendo ambos terreno para a fera, um deles vai, grita: "É inútil. Jamais conseguiremos correr mais rápido do que a onça." No que o outro responde: "E quem disse que eu estou querendo correr mais rápido do que ela? Estou cuidando apenas de não ser o segundo do compadre."
Vingança de segundo... bem, o segundo às vezes é gozado. Quando chama o primeiro de penúltimo.

domingo, 6 de janeiro de 2008

FÓSFOROS

Um fato intrigante, e que não livra a cara de sociedade alguma, é a enorme quantidade de maridos que somem de casa para sempre. Outro, é que os sumiços quase todos apresentam um ponto em comum. Os maridos saíram de casa pretextando comprar fósforos. Em minhas lucubrações, não afasto a possibilidade de que uns poucos estejam a zanzar por aí, cumprindo um percurso de algum Plano Cruzado roteirizado por Kafka.
A maioria, contudo, encontra-se em algum local bem distante do ponto de desaparecimento. Numa região, geralmente soalheira, onde ninguém os conhece. Digo mais: onde ninguém os julga, já que no presente estão a viver com novas caras-metades. Os especialistas atribuem essas peripécias à andropausa (nesta síndrome, mulher nova, bonita & carinhosa é elixir da juventude). E os franceses, ao dêmon de midi, o diabo que se insinua na alma do homem cinqüentão, com o fito de promover as chamadas uniões entre o Outono e a Primavera.
Existindo ou não o diabretes, o desertor conjugal só veio a surgir, a meu ver, após aparecer a caixa de fósforos. Antes, havia a poligamia, o sadomasoquismo, a inversão, o fetichismo, o bestialismo e mais um monte de práticas sexuais com nomes em latim. Mas marido fujão, não. Surgiu, como eu já disse, com o advento da caixa de fósforos. A seguir, inflamando um coração entediado aqui, outro acolá, a utilitária caixinha deu no que deu: transformou-se num dos clichês da época atual. Um fado que não vislumbro para o isqueiro descartável, por exemplo.
Longe de mim a pretensão de ser um experto em mitologia grega. Mas bem que a caixa de fósforos se parece com a caixa de Pandora. (Epimeteu, o primeiro homem, detinha uma caixa que encerrava todos os bens e todos os males. Até que Pandora, a primeira mulher, tomada por uma curiosidade que só vendo, em dia de bode-preto resolve abri-la. E espalha todos os bens e todos os males por esse mundo de meu Zeus. Mas, reza a lenda, que no fundo da caixa ficou a esperança.) Tudo muito encaixado, não é?! Se Jung baixasse neste parágrafo, com certeza ele exclamaria: "Mein Gott, onde eu estava que não descobri este arquétipo?!"
Atenta ao fenômeno, a sociedade psicanalítica "Freud é Amor" exaustivamente o tem estudado. A ponto de fissurar várias de sua melhores caixas cranianas. Todavia, valeu pela conclusão a que chegou: "O indivíduo que abandona o lar assim procede por se considerar, a si próprio, um palito riscado. Ou seja, um sujeito sem valor. Daí, como ponto de partida da viagem que o leva ao Xangri-lá, o recorrer a uma caixa de fósforos COM PALITOS NOVOS. Sem ela, pois, não há o rito de passagem. Mas é bom não esquecer as passagens de primeira."
Conferindo esses foros aos fósforos, a "Freud é Amor" ficou de novo prestigiosa. Pois: fim daquele demoroso revertério que se iniciara por ocasião do episódio Melanie Klein (revoltada com a bolinação, Melanie se apartara da "Freud é Amor" levando justamente o seio bom). Era a colenda sociedade outra vez se fazendo de depositária do fogo prometéico. Para, não sem razão, incendiar os canaviais da psicanálise. Findo o rescaldo, um crítico da "Freud é Amor" era um penitente. Um deles, inclusive, chegou a sugerir numa cápsula do tempo fosse colocado o memorável pronunciamento. Junto com os palitinhos utilizados na fase deliberativa.
Na cápsula do tempo, eu também colocaria a opinião de Antonomásio, um amigo. "O marido fujão é alguém que se acha a fim de perder a cabeça." Como os fósforos.

SOBRE TODAS AS COISAS

Antologia de prosa e poesia publicada em 1987 por CMC / SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Celina Pinheiro, Dalgimar Menezes, Emanuel Carvalho, Francisco Medeiros, Geraldo Bezerra, Hamilton Monteiro, Helvécio Feitosa, Icaro Meton, João Wilson, Luiz Alberto, Luiz Moura, Marigélbio Lucena e Paulo Gurgel.
Produção: Geraldo Bezerra, Luiz Moura e Paulo Gurgel.
Projeto Gráfico e Revisão: Geraldo Bezerra e Paulo Gurgel.
Composição: Jeferson Lima.
Diagramação, Montagem e Arte Final: Geraldo Bezerra e Manuel Martins.
Livro com 138 páginas.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

DIÁLOGO DE MALUQUETES Nº. 2

ELE - Tchau.
ELA - Tchau.
ELE - Bem que tentamos.
ELA - É. Tentamos.
ELE - Mas, com esta escassez de padrinhos que atravessamos...
ELA - E que ninguém sabe quando vai acabar...
ELE - Não íamos conseguir...
ELA - É. Não íamos conseguir mesmo.
ELE - Montar balcão de noivos ficou difícil.
ELA - Super difícil.
ELE - O casamento é hoje uma instituição agonizante.
ELA - Por isso...
ELE - Só as praças que fizemos: João Pessoa...
ELA - João Pessoa... Aquela senhora, lembra?
ELE - Ih! Aquela senhora que cheirava a patchuli...
ELA - A tal. Ela quase topou ser madrinha.
ELE - Quase. Pois você... hein?...
ELA - Que que houve?
ELE - Houve que a convidamos. Aí, sem mais aquela, você pediu da senhora patchuli um faqueiro de 96 peças. Que facada!
ELA - Padrinhos dão bons presentes.
ELE - Devagar com o talher. Ela não estava sendo convidada para ser fada-madrinha. Para madrinha, apenas.
ELA - Em Salvador, foi sua vez.
ELE - Minha vez? Minha vez, como?
ELA - O amigo que arranjou no "Solar do Unhão".
ELE - Padrinho por vocação. Fez o teste e saiu-se muito bem.
ELA - Muito bem, num teste vocacional "micha" que só... Houvesse ao menos reparado no coração dele.
ELE - Era safenado?
ELA - Era safado o homenzinho. E tinha um coração mais duro do que um ovo de piquenique.
ELE - Ah, diz sem fundamento.
ELA - Digo com. Nas noites de lua cheia, ele fazia sacrifícios humanos. Que acha de alguém assim?
ELE - Esqueça. Tínhamos o Rio de Janeiro pela frente.
ELA - Rio... Aquele par animadíssimo que conhecemos no... no...
ELE - No "Trocadero".
ELA - Pelas tantas, com eles já apalavrados para padrinhos, você foi, desconversou. Taí, fiquei sem entender.
ELE - Eram aficionados pelas culturas grega e francesa.
ELA - E daí?
ELE - Quase nos estrepamos.
ELA - Verdade? Estou sem maldar.
ELE - Cultura grega... cultura francesa... Era tudo gíria de swing, percebe agora?
ELA - Ah, sim. E o casal que conhecemos em Sampa?
ELE - Livro a cara da mulher, mas o homem era um pernóstico.
ELA - Tivemos uma noite agradável no "Terraço Itália".
ELE - Tivemos, isso sim, de suportar aquele monografista. Com Guerra do Ópio a noite toda... até nos dar sono.
ELA - Cultura também é cultura.
ELE - E as retificações dele?! Na hora do tin-tin...
ELA - Aliás, chin-chin.
ELE - Porque chin em chinês significava felicidade. O pedante...
ELA - Ainda acho que a sua antipatia por ele foi gratuita.
ELE - Gratuita? Eu paguei sozinho as despesas no piano-bar.
ELA - E se depois houvéssemos esticado a Floriano Lopes?
ELE - A Floriano Lopes, Santa Catarina, em busca dos espécimes?... Qual! A crise de padrinhos é nacional.
ELA - Então, com os proclamos já vencidos...
ELE - Desmarcamos o casamento.
ELA - E agora, José?
ELE - Agora é enfrentarmos o falatório...
ELA - O diz-que-diz...
ELE - Com uma só versão, concorda?
ELA - Em princípio.
ELE - Você é alérgico a cravo de lapela, eu, a flor de laranjareira. E, por isso, não nos casamos.
ELA - Boa.
ELE - Descobrimos estas idiossincrasias na lua-de-mel.
ELA - Peraí. Não vou admitir que houve lua-de-mel.
ELE - Mas é somente para o público interno.
ELA - Não.
ELE - E para meu ego, pelo menos?
ELA - Bem... Assim foi se assim lhe pareceu.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

AS LÉRIAS ESTÃO DE VOLTA

O SOL É A TESE, A LUA, A ANTÍTESE
E o eclipse é a síntese.
DILUIR, DILUIR
Quando não se consegue apagar.
"DISGUSTING"
Conforme a quantidade de discursos um banquete pode ser maçante ou... massacrante.
QUEM AMA A TODOS
Gasta uma fortuna em motel.
DA ARTE DE CORRER COM A SELA
Cogito, ergo "sumo".
DESPERDÍCIO
É o próprio exemplo do esperdício.
QUANDO O CÂNCER FOR CEM POR CENTO CURÁVEL
Que bela metáfora teremos perdido!
ANTE UMA MULHER DE (MUITAS) CURVAS
Não há homem reto.
O INDIVÍDUO NÃO SE SUBMETA AO COLETIVO
Especialmente se tiver dinheiro para o táxi.
QUE FAZEM AS NAÇÕES BELICOSAS DURANTE A GUERRA FRIA?
Esquentam os músculos, ora ora.
DEUS?
O céu é seu recado azul.
DEUS!
A autoridade máxima em "faça-você-mesmo".
O DIA DE NÃO SE LER JORNAL
Terça-feira. Sai com material de segunda.
ECOS DE 30
Carmen Miranda com seu turbante de natureza morta.
DESENROLA-SE
Uma eterna luta: entre o Bem e a Indiferença.
PIANISTA DE "SALOON"
Executa rápido. Senão é executado, idem.
"LA NAVE VÀ..."
(Mas antes) deitar carga ao mar é preciso.
NO TERRENO DA HIPÓTESE
Eu só acampo. Nele tudo é provisório.
POETANDO A "TREIS" POR SEIS
Ah, esse tempo nublado provocando indecisão nos girassóis!...
O ESCOCÊS, QUEM DIRIA...
Cria-se agarrado à saia do pai.
SOLTARIA MEUS DEMÔNIOS, SIM
Se tivesse a certeza de que eles bem se haveriam por aí.
E A GUERRA ACABOU
Podemos em paz matar os feridos.

domingo, 30 de dezembro de 2007

DIÁLOGO DE MALUQUETES, Nº. 1

ELA - Lembra como nos conhecemos?
ELE - Lembro. Foi numa churrascaria...
ELA - Numa churrascaria de subúrbio que tinha roda de samba.
ELE - Você, hein?... Toda esfuziante, balançando as cadeiras...
ELA - Com isso chamei sua atenção, não foi?
ELE - Prestei mais atenção ao seguimento. Quando você... passou a balançar a mesa.
ELA - Depois, parece que houve um bilhetinho seu.
ELE - Um bilhete que não chegou até você. Culpa do garçom.
ELA - O Hermes como mensageiro é das arábias.
ELE - De pra lá de Marrakesh. O homem transforma bilhete em ordem de serviço. No caso, um prato de batatas fritas para a mesa 26.
ELA - Criou algum caso, por isso?
ELE - No caso: não!
ELA - Ainda bem. Pois o Hermes como garçom até que passa...
ELE - Ao largo.
ELA - Naquela noite, o pobre do Hermes atendia sozinho...
ELE - E com o pé preso num engradado de cerveja, eu vi bem. Mas, diabos, por que ele não se soltava? Só assim ele podia ir num pé e voltar no outro.
ELA - Você sempre busca um pé. Agora, voltando a mim...
ELE - À vaca fria.
ELA - Se... e quando estão me paquerando, eu aplico os cinco sentidos, o sexto...
ELE - O bissexto.
ELA - Também. Mas com o bissexto sentido você se impacientou. Aí, decidiu jogar baixo.
ELE - Eu joguei baixo?
ELA - Aquelas boleadeiras... em minhas pernas.
ELE - Uma rês desgarrada.
ELA - Eu nunca fui uma rês desgarrada, "seu" gaúcho-de-imitação. Vinha voltando - felizmente, voltando - do toalete.
ELE - Desvencilhou-se das boleadeiras com a minha ajuda, reconheça.
ELA - "Seu" "brutamente"!
ELE - "Os fins justificam os meios" - truquei.
ELA - "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" - retruquei.
ELE - Ei! Tínhamos, então, algo em comum.
ELA - Sim. Éramos leitores de "O Pequeno Príncipe", de Maquiavel e...
ELE - Saint-Ex.
ELA - Perguntei seu signo.
ELE - Capricórnio.
ELA - Perguntei sabendo. Capricorniano quando não é na marra, é na marrada.
ELE - Depois, batemos aquele papo noite adentro. Com o passar das horas, minha imagem foi melhorando...
ELA - É. Melhorou.
ELE - Expliquei-lhe que, vez por outra, tenho defeito no botão de vertical.
ELA - O defeito, a meu ver, é no botão de saturação.
ELE - E... naquela noite, que mais seu "defeitômetro" encontrou "ni mim"?
ELA - Alcoolismo em alto grau.
ELE - Como assim? Bebo assim?
ELA - Não largava a garrafa um instante.
ELE - Nem podia. Era a garrafa da drenagem pleural.
ELA - Desfeitos os equívocos...
ELE - Aparadas as arestas...
ELA - Acertamos que nos encontraríamos, novamente. No tempo do caju.
ELE - No tempo do caju em ponto, mas você faltou.
ELA - Qual é, cara?! Você também não compareceu.
ELE - Calculei que quando eu fosse aos cajus, você já teria vindo das castanhas.
ELA - Eu, idem. Não é gozado?
ELE - Mas... veja. De novo, eles estão de vez...
ELA - Sim. E que bom que você fosse...
ELE - Eu...
ELA - De vez, cara!

sábado, 29 de dezembro de 2007

AUTO-ENTREVISTA

A vida te sorri?
Quando sorri é porque aprontou mais uma, porém recebe o troco em esgares. Figa! Querer eu quero verter as lágrimas da humana condição, mas sou um choramingas exigente. O ombro amigo, primeiríssimo, tem que ser impermeável. Já o lugar ao sol, o disputado lugar não é problema para mim. Há tempos venho me quentando nele embora o alvará esteja, com o perdão da gagá palavra, caduco. Porém, paciência, que ninguém é inamovível. Vissem o que, de uns tempos para cá, tem acontecido com a fonte da Praça da Lagoinha.
Te consideras um sonhador?
Tremendo. (E se estou figurando num pesadelo em 3D, botem tremendo nisso.) Entrementes, cheguei a uma terrível constatação. Até hoje não sei como reconhecer as fronteiras entre o sonho e o real. Mesmo porque, nelas, não há aduanas. Agora, por exemplo, estou sonhando ou (me) realizando? O tipo da circunstância em que um beliscão é esclarecedor. Contudo não me belisco. O enredo diz que eu sou um balão, desses bem inflados, e pra isso estou acordado, caras.
Dás veracidade aos horóscopos?
Há posicionamentos difíceis para quem não é astro. E sucede que eu não leio horóscopos. Primeiro, por superstição, e segundo, porque não quero bisar os erros do futuro. Mesmo assim respeito a "proficção" de astrólogo e estou que tudo é previsível - a posteriori. E horóscopos não são um engodo. A realidade subseqüente é que ardilosamente subverte os fatos, inclusive os catastróficos. Daí a confusão.
És um "animal político"?
O adjetivo "político" não cabe no degas aqui. Considero esta senhora, a política, uma grega. Uma hidra-de-sete-cabeças, todas elas desidratadas. Um cão - aqui se valendo da imagem chula - que, fora de si, tenta devorar a si próprio começando o empreendimento pelo rabo. Ninguém sabe como termina. Um animal cotó que atende pelo nome de Peri? Prosaico demais. Um cão que a torpe autofagia o imobilizou com a boca já nas ilhargas? Outro cão, au-autoplástico, mas com o estômago cheio? Ou, enfim, o cão virtual? Este, por ser virtual, não ladrará nem morderá, e terá seu uso doméstico recomendado pelo sindicato dos ladrões. É mesmo um impasse de cão. Por isso, às vezes, saio do meu moderado e penso sobre me alistar na guerrilha nacional. Mas eles pagam tão mal.
Amas a "mãe gentil"?
Sim, com a restrição seguinte: é um amor não correspondido. A carta de boas intenções (a propósito, verificar de que o inferno está cheio) é interceptada, sempre, pelo senhor Jacques de Larosière, a tal com quem ela vive de papel passado em Nova Iorque. E o apátrida senhor, que acumula o cargo de diretor-gerente do FMI, sobretudo trata mal a pobre da "mãe gentil". A pão de Jó. Como alternativa, mandar a correspondência para Brasília D.F., seu endereço anterior, também não funciona. Só vai provocar risos nos de lá. "Leitão, lê mais esta." "É boa hi, hi, hi..." Por falar em leitão, o Brasil como se parece com o pernil de um. Especialmente quando visto do hemisfério norte. Bom apetite, louros rapazes (rapaces?).

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

CAPA E ILUSTRAÇÕES

Na fase de organização de Criações, um dos problemas a resolver foi ilustrar o livro. Não sendo um artista gráfico, tive que ficar atento a desenhos que pudessem ser usados com esta finalidade. Até que, folheando um exemplar da revista Planeta, encontrei um material que considerei adequado. Era um artigo, com o nome "problemas de Tangram", que trazia umas silhuetas interessantes.
De origem chinesa, o Tangram consiste num jogo de sete peças geométricas (triângulos de tamanhos diferentes, quadrado e paralelogramo) com as quais se obtêm figuras. Existindo uma boa amostragem delas na revista, selecionei aquelas que apresentavam características “humanas”. E fui, intuitivamente, relacionando cada uma delas com a “personalidade” de cada participante de Criações.

Desse modo, no processo de ilustração do livro, utilizei dez figuras de Tangram: uma para a capa de Criações e as demais para os nove capítulos do livro.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

ABAS DO LIVRO

DALGIMAR MENEZES
Professor da Anatomia Patológica da UFC. Nascido a 9 de outubro de 1942, em Itapipoca, pipoca, oca. Hoje, sofre apenas o inevitável (e amanhã, quem sabe, nem isso). Romancista e poeta, eta. Escreveu Os Dias e as Noites de Dionísio de Pedregosa (romance) e Em Busca de Poesia. Mais: participou das antologias Encontram-se e Temos um Pouco, com textos antológicos, lógicos.
EMANUEL CARVALHO
Cirurgião cardiovascular, 35 anos, natural de Piripiri – Piauí. Andanças poéticas em VerDeVersos, Encontram-se e Temos um Pouco. E andanças musicais com Belchior e Jorge Mello, seu irmão. Terra, mar & ar. Terra & mar. Terra: Sinara.
GERALDO BEZERRA
Obstetra, 36 anos, nascido em Jaguaribe – Ceará. Publicou recentemente Magazine GB, livro de crônicas, poemas e humorismo. Letrista de músicas, é quem enluara a viola de José Carlos Albuquerque, também médico. GB, flumíneo GB. Guardião dos seixos do rio Jaguaribe.
HAMILTON MONTEIRO
Professor de Histologia da UFC, aposentado. Histo e aquilo: poeta. Estreou em Temos um Pouco. Lira dos sessent’anos desafiando os ventos do entardecer.
HUGO BARROS
Psiquiatra. Visão escrachada da vida. Com Ida (leiam neste livro), contista laureado. O prêmio: uma passagem para Pasárgada – só de ida. HB também colaborou com O Saco (não genesicamente).
LUIZ TEIXEIRA
Homeopata, 41 anos, autor do ensaio A Dialética da Doença (144 páginas, Nação Cariri Editora). Aprendeu com Maiakovski que “é melhor morrer de vodka (e de caipirovska, por que não?) do que de tédio”. LT só se lança ao trabalho (poético) quando sente nitidamente o mandato social (confiram, confiram). E é pai de Virna, que fez a seleção de seus poemas para esta antologia.
PAULO GURGEL
Pneumologista, 33... perdão, 37 anos, natural de Fortaleza. É ledor de Woody Allen, mas não aceita o avassalamento (Louracap não é Manhattan!). Textos publicados em VerDeVersos, Encontram-se, MultiContos, A Nova Literatura Brasileira (Shogun Arte – RJ) e Temos um Pouco. PG, impagável PG. Tê-lo-ão também aqui, em Criações, onde faz inclusive uma auto-entrevista, a segunda de sua carreira (a prova de que tem autocrítica ou do contrário?). É, no mano a mano com Emanuel Carvalho, um dos promotores das edições CMC (com o merchandising nesta contracapa). E, agora, por haver escrito estas “orelhas”, virou “polibiógrafo”.
PEDRO HENRIQUE
Proctologista. Professor da UFC. Em Medicina, diversos livros publicados (Câncer nos Cólons e no Reto foi escolhido o Livro do Ano de 1986, na área científica, pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará). E, em Poesia: 12 Poemas em Inglês, Ilha da Canção, Concretemas e Poeróticos. Apóstolo do verso e do anverso, Pedro não é pedra. É tijolo (mesmo e outros aspectos). “Tijolo com tijolo, num desenho mágico.” E;;;
SÉRGIO MACEDO
Cardiologista do Hospital de Messejana (INAMPS), onde pilota um submarino da classe UTI. Poeta estreante em Encontram-se. “Vive o corpo e vive a alma.”

domingo, 23 de dezembro de 2007

CRIAÇÕES

Antologia de prosa e poesia publicada sob os auspícios do Centro Médico Cearense (gestão Dr. Lino Holanda) e da Sobrames - Regional do Ceará, em 1986.
Autores: Dalgimar Meneses, Emanuel Carvalho (Produção), Geraldo Bezerra, Hamilton Monteiro, Hugo Barros, Luiz Teixeira, Paulo Gurgel (Produção, Planejamento Gráfico e Revisão), Pedro Henrique, Sérgio Macedo.
Apresentação ("orelhas"): Paulo Gurgel.
Composição: Maurício.
Diagramação, Montagem e Arte-Finalização: Danilo.
Fotolitos e Impressão: Gráfica do CMC.
Livro com 104 páginas.

Observações:
Os 1000 exemplares desta obra foram impressos nas dependências do CMC, numa gráfica ainda inexperiente em impressão de livros.
Utilizei para fazer a capa e as ilustrações do livro dez figuras do Tangram (revista Planeta).

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

ON THE ROCKS

OS GERÚNDIOS ESTÃO FLORINDO

"Piedade para nós que exploramos as fronteiras do irreal."
Apollinaire, por aí...

Mais uma noite de insânia! A dormência no cérebro é Tânta-lo que eu começo a suspeitar daquele xampu: abrasivo demais! E não é só a dormência, minhas pálpebras estão pesadas, pesadeladas... Nossa minha! Serei outra vez importunado pelo monstro do lago Ness ou, pior, pelo que habita o pélago Ness. Espero que não.
Vi em sonho, noite próxima passada, três cavaleiros. O primeiro, Calígula, montado em seu Incitatus, o segundo, Ricardo III, num equídeo que trocara pelo reino, e o terceiro, Napoleão, em seu famoso cavalo branco; traziam um quarto cavalo, selado e arreado, que me ofereceram dizendo:
- Vamos. O apocalipse é logo ali.
Não fui. Amedrontológico. Sou contra a mega-morte e, especialmente, contra a mea-morte. Em luta pessoal, enfrento num cabo-de-guerra as três parcas e, com o fio resgatado, vou tecendo a trama e a urdidura de minha vida. Bravura? Bravatura? Tanto faz, um dia tro
peço e ganho a eternidade. Ou a éter-nulidade, tanto faz.
Por vezes me-inter-rogo: Se Deus é brasileiro tudo é permitido? Inclusive o que não está na pauta, o despautério? Por que falta Solidariedade entre os sindicatos? De tijolo e não tijolo faz-se um bom m_r_? Toda a filosofia do mundo está em Filadélfia e Sófia? Se não, ondes afinais? Coisas assim e assim coisas.
Circunvoluções cerebrais, me deixais tonto. Mais desvãos, mais desvarios - são as ironias da mente. Por isso é que loucura não tem mesmo (o que está em negrito). Ou terá... no dia em que eu for pó, aspiração que transcende a ser empoado. É... aqueles que queimam seus navios morrerão de afogadilho enquanto eu, queimando meus pavios, o farei de trocadilho. Não mais.
Se, ao menos, eu estivesse agora na penumbra de um, digamos, penumbar... Ab-sinto muito, não estou. Não urna not urna em que guardar meus sonhos, meus sonhos mais risículos. E a lua, essa big sister que controla loucos e lobisomens, es-vai-se. Fu, lua fugente, fu. A ti as quatro pedras da mão.
Sorte, já é dia. O sol desponta e, meio sobre o solerte, começa a focinhar varais, canteiros e parapeitos. Subo ao mirad'ouro. Eu já vi este arreball antes, mas fico até o fim desse jogo. O sol, qualquer sol, é inexorável. (Que dirá este um, nascido sem manchas?) E ei-lo, inexorável (como já disse), em seu afã de dourar a pílula de um novo dia.

Lá fora, os gerúndios estão florindo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

CREME BÁRBARO

Sou de um país onde os carros enferrujam, as lâmpadas queimam, os relógios dão defeito e as bonecas perdem a fala. A bem da verdade, diga-se: estes incidentes também acontecem no resto do mundo; mas, com a saliência que se vê entre nós? Aqui, o usufruto de um bem qualquer chega a ser virtual. Compramos algo e rezamos para que dure um terço do que foi garantido. No atendimento das multiformes necessidades de homem, que se quer atual, o brasileiro é um desprotegido. E, como somos uns anestesiados, raro chiamos. No Brasil, nem asmático chia... quando se demora na fila da Previdência.
Neste ponto começa minha triste sina. Há oito meses, quando eu comprei uma lata de barbear Bozzano, uma marca de creme por mim nunca dantes usada. No início, dia após dia, com pequenos toques na válvula da lata eu punha a espuma na face, sem saber o que a sorte me reservara. Foi quando notei o fim de meu perturbador extrato de almíscar selvagem, que eu vinha usando à razão de uma gota/orelha/dia. Ora, se o extrato (em que pese o meu zelo econômico) se acabara, como então entender o creme de barbear que, comprado na mesma ocasião, ainda estava me oferecendo a cada vez mais generosa espuma? Só se eu estava diante de um bem de consumo anômalo, por assim dizer. Fiquei perplexo e tomado de uma ansiedade progressiva.
Eu que fazia apenas a barba, passei também a raspar o bigode (para acabar mais rapidamente com o creme de barbear). Primeira advertência da namorada. Aí, decidi que, no serviço diário de barba e bigode, também retiraria as costeletas. Segunda advertência da namorada. Depois, passaria a usar o creme em outras regiões pilosas do corpo... Não, eu não coloquei em prática a idéia. Junto com a terceira advertência, a namorada certamente faria a temível greve dos joelhos colados.
Em deliberação seguinte, pedi ajuda a Lula, o Metalúrgico. Enviei-lhe uma mui alvissareira epístola, na qual explicava como ele conseguiria, aqui no Ceará, dobrar a votação de seu partido. Com o meu voto em 86, desde que meu líder viesse passar uma temporada em minha residência, servindo-se à vontade do creme de barbear. A resposta veio desanimadora, naquele estilo telegráfico de que Lula tanto gosta: CARO GURGEL PT PT USO BARBA POSTIÇA MAS NÃO ESPALHE PT TENTE MIELE PT.
Enquanto tentasse soluções meramente cosméticas, raciocinei, eu não conseguiria nunca dissipar o infindável creme. Talvez porque houvesse, na calada da noite, alguém injetando creme novo no vasilhame, por isso o conteúdo não tinha mais fim. Três noites seguidas montei guarda no úmido banheiro, e não vi duendes. Também botei outro creme de barbear, seu igual, no armário embutido do banheiro, para ver se ele entendia a indireta. E a criaturinha da Bozzano, necas. Vai ver eu adquirira a cornucópia da fortuna, disfarçada em lata de creme de barbear.
Uma fera fascista ciciou dentro de mim: jogue fora a lata de creme, e fim da ansiedade! Pensamento seguinte, me vi meio desfalecido numa montanha de creme de barbear. Cães São Bernardo em caravana passavam por mim, surdos e indiferentes a meus “relpes”. Um só de mim se aproximou, mas ao abrir a salvadora torneirinha de seu barril o que constatei: mais creme de barbear. Depilo-me, quero dizer, pelo-me... de medo somente em pensar que posso vir a ter esses pavores noturnos. Não, eu não vou resolver minha ansiedade com um ato de ingratidão.
Meu lenitivo, nessas horas difíceis, é saber que tudo é passageiro. Aliás, tudo menos o motorista, o trocador e, obviamente, o meu creme de barbear.

Cartum feito pelo colega Ricardo Augusto, um dos autores do livro.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

TUDO-NADA

UM DIA ATRÁS DO OUTRO EU SIGO PERGUNTANDO
Por que não se comemora o dia do dia-a-dia?
(T) (1) (2) (3) (4) (5)
Ah, esses ascensoristas. Nunca têm troco.
MANIFESTO DIVÍDUO
Siameses de todo o mundo, separai-vos.
PORQUE A CARNE SECA TEM A FORMA QUE TEM
Com o que tem de gente gorda por cima dela.
GOVERNO PROMETE ÁGUA FARTA E BARATA PARA TODOS
Fabricantes de gelo discordam e dizem que vão endurecer.
EMPRESA PROJETADA PARA FUNCIONAR NO VERMELHO
Uma loja especializada em atendimento aos cleptomaníacos.
OPINIÃO SOBRE A POLÍTICA
É a convivência dos contrários, o contrário das convivências. sei lá.
SOBRE AS PESSOAS EM GERAL
Deveriam se despojar de tantos inúteis envoltórios. Olhai os sabonetes dos motéis...
MU-TRETA
No Brasil o leite só baixa quando a vaca se deita.
E OS QUE SE APROXIMEM DA MESA DE FESTIM
Serão recebidos por tiros não necessariamente de festim.
NÃO POSSO, NÃO DEVO, NÃO QUERO
Perder o controle - - - - - - - - - - remoto da situação.
ORIENTE-SE, RAPAZ. OU NÃO
O homem oriental reparte as coisas em yin e yang; o homem ocidental, em in e out.
PARA BAIXO TODO SANTO AJUDA
Para cima é um deus nos acuda.
QUANDO A LUA MÍNGUA
Não se pode exigir o dragão de corpo inteiro.
NUMA GALHOFEIRA
Aceita dançar esta valsa comigo enquanto a orquestra não chega?
PERCORRO O DICIONÁRIO DE CECA A MECA
E descubro a mais feminina das palavras: espera.
O PARVO TEM CURA
Embora isso leve uma vida e meia.
VOCÊ DARIA SUA MÃO A ALGUÉM EM DIFICULDADES?
E se esse alguém estiver numa cadeira elétrica?
NO COMEÇO TUDO SÃO FLORES
No fim a florista manda a conta.
AFINAL
Quem é esse tal gongo que vive salvando tanta gente?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

UM PARAFUSO DE MENOS

Esta semana surgiu um defeito no meu carro 1495 km: uma das portas emperrando. Ao investigar a causa do emperramento encontrei - meu olho mecânico encontrou - que, quando ia abrir ou fechar a porta, a fechadura patinava, e isto porque um de seus dois parafusos de sustentação havia caído. Era um parafuso omisso o causador do problema inteiro, portanto.
Levei o veículo a uma das concessionárias do fabricante. Lá, após uma distraída consulta num maçudo catálogo de autopeças, o funcionário me despachou com um "tem mas está faltando". (O parafuso que eu procurava - cabe aqui um esclarecimento - era daqueles que têm na cabeça, chata, os sulcos em cruz.)
Continuei minha "via parafuso crucis". Fui a uma segunda concessionária onde, novamente, ouvi o "tem mas está faltando", desta vez acrescido de "o senhor poderá, em caráter de urgência, solicitar do fabricante em São Paulo". Porca miseria, teria exclamado um italiano na minha situação.
Fui a uma terceira. Nesta, também ouvi o sempiterno "tem mas está faltando", só que seguido desta "pérola" da solucionática: "o senhor deixa o carro na oficina que o problema passa a ser dos mecânicos, aí eles têm que dar um jeito". Ora, depois de peregrinar por Ceca, Meca e Olivais de Santarém, queimando hidrocarboneto, ainda ter de deixar o carro no estaleiro, por causa de um único parafuso, me paraceu um desaforo. E desaforo eu não levo para casa, principalmente a pé. Vão todos para Caixa-Pregos ou, melhor, para Caixa-Parafusos.
Já estava meio conformado a circular "pelaí" com um parafuso de menos (no carro, leitor) quando, a caminho de casa, deparei com um ponto de revenda de autopeças, desses que sobrevivem à margem do sistema. Tinha o estabelecimento comercial a aparência de uma birosca. Birosca? Não, retiro esta palavra que alguém pode confundir com bi-rosca, o papo já está por demais metalúrgico.
O fato é que eu dei uma paradinha lá. O moço que me atendeu, embora não dispondo no estabelecimento de um parafuso com a especificação já descrita, interessou-se em resolver o meu problema, eis a diferença. Localizou, em suas gavetas, um parafuso diferente do tipo que eu procurava, mas que cabia perfeitamente no lugar onde, antes, estava o relapso do parafuso original. Problema resolvido.
Ao final, perguntado pelo preço do parafuso (com o serviço incluído) o moço, com cara de muito amigos, respondeu-me: "que é isso, doutor?". Ah, enquanto ele parafusava... eu também fazia o mesmo, só que, em meu caso, o verbo parafusar está sendo empregado como sinônimo de meditar (confiram num dicionário de bom calibre).
Parafusava que, por esta e por outras, até o fim deste século ou deste milênio (o que acontecer primeiro), eu estarei que... pequeno é bonito. Tinha razão o gringo do small is beautiful.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

AVE, AVESTRUZ

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PARA OS ANIMAIS SUBTERRÂNEOS
O AVESTRUZ É QUEM MELHOR ENCARA A REALIDADE.

AUTO-ENTREVISTA

Quem és?
Um estraga-prazer que se regenerou. Agora sou um desmancha-prazer. O que significa dizer que atiro pedras no telhado do vizinho, se isto me dá na telha. Repudio a desumanidade de certas gentes que são capazes de enterrar uma toupeira vivinha. E não sou covarde (já me viram numa altercação ao telefone?), apenas tenho um instinto de sobrevivência acima da média. Sei pouco. Mas sei que Sócrates nada sabia. Ei, que direção devo tomar? Respondam-me rápido pois preciso ligar a sinaleira. Sic transit gloria mundi. Ou, como diz o outro, a glória do mundo está no trânsito.
Crês no sobrenatural?
Sobrenaturalmente. Nas horas difíceis - não há exceção - a gente tem que contar com uma força do alto. Reciprocamente. Por isso, sou devoto da Santa Ceia. Se quero ter o corpo fechado não invoco São Sebastião das Flechas, assim por diante. Vejo em tudo o dedo do Senhor (o fura-bolos, presumo). Nostradamus tem um alto índice de acertos, concordo, mas não é cosa nostra. Eu, sim, sou contrafeta em minha terra. Contrafetizo tudo. Ah, pobres e ricos, no final Deus passa a morte-niveladora.
Que pensas do amor?
Amor faz palíndromo com Roma. Em Roma, como as romanas (em conformidade com o adágio, modificado). Nossa mútua atração, dona, aumentaria muito se usássemos, dona, potentes ímãs nos bolsos. Enjoos de terra firme, tive-os sim. Mas não de navegar - sob bandeira liberiana - o corpo da mulher amada. Ah, no dia em que me queiras a paixão será do tipo vulcânico-piramidal... Mas, agora que faço. Amo Ana Luísa e Ana Maria, e por elas sou amado. Ana Luísa, à minha esquerda, mais perto do coração, leva palpitante vantagem. Comodista que sou.
Que achas da presente conjuntura?
Nem tudo anda caro, há o conquistador barato. Como medida desinflacionária o governo retirou o IPI da cachaça. Agora é bota uma OCA aí. Já o pão nosso de cada dia está cada dia menos codeúdo. Cruzeiro novo, cruzeiro atual... qual será a próxima embromação tecnocrática? Até lá, e depois, convém preferir o cruzeiro marítimo. Se a empresa em que trabalha faliu, a culpa, por certo, é da sociedade dita anônima. Quem sabe você logo arranja novo emprego, o de botar a cabeça na boca do leão. A hora não é de perder a cabeça, portanto. E quebremos os pratos. Os pratos são uma invenção da fome. Sim, temos fome uns dos outros, mas tirem os dentes da minha perna.
Vislumbras saída para a crise?
Estás me perguntando se vejo? Sim, uma que se acha completamente tomada pela multidão em pânico. A alternativa é sair pela entrada, onde o pisoteio é menor. Afinal não somos uvas. Toda a lenha que não dá bom fogo será reintegrada à árvore, a fim de que esta dê bons frutos. Quero dizer, para ver se... Ó meu, mas com essa catrevagem humana que aí está no poder, terminará meu povo todo ralado. Feito coco de feira. Difícil, muito difícil suportar no corpo tantas sanguessugas colocadas, o que é pior, sob prescrição médica.